quarta-feira, outubro 10, 2018

Uma quase carta

Boa noite, ...!

            Você perguntou pelo meu filho, o Bernardo, e eu não respondi. Ele está bem! No próximo sábado, dia 13, completará um mês. Este primeiro mês foi bastante difícil. Muitas adaptações – para ele e, principalmente, para mim e para a Liana. Mas, estamos indo. Acredito que o pior já passou. Ele chegou a ficar dez dias internado. Estava com uma dificuldade inicial em mamar. Aprendeu, entretanto, e agora o rapaz está crescendo e ganhando peso. 

            Foi colocado por você que não deseja “discutir política”. Entretanto, não há como tentar estabelecer um colóquio sem que o tema não venha à tona. Vou tentar colocar em tópicos para facilitar a compreensão. Claro, tudo aquilo que eu colocar aqui, é resultado de minha percepção – e, principalmente, de minhas limitações. Respeito o seu ponto de vista. O grande desafio da democracia é justamente o convívio, a relação na diversidade.

(1)  Por que o ódio PT?

O PT é um partido que surgiu dos movimentos populares. Possui uma história, pois. Nos quase quarenta anos de sua história, sempre foi alvo de muita polêmica. O partido conseguiu construir uma base bastante forte. Durante muito tempo, milhões de brasileiros desejaram que o PT chegasse ao poder máximo do país, a Presidência da República. A primeira tentativa se deu no ano de 1989. Na ocasião, Lula perdeu a eleição para Fernando Collor. Houve duas outras tentativas – 1994 e 1998 – com duas outras derrotas. Em 2002, após todo um período de desengano e melancolia política com o governo do PSDB, o PT chegou ao poder. Acontece uma repaginação do partido. Lula assumiu um discurso mais econômico e pacífico. Para governar, fez aliança com uma quantidade considerável de partidos. Formou um governo de coalizão. Distribuiu cargos aos aliados como uma contraprestação política. 

            Em 2005, ocorre o primeiro escândalo, o do Mensalão, como ficou conhecido. O governo foi colocado contra a parede. Todavia, Lula foi reeleito em 2006. No segundo mandato, o governo petista conseguiu seu melhor momento.  O país cresceu. A economia decolou. Os trabalhadores passaram a perceber um cenário positivo. Lula saiu do governo em 2010, com mais de 80% de aprovação, um feito realmente extraordinário. Tanto é assim, que ele conseguiu colocar a Dilma no seu lugar. Ela começou bem. Até 2012, tinha índices de aprovação acima dos 60%. A partir de 2013, as coisas começaram a perder o compasso. Com as manifestações de julho daquela ano, o governo passou para o campo defensivo. 

            A mídia passou a veicular sistematicamente reportagens que associavam o governo à corrupção. Todos os problemas do país foram direcionados ao PT. Em 2012, surge a Operação Lava Jato, que, segundo seus capituladores, é uma operação apartidária. Mas, notou-se um objetivo: as figuras do PT, tendo no seu principal nome, Lula, a seta direcionada. Observe-se que o partido que tinha/tem o maior número de nomes implicados na operação é o PP, mas ficou a noção de que era o PT. Associaram o nome do PT como de um partido corrupto, de ladrões. 

            Ora, a repetição de uma sentença e a aplicação do significado dessa sentença como sendo a verdade, passa a ter efeitos extraordinários. Isso já aconteceu em alguns momentos da história. O exemplo mais claro é o que Hitler fez com os judeus durante a Segunda Guerra. Naquele contexto, a Alemanha estava esfacelada por causa da Primeira Guerra e o Tratado de Versalhes. Havia crise, fome, desemprego; caos econômico, incertezas, medo. O astuto Hitler entendeu que nesses momentos você precisa criar uma narrativa e direcioná-la para um alvo. Hitler direcionou o seu discurso para as minorias - ciganos, comunistas, judeus, homossexuais, etc. É a lógica do “nós”, os injustiçados e sofredores e, “eles, os algozes, os autores de nossa crise. 

            Em 2014, a reeleição agravou a crise, pois, a partir dali, houve uma militância severa contra o PT. A destituição de Dilma, em 2016, foi outro momento complexo. Vale lembrar que 2016 foi o ano dos panelaços. Havia uma mesma fala que ia das crianças de colo aos anciãos: de que o PT era um partido de corruptos e ladrões. O Jornal Nacional, por exemplo, colocava reportagens de uma hora contra o partido, conectando a imagem do partido à corrupção. Era como se não houvesse nada de bom no PT. Nesse ínterim, chega ao poder Michel Temer, uma figura que não conseguiu nenhuma legitimidade: (1) por ter o seu governo associado a um impeachment duvidoso. Ficou claro que se tratou de um golpe, apesar de ter seguido o fluxo constitucional. A Constituição foi apenas um objeto que vestiu o feito de legalidade. Observe que os cristãos queimaram pessoas na Idade Média usando a Bíblia; ou que a mesma Bíblia foi usada para legitimar a superioridade de brancos sobre negros nos Estados Unidos. E, nem por isso, esses acontecimentos podem se dizer cristãos. Da mesma forma, o impeachment seguiu o rito constitucional, mas não havia base constitucional por não haver crime de responsabilidade. (2) destituíram a Dilma com a alegação de que era preciso acabar com a corrupção, todavia, os escândalos de corrupção continuaram a existir. Havia indícios claros de que o governo Temer era bem pior do que aquele suposto governo corrupto do PT. A mídia foi até complacente com Temer. Não houve um bombardeio como houve com o PT. Vemos, assim, a seletividade da mídia brasileira. 

            Vale mencionar que o trabalho da mídia serviu para esvaziar o debate político. Tanto a mídia como as figuras do Judiciário trabalharam para criminalizar a política. O cidadão comum não via mais motivos para acreditar na política e nos políticos. A boa política, aquela que estabelece o debate, que discute ideias, foi varrida do mapa. A sociedade não conseguiu mais dinamizá-la. O cenário era de completa feiura. De repente, passamos a enfrentar a crise econômica que agravou ainda mais o cenário. A política foi contaminada. Jogou-se toda a culpa no colo do PT.  Ora, raciocinemos, se o governo do país estava nas mãos do PT e todos os escândalos estavam associados ao PT, é natural que o ódio tenha um direcionamento. Atualmente, as pessoas não querem nem ouvir falar no nome do partido. Associam-no ao que de mais deplorável há no país; que estamos nessa situação de crise econômica, política e moral por causa do partido. 

(2) A quem interessava a saída do PT?

