quarta-feira, setembro 29, 2010

Debate – sem nenhum caráter

Em período eleitoral notamos com maior nitidez a calamidade a que estamos submetidos. É o tempo em que os vampiros da política saem do túmulo das assembleias legislativas – câmara legislativa no caso do Distrito Federal (DF) - e dos castelos assombrados do executivo a fim de pedir votos. O intento é claro: dar continuidade à selvageria, ao ataque indiscriminado à coisa pública, à parasitagem ao sangue do povo.

Escrevo tais palavras, pois fui invadido por um profundo asco após assistir ao debate promovido pela Rede Globo com os candidatos ao governo do DF na noite de ontem, 28 de setembro de 2010. Ainda sinto os ecos aflitivos das falas postiças dos candidatos – Agnelo Quiroz (PT), Eduardo Brandão (PV), Wesliam? Roriz (PSC), que assumiu o governo no lugar do marido Joaquim Roriz, numa manobra desavergonhada[1]. Certamente vivemos uma séria crise política em nosso país. O que fica evidente nesses debates, supostamente democráticos, é a falta de inteligência, o estrangulamento das ideias e a leviandade resultante da mentira.

A palavra debate traz uma carga semântica que não se aplica à situação em comento. Não tivemos um debate. Debate sugere a discussão de um tema; a abordagem ou o desvelamento de um aspecto por duas ou mais pessoas. O que vi não foi um debate. Foi, sim, uma mediocrização sistemática, a materialização das venalidades. Ou seja, quem é quem no jogo político. Como cada patota, que muda apenas de cor, vai se apropriar do mesmo objeto: a galinha dos ovos de ouro – as verbas polpudas do Estado. E como distribuir os despojos após a lide eleitoral entre os marqueteiros, o empresariado por contratos lucrativos; com os setores da mídia, com as empreiteiras, com os políticos fisiológicos arrojados por uma síndrome fáustica – de quem vendeu a alma ao diabo.

Mário de Andrade retratou com brilhantismo a nossa saga em Macunaíma - o herói sem nenhum caráter, um estudo profundo de nossa etnicidade. Nascemos mudos. Fomos concebidos “no fundo mato-virgem”. Somos filhos do “medo da morte”. Em momentos como estes, a história de “nosso parto histórico” vem à tona. Não fomos concebidos em berço esplêndido. As intenções de nossa metrópole não era fazer do Brasil uma nação independente, civilizada, com valores nobres, como se deu na relação Inglaterra/Estados Unidos. Desde muito cedo fomos ensinados a sermos espertos. A nos apropriarmos pelo parasitismo das coisas alheias. Aprendemos a ver no outro ou no Estado a figura de um inimigo ou uma potencial mina de tesouros a serem saqueados. Crescemos com uma alma de pivete. Nossas propensões são vis. O nível de baixeza é alto.

Uma abastada minoria herdeira da Casa Grande continua a explorar uma maioria alienada. Essa minoria continua secularmente agarrada à jugular do país, bebendo-lhe o sangue. Para não perderem as rédeas a que estão acostumados, contam as piores mentiras ao povo. Gaguejam, abraçam, direcionam sorrisos maquiados de complacência.

Debates como os de ontem, apenas evidenciam a barbárie na qual estamos mergulhados. Os dias são de penúria. Exigem um protesto sábio. O melhor protesto é saber votar. A propalada democracia a qual temos que defender não é virtuosa. Esta democracia é o direito de alguns privilegiados serem e outros não serem. Emplastos não curam oncoses. A classe política brasileira, filhos da piveteria histórica, não debate, nos abate.

Data: quarta-feira, 29 de setembro de 2010, 18:29:55.


[1] Toninho, candidato pelo PSOL, também participou do debate.

terça-feira, setembro 28, 2010

Para que serve a literatura

Conta-se que no final da Segunda Guerra Mundial, quando chegaram num campo de concentração que contava com inúmeros prisioneiros inocentes, os soldados de uma das divisões das tropas aliadas surpreenderam alguns dos seus inimigos nazistas sentados e calmamente lendo uma das obras mais importantes e humanistas da literatura universal: nada menos do que Fausto, de Goethe.

A leitura daquele livro não tornava seus leitores menos culpados pelo horror que estava sendo cometido por eles próprios. Também não impedia que cada um daqueles soldados literatos cumprissem com suas atribuições de prender, torturar e matar seus semelhantes como nenhum outro animal além do humano é capaz de fazer.

Nada mais desconfortante para os defensores da literatura como forma de humanização do que a idéia de que o homem pode combinar a satisfação estética sentida após a leitura de uma peça de Shakespeare com uma prática anti-humana, perversa e cruel.

Apesar disso, como nos ensina o crítico literário Antônio Cândido, a literatura contribui para que se confirmem em cada um de nós “…aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor”.

A literatura serve, por certo, para dar prazer e satisfação para todos, mas só os bons levam a sério suas mensagens humanistas: os demais permanecem indiferentes. Bons livros não convencem uma pessoa má a melhorar. Pode-se supor que alguém que tenha sido pago para assassinar, na sua infância tenha sido um leitor entusiasmado de Monteiro Lobato.

As mensagens humanistas dos livros só atingem as pessoas predispostas para a sua recepção. É provável que os romancistas estejam condenados a “pregar aos convertidos”, a convencer aos convencidos, como tinha o costume de escrever o sociólogo Pierre Bourdieu.

Mesmo assim, um pioneiro investigador dos segredos humanos como Freud não dispensava os conhecimentos propiciados pela literatura. Para o fundador da psicanálise “…os poetas e romancistas são aliados preciosos, e seu testemunho deve ser tido em alta estima pois eles conhecem, entre o céu e a terra, muitas coisas com as quais nossa sabedoria escolar não poderia sequer sonhar. Eles são para nós, que não passamos de homens vulgares, mestres no conhecimento da alma, pois se banham em fontes que ainda não se tornaram acessíveis à ciência.”

Com tudo isso, não deixo de pensar que após a leitura de um livro como Levantado do Chão, de Saramago, que descreve o sofrimento e a luta dos trabalhadores rurais portugueses, nenhum dirigente do Fundo Monetário Internacional deixará de impor aos países devedores as medidas econômicas que levam a fome e o sofrimento para milhões de pessoas em todo o mundo.

