quarta-feira, fevereiro 08, 2023

Heráclito - nada permanece

 


                Heráclito de Éfeso é o pensador que cunhou a noção de um movimento incessante em todas as coisas. É atribuído a ele o termo “panta rei” (“tudo flui”), embora essa expressão não seja encontrada nos fragmentos deixados por ele.

                O filósofo teria identificado – em oposição a Parmênides – uma “buliçosa” atividade dos elementos que estruturam a realidade e o cosmos. Nada permanece. Tudo é grande ou faz parte de um grande fluxo. Enquanto para Parmênides a realidade é o ser – e o ser é -, Heráclito estabelece um importante fundamento sobre todas as coisas – a dialética é o elemento central da vida.

                Sofre quem espera que tudo permaneça como pensava Parmênides. Não se está a insinuar que o pensamento de Parmênides conduza à infelicidade. O que se afirma é que, quando se espera que algo permaneça para sempre, o resultado é o sofrimento. Bom seria que as pessoas as quais amamos não morressem, que elas permanecessem ao nosso lado para sempre; que o amor nunca acabasse; que a morte nunca chegasse; que a alegria fosse eterna.

                A noção de Deus para o filósofo também era bastante diferente. Deus não é o criador. Não é o ser capaz de fazer todas as coisas. Não é imanente. Não interfere na vida dos homens. Deus é o fogo que se mistura em pares antagônicos – dia/noite; luz/escuridão; verão/inverno; belo/feio; guerra/paz. O elemento constitutivo da realidade é a contradição. É preciso está preparado para essa oposição.

                O rio que ondula os seus movimentos, não o faz da mesma forma. O rio muda e impele o movimento em todos os momentos do seu curso. A água muda; assume formas variadas incessantemente. Sendo assim, ninguém pode banhar nas mesmas águas duas vezes.

                Todo encontro é desencontro. Todo amor é desamor. Todo nascimento é também morte. Toda chegada é também partida. Todo abraço é também separação. A oposição ao som é o silêncio; mas a oposição ao silêncio é o som. A oposição à ausência é a presença. Resta o instante. Fica o lapso temporal entre aquilo que foi e aquilo que está vindo a ser.

                Para Heráclito o tempo (aion) é o elemento buliçoso que cria o novo. O tempo brinca. É a criança traquinas. É caprichoso. Construtor de eventos. Responsável pelo movimento das águas do rio.

quinta-feira, fevereiro 02, 2023

"Tár", algumas apalavras

 

 "Tár" é um filme, no mínimo, enfeitiçante. É uma aula sobre como atuar, sobre como insinuar certos detalhes. A atuação da excelente atriz australiana Cate Blanchett é mesmerizante. Ela ocupa todos os espaços da obra. Não há vácuos. É um verdadeiro espetáculo de como se encena; de como se leva ao extremo o significado da palavra atuar.

O filme conta a história da bem-sucedida Lydia Tár, que chegou ao cume do sucesso. Respeitada. Incensada pela "mainstream" erudito, Lydia é a materialização do êxito que certas figuras alcançaram ao longo da história da música de orquestra. Um dos casos é o de Leonard Bernstein, citado no filme.

Ela conversa com uma profundidade que impressiona sobre cultura. Possui um raciocínio e um carisma desconcertantes. É uma professora rigorosa, que foge ao radicalismo de uma visão única. Em uma aula, ela profere para um dos seus alunos, quando este informou que não gostava de Bach, pois o compositor alemão era misógino por ter quase duas dezenas de filhos: "O narcisismo das pequenas diferenças leva ao mais enfadonho conformismo". A própria Lydia era uma figura que não se conformava no mundo da música clássica. Todos sabiam do seu relacionamento homoafetivo com a "spala" da orquestra. Ela era uma mulher, em um mundo governado por homens. E, nesse sentido, parece haver uma clara ironia implícita ao padrão do macho alfa, uma referência - talvez - indireta ao regente Herbert von Karajan, que conduziu com mãos de ferro a Filarmônica de Berlim por mais de trinta anos e criou uma noção de modelo autoritário.

Além dessa força, Lydia conseguiu alcançar o posto de regente da já referida e mítica Filarmônica de Berlim, uma das mais emblemáticas orquestras do mundo. E aqui notamos a grandiosidade do trabalho de Blanchett, pois se pode observar que ela, para fazer o filme, aprendeu a reger. No filme, sua personagem após ter gravado o ciclo de sinfonias do compositor austríaco Gustav Mahler, deixou a Quinta Sinfonia por último. A Quinta é a sinfonia mais conhecida e apreciada pelos admiradores da obra do austríaco. Observa-se o trabalho sensacional de Blanchett regendo uma orquestra. A Quinta de Mahler parte de uma premissa filosófica de como a vida é atravessada pela ironia e pela tragédia. Ela subverteu a noção histórica de uma estrutura sinfônica, pois começa por uma marcha fúnebre. Até o final do século XIX, aquilo não era comum. A Quinta é de 1902 e parece fundar o moderno. Nesse sentido, ela é uma ponte de inflexão entre o clássico e o moderno. Mas para além disso, é uma metáfora sobre a existência humana. Ela é marcada filosoficamente pela sentença de que a vida é resultado de um grande devir; de que somos alvo dos fluxos aleatórios da própria vida; que o sublime, o grandioso, pode ser sucedido pelo trágico.

E é justamente isso que acontece com Lydia. Por trás dessa personalidade magmática, observa-se como o poder e a glória podem atrair o caos. Há uma cena no filme que parece ser de alegoria para o que ocorre a personagem. Ela sai à procura da jovem violoncelista Olga e adentra um espaço abandonado e caótico. Após avançar por um vão escuro, ela cai e "quebra a cara". O seu tombo parece prefigurar o que ocorre dali para frente. Seu tombo é grandioso. Ela se isola e sai de cena.

No geral, o filme é excelente. Há referências no filme a Beethoven, Bach, Mahler, Vàrese, Bernstein, Tchaikovsky, Elgar entre outros. O diretor Todd Field conseguiu trabalhar certas nuances, certas intrigas, que, quem já é afeito à música clássica, entende o que está sendo refletido. Mas isso não impede que qualquer pessoa seja capturada pelo drama em forma de tragédia; de como o poder possui uma face mutável.

segunda-feira, janeiro 16, 2023

Os dez melhores filmes que vi em 2022


Chegamos à terceira semana de janeiro de 2023. Mas ainda penso sobre 2022. Ainda há demandas a serem observadas. Refletidas. No início do ano passado, estabeleci a meta de 70 filmes. Não se tratava de uma tarefa inalcançável. Com disciplina e organização seria possível cumpri-la. Seria necessário assistir, no mínimo, de cinco a seis filmes por mês. Não parecia tão difícil.

O fato é que não consegui. Não fiquei decepcionado. Geralmente, essas coisas provocam uma sensação de frustração. Resolvi não impor uma carga demasiada sobre mim mesmo. Afinal, não é fácil cumprir essas metas com o estilo de vida que tenho. Por isso, dei-me por satisfeito. Repetirei o mesmo número do ano passado este ano.

Com relação ao ano que passou, assisti a 63 filmes. Menos que o ano de 2021, quando tive a oportunidade de ver 80. Entre os filmes que tive a oportunidade de ver, destaquei os dez de que mais gostei. Vale destacar que dos dez filmes, seis são do gênio japonês Akira Kurosawa. Foi um ano dedicado às suas produções. E, quando o que está em jogo é o cinema do diretor japonês, é difícil não se deparar com uma obra-prima. Segue a relação:

01 - Argentina - 1985;

02 - Ran;

03 - Trono manchado de sangue;

04 - Sonhos;

05 - A fortaleza escondida;

06 -Kagemusha - sombra do samurai;

07 - Viver;

08 - Nada de novo no front;

09 - Ataque de cães;

10 - Doutor Gama;

quinta-feira, janeiro 12, 2023

As 10 principais leituras de 2022

Os dias começaram intensos em 2023. Essa postagem era para ter sido feita nos primeiros dias de janeiro ou no final de dezembro. O trabalho e o excesso de atividade não deixaram. De qualquer forma, o mais importante é que ela sairá. 

O objetivo dela é apontar as dez leituras mais importantes que fiz ao longo do ano de 2022. Um ano difícil. Repleto de tensionamentos e cansaços. De perdas e danos que deixaram arranhões. Por sua vez, não largamos as leituras. As leituras aconteceram a conta gotas. Nos intervalos. Nas caminhadas. No embalo do ônibus. Nos cochilos assustados do metrô. À noite, enquanto punha o meu filho pra dormir. Difícil. Mas seguimos com um senso de dever cumprido. 

Como afirmo todos os anos, gostaria de ter lido mais do que li. Todavia, consegui ler aquilo que me foi possível. Sendo assim, seguem as dez leituras mais importantes que li ao longo do ano que passou. 

01 - "Os Sertões" - Euclides da Cunha;

02 - "Antes do baile verde" - Lygia Fagundes Telles;

03 - "1984" - George Orwell;

04 - "O milagre de Espinosa" - Frédéric Lenoir;

05 - "O ventre" - Carlos Heitor Cony;

06 - "A metamorfose" - Franz Kafka;

07 - "Fascismo à brasileira" - Pedro Doria;

08 - "Lula - uma biografia - vol. 1 - Fernando Morais;

09 - "Capitães de Areia" - Jorge Amado;

10 - "Úrsula" - Maria Firmina dos Reis.

terça-feira, janeiro 10, 2023

"Viridiana", de Luis Buñuel



Nos últimos quatro anos, tenho realizado um exercício: escolho um diretor importante da história do cinema. Seleciono doze filmes - um para cada mês - e, sistematicamente, vou vendo as produções de maneira bastante tranquila. Para 2023, escolhi o diretor Luis Buñuel. A obra para janeiro era "Viridiana", um dos seus filmes mais representativos.

Ele faz parte daquilo que se convencionou chamar de a Trilogia da Desviturde, composto ainda por "O anjo exterminador" (1962) e "Simão do Deserto" (1965). São obras carregadas por uma forte crítica aos valores do cristianismo e à Igreja. Muitos dos filmes de Buñuel foram condenados pela Igreja. O próprio diretor foi perseguido, na Espanha, pela Ditadura de Franco. Escolheu o México como sua segunda casa.

"Viridiana" traz a belíssima Silvia Pinal no papel da personagem que dá nome ao filme. A bela e jovem "Viridiana" vive em um convento. É ainda noviça. Antes de dedicar-se completamente ao serviço religioso, surge a oportunidade de visitar um tio viúvo. Hospeda-se na casa dele. Apesar de saber do compromisso religioso, o tio decide conquistá-la. Para ele, Viridiana era uma encarnação da sua mulher morta. A partir daí, começa um jogo que vai conduzir à transformação completa de Viridiana.

Buñuel demonstra por meio de um jogo de inversões como a virtude pode ser dominada pela paixão. Como a caridade é um valor rarefeito. Como a natureza humana é habitada pelo desejo, pelo imponderável, pela força ostensiva que agride e se lança aos barbarismos como aquele com o banquete do grupo de mendigos, que fora alvo da caridade de Viridiana.

A cena final é fabulosa e repleta de efeitos. É uma apoteose da carne, mas sem qualquer referência explícita ao vulgar. Um baita filme.

domingo, janeiro 01, 2023

Filmes e documentários vistos em 2023

Posso afirmar que uma das mais felizes experiências que empreendi nos últimos três anos foi a possibilidade de sistematizar a forma como passei a ver algumas obras cinematográficas. O método é o seguinte: escolho o diretor, seleciono os filmes; estabeleço um filme por mês, o que não é uma tarefa complexa, e vejo-os diligentemente. Durante os doze meses do ano, dedico-me à tarefa. O resultado do empreendimento é prolífico e enriquecedor. 

Em 2020, dediquei-me ao mestre russo Andrei Tarkovski. Sua filmografia não é extensa. Foi possível assistir a todos os filmes que eu ainda não havia visto. Não vi "Solaris", por exemplo; mas pude rever "O Espelho". Em 2021, foi a vez do mestre sueco Ingmar Bergman, o homem da psicologia profunda. Dos silêncios desconcertantes; da poesia de alto valor. Em 2022, dedicamo-nos ao mestre Akira Kurosawa. Devo afirmar que foi uma das experiências mais lindas e seminais as quais eu já experimentei com a arte. Kurosawa é um mestre do rigor e da beleza. Um gênio acima de qualquer de qualquer possibilidade de contestação.

Em 2023, vamos nos dedicar às obras do diretor espanhol - naturalizado mexicano - Luis Buñuel. Segue a lista com os 12 filmes:

 1 - janeiro - "Viridiana"; Ok!

2 - fevereiro -  "O discreto charme da burguesia" Ok!

3 - março - "O anjo exterminador"- Ok!

4 - abril - "A bela da tarde" Ok!

5 - maio - "O alucinado" Ok!

6 - junho - "Este obscuro objeto de desejo" Ok!

7 - julho - "Nazarin" OK

8 - agosto - "O fantasma da liberdade" OK

9 - setembro - "O diário de uma camareira" OK

10 - outubro - "Uma mulher sem amor" OK

11 - novembro - "O rio e a morte" OK

12 - dezembro - "Susana, mulher diabólica" OK

Além dos filmes de Buñuel, o objeto é assistir a aproximadamente 70 filmes. Infelizmente, em 2022, eu não consegui cumprir a minha meta, também, de 70 filmes. 


1 - Viridiana

2 - Bardo - falsa crônica

3 - O milagre

4 - Ela disse

5 - Aftersun

6 - Banshees de Inisherin

7 - Do outro lado do Atlântico

8 - Discreto charme da burguesia. 

9 - Noche de fuego

10 - Os homens que pisaram na cauda do tigre

11 - Querida, Alice

12 - O suplente

13 - Racionais

14 - Pureza

15 - Narvik

16 - A qualquer custo

17 - A Baleia

18 - Tudo em todo lugar ao mesmo tempo

19 - Entre mulheres

20 - Dúvida

21 - The Naked Island

22 - O anjo exterminador

23 - Triângulo da tristeza

24 - O pagador de promessas

25 - Toda nudez será castigada

26 - Almas gêmeas

27 - Oscar Wilde

28 - Além das palavras

29 - Retratos de uma obsessão

30 - O padre e a moça

31 - O atalante

32 - A General

33 - Deus e o diabo na terra do sol

34 - A bela da tarde

35 - Close

36 - O acontecimento

37 - Luzes da cidade

38 - O pior vizinho do mundo

39 - Vidas Secas

40 -  Um assunto de mulheres

41 - Cinco semanas num balão

42 - Só dez por cento é mentira

43 - Os fuzis

44 - Corrida contra o destino

45 - El

46 - Já era hora

47 - Rio, 40 graus

48 - O castelo de vidro

49 - A falecida

50 - Cinema Novo - documentário

51 - Os cafajestes

52 - Jules e Jim

53 - Esse obscuro objeto do desejo

54 - The best of enemies

55 - Chavalier

56 - Tempo de despertar -

57 - Tigertail

58 - O ano em que comecei a vibrar por mim

59 - Nazarin -

60 - Eldorado

61 - As irmãs Brontë

62 - Um marido fiel

63 - To end All: Oppenheimer & The Atomic Bomb

64 - No portal da eternidade

65 - Outro Sertão (documentário) -

66 - A antena

67 - A conspiração

68 - Uma lição de esperança

69 - A canção da estrada

70 - As silenciadas

71 - O fantasma da liberdade

72 - O grande golpe

73 - O diário de uma camareira

74 - Saneamento básico

75 - A morte de Stalin

76 - A arca russa

77 - Ilusões perdidas

78 - Cantando na Chuva

79 - Uma mulher sem amor

80 - O assassino

81 - Mar de dentro

82 - O rio e a morte
 
83 - Susana, a mulher diabólica
 
84 - Morte a Pinochet
 

sábado, dezembro 31, 2022

Balanço cinematográfico de 2022

Ao longo do ano de 2022, estabeleci a meta audaciosa de assistir a 70 filmes. Não é uma quantidade absurda. Facilmente poderia ter sido vencida. Mas não consegui. Cheguei ao 62 filmes. Uma quantidade - pelo menos - razoável.

O que me anima é que consegui ver todos os doze - um por mês - filmes do mestre Akira Kurosawa aos quais havia proposto a mim mesmo. Vistos foram 15 no total. Após essa experiência, coloca o diretor japonês como um dos gênios da história da humanidade. Kurosawa é o mais ocidental dos diretores orientais. Um mestre em todos os sentidos. Ele conseguiu por meio de experimentos e inovações técnicas criar uma série de discípulos que vão de Sergio Leone a George Lucas. 

Fiz uma pequena lista - pessoal - com os 10 melhores filmes de Kurosawa vistos ao longo de 2022. 

1 - Trono manchado de sangue (1957)

2 - Ran (1985)

3 - A fortaleza escondida (1958)

4 - Kagemusha, a sombra do samurai (1980)

5 - Viver (1952)

6 - Sonhos (1990)

7 - Escândalo (1950)

8 - Rapsódia em agosto (1991)

9 - Sanjuro (1962)

10 - O barba ruiva (1965)

segunda-feira, dezembro 12, 2022

"Capitães de Areia": algumas palavras

            

Jorge Amado é um dos escritores brasileiros que menos li e que mais eu preciso ler. Com este livro sobre o qual escrevo, é a terceira leitura. Sua vasta obra, repleta de paisagens diversas é um importante afresco sobre uma dimensão do Brasil a partir da Bahia. A ideia daqui para frente é visitar uma obra por ano do autor de “Cacau”, “Mar Morto”, “Suor”, entre tantas outras obras que criaram uma espécie de deslumbrante painel sobre o fascinante povo baiano.

O livro da vez foi “Capitães de Areia”, de 1937. Trata-se de um romance, cujo narrador onisciente nos apresenta um grupo de garotos desamparados. Moradores de um trapiche, próximo a uma praia, o bando sobrevive afoitamente, cometendo pequenos furtos e desafiando as autoridades da capital baiana.

O grupo é chefiado por Pedro Bala, um órfão que lidera o grupo formado por uma dezena de meninos abandonados – há um leitor, um malandro que conquista prostitutas; há o beato, o desejoso pelo cangaço; um coxo, alma mais amarga e vingativa do grupo. Na parte dois da obra, aparece a figura de Dora, uma menina órfã de mãe, que fora vitimada pela bexiga. Inicialmente, há uma hostilidade contra ela, mas, depois, ela passa a ser benquista pelo bando. A adolescente passa a exercer o papel arquetípico da mãe que eles não possuem. Ela é o lado terno, feminino, capaz de mudar o ambiente. Dora inicia um romance com o chefe do grupo, consolidando um relacionamento entre aquele que chefiava os garotos – e a única mulher da comunidade –, um tipo de mãe.

Cena do filme "Capitães de Areia", de Cecília Amado

A obra faz parte da chamada 2ª geração modernista. Está inscrita no romance de 30. Reverbera nela uma forte crítica social. Vale mencionar que o chamado Romance de 30, mobilizou escritores para refletir a respeito de um país que passava por enormes mudanças. Logo após o fim da República Velha (1889-1930), o país inicia um outro período com mudanças políticas, econômicas e sociais. O outrora país agrário e refém das oligarquias regionais – vale mencionar os casos de São Paulo e Minas Gerais que, durante a Primeira República, revezavam-se na escolha dos presidentes do país, naquilo que ficou conhecido como a República do Café com Leite – começa a se industrializar. Novos atores políticos
emergem. O eixo do poder se consolida no Centro-Sul. Getúlio Vargas passará a ser o principal nome da política nacional nos próximos vinte anos.

Mesmo em face dessas transformações, nota-se o quanto o Brasil continuava atrasado em relação às grandes economias capitalistas. Jorge Amado, um baiano, filho de uma tradicional família do estado, entra no debate político, que demonstra de forma realista as chagas sociais de um país que precisa superar os seus problemas; iniciar um novo ciclo; superar os antagonismos.

Amado é o primeiro escritor a dar visibilidade ao papel de jovens adolescentes malandros. Havia um consenso que buscava enquadrar esses jovens como bandidos e marginais desocupados. Isso fica provado em dois momentos do romance: (1) na reportagem que surge no início da obra, trazendo as escusas do diretor do reformatório, defendendo-se das acusações de maus-tratos contra jovens institucionalizados; (2) quando Pedro Bala é apreendido e experimenta a tortura na própria pele numa instituição para menores.

Nota-se, assim, o olhar benevolente e generoso de Amado para a condição desses jovens. Sua tese era a de que garotos eram obrigados a praticar pequenas infrações pelo fato de não possuírem uma estrutura familiar favorável e o Estado não assumir o seu devido papel ante tão grande calamidade. Durante o Estado Novo, período conhecido como a Ditadura de Vargas (1937-1946), mais de 800 exemplares da obra foram queimados em praça pública. Observa-se que a mensagem da obra atingiu em cheio o poder oficial. Aqueles que controlavam o Estado entenderam a poderosa crítica escrita por Jorge Amado.

Jorge Amado


O escritor procura humanizar os garotos desumanizados por suas histórias de vida. Um exemplo é a personagem Sem-Perna. Após ter se inserido em uma família com o objetivo determinado de roubar, fica balançado entre a opção de cumprir as demandas do grupo e ceder aos afetos recebidos pela família que o acolheu. Nota-se, assim, que a principal carência dos meninos era de aceitação e afeto. Para que aquele bando de malandros juvenis pudesse abandonar aquele ciclo de contravenções, era necessário que tivessem algumas de suas carências preenchidas. Apesar da brutalização, da vida clandestina, há a clara tese de que o afeto, a necessidade de um lar, de uma vida segura e com as necessidades primárias atendidas, é um imperativo para todas as pessoas.

O livro possui uma mensagem atemporal. Passados mais de 80 anos da escrita, o país avançou em algumas questões, mas não entendeu a necessidade de proteger integralmente os direitos de crianças e adolescentes. Ainda vigora uma noção punitivista a respeito dos jovens que cometem ilícitos; uma defesa intransigente por certa porção da população brasileira que desconhece a realidade de milhões de brasileiros e brasileiras pobres que vivem nas periferias do país. O combate que evita o cometimento desses atos não é a repressão, mas a existência de políticas públicas que garantam os direitos sociais às famílias mais pobres. Certamente, foi essa a mensagem que atravessa o tempo deixada por Jorge Amado.

sábado, dezembro 10, 2022

Um comentário sobre a Bíblia

                          

Hoje, enquanto ziguezagueava pelo Facebook, encontrei uma reportagem da BBC Brasil a respeito do dilúvio contadopela Epopeia de Gilgamesh, um fascinante relato sobre como se deu a luta entre homens e deuses nos primórdios dos tempos. A reportagem chamava a atenção para o fato de que, a Epopeia que é muito mais antiga que os relatos bíblicos, já descrevia a existência de um dilúvio com características bem próximas daquelas aludidas no texto bíblico do Gênesis.

Li certos comentários – poucos. Alguns que questionavam a autoridade da Bíblia; já, outros, enaltecian sua suposta grandiosidade. Vivendo em um país cristão e, deveras, religioso, é algo natural que se faça uma defesa apaixonada de suas prerrogativas. Também deixei um comentário. Ei-lo abaixo:


A Bíblia é a experiência religiosa de um povo, no caso, os judeus, que foi transformada em registro sagrado. O que há na Bíblia é antropologia. É o desejo do homem em alcançar a eternidade. É a fé erguida por meio da linguagem. Boa parte dos escritos bíblicos está eivado de relatos mitológicos, principalmente, certos trechos do Antigo Testamento. Dizer que a Bíblia foi escrita por mais de 40 escritores diferentes; que os relatos compreendem mais de 3 mil anos; que ela mudou gerações, civilizações, não quer dizer nada. Na Índia, o Bhagavad Gita também tem mudado gerações; o Alcorão, também, tem feito isso no mundo islâmico. O cristianismo se tornou uma religião hegemônica no Ocidente. Durante muito tempo, nascer no Ocidente era automaticamente se tornar um seguidor de Jesus nos seus mais variados eixos - católico, protestante, ortodoxo etc. Quem não o fizesse era perseguido sob o risco de perder a própria vida; ou pagava duramente com o ostracismo social e político.

Os judeus, um dos povos mais fracos da Antiguidade, que não tinham nada de mais a oferecer; que não possuíam um exército forte; que não manobravam em rotas comerciais pelo Mediterrâneo à semelhança dos fenícios, foi dono de uma das maiores estratégias da história da humanidade: que foi fundação de uma religião nacional monoteísta sob a égide de Javé. Daí pra frente, nós conhecemos o resultado. Dizer que a Bíblia transforma as pessoas que são expostas a ela também não quer dizer nada. Como um livro compilado por uma série de eventos, o principal ator nas suas páginas é o ser humano com todas as suas fragilidades e fragmentações, diante do desejo, do medo, da angústia, diante do numinoso, como diria Rudolf Otto.

P.S. Além disso, encontrei esse vídeo entusiasmante e esclarecedor no Facebook sobre a famosa Epopeia e sua relação com a Bíblia.

terça-feira, dezembro 06, 2022

"O Barba Ruiva", de Akira Kurosawa


Domingo, tive o privilégio de assisti ao longa “Barba Ruiva”, de Akira Kurosawa, de 1965. Após ter iniciado em três outras ocasiões – mas sem sucesso -, à tarde, demorei-me por um bom tempo no sofá, acompanhando a bela e delicada obra do mestre japonês. É um trabalho lento, sinuoso, que aposta em planos escuros. Uma fotografia bela e digna de Kuroswa. Exige-se atenção para que se consiga acompanhar os diálogos nas mais de três horas do filme.

No Japão do século XIX, um jovem e ambicioso e altivo médico recém-formado, procura trabalhar para um “shogum”. Isso permitiria tranquilidade e uma possibilidade de ascensão na carreira. Todavia, acaba sendo designado a desenvolver as suas atividades em uma aldeia, num hospital que atende pessoas pobres, exposto às experiências mais dramáticas e desafiadoras. Neste hospital, ele vai trabalhar sob a supervisão do doutor Niide (Toshiro Mifune), conhecido pela alcunha de “barba ruiva”. O médico é respeitado pela firmeza moral e pela postura humanista. Niide procura mostrar ao jovem médico que por trás de todo paciente existe um ser humano, alguém que precisa ser atendido com desprendimento, com carinho, com os rigores de uma solicitude que suprime o preconceito e a indiferença. O filme deveria ser obrigatório para todos aqueles que desempenham uma função de atendimento ao público, principalmente médicos.

“Akahige” (em japonês) é uma obra que aponta para uma crença profunda na humanidade. É o sensível olhar do diretor para a fragilidade da vida; e como ela não pode ser colocada em um segundo plano. A vida é um exercício que desenvolvemos e que, só passa a ter sentido, quando a realizamos com altruísmo e simpatia.