Some-se a isso que o PT foi tolerado pelas elites do poder, enquanto foi conveniente. A sociedade brasileira sempre foi adepta de teorias conspiratórias. Sempre houve “a crendice” de que há uma iminente ameaça de invasão comunista. Essa foi uma das desculpas utilizadas para sustentar a Ditadura Militar. De tempos em tempos isso acontece. Em momentos de crises, quando o medo, a insegurança, passam a funcionar como motores, esse fantasma aparece.  

Para princípio de conversa, o PT não é um partido socialista ou comunista. Ele é, no máximo, um partido com ideias que assentam numa preocupação com causas sociais por causa de sua origem. Isso é verdade pelo fato de o partido ter ficado treze anos no poder, sem que o Brasil tenha se transformado numa Coreia do Norte. Muito pelo contrário, foi um período de forte lucro para os capitalistas. A saída do PT foi desejada pelos grupos que mandam no país. Não se aceitou o resultado das urnas em 2014. O povo escolheu, mas o que é um povo, em um país em que o regime democrático é apenas um detalhe? Queriam apenas continuar lucrando facilmente sem que houvesse qualquer empecilho, qualquer muro, obstáculo.

(3) O PT é inocente?

            Certamente, que essa resposta é “não”. Ao fazer um governo de coalizão, o partido se abriu para as negociatas. Nomeou gente de todo tipo. Essas alianças fugiram ao controle do partido. Fazer política não é um negócio fácil. Exige exposição. Conversa. Diálogo. Exige que se sente com adversários pouco lisonjeáveis. Com figuras interesseiras. Com pessoas que não possuem compromisso ético; que desejam apenas benefício, sem qualquer preocupação ética. Enquanto era oposição, partido possuía um discurso. Com a ida para a situação, teve que refrear o discurso. 

             Vale mencionar, que em nome da governabilidade, o partido se expôs de maneira não detida. Não mediu consequências. Associou-se com o que há de pior na política brasileira e foram essas alianças que contaminaram o partido. É preciso que ele faça uma mea culpa, uma espécie de exame de consciência. 

(4) Por que não voto em Bolsonaro ou por que ele seria “um mau presidente”? 

            Primeiro é importante dizer que, com relação ao futuro, nós precisamos resgatar os fatos do passado. É nesse paradoxo que podemos conjecturar ou fazer análises.
            Bolsonaro já mostrou ao longo de sua história que é uma figura uma tanto quanto duvidosa. É um “politiqueiro” de carteirinha, daqueles que fazem carreira na política, sem qualquer compromisso com o país. Ao longo dos seus 28 anos no Congresso, possui um péssimo repertório de contribuições ao povo que paga o seu salário. Sempre que a imagem dele vem à minha mente, comparo-o ao Golum, aquele personagem do Senhor dos Anéis, uma criatura medíocre que foi enfeitiçada pelo poder e se tornou um ser digno de pena, completamente desumanizado. Ao longo de gerações, a triste e bizarra criatura viveu escondida no ventre de cavernas afastadas, alimentando-se de comida crua, vivendo única e exclusivamente para o anel que o enfeitiçava e transformava a sua personalidade cada vez mais despersonalizada. Penso que há uma relação muito curiosa entre essa imagem e a do candidato do PSL. Ele ficou durante muito tempo escondido, alimentando-se do poder. Colocou os seus filhos na política. De modo que aqueles que o comparam a um exemplo na política, talvez se esqueçam de que ele se assemelha a qualquer dessas oligarquias familiares – Sarneys, Barbalhos, Maias, Magalhães, Calheiros etc. E outra: Bolsonaro não seria ninguém se o país passasse por um momento de tranquilidade democrática. Ele se alimenta da crise e sabe isso.

            Saindo do campo da literatura e entrando no chão da história, é preciso afirmar que Bolsonaro é uma figura que construiu a sua carreira na política colecionando bravatas. Ele representa o valentão. Aquele que não tem medo de nada. O machão. Aquele sujeito destemido, masculinizado, e que ajuda a criar um imaginário beligerante na cabeça do brasileiro médio que convive com a ineficácia da justiça e com os escancarados escândalos de corrupção. Há no brasileiro médio um desejo de fazer justiça com as próprias mãos pelo fato de a justiça do Estado não fazê-lo. Afinal, ele grita muito porque não tem ideias. Literalmente, ele ganha no grito. Sempre colecionou polêmicas, pelo fato de ter uma inteligência (quando me refiro a inteligência, faço-o em sentido lato – emocional, política etc) questionável. Nota-se o seu completo despreparo. 

            Mas por que ele faz tanto sucesso, por que ele é uma unanimidade? (a) como falei acima, estamos em um momento de desalento, de completa descrença na política ou “na velha política”. As pessoas enxergam nele, a solução amarga para um crise que parece que não tem fim. (b) A crise econômica levou muitos brasileiros a desejarem uma mudança. Aquele modelo, entendem, defendido pelos governos anteriores não serve mais. Deseja-se que haja privatizações; que o Estado “diminua” (uma palavra que encerra alguns sentidos velados); o mercado assuma a dianteira do país. (c) os escândalos de corrupção revelaram uma face intolerável. Sendo assim, é preciso que surja alguém para colocar ordem “na casa”. Como Bolsonaro sempre vocalizou um discurso radical, histriônico, direto, viram nele a possibilidade de ele ser essa mudança. Se há violência, ele diz que o “cidadão de bem” não deve ficar na defensiva, mas partir para cima do ladrão. Que é preciso colocar armas na mão da população para que ela se defenda, confundido de maneira perigosa o que é segurança pública. É preciso diferenciar o que é a microviolência e a macroviolência. 

Sendo assim, é preciso chamar a atenção para algumas questões:

(a) Ao se escolher Bolsonaro, escolhe-se um candidato que já sinalizou ter pouca preocupação com o estado democrático de direitos. Um dos fundamentos do estado democrático são garantias dirigidas ao cidadão, radicadas no conceito de direitos humanos. É preciso considerar que todo ser humano é dotado de direitos e de garantias básicas – direito a vida, respeito à sua condição etc. Em um estado democrático, o fundamento que sustenta essa delicada teia é o respeito à singularidade do outro. Temos visto que algumas pessoas têm se sentido legitimadas, por causa do discurso ódio, a fazerem a coisas mais perigosas para o nosso equilíbrio social. Eu não voto em um candidato que diz que “bandido bom é bandido morto”. O bandido deve ser punido pela lei e não por mim. O Estado é a entidade que possui legitimidade para encabeçar juridicamente esse pleito.  Eu não voto em um candidato que vai ao estado do Acre e diz em um comício de forma irresponsável que era preciso “metralhar toda a petralhada do país”. Numa democracia, há limites para a minha fala. Nenhum direito é absoluto. O maior perigo é o efeito que isso causa nas massas. Isso pode ser visto, por exemplo, no filme “A onda”. Se não viu, veja-o e perceba o quanto determinados movimentos possuem um poder de coerção sobre as individualidades. Eu não voto em um candidato que afirma “que não estupra” determinada mulher, pelo fato de ele não merecer ser estuprada. Então há mulheres que merecem ser estupradas? Eu não voto em um candidato que afirma que teve “quatro filhos”, mas deu uma fraquejada e acabou vindo “uma mulher”. Eu não voto em um candidato que, quando perguntado sobre o que diria caso um dos seus filhos namorasse uma mulher negra e ele responde sem perturbações: “Eu eduquei muito bem os meus filhos”. 

