segunda-feira, maio 11, 2020

"Amor à tarde", de Eric Rohmer - algumas considerações

Vi há uma semana Amor à tarde (1972), de Eric Rohmer. É o último daquilo que ficou conhecido como os seis contos morais. São obras dirigidas por Rohmer, que traziam consigo densos e complexos problemas morais e éticos.
 
Trata-se de uma produção sofisticada, de diálogos e monólogos elegantes; da presença de cafés que servem para imprimir aquela atmosfera existencialista francesa tão típica. Na verdade, Amor à tarde é um filme simples do ponto de vista da fotografia. É a história de um burocrata chamado Fréderic, casado com Hélene. Ambos se encontram em momentos escassos. Estão casados há pouco mais de três anos. Possuem filhos. Hélene trabalha durante o dia como professora. À noite, gasta o tempo entre as atividades domésticas e a correção dos trabalhos escolares. 

Fréderic é um burguês típico. Possui uma vida sólida, pouca dada a eventos extraordinários. Sai de casa. Vai para o escritório. Recebe mensagens das secretárias. Conversa com os sócios. Sai para almoçar em certos horários. Mas, é justamente nesse ponto que começam a surgir os monólogos da personagem. O devotado Fréderic seria capaz de trair Hélene? Ele olha as mulheres com as quais cruza pela rua ou encontra no café. Observa-as. Imagina situações insólitas. Deseja todas elas. Mas, no seu entendimento, Hélene consegue reunir as qualidades de todas as mulheres.
 
Chloé e Fréderic 
 
Até que uma amiga antiga, certo dia, ressurge em sua vida. Seu nome é Chloé. Sua vida de liberdade é algo que intriga Fréderic. Ela mora em um apartamento com um parceiro eventual. É livre em demasia. Aos poucos, o personagem se encontra enredado pelo seu jeito leve, solto, desimpedido. E neste ponto encontramos um dos aspectos mais salutares desta obra de Rohmer: ao contrário de outros filmes que tratam de adultério, o diretor não entrega nada de graça. Os eventos não se materializam com tanta rapidez e empacotamento. O que chama a atenção é elemento existencial, das intenções, das insinuações. O adultério não é apenas uma satisfação física. Ele é a consumação de uma violação moral.
 
Pé ante pé, observando Chloé e Fréderic,  somos conduzidos à compreensão de que a consumação do ato sexual é algo iminente. Os dois parecem aceitar o relacionamento. Chloé parece flertar com o exotismo de Fréderic. Ele, na compreensão dela, está preso moralmente a convenções comezinhas. 

Ele, por sua vez, sente-se bem com isso. Parece aceitar o jogo do homem casado que comete uma traição contra a sua companheira. Não quero antecipar nada (caso alguém tenha interesse em ver o filme ou tenha chegado aqui procurando informações sobre ele), mas os momentos finais deixam o espectador embasbacado. A pergunta que fica é: o que você faria caso estivesse no lugar de Fréderic?


domingo, maio 03, 2020

"Feliz ano novo" e algumas impressões sobre Rubem Fonseca

Nunca havia lido Rubem Fonseca. As informações que me chegavam  sobre o escritor eram remotas, repletas de hiatos; ralas em excesso. Sabia que era um grande contista. Escritor de romances consagrados como Agosto (que comprei por volta de 2005 e nunca li). Tinha o conhecimento ainda de que era um escritor com reconhecimento internacional. Conhecido em países da América Latina, Estados Unidos e muitos países europeus. Por ser um escritor da chamada moderna literatura brasileira, havia suspeições sobre o seu estilo.

Senti-me na obrigação de lê-lo, após a sua morte mês passado, já nonagenário. Li artigos sobre ele na Folha de São Paulo, no El Pais, em O Globo, em blogs amigos. Fui à cata de sua produção. Impressionei-me com a quantidade de material escrito. Nos jornais, havia sinalizações de mérito. Ovações àquilo que o escritor produziu. Reconhecimento das suas qualidades. Nos blogs, variações. Críticas. Falas desconfiadas e retraídas. Fonseca era grande, afirmavam alguns, mas nem tanto. Para estes, a biografia do escritor estava manchada pelo apoio ao regime ditatorial instalado aqui no Brasil em 1964. 