“Barba Ruiva” é a última obra que Kurosawa realizou ao lado do genial ator Toshiro Mifune. O filme demorou dois anos para ficar pronto. Kurosawa levou a paroxismos a dimensão dos detalhes. Prendeu Mifune em um contrato, que não permitia que o ator realizasse outros trabalhos. Isso acabou por gerar contendas recíprocas. Ao final, os dois cindiram as relações. Não mais trabalhariam juntos. Uma perda irreparável.


segunda-feira, novembro 21, 2022

Algumas palavras sobre "A filosofia na era trágica dos gregos".

 



                Terminada a leitura de “A filosofia na era trágica dos gregos”, resta-me a sensação de idílio. Para os padrões de Nietzsche, trata-se de um texto aparentemente simples. Todavia, o escrito apresenta grandeza, eloquência e a apaixonada retórica poética tão costumeira na obra do filósofo alemão.

                O texto é resultado de uma série de ensaios escritos quando ocupava a cátedra de filologia na Universidade da Basileia. Trabalhar os gregos o empolgou. Observa-se pelo espírito da obra. Pela força que evoca. Nota-se uma energia vital. Um entusiasmo incontrastável em cada palavra. Escolher os pré-socráticos para servir de motor ao seu pensamento, sempre foi um projeto ontológico para o filósofo.

                Nietzsche chama a atenção para o fato de que os pré-socráticos foram os responsáveis por tirar o mundo ocidental do pensamento mítico. Eles ajudaram os gregos a tirarem os olhos do céu e colocarem na natureza (“physis”). O homem grego, simplesmente, baixou a cabeça para terra. As respostas que davam sentido à vida poderiam ser compreendidas a partir daqui, fundando uma nova perspectiva. Ou seja, na natureza, por seus elementos e processos regidos por leis, era possível entender o significado da própria vida.

                Esses filósofos foram responsáveis por criarem sistemas; buscaram respostas para indagações; procuraram encontrar um elemento capaz de sintetizar o vórtice causador do mundo, das coisas, da realidade. Fica nítida a predileção de Nietzsche por Heráclito, a quem chama de “filósofo do vir a ser”. Para ele, o filósofo Heráclito não consegue enxergar outra coisa a não ser o fluxo do devir. E, acerca disso, todo aquele que olha para a vida não deve se amedrontar; deve encontrar o sentido trágico por excelência.

                A tragédia é a força que rompe a mediocridade do mundo. Ela permite que se olhe para a vida como um combustível para transformar a existência numa obra de arte. Nota-se aqui, que mesmo sendo um texto de juventude, traz alguns supostos que serão indissociáveis do pensamento de Nietzsche. “O mel é, segundo Heráclito, a um só tempo doce e amargo, e o próprio mundo é um caldeirão que precisa ser constantemente mexido” (p.60). Ou seja, o filósofo grego com isso demonstra que a própria realidade não deve ser encarada como uma leitura acabada, estática. Aqui se coloca uma resposta a Parmênides.

                Segundo Nietzsche, Parmênides é um “profeta de verdade”; “uma luz fria e ofuscante”. Ele foi “esculpido em gelo”. Seu mundo é frio. É como a superfície de um lago congelado. Enquanto em Heráclito a vida salta, dança, acumula a potência do trágico; brinca, olha para a realidade como se fosse a primeira vez. É um rio de águas buliçosas que flui. Em Parmênides, há uma necessidade de afirmar que “o ser é”. Ele é indivisível, pois, se assim não fosse, ele não teria como ser.

                O livro apresenta o jovem Nieztsche. À época, ele tinha pouco mais de 24 anos de idade. Sua mente inquieta estava sendo agitada por ondas wagnerianas. Nota-se uma interpretação artística daquilo que que foi pensado pelos primeiros filósofos gregos que vieram antes de Sócrates. A mensagem que fica é que todo sujeito que se diz filósofo precisa treinar o olhar. Deve aprender a saborear a própria vida. Afinal, é isso que o sábio faz quando percebe e aceita a novidade que pulsa no real. E desse material sempre renovado pela inexorabilidade do devir que vamos melhorando a própria vida.

               

segunda-feira, outubro 31, 2022

Jair, o homem pequeno


Segundo reportagem da Folha de São Paulo, Jair Bolsonaro foi dormir cedo após saber que havia sido derrotado nas urnas. As luzes do Palácio da Alvorada apagaram por volta das 22h06. Uma clara metáfora de um dos governos mais ineptos da história da República. Assessores e membros do Governo tentaram dialogar com o presidente. A imprensa queria ouvir as suas palavras. Um único pronunciamento que fosse de reconhecimento da vitória de Lula. Todavia, “o imbrochável” não demonstrou grandeza nem quando perdeu. Esquivou-se em um aceno de orgulho e covardia.

A reportagem da Folha ainda afirma que ele esteve a maior parte do dia com o filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro, implicado no esquema das rachadinhas. Como deve ter estado o seu humor? Como terá falado com a Michelle? Diz um dos capítulos da história que Nero, após ter ateado fogo em Roma, ficou do alto do seu palácio tangendo uma harpa, enquanto a cidade pegava fogo. Após o episódio, dirigiu a culpa do evento aos cristãos. Bolsonaro ateou fogo no Brasil nos últimos quatro anos (outra metáfora) e, à semelhança de Nero, não se responsabilizou. A diferença entre os dois é que Bolsonaro nem para tanger harpas possui talento. É medíocre. É pequeno. A única habilidade da qual é detentor é a da ignomínia.

Muita gente sofreu nos últimos quatro anos. Se ele não foi responsável direto pela pandemia, deve ser imputada a ele a negligência e o desdém com que a tratou. 400 mil vidas poderiam ter sido salvas. Famílias sofreram seus dramas. Como no episódio bíblico dos hebreus no Egito, o anjo da morte visitou milhares de lares brasileiros. A vacina era “o sangue” que deveria nos proteger. Ele não o fez. Retardou o quanto pôde a aquisição. Como o faraó do texto bíblico, riu, escarneceu. Imitou as pessoas que morriam sem ar. À semelhança dos mágicos que buscavam imitar o que estava acontecendo no Egito por meio de ilusionismos para impressionar o faraó, alguns médicos desonestos indicaram remédio sem nenhuma comprovação científica.

Mesmo com alguns desses absurdos, recebeu mais de 50 milhões de votos. Algo que impressiona. Quando votaram em Bolsonaro, em quê essas pessoas estavam votando? Qual a mensagem que fica, mesmo tendo experimentado o que experimentaram nos últimos quatro anos?

Recolheu-se no Palácio. Apagou as luzes o homem pequeno. Talvez, tenha ficado em posição fetal. Talvez, nem tenha conseguido dormir. Como estava o seu humor? Como uma criança mimada, talvez tenha ficado emburrado. Tenha se enchido de melindres. Culpado os outros. E, certamente, não reconhecerá os próprios erros. Não fará uma “mea culpa”. Afinal, o que se faz quando não se sabe tanger uma harpa?

domingo, outubro 23, 2022

As contradições do mundo evangélico

 

O mundo evangélico é amplo e complexo. Afirmo isso, pois já estive lá. Há vertentes das mais variadas - protestantes históricos, pentecostais e neopentecostais. Dizer que todos são iguais é uma generalização perigosa. Mas, hoje, dois de cada três eleitores evangélicos optam por Bolsonaro, o que revela uma flagrante contradição a respeito dos valores cristãos que o segmento afirma defender.

Presos a chavões, a debates nulos e a clichês insossos, muitos evangélicos esquecem o fundamento da mensagem dos profetas e se agarram ardorosamente àquilo que é falado por pastores mal intencionados. Ignoram a dura mensagem do profeta Amós contra a aristocracia corrupta e mentirosa de Jerusalém. Abandonam a essência da mensagem dramática do profeta Jeremias, que pregou durante quarenta anos para que o povo convertesse o coração à justiça e à verdade. Esquecem a mensagem do profeta Habacuque, que esperava por dias em que a verdade e a justiça triunfariam, "mesmo que não houvesse frutos nas vinhas" (Hc 3.17).

E, acima de tudo, fecham os olhos para o coração da mensagem de Jesus, que é a paz, a tolerância e o amor ao próximo (Mt 5.38-48). Gosto, especialmente, de uma passagem do Sermão do Monte em que Jesus diz: "Portanto, se estiveres para trazer a tua oferta ao altar e ali te lembrares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta ali diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; e depois virás apresentar a tua oferta" (Mt. 5.23-24).

Há uma inversão a respeito desse ensinamento, pois alguns cristãos, tendo contenda consigo e com o mundo, levam primeiro suas ofertas a Deus (que deve ser entendida como culto, dádiva, entrega), ignorando completamente a noção de que não existe oferta aceita pela eternidade sem que haja concórdia, paz, acerto com o outro. Sem tolerância, sem amor ao próximo, oferecer a oferta é um grande erro. Fé sem amor é um ato fingido; esperança sem amor, é um equívoco em si mesmo. (1 Co 13.13)

No vídeo, o pastor Ed René Kivitz reflete um pouco sobre as contradições de uma igreja evangélica que faz opção por uma mensagem ostensivamente anticristã.