(b) Bolsonaro é fruto de um momento. Assim foi também com Collor. Em 1989, aconteceu da mesma forma. Apareceu um jovem com uma linguagem sedutora, descolando-se “da velha política”. Dizia ele que acabaria com a corrupção, que caçaria “os marajás”. Que era preciso sumir com a bandeira “vermelha” do PT. Que a bandeira do país era “verde”, “amarela”, “branca” e “azul”. Seu partido inexpressivo, o PRN, elegeu mais de quarenta deputados o PSL elegeu 52, no último domino, um partido que elegera apenas um deputado em 2014. Collor foi um sucesso completo. Tratava-se de um jovem visionário, esportista, bonito, que falava bem, que possuía um discurso que sequestrou o coração da classe média. Todavia, suas medidas desastradas trouxeram grandes prejuízos para o país. A primeira medida econômica, quando assumiu, foi o confisco das poupanças. As pessoas não acreditaram. Na campanha, prometeu acabar com a inflação, mas, ao deixar o país, a inflação estava em mais de 1.200% ao ano. E o mais estarrecedor: o seu governo era alimentado com propinas, como ficou constatado naquilo que ficou conhecido como “Esquema PC”. Ou seja, esses eventos com figuras messiânicas e caricatas sempre redundam em desengano. 

(c) Do ponto de vista econômico, penso que mergulharemos o país numa crise medonha, trazendo consequências danosas para os mais pobres. Temos como “posto Ipiranga” no seu governo a figura de um banqueiro chamado Paulo Guedes, uma figura bastante controversa – assim como tivemos Zélia Cardoso de Melo durante o governo Collor. Muitas pessoas pensam que gerir um país é a mesma coisa que gerir uma empresa. Um país é diverso. Possui demandas mais complexas. Há pessoas necessitadas, pobres, que precisam de políticas públicas do Estado para terem uma dignidade mínima. Por exemplo, a maioria dos brasileiros não tem dinheiro para pagar saúde privada. A solução não é a privatização da saúde. Como se resolve a demanda da saúde? Investindo em saúde pública de qualidade. Como se resolve o problema da educação? Oferecendo uma educação de qualidade, com professores bem preparados e motivados. O grande problema desses economistas de mercado, como Paulo Guedes é que, para eles, os pobres, os desvalidos, aqueles que estão abaixo da linha de pobreza, não aparecem no orçamento. Eles se erguerão sozinhos, entendem. Bolsonaro e Paulo Guedes afirmaram que vão privatizar e fazer reformas que, certamente, vão acentuar as desigualdades nesse país. Eu, por exemplo, venho de uma família de pessoas humildes. Fiz o curso de Letras graças ao Prouni, criado pelo governo do PT. Estou empregado e exercendo a profissão de professor. E foi assim com milhões de pessoas que tiveram as suas vidas melhoradas. Graciliano Ramos diz “Memórias do Cárcere” que “quem dormiu no chão jamais deve esquecer essa experiência”. Eu já “dormi no chão” – tanto em sentido denotativo quanto em sentido conotativo – e não esqueço essa experiência. Sei de onde venho e entendo que é com políticas sociais sérias que a vida das pessoas passa por uma transformação. 

            É só raciocinar: se o sujeito já deixou claro que não tem nenhum compromisso com as palavras, que a sua personalidade é autoritária, que não possui nenhum autocontrole, quem prova que ele não jogará o país em um caos? 

Não peço para que você vote no PT, mas para que faça uma consideração profunda. O que está em jogo é o futuro da democracia no Brasil. Ela foi conquistada com muito esforço. Pessoas morreram, foram torturadas. A Constituição que temos trouxe uma série de avanços para o nosso país. É preciso respeitá-la. Defendê-la. Aqueles que amam o país precisam resistir. Não se muda um país com bravatas e falas autoritárias. É preciso que haja diálogo. Concessões. Esse é o grande desafio da democracia. É preciso respeitar o diferente e não impor a sua vontade à força.

terça-feira, outubro 09, 2018

Mangabeira Unger explica Bolsonaro

Perfeita a reflexão de Mangabeira Unger sobre Bolsonaro. Não gosto dessas propalações bobas, típicas de quem se curva a um culto bobo e subserviente. Mas, vale citar que Mangabeira é professor em Harvard e chegou a dar aulas para Obama. Mangabeira fala ainda sobre a importância do Estado, um dos alvos a serem completamente desmontados pela equipe do candidato do PSL, via Paulo Guedes.


domingo, outubro 07, 2018

De uma conversa via WhatApp


..., sua explicação faz sentido! Grande parte da esquerda pensa assim. Mas é preciso apontar  algumas coisas:

(1) Não sou cirista. Mas foi a primeira vez que votei para presidente em um candidato que não é do PT. Fiz com a faca entre os dentes e um peso enorme na consciência. Parece que eu estava cometendo um crime (risos!). Deve ser a consciência de classe! A minha relação com a história. Pensando por viés de coerência ideológica, todos deveríamos votar no Boulos, que apresenta uma pauta mais à esquerda e mais próxima das demandas dos trabalhadores. Mas, infelizmente, o PSOL ainda não é um partido de penetração popular. O PT é aquilo mais próximo do povo que conseguimos construir no campo progressista em 500 anos.  