Escritores são seres humanos e, potencialmente, capazes de errar. A história nos prova isso. Há casos de nomes importantes que ficaram ao lado de regimes ditatoriais obscurantistas. É o caso de Céline, de Rachel de Queiroz ou de Nelson Rodrigues, que apoiou o Golpe até que este chegou à sua casa. São exemplos ligeiros que me vêm à memória. 

Não estou proibido de visitar a obra de determinado escritor pelo fato de ele ser simpático a determinado movimento. Proceder dessa forma indica liberdade intelectual e maturidade eletiva. 

Após essa pequena digressão, procurei imediatamente uma obra do escritor para ler. Comprei Feliz ano novo e comecei a leitura no Kindle. Li o primeiro conto - que leva o mesmo título do livro - e, de início, já fui golpeado pelo estilo fonsequeano. Trata-se de uma literatura bestial, não no sentido diabólico. Fonseca é um estudioso da alma humana. Sua obra é crua. Sem adereços. Não há penduricalhos. Diz somente aquilo que precisa ser dito para encontrar o efeito desejado. 

Em Feliz ano novo encontramos um cadinho da obra do escritor. Nota-se o quanto o escritor encontrou a fórmula exata. O controle do gênero conto. Sua linguagem despojada preocupa-se em contar o que existe na dimensão misteriosa e imensurável do ser humano. Fonseca narra o insólito. O extremo. O pai de família - insuspeito. Bom burguês. Pega o carro. Vai para a rua. Atropela um transeunte. Compraz-se com isso. Volta para casa. Diz que vai dormir. Despede-se da mulher num cálculo inocente. Ou os assaltantes que provocam uma carnificina em uma festa; que ficam indignados quando percebem o quanto o dono rico da casa demonstrava insensibilidade, desprezando bens materiais, deixando a entender que tinha tantos bens, que perder alguns não faria falta. 

A crítica descuidada que afirma existir uma certa previsibilidade na literatura do escritor, pois esta sempre acaba em violência é rasa. Afirmar isso é lê-lo de forma apressada. O grande crítico literário Alfredo Bosi, uma autoridade inquestionável em literatura, denominou o seu estilo de "brutalista". Trata-se de uma denominação que é exata. Tal denominação aponta para o fato de que a violência é um verniz para denunciar a vida, o estilo burguês, na urbe da sociedade capitalista. Fonseca é escritor que tem a sua literatura radicada na cidade. 

A cidade é o espaço da violência, do medo, do estupro, da desigualdade, da ansiedade, dos dramas psicológicos, do individualismo lancinante; dos gestos imprevisíveis. Há um catastrofismo inerente em seus textos e isso não deixa estar presente Feliz ano novo

P.S. A partir da leitura do livro de Fonseca me bateu uma paixão absurda pelo conto. E o Brasil é um país privilegiado nesse sentido. Há bons escritores do gênero por aqui - Otto Lara Resende, Lygia Fagundes Telles, Dalton Trevisan, Murilo Rubião, Clarice Lispector, Osman Lins, Domingos Pellegrini, Monteiro Lobato, Machado de Assis, Lima Barreto, Guimarães Rosa, apenas para citar alguns. Leiamos os bons!

sábado, maio 02, 2020

"Cavalo de Turim", de Béla Tarr - algumas impressões

 
Assisti ao filme Cavalo de Turim, do húngaro Béla Tarr, patrício do grande compositor Béla Bartók,. Era um projeto antigo. Passei mais de uma semana vendo nacos do filme ( dez, quinze, vinte minutos). Foi nesse ritmo lento que consegui vencer as mais de duas horas e meia de uma experiência inigualável, que é realizar a imersão nessa obra magnífica. É o primeiro filme que vejo de Tarr. O diretor austríaco é considerado um dos maiores da atualidade. Já consegui Satantango, considerada a sua melhor obra, de 1994. Cavalo de Turim é do ano de 2011. 

A obra de Tarr inicia com um plano escuro e uma voz igualmente soturna, que narra:

"Em Turim, em 03 de Janeiro de 1889, Friedrich Nietzsche saiu pela porta do número 6 da Via Carlo Alberto, para caminhar, ou talvez para ir ao correio pegar sua correspondência. Não muito longe, aliás, bastante longe dele, um cocheiro estava tendo problemas com seu teimoso cavalo. Apesar de todos os seus esforços, ele se recusava a mover-se, e portanto o cocheiro  - Giuseppe? Carlo? Ettore?  - perdeu a paciência e chicoteou-o. Nietzsche surge do meio da multidão e coloca um fim na brutal atitude do cocheiro, que agora espumava de raiva. O grande e bigodudo Nietzsche, de repente saltou sobre a carroça e jogou seus braços em torno do pescoço do cavalo, soluçando. Seu vizinho o levou para casa, onde ele ficou calmo e silencioso por dois dias no sofá até que murmurou as obrigatórias últimas palavras: "Mãe, eu sou um tolo" e viveu mais dez anos, calmo e louco, aos cuidados de sua mãe e irmãs. Sobre o cavalo... não sabemos nada".


De repente, o espectador é lançado numa estrada poeirenta. A imagem lenta segue por quase dois minutos. O cavalo caminha lentamente, puxando a carroça onde se encontra aboletado o seu condutor. Somos conduzidos a uma habitação rústica em meio a uma planície desolada. O vento é uma personagem constante. Sopra de forma inclemente. As árvores são esparsas e nuas. Os galhos finos dançam com as lufadas de vento. Escuta-se o assobio fino do vento. As folhas secas que dançam freneticamente no ar. A música poderosa  Mihály Vig, também presente em outras obras do diretor, imprime uma solenidade grave. O órgão impõe um aspecto fúnebre, confundindo-se com as belas, atordoantes, imagens do filme. 

Nesse casebre conjugado com uma estrebaria, em que fica o cavalo, pai e filha residem. E, logo em seguida, um encadeamento circular de eventos acontecem - acordar, colocar a roupa, tirar água do poço, dar ração ao cavalo, ocupar-se com as tarefas miúdas da casa, comer batata cozida - o único alimento disponível nessa escassez cinzenta. 

Ou seja, o filme de Tarr é um retrato duro da existência. A bela fotografia em preto em branco possui uma força filosoficamente aterradora. A existência seria esse cansaço. A repetição. A sucessão monótona desse movimento que sempre leva ao mesmo lugar. Dentro de casa, há momentos em que as personagens olham por uma janela. Nesses instantes, o barulho rascante do vento cessa. Enxerga-se, no silêncio momentâneo, o voo incontrolável das folhas secas sendo conduzidas pelo vento que não cessa. O vento duro e inclemente representaria a contingência que é viver. Mas, também pode representar os instantes negativos, a desconcertante e inexorável cadeia de sucessões para a qual não se tem controle. Enquanto vivemos, somos arrastados em meio à tempestade. E poucos são os instantes de calmaria. 

Cavalo de Turim é uma obra cuja beleza transcendente não permite que o espectador fique tranquilo. Ele desestrutura. Faz-nos emudecer. Respirar fundo. E pensar sobre o que é viver; o que é existir. A existência humana estaria cercada desses e-ventos cansativos. Desse ramerrão diário. De um roteiro repetitivo, extenuante, para qual não se pode escapar. Em determinado momento, aturdidos, cansados, pois o poço de onde tiravam água havia secado, as personagens tentam ir embora. Todavia, são obrigados a regressarem, carregando os mesmos fardos; são forçados a experimentarem a mesma condição - acordar, alimentar o cavalo, cuidar das atividades pequenas, comer batatas. 

O filme exige paciência para ser visto, pois o que conta não são os diálogos. Estes ficam num segundo plano. O diretor deseja tornar a experiência do espectador embriagante. Estupefaciente. O mais importante é o movimento da vida e os seres humanos dentro dessa contingência. 

Obra poderosa e obrigatória. 

Está disponível aqui

quarta-feira, abril 29, 2020

Assino por todos os lados




"O que faz de mim um brasileiro?

Nasci no Brasil, é verdade - na cidade do Rio de Janeiro, no Estado da Guanabara. Mas isso é um acidente geográfico.

Não tenho os traços estereotipados do brasileiro "típico". Não gosto de futebol. Não gosto de carnaval. Não gosto de praia.

Não tenho a sociabilidade fácil ou a alegria despreocupada que, dizem os guias de turismo, são as marcas do nosso povo.

Não acredito em Deus. Acho o Cristo Redentor um mostrengo. Torço contra a seleção - porque não consigo torcer a favor de Ronaldinhos e Neymares.

É bem verdade que gosto de pão de queijo e de arroz com feijão, mas acho que isso não me define mais do que o fato de gostar de financier e de confit de canard.

Na verdade, nesse momento, quanto mais eu penso, mais percebo que o que faz de mim um brasileiro é o imenso sentimento de vergonha.

Vergonha de ser cidadão de um país governado por um fascista grosseiro e inepto, que comanda a aplicação de uma política genocida e que nos conduz no caminho de uma catástrofe de grandes proporções.

Vergonha de ser concidadão de milhões de pessoas que são tão estúpidas e tão cruéis que aceitam ser cúmplices disso.

Vergonha de ser de um país que quando viu que havia o risco de se tornar um pouco - um pouquinho só - melhor, fez de tudo para destruir essa possibilidade e mergulhar de volta na violência, na exclusão, no preconceito, no atraso mais abjeto.

Não é a famosa "vergonha alheia". É vergonha própria, vergonha de saber que sou parte disso, porque, afinal, sou brasileiro".

Luis Felipe Miguel, professor da Universidade de Brasília

terça-feira, abril 21, 2020

20 de abril - dia do vinil

Um dos meus vinis de uma das minhas bandas favoritas
Ontem, foi o dia do vinil. Isso mesmo... Existe um dia do vinil. O bolachão já foi um produto vulgar. Cresci com eles. Meu pai era dono de centenas - Amado Batista, Luis Gonzaga, Alípio Martins, Evaldo Braga, Carlos Alexandre... uma incontável plêiade de artistas do brega (a maior parte). Era obrigado a escutar aquelas canções carregadas de um sentimentalismo piegas. Do eu poético que sofre por amor, que idealiza a mulher. Mas, que no fundo, é macho, não dar o braço a torcer. Há um descompasso no brega: ao mesmo tempo que se idealizava a mulher, ela é vista como algo menor em relação à força do homem. 

Quando adolescente, comprava os vinis por cinquenta centavos. Nessa época, comecei a comprar alguns de rock. Já tinha um número razoável de bandas de rock e artistas de que gostava - Led Zepellin, Deep Purple, Man At Work, The Cure, Bob Dylan, Chico Buarque etc. Meu irmão num assomo de loucura (até hoje não discernível) vendeu as minhas dezenas de vinis por módicos trinta reais. Fiquei incrédulo. 

Atualmente, voltou a paixão por tê-los mais uma vez. Compro-os frugalmente. O preço anda nas alturas. Um vinil não sai por menos de cem reais. Estão "gourmetizados". Tornaram-se um produto "cult", inacessíveis, para sujeitos retrógrados - ou, simplesmente, esquisitos.

As novas gerações questionam a importância disso. Com o acesso caudaloso aos "streamings" de música, tipo Spotify, quem se interessa por vinil? É justamente aí que está a questão. Existem certos prazeres que são raros e inexplicáveis. 

Ouvir um vinil está nessa conta. Abri-lo. Tirá-lo do saquinho. Conferir o encarte (verdadeiras obras de bom gosto, a maior parte da vezes). Sentir o cheiro (vinil tem cheiro). Colocá-lo no prato da radiola. Perceber a rotação. Movimentar o braço da radiola. Posicionar o braço no início. Escutar, às vezes, os estalidos. Apreciar o som límpido, com as camadas corretas da música. 

Acima, um dos discos mais importantes da história do rock: "Moving Pinctures" (1981), do Rush. Trata-se de uma obra-prima.

domingo, abril 19, 2020

O deus de Spinoza


Você sabia que quando Einstein deu uma conferência em várias universidades a pergunta recorrente que os alunos fizeram foi:

- Você acredita em Deus?

E ele sempre respondia:

Eu acredito no Deus de Spinoza.

Quem não leu Spinoza não entendia a resposta.

Baruch De Spinoza foi um filósofo holandês considerado um dos três grandes racionalistas do século da filosofia, junto com o francês Descartes.

Este é o Deus ou a natureza de Spinoza:

Deus teria dito:

“Pare de ficar rezando e batendo no peito! O que quero que faça é que saia pelo mundo e desfrute a vida. Quero que goze, cante, divirta-se e aproveite tudo o que fiz pra você.Pare de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que você mesmo construiu e acredita ser a minha casa! Minha casa são as montanhas, os bosques, os rios, os lagos, as praias, onde vivo e expresso Amor por você.

Pare de me culpar pela sua vida miserável! Eu nunca disse que há algo mau em você, que é um pecador ou que sua sexualidade seja algo ruim. O sexo é um presente que lhe dei e com o qual você pode expressar amor, êxtase, alegria. Assim, não me culpe por tudo o que o fizeram crer.

Pare de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo! Se não pode me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de seus amigos, nos olhos de seu filhinho, não me encontrará em nenhum livro.

Confie em mim e deixe de me dirigir pedidos! Você vai me dizer como fazer meu trabalho?
Pare de ter medo de mim! Eu não o julgo, nem o critico, nem me irrito, nem o incomodo, nem o castigo. Eu sou puro Amor.

Pare de me pedir perdão! Não há nada a perdoar. Se eu o fiz, eu é que o enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso culpá-lo se responde a algo que eu pus em você? Como posso castigá-lo por ser como é, se eu o fiz?

Crê que eu poderia criar um lugar para queimar todos os meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que Deus faria isso? Esqueça qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei, que são artimanhas para manipulá-lo, para controlá-lo, que só geram culpa em você!

Respeite seu próximo e não faça ao outro o que não queira para você! Preste atenção na sua vida, que seu estado de alerta seja seu guia!

Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é só o que há aqui e agora, e só de que você precisa.

Eu o fiz absolutamente livre. Não há prêmios, nem castigos. Não há pecados, nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro. Você é absolutamente livre para fazer da sua vida um céu ou um inferno.

Não lhe poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso lhe dar um conselho: Viva como se não o houvesse, como se esta fosse sua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim, se não houver nada, você terá usufruído da oportunidade que lhe dei.

E, se houver, tenha certeza de que não vou perguntar se você foi comportado ou não. Vou perguntar se você gostou, se se divertiu, do que mais gostou, o que aprendeu.

Pare de crer em mim! Crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que você acredite em mim, quero que me sinta em você. Quero que me sinta em você quando beija sua amada, quando agasalha sua filhinha, quando acaricia seu cachorro, quando toma banho de mar.

Pare de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra você acredita que eu seja? Aborrece-me que me louvem. Cansa-me que me agradeçam. Você se sente grato? Demonstre-o cuidando de você, da sua saúde, das suas relações, do mundo. Sente-se olhado, surpreendido? Expresse sua alegria! Esse é um jeito de me louvar.

Pare de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que o ensinaram sobre mim! A única certeza é que você está aqui, que está vivo e que este mundo está cheio de maravilhas.

Para que precisa de mais milagres? Para que tantas explicações? Não me procure fora. Não me achará. Procure-me dentro de você. É aí que estou, batendo em você.”

O texto acima, peguei de um compartilhamento do Charlles Campos, feito pelo Facebook

Esse texto pode ser encontrado em um bonito vídeo no Youtube.

sábado, abril 18, 2020

Três textos e uma ideia





V - Há metafísica bastante em não pensar em nada.

V

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do Mundo?
Sei lá o que penso do Mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o Sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o Sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do Sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

«Constituição íntima das coisas»...
«Sentido íntimo do Universo»...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

Alberto Caiero, um dos heterônimos de Fernando Pessoa. Daqui

terça-feira, abril 14, 2020

"A Aventura", de Michelangelo Antonioni.

 
A Aventura é um filme ítalo-francês, produzido em 1960 e dirigido por Michelangelo Antonioni. As credenciais, talvez, não impressionem a um espectador desavisado. Todavia, ao mencionar o nome do italiano, os sinais de atenção já devem ser ligados. Antonioni foi uma figura importante para o cinema italiano - e, principalmente, para o enobrecimento da sétima arte, elevando-a a um nível filosófico sofisticado e esteticamente impecável. 

De Antonioni, já vi Blow Up - depois daquele beijo, uma obra envolvente e repleta de suspense. Dessa vez comecei a ver a conhecida Trilogia da Incomunicabilidade. Trata-se de três filmes absurdamente densos e belos. O primeiro deles é A Aventura (1960), em seguida segue A Noite (1961) e, o último, O Eclipse (1962). Os três filmes são estrelados pela bela Monica Viotti, hoje, com 88 anos de idade.

Em A Aventura, nota-se uma obra com belas tomadas de cena; ênfase nas imensidões (planícies, mares etc); e a típica beleza e bom gosto italianos. O cinema italiano da época em que a obra foi produzida já havia passado por aquilo que ficou conhecido como "realismo italiano", que colocava em evidência a luta de classes em um estado italiano empobrecido pela Segunda Guerra e metido em um complexo caos político por conta do fascismo. Os filmes buscavam retratar a situação da classe trabalhadora. Um exemplo disso é o belíssimo Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica.

A enigmática cena final de A Aventura
Em A Aventura a ênfase é colocada sobre um grupo de italianos ricos. Enquanto nos filmes com a temática do realismo italiano encontramos o drama material, em Antonioni encontramos o drama existencial, ou seja, reflete-se sobre o imponderável e intangível material de que é feito o ser humano. Há angústias impensáveis, impossibilidade de paixão, traição; a insinuação da inconstância do ser humano. O cineasta italiano premia os amantes do cinema com uma obra cujo efeito metafórico é sempre de fuga, sempre de movimento. Os personagens parecem perdidos nas imensidões, nas planícies sugestivas. Há sempre uma busca por algo que nunca se torna presente.

Por fim, Antonioni faz uma crítica à sociedade moderna com seus movimentos tresloucados e incertos, que não levam a lugar nenhum. Aponta sua genialidade para a impossibilidade de concretização da felicidade; para a impossibilidade de comunicação, de acerto. Os outros não estão certos do que querem. Nutrem expectativas vazias sobre aquilo que desejam. Aliás, nem sabem o que desejam.

A Aventura é considerada uma das obras máximas da história do cinema. Comecei a ver O Eclipse.


terça-feira, abril 07, 2020

#forabolsonaro, por Antônio Prata

As teorias da conspiração são o último refúgio dos impotentes. É pra lá que eles fogem, acreditando libertar-se dos grilhões da mentira e da manipulação.

Ali, mocozados em seus terraplanismos, antivacinismos, cultuando seus ETs de Varginha, seus Foros de São Paulo, seus Chupa-Cabras, seus Olavos de Carvalho, suas mamadeiras de piroca, suas tramas da CIA ou da China, os olhos dos “desempoderados” brilham no gozo da verdade revelada.

Como mágica, o homem medíocre a quem os genes, a injustiça social ou a preguiça intelectual condenaram a uma existência de Zé Mané se transforma num Indiana Jones diante do Santo Graal, num Fox Mulder e numa Dana Scully num episódio de “Arquivo X”, num Moisés encarando a sarça em chamas.

As teorias da conspiração são a igreja do homem despossuído, frustrado, alienado, num mundo complexo que ele não compreende e no qual não prospera. São a arminha de mão dos pobres diabos. O Viagra da impotência social.

Quer dizer então que toda a comunidade científica, Harvard e Yale e Oxford e Cambridge e a Organização Mundial da Saúde e a União Europeia e os EUA (democratas e republicanos) e a Angela Merkel e o Bill Gates e os líderes e a imprensa de todos os países do globo estão errados sobre o coronavírus e só Bolsonaro tá certo?

O mundo inteiro caiu num conto do vigário chinês comunista para quebrar o capitalismo e só o capitão reformado do Vale do Ribeira, do alto de seus chinelos Rider, penando para ler “hospital Ualbert Uainstein” no teleprompter, descobriu a farsa?

O que para você, pessoa sensata de direita, de esquerda ou de centro, parece um absurdo completo é justamente o que dá força à teoria conspiratória. Quanto mais alucinante a teoria, maior seu poder epifânico. Quanto mais tosca a figura do presidente, mais longe chega a sua mensagem.

Tem um momento, geralmente no final do primeiro ato dos filmes de terror ou suspense, em que o protagonista tenta convencer os outros de que tem um fantasma na casa ou um monstro na floresta ou que o professor bondoso do jardim de infância é um serial killer. Todos desdenham do protagonista.
Talvez ele acabe num hospício, como Sarah Connor em “O Exterminador do Futuro 2”. A incredulidade geral, porém, faz com que o herói se insufle, cresça, tome uma atitude arriscada e sem volta para combater o fantasma/monstro/assassino e ingressar no segundo ato.

É exatamente no momento Sarah Connor no hospício que Jair Bolsonaro e seu núcleo duro de miolo mole se encontram nesta semana. E a atitude arriscada e sem volta que eles gostariam de tomar para ingressarem no segundo ato com um duplo plot twist carpado é dar um golpe.

Mandar ao STF “um jipe com um soldado e um cabo”. Amotinar as polícias e dar a elas, como disse o então candidato a presidente, “retaguarda jurídica para fazer valer a lei no lombo de vocês!”. “Será uma limpeza nunca vista na história do Brasil.”

Chegou a hora de as pessoas sãs deste país se unirem contra um golpe e contra a carnificina que a insistência deste sociopata em reduzir a quarentena irá causar. Somos nós, de Ronaldo Caiado a Marcelo Freixo, quem temos que gritar com toda a força dos nossos pulmões que há um fantasma na presidência. Um monstro no Planalto. Um serial killer no comando dos jardins de infância.

Depois, quando o pesadelo do vírus e do monstro passarem, cabe aos sobreviventes adultos de todos os matizes políticos repensar o mundo para que nele não haja um exército de excluídos frustrados, humilhados e dispostos a embarcar no primeiro filme de terror que lhes oferecer uma migalha de protagonismo.

Texto publicado no Jornal Folha de São Paulo, em 29 de março de 2020. 


domingo, abril 05, 2020

A arte de esperar pelos ovos

A última reflexão do filme Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (como é conhecido aqui no Brasil), de Woody Allen, é bastante provocante. "Annie Hall" (título original), certamente, é o melhor filme que ele dirigiu; para mim, uma das melhores da história do cinema. Na última cena do filme, o personagem Alvy Singer (Woody Allen), afirma após ter encontrado Annie Hall (Diane Keaton) com quem mantivera um relacionamento de encontros e rompimentos, um instigante e provocante pensamento. O filme é uma excelente e deliciosa reflexão sobre a arte de se relacionar. 

E me lembrei da velha piada, do cara que vai ao psiquiatra e diz:

"Doutor, o meu irmão é maluco. Acha que é uma galinha. "

E o médico pergunta: "Por que é que não o traz de volta a si?".

E ele responde: "Até faria, mas preciso dos ovos".

É mais ou menos o que sinto sobre as relações entre as pessoas.

São totalmente irracionais, loucas e absurdas...

Mas nós vamos aguentando porque precisamos dos ovos.

quarta-feira, abril 01, 2020

"Dois papas", uma importante reflexão

Vi semana passado o filme Dois papas, do diretor brasileiro Fernando Meireles. A impressão que me passou foi das melhores. A produção mescla eventos históricos com ficção. A trama é tão convincente que nos passa a ideia de que tudo que vemos é história, ou seja, aconteceu de verdade.

Nos vinte anos do século XX, quatro eventos foram marcantes na história da Igreja Católica, uma das instituições mais longevas da terra. (1) a morte de João Paulo II (Karol Józef Wojtyła); (2) o pontificado de Bento XVI (Joseph Aloisius Ratzinger); (3) sua renúncia; (4) e o pontificado de Francisco I (Jorge Mario Bergoglio), o papa argentino; o primeiro não europeu da história. A renúncia de Bento gerou grande repercussão pública. Afinal, em poucos momentos da história isso havia acontecido. No período moderno da Igreja Católica, os papas ocupam o cargo até a morte. O último a abdicar da cadeira de Pedro havia sido Celestino V, em 1294. 

O filme enfoca a eleição de Joseph Ratzinger para o papado, após a morte de João Paulo II e a preterição de Jorge Bergoglio. Logo em seguida, há um enfoque na pessoa do argentino e o pedido de sua aposentadoria. Bergoglio é chamado a Roma. Encontra-se com Bento XVI no Castelo Gandolfo, a famosa casa de verão dos papas. Nas conversas que são travadas entre Bergoglio e Bento, nota-se o quanto este, o erudito, filósofo, parece viver uma crise de fé.

