quinta-feira, janeiro 27, 2011

Como estrelas na terra e a poética do humano

Talvez a meia dúzia de leitores-visitantes mensais desse blog me julguem sisudo. Sério demais. Com trejeitos alambicados. Com estilo textual afetado. Os sérios não são levados em conta. Não se trata de uma reclamação, um lamento. Mas apenas uma observação gratuita, momentânea. Geralmente escrevo aquilo que me vem à ideia, como resultado de experiências e observações que faço. E hoje à tarde, tive a oportunidade de assistir ao filme Como estrelas na Terra pela segunda vez. Impossível não fazer constatações sérias sobre a película.

É um dos filmes mais belos que já vi. Desde que o filme Quem quer ser um milionário ganhou oito Oscars, que o mundo direcionou o olhar com mais atenção para a Índia. Como estrelas da terra é uma dessas películas que suscitam constatações graves, porém, alegres, poéticas, catárticas. Faz-me lembrar Sociedades dos Poetas Mortos ou Língua das Mariposas. A obra aponta para aquilo que Paulo Freire verbaliza em Pedagogia do Oprimido: "ninguém educa ninguém, ninguém se educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo".

O papel do educador é fazer com que aprendente tenha uma emersão. E dessa emersão, a sua consciência (daquele que aprende) estabeleça vínculo com o mundo e ele saiba quem é enquanto sujeito histórico. É a partir desse encontro que os dramas, deficiências e dores existenciais são superados. Como estrelas na terra revela, sugere-nos, com muita poesia e beleza, o quanto a compreensão, o olhar terno e o calor do encontro pode fazer dos homens, verdadeiros seres humanos.

Uma das falas mais belas do filme é quando o professor Ram Shankar Nikumbh (Aamir Khan, diretor, produtor, escritor do filme) afirma que a arte existe para que enuncie o sentir humano. Acredito que esta afirmação seja uma metáfora-metaliguistica da obra, falando dela mesma. Ou seja, o filme é um daqueles trabalhos que fazem desvelar o sentir de cada um de nós. Vi ao filme duas vezes e (afirmo sem receios ) chorei as duas vezes. Todos têm a sua importância na terra. Todos os homens são seres distintos e o universo foi feito com cores variadas. Todos existem como estrelas na terra.

Leia AQUI uma pequena sinopse do filme

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Sobre deuses, pássaros e gaiolas, por Rubem Alves

Esta semana, em meu local de trabalho, achei um livro do escritor Rubem Alves. Alves, mineiro de Boa Esperança, é um poeta de todas as horas. Seus textos são leves, suaves, sempre enfocando aspectos humanizantes; sempre nos convidando a brincar; a olhar para o mundo com olhos de criança. O livro chama-se O Mundo num grão de areia, baseado num poema de William Blake. Li as duas crônicas iniciais do livro. A primeira falava do filme O Feitiço de Aqüila, produzido em meados dos anos oitenta. A segunda falava sobre deuses, rituais, igreja e religião. Achei o texto delicioso e muito bem urdido. Uma reflexão profunda e poética sobre o sentido da religião e o quanto esta enfraquece o potencial de beleza da divindade. As religiões engaiolam a Deus; enfeiam a sua sacralidade. Diminuem as suas qualidades. Afirmam que Deus têm certos atributos e, que os outros que não andam de acordo com aquelas qualidades, estão em erro mortal. Deus para ser Deus não pode estar preso a nenhum nicho, em nenhuma gaiola. São por causa do engaiolamento da compreensão de quem é Deus que se fecundam os conflitos, as guerras e toda sorte de injustiçamento. Ao ler o texto, senti que deveria compartilhá-lo. Por isso, segue o belo texto abaixo.

Você pode ler o texto de Rubem Alves AQUI

domingo, janeiro 16, 2011

O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman

Terminei de assisti, hoje pela manhã, ao filme O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman. E que filme! Deter-me-ei em uma outra ocasião numa reflexão mais consistente. Talvez nesse momento, minhas palavras soem hiperbólico-poéticas em demasia para fazer jus à película. Terei que sair daqui a pouco. Bergman narra a saga de Antonius Block, em meados do século XIV, numa Europa devastada pela peste negra. A morte espreita Block. As cenas foram filmadas em preto e branco, evidenciando a aridez do ambiente condenado pela ignorância, pela fome, doença, supertições, ceticismo, loucura generalizada. Talvez seja esse o aspecto que impele mais beleza à obra. Nem por isso, o filme deixa de ser absurdamente poético. As paisagens nos impulsionam à imaginação. Campos enormes. Pedaços de planícies vazias. Praias imensas.