(2) A campanha eleitoral de 2018 teve início logo após a de 2014. A vitória de Dilma foi tiro de misericórdia para a elite econômica e política do país. Eles sabiam que era preciso parar o PT. Neutralizar o governo Dilma e aniquilar o seu principal líder, Lula. Pelo transcorrer natural da história, Dilma sairia e Lula ganharia em 2018. Os donos do poder sabiam que isso aconteceria. Seria um processo para o qual não haveria freios. O golpe foi pensado com esse objetivo. Lula mesmo preso, tentou manter o PT na luta. Isso é legítimo, embora entenda que devesse haver apenas um candidato de esquerda em torno de uma coalizão. Lula deu um xeque-mate em Ciro, sem deixá-lo com muitas alternativas. Capturou as principais alianças. Recordo-me que Ciro recorreu até mesmo ao Centrão. Ainda bem que não deu certo. Ele pensava pragmaticamente,  mesmo sabendo o preço que pagaria caso fosse eleito. Não tendo muitas alternativas, formou uma chapa puro-sangue com a Kátia Abreu (um nome que causa arrepios nos eleitores da esquerda). Lembre-se de que, sendo do MDB de Temer, foi uma das mais aguerridas defensoras de Dilma durante o golpe. Isso a isenta das sinalizações políticas do passado? Não.  Todavia, é preciso olhar para ela com o pouco mais de parcimônia. 

(3) Ciro é um candidato para o qual muito esquerdista vira o rosto, mas, é uma alternativa no campo popular. Isso não pode ser negado. Não podemos dizer que Ciro está do lado de lá. Um dos graves erros do PT é entender que ele, somente ele, vocaliza as demandas da esquerda; que ele é a esquerda legítima. Essa estratégia apenas fortalece o lado oposto. Nesta eleição, por exemplo, a estratégia colocou o país em perigo, deixando-nos à mercê de um hitlerzinho medíocre dos trópicos chamado Jair Bolsonaro. 

(4) Ciro já foi ministro de Lula e já foi ministro de FHC. Atualmente, está no PDT de Brizolla, um dos sujeitos que mais entenderam as elites entreguistas do país. O PDT é um partido nacionalista. Possui incoerências como qualquer partido, mas possui um lastro histórico bastante respeitável. Se o discurso de Ciro não é arraigado no chão semântico daquilo que converge centralmente para a esquerda, o seu nacionalismo é autêntico. É preciso pensar numa liderança que consiga discernir a conjuntura sem paixões exacerbadas.

(5) Votei em Ciro, mas sei que o segundo turno será entre o Bozo e o Haddad. As chances do PT são imprecisas, mas a militância (e todos os democratas) precisa construir uma estratégia de luta para reverter a narrativa em torno da figura do candidato do PSL. É preciso apontar as incoerências, os blefes; o lodo que existe em torno de sua personalidade; o quanto um candidato como ele é pernicioso para os trabalhadores, para as mulheres, para os negros, quilombolas, para os gays etc. Bolsonaro é um fenômeno, e como todo fenômeno, há doses fortíssimas de psicologia em torno de dele. O fato dele não ter ido aos debates, ajudo-o a se fortalecer. No segundo turno, ele terá que comparecer aos debates e, acreditamos, que a sua mediocridade ficará exposta. Ele não poderá se esconder. Seja Ciro ou Haddad, vai ser preciso desconstruir a casca imantada que existe em torno dele; deixá-lo nu para que seja percebido o quanto é estúpido, boçal e um grande atraso civilizatório. 

quarta-feira, outubro 03, 2018

O perigoso flerte com o abismo, a conjuntura, a ignorância histórica e a suposta vitória de Bolsonaro

"A história se repete a primeira vez como tragédia e, a segunda, como farsa". Karl Marx. 

A eleição de 2018 aponta para um cenário dramático. Certamente, o que resultar das urnas, configurará uma situação de bastante dificuldade: (1) se ganhar Haddad ou Ciro, o cenário será de afirmação política, de luta; de enfrentamento do golpe de 2016 e seus reais resultados. (2) se ganha o candidato que representa o campo conservador, do atraso, o país será colocado num ambiente de retrocesso para os trabalhadores; de mergulho em um fosso profundo. Portanto, o momento que vivemos é de flerte com o abismo.

Muito se tem pensado e refletido sobre o fenômeno Bolsonaro. Primeiro é preciso entender que o fenômeno conservador acontece em nível internacional. Enxerga-se esse movimento em vários países europeus e, se afirmou ainda mais, com a eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos. Trata-se de uma crise central do capital, que, por sua vez, arrasta-se desde 2008. Não se deve ignorar que o contexto de crises acaba por levar a cenários de forte retração social. Esse tensionamento acaba por acirrar o que poderíamos chamar de "bloqueio ao diferente". Os supostos nacionalismos possuem uma pátina fortemente fascista.

No Brasil, desde 2013, nota-se o fortalecimento de uma narrativa que busca criminalizar a política, os direitos sociais e, principalmente, os movimentos à esquerda. No fundo, sempre existiu no Brasil uma espécie de "macartismo tupiniquim". Isso ficou velado durante os dois mandatos de Lula por conta do cenário econômico. Dilma não conseguiu dar continuidade ao lulismo. A bolha da tolerância estourou em 2013. Os movimentos iniciados com pretextos aparentemente difusos, acabaram por ganhar contundência e objetividade política. Foram direcionados ao governo. Vale lembrar que nesse período, tem início a Operação Lava Jato, que foi um dos principais planos para diluir o PT. Se o Mensalão não deu conta, a Lava Jato teve uma sistematicidade sincrônica. Ela mirou os principais quadros do Partido dos Trabalhadores. O alvo era Lula, o líder carismático e atemporal do Partido. 

Com a eleição de 2014, ficou mais evidente que, caso o PT ganhasse, não concluiria o governo. Havia uma conjuntura deletéria. Os representantes da elite (a mídia, o braço político, o judiciário, o financismo, o agronegócio etc) brasileira estavam a postos. Isso ficou claro com o golpe jurídico-parlamentar de 2016. Ali estava aparentemente consolidada uma estratégia dos poderosos do Brasil, que era tirar das mãos do PT o governo, nem que para isso passassem por cima da Constituição e liquidassem com as estruturas do estado democrático de direiro. 54 milhões de votos não representam nada para o grande capital. O objetivo foi consolidado com a subida de Temer ao poder. Todavia, Temer se mostrou fraco, inexpressivo. O seu governo foi constituído por vampiros e parasitas; por dilapidadores da coisa pública e do direito dos trabalhadores. Vale lembrar que o acordo para que o golpe se consolidasse era justamente implantar reformas que retirassem direitos. Temer tinha na manga algumas reformas - política, trabalhista, previdenciária; privatização das principais empresas públicas, entregando-as a preço de banana para o grande capital; entrega do pré-sal etc. Muitas dessas reformas não se confirmaram.

Temer não logrou sucesso completo. Os sucessivos escândalos do seu governo, não permitiram que ele tivesse o apoio popular devido. Observa-se aqui que ele tinha chances de consolidar um consenso, pois a orquestração do golpe teve visibilidade. Milhares de pessoas saíram às ruas para protestar contra o governo Dilma. Houve um acanhamento, uma retração dos movimentos sociais. O governo Dilma se tornou indefensável pelo quadro montado. O velho antipetismo, que já existia no Brasil, fruto de questões históricas, passou a ganhar vida. 

O discurso da antipolítica passou a ganhar contornos. Desejava-se um herói novo. Alguém que não representasse a figura do político; alguém de fora do sistema; ou que estivesse no sistema e não tivesse passado por um processo corruptor. Esses cenários são típicos. A corrupção sempre esteve na esteira dos momentos críticos da história do país. Sempre foi utilizado como discurso político para convencer. Em tempo, vale mencionar que o problema principal do país não é a corrupção. É um enorme senso-comum tachar determinada pessoa de corrupta. Se for feita uma pergunta para determinada pessoa sobre o que ela mais abomina na política, ela proferirá a palavra "corrupção". Se perguntar algo sobre determinada figura política, haverá da mesma forma a verbalização de que "ele é corrupto". Ou: "Político não presta!" "Tudo corrupto!" "Ladrão!" Ou seja, o dado corrupção é uma informação usada mais para confundir do que para revelar as coisas. Essa noção equívoca surge do trabalho da mídia conservadora e dos seus principais jornalistas que não focam em ideias, mas sim, em acusações perigosas e deletérias. Corrupção é consequência e não causa.

Some-se a isso o baixo nível cultural do brasileiro, que desconhece completamente os rudimentos mais básicos da política. A incapacidade de fazer análises ou de pensar com elementos contrastantes. A objetividade baseada na aparência sempre aponta para juízos equivocados. Quando surge um quadro assim, geralmente, as pessoas são induzidas a acreditarem em determinadas narrativas e atuarem baseadas em emoções. O brasileiro médio é um misto de "tara" e conservadorismo contradizente e esquizofrênico, fruto de uma educação péssima e de pouco incentivo para entender as grandes produções que engrandecem o espírito humano. Ele é incapaz entender qual o lugar dos temas das grandes realizações humanas - a música, a literatura, a arte, a cultura, a história e outras manifestações - na vida cotidiana. 

O desconhecimento da história leva o brasileiro a não olhar para trás e entender a própria condição do presente. Relacionar o passado ao presente é um exercício impensável para o brasileiro médio. Um exemplo é o que se deu em 1989 com eleição de Fernando Collor. Naquele momento histórico, não havia eleições diretas desde 1960, quando Jânio Quadros fora eleito. Fernando Collor era a consolidação da juventude e da mudança. Era um político que representava a o momento novo. Possuía um discurso de ruptura. Seu moralismo tinha um alvo - a corrupção (assim como se dera com Jânio Quadros). Ficou conhecido pela sua fala intransigente como "o caçador de marajás" - sendo que ele mesmo, um membro das famílias mais tradicionais de Alagoas, também era um marajá. Acabou ganhando de Luís Inácio Lula da Silva. Collor levou a eleição com forte movimento que acreditava na construção de um momento novo na história do país. Seu partido pequeno e sem coligações chamava a atenção. Possuía supostas qualidades que o tornavam imbatível - era dono de uma oratória espetacular, era bonito, rico. Sua imagem foi trabalhada de tal forma que a vitória foi arrebatadora. Todavia, quando Zélia Cardoso de Melo, a chefa da equipe econômica, orquestrou o confisco das poupanças, notou-se claramente o quanto a eleição do caçador de marajás era temerária. Outras trapalhadas de sua equipe econômica foram minando a credibilidade do governo. Finalmente, "os esquemas" passaram a fazer parte do seu governo. O homem infalível possuía pernas de barro. Em 1992, o governo que fora guindado à posição de "salvador da Pátria", foi impeachtmado. Caía ali "o messias", o incensado político que traria resultados extraordinários para o país.

Nesse sentido, é importante voltar a falar de Bolsonaro, o candidato que aglutina as qualidades da mudança para milhões de brasileiros. Bolsonaro em dado sentido é uma espécie de Fernando Collor. Possui um forte apelo à sua imagem. Posa como a antítese ao PT. Seu discurso pró-ruptura também se assemelha a Collor. Outro ponto que o aproxima do candidato alagoano é a imagem de alguém novo na política e que, supostamente, não é contaminado pelo sistema. Há a crença ainda de que ele venha restaurar os valores perdidos. Que combaterá a violência e, principalmente, a corrupção.

O que acontece é que o brasileiro médio adora flertar com o abismo. Mal sabe ele que Bolsonaro é um agente parasitário da velha política. De que seu discurso truculento e bravateiro ganha visibilidade pela identificação pró-violência que o brasileiro médio possui. Para o sujeito médio, acostumado a conviver com a pregação do signo da violência, nada melhor do que alguém que apareça e afirme o justiçamento que sempre se intentou realizar. O candidato do PSL não é a mudança. Ele é mais do mesmo. Sempre foi um político tacanho, medíocre e inexpressivo que só ganhou projeção por que soube se utilizar de sua retórica do ódio, vocalizada em momento de grande fragilidade em torno do pacto democrático. Se o Brasil estivesse passando por um momento de tranquilidade institucional, Bolsonaro seria um mero coadjuvante, alguém sem qualquer atrativo, Seria reprochado socialmente. Não haveria qualquer referência à sua pessoa, a não ser como modelo de tudo o que existe de mais pernicioso e abjeto em matéria de empobrecimento democrático. 

É justamente a armação em torno do golpe que criou um monstro chamado Bolsonaro. A mídia e os principais quadros que criam consenso que o criaram. Nesse sentido, ele é um resíduo do ódio, da violência, do preconceito que nossa sociedade doente é capaz de criar e cultura. Seu aspecto inculto, sua falta de polidez; seu despreparo em vários assuntos é evidente; sua misoginia, sua crença em tudo aquilo que não dignifica o ser humano é a sua principal força. Para agradar os donos do capital, Bolsonaro fala em privatizações. O principal mentor de sua equipe econômica, Paulo Guedes, é um "Chicago boy", um daqueles defensores do "Estado mínimo" - claro, mínimo para os trabalhadores e máximo para o grande capital. Vale ressaltar que o capital adora inverter discursos para confundir. 

Em suma, o antipetismo pode eleger Bolsonaro e aquilo que era tragédia, vai se transformar em farsa, levando o país, mais uma vez, para o abismo, assim como sempre acontece quando há endeusamentos a determinadas figuras. No Brasil, como disse certa pessoa, o fundo do poço não é o final da queda, é apenas uma etapa do processo. 


segunda-feira, outubro 01, 2018

Uma resposta...

Tudo é possível... O cenário é bem complexo, mas podemos conjecturar algumas coisas - principalmente, quando se trata das elites brasileiras. Os generais, os velhos reaças de sempre, têm feito política. Isso é notório! As ameaças constantes à nossa combalida democracia acontecem sem qualquer pudor. Caso o Haddad ganhe, será absurdamente difícil para ele governar. Ainda podemos sentir o calor do golpe no ar. 

A classe média pró-Bolsonaro certamente sairá à rua com suas camisas da CBF, para coreografar as dancinhas constrangedoras. O ódio ao PT encontrou no discurso pró-violência do Bozo, uma identificação certeira. Bolsonaro é a materialização do fantasma do ódio, do autoritarismo, do preconceito, do medo e da ignorância que habita no interior de grande parcela da classe média brasileira. No fundo, são vítimas do processo profundo de despolitização por que passamos. Nota-se com isso tudo, o triunfo galopante do capital, que sempre se nutre do fascismo para estabelecer falsas rupturas que, no fundo, encaminham para a perda de direitos. 

É possível que um golpe seja perpetrado. Será difícil para a turma da casa-grande perder pela quinta vez seguida para o PT. Gostaria que no lugar do Haddad estivesse o Ciro. Acredito que ele, num suposto governo, teria mais força política para estabelecer um pacto democrático e conduzir um governo mais voltado para o campo popular. Uma vez que fosse assim, talvez, daqui a quatro anos, o PT estivesse pronto para voltar. Todavia, o PT não aceita ser coadjuvante. Vejo nisso uma perspectiva negativa. Se for eleito, o candidato do PT precisará ter pulso forte e fortalecer os movimentos sociais. E é justamente nesse ponto que repousam as minhas dúvidas. A Dilma não fez isso em 2014 e o resultado todos nós conhecemos. 

Apesar de ser um simpatizante histórico do PT (sempre votei em candidatos do PT e o farei novamente agora), gostaria de votar no Ciro. O meu voto será estrategicamente medido e escovado para vencer o candidato do fascismo, o Boçalnato, que representa o atraso, o autoritarismo, a falta de razoabilidade; sujeito que alimenta as pessoas com o lodo de sua personalidade. Ele é uma espécie de caixa-de-gordura da antipolítica. E milhões de brasileiros, sem saber o porquê, alimentam-se do material liberado por ele. Há probabilidades graúdas dele ganhar. Se isso acontecer, resta-me apenas o silêncio para ver a tragédia social e o colapso civilizatório que encobrirão como um lençol cinzento o Brasil. O candidato do PSL é uma espécie de "revival" de um Jânio Quadros ou de um Fernando Collor, figuras moralistas, que posaram de salvadores da pátria, mas que, no fundo, realizaram governos trágicos e inexpressivos.

segunda-feira, setembro 24, 2018

Paulo Honório, o grande personagem de São Bernardo

"O que estou é velho. Cinquenta anos pelo S. Pedro. Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta casca espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada."

Após a terceira leitura de São Bernardo, de Graciliano Ramos, restou a convicção de que ele é o grande romance do inominável escritor alagoano. Li-o observando minudências. Escovando a atenção. Esmerilhando os sentidos para que pudesse beber cada frase. Cada insinuação velada. A história de Paulo Honório além de uma grande estudo psicológico é uma verdadeiro palco de como é constituído o cenário social e político da década de trinta. 

São Bernardo foi a segunda obra escrita pelo velho Graça, um escritor circunspecto, atento à palavra; carpinteiro meticuloso. Alguém que sabia o verdadeiro peso da palavras. Que não gastava tempo ensaboando os adjetivos. Ele simplesmente dizia o que queria dizer sem, que para isso, fizesse rodeios, se metesse em empolações balofas. Não era sua intenção deixar o texto literário repleto de tecidos gordos e desnecessários. Um primeiro aspecto que nos chama a atenção é a "magreza" das expressões. Paulo Honório o narrador é um sujeito rústico, dono de uma "bruteza" agreste. Ele é a voz e o estômago do patriarcado. 

No início da obra é dito que ele desejava contar a sua história. Mas após ter contratado alguém que o fizesse, percebeu que a coisa estava "pernóstica", "estava safada". Refugou o intento. E decidiu levar à frente o empreendimento. Sua forma de narrar é honesta. As palavras mais duras e sensíveis do livro são dirigidas a ele mesmo. 

Após a leitura, ficaram-me três perspectivas em leve gravitação em minha cabeça:

(1)  A econômica - Paulo Honório é um sujeito determinado. Possuía uma fome grandiosa pelo trabalho. Sabia tirar proveito das situações. Fez de tudo um pouco - foi vendedor (mascate), trabalhou com a enxada; empreendedor. Em tudo o que fez, havia um determinismo para algo maior. Viu na figura de Padilha, dono da fazenda São Bernardo, a possibilidade de triunfo. Padilha era um pândego. Representava a antítese de Paulo Honório. Faltava-lhe imaginação. A princípio, pediu um empréstimo ao futuro dono de São Bernardo. Consegue. Todavia, aquilo era uma estratégia. Acabou se enredando e teve que entregar a fazenda a um preço irrisório. Começa, a partir dali, a grande saga de Paulo Honório. Ele faz investimentos vultosos. Investe na agropecuária. Na década de trinta, o Brasil enfrentava uma crise econômica seríssima, em decorrência do processo monocultor a que se dispusera o país. O café fora o carro-chefe da economia brasileira. Com a crise de 1929, percebeu-se a necessidade de industrialização do país. Paulo Honório possui essa sensibilidade.

Ele varia as práticas. Compra máquinas. Investe em árvores pomíferas. Constrói açudes. Domestica o curso da águas. A natureza passa a ser usada para produzir riquezas. Paulo Honório é, em suma, uma representação do capitalismo. Ele avança de maneira inconteste. Não há limites para os seus desejos grandiosos. Não há sensibilidade. O lucro, a vantagem e o poder são sempre os seus objetivos. Avança com a propriedade e vai conquistando as propriedades vizinhas. Aqueles que oferecem resistência são derrubados pela pistolagem. Ele torna São Bernardo em um grande empreendimento. Uma representação fiel da vontade fáustica que há na sua personalidade.

(2)  A política - do ponto de vista político, Paulo Honório é um sujeito esperto e bem articulado. Há ao seu lado, a religião, o direito e a esfera jornalística. Ele sabe o quanto essas três dimensões são importantes para influenciar politicamente o cenário; para "manipular" a materialidade a seu favor. A construção da escola não é uma estratégia com finalidade sociais. O interesse é político. Pouco lhe interessa saber se as pessoas sabem escrever ou não. Para ele, pessoas sabidas eram pouco habilidosas para a ação de plantar. Elas atrapalhariam a condução dos trabalhos em São Bernardo. A construção da paróquia não acontece por piedosa devoção. A vida dos homens é organizada em torno de determinadas ações políticas. São justamente essas ações que potencializam a manipulação do poder. Saber utilizar a política é atrair o poder para si. Paulo Honório tem consciência de determinado empreendimento. Ao estabelecer relações com as autoridades, Paulo Honório procura fazer com que a esfera de poder lhe seja permeável.

(3) A existencial - do ponto de vista existencial, a personagem é carregado pelos mais duros e sombrios desejos. Sua disposição mental é sempre a da conquista. Quando procura uma mulher para si, não o faz motivado pelas implicações que são no matrimônio. Madalena é apenas mais uma "coisa" a ser conquistada. Como deixa transparecer em suas reflexões, Paulo passara a vida em marcha. Esta marcha enrijeceu sua capacidade para as mesuras, para os afetos. Como se pode perceber por meio de suas reflexões, Paulo consegue perceber o tamanho de sua solidão, de seu egoísmo. O último capítulo do livro - uma das mais belas autorreflexões já feitas por uma personagem - nota-se o quanto a vida colocou nele "um gosto agreste na boca". o fluxo existencial de Paulo Honório é como o de uma locomotiva sem freios. Ninguém parece detê-lo. Sua vontade é de ferro.

Se Paulo é a força indomável, Madalena é a bondade e o idealismo. Sua sensibilidade é um ponto contrastante na obra. Vale mencionar ainda que Madalena não se enquadra no perfil das mulheres da década de 30 do século passado, ainda mais em se tratando do Nordeste. Madalena é uma mulher com ideias e opiniões próprias. É comunista. Tem senso político. Debate com os homens da fazenda. É o lado humano das relações da Fazenda São Bernardo. Por outro lado, Paulo Honório atua sob o signo da violência, desde as páginas iniciais quando agride certo jornalista por ter redigido matéria contrária ao futuro dono de São Bernardo. A violência é, de certo modo, constitutiva das sociedades. E aqui deve se entender que não se trata apenas de violência física. O Estado opera sob o signo de certa violência para que organize a vida social. Cabe a ele dizer o direito, que pode ser dividido em natural e positivo. Para Paulo Honório, a sua esfera é a do direito natural. Para ele, existe certa ordem que deve ser obedecida. Sua vida é a da conquista por meio de gestos violentos - seja objetos, animais, terras ou seres humanos. Ele toma parte das terras do Mendonça; suprime a propriedade do Padilha. Madalena é, de certa maneira, apenas mais um "bem" a ser conquistado. O que desarticula o seu juízo é a vontade, o senso de liberdade que mora em Madalena. Após esse passo, um ciúme doentio se apropria dele. 

Pretendo realizar outras leituras. Por enquanto, ficam essas percepções.

terça-feira, setembro 04, 2018

Algumas ideias de Paulo Honório, personagem central de São Bernardo

"Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão e que me deu qualidades tão ruínas".

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"Penso em Madalena com insistência. Se fosse possível recomeçarmos... Para que enganar-me? Se fosse possível recomeçarmos, aconteceria exatamente o que aconteceu. Não consigo modificar-me, é o que mais me aflige."

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"Hoje Não canto NEM rio. Se me Vejo ao Espelho, a dureza da boca ea dureza dos Olhos me descontentam."

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"Sou, pois, superior a mestre Caetano e a outros semelhantes. Considerando, porém, que os enfeites do meu espírito se reduzem a farrapos de conhecimentos apanhados sem escolha e mal cosidos, devo confessar que a superioridade que me envaidece é bem mesquinha."

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"O que estou é velho. Cinquenta anos pelo S. Pedro. Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta casca espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada."

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"Quinze metros acima do solo, experimentamos a vaga sensação de ter crescido quinze metros. E quando, assim agigantados, vemos rebanhos numerosos a nossos pés, plantações estirando-se por terras largas, tudo nosso, e avistamos a fumaça que se eleva de casas nossas, onde vive gente que nos teme, respeita e talvez até nos ame, porque depende de nós, uma grande serenidade nos envolve. Sentimo-nos bons, sentimo-nos fortes. E se há ali perto inimigos morrendo, sejam embora inimigos de pouca monta que um moleque devasta a cacete, a convicção que temos da nossa fortaleza torna-se estável e aumenta. Diante disto, uma boneca traçando linhas invisíveis num papel apenas visível merece pequena consideração. Desci, pois, as escadas em paz com Deus e com os homens"

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"Muitas vezes por falta de um grito se perde uma boiada."

segunda-feira, setembro 03, 2018

O incêndio como metáfora

Ontem à noite, eu estava em uma lanchonete com alguns amigos, quando um outro amigo, morador de Blumenau, Santa Catarina, informou-me pelo celular que o Museu Nacional estava pegando fogo. A princípio, julguei a informação meio extemporânea. Inusitada. Inesperada. Fiquei sem saber sobre qual museu ele se referia. O Museu Nacional da República (Brasília) ou o Museu Nacional, aquele que abrigou a família real, no Rio de Janeiro? 

Quando voltei para casa, atentei para a tragédia material e simbólica que estava acontecendo. Afinal, não era somente um museu que estava queimando, tratava-se da dignidade de uma sociedade, da promessa de um país que falhou, que está aniquilado, manietado por lideranças mesquinhas, que não desejam um Brasil grande. 

Há muito o museu amargava uma situação de penúria. Orçamento mirrado. Funcionários que não recebiam. O cupim que comia o madeiramento. Pedaços do teto que caíam. Quantos monumentos não passam pelo mesmo problema no Brasil? Há dois anos, por exemplo, visitei algumas igrejas históricas de Olinda, Pernambuco, e deixei o lugar bastante triste. Uma igreja - não me recordo do nome - do século XVII, belíssima, imponente, em degradação silenciosa. As pinturas sendo consumidas pelos insetos. O buraco que aumentava dia a dia, prestes a comprometer certa porção do teto e desabar na cabeça dos visitantes. O guia me falou meio cético e triste do completo abandono das igrejas da cidade. Certamente, assim acontece em vários estados brasileiros - Minas Gerais, Sergipe, Paraíba, São Paulo, Bahia etc - tanto os monumentos que estão sob a supervisão federal, estadual ou municipal. 

O episódio com o Museu Nacional é grávido de metáforas. Havia no local mais de vinte milhões de peças de valores incalculáveis para o Brasil e para a humanidade. O crânio de Luzia, a mulher mais antiga já encontrada no Brasil (aproximadamente doze mil anos) - e a mais antiga das Américas -, sobreviveu aos elementos do tempo, mas não sobreviveu à irresponsabilidade das nossas elites políticas. Artefatos indígenas. Esculturas. Todavia, esse tipo de riqueza é vilipendiada no Brasil, um país tacanho, pequeno, com líderes que são usurpadores, que não respeitam a vontade do povo, que engolem as riquezas produzidas pelo povo; que jogaram a soberania do Brasil na latrina.

Um governo irresponsável. Preocupado apenas com os seres sem rostos do mercado financeiro, congelou os gastos com saúde, segurança, educação (e cultura) por vinte anos. Que tem asfixiado a pesquisa no Brasil. Que tem suprimido as verbas do ensino superior. Que concede um aumento de mais de 16 por cento para os juízes do STF, gerando um afeito cascata comprometedor. Estima-se que o gasto a partir de 2019 chegue a 8 bilhões de reais por ano. O que seria possível fazer com 8 bilhões de reais em matéria de cultura para este país? Certamente, evitaria que tragédias como estas não acontecessem. Atualmente, o museu precisava de pouco mais de 500 mil reais para funcionar mensalmente. É o quê um único juiz do STF, ganha em um ano - salários e garantias. Os onze ministros do STF valem um Museu Nacional. Poderíamos fazer uma campanha: troque o STF por um museu. Certamente, o problema não é só de um governo.

Segundo foi veiculado pela grande mídia, o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, construído por Dom João VI, que deveria ser um orgulho para todos os brasileiros (muitos nem sabiam de sua existência), possuía o quinto maior acervo de peças do mundo - múmias egípcias, esqueletos de dinossauros, uma das versões mais antigas da Bíblia etc. Eu imagino episódios medonhos como estes acontecendo ao Museu de História Natural de Londres, ou ao Museu de História Natural de Nova York, ou ao Louvre ou ainda ao Museu Nacional do Prado. Não. Isso não aconteceria a estes espaços tidos como sagrados pelos seus países. Eles dimensionaram a importância cultural e social. Sabem da importância histórica, científica; como símbolo da identidade nacional e econômica. Por aqui, as coisas são sempre mesquinhas, pequenas, contrárias, paradoxais. 

Elas revelam vontades embriagadas e rarefeitas. Revelam nossa tristeza sempre presente. As cores apáticas de nossa inteligência. Nosso mofinismo crônico. Nosso entusiasmo carunchado. Nossa incapacidade de entender o passado. Parece que sempre estamos dentro de uma estrutura atemporal que nos impede de entender o que somos. Sustentamos sempre o improviso. O tragicômico sempre nos alcança. Desenha nossos caminhos; empurra-nos para buracos patéticos; para vaguidões sem paredes. O orgulho é sempre uma miragem na nossa terra. Pisoteamos com enorme desengano a nossa esperança. As cenas se sucedem numa emulação cinzentamente burlescas como, por exemplo, o fato de não haver água nos hidrantes do museu para que a debelação do fogo fosse realizada mais rapidamente pelos bombeiros.

Olhando para as fotografias tiradas por Marcelo Sayão para o jornal El País, constatei o quanto a tragédia não nos ensina absolutamente nada. Em quinhentos anos de história, ainda engatinhamos, ensaiamos pateticamente as garatujas de um pacto social que nos transformará em país sério e comprometido com o futuro. Mas como fazer isso, se não conseguimos respeitar a nossa memória? Como fazer isso, se a cultura, o conhecimento, a pesquisa, a educação, no geral, são ruídos pelos cupins, em sentido material e simbólico? Quem dera o fogo fosse purificador. Por aqui ele não é! No Brasil, a luz no final do túnel, não é uma saída; trata-se de uma pesada máquina sem freios, vindo para nos dilacerar. 

P.S. 1.  Para muitos, o importante é que Lula está preso e Bolsonaro é nossa esperança transformadora. Que país! Por isso, os museus queimam por aqui. 

P. S. 2. Vale lembrar que não entendemos muita coisa sobre arte e ciência. O ano passado (há um ano), o moralismo patético e enviesado de certos grupos tidos por liberais (sic), fez um alarde descomedido na porta de um museu em Porta Alegre. Temos muita intimidade com a arte e com a coisas sensíveis neste país. 

P.S. 3 - Segundo o jornal O Globo, mês passado, os censores atacaram novamente

sábado, setembro 01, 2018

Excelentíssimo senhor...

Uma reflexão bastante pertinente sobre Luís Roberto Barroso, uma das personalidades mais desgraçadamente medíocres, da vida pública brasileira.

Luís Roberto Barroso merece ser estudado. Não por ele próprio, mas como uma trajetória emblemática daquilo que leva ao sucesso no campo jurídico-político brasileiro atual.

Por um lado, ele é uma demonstração quase caricata dos atributos do nosso renitente bacharelismo. A vaidade gigantesca e indisfarçável. O discurso pomposo, arrogante e vazio de ideias. O gosto pelas palavras altissonantes. Até mesmo o jeito de torcer a boca para pronunciar nomes estrangeiros.

Barroso também é ilustração perfeita da tese, no entanto controversa, do caráter fake de nossos valores políticos dominantes. Ostenta a toga de herói do liberalismo, mas não esconde seu desprezo pelos direitos e horror a qualquer forma de igualdade. Posa de iluminista, mas é guardião das trevas. Paladino intransigente da moral, defende com unhas e dentes benefícios imorais para o seu grupo e o vale-tudo contra os adversários.

Visto por outro ângulo, ele pode ilustrar a ideia de "neoliberalismo progressista", colocada em circulação por Nancy Fraser. Há uma adesão a teses progressistas no âmbito da vida privada, que lhe permite manter uma fachada de homem de seu tempo, mas que se combina ao reforço de uma estrutura social extremamente excludente e autoritária.

O mais interessante, porém, é pensar por que, com tantos candidatos ao posto na política eleitoral (está aí o Álvaro Dias que não me deixa mentir), o espírito do lacerdismo decidiu reencarnar em um político togado. Desconfio que isso nos diz bastante coisa sobre a dinâmica recente da política brasileira.

Por Luis Felipe Miguel via Facebook