É a partir desse encontro que há a explanação de duas visões sobre a fé e sobre o papel institucional da Igreja Católica. Bento é o ardoroso defensor de uma Igreja "pesada", dogmática, preparada para enfrentar os dilemas da modernidade com uma resposta pontual, não fundada em relativismos. Segundo ele, como fica evidente no filme, a perda de fiéis por parte da Igreja é um problema do homem moderno que se deixou dominar pelo pecado, pela corrupção. A Igreja precisa combater de maneira enérgica esses desafios. Bento XVI é uma espécie de Bonifácio VIII, um dos papas que eram defensores do poder temporal da Igreja; defensor de uma igreja pesada, galante, institucionalmente, burocrática.

Por sua vez, Francisco é, como o próprio nome evoca, a voz da simplicidade, da renovação, que está aberta ao diálogo. Francisco é a Igreja que saiu à rua para conversar com os homens e mulheres. Bento é a Igreja trancada em seu gabinete, encerrada em sua frieza, em sua tradição teológico-dogmática. O sucessor de Bento XVI simboliza uma Igreja jovem, disposta a sentar com os jovens. A entender os dilemas políticos e éticos do nosso tempo. As transformações pelas quais tem passado o Planeta, estabelecendo profícuos debates ecológicos. Francisco tem criticado a ganância do capital em detrimento do ser humano.

De certa forma, o filme serve para estabelecer um antagonismo entre Bento XVI e Francisco I. Todavia, não se deve negar que Anthony Hopkins, que representou o papel de Bento XVI, consegue impingir uma face humana, dócil e, às vezes, leve e gentil ao pontífice. 

Trata-se de um filme agradável. Serve para nos fazer refletir as múltiplas possibilidades de um movimento, pois o que se procura enfocar é um cristianismo mais dogmático, encerrado em pesadas sentenças dogmáticas e uma face mais leve e generosa da fé. 


sexta-feira, março 27, 2020

"Star Wars: A ascensão de Skywalker" - mais do mesmo

 
Esses dias de quarentena têm servido para, entre outras coisas, assistir a alguns filmes. Por causa de uma demanda categórica, resolvi ver Star Wars: A ascensão de Skywalker, o episódio IX da conhecida saga iniciada or George Lucas ainda nos anos 71 do século XX. Falo em "demanda categórica" por ser fã de Lucas. Queria ver o que fizeram com a intriga cósmica que ele criou.

Como explicitei aqui há algumas semanas, Lucas vendeu para os estúdios Disney os direitos sobre os filmes. Até o momento da venda eram apenas seis filmes. 

Para preencher uma sede, a princípio, dos fãs do filme, começaram a surgir obras quase anuais da saga. Quando não seguem o fluxo dos episódios, abordam perifericamente algum personagem ou evento não muito bem explicitado da saga. O objetivo disso tudo, claro, é o fator financeiro. Busca-se o lucro. As cifras bilionárias, pois ainda existe um público cativo; disposto a quedar-se diante da magia iniciada por Lucas.

Foi em busca da magicidade, que busquei assistir ao episódio IX. Infelizmente, a experiência não foi das melhores. Acredito que não existe mais o que explorar naquilo tudo. Falta imaginação. Há uma previsibilidade em tudo o que acontece. Os conflitos entre as personagens que compõem as hostes que se rebelam contra a Primeira Ordem já não empolga. Mais do mesmo. Os vilões, por sua vez, são imperfeitos em demasia. Houve uma tentativa de inserção do Senador Palpatine contra a Ray, a última Jedi. Teria sido melhor se o conflito entre os dois não tivesse acontecido. O conflito entre os dois possui rápida resolução. Acredito que este seja um dos problemas do filme: os conflitos possuem uma rápida resolução.

O conflito que leva ao clímax é um dos pontos mais baixos do filme. Sinceramente, cansa do início ao fim: milhares de naves imperiais contra naves capengas e sucateáveis. Foi-se o tempo em que havia filosofia, religiosidade, magia; uma crença imponderável, a maravilhosa direção e o olhar clínico de Lucas. Tudo me pareceu bastante descuidado. Sem força imagética. Repetitivo. Suntuosamente, desgastado.

Trata-se de um tipo de obra que não dá sustos no espectador. É redonda em excesso. Já se sabe a que porto vai chegar. 

Com certeza, um dos piores filmes que vi nos últimos tempos.