A discussão em torno da morte, dão à temática da obra um profundo debate sobre a existência, o silêncio de Deus, a morte e o sentido da vida. Antonius Block ao jogar com morte, deixa a mensagem de que a vida é um grande duelo. A nossa existência é feita de jogadas e num dado momento nós vamos perder. Não há como ganhar da morte. Ludibriar os seus intentos é vão. No filme não ouvimos a voz divina. As preces são direcionadas a ouvidos ocultos. Como numa das reflexões de Block. Diz ele que Deus é como uma criatura que se esconde no escuro e nunca responde. Ou: é difícil conceber a Deus, pois ele se esconde por trás de uma neblina de vagas promessas.

Abaixo, um pequeno trecho, um dos diálogos mais belos e atordoadores do filme. Antonius Block dialoga com a morte sobre o sentido da vida, Deus e a própria morte:

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Caso Cesare Battisti (III)

No site Cesare Livre! é possível assinar uma petição eletrônica a fim de que Cesare Battisti, acusado de assassinatos e indigestos atos políticos pelo Estado Italiano, possa alcançar as benesses necessárias da parte do Supremo Tribunal Federal brasileiro. O destino de Battisti está nas mãos de Gilmar Mendes e Cezar Peluso, eminentes e doutos senhores do direito, ministros da "egrégia" Suprema Corte brasileira.

Não bastou que Lula resolvesse não extraditar o italiano. Foi necessário da parte da direita fascista brasileira, desenterrar o caso, fazer emendas políticas e duvidosas manobras jurídicas a fim de que o Cesare seja entregue ao aprendiz de Mussolini, Silvio Berlusconi. Como, por exemplo, a notícia veiculada pelo Sul 21 de que o Democratas (DEM, leia-se "demo"), recorrerá ao STF contra a decisão do ex-presidente Lula, que no último dia 31 de dezembro resolveu não extraditar Battisti, acatando o parecer da Advocacia Geral da União (AGU).

Visite o site Cesare Livre! e deixe a sua assinatura. Todo movimento será importante para livrar Cesare da boca dos leões de Roma e dos capachos neofascistas do STF brasileiro (leia-se Gilmar Mendes e Cezar Peluso).

Cesare Livre! AQUI

terça-feira, janeiro 11, 2011

Sobre reality shows

Escrito há quase três anos, numa ocasião como esta.

No dia 10 de janeiro de 2008, eu cheguei cansado em casa à noite. Deitei no sofá. O desejo veemente de descansar após um dia estafante de aborrecimentos, de profunda insalubridade. Acordara cedo aquele dia como de praxe. Não sou muito dado a assistir programas de televisão. Mas naquele dia estava sozinho em casa. Peguei o controle e pensei comigo. “Vamos ver o que está passando nessa caixa maluca”. Busquei ser razoável, consciencioso. Tenho pensamentos negativos sobre a televisão. Imagino aquelas pessoas que ficam expostas de 20 a 30 horas da semana diante das imagens. Julgo que isso é um exercício absurdo. Afirmo num acesso de deslocamento que a televisão brasileira precisa passar por um processo de reforma moral e educativa. Os programas em sua maioria são de péssima qualidade e de uma pobreza intelectual bastante indesejável.

Naquela noite eu busquei ser solidário, mas a minha aquiescência não sobreviveu às investidas dos fatos. Deti-me no Big Brother Brasil. Simulei uma experiência. Limitei-me. Arquitetei mentalmente que ficaria exposto àquelas imagens por uns 20 minutos. Todavia não suportei mais que dez. Vi um Pedro Bial tentando ser simpático. Esforçando-se para ser agradável. Expunha sua indigência intelectual. Justificava-se. No dia anterior insistira numa opinião equivocada. Errara sobre o similar de Dionísio na mitologia romana – Baco. Aproveitava o momento para fazer conexões despropositadas e vexatórias com os participantes do programa. A uma chamava de musa a outro de um dos personagens da mitologia greco-romana. Estava nítido que o sujeito desgraçadamente não levava jeito para ser animador de circo. Moços de corpanzil atlético; de jeito e maneiras saudáveis; com aparente autonomia intelectual. Por sua vez, moças de corpos sensuais, de seios fartos. Ou seja, em minha análise vejo que o que está em jogo é a corporeidade atlética dos participantes, a saúde física, pois o que se busca é o caos, o nascimento da mediocridade que se insinua por meio das imagens recepcionadas pelos telespectadores.

Vi às imagens de uma festa que acontecera um dia antes. Uma espécie de evento “com objetivo para potencial de orgia”. As investidas dos moços que, seminus, insinuavam os corpos na tentativa de requestar as moças participantes para um “programa” dês-compromissado. O álcool destrancava os sentimentos mais escondidos. Lançava fora os pudores. No fundo o que se buscava era justamente que essas tentativas se tornassem substanciais, pois há milhões de brasileiros assistindo àquelas imagens. O público está sedento por luxúria, leviandades e voyeurismo. O desejo dos telespectadores é que “aquele mundo” – o da dita casa – se torne no pior dos mundos. Isso alimentará com lixo as suas almas. A falência da moral é desejada; a penúria espiritual é o que o público deseja em sua veleidade atomizada.

