sexta-feira, janeiro 28, 2022

"Ran", uma verdadeira obra-prima

 

“São os deuses que choram. Nos vêem a matar uns aos outros... vez por outra, desde o início dos tempos. Eles não podem nos salvar de nós mesmos”.

Do filme "Ran". 

 

                A cena final do filme “Ran”, de Akira Kurosawa, é uma das mais belas e pessimistas da história do cinema. O diretor japonês que era um mestre das sutilezas, coloca uma pessoa cega, portando uma pequena fotografia de Buda, caminhando lentamente, arrimada por uma bengala à beira de um abismo. De repente, ela se dá conta de que à frente há apenas o vazio. Assusta-se. A tomada da cena se afasta. A poderosa música de Toru Takamitsu mistura-se marcantemente à cena, criando um belo efeito. O filme termina. A mensagem está dada: o ser humano é uma espécie de cegos à beira do abismo, sustentando-se pelo fio indefectível da religião.

                “Ran” é uma obra soberba; típica do grande diretor nipônico. É grandiosa, magnífica. É épica. Está carregada de simbologias; de uma atordoante reflexão. Um grupo habilidoso de artistas em ação e a mão de Kurosawa, que conduz os detalhes técnicos à perfeição.  

                O filme é baseado na tragédia shakespeareana “Rei Lear”, escrita em 1605. Kurosawa transpõe a história para a tradição japonesa. Hidetora Ichimonji é um venerável e respeitável patriarca de um reino poderoso, construído a partir de batalhas. Ele é respeitado pelos três filhos e por um séquito de súditos. Próximo dos setenta anos, decide dividir o seu reino entre os seus três filhos. O desejo de Hidetora era criar uma sociedade entre os filhos para que eles governassem juntos. Segundo ele, isso tornaria a condução das terras algo que duraria muito tempo. A harmonia dos três fortaleceria ainda mais os domínios conquistados.

                Sem querer contar os detalhes do filme, mas apenas descrevendo os elementos essenciais da obra, importa dizer que após a decisão, os filhos são transformados pela expectativa do poder.  Somente alguém como Kurosawa para pegar uma obra de Shakespeare - que revela tanto sobre a natureza humana - e imprimir-lhe as feições corretas. Kurosawa consegue impressionar com a atuação dos atores, a espetacular trilha sonora e a fotografia, que revela, nas tomadas de câmera, detalhes arrebatadores. As cenas de batalhas estão entre as mais belas da história do cinema, assim como já era comum em sua filmografia. “Em os sete samurais” (1954) o diretor utiliza técnicas que fariam escola; seriam praticamente obrigatórias em filmes de guerra e de ação. Em “Ran” os exércitos parecem bailar. Há uma dança da morte. E o desfecho dessa apoteose é a destruição, o caos e seus aspectos deletérios.

                Essas características são adensadas pela revelação da psicologia dos personagens. “Ran”, que significa “caos”, “tumulto”, “desordem”, é um estudo sobre a natureza humana e suas metamorfoses diante do poder. Nota-se ainda uma preocupação em fazer refletir os efeitos imprevisíveis das escolhas e de suas consequências. Demonstra ainda como certas escolhas ganham proporções inadministráveis.

O filme todo é uma cética poesia que reflete sobre o potencial de beleza, mas, ao mesmo tempo da violência, vingança e ganância pelo poder.

terça-feira, janeiro 25, 2022

Das verdades inconvenientes

 


O que nos distingue da fruta é que ela não consegue construir símbolos, discursos ou aspirações transcendentes.

quinta-feira, janeiro 20, 2022

Sobre "Abra e Leia", de Milton Ribeiro

           

Conheço o Milton Ribeiro desde os idos de 2008. Encontrei-o após fazer escavações na rede à procura de música clássica. Achei, graças ao Google, o PQPBach. Inicialmente, fiquei boquiaberto, embasbacado com a quantidade de material disponível para baixar. Estava à procura de gravações. Àquela época, não existia Spotify e, se quiséssemos ouvir uma boa gravação, tínhamos que recorrer aos CDs (em franca perda de popularidade à época) ou aos arquivos em MP3. Uma pródiga galáxia de MP3 estava disponível no PQP Bach. Iniciei um tour de force para baixar tudo o que era possível. Muitas dessas gravações ainda estão comigo.

Aos poucos, associei a personagem PQP Bach ao sujeito Milton Ribeiro, que também conduzia um blog onde escrevia crônicas sobre assuntos diversos – entre eles, literatura, cinema e futebol. Os textos do PQP Bach estavam condimentados por um sabor histriônico; por uma fineza humorística muito peculiar. A começar pelas três letras PQP, logo em seguida, seguida de Bach. Era uma interjeição, uma impressão emotiva de alguém que se assusta após ter ouvido algo sublime e acaba verbalizando num rasgo de confissão: “P...ta que pariu, Bach!”, querendo ainda expressar: “Como você pode fazer algo assim!?” Lendo os textos do Milton, percebi que somente alguém como ele poderia fazer surgir algo com aquelas características. PQP Bach era um alter ego do próprio Milton. 

Aos poucos, fui percebendo quem era Milton Ribeiro. Encontrei-o no Facebook. Pude perceber a quantidade de amigos de que dispunha; de pessoas que o consideravam; que respeitavam seu conhecimento sobre vários assuntos ou, simplesmente, tinham em sua pessoa, alguém com a qual é sempre positivo manter uma ligação. 

Em 2022, faz quatorze anos desde que estabeleci contato com ele pela primeira vez. Nunca me encontrei pessoalmente com ele, apesar de, todas as vezes em que vou à Serra Gaúcha, passar por Porto Alegre (seu lugar de moradia) e nunca marcar um café. Certa vez, falei rapidamente com ele pelo telefone. Só isso. Outra vez, assisti, pelo Youtube, a uma palestra que ele fez sobre a escritora Lucia Berlim. Nas duas ocasiões, pude notar alguém bem humorado, que sabe expressar ideias sobre o que está se pronunciando. 

Sempre que posso, leio a sua página pessoal, que carrega o seu nome. Nos últimos tempos, ele tem pedido para que não se confunda com o perfil do famigerado e inquisidor religioso (que nada sabe de educação), o senhor Milton Ribeiro, pastor presbiteriano e ministro da educação. Sempre observei a qualidade de seus textos. Possuem densidade de conteúdo, a leveza jornalística e uma qualidade literária incontestável. Sempre houve a inescapável pergunta: quando ele publicaria algo? E, talvez, de tanto os amigos cobrarem; e por uma questão de acerto de contas consigo mesmo, Milton lançou seu primeiro livro de contos “Abra e Leia”, em 2021, pela editora Zouk. 

De início, fiquei bastante curioso para ler a obra. Para os amigos, ele disse que o livro seria vendido em primeira mão em sua querida livraria pessoal, a qual conduz com paixão e denodo, a Livraria Bamboletras. Quem o comprasse em primeira mão, teria a obra autografada. Acabei deixando a oportunidade passar. Adquiri-o na Livraria Martins Fontes, via Amazon. Quando recebi o livro, iniciei a leitura imediatamente. Não se trata de material volumoso. Os contos são curtos. Abrigam, no máximo, de duas a três páginas – com exceção de “O violista”. Resolvi ler o livro de forma vagarosa – um ou dois contos por dia. 

Após tê-lo concluído, fiquei com uma boa impressão. Alguns contos parecem acabar apressadamente, como se ele quisesse pôr um ponto final na narrativa. Outros já possuem um excelente arremate. Poderia ser comparado a uma bela costura feita em um tecido. Em alguns momentos, os textos possuem a fragrância de um texto de Luis Fernando Veríssimo. Em outros, a picardia de um texto de Nelson Rodrigues. Alguns contos me chamaram bastante atenção. Em “Muitos olhares e um longo beijo”, eu não deixei de soltar uma bela risada. O doloroso “Breve relato de aniquilação”, imprime um intranquilo volume existencial. Pensei que poderia ser um excelente início para um romance intimista; para a introdução para um livro.  No já mencionado “O violista”, nota-se a construção de um drama, tendo como arquitetura a esplêndida Sinfonia Concertante de Mozart. O texto é uma delícia. Milton não deixou passar a oportunidade de ser didático, realizando uma belíssima explicação sobre o caráter da peça. Torna-se quase obrigatório ouvi-la após ou durante a leitura. Eu não deixei de fazê-lo. 

Em “Abra e Leia” – conto que dá nome ao livro – nota-se o aspecto intertextual, ou seja, uma fina referência ao texto bíblico do Apocalipse de São João, ao “Sétimo Selo”, de Bergman, e à obra máxima do cineasta soviético Elem Klímov – “Vá e Veja”. O último conto do livro – “Anita e Belle” – está repleto do drama e do inusitado. Ao final, ficamos pensando sobre qual será a reação do moço que desceu do ônibus com a caixa. 

O autor de “Abra e Leia” demonstra claramente que tinha conhecimento sobre o que estava escrevendo. A qualidade do texto é irritantemente bem escrita. Os contos estão repletos de beleza. Há inúmeras referências ao cinema, à música, à literatura, sem qualquer afetação pernóstica. Em minha humildade, penso que alguns contos poderiam ter sido “melhor” cuidados. Eles acabam de forma abrupta. Deixam no ar algo inconcluso; o desenvolvimento interno deixa a desejar. Todavia, penso que, talvez, tenha sido a intenção do seu autor. Milton sabe muito bem o que é um conto. Reconhece a forma. Talvez tenha desejado, simplesmente, presentear o leitor com a fórmula daquela percepção das coisas singelas que fazem o cotidiano. A objetividade é uma ferramenta que torna as realizações possíveis. Por isso, a ideia de ‘abrir e ler” e se impressionar com o inusitado.

São Paulo-SP, 17 de janeiro de 2022. 

segunda-feira, janeiro 17, 2022

O que eu vejo



Cheguei a São Paulo ontem com a Liana. Estou hospedado a uns 300 metros da Avenida Paulista. A ideia é conhecer alguns dos principais pontos turísticos da cidade.

O diligente recepcionista que fez nosso "check in", falou entusiástico:

- Vou colocar vocês no 15º. quinto andar. A paisagem pela manhã é maravilhosa.

Hoje cedo, fui conferir.

Fiquei pensando sobre o critério utilizado por um paulista para definir o que é uma "maravilha".

Estou como naquele "Poema de beco" do Manuel Bandeira:

"Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
-O que vejo é o beco"

Eu só vejo concreto.


São Paulo-SP.

quarta-feira, janeiro 12, 2022

Seu Donato


 “A saudade é nossa alma dizendo para onde ela quer voltar”. Rubem Alves

                 O dia 11 de janeiro sempre foi uma data marcante para mim. É o dia de nascimento do meu pai. Ontem, por exemplo, caso estivesse vivo, completaria 67 anos de idade. Morreu jovem – aos 46. À medida que o tempo passa, mais se acentua a marca da distância. Vislumbro o acontecimento como se fosse uma miragem que ficou pelo caminho. Todavia, as marcas permanecem dentro de mim. Enxergo a face do meu pai. Ainda sou capaz de ouvir a tonalidade de sua voz. Fiapos do seu olhar.

            Ontem, 11 de janeiro, um outro impactante fato aconteceu. Seu Donato (era assim que eu o chamava), meu sogro, faleceu, vitimado pelos desdobramentos da Covid-19. Estava há 116 dias no hospital. Sua luta para resistir às investidas das infecções era diária. Várias foram as ocasiões em que foi entubado, tornando-se um visitante assíduo da UTI do Hospital Santa Marta de Taguatinga. Minha esposa, irmãos e familiares revezavam-se nas visitas diárias. As notícias oriundas dos boletins oscilam entre o otimismo brando e a gravidade preocupante. Ontem, após dias seguidos de um quadro gravíssimo, ele não resistiu e acabou vindo a óbito às 15h50.

            Fica um buraco no tecido do tempo. Uma lacuna imensa no quadro que compõe a vida. Seu Donato era um homem de boa palavra. Gostava de conversar. Trazia consigo a habilidade de contar uma boa história; de notar os detalhes de um acontecimento. Um exemplo, eram três canções de Luiz Gonzaga de que gostava bastante – “Riacho do Navio”, “Respeita Januário” e “Samarica Parteira”. Era comum avivar pontos; destacar fatos; trechos da composição; especificidades daquilo que passa batido.  Gostava de conversar com ele. Seu Donato era um homem metódico. Costumava realizar as coisas no seu tempo. Quando se prontifica a realizar algo, fazia tudo muito bem.

            Outra de suas habilidades era lidar com as crianças. Costumava inventar brincadeiras. Construir objetos. Improvisar. Ensinava músicas. Chegou a ensinar algumas composições para o Bernardo. É lamentável que Bernardo tenha perdido a convivência tão rica do avô aos três anos. Morre com seu Donato as empirias, as pedagogias do improviso; a capacidade de arrancar a alegria no riso do Bernardo.

            A ausência às vezes nos preenche mais do que presença. Em alguns momentos, é mais presença em nós aquilo que nos falta. Por isso, ficará esse espaço aberto. Quando íamos à sua casa, costumava ficar no quarto, administrando o tempo ao seu modo. Mais tarde, ao caminhar para sala onde a família se encontrava, proferia expansivo: “Boa tarde, pessoal!”  

            O sentimento que nos sacode possui uma face de tristeza, de sisuda gravidade. Nesse plano material, não encontraremos mais o seu Donato, não desfrutaremos de sua presença. Deve ser por isso que nossa alma resiste, enche-se de um rompente de insubmissa vontade. É o coração que experimenta saudade, essa força que insiste em nos remeter ao passado, pois lá se encontra a presença daquilo que já não é;  mora comigo o que já foi.

 

segunda-feira, janeiro 03, 2022

Filmes e documentários vistos em 2022

 

Nos últimos três anos, tenho tentado dedicar o meu ano cinematográfico a alguns diretores. Em 2020, dediquei o ano a assistir a alguns filmes do diretor russo Andrei Tarkovsky. A incursão permitiu que eu revisitasse a alguns filmes e visse, em definitivo, aqueles os quais ainda eu não conhecia. Em 2021, foi a vez do sueco Ingmar Bergman, para mim, outro diretor essencial. Vi menos do que que queria. Ainda pretendo visitar algumas outras obras do diretor este ano. Há filmes que ainda pretendo ver - “Sarabanda”, Sonata de outono” e “Sorrisos de uma noite de amor”.

Para o ano de 2022, resolvi visitar algumas das obras icônicas do diretor japonês Akira Kurosawa. O japonês é uma espécie de mito cinematográfico. Seus filmes foram responsáveis por criar tendências; determinar as marcas criativas para certos diretores. Assisti “somente” a três dos seus filmes pelo que lembro – “Rashomon”, “Os sete samurais” e “Derzu Uzala”. Os três são pérolas inquestionáveis. Revelam a genialidade do japonês. Impossível vê-los e não ser visitado pelo aturdimento. Estão entre os filmes mais importantes que vi na vida.

Para o ano de 2022, escolhi doze filmes - um para cada mês. São eles

1 – janeiro – “Ran” - Ok! - 27/01;

2 – fevereiro – “Escândalo”;  Ok!

3 – março – “Yojimbo – o guarda-costas”;  Ok!

4 – abril – “Trono manchado de sangue”; Ok!

5 – maio – “Sanjuro”; Ok!

6 – junho – “ Kagemusha, a sombra do samurai”; Ok!

7 – julho – “Viver”; Ok!

8 – agosto – “Rapsódia em agosto”; Ok!

9 – setembro – “A fortaleza escondida”; Ok!

10 – outubro – “Céu e inferno”; Ok!

11 – novembro – “O homem mau dorme bem”;  Ok!

12 – dezembro – “O barba ruiva”. Ok!

Ainda elenquei alguns outros filmes com prioridade – “Sonhos”; “Os homens que pisaram na cauda do tigre”; “Duelo silencioso”; “Dodles´Ka-Den – o caminho da vida”; “Kagemusha – A sombra do samurai”.

Lista de filmes vistos em 2022:

1 - Matrix - Ressurreição. dir. Lana Wachowski. Ficção, Drama. EUA. 2021. 148 min. 8,7;

2 - #Nudes. dir. Guily Machovec. Comédia, Drama. Brasil. 2018. 105 min. 8,5;

3 - Cabeça de Nêgo. dir. Déo Cardoso. Drama. Brasil. 2021. 85 min. 7,5;

4 - Os farofeiros. dir. Roberto Santucci. Comédia. Brasil. 2018. 99 min. 8,0;

5 - "Ran". dir. Akira Kurosawa. Ação, Drama. Japão. 1985. 160 min. 27/01. 9,7. 

6 - Duna - dir. Denis Villeneuve. Aventura, Ficção. EUA. 2021. 155 min. 9,6.

7 - A mão de Deus. dir. Paolo Sorrentino. Drama, Biografia. Itália. 2021. 9,3.

8 - Tick... Tick... Boom. dir. Lin-Manuel Miranda. Drama, Biografia. EUA. 2021. 9,0;

9 -  O golpista do Tinder. dir. Felicity Morris.  Documentário. EUA. 2022. 9,7

10 - Ataque de cães - dir. Jane Campion. Drama, Western. Austrália, Nova Zelândia. 2021. 9,6.

11 - No limite da guerra -

12 - Bravura Indômita -

13 - Escândalo -

14 - Munique - No limite da Guerra -

15 - Belfast -

16 - O quinto elemento -

17 - Imperdoável -

18 - Um dia de chuva em Nova York -

19 - A odisseia dos tontos -

20 - Queda Livre - a tragédia do caso Boeing -

21 - O violino do meu pai -

22 - Red - crescer é uma fera -

23 - Doutor Gama -

24 - No ritmo do coração -

25 - Yojimbo, o guarda-costas -

26 - Benedetta -

27 - A filha perdida -

28 - Viajo porque preciso, volto porque te amo -

29  - Meu pai

30 - Três anúncios para um crime

31 - Capitães da areia - 16/06

32 - Os lobo atrás da porta

33 - Zuzu Angel

34 - Trono manchado de sangue

35 - Os miseráveis

36 - Gig - a uberização do trabalho

37 - Medida Provisória

38 - Sanjuro

39 - Notas sobre um escândalo

40 - Não por acaso

41 - O guerreiro Genghis Khan

42 - Sonhos

43 - Viver

44 - Sorrisos de uma noite de amor

45 - Bem-vindo aos 40

46 - O feitiço de Aquila

47 - Céu e inferno

48 - A fortaleza escondida

49 - O substituto

50 - Rapsódia em agosto

51 - A troca

52 - Homem mau dorme bem

53 - Argentina - 1985

54 - A mãe

55 - Conflito silencioso

56 - Festim diabólico

57 - O Barba Ruiva - 

58 - Nada de novo no Front

59 - Eu não sou um homem fácil

60 - Um domingo maravilhoso. Akira Kurosawa. Drama. Japão. 1947. 108 min. 

61 - Kuarup. 

62. Pinóquio. Guilherme del Toro. Animação. EUA, Inglaterra. 2022. 117 min.

63. As linhas tortas de Deus. 

sexta-feira, dezembro 31, 2021

Balanço cinematográfico de 2021.

 

            

                Eis que chegamos ao final do ano de 2021, um ano repleto de nuances e eventos complexos; de dificuldades, cansaços multiplicados; alguns desestímulos e muito pessimismo. O cenário de terra arrasada parece não ter fim. Morar em um país como o Brasil... Viver um momento político com um governo distópico catalisa ainda mais os piores cenários. Todavia, falemos de coisas boas. É isso que alivia e acalma; impulsiona as nossas ações, catapultando-nos para geografias de esperanças. E é assim que quero acreditar que 2022 será.

                Após essa pequena digressão inicial, quero afirmar que o objetivo desta postagem é fazer um balanço fílmico do ano que ora se extingue. Analisar as produções que vi. Assisti a menos filmes do que o ano passado. Em 2020, passei da casa de uma centena; este ano fiquei apenas em 79. Todavia, ultrapassei a meta inicial, que era de setenta filmes.

                Abaixo, farei três listas: A primeira diz respeito aos dez principais filmes que vi em 2021; em segunda lugar, uma lista com os dez principais filmes brasileiros vistos ao longo do ano; e em terceiro, a ordem dos filmes de Ingmar Bergman (este foi o ano Bergman). Procurei ver pelo menos dez filmes dele. Agora, fazendo o balanço, verifiquei que consegui ver apenas nove.  

                O próximo ano será dedicado ao cineasta japonês Akira Kurosawa. O objetivo inicial será assistir a doze filmes dirigidos por ele – um por mês.

(A)    Lista com os dez melhores filmes do ano:

1.       A fonte da donzela – Ingmar Bergman (1960);

2.       Druk – Outra Rodada – Thomas Vinterberg (2020);

3.       Fanny e Alexander – Ingmar Bergman (1982);

4.       Não olhe pra cima – Adam Mckay (2021);

5.       Judas e o Messias Negro – Shaka King (2021);

6.       Quanto mais quente melhor – Billy Wilder (1959);

7.       Paris, Texas – Wim Wenders (1984);

8.       Nomadland – Chloé Zhao (2020);

9.       Deus é mulher e o seu nome é Petúnia – Teona Strugar Mitevska (2019);

10.   O Apartamento - Asghar Farhadi (2016);


(B)    Lista com os dez melhores filmes brasileiros.

1.     7 Prisioneiros – Alexandre Morato (2021);

2.     Rio, Zona Norte – Nelson Pereira dos Santos (1957);

3.     São Paulo – Sociedade Anônima – Luís Sérgio Person (1965);

4.     A vida invisível – Karim Ainouz (2019);

5.     Breve miragem de sol – Eryk Rocha (2019);

6.     O assalto ao trem pagador – Roberto Farias (1962);

7.     Elis – Hugo Prata (2016);

8.     Limite – Mário Peixoto (1931);

9.     400 contra 1 – Caco Souza (2010);

10. Marighella – Wagner Moura (2019)

 

(C)    Lista com os dez melhores filmes de Igmar Bergman.

1.       A fonte da donzela (1960)

2.       Fanny e Alexander (1982)

3.       Gritos e Sussurros (1972)

4.       Morangos Silvestres (1957)

5.       Cenas de um casamento (1973)

6.       Vergonha (1968)

7.       Monika e o desejo (1953)

8.       A paixão de Ana (1969)

9.       O rosto (1958)

 

quarta-feira, dezembro 29, 2021

Leituras de 2021.

 


Estamos chegando ao final de 2021. Um óbvio ululante. Encontro-me no meio de algumas leituras – seis livros pelo menos. Há programações variadas para 2022. Há três listas prontas para o próximo ano, o que totaliza mais de trinta livros. Vale mencionar ainda que sempre surge alguma leitura extemporânea; algum lançamento de última hora o qual acaba forçando imperiosamente uma leitura urgente.

Com relação ao ano de 2021, um fato importante e positivo se deu: li quantitativamente mais do que no ano de 2020. Todavia, esse “mais” ainda é insuficiente. Gostaria de ter lido duas vezes mais do que li. Todavia, minha rotina com dois empregos gera impedimentos. Importante ter os pés no chão para não ficar frustrado.

Abaixo, colocarei as dez mais importantes leituras realizadas em 2020

1. Clarice – Benjamin Moser
2. Revolução dos Bichos – George Orwell
3. O avesso da pele – Jeferson Tenório
4. O coração das trevas – Joseph Conrad
5. Cidades Mortas – Monteiro Lobato
6. Marco Aurélio – biografia – Pierre Grimal
7. Vista Chinesa – Tatiana Salem Levy
8. Perto do coração selvagem – Clarice Lispector
9. Baratas – Scholastique Mukasonga
10. A República das Milícias - Bruno Paes Manso

Vale destacar ainda livros como Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior; Nu, de botas, de Antonio Prata; O amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos; Se a rua Beale falasse, de James Baldwin; e Divórcio, de Ricardo Lísias. 



terça-feira, dezembro 28, 2021

"Vista Chinesa", de Tatiana Salem Levy

 


                “Lembro de ter pensado, em que momento ele começou a ter tesão? Mas ele tem tesão em quê, exatamente? Em me ver perdida, com medo nauseada, ansiosa? ”

           “Vista chinesa”, da jovem e talentosa Tatiana Salem Levy, é uma leitura dolorosa, que nos mantem num estado de máxima atenção, com os sentidos atentos. É um daqueles dramas que nos empurram para que sintamos a dor da personagem. De algo que incomoda. No final do livro, descobrimos que a história é baseada em fatos reais; que a vítima, uma pessoa influente do meio cultural, corajosamente, permitiu que o fato ocorrido quatro anos antes, fosse narrado em forma de romance.

O Brasil é um país que possui um número altíssimo de estupros todos os anos. De acordo com o Mapa da Violência, divulgado em 2019, em 2018, houve quase 70 mil estupros no país. Um fato que estarrece é que esses são os casos oficialmente conhecidos pelo Estado. Há inúmeros casos que permanecem no anonimato. É um tipo de crime que possui baixa notificação à polícia. De acordo com a Pesquisa, todos os dias ocorrem algo próximo de duzentos estupros que são oficialmente notificados. Os agressores são, em sua maioria, homens – quase 94%.

O livro de Tatiana Salem Levy nos conta a história de infortúnio de Lúcia. Acostumada a correr quase todos os dias, a profissional que estava realizando um importante trabalho para a organização das Olimpíadas no Rio de Janeiro, em 2016, em um dia qualquer, decidiu correr em um horário diferente daquele que estava acostumada a correr. O trajeto era tranquilo. Distava seis quilômetros e levava, no máximo, quarenta minutos para ser percorrido. Enquanto corria até à Vista Chinesa, um importante ponto turístico do Rio de Janeiro, localizada na Floresta da Tijuca, foi abordada por um sujeito armado. Arrancada para dentro da floresta, acabou sendo estuprada de forma violenta por um sujeito o qual ela procura, durante o livro, identificar, o que faz com que ela sofra bastante; pois ela é obrigada a acordar o trauma adormecido, capaz de gerar pesadelos. As fragrâncias fazem-na lembrar de fragmentos do acontecimento nauseante. 

Tatiana Salem Levy

A vítima de estupro geralmente não costuma falar com tranquilidade sobre o ocorrido. Mas o livro é resultado de uma subversão, pois a vítima realizou inúmeras entrevistas com a escritora, contando os detalhes do evento. Analisando por essa perspectiva, poder-se-ia achar de que se trata de um livro problemático. Entretanto, Tatiana consegue orquestrar a narrativa romanesca de forma hábil. A escritora coloca nas mãos da narradora, a possibilidade de descrever o fatídico acontecimento por meio de uma carta escrita para as filhas. O gênero carta permite um tipo de escrita versátil. É assim que ela consegue contar a história, divagando por experiências que, num primeiro momento, parecem não ter ligação com o evento da Floresta da Tijuca. Para conseguir isso, ela explora com tenacidade o tempo cronológico. Alguns capítulos são curtos e parecem independentes, relatando detalhes de uma outra história. Todavia, está tudo ali; faz parte de um liame. O aspecto aleatório da narrativa é apenas aparente. No fundo, ela pretende descrever os aspectos caóticos que passaram a existir na vida da personagem.

O livro é um relato corajoso. Uma leitura necessária. Coloca-nos na pele de uma pessoa que sofreu um dos piores tipos de violência que existem, a violação do corpo de forma não consentida, e as consequências psíquicas e físicas desse tipo de experiência traumática. Vale a leitura!

segunda-feira, dezembro 27, 2021

Ruanda, Scholastique Mukasonga e outros fatos

  

Bandeira de Ruanda. Vista da capital Kigali.

Ruanda é um minúsculo país do centro-leste do continente africano. Para as proporções da África, trata-se de um país pequeno. Possui o tamanho equivalente ao estado de Alagoas. O país possui um relevo montanhoso, repleto por vales e colinas. É um país bonito. Situa-se na região dos grandes lagos africanos. Do lado oeste, o país é banhado pelo lago Kivu, um dos maiores da África. Durante o período do genocídio de 1994, muitas vítimas foram atiradas em suas águas doces. O Kivu tem parte de suas águas no território do Congo e a outra parte em território ruandês.

Do ponto de vista da história, Ruanda era formado por vários reinos. No final do século XIX, passou a ser um território pertencente à Alemanha. Os alemães impuseram uma colonização ao território, após a Conferência de Berlim (1885). O território passou a ter vínculos com a Alemanha a partir de 1890. Ao final da 1ª Guerra Mundial, a Alemanha sofreu uma fragorosa derrota. Ruanda foi entregue aos belgas. Enquanto era propriedade alemã, o país foi explorado de todas as formas. Todavia, com a transferência para os belgas, os trabalhos forçados, a marginalização e a manipulação política levou à criação de um abismo social que determinaria o futuro do país. Os belgas traziam consigo um modelo de dominação absurdamente violenta e predatória. Vale mencionar a forma como dominaram cruelmente o Congo. Leopoldo II, um dos mais infames monarcas europeus de todos os tempos, construiu uma relação de máximo horror com os países dominados.

É importante salientar, que apesar de Leopoldo II ter morrido em 1909, a relação de exploração, vilania e depredação social continuou com a exploração belga. A liderança política de Leopoldo II produziu extermínios, torturas, violência e genocídio. A história do Congo explica muito bem isso. O país vizinho a Ruanda passou a ser uma propriedade, um feudo do monarca. O nome dado por Leopoldo II ao país era uma grande ironia – “Estado Livre do Congo”. Havia uma capa de aparência de suave tranquilidade vendida para o mundo, mas o que os colonizados experimentavam no dia a dia era inumano. Ele criou uma empresa para explorar o país e semeou a violência como elemento de difusão de sua política – assassinatos, mutilações, trabalhos forçados; crueldades variadas. Estima-se que o número de mortes oscile entre 1 e 15 milhões de pessoas, o que coloca a política de Leopoldo II como uma das mais criminosas da história. Segundo alguns historiadores, a população do Congo era de 20 milhões de pessoas à época da chegada dos belgas. Estima-se que a metade morreu enquanto o país foi chamado de “Estado Livre do Congo”[1].


Recentemente eu li “O coração das trevas”, do Joseph Conrad, que tem como pano de fundo o imperialismo europeu, a exploração e a morte contra o continente africano. O livro retrata o caos, a loucura, a máquina ensandecida de pilhagem que foi implantada com a presença europeia no continente. A narrativa de Conrad lança luz sobre a violência colonial belga contra o Congo. Como diria Conrad em sua febricitante narrativa: “O horror! ” O máximo “horror! ” é o que os belgas realizaram no Congo.


A relação que os belgas estabeleceram com os ruandeses imprimiu o domínio e as mudanças nas relações sociais do país. Os europeus não estavam preocupados com os grupos populacionais do continente. Não levaram em conta particularidades históricas. É importante salientar que Ruanda é constituída basicamente por dois povos – os tutsis e os hutus. Do ponto de vista físico, os tutsis eram numericamente inferiores. Ocupavam as posições de liderança na formação social e política do país. O país é essencialmente agrário. O contingente populacional trabalhava no campo. Tinham uma relação de intimidade com a terra e com os instrumentos que a manipulavam.

Do ponto de vista físico, os tutsis distinguiam-se dos hutus; estes últimos eram a maioria do país (85% hutus; 12% de tutsis). Eram mais altos do que os hutus. O cabelo era distinto. O nariz possuía traços também de distinção. Com a chegada dos europeus, teorias higienistas foram disseminadas no país. Houve uma propagação da ideia de que os tutsis estariam mais próximos dos europeus, criando, assim, um traço de nobreza. Teorias lombrosianas[2] foram empregadas.

Scholastique Mukasonga

Dessa forma, os hutus foram relegados do ponto de vista identitário como uma “raça menos nobre” pelo distanciamento dos traços com os europeus. Cria-se um ódio a essa relação dos tutsis com os europeus. Ódios entram em ebulição. Fervem. Cria-se uma divisão do nosso grupo contra o grupo deles. No final dos anos 50, após vários lances políticos, que incluiu o assassinato de um monarca de um clã dos tutsis, os hutus se tornaram efetivamente majoritários politicamente. Assumiram a liderança do país. Após um referendo organizado pelas Nações Unidas, Ruanda torna-se uma república. Em 1º de julho de 1962, o país torna-se independente sob a liderança dos hutus. Grégoire Kaiybanda, o primeiro ministro do período de transição, torna-se o chefe do país. Inicia-se um período de perseguição e opressão contra os tutsis.

Esse texto é a parte introdutória para alguns comentários que farei após a leitura de “Baratas”, de Scholastique Mukasonga. Ela narra as memórias dolorosas da perseguição do início dos anos 60 até o genocídio de 1994.      

[1] O livro “O fantasma do Rei Leopoldo”, de Adam Hochschild, é um dos mais importantes documentos sobre a política cruel imposta pelos belgas na pessoa de Leopoldo II. Começarei a leitura por esses dias.

[2] Cesare Lombroso foi um médico, psiquiatra e criminalista. Suas pesquisas resultaram no livro “Homem Deliquente”, um marco para a teoria criminal do século XX e início do século XX. Lombroso a partir de suas pesquisas estabeleceu que as questões que envolviam os delitos estavam ligadas aos traços biológicos dos indivíduos. Sendo assim, para ele o crime era algo que dizia respeito a certos sujeitos que já nasciam delinquentes. Essa análise lombrosiana era vista como rigorosa ciência.  Mais informações: https://canalcienciascriminais.jusbrasil.com.br/artigos/625021486/cesare-lombroso-e-a-teoria-do-criminoso-nato

segunda-feira, dezembro 20, 2021

"O avesso da pele", de Jeferson Tenório. Algumas palavras

 

“No sul do país, um corpo negro será sempre um corpo em risco”. Jeferson Tenório

                 Li “O avesso da pele” boquiaberto. Estou com uma quantidade enorme de livros para ler. Há listas. Projetos. Planilhas. Uma tentativa de organizar de forma disciplinada uma sequência com o pouco tempo de que disponho. Mesmo diante desse metodismo, resolvi iniciar a leitura do romance de Jeferson Tenório, quebrando a lógica e colocando para trás minhas estratégias. Confesso que foi uma das leituras mais profícuas e reveladoras do ano. Li no primeiro semestre “Torto Arado”, apesar de ser uma história bastante diferente, confesso que o livro de Itamar Vieira Junior não me marcou tanto quanto o livro de Jeferson Tenório.

                “O avesso da pele” gravita no mundo da ficção, mas possui a força de tratado sociológico sobre aquilo que está encoberto por camadas históricas – o racismo de uma sociedade desigual e preconceituosa. Tenório que nasceu no Rio de Janeiro e se radicou em Porto Alegre, põe no primeiro plano a capital gaúcha, mas os eventos da narrativa poderiam acontecer em qualquer cidade brasileira. Os problemas apontados por ele no livro são onipresentes em uma sociedade como a nossa, que conviveu de maneira umbilical por mais de três séculos com a escravidão. Uma sociedade que invisibiliza certas pessoas, notadamente por causa da cor da pele, e os tornam alvos fáceis do racismo e da violência.

                É bom saber que pessoas como o escritor tragam isso para o centro do nosso debate. Esse tipo de preocupação não é original, mas atualiza a discussão sobre o tema. Lima Barreto, há cem anos, já havia esboçado essa preocupação. O romance “Clara dos Anjos” aponta para isso, enunciando nossas desigualdades; uma certa identidade nacional, forjada a partir da discriminação.  

                A frase que pincei do livro e que encabeça esse texto escancara o problema do racismo no Brasil. Não é um problema do Sul do país. Certamente, Jeferson Tenório tenha elaborado tal sentença baseado em suas observações, já que o Sul do país é conhecido por, majoritariamente, ter um contingente populacional branco. Outro fato é a memória da presença dos europeus na região, o que potencializa ainda mais a noção de branquitude. Todavia, os corpos negros são alvos em risco em qualquer lugar do país.

                O que impressiona em “O avesso da pele” é a clareza do texto. Tenório conduz o texto com uma habilidade que impressiona. Ele sabe levar o leitor para labirintos, para encurralamentos. Em alguns momentos, a respiração fica suspensa. Alguns fatos estão eivados de um realismo típico da sociabilidade brasileira. O texto assusta pelo grau de verossimilhança. A boa literatura possui essa capacidade. Ela nos tira do chão. Apresenta-nos um mundo que é mais autêntico do que aquele em que vivemos.  

                A história é contada por Pedro, um jovem negro, que descreve a dolorosa trajetória de sua família. Ele fala sobre a difícil história da sua mãe; e as dificuldades as quais seu pai enfrenta. Além desses fatos, Pedro vai costurando situações que ocorrem com ele – relacionamentos, descobertas, vida acadêmica; o seu lugar na cidade de Porto Alegre. A cidade é apresentada como um espaço segmentado. Há certos locais próprios para quem é negro, uma realidade que não é só da cidade.

                Não pretendo expor mais detalhes da história. Desejo apenas refletir sobre os aspectos que tornam o texto poderoso, pois a sensibilidade do escritor pode ser notada em cada frase, em cada capítulo. Alguns capítulos são terminados de forma brilhante. Há sempre um acontecimento muito bem contado. Apesar de lidar com fatos caros e complexos, o livro não soa artificial. Não se pode dizer que o autor não teve fôlego para levar até o fim aquilo que pretendeu.   

                Após a leitura, ficamos com a certeza de que o Brasil é uma país cuja estrutura de desigualdade possui na figura das pessoas negras um dos seus principais alvos. Em quinhentos anos de história, os negros sempre foram vitimados por uma estrutura perversa. Até 1888, oficialmente os negros eram mercadorias, propriedades. Eram comprados em feiras. Tratados como animais. A lei os categorizava como “semoventes”. Certas atividades braçais não eram realizadas, pois eram consideradas atividades de escravos. Apesar do abolicionismo ter ocorrido há aproximadamente 124 anos, a memória cruel da escravidão ainda está preservada. Os negros continuam sendo aqueles colocados à margem do nosso processo social – vivem menos, ganham os piores salários; moram pior; são alvos de abordagens “desastradas” da polícia; lotam os presídios; não ocupam os melhores postos de destaque (há quantos políticos negros, quantos jornalistas negros, quantos executivos negros, quantos escritores negros?), apesar de o número das pessoas que se declaram negras ser maior do que o número daqueles que são brancos.

                Excelente leitura.

               

sexta-feira, dezembro 17, 2021

Literatura nacional para 2022.

 


            No final de 2020, escolhi dez livros de escritores nacionais para ler no ano de 2021. Foi uma iniciativa para me obrigar a ler autores nacionais. Parecia uma decisão ousada e acertada. A ideia era ler obras clássicas, famosas por aquilo que representam. Há críticos contumazes que procuram minimizar a qualidade dos autores nacionais. Existem até aqueles que afirmam que não há uma literatura propriamente “brasileira”. Eu, do alto de minha mais retumbante pequenez, afirmo que há – e de excelente qualidade.

            Nossa literatura é do tamanho da nossa história. Cada sociedade possui seus próprios processos históricos; seus dilemas sociais, o que permite que cada autor, cada escritor, seja influenciado pelo meio em que se encontra. Uma literatura poderosa e grandiosa como a de William Faulkner não poderia ter sido escrita em outro lugar do planeta, senão sob as condicionantes históricas experienciadas no Sul dos Estados Unidos. As irmãs Brontës não teriam criado aquelas personagens femininas tão marcantes, caso não vivessem naquele período do século XIX na Inglaterra vitoriana. Zola não teria fermentado o seu projeto naturalista, caso não vivesse na França diante daqueles condicionamentos históricos.

            O Brasil, por sua vez, com seus grupelhos aristocráticos, submetido à influência europeia, numa sociedade altamente desigual e com grande contingente de escravos não teria produzido outro tipo de literatura, senão esta que produziu. Portanto, quando leio os autores nacionais, principalmente aqueles que são anteriores ao século XX, sinto-me integrado à história do país.

            Essa reflexão pequena e acanhada é a base daquilo que permite com eu me interesse pela literatura produzida no Brasil.

 Em 2021, escolhi os seguintes livros:

 1 - Canaã - Graça Aranha;

2 - O cabeleira - Franklin Távora;

3 - Cidades Mortas - Monteiro Lobato;

4 - Inocência - Visconde de Taunay;

5 - Memorial de Aires - Machado de Assis;

6 - O Ateneu - Raul Pompéia;

7 - Os sertões - Euclides da Cunha;

8 - Marafa - Marques Rebelo;

9 - Guerra dentro do beco - Jorge de Lima;

10 - O amanuense Belmiro.

             Para 2022, foram escolhidas as seguintes obras:

1 – A menina morta – Cornélio Penna;

2 – O bom crioulo – Adolfo Caminha;

3 – Grande Sertão: Veredas – Guimarães Rosa;

4 – Capitães de Areia – Jorge Amado;

5 – Antes do baile verde – Lygia Fagundes Telles;

6 – O Ventre – Carlos Heitor Cony;

7 – Quarup – Antonio Callado;

8 – Encontro Marcado – Fernando Sabino;

9 – Sargento Getúlio – João Ubaldo Ribeiro;

10 – Caminhos Cruzados – Érico Veríssimo.  

             Da lista de 2020, ainda me encontro lendo o poderoso “Os sertões”, de Euclides da Cunha.

segunda-feira, dezembro 13, 2021

"Guerra dentro do beco", de Jorge de Lima


 “Como dói existir”.  

Jorge de Lima, In “A guerra dentro do beco” p. 95

 

            Em 2018, enquanto dirigia de João Pessoa, a bela capital da Paraíba, e me encaminhava para Maceió, outra singular cidade que repousa dentro de minha admiração, testemunhei algo que elevou as minhas ideias. Eu continuei a conversar com a minha esposa e a minha cunhada que estavam comigo no carro, mas os pensamentos se descolaram, alcançando as montanhas que levam ao passado. Logo após ter saído do estado de Pernambuco, cheguei ao estado de Alagoas. Foi quando tive a oportunidade de ver uma placa que conduzia à cidade de União dos Palmares, enquanto seguia pela BR 101. Pensei imediatamente no Quilombo dos Palmares e na figura mítica de Zumbi. Naquela porção do estado, encontra-se a Serra da Barriga, que abriga lendas, histórias e que parece fazer ecoar ainda os gritos dos escravos que resistiram à violência do estado colonial.

            Imaginei que, um dia, poderia visitar a cidade. A região abrigou um dos símbolos da resistência dos escravos no Brasil colonial. Mesmo após a morte de Zumbi, os negros que não foram mortos pelos carrascos portugueses, tentaram levar à frente o projeto de liberdade.

            Além disso, lembrei do nome do escritor alagoano Jorge de Lima. Esses pensamentos me passaram pela cabeça rapidamente; numa espécie de lampejo. Sobre o Jorge de Lima não havia muitas informações. Apenas que era dele “A guerra dentro do beco”. O escritor mais proeminente de Alagoas é Graciliano Ramos. Jorge fica restrito a círculo mais secundário. Os dois foram contemporâneos. Graciliano nasceu em Quebrangulo, em 1892; Jorge nasceu um ano mais tarde, na já mencionada cidade de União, mais tarde sendo nomeada da forma como a conhecemos.

            Jorge de Lima é uma figura magnificente da prosa e da poesia nacionais.  É mais conhecido pela sua poesia com requintes místicos e simbolistas. O poema “A invenção de Orfeu” é uma pérola da Língua Portuguesa, podendo ser colocado ao lado de “Os Lusíadas” ou, numa esfera mais universal, ao lado de textos épicos como “A Divina Comédia”, de Dante ou “O Paraíso Perdido”, do poeta inglês John Milton.

            O escritor era uma figura que “experimentava”. Vivia à cata de novos projetos e possibilidades. Ao longo da vida, foi médico, escultor, poeta, político, professor, pintor, romancista, escritor. Vivia se reinventando. “Estreando-se”. Na prosa, Jorge escreveu algumas importantes obras, sendo a mais conhecida e relevante o romance idealista “Calunga”, que comprei recentemente e tenho por intenção começar a leitura assim que o tiver em mãos. “A guerra dentro do beco” começou a ser escrito ainda no final dos anos 30 e concluído nos primeiros anos da década de 40. Todavia, só foi publicado três anos antes de sua morte. É um livro denso, assim como eram densos os demais trabalhos do alagoano. A percepção inicial que se obtém, à medida em que se vai lendo o seu texto, é que somos colocados em uma prensa e, aos poucos, cordas vão nos apertando, sujeitando-nos lentamente em um abraço de serpente.

            O texto possui um arrojo, uma estrutura barroca. É religioso em sua essência. Jorge sabia disso. Era parte de seu projeto enunciar um mundo místico. Como numa sinfonia de Gustav Mahler havia estágios pelos quais os humanos com os seus conflitos passavam: havia a vida, as contradições, a angústia, o questionamento da própria vida, a resolução do conflito e a possibilidade de redenção. 

            Em “Guerra dentro do beco” há uma força pungente na linguagem. Jorge sabia manusear como ninguém a palavra. Elas surgem caudalosas. Essa força que brota da narrativa parece ser usada para criar paroxismos existenciais nas personagens. Viver é está diante de esferas de sofrimento. Onde encontrar a luz?

            Em meio à sociedade burguesa, o homem moderno é refém de percepções fugidias e de forças intestinas que geram confusão e opressão, para que as aparências sejam mais fortes do aquilo que temos na essência. O “beco” é esse lugar fundamental onde guerras e conflitos acontecem. E isso fica provado na vida de Bruna e Júlio Aguiar, as duas personagens principais do livro. Aos poucos eles são levados pelos fatos para dentro do beco. Nesse espaço íntimo repleto de vozes, sujeitos molestados pelas aparências sucumbem ante o desespero. Uma vida em que se foge do divino é uma vida sem sentido.

            É na guerra que o indivíduo aniquila sua finitude e suas limitações. A partir desse fato, ele está disposto a viver. Como diz a frase de Santa Teresa d’Ávila, encontrada por Bruna enquanto estava no hospital: “Morro para não morrer”. Para a alma atribulada, a morte é uma companheira capaz de gerar libertação.

            “Guerra dentro do beco” é um desafio. Sua leitura provoca incômodo. Sentimos as angústias das personagens; sentimos o próprio questionamento da vida. O tempo é uma força que potencializa dores e chagas, mas também pode gerar purificação, redenção.  

          Vamos ao décimo livro de literatura nacional - "Os Sertões", de Euclides da Cunha. Aquele tipo de leitura desafiadora, que prova se chegamos a um nível de maturidade leitora.