Talvez a literatura sirva mesmo é para convencer os convencidos a permanecerem contra todas as formas de opressão do humano. Se servem para tanto, isso já é um grande bem, pois, embora aqueles que não praticam o bem continuem difundindo o mal, não conseguirão jamais impor a idéia de que ser humano é ser apenas como são.

Por Walter Praxedes - Doutor em Educação pela USP e professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá. Publicado na REA nº 15, agosto de 2002, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/015/15wlap.htm

Extraído DAQUI

Justificar

quinta-feira, setembro 23, 2010

Primavera, mas não ainda

Hoje, 23 de setembro de 2010, teve início a primavera. É uma das estações que mais admiro – juntamente com o outono. A primavera é a estação do cio da natureza. É a estação das flores. Do colorido multifacetado. Das aquarelas alegres - vermelhas, roxas, brancas, amarelas. É como se a natureza fosse um daqueles paraísos descritos nos quadros de Bosch.

Aqui em Brasília, especificamente, surgem os ipês – roxos, amarelos, brancos. Os cachos generosos revelam uma beleza frágil e efêmera. Sempre enxerguei nos ipês uma metáfora da candura da beleza. Como dizia Nietzsche, ‘a beleza não é para todos’. Ela é cândida, acanhada, habitada por pudores virginais. Os ipês enunciam essa característica. Passam o resto do ano escondidos, incógnitos, no meio das demais árvores, mas de uma hora para outra, em pouco mais de uma semana (quando muito), poetizam o esplendor que alegra os olhos da alma. Ficam expostas com suas cores vivas, destacadas, como que a dizerem: “Olhem para mim!”. Mais algumas semanas e surgirão os flamboyants com suas cabeleiras inflamadas, incendiárias. Vermelhos, imponentes, a encherem os olhos de quem vê.
Mas, Brasília por estes dias tornou-se num grande deserto. Já se passaram 119 dias sem chover. A primavera não surgiu trazendo o canto dos pássaros, como em “As Quatro Estações” de Vivaldi. Ela trouxe mais um dia quente, cheio de vapores mornos. A gramínea da cidade crestou. O céu é um cobertor cinza, com cores em tons ensangüentados ao final do dia. Faz lembrar o céu pintado na tela “O grito” do norueguês Edvard Munch. E, de fato, Brasília grita, agoniza, com sua condição de insuportabilidade climática.
A Capital Federal transformou-se numa versão habitada do Deserto do Atacama. Nós, animais humanos, revelamos nossa fragilidade. A pele abre sucos quando não untada. Os lábios sofrem com a constância do tempo seco. O sol queima implacavelmente como se não houvesse atmosfera para filtrar a radiação. Corremos de um lado para o outro como bichos assustados, mas, somos azorragados pelo nosso implacável algoz.

Hoje, ao receber a notícia da chegada de minha musa, fiquei com um imenso cenho de melancolia. Os lábios encolheram. Os olhos enxergam apenas uma paisagem cinza, manchada pela poeira. Não há flores nos jardins. As árvores estão nuas, despojadas, mostrando galhos pardacentos e tortos. Não há zumbido de insetos. Eu não ouvi “As Quatro Estações” de Vivaldi. Lembro-me apenas de “O grito” de Munch. Não há poesia no mundo – nem em mim.

Data: 23 de setembro de 2010, 20:00 hs.

terça-feira, setembro 14, 2010

Por que lemos literatura?

Lemos porque queremos entender a realidade de outro ponto de vista ou porque precisamos fugir dela por um momento para voltar mais lúcidos. Lemos livros de ficção porque queremos saber como os outros vivem, enfrentam os problemas, como vencem ou como sucumbem. Lemos porque queremos ver refletido nosso eu no mundo dos personagens. A força do teatro é o arroubamento emocional, a participação grupal – que alimente, além do instinto estético, o instinto gregário do ser humano. Os espectadores estão na mesma sala assistindo à peça.

Ao contrário do teatro, a leitura é atividade solitária. Podemos falar sobre um livro com um amigo, familiar ou colega de trabalho. Mas lemos e nos emocionamos sozinhos. Contudo, um bom livro nos ajuda a suportar melhor a solidão. Por isso, os livros foram chamados de “bons amigos”. Estão sempre esperando os leitores. No teatro, os personagens estão diante do espectador, podemos olhar os personagens. A leitura, ao contrário, coloca em jogo a imaginação do leitor. No teatro as reações de qualquer pessoa da plateia podem ser observadas pelos outros.

A leitura dá lugar a expressões – como rir, chorar ? que muitas vezes, a pessoa oculta em público. Tanto a leitura de obras ficcionais quanto o teatro têm função catártica, mas as estradas são diferentes. No final de uma peça, o público aplaude. Ao terminamos de ler um livro também podemos sentir desejos de aplaudir ou de criticar. Mas aplaudimos ou criticamos mentalmente.
Também podemos escrever nossas impressões ou procurar outras pessoas para fazer comentários ou trocar opiniões. Por isso é tão importante a criação de clubes de leitura. O ser humano é gregário e precisa de outros para dialogar e crescer. Podemos entender que o esforço do escritor é ciclópeo. Ele precisa encontrar caminhos para chegar à mente do leitor e despertar o interesse. O importante é cultivar o hábito da leitura seja como fonte de informações, como caminho de autoconhecimento ou simples entretenimento.

Em síntese, lemos literatura para interpretar o mundo, para esquadrinhar a alma humana, para conhecer, para compreender, para sair do dia a dia rotineiro. Ítalo Calvino, Julio Cortázar e outros aconselham ler os clássicos. Os clássicos passam valores enquanto desenvolvem histórias.O escritor Jorge Luiz Borges dizia que ler deve ser um ato prazeroso. Ler é vital para nosso desenvolvimento como seres humanos.

Por que escrevemos?

A criação literária é como a frágua de Vulcano. Escrever nunca é morno. Escrever é angústia, raiva, incêndio, esperança, fingimento e desespero. É criar castelos de areia com palavras e temer a ventania. Escrever é emoção primitiva, instinto de autoexpressão. É gritar, usando corretamente a linguagem. É, então, grito medido, sofisticado – chamo isso de fingimento – pois é grito visceral, mas contido. Educado para expressar-se através de figuras estilísticas, discursos e silêncios, focos narrativos e personagens.