George Orwell escreveu o livro 1984. Neste livro, o escritor insinua um controle do Estado através da televisão, instalada em cada residência, ligada a um maquinismo central controlador. Dessa base coordenadora seria possível controlar a vida dos cidadãos. O Estado “assistiria às ações dos seus súditos”. Esse ente controlador é chamado de “Grande Irmão” (Big Brother) por Orwell. Já no programa da Rede Globo há uma inversão. O "estado" é representado pelos telespectadores que espionam as ações dos participantes confinados naquela jaula cercada de câmeras. Todavia, no dizer de Muniz Sodré em seu excelente ensaio O Monopólio da Fala – Função e Linguagem da Televisão no Brasil, “a eficiência da dominação, portanto, consiste em ocultar, do melhor modo possível, o controle totalitário dos pensamentos, dos gestos, da palavra, enfim do desejo”[1]. Assim, com relação ao livro 1984 há paradoxalmente uma inversão, pois enquanto este mostra um estado de controle, no programa em questão as pessoas pensam que assistem, mas na verdade estão presas pelo feitiço do controle. Por intermédio do poder com potencial lúbrico e de simulacro da realidade que a imagem possui. De alguma forma o sistema controla os desejos individuais do consumidor final, aquele que ab-sorve as imagens. O telespectador representa um mundo de desejos e aspirações que precisa ser preenchido pelo poder controlador de um centro que estabelece o que é e não é em termos de riqueza cultural e estética. Ou seja, o telespectador é um viajante passivo, pois apenas recepciona sem interagir com as imagens. Trata-se de um pacote pronto que é lançado a ele. Cabe aceitar ou reprovar.

O poder encatátório das imagens penetra no mais íntimo da privacidade do indivíduo. Aonde ninguém chega a imagem chega, pois a individualidade supõe “separação”, “ruptura” com o outro. A imagem pré-estabelecida por uma equipe técnica com as ânsias do mercado, promove um desfecho para a trama, que necessita ser a pior possível, pois os consumidores do produto precisam de intrigas triviais e relações banalizadas. Desse desenlace brota o lucro e o controle. O controle ideológico não é estereotipado. Não aparece aprioristicamente. Os verdadeiros ladrões não roubam fazendo escarcéu. Eles buscam o silêncio discreto – o mais que possam. Da mesma forma, o controle ideológico da mass-media busca eliminar com ‘uma aparência’(e aí está o nó-górdio da pós-modernidade) a questão de sua verdadeira finalidade, insinuando como ‘natural’ a necessidade geral de uma informação centralizada e abstrata[2].

Abaixo segue um texto escrito por Frei Betto. Em 2002 ele escreveu estas palavras publicada no sítio ADITAL. O texto é poético em sua essência e denuncia o abandono daquele que se devota diante do programa.

Reality Show
Frei Betto

Sim, quero ver a tua vida em detalhes, minuto a minuto, e ouvir as palavras que jorram de tua boca, rir o teu riso e enraivecer-me com o teu rancor, assistir à tua paquera, ao teu namoro, ao teu gesto de carinho, à tua transa, espelhando tua beleza em minha indigência.
Quero deixar de lado amizades, trabalhos, livros e lazer e, de olhos pregados em tua magia, absorver a tua arte de movimentar-se no labirinto da quimera, livre de dores e afazeres, mergulhado na fama e na fortuna.
Venerarei o teu ócio na vitrine, exibindo-te sem pudor a milhões de olhos, despido por infinitas imaginações, liberto das grades odiosas dessa existência de penúria anônima, escrava da rotina atroz de quem jamais aprendeu a voar, nem foi aquinhoado pela sorte. Abrirei em meu monitor a porta da tua casa mágica e, sob o peso de minhas carências, ingressarei virtualmente em tua liberdade, no teu gozo, no teu charme, no teu riso, na tua sensualidade, como quem toca com os olhos os veneráveis ícones que nos fazem transcender da mediocridade cotidiana.
Minha fidelidade ao teu exibicionismo será a chancela que sacramentará a tua vida como real e, do lado de cá, buscarei a alforria de minha indigência em tuas loucuras, em teus jogos e em tuas danças. Quero decifrar em ti a minha própria intimidade, rasgar a minha alma em tuas mãos e deixar a minha mente impregnar-se dessa ilusão que faz de mim teu pequeno irmão.
Recobrirei a minha realidade com a tua fantasia e farei de teu espetáculo o brilho de meus olhos vazados, nessa permuta hipnótica de quem busca a complacência com seus próprios limites para tentar encobrir a mesquinhez que me corrói. Ficarei atento ao teu banho, ao teu sexo, à tua ira e às tuas refeições, fiel à exposição perene deste teu ser desprovido de preocupações e conteúdos, entregue a esta liberdade que faz de ti o que não sou, e me permite projetar em teu vