quinta-feira, julho 08, 2021

"Clarice", a famosa biografia escrita por Benjamin Moser - algumas palavras.

  

Terminei a leitura da aclamada biografia sobre Clarice Lispector, escrita pelo laureado estudioso estadunidense Benjamin Moser. O calhamaço com mais de setecentas páginas chegou por aqui nos idos de 2013. Foi um sucesso imediato. Moser fez um trabalho à altura da magnitude da escritora brasileira, nascida na Ucrânia no início da década de 1920. O trabalho apresentou Clarice para o mundo. Em locais onde ela ainda não era conhecida com os encômios devidos, ela gerou, no mínimo, uma curiosidade. Certamente, como aconteceu ao longo da vida da escritora, houve a indagação: quem é essa escritora de nome tão minimalista – Clarice – digna de ganhar uma biografia tão volumosa?

Moser explica que chegou aos textos de Clarice Lispector por um lance inopinado. Era estudante de línguas. Tinha a intenção de estudar uma língua pouco vulgar. Pensou no russo. Mas acabou optando pelo português do Brasil. Como um processo natural de aprofundamento da língua, teve como tarefa a leitura de escritores brasileiros contemporâneos que produziram textos curtos. Entrou em contato com “A hora da estrela”, o último texto escrito por Clarice. Foi uma paixão inconteste no primeiro encontro. Quem era aquela escritora densa, de texto com uma carga epifânica que beirava o atordoamento? É o que ele tenta descrever ao longo de sua deliciosa prosa.

Clarice Lispector nasceu em Tchecenilk, uma pequena cidade da Ucrânia, no dia 10 de dezembro de 1920. Seu nome de nascimento era Chaya Pinkhasovna Lispector. Nascida em uma família judia, os Lispector tiveram que sair do país em decorrência de uma Guerra Civil. Estudaram vários destinos como possibilidade de uma nova morada. Os dois últimos destinos foram os Estados Unidos e o Brasil. Como possuíam parentes já estabelecidos no Brasil, optaram pelo distante e singular país da América do Sul. De forma ainda mais emblemática, foi o estabelecimento em Maceió, uma cidade pequena, de clima peculiar e que não abrigava uma comunidade judaica. Os parentes ali estabelecidos haviam chegado anos antes e haviam conseguido se estabelecer junto ao comércio. Na ocasião da chegada, Clarice tinha apenas dois anos de vida.

A família de Clarice acabou indo, após algumas dificuldades na capital alagoana, para uma das mais importantes econômica, política e culturalmente capitais nordestinas, o Recife. A família ficou ali por praticamente dez anos. Moraram no bairro da Boa Vista, que possuía uma sólida comunidade judaica. Ali as irmãs Clarice, Tânia e Elisa viveram anos tranquilos. Clarice era a mais nova das três irmãs. Moser registra que, mais tarde, Clarice foi interpelada sobre a sua nacionalidade. Ela afirmou sem embaraços que era brasileira e pernambucana. Nutria uma grande admiração pelo estado nordestino onde passara boa parte de sua adolescência. Gostava da culinária, do sotaque característico, do clima da cidade; do caldo cultural tão próprio da capital pernambucana. Alguns dos seus contos são ambientados em Recife; algumas de suas memórias afetivas estavam carregadas pelos acontecimentos nos dez anos em que viveu no bairro da Boa Vista. Na capital pernambucana foi alfabetizada. Iniciou as primeiras leituras. Encontrou-se com os russos; com Herman Hesse, cuja livro “O lobo da estepe” foi tão significativo.

Benjamin Moser

Mais tarde, muda-se para o Rio de Janeiro com o pai e as irmãs. No Rio, notam-se os eventos que foram fundamentais para a formação profissional e o pleno amadurecimento da carreira de escritora. Quando morou no Recife, Clarice já escrevera algumas singelas histórias. Envia-as para o jornal Diário de Pernambuco. Todavia, os seus textos nunca foram escolhidos. A preterição ocorria com frequência. Ela mesma explicou aquilo talvez tenha ocorrido por causa do intimismo dos textos que escrevia. As pessoas estavam acostumadas a lerem coisas do tipo: “Era uma vez...”. Seus textos não traziam nada dessa marca previsível.

Muda-se com a família de Recife para a Capital do país, o Rio de Janeiro. Iniciou o curso de Direito na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro. E ao concluir o curso, escreve “Perto do Coração Selvagem”, que causou uma sensação enorme. Acabou por chamar atenção de críticos e intelectuais. À época, ela tinha pouco mais de vinte anos. Quem seria aquela mulher com sobrenome estranho? Seria um pseudônimo, alguém que buscava permanecer anônimo? Afinal, quem era a dona daquele texto tão impregnado de psicologismo; de uma estar consigo? Quem era aquela mulher que não ligava para as paisagens externas, que tinha como material para os seus romances as “estepes” interiores?

Procurou conciliar o Direito com a prática do jornalismo. Publica alguns contos. A produção desse material ajuda-lhe a consolidar o manejo do gênero o qual dominou com grande maestria. Ao lado de Lygia Fagundes Telles, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Osman Lins entre outros nomes, Clarice se estabeleceu como uma das mais importantes contistas da literatura brasileira.

Por essa época, entra em contato com Lúcio Cardoso, um dândi, um boêmio, um intelectual inquieto, por quem ela se apaixona. Ela veio, mais tarde, a descobrir que Lúcio era homossexual. Havia uma impossibilidade de levar à frente um relacionamento com Lúcio. Ao longo de sua vida, pelo que se sabe, Clarice envolveu-se emocionalmente somente com três homens – Lúcio Cardoso, Mauri (pai dos seus filhos) e Paulo Mendes Campos.

Mais tarde se casaria com Mauri. O relacionamento consolidou-se enquanto ela ainda cursava Direito. Mauri passou em um concurso para o Itamarati. Foi por conta disso, que Clarice morou por alguns anos fora do Brasil – Itália, Suíça, Estados Unidos.

Enquanto estava morando na Suíça, Clarice ganhou primeiro filho. Escreveu seu segundo romance – “O Lustre”. A escritora era uma jovem recém-entrada na casa dos vinte anos. Uma das marcas que mais incutiram força em Clarice, foi a solidão e a saudade do Brasil. Apesar dos amigos, apesar das oportunidades de conviver com eventos diferentes, Clarice era povoada por grande inquietação. Aliás, esta foi uma característica que a perseguiu por todos os anos de sua vida.

Essa inquietação foi responsável pelo questionamento sobre as condições do seu casamento. Estar casada – e longe do Brasil – gestava questionamentos. Nesse sentido, Clarice oscilava em reflexões à semelhança de Joana, personagem central do seu romance de estreia, “Perto do coração selvagem”. A escritora escavava suas emoções; fazia perquirições sobre suas intenções mais íntimas. Por fim, decidiu voltar para o Brasil com os filhos. Mauri ficou nos Estados Unidos. Ele, ainda apaixonado; buscando reatar o relacionamento. Ela, esquiva. Tentaram uma última vez a aproximação, mas não foi possível. Clarice era imensa, possuía sentimentos indefiníveis e incógnitos. Novamente, pode-se evocar a célebre frase da personagem de “Perto do coração selvagem”: “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome”. O inominável sempre foi o desejo das personagens criadas pela escritora. A vida de Clarice também foi repleta por uma tentativa de entender o indefinível.

Clarice Lispector.

De acordo com os depoimentos de Moser, Clarice era uma mulher que despertava paixão à primeira vista. Fisicamente ela era bastante atraente. Dos seus olhos emanava uma energia envolvente, misteriosa, capaz de criar uma funda impressão em quem, por muito tempo, ficasse próximo a ela. Sua voz possuía um sotaque carregado. Mas este não era resultado da dificuldade de pronunciar os verbetes da língua portuguesa. Ela viera, afinal, para cá, com dois anos. Fora alfabetizada em português. Tratava-se de uma anomalia que ela possuía na língua – e que poderia ser resolvida com uma cirurgia – mas que ela se negou a fazer.

Ao longo de sua vida, Clarice construiu amizades que duraram a vida toda. Mencionam-se, por exemplo, a íntima correspondência que estabeleceu com Fernando Sabino. A amizade construída com Érico Veríssimo, principalmente, com Mafalda, esposa de Érico. E, nos anos finais, com Olga Borelli, que organizou o seu espólio e foi fundamental como amiga e companheira.

A grande questão que se sobressai sobre Clarice é que ala foi uma mulher inquieta, dona de uma alma selvagem; de uma vontade indômita. Sua literatura é fruto de sua personalidade misteriosa e inquieta. À medida que a biografia avança, chegando aos anos finais da vida da escritora, nota-se o quanto ela se tornou uma mulher depressiva e excessivamente pessimista. Ou, talvez, aquilo representasse uma forma de estar consigo.

Na famosa entrevista que concedeu Júlio Lerner, no ano em que morreu, 1977, fica claro o quanto ela se tornara excessivamente dura – com a vida e com ela mesma. O entrevistador pergunta por quem ela sentia raiva. Ela responde indefectivelmente: “Comigo mesma!” Ele vai mais a fundo e questiona: “Por que Clarice?” Ela responde meio displicente: “Sei lá... eu tô meio cansada”. Júlio estica a pergunta um pouco mais: “De quê, Clarice!” Ela volta à carga: “De mim!” É um pebolim existencial. Num último questionamento, que buscava conciliar a inspiração da escritora com a própria vida, Júlio pergunta: “Mas você não nasce e se renova a cada trabalho novo?” Clarice responde de forma enigmática: “Bom... agora eu morri. Vamos ver se eu renasço de novo; por enquanto, eu estou morta. Estou falando do meu túmulo”. Uma pessoa que se revela de forma tão pungente, não poderia escrever outra coisa senão aquilo - e do modo - que ela escreveu.

A impressão que transmite é de uma pessoa que alcançara os cumes da amargura. Em outro momento da entrevista, ela diz que era uma pessoa “alegre”. Se deixava entrever, naquele momento, uma postura negativa era pelo fato de estar cansada. Talvez, como diz Olga Borelli em uma entrevista, fosse o resultado da doença que a mataria – o câncer nos ovários.

O livro de Moser é excelente. O texto possui clareza jornalística. Não enfada. Há uma excelente contextualização histórica. O escritor procura conciliar os dados biográficos da vida de Clarice, mas relaciona os fatos históricos com a habilidade incomum de um bom pesquisador. 

Abaixo, a última entrevista concedida pela escritora.








terça-feira, junho 29, 2021

Algumas considerações sobre "Memorial de Aires", de Machado de Assis

 



“A vida, novamente nos velhos, é um ofício cansativo”
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Machado de Assis, in “Memorial de Aires”.

                 Escrevendo a Joaquim Nabuco, Machado de Assis, no último ano de sua vida, refere-se ao “Memorial de Aires” como sendo o seu “último livro”; além disso, assevera que o escrito era “fraco e enfermo”. Enxergamos nisso mais do que é afirmado. Era o ano de 1908. Machado perdera sua doce e fiel companheira no ano de 1904. Viveria quatro anos como viúvo de Carolina. Os amigos preenchiam os nacos enormes de sua personalidade. Não tivera filhos. Não transmitira a ninguém “o legado de sua miséria”.

                Machado viveu 69 anos. Nasceu em 1839, em um arrabalde da Capital Federal. Parecia destinado ao anonimato como os tantos mulatos que lutam pela existência diariamente em um país repleto de contradições como é o Brasil. Mulato. Epilético. Obrigado a fazer pequenos trabalhos. Forçado a colocar em prática os arranjos, os malabarismos que permitem a vida do povo pobre a vencer os obstáculos. Desde cedo, aprendeu a estimar o valor das palavras. A carpir o valor enorme de cada uma delas no terreno agreste da realidade. Cedo torna-se jornalista. Aprende observando. Não desperdiça as oportunidades. Ler muito. Aquilo que absorve transforma-se em sua interioridade. O primeiro romance sai quando ele completa 32 anos de idade. Antes já excursionara no conto, gênero este que dominou como poucos, e na poesia. Com o “Memorial de Aires” foram nove romances ao todo.

                Os quatro primeiros podem ser colocados na fase experimentalista. São romances de formação. Possuem uma perspectiva romântica. A partir do quinto (“Memórias Póstumas”) brotam obras de um rigor impressionante. Aqui brota o mestre. O narrador sarcástico, onisciente, zombeteiro, crítico capaz de revelar e engenho da alma humana. Esse perfil segue o genial escritor até o seu último escrito, justamente o “Memorial”.

                Memorial é aquilo que faz referência à memória, à lembrança, a eventos já acontecidos; ou pode está ligado a um monumento que se ergue em homenagem a pessoas ou a um assunto. A palavra é polissêmica. Ao denominar “Memorial de Aires”, Machado tinha essa noção. Ele sempre disse mais do que aquilo que está repousado na superfície de cada palavra.

                O texto que Machado diz que é “fraco e enfermo” é o resultado de anotações do conselheiro Aires. A personagem regressara da Europa, de onde vinha aposentado do cargo de diplomata. As anotações que faz em forma de diário fazem jus à sua antiga profissão. Não são irônicas, zombeteiros; não se utilizam da “galhofa”. O narrador foge das polêmicas sociais. Não está à cata de fenômenos faustosos. Observa com o estoicismo daqueles que chegaram à terceira idade. Centraliza a sua atenção na viúva Fidélia, um nome incomum, retirado da única ópera escrita por Beethoven. Machado sabia como ninguém provocar esses lances cômicos, repletos de um humor inteligente.

                O outro personagem do livro é Tristão, um nome retirado de uma famosa lenda europeia; também personagem de uma ópera de Richard Wagner. O escritor já havia feito isso com “Esaú e Jacó”, outra obra repleta de polissemias.

                O interesse da personagem Aires por Fidélia surge de uma brincadeira do conselheiro com a irmã Rita. Ele observa o comportamento da então viúva Fidélia. Parece desinteressado. Demonstra uma mornidão repleta de recatos. Mas, é justamente a contínua insistência em acompanhar o que ocorre com a viúva que denuncia uma contradição.

                A fachada de curiosidade imparcial não se sustenta. Ao acompanhar o desenlace entre Fidélia e o jovem Tristão, Aires fala mais de si. Machado nessa situação revela uma das suas características – que é de ser um extraordinário estudioso da natureza humana.

                 É sempre um grandioso prazer ler Machado de Assis; uma oportunidade enorme de aprendizado. Seguimos com as nossas leituras de literatura brasileira. Seguiremos com “Cidades Mortas”, de Monteiro Lobato.

segunda-feira, junho 21, 2021

Algumas palavras sobre o capítulo 1 do livro de Jó

Propus-me a ler o livro de Jó, uma das obras magnânimas do Judaísmo e do Cristianismo. Pretendo ler um capítulo por dia. Jó é um livro bastante emblemático, pois possui uma teologia suscitadora de possibilidades interpretativas que chega ao terreno do mito. É inegável a sua magnificente estrutura poética. Já o li algumas vezes. Sempre ficou aquela sensação de que há, no livro, uma intenção sapiencial e moral em seu autor. Não se sabe ao certo quem é o seu autor.

Outro fato bastante curioso sobre o livro é a historicidade do seu personagem principal. Quem é Jó? O livro começa situando os leitores geograficamente: “Havia na terra de Hus um homem chamado Jó” (Jó 1.1)[1] .  É uma forma de posicionar o leitor para a história que vai começar. É muito parecido com “Era uma vez,...”, das histórias extraordinárias.

A personagem é apresentada e, de início, já se diz que ele é “um homem íntegro e reto, que temia a Deus e se afastava do mal”. A introdução procura estabelecer duas características para a personagem: (1) uma preocupação moral; e (2) uma preocupação religiosa.

No segundo versículo, os dez filhos de Jó são apresentados. E, somente em quarto lugar, aparece a fortuna da personagem. Não se fala nada a respeito, mas, nota-se que os anos se passam. Jó reúne a família. Há festas, banquetes, congraçamentos.  Um espírito de fraternidade e amor parece existir entre os irmãos. Mesmo com todas essas situações, Jó é escrupuloso ao ponto de oferecer sacrifícios ao seu deus (Jó 1.5).

A partir do versículo 6, há um deslocamento no texto. Assemelha-se a um efeito cinematográfico. “Os Filhos de Deus”, em certo dia, vieram se apresentar a Iahweh. Quem eram esses “Filhos de Deus”? Seriam deuses? Arcanjos? Entidades miríficas que habitam a eternidade? A imagem deixa a entender de que se trata de um panteão. Vale ressaltar que os povos vizinhos de Israel eram politeístas. Ou seja, acreditavam em vários deuses. Do ponto de vista histórico, acredita-se que os judeus absorveram muito da mitologia cananeia. Inclusive, há o entendimento por parte de alguns historiadores, que o próprio Yaweh tenha sido incorporado da mitologia dos cananeus.  

Outro aspecto curioso a respeito dessa narrativa é que entre esses “seres especiais”, apareceu “Satanás”. Observa-se, nesse sentido, que “Satanás” ainda não possui os atributos diabólicos que assume no Novo Testamento. Ainda não é o “Baal Zebuf” (“o senhor das moscas”). Ou seja, aquele que habita o mundo escuro. Questionado por Yaweh a respeito do que fazia, ele responde: “Venho de dar uma volta na terra, andando a esmo”. É como se vivesse de forma desgarrada dos demais seres eternos. Nessa separação, ele “espreita” a criação. É responsável pela fermentação de antagonismos.

Iahweh parece provocar a criatura que acabara de chegar: “Reparaste no meu servo Jó? Na terra não há outro igual: é um homem íntegro e reto, que teme a Deus e se afasta do mal”. (Jó 1.8). Nota-se nesse sentido, que a observação em tom de arrogância provocativa vem do próprio Iahweh. Satanás retruca, afirmando que era muito fácil para Jó possuir todos aqueles atributos. Ele era protegido. “Porventura não levantaste um muro de proteção ao redor dele, de sua casa e de todos os seus bens?”. (Jó 1.10).

O que mais impressiona nesse fato é que, a partir dali, inicia-se uma espécie de aposta meta-histórica. Algo que acontece numa dimensão imiscível, mas que passa a ter efeitos no mundo material. Iahweh autoriza que Satanás inicie um processo de teste extremo à fidelidade de Jó. “Pois bem, tudo o que ele possui está em teu poder, mas não estendas tua mão contra ele”. (Jó 1.12). Diz o texto que “Satanás saiu da presença de Iahweh”.  

Fenômenos terríveis começam a ocorrer com Jó. As suas posses são aniquiladas. Os seus filhos são assassinados ou mortos em desastres naturais. Mas, vale lembrar, que a manipulação dos elementos naturais, estava sendo realizada por Satanás. A consequência desses eventos é a miséria suprema de Jó. O ato de Jó foi ‘rasgar o manto’; ‘rapou a cabeça’; ‘caiu por terra’; ‘inclinou-se para o chão’. São gestos que atestam o não conformismo, mas, ao mesmo tempo, uma humildade, uma aceitação inquestionável. O capítulo 1 finaliza com a sentença objetiva: “Apesar de tudo isso, Jó não cometeu pecado nem protestou contra Deus”.

Nota-se nesse primeiro capítulo de Jó, pelo menos, duas perspectivas:

(1)    O destino e a sorte dos homens são decididos, muitas vezes, em “jogos” ou “apostas” meta-históricas. Iahweh parece ignorar todos os sofrimentos que seriam experimentados por Jó. Há um claro equívoco na perspectiva da bondade divina. A fidelidade como fica evidenciada nos versículos iniciais do livro, não é uma garantia de proteção e zelo divino. A principal preocupação de Iahweh é provar uma tese: a de que ele era temido por Jó, independentemente da situação. Ou seja, muitos dos eventos trágicos – enfermidades, acidentes variados, casos inexplicáveis – podem indicar a presença de um jogo. Isso do ponto de vista das leis naturais é absurdo. Há ainda uma clara falta de lógica no que tange ao controle dos fenômenos.

 (2)  A estrutura do texto possui claros elementos mitológicos. Assemelha-se às narrativas dos povos vizinhos a Israel. Afinal, a noção de seres eternos que reúnem para decidir o destino dos homens possui fortes relações com a mitologia grega, por exemplo. A intriga entre os desejos divinos, os caprichos que acometem os deuses, estão presentes na narrativa. Seres eternos estão preocupados com aquilo que os homens fazem ou deixam de fazer. Sentimentos humanos são direcionados a seres tidos como perfeitos. Essa personificação é comum em histórias de contos maravilhosos. Para aquele que crer, que aceita irrefletidamente os elementos do texto sem notar esses arranjos discrepantes, acomodam-se com facilidade esses eventos da narrativa.

Vamos ao capítulo 2.   



[1] Na leitura, estou usando a excelente tradução da Bíblia de Jerusalém.

 

segunda-feira, junho 14, 2021

"Escolha o seu sonho", de Cecília Meireles



“Ir pensando em coisas cada vez mais distantes: a rua, a cidade, a estrada, o país, o mundo, o espaço, a eternidade...”
Cecília Meireles in “Escolha o seu sonho”, p. 95.


Em meu processo de leitor amador e incipiente, sempre que imagino a poetisa Cecília Meireles, me vem à mente uma delicada imagem de uma fada a fazer arranjos suaves com as palavras. Mas, deixemos de lado essa construção banal e piegas. Essa impressão ganhou contornos mais sólidos, pois terminei a leitura de um dos textos da autora do “Romanceiro da Inconfidência”.

A leitura realizada não é de uma das dezenas de livros poéticos que escreveu. Trata-se de uma compilação de crônicas escritas sobre os mais variados assuntos, denominado apropriadamente de “Escolha o seu sonho”. “Sonho” é uma palavra com poderes intrínsecos nos textos de Cecília. Considerada uma das grandes poetisas da Língua Portuguesa, a escritora carioca recebeu inúmeros prêmios nos países os quais visitou.

Cecília é considerada uma autora modernista. Todavia, o seu modernismo não se preocupa com os jogos herméticos de sintaxe; com a manipulação de estruturas vernáculas para criar efeitos mirabolantes de linguagem, como característico em certos escritores modernistas. Não. O texto de Clarice é límpido como um riacho alpino. É singelo. É claro. Seus textos são considerados, do ponto de vista do enquadramento técnico, como neossimbolistas. Clarice transcende a realidade com poucas imagens. De repente, mergulhamos em um sonho e nos vemos desnudos diante de um espelho, abraçados pelas delicadezas e sublimidades da Via-Láctea. Quase sempre somos impelidos à contemplação; a eflúvios brandos; com a textura de nuvens brancas, brandas, macias.

“Escolha o seu sonho”, mesmo sendo um conjunto de textos em prosa, não deixa passar desapercebido essa delicadeza repleta de simplicidade da escritora. Os textos curtos partem de situações banais do dia a dia e que, de repente, são transcendidas por uma linguagem singela como uma pincelada certeira que colore um quadro. Quando menos se percebe somos impelidos a uma paisagem que se descola do corriqueiro. O olhar privilegiado e sensível de Cecília é capaz de transformar qualquer fato cotidiano em uma joia para uma reflexão irresistível. 




O livro reúne 45 crônicas. Busquei ler uma por dia; às vezes, duas ou três. A ideia era refletir, meditar, ruminar as ideias expressas em cada texto. Apesar de serem textos simples, são densos de conteúdo. Como por exemplo, a crônica que descreve uma ida à feira numa tarde de sábado. Ou ainda, sobre quando a escritora se encontrou com nobelino escritor americano William Faulkner. O texto límpido como um regato, o qual conseguimos enxergar o fundo, deixou-me impressionado. Li-o duas vezes seguidas para me deixar encharcar pela sua prosa superior. Em certo momento do texto ela diz, referindo-se às falas enunciadas por Faulkner: “Foi um breve discurso em que afirmava a fé no espírito humano. Sua voz ainda parecia mais desaparecida ao estrugir dos aplausos. Lera, com simplicidade, pareceu-me que sem nenhuma ênfase. Pareceu-me que até com displicência. Mas o que dissera tinha eternidade” (destaque intencional). p. 56

Em suas deliciosas crônicas como se fosse uma manhã ensolarada, de vento fresco e céu azul, Cecília foge dos hermetismos. Ela possui uma fórmula capaz de transformar qualquer coisa em sagrado. Impressiona o quanto ela conseguia descomplicar o mundo. Parecia possuir uma chave que escancarava uma realidade elevada, alta, sem as peias do medíocre, do afetado, do banal.

Como o mundo precisa da singeleza, da delicadeza e da simplicidade do texto ceciliano!

sábado, junho 12, 2021

Vista Cansada - por Otto Lara Resende


Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa ideia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.

Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.

Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima ideia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença. 

Daqui

domingo, maio 30, 2021

"As ideias inertes"


Mês passado, o extraordinário Alfredo Bosi faleceu, vitimado pela Covid-19. Uma perda verdadeiramente inestimável para a inteligência brasileira. Muitas homenagens ao seu legado foram direcionadas honesta e devidamente. Procurei no Youtube algumas de suas palestras. Pus-me a escutar uma em particular, feita (penso) em 2015, na Academia Brasileira de Letras – vale ressaltar que Bosi fazia parte do corpo de imortais da instituição fundada por Machado de Assis.

A palestra tratava sobre o conceito de cultura e seus desdobramentos. O próprio Bosi diz na palestra que o conceito de cultura é complexo e carece de enormes esforços reflexivos. E, ao longo de sua fala, buscava conciliar a reflexão sobre o conceito de cultura com experiências e histórias vividas, o que tornava a sua fala irresistível. Bosi utilizava eventos aparentemente banais e os transformava em uma reflexão poderosa. Em dado momento, ele disse algo que me deixou em suspensão. Evocando o filósofo e educador estadunidense John Dewey, o autor de “A história concisa da literatura brasileira” fala em “ideias inertes”.

Ele explica que a expressão era extraída do pensamento de Dewey, um dos nomes mais importantes da filosofia dos Estados Unidos. Dewey é considerado como um dos fundadores da corrente pragmatista de filosofia ao lado de William James, Charles Sanders Peirce e Josiah Royce. Para o pragmatismo uma ideia é boa, portanto, aproveitável, quando o conjunto dos seus desdobramentos resulta em algo prático.

Com sua maneira muito singela, mas com grande vitalidade e erudição, Bosi fala sobre as ideias que podem morar no campo da abstração e, portanto, do alto idealismo, mas que nunca se transformam em substância prática. Coloquei-me a pensar sobre essa questão – “ideias inertes” – e perceber o quanto a sociedade e a nossa própria vida podem estar encharcadas por ideias estagnadas. Um exemplo é a quantidade de leis existentes no nosso país. Somente as federais são mais de quatorze mil, sem mencionar as estaduais e municipais. Essas leis são abstrações, são fossilizações ideais. Existem apenas como um regulamento ideal. Enquanto não se transformam em prática; enquanto não são se tornam em eventos práticos, são meras ideias que pouco servem. Estão “inertes” em sua inamovibilidade. E o que mais testemunhamos é o desrespeito a essas normas. Uma sociedade que faz leis, mas não as segue, verdadeiramente, considera esse conjunto normativo como “ideias inertes”.

Do mesmo modo, há aqueles sujeitos que se cercam de “ideias inertes”; de sonhos inertes, que não se tornam em movimento. Importante dizer que existem ideias que são como o vento: elas são intangíveis. O que seria do mundo se não existissem as ideias intangíveis? Seríamos homens e mulheres apoéticos. Nós humanos temos uma necessidade de abstrair. A literatura e a arte em geral são campos das ideias e abstrações. Acredito que não era sobre esse tipo de abstração à qual Dewey estava se referindo.

Penso que Bosi ao evocar Dewey queria justamente chamar a atenção para o fato de que é preciso tornar concreto aquilo que se pensa. Sair do mundo dos pensamentos que não se encaminham para a vida. Abandonar as resoluções estéreis, aquelas que pouco contribuem com a história. Neste sentido é importante pensar em João Cabral de Melo Neto e seu fabuloso poema “A Educação pela pedra”. Diz ele que é importante experimentar da pedra “sua carnadura concreta”. Sim! É importante experimentar a “carnadura concreta” da vida. Sentir a sua resistência! Seu bafo quente! Seu arrojo, seu movimento. “Captar a sua voz inenfática, impessoal”, ainda citando o poema de João Cabral de Melo Neto.

O que é “inerte” não muda, não transforma, não exaspera, não comove o mundo.

sexta-feira, abril 30, 2021

O Concerto para piano em sol maior, de Ravel


Existem compositores que são cerebrais. É o caso, por exemplo, da música de Prokofiev; ou de Schoenberg. Escutou-os sabendo o que vou encontrar. É como se eles dissessem: “Nós não estamos aqui para que você sinta; tudo aqui é seguro e milimetricamente contado”. Todavia, há outros compositores que tocam as cordas das emoções. Visito-os e, de imediato, já sou colocado numa planície com horizontes misteriosos.

Sou acometido por essas ideias após escutar o Concerto para piano em sol, do compositor francês Maurice Ravel. Ravel é um dos compositores de que mais gosto. Nascido em 1875 e morto em 1937, Ravel é um dos compositores mais singulares e importantes da primeira metade do século XX, ao lado de Debussy, de quem herdou o lugar no rol de relevância da música francesa. Vale mencionar ainda a morte de Gabriel Fauré em 1924. Debussy morrera em 1918.

Olhando do ponto de vista da produção, nota-se que Ravel não possui uma obra numerosa. Era muito frequente, demorar de um a dois anos para terminar uma obra. Sua produção vai até o ano de 1933, quando passou a enfrentar graves problemas de saúde decorrentes de um acidente automobilístico.

O compositor escreveu dois concertos para piano. O primeiro deles é o Concerto para mão esquerda, escrito nos anos de 1929 e 1930. E, logo em seguida, encontramos o Concerto para piano em Sol, cuja escrita começou em 1929, mas que foi concluída mesmo em 1932. Ou seja, é uma das suas últimas obras. Trata-se de uma das mais bonitas obras para piano já escritas. Aliás, o Concerto para mão esquerda também pode ser colocado nessa categoria. De maneira mais extensiva, podemos afirmar que tudo o que Ravel escreveu possui um lugar especial na história da criação artística.

Em 1928, Ravel excursionou pelos Estados Unidos. Ficou impressionado com então efervescente movimento jazzístico que eclodia com muita força naquele país. Essa influência pode ser encontrada no Concerto em Sol. Outra referência é à música espanhola. 

 

O Concerto para piano em Sol possui três momentos. O primeiro movimento possui aquela orquestração perfeitamente construída, misturado aos elementos do jazz e da escola espanhola. O terceiro movimento retoma o tema trabalhado no primeiro movimento, tirando-nos  do sonho existente no segundo movimento. No terceiro movimento notamos a energia sem freios, estimulada pelos gritos resfolegantes do clarinete e do flautim. O trombone solta urros fanhos e é contrastado pelos floreios de uma pequena fanfarra.

Todavia, o que me chama a atenção nesse concerto é o segundo movimento. É um tipo de música para morrer e viver. É uma das músicas mais belas já produzidas no seio grávido de possibilidades do universo. Nele encontramos a alegria da vida, mas, também, vislumbramos as dores da morte. O compositor afirmou certa vez que, para escrever o segundo movimento, inspirou-se no Larghetto (segundo movimento) do Quinteto para clarinete, de Mozart. Escutei há pouco o aludido movimento e pude concordar com Ravel. Há beleza excesso nesse fragmento da música do compositor austríaco.

O inquestionável cenário de sonho do segundo movimento da obra de Ravel, revelam uma poética delicada. Somos conduzidos pela mão; impelidos ternamente por momentos doces. Tudo parece suspenso. Sentimo-nos nobres, exultantes e a vida e a realidade deixam de lado sua face incognoscível.  Os elementos complexos e nós herméticos que custamos a administrar se tornam rarefeitos. É uma visão do paraíso; das inomináveis visões de um sonho cristalino e iluminado. Quanta beleza colocada em nove minutos de música. Aliás, a existência inteira colocada no idílio sensível do piano.  

quarta-feira, abril 21, 2021

"Punk", o documentário.



“Eu nunca vi o ‘punk’ como movimento. Na minha opinião, eles são politizados [os movimentos]. Eles têm uma finalidade para conseguir alguma coisa. Mas, como movimento, qual era o objetivo do ‘punk’? Consegui mais adeptos? Isso ele conseguiu rápido. ‘Punk’ é uma cultura; uma cultura de rebeldia. Nós estamos falando de uma cultura energética e inspiradora. Ela estimula a adrenalina e o cérebro a fazerem coisas, mesmo que seja só sair de casa e quebrar tudo”.

Jello Biafra, ex-vocalista do Dead Kennedys.

Terminei de assistir à série “Punk” (disponível no GloboPlay). Trata-se de um documentário, mas foi dividido em quatro episódios, o que passa a ideia de ser uma série. A primeira confissão a ser realizada é de que se trata de algo muito bom. Cada capítulo (com pouco mais de cinquenta minutos) procura trabalhar a cronologia do movimento. Dessa forma, procura-se explorar o movimento, do final dos anos 60, ao final dos anos 90. Ao terminar, fica uma mensagem de que ainda há algo no ar; o movimento ainda continua respirando – apesar das muitas mudanças na indústria fonográfica - e inspirando jovens. É só olhar na direção certa.

O documentário possui como curador e produtor um dos nomes mais importantes da história do rock – Iggy Pop, fundador do “The Stooges”, uma banda considerada por muitos como aquela que iniciou o movimento. Iggy conta como se deu a criação da banda, revelando muitas das atitudes do grupo no final dos anos 60. Suas apresentações eram, geralmente, marcadas por atitudes e acrobacias impensadas. O público ficava embasbacado com as performances.

Logo em seguida, outros nomes importantes vão surgindo. Um dos pesos pesados que devem ser mencionados é o MC5, que esbanjou ao longo de sua trajetória um viés mais político. Foi perseguido por isso, tornando-se alvo da violência policial.

O surgimento do termo “punk” é controverso. Quando se deu a denominação aos seguidores do movimento de “punks”, a palavra possuía uma conotação negativa. Ela estava associada ao contexto homoafetivo. Aqueles que eram chamados assim, haviam se tornado alvo do julgamento moral.

O documentário desloca os eventos em dois grandes centros – EUA e Inglaterra. Sendo assim, a primeira geração do movimento foca em bandas como “The Stooges”, “MC5”, “New York Dolls”, “The Dead Boys” e “Blondie”. Vale ressaltar que o movimento foi marcado, nos EUA, pelo surgimento dos Ramones, que consolidou uma estética muito peculiar – calças “jeans” rasgadas, blusa branca, Jaqueta de couro, tênis e cabelos compridos. Era o visual básico de motoqueiros com fisionomia para poucos amigos. Trata-se um visual arquetípico e que remete ao movimento, à juventude e à liberdade. Influenciados pelo “The New Yok Dolls” e pelo “Television” na cena nova-iorquina, os “Ramones” eram figurinhas carimbadas e atrações cada vez mais relevantes no lendário bar CBGB. Vale ressaltar que o CBGB foi responsável por abrigar essas abandas, servindo como cenário para manifestações emblemáticas e revolucionárias de uma geração. Em poucas palavras: impossível dissociar a importância do bar para a consolidação do movimento.

Logo em seguida, nota-se que há uma mudança para a Inglaterra. Em terras da rainha, o “punk” ganha uma forte carga política e social. Enquanto o movimento nos EUA flertava com elementos banais – brincadeiras, conseguir garotas; brincadeiras em torno de bebedeiras etc, na Inglaterra houve um fermento crítico intenso.

No final dos anos 70, a Inglaterra passava por sérios problemas econômicos. Tornou-se uma plataforma para os experimentos neoliberais de Margareth Thatcher, “a dama de ferro”, a partir de 1979, diminuindo a força dos sindicatos, desregulamentando o estado inglês, bem como privatizando boa parte dos serviços públicos. Passou a haver uma menor cobertura social para população menos favorecida. Os jovens se viam numa situação instável: ou estavam desempregados ou vendiam sua força de trabalho por um salário irrisório.

Foi assim que, abandonou-se a cultura pacificadora dos “hippies” por um movimento que usava o poder jovem e a atitude para criticar o sistema. O movimento “punk” inglês viu surgir bandas engajadas. É caso do “The Clash”. Mas, pode-se citar o “The Sex Pistols”, “The Damned” e “The Slits”. Curiosamente, conforme conta o documentário. Essas bandas ficavam restritas em guetos – bares e clubes. Não havia uma capilaridade do movimento em solo inglês. Ele estava restrito a certos grupos. Foi a ida dos “Ramones”, a banda nova-iorquina, um dos ícones do movimento, que tudo mudou. Após a excursão do grupo de Joey Ramone, a juventude inglesa foi incendiada. Foi graças a isso que o tão famoso movimento do “punk” inglês não se tornou um movimento marginal, mas acabou ganhando as massas.

Ao longo da explanação desses eventos, Johnny Rotten, antigo vocalista do “Sex Pistols” faz inúmeras afirmações sobre os eventos marcantes com a sua banda e com a história que vivenciou. Nota-se um “Rotten” insinuantemente controverso, gordo, malvestido, indigesto, “vomitando” palavrões com bastante naturalidade, o que transparece o aspecto mais virulento de sua personalidade. Se ainda se encontra assim, imagine à época em que os “Sex Pistols” estavam no auge.

Logo em seguida, o documentário volta-se para o movimento nos Estados e o quanto de violência passou a existir. Outro fato importante – isso já nos anos 80 – foi o surgimento do “hardcore”, uma sonoridade mais rápida e agressiva. Vale ainda mencionar o surgimento de de bandas como “Black Flag”, “Dead Kennedys”, “Bad Brains” as quais passaram a ser seguidas por grupos fascistas e nazistas. E alguns – como o caso do “Dead Kennedys” – passaram a ser perseguidos por eles. Outro fato é o machismo e a misoginia incrustada no movimento. As mulheres não possuíam muito espaço.

Criou-se, por conta disso, mais tarde, o movimento feminista “Riot Grrrl”. E desse movimento surgiram bandas como “L7” e “Bikini Kill” para denunciar a misoginia existente no movimento. O movimento “Riot Grrrl” buscava revelar o quanto aqueles homens brancos que se diziam oponentes do sistema, eram misóginos. Sendo assim, as bandas participantes do movimento buscaram enfatizar o protagonismo das mulheres como participantes do “punk”. Ou seja, o quanto elas poderiam contribuir.

No último episódio, há uma ênfase nas bandas que surgiram nos anos 90 – “The Offspring”, “NOFX”, “Green Day”, “Pennywise”. Os membros desses grupos revelam o quanto o movimento “grunge” foi importante para alavancar essas bandas, principalmente o Nirvana. Para eles, a banda de Kurt Cobain foi responsável por alavancá-los quando do lançamento de “Nevermind” (1991), o icônico disco do Nirvana.

Finalmente, há uma reflexão sobre as mudanças ocorridas com o advento da internet e o quanto esta foi responsável pelo enfraquecimento do movimento. Para eles, a possibilidade de “baixar” música matou a indústria fonográfica, dando prejuízos absurdos às bandas. Claro, que essa é a perspectiva dos artistas – e, por isso, válida. Afinal, eles sentiram verdadeiramente as mudanças. Com o advento da internet foi necessário se repensar a forma como as músicas deveriam alcançar o grande público. É um problema para as gravadoras, mas também para os artistas. As tecnologias não devem ser encaradas como vilãs apenas; devem ser vistas, também, como aliadas potenciais.

O documentário é muito bom. Não inova. Quem já conhece o movimento não vai se sentir impressionado. É algo relevante feito para aqueles que querem ter um contato inicial com o movimento. Duas qualidades devem ser apontadas: (1) as imagens muito bem escolhidas; (2) o depoimento de importantes nomes que fizeram o movimento: Flea (“Red Hot”), “Iggy Pop” (“The Stooges”), Henry Rollins (“Black Flag”), Debbie Harry (“Blondie”), Jello Biafra (“The Dead Kennedys”), Marky Ramone (“Ramones”), Wayne Kramer (“MC5”), Duff MacKagan (“Guns n’ Roses”), entre outros. 
 

segunda-feira, abril 12, 2021

“Inocência”, de Visconde de Taunay.





Durante o século XIX, alguns escritores deram vasão a uma experiência sertaneja. O Brasil com sua extensão enorme e seu interior ainda pouco explorado promovia um impulso a essas intenções. Procurava-se com isso encontrar a essência do homem brasileiro nos vastos rincões ignorados do país. Vale mencionar que o Brasil era um país que ainda não conhecia o florescimento urbano que somente ocorreria com o deslocamento do eixo econômico para as grandes cidades, principalmente com a industrialização ocorrida a partir de 1930, coincidindo com o fim da República Velha, essencialmente oligárquica e agrária, e os anos do Governo Vargas.

Ainda no século XIX, escritores como Bernardo Guimarães, Franklin Távora, José de Alencar e Visconde Taunay, tentaram descrever essa face ignota do país. Soma-se a isso a estética idealista do romantismo, preocupado com a construção de arquétipos com força representativa.

Nesse sentido, como afirma Alfredo Bosi, Visconde de Taunay (1843-1899) é aquele que “tinha condições de dar ao regionalismo romântico a sua versão mais sóbria”. Essas características saltam de imediato do texto de Taunay. O seu nome sempre me chamou a atenção. Sempre mantive contato com o seu livro mais famoso – “Inocência” – mas sempre me ausentei dele por causa do nome (sic). Julgava que o nome estranho, talvez, evidenciasse uma história enjoativa. Claro, trata-se de um critério tolo – julgar um escritor pelo nome. Taunay tinha ascendência francesa. O seu nome era Alfredo Maria Adriano d'Escragnolle Taunay. Foi político, escritor, sociólogo, engenheiro militar, historiador, músico, professor. Essa plêiade de formações atesta sua estatura intelectual bem como a influência do seu texto.

Participou da Guerra do Paraguai como engenheiro militar, entre os anos de 1864 e 1870. Essa experiência é narrada em “A retirada da Laguna”.

O romance “Inocência” é a sua mais relevante produção artística. O livro é agradável de ser lido. Escrito em 1872, “Inocência” já evidencia as mudanças estéticas por que passava o Romantismo, que marchava em direção ao Realismo e ao Naturalismo.

Taunay procura retratar a história da doce, mas infeliz “Inocência”, que vive na província de Mato Grosso. O escritor procura retratar com rara beleza a natureza do lugar. Isso, por exemplo, se faz sentir no capítulo que abre o livro. Somos bombardeados por uma escrita lapidada, preocupada em fotografar o espaço natural. Em Taunay, já não percebemos as incursões exageradas de Alencar. Taunay é mais “jornalístico”. Talvez, a carreira militar tenha dado a ele esse aspecto mais contido. É, por isso, que Bosi fala em “sobriedade”.
Visconde de Taunay

“Inocência” é um romance em que o verossímil é possível. Não possui um aspecto puramente ideal ou mítico como em Alencar – outra vez.

Como conhecedor das ciências humanas – história e sociologia – Taunay procura retratar os valores e costumes sertanejos. Mas, vale ressaltar que essa característica não tem nada a ver com o naturalismo. Taunay não está preocupado em comprovar uma tese; não torna os seus personagens em meros títeres do meio.

Taunay mescla o romantismo com um enredo carregado de realismo. Observando as características da obra, pode-se afirmar que o livro possui romantismo, realismo, drama e comédia. Os personagens apresentam características e humores bastante variados. Vai desde o comportamento atrapalhado do alemão Meyer ao aspecto rude e inculto de Manecão; do aspecto sombrio de quem se esgueira pelos cantos do anão Tico ao altruísta e apaixonado Cirino; da bondade angélica e amedrontada de Inocência ao rigor conservador de Pereira.

Outro fato importante a ser mencionado é como a figura da mulher é mostrada na obra. Pereira promete a jovem Inocência a Manecão. Vale especular que ela tivesse de 15 a 17 anos. A promessa deveria ser cumprida. A questão da honra prevalecia sobre a vontade individual. Pereira ameaça a própria filha, caso ela não cumpra o acordo e case com Manecão.

O final do livro é shakespereano. O amor impossível entre Inocência e Cirino faz lembrar a história de Romeu e Julieta, uma das histórias mais famosas da literatura.

Vamos, agora, ao quarto livro – “Memorial de Aires”. Já o estamos lendo.

quarta-feira, abril 07, 2021

Morre o gigante Alfredo Bosi


Morreu, hoje, o professor Alfredo Bosi. Uma perda irreparável. Figura de ponta do pensamento brasileiro, Bosi foi fulminado pela COVID-19, essa matadora implacável e negligenciada por um governo associado ao vírus. Bosi tinha 84 anos de idade. Estava lúcido. Apesar da idade, tinha muito ainda o que contribuir com o país. 

O primeiro contato que tive com ele se deu no curso de Letras. Qualquer sujeito que estudar literatura, precisa passar por ele. Seu "História Concisa da Literatura Brasileira" ainda hoje é uma referência. Apesar do nome "conciso" trata-se de uma manual de análise escrito de forma clara, com as palavras medidas, polidas, sobre a produção literária do Brasil. Há uma forte preocupação em fazer com que o social e o histórico dialoguem com a produção estética. E aí reside uma das suas marcas.

Mais tarde, comprei outros livros dele: "Dialética da Colonização", "Machado de Assis - o enigma do olhar" e "O ser e o tempo da poesia". 

Ao longo da vida ganhou inúmeros prêmios. De voz mansa e vocábulos medidos, Bosi deixa enormes lembranças nos seus ex-alunos. Seguem abaixo, algumas palavras de Lillia M. Schwarcz, extraídas do Instagram

"Acaba de falecer o querido Professor Bosi, que deixa de luto e enviuvados uma legião de alunos, amigos, colegas e admiradores. Alfredo Bosi tinha formação em literatura italiana e vasto conhecimento em filosofia, passando por Vico, Hegel, Croce, Lukács e Gramsci. Com o tempo passou a se dedicar sobretudo à literatura brasileira, escrevendo livros fundamentais como “História Concisa da Literatura Brasileira”, já em 1970. Da mistura entre Gramsci e Croce inventou uma forma própria de crítica literária que, sem abrir mão da análise estética, incluía a questão política e social. O professor Bosi foi militante junto a um grupo operária em Osasco nos anos setenta e também atuou no Centro de Direitos Humanos D Paulo Evaristo Arns, e na comissão de Justiça e Paz. Os livros “O ser o tempo da poesia” (1977), “Dialética da colonização” (1992), “Literatura e resistência” (2002) e “Ideologia e contraideologia” (2010) são provas do intelectual brilhante, do crítico literário humanista e comprometido com a democracia. O professor Bosi era membro da Academia Brasileira de Letras, foi casado com sua eterna companheira Ecléa Bosi, e era pai de Viviana, crítica literária como ele, e de José Alfredo, economista com formação em ciência ambiental e médico. Bosi estava internado com Covid e não resistiu. Precisávamos tanto dele lutando conosco por um país mais justo e democrático. Vai fazer e já faz muita falta".

Abaixo, três vídeos do mestre com sua profundidade e elegância eruditas.  


segunda-feira, abril 05, 2021

A metáfora da ressurreição

 




“Em verdade, em verdade, vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto”. Jo 12.24

Ontem, a cristandade comemorou a Páscoa, que tem a sua origem no judaísmo. Para os judeus, a instituição da Páscoa está relacionada com a saída do Egito, conforme se narra no Antigo Testamento. Páscoa é a festa do Pesach, cujo significado é “passar adiante”. O rito alicerça-se em duas ações: comer pão ázimo e imolar o cordeiro. Quando da saída do povo de Israel do Egito, conforme descreve o livro de Êxodo, foi necessário derramar esse sangue sobre o umbral da porta para que a família fosse poupada pelo anjo exterminador.

No cristianismo, a Páscoa está ligada à ressurreição de Jesus. Para os cristãos, trata-se do dia em que Jesus abandonou o túmulo, após o terceiro dia da sua morte. Este é um fato que intriga. Não existem provas materiais desse evento. Apenas a Bíblia o descreve como sendo um fato histórico. Todavia, não há indícios antropológicos de que isso tenha se dado com o grau de facticidade narrado pelos evangelhos. A Bíblia não é um livro de ciências ou de história; e até mesmo os fatos históricos, estão eivados de erros e incertezas.

Segundo o escritor e estudioso do Novo Testamento Bart D. Ehrman, um dos grandes críticos dos dogmas cristãos, o que torna vida Jesus um fato singular para os seus primeiros seguidores foi a crença de que ele tenha ressuscitado. Sua mensagem em um primeiro momento não chamou atenção de muitos judeus. Afinal, havia inúmeros pregadores com mensagens apocalípticas. Todos eles denunciavam o descalabro moral de Israel, a dominação romana e uma possível chegada de um domínio divino a fim de libertar Israel do julgo e da humilhação. Segundo Ehrman diz em seu excelente livro “Como Jesus se tornou Deus”, sobre nenhum deles pode se afirmar que houve ressurreição. Essa crença singular dá a Jesus um atributo particular.

E aqui reside o problema, pois, os escritores da Bíblia – muitos deles viveram 50, 60, 70 anos após os supostos eventos narrados – e, assim, não testemunharam os fatos descritos. Houve um movimento, inicialmente, estruturado numa tradição oral sendo transmitida pelos primeiros seguidores de Cristo. Alguém pode dizer, mas Mateus e João foram discípulos. Não se sabe ao certo se os dois evangelhos foram escritos por essas pessoas. É possível que o Evangelho segundo Mateus tenha sido escrito entre os anos de 70 e 115 d.C. por um autor anônimo de origem judaica, que utilizou uma narrativa já existente. Já o Evangelho segundo João, também, foi escrito por autor anônimo, provavelmente numa data entre 90 e 110 d.C. Em seu estilo é o mais distinto dos evangelhos, constituindo um evento à parte. As frases estão carregadas de uma forte intencionalidade teológica. Os outros evangelhos se pautam nos exemplos, nas ações de Jesus. João, por sua vez, é fortemente verbal; chancelado por afirmações mistificadoras.

O que quero enunciar após essa digressão é que a ressurreição de Jesus é um registro da fé, mas não da história. Fé e história nem sempre estão conectadas. Eu posso ter fé sem, necessariamente, conectá-la a eventos materiais. Em muitas situações, quando a história não cabe ou não se harmoniza com as categorias da religião, aquela acaba sendo preterida e subjugada pela fé.

A ressurreição de Jesus – não falo Cristo, pois Cristo é uma categoria teológica – deve ser compreendida como um evento metafórico, mitológico. Desse suposto evento, deve-se estruturar esperança em melhores dias; a busca pela afirmação da vida; uma crença inabalável na existência. Todavia, isso não deve acontecer pelo fato de ter havido uma ressurreição física – esta não existiu – mas, na certeza simbólica de que algo com esses termos, faz brotar dentro de cada um de nós um apego pela vida. A ressurreição é uma aposta na esperança. Em dias tão turbulentos como os nossos, a metáfora da ressurreição nos anima a caminhar, a “passar adiante”. É uma posta de que a vida pode vender a morte – e isso nunca foi tão necessário no Brasil como agora.