Escrever é colocar rédea nos cavalos da emoção. Civilizar a cólera. Contê-la para não expor em demasia esse eu paradoxal que deseja expressar-se e ora aparece, ora volta-se sobre si mesmo. Escrever é, às vezes, um ato de coragem e outras, um ato de estupidez. Mas sempre uma busca de catarse.

O texto é o produto do transbordar de um eu – Netuno, escondido nas águas do inconsciente. E é esse eu desconhecido que brinca com as palavras... deleita-se com as próprias histórias e incentiva o leitor a navegar no tempestuoso mar da literatura.

Por Isabel Furini

Extraído DAQUI

quarta-feira, setembro 08, 2010

Comentário de uma carta de Mário de Andrade a Fernando Sabino

Sou um grande admirador da genialidade de Mário de Andrade. Acredito que ele tenha sido um dos maiores brasileiros que já passaram por esse país cheio de dificuldades e incoerências. Hoje pela manhã, li alguns fragmentos de uma carta que ele escreveu ao escritor mineiro Fernando Sabino - à época - um aprendiz literário. O texto me fez lembrar Rainer Maria Rilke, no livro Cartas a um jovem Poeta. Passagem magnífica do livro de Rilke é aquela em que ele fala da necessidade daquele que escreve: "Ninguém pode dar-lhe conselhos nem ajudá-lo - ninguém! Só existe um caminho: penetre em si mesmo e procure a necessidade que o faz escrever. Observe se essa necessidade tem raízes nas profundezas do seu coração. Confesse à sua alma: 'Morreria, se não me fosse permitido escrever?'"

Voltando ao escritor modernista. Os dois (Mário e Fernando) trocaram cartas. Nas correspondências, Mário deu instruções de como Sabino deveria proceder para se tornar um arguto pensador e, se possível, um grande escritor. Em carta de 21 de março de 1942, Mário escreveu mais ou menos assim para Fernando Sabino:

"Você me pede que lhe aconselhe algumas leituras... Isso é difícil como o diabo... Você precisa de uma cultura literária geral, que não deve ser feita duma vez só, mas dentro de um programa que pode durar ponhamos seis anos... Ler os brasileiros... Meu Deus! Aqui também entra a noção da dignidade do indivíduo. Me parece um pouco canalha a gente conhecer Anatole France e não ter lido as 'Cartas Chilenas'; falar de Proust e não falar de Gregório de Matos ou Cruz e Souza. É mais uma questão humana de proximidade. E, já falei, creio, você precisa ler muito Machado de Assis, mas ler como reler, roubando ele, plagiando ele, não no estilo nem no espírito mas na delicadeza de sentimento.

Machado de Assis não deve ser para você uma companheiro de vida, mas apenas um tesouro onde você vai roubar. Roube dele tudo quanto possa ser útil a você, jogando o resto fora. Mas sempre não esquecendo que você pode roubar errado. O problema é delicadíssimo. Veja o problema do estilo: se você escrever, chegar a escrever no estilo de Machado de Assis você si esculhamba por completo, si perde. Mas você precisa chegar a um estilo que fosse em você e em 1942 o correspondente do que foi o estilo de Machado de Assis pro tempo dele.

(...)

As leituras imprescindíveis não podem ser devoradas. E fazendo uma mistura bem equilibrada de tudo, acho que você consegue uma boa cultura literária. E não é possível um intelectual sem filosofia, sem orientação social. (O destaque é meu).

Achei a frase em destaque extraordinária. Acredito que a semântica empregada por Mário na frase seja um dos principais problemas do nosso tempo. O intelectual da atualidade vive em torre de marfim sem refletir com engajamento o mundo. Claro, não reflitamos com ideias curtas algo com tamanha compelxidade.

Leia os textos do Mário. Necessitamos de outros "mários".

*Ler outra carta de Mário de Andrade a Fernando Sabino - AQUI
* Exclente resenha sobre as cartas de Mário a Fernando, reeditadas em livro pela Editora Record AQUI

sábado, setembro 04, 2010

Perguntas de um operário que lê

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilònia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Sò tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sòzinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitòria.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas



Por Bertold Brecht

Foto 1 - Bertolt Brecht.

Foto 2 - Trabalhador negro em frente ao Congresso Nacional, sede do Legislativo Federal. É a torre que representa uma das "pernas" do poder da República. É a metáfora do progresso, da pujança arquitetônica. Mas, quem construiu tal torre com suor e sangue? Brasília completou 50 anos. As honras foram direcionadas a JK. Todavia, quem fez tudo isso?

Texto "Brasília 50 anos" AQUI

Poema Extraído do livro Antologia Poética, Elo Editora, Rio de Janeiro, 1983, p. 31

sábado, agosto 28, 2010

A grandiosidade da "Romântica" de Bruckner

Ouvi pouca música esta semana. Os fatos engoliram minha percepção e tudo passou rapidamente. A música é, para mim, um dos deleites mais agradáveis da vida. Beethoven disse certa vez que "a música é a linguagem de Deus". E, de fato, uma boa música proporciona uma verdadeira alegria espiritual. E do pouco de música que ouvi, acredito que mais de 80% foi dedicado à Sinfonia No. 4 de Anton Bruckner, também conhecida como "Sinfonia Romântica". A gravação com Claudio Abbado gravada em 2004 no Festival de Lucerne embalou minhas conviccções, proporcionou momentos de grandeza, de absoluta exaltação da existência. Em cada audição que efetuei, saí com um sorriso largo no semblante da alma. A "Romântica" de Bruckner foi gravada em 1874 e passou por inúmeras revisões até o ano de 1888. Revisionismo era uma palavra que seguiu a carreira do compositor Bruckner. Muitas das suas sinfonias passaram por imensas revisões. Talvez isso fosse uma traço da insegurança de Bruckner. Embora a Sinfonia No. 4 tenha o nome de "Romântica", ela não segue o ideário do "amor romântico" do século XVIII. Bruckner segue um programa medieval, inspirado nas óperas Lohengrin e Siegfried de Richard Wagner. Esqueçamos Wagner e nos fixemos em Bruckner, num dos trabalhos mais belos e populares do seu repertório.

Abaixo uma première com Günther Wand, o velhinho que entendia tudo de Bruckner. Sua integral das 9 sinfonias de Bruckner é uma das mais respeitadas de todo o mundo erudito. Observe os gestos sóbrios, elegantes, de quem domina o ofício como ninguém do velhinho Wand. O cenário é arrebatador, num ambiente que inspira o sagrado. Ou seja, que esboça uma maior ênfase, dá realces mais acentuados à música poderosa e Bruckner.



Observe a beleza, a leveza, toda a espiritualidade que emana da música







sábado, agosto 21, 2010

Mercado Eleitoral

O jogo é um vício nefasto. Ao contrário da bebida e da droga, a pulsão pela aposta não altera o estado de consciência e arrisca os recursos financeiros do jogador. Dostoiévski que o diga.

A fantasia de ganho fácil faz naufragar a razão na emoção. O jogador dobra apostas, blefa, convicto de que a sorte, mulher apaixonada, jamais o abandona.

O processo eleitoral, tal como ocorre hoje, não seria um jogo? A maioria dos candidatos é motivada pelo ideal de servir ao bem comum ou pela ambição de ocupar uma função de poder e, assim, assegurar melhor futuro para si e os seus?

Já no século IV a.C., Aristóteles, que defendia a rotatividade no poder como predicado da democracia, observava na Política (livro III) que as coisas mudavam porque, "devido às vantagens materiais que se tira dos bens do Estado ou que se alcança pelo exercício do poder, os homens desejam permanecer continuamente em funções. É como se o poder conservasse em permanente boa saúde os que o detêm...".

Hoje, isso se acentua. Os candidatos, salvo exceções, não têm programas (exceto no papel), mas performance; nem objetivos, mas compromissos com aliados; nem princípios ideológicos, mas o pragmatismo que ignora a ética mais elementar. A política se tornou a arte de simular e dissimular.

Os marqueteiros têm mais poder sobre os candidatos que o partido. Não se trata mais de divulgar um projeto político, e sim um produto capaz de seduzir o mercado eleitoral. O perigo, adverte Umberto Eco, é o político se tornar um produto semiótico, teatralizado.

Muitos políticos rezam pelo Breviário do cardeal Mazarin, escrito no século XVII, onde se multiplicam conselhos deste quilate: "Arranja-te para que teu rosto jamais exprima nenhum sentimento particular, mas apenas uma espécie de perpétua amenidade". Ou: "O importante é aprender a manejar a ambiguidade, a pronunciar discursos que possam ser interpretados tanto num sentido como no outro, a fim de que ninguém possa decidir".

Os marqueteiros são, hoje, os verdadeiros artífices das candidaturas. Os eleitores, o alvo mercadológico. A diferença com os produtos do supermercado é que estes são adquiridos para uso do consumidor. No caso da política, o eleitor é "consumido" para uso do candidato. Meses depois, o eleitor nem se recorda dos nomes a quem deu seu voto, embora se queixe dos políticos e da política.

A roleta eleitoral ainda não conseguiu eliminar do processo um fator incômodo: a entrevista. A mídia exerce poderosa mediação entre o candidato e o eleitor, daí as concessões feitas pelos partidos para ampliar suas alianças e garantir maior tempo de exposição midiática de seus candidatos.

A entrevista incomoda porque impede o candidato de manter-se nos estreitos limites da retórica recomendada pelos marqueteiros. Surgem perguntas indesejadas, questionamentos éticos, e as contradições que o candidato tanto gostaria de ocultar.

Sem entrevista, programa político e amor ao bem comum a democracia é mera farsa.

Por Frei Betto

Extraído DAQUI

terça-feira, agosto 17, 2010

"Pesos e Medidas" ou o Império Ataca

Resolvi postar um texto do editor Mino Carta da revista Carta Capital. Abaixo segue um "pedaço" da reflexão com uma excelente análise empreendida acerca das entrevistas realizadas pela Rede Globo com os candidatos à Presidência da República. O casal mais ridente do jornalismo brasileiro estava lá ostentando a natural faceirice de superioridade. Ou seja, de quem é detentor da verdade. Modelo de relação. Espelho para as famílias brasileiras. Com relação à entrevista, nada de cordialidades para com Dilma e Marina Silva, que foram "encurraladas". No tocante ao canditato das aristocracias (José Serra), verbalização, mesuras, risos de complacência, nada de interrupções, cortes abruptos. Nada de apertos. Apenas duas perguntas supostamente embaraçosas ao candidato tucano. Já era de se esperar por isso. É de ver o debate que os globais irão promover?!!! Ontem, em pesquisa encomendada pela Rede Globo e pela Folha de São Paulo, Dilma aparece com mais de 10 pontos percentuais de vantagem em relação a Serra. Existe até mesmo a possibilidade da candidata petista vencer no primeiro turno, o que seria realmente extraordinário. O que eles estão pensando em fazer para tirar esta diferença?

Uma outra pergunta: por que não levaram Plínio de Arruda Sampaio ao Jornal Nacional? Medo do discurso com propostas de ruptura do canditato do PSOL? A Globo, sempre a Globo! Quem quiser ler o texto de Mino na íntegra, AQUI.

Em itálico, texto do editor Mino Carta:

[...] Para revidar às perguntas que não são do seu gosto, o candidato José Serra adota uma linha de refinado senso de humor. Anota a repórter Juliana Cipriani, de O Estado de Minas, que Serra “parece ter dificuldade em entender o que dizem os brasileiros ou inventou uma nova estratégia para evitar responder às perguntas que não o agradam”. Em meados de julho passado, em Pernambuco, o repórter de um jornal local dirigiu-lhe uma pergunta sobre o trem-bala destinado a ligar São Paulo ao Rio: obra feita ou tiro de festim? A pergunta deveria ser do seu gosto, pois o candidato é contrário ao projeto. Surpresa. “Não entendi, foi muito sotaque”, decretou Serra. Em Minas, quando um jornalista o questionou sobre recente entrevista de Lula em que o presidente lamenta-lhe a falta de sorte ao enfrentá-lo em 2002 e agora diante de Dilma Rousseff, Serra escandiu: “Esta fala mineira de vocês eu não entendo”. O candidato tucano consegue, porém, ser mais cordato, a depender das situações. Lá pelas tantas desta tertúlia eleitoral, o repórter Fábio Turci dirige a Serra uma pergunta sobre juros. O perguntado não esconde sua irritação, e indaga com a devida veemência: “De onde você é?” Turci esclarece ser da Globo. E Serra, de pronto: “Ah, então desculpe”. Tucano não voa, mas sabe onde pisa. Na noite de 11 de agosto coube a ele ser sabatinado por 12 minutos pelo casal JN, William Bonner e Fátima Bernardes, os sorrisos mais radiosos do Brasil. Antes, a oportunidade foi bondosamente oferecida às candidatas Dilma Rousseff, segunda 9, e Marina Silva, terça 10. Para ambas, um sufoco. As perguntas do locutor que considera Homer Simpson como telespectador ideal foram muito mais esticadas que as respostas, quando estas não foram furibundamente atropeladas. No caso de Dilma, o propósito foi mostrar (ingenuamente?) que ela é ao mesmo tempo uma marionete na mão de Lula e personagem dura, prepotente, mandona. De sorte a suscitar a observação da entrevistada, mais ou menos do seguinte teor: então, como vocês me querem, como títere do titereiro ou como a ministra inflexível que chama às falas os colegas de gabinete? Na vez de Marina, o intuito foi outro: provar que ela saiu do governo por discordâncias sobre a política ambiental enquanto, tempos antes, não se incomodou com o mensalão, o escândalo pretendido e até hoje não provado. A certa altura, a ex-ministra teve de reagir com alguma, insólita veemência, para pedir que a deixassem concluir o raciocínio. Com Serra, na quarta 11, tudo mudou. O casal JN deixou o candidato falar à vontade. E quando a entrevista pretendeu chegar ao ponto de fervura, a pergunta foi: o senhor não se sente constrangido de ter o apoio do PTB, partido metido no escândalo do mensalão petista? Nada do mensalão mineiro nem do escândalo do DEM em Brasília. Maluf e Quércia? Esquecidos. E os votos comprados para a reeleição de FHC? Segundo momento de aperto. Pergunta a evocar os usuários que reclamam dos preços altos do pedágio em São Paulo. Serra ganha a oportunidade de falar mal das estradas federais. Aí Bonner acrescenta: não existe um meio-termo, só dá para ter estradas boas e caras ou ruins e baratas? Serra emenda, feliz, que na última concessão que fez, os preços do pedágio caíram pela metade. Omitiu que os postos de cobrança foram dobrados e ao cabo cita sua origem humilde, estudante de escola pública etc. etc. Só falta chorar. A rapaziada não se dá ao respeito. Quem sabe haja quem se incomoda ao perceber que nos enxergam como malta de idiotas. Esta visão da plateia é própria, aliás, dos jornalistas nativos e seus patrões. Será que não usam na medição o metro recomendável para medir a si mesmos?

Abaixo os vídeos com as extrevistas dos três candidatos conforme a ordem "erigida" pelo Jornal Nacional da Rede Globo. As entrevistas foram realizadas do dia 09 a0 dia 11 de agosto de 2010:

Segunda-feira, dia 9 de agosto de 2010 - Dilma Rousseff (PT):



Terça-feira, dia 10 de agosto de 2010 - Marina Silva (PV):



Quarta-feira, dia 11 de agosto de 2010 - José Serra (PSDB), candidato global. Quem teve paciência de ver aos dois vídeos acima, observe como a tônica da entrevista com o candidato tucano é diferente:



segunda-feira, agosto 09, 2010

Reflexões natalícias

Escrito há dois anos numa ocasião como esta.

Penso que a vida seja um dos elementos mais difíceis de serem cultivados. Ideais sem fim surgem como cenas fixas em oásis imaginários. Fazemos desses espectros, materializações a que denominamos de metas alcançadas. Somos convencidos de quanto mais as alcançamos, mais realizados somos. Tenho entendido que isso é uma grande mentira. Assustado e, ao mesmo tempo resignado por esses malabarismos da existência, assenta-me a convicção de que viver seja um imenso, um enorme desafio.
À medida que os anos chegam vão se definindo algumas tendências a que denominamos apenas de intuição. Mas no fundo não se trata apenas de intuição. É como se de uma hora para outra olhássemos efetivamente para a realidade e enxergássemos manchas derramadas no ar. Como se de repente víssemos mundos escondidos por trás de uma cortina-obstáculo. A intuição que era impulsividade, torna-se num olhar sábio. A serenidade nos torna mais cautelosos. Se não nos tornamos pensadores, pelo menos somos revestidos interiormente com a calma de monges veneráveis.
Pensar é uma capacidade que diferencia o ser humano dos demais seres. Mas mesmo entre os que potencialmente são capazes de pensar há aqueles que não o fazem. Resta-lhes a inércia, a inação. Aquilo que Nietzsche chamava de “mergulho na massa”. Ou seja, caminhar no fluxo inconsciente da moral dos escravos. Em outras palavras: viver como todo mundo vive; fazer o que todo mundo faz. Mesmo pensando, discernindo, o homem não possui privilégios em relação aos demais seres. O muito pensar conduz ao enfado. Gera o fardo do cair em si. Refletir como homem é ver-se dentro do turbilhão trágico do acaso.
Vivemos para frente, mas somente compreendemos a vida quando olhamos para trás. A resposta para as perguntas que são feitas no presente se encontram no passado. Vivo para frente, todavia compreendo-me quando olho para o ontem. Esses lampejos de consciência são necessários. Os anos passam e marcam o meu rosto com o cinzel implacável do tempo. Já não sou mais a mesma criança de ontem. Vejo os fatos acontecendo como se eu estivesse num trem. As paisagens ficam pelo caminho. À minha frente o desconhecido, apenas. Em meu interior, algumas expectativas, esperanças, planos, nacos de um otimismo cultural.
Abjuro algumas convicções e me agarro a outras. Homem supersticioso sou eu. Elevo-me em nuvens ilusórias de pensamentos. Pareço divisar coisas por demais sensíveis. Espanto-me com isso. O simples gesto de caminhar é por demasia pesado para mim. É um portal que me conduz a outros mundos. Estou crivado incontinentemente ao pensamento. As flechas da reflexão me alcançaram. Atravessaram-me com seus poderes miraculosos. Mudaram-me o semblante. Minha mãe disse-me hoje que eu caminhava como um velho – “Caminha como um velho! Penso para um lado”. Não me impressiono com isso. Kierkegaard dizia que há homens que já nascem velhos. É um paradoxo com toda certeza – “nascer velho”. Somos concebidos novos, por isso à fase de menor idade chamamos de infância. Acredito que o filósofo dinamarquês se referisse a contingências existenciais. A idade é um aspecto mesclado de relatividade. Há indivíduos que nascem velhos e há aqueles que, sendo velhos, possuem uma interioridade jovem. Somente aos homens é reservada a captação desses fenômenos estranhos.
Fazer 29 anos é acontecimento extraordinário. Vêem-me a idéia de que a vida é maior do que a minha sensibilidade seja capaz de abarcá-la. Capto sinais invisíveis. Vislumbres de que por mais que tivesse condições de viver mil vidas, não seria capaz de saber nada. Estranho. Aprendo enquanto vivo; vivo para aprender, mas por mais que aprenda, sou sabedor de que não saberei nada efetivamente como se deve saber. Viver é ser limitado. Limitado por circunstâncias físicas, espirituais, tangenciais, contingenciais, sigo a cada dia com a prudência e com a frugalidade dos monges. Vamos aprendendo a rir dos próprios desatinos e ponderar a condição dos fatos. Atitude ignara. Própria dos seres que pensam. Própria dos monges veneráveis.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: terça-feira, 12 de agosto de 2008, 20:15:03.

quinta-feira, agosto 05, 2010

Eu, Nietzsche e o Concerto de Aranjuez

Imerso numa nuvem fina, delicada de contentamento, escuto o Concerto de Aranjuez de Joaquim Rodrigo. Como faz bem essa música suavemente trágica. Nietzsche, No Caso de Wagner, faz algumas considerações interessantes sobre a música enquanto arte - eu não poderia deixar de ser alusivo a essa bela e oportuna reflexão. O filósofo alemão, na explicação sobre a sua “libertação” da música wagneriana, diz que tinha encontrado em Bizet o suporte da “melodia infinita”.

Nietzsche afirma em certa ocasião que já ouvira a peça mais de 20 vezes e aquilo não o irritava. Conseguira se resignar como um monge asiático. Era impressionante, segundo ele, como a música tinha/tem o poder de “nos tornar mais perfeitos”, “melhores homens”, “melhores filósofos”. Bizet era francês e não espanhol como Rodrigo. Nietzsche fazia menção à ópera Carmem, que possui o cerne (tema) espanhol. Era à espanholidade da música que ele fazia referência. A música de Bizet não era egocêntrica, não tinha por objetivo exibir o compositor, mas a arte, a beleza. Não promovia o autor (Nietzsche se referia a Wagner). A música composta pelo francês Bizet não falava de um homem, mas de uma raça. Era completamente banhada pelo sol – uma música ensolarada. Ao mesmo tempo juntava “o destino, a fatalidade, o cínico, o inocente e o cruel”.

Toda gama grave eu constato na beleza da música de Rodrigo. Qualquer palavra que eu teça a respeito desse concerto será pouco, não necessário. A sua formosura nos impulsiona ao silêncio, à reflexão, à alegria, à tristeza, à sensação imaculada do divino. “É bom aquilo que é leve, tudo o que é divino se move com pés delicados” – como afirma Nietzsche. Esse era o primeiro princípio de sua estética. O que ele diria se ouvisse algo dessa natureza, se ele ouvisse Rodrigo?

O violão com acordes suaves revela com espanto todo o lirismo, dor e agonia da vida. É uma música habitada por uma alegria fugaz, fugidia. Mas como a perseguimos em sua fuga volátil?! Ouvimo-la para persegui-la. Para deixar que ela nos habite e infunda em nós uma sensibilidade reflexiva. É uma música cheia de pulos, de saltos melancólicos. A alma artística de Rodrigo era cheia de luzes, de galáxias, de raios e trovões. Esta arte reverbera por toda a vida. Ela mesma existe para embelezar a existência. Como esse Concerto de Aranjuez me torna melhor nessa noite fria de segunda-feira!

Abaixo segue o segundo movimento (Adagio) com o Paco de Lucia, um dos grandes intérpretes de Rodrigo na atualidade.




*Primeira imagem à direita: Nietzsche; segunda imagem à esquerda: Joaquin Rodrigo.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: 21 de julho de 2008, segunda-feira.

quinta-feira, julho 29, 2010

O intelectual, entre mitos e realidades

Convertido em objeto de estudo, no momento mesmo em que o modelo do intelectual engajado, na versão francesa, perde a sua eficácia, esse novo ator histórico vem suscitando debates e questionamentos. Presente na luta política ao longo dos três quartos do século XX, portanto, participando ativamente da História, o intelectual engajado desaparece da cena pública no início dos anos 1980, em razão mesmo das mudanças de paradigmas intelectuais e das transformações conjunturais. O enfraquecimento das ideologias do progresso e a ascensão dos valores individualistas explicam, em grande parte, o final de um modelo de intelectual que buscava, através de seus atos públicos, aliar moral e política. Na verdade, o engajamento intelectual, sob a forma de combates políticos (contra as opressões e as injustiças), pretendeu reduzir a distância que separa pensamento e ação.

Voltaire, Diderot e os Enciclopedistas constituem a gênese dos denominados “intelectuais” que, defendendo valores universais (justiça, verdade), se organizam como grupo social no final do século XIX, no momento do “caso Dreyfus”.[1] Por intelectuais são, então, designados artistas, professores, escritores, ou seja, pensadores que, já tendo uma notoriedade, intervêm no debate público, em nome de valores morais e políticos.

Desempenhando um papel ético e político, os intelectuais franceses participam da marcha de História, situando-se tanto à esquerda como à direita do jogo político. A luta contra o nazismo os predispõe a passar à ação. Conseqüentemente, a partir do final da Segunda Guerra, a prática do engajamento transforma-se em uma doutrina da ação.

Através de um primeiro manifesto, publicado no primeiro número da revista Les Temps Modernes (outubro de 1945) [2], Sartre lança as premissas para uma ação por parte dos intelectuais. Situando-se em seu tempo, o intelectual engajado deve se definir pela sua posição crítica em relação ao mundo, afirmando-se como o representante das forças progressistas e como o defensor de uma causa humanitária.

No entanto, a abnegação dos princípios morais em detrimento das paixões políticas parece ter sido uma constância na história dos intelectuais franceses, a partir desse momento. A conjuntura histórica no final da Segunda Guerra (o constato mesmo da derrota da razão em Auschwitz, a vitória do comunismo sobre o fascismo) configura um novo esquema de pensamento e uma nova maneira de se pensar uma ação intelectual. A partir de então, uma nova prática intelectual passa a ser adotada; o moralismo do passado transforma-se em uma práxis coletiva: o engajamento político. Mas, se o engajamento pressupõe uma ação do intelectual na História, visando a contribuir para mudar a sociedade, essa ação só poderá se realizar a partir de um projeto revolucionário. O engajamento será, portanto, uma resposta dos intelectuais à mística do comunismo. O intelectual francês engajado do pós-guerra posiciona-se, então, ora a serviço do partido (os “intelectuais orgânicos”), ora em sua periferia (os “compagnons de route” [3]). Simpatizando com o partido sem aderir a ele, Sartre encarna, admiravelmente, nos anos 1940 e 1950, esse último modelo. Variante do engajamento, o profetismo intelectual será portador de uma utopia revolucionária.

Se no momento das guerras de descolonização (na Indochina e na Argélia), os intelectuais franceses assumem verdadeiramente uma missão (de serem consciência moral), engajando-se na defesa dos oprimidos da História, por sua vez, no período stalinista, uma grande parte dos mesmos pecam pela sua omissão na denúncia dos crimes e dos gúlags.

Ora, a morte das utopias, assinalando o final desse modelo, é responsável pela crise de representação do intelectual. Assim, desde os anos 1980, os intelectuais franceses denunciam não só o sistema totalitário soviético e a teoria teológica-política, mas realizam uma verdadeira autocrítica responsabilizando, particularmente, Sartre pelos erros e desvios intelectuais.

Nesses tempos atuais de “desencantamentos” políticos e de imprevisibilidades históricas, como, então, apreender a missão atribuída ao “intelectual”? Desprovido de sua função de oráculo, o intelectual francês como membro de um grupo social afasta-se da política, voltando-se para a sua principal tarefa: a de produção e de transmissão do conhecimento.

Se, no contexto histórico francês, o seu papel de “guia espiritual” (no momento do pós-guerra) o induziu a pactuar com dogmas e com supostas “verdades”, o fim das ideologias do progresso o conduziu a um relativo silêncio. De “profeta” da revolução, (até metade dos anos 1970), o intelectual francês converteu-se em defensor (abstrato) dos direitos do homem.

O declínio do intelectual francês, diagnosticado através de numerosos estudos, deve-se, segundo os mesmos, às mutações conjunturais e intelectuais. Na opinião de Régis Debray [4], a inversão final de todos os valores que haviam inspirado o nascimento de sua história, faz com que o intelectual francês atinja o seu fim.

Em suma, a condição mesmo do intelectual, no contexto dos países ocidentais, ou seja, o seu papel na sociedade, derivando de conjunturas históricas precisas, evolui de acordo com as próprias mutações intelectuais e políticas. Desse modo, cada época parece fornecer um modelo específico de intelectual.

Fruto de uma realidade sócio-cultural específica, o intelectual, no sentido amplo do termo, encontra-se intimamente ligado a seu contexto histórico. Somente a particularidade desse contexto poderá revelar a singularidade desse intelectual. Para melhor apreendê-lo, torna-se, então, necessário mapear suas origens. Nos limites desse pequeno texto, apenas algumas questões podem ser colocadas. Como ele emerge em uma dada sociedade? Como ele pode ser entendido e definido? Trata-se de uma simples categoria sócio-profissional, pressupondo uma atividade intelectual ou de um simples grupo social (a elite erudita)? No estudo do caso brasileiro, o substantivo intelectual teria mais o valor de um conceito do que de um comportamento? A quem essa categoria se aplicaria?

Se na Europa Ocidental, o termo intelectual, tradicionalmente, designa uma larga fração de pensadores, constituída por pesquisadores, professores universitários, escritores, cineastas, etc., que exerce uma atividade criativa nas ciências e nas artes, nos Estados Unidos, esse termo se aplica, em geral, ao chamado mundo “acadêmico”, ou seja, àquele pesquisador e/ou professor universitário, responsável pela produção e transmissão do conhecimento. No Brasil, o termo parece hesitar entre esses dois modelos.

Sem tradição de engajamento, o intelectual brasileiro, que, aparentemente não reivindica uma função ética (de consciência moral) parece aproximar-se do modelo americano. Em geral, a produção de idéias e a transmissão do conhecimento são tidas como condições “sine qua non” para considerar como pertencentes à categoria de intelectual, os escritores, os acadêmicos e os cientistas.

No entanto, como afirma Umberto Eco, “o intelectual tem de ser a consciência crítica do grupo. Ele existe para incomodar”.[5] A esse propósito, algumas questões merecem ser levantadas. A primeira: os intelectuais brasileiros representariam, verdadeiramente, a consciência crítica de um grupo? A segunda: o pensamento crítico não deveria constituir o primeiro atributo para que acadêmicos, escritores e cientistas fossem designados intelectuais?

Sem dúvida, esses breves questionamentos remetem aos tradicionais debates que, desde o início do século XX, instigaram os intelectuais a enfocar sua relação com o poder.

Segundo A. Gramsci, exercer uma atividade intelectual pressupõe exercer um dever crítico da cultura. A principal tarefa dos intelectuais constituiria, então, em estabelecer uma relação crítica entre a cultura, as idéias e a política. Para Sartre, a ação do intelectual, enquanto consciência que escolhe livremente agir na sociedade, deveria produzir mudanças radicais na sociedade. Se, para Foucault, a função crítica foi plenamente exercida pelos intelectuais engajados no domínio político, entre o saber e o poder existiria uma correlação estreita. Ele, aliás, criticou, sistematicamente, o intelectual que se declara mestre da verdade e da justiça, aquele que pretende resistir aos efeitos repressivos do poder. Foucault denunciou, igualmente, a pretensão do discurso dos intelectuais de caráter profético e universal, insistindo sobre a idéia de que a verdade não é estranha ao poder.

Convém, no entanto, assinalar que o engajamento intelectual francês manifestou-se sob a forma de um contra-poder. Vigilantes em relação ao uso do poder, os intelectuais engajados de esquerda posicionam-se contra as formas de autoritarismo e os abusos do poder político. Privilégio de uma democracia, o contra-poder exprime-se em momentos particulares de tensões sociais e de crises políticas, visando a limitar o próprio poder.

Consciência moral e consciência crítica, o intelectual (da Europa ocidental) forneceu um modelo de intelectual que, embora inadequado e ultrapassado, poderia servir de referência na análise do papel do intelectual brasileiro. Ora, no Brasil, segundo Sérgio Miceli, “o estado sempre exerceu uma incrível atração sobre os intelectuais”.[6] Num país onde reina desigualdades e injustiças e onde o poder, seja ele qual for, tende a corromper a liberdade de pensar e de agir, a função do intelectual não deveria ser, antes de mais nada, crítica e ética?

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Por HELENICE RODRIGUES DA SILVA*

* Professora Adjunta da UFPR. Autora de: Texte, action et histoire – réflexions sur le phénomène de l’engagement. Paris, L’Harmattan, 1995. Fragmentos da história intelectual – entre questionamentos e perspectivas, Campinas, Papirus, 2002. Publicado na REA, nº 29, outubro de 2003, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/029/029csilva.htm

[1] De origem judia, o capitão Alfred Dreyfus foi acusado de traição pelas forças armadas francesas por atos de espionagem em favor da Alemanha. A denúncia dessa injustiça fornece a ocasião para uma manifestação pública envolvendo os “intelectuais” de diferentes tendências políticas. A publicação do artigo de Émile Zola, “J’accuse”, no jornal “L’Aurore”, pedindo a revisão do processo, inaugura, assim, a história política dos intelectuais franceses.

[2] Ver, Rodrigues da Silva, H. Texte, action et histoire: réflexions sur le phénomène de l’engagement.

[3] De difícil tradução, esse termo designa, grosso modo, os companheiros de uma aventura política.

[4] Régis DEBRAY. Suíte et fin. Paris, Gallimard, 2000.

[5] Umberto ECO. “A função dos intelectuais”; In: Ëpoca, 3 de fevereiro de 2003, pp. 22, 23.

[6] Veja –on line. Entrevista com Sérgio Miceli, http//veja.abril.com.br250/701/entrevista.html. (3/4/2003).

DAQUI

sábado, julho 24, 2010

Sobre livros e leitores

“Minha vida tinha tomado o caminho errado, e meu contato com os homens não era mais do que um monólogo interior. Havia descido tão baixo que, se tivesse que escolher entre ficar apaixonado por uma mulher e ler um bom livro, eu preferia o livro”. KAZANTZAKIS [1]

“Eu amo (…) a humanidade, mas admiro-me de mim mesmo. Tanto mais amo a humanidade em geral, quanto menos amo as pessoas em particular, como indivíduos”. DOSTOIÉVSKI [2]

“Chegamos a tal ponto que a “vida viva” autêntica é considerada por nós quase um trabalho, um emprego, e todos concordamos no íntimo que seguir os livros é melhor”. DOSTOIÉVSKI [3]

“Esses monges talvez leiam demais, e quando estão excitados revivem as visões que tiveram nos livros”. ECO [4]

Há livros que são perigosos. Os ditadores e censores de todos os tipos que o digam. Não obstante, talvez o perigo maior esteja em transformá-los em objetos de culto, em suspender a dúvida e acatá-los como a verdade a ser proclamada. O tratamento religioso dos livros não se restringe àqueles que fundamentam as religiões, os quais são assumidos como a doutrina inquestionável, a verdade revelada; há autores profanos transformados em profetas e seus livros religiosamente cultuados como a última verdade proferida. E ai dos hereges que duvidarem da palavra profetizada e interpretada pelos especialistas, os seus guardiões.

É perigoso tomar os livros como se fosse a realidade. Se na ficção há lugar para personagens como D. Quixote, é triste o quixotismo moderno dos que vivem com os pés no chão e a cabeça nas nuvens e se mostram sempre ciosos de abstrair e restringir a conceitos a realidade dos homens concretos, de carne e osso, com suas qualidades e imperfeições. Estes são transformados em abstrações e/ou dilemas a serem superados pelo debate teórico. Quando só se consegue experienciar a realidade pela ótica dos livros, seus personagens fictícios adquirem vida própria e os modelos conceituais existentes em nossas cabeças passam a delimitar os personagens reais que caminham sobre o mundo.

Os que idolatram os livros não vêem a riqueza que há na simplicidade das relações humanas cotidianas concretas. O livro também induz à perdição, isto é, à perda do sentido do real. O apego exagerado aos livros é uma espécie de doença que potencializa a vaidade dos candidatos a gênios, os quais, cada vez mais, se isolam do mundo dos simples mortais. Os que se encontram no Olimpo, ocupados com a imortalidade, têm dificuldades de se reconhecer nos comuns, cujos pés e cabeça teimam em se firmar na terra.

Os que preferem os livros à companhia humana, ou que só conseguem dialogar com aqueles que se identificam com suas leituras, falam de amizade como se esta tivesse seu fundamento nas teorias, conceitos e ficções literárias. Eles são capazes de debater por horas sobre o significado da amizade, desde os clássicos da antiguidade, mas são incapazes de suportar o amigo de carne e osso se este o trás de volta à terra e lhe fala em linguagem espontânea e vulgar. Parece que se protegem contra os choques que as relações pessoais reais inevitavelmente causam. Uma coisa é discutir a dialética dos livros, outra é assumir as contradições inerentes ao humano.

Existe a necessidade das ilusões e os livros são um convite à imaginação. O ser humano é capaz de amar a humanidade em geral e até mesmo de se declarar disposto a morrer por esta, mas é profundamente incapaz de suportar o indivíduo concreto e específico. O próximo torna-se o distante, o conceito, a abstração. Há a dificuldade de assumir a realidade para si e nas relações com os demais. Precisa refugiar-se na imaginação e no devaneio da ficção.

Ler é importante, mas o fundamental ainda é tentar viver a vida plenamente.

[1] KAZANTZAKIS, Nikos. Zorba, o Grego. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1978, p. 97.

[2] DOSTOIÉVSKI, F. Os Irmãos Karamazov. São Paulo: Abril Cultural, 1970, p.48.

[3] DOSTOIÉVSKI, F. Memórias do subsolo e outros escritos. São Paulo: Editora Paulicéia, 1992, p. 185.

[4] ECO, Umberto. O Nome da Rosa. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de S. Paulo, 2003, p.117.

Extraído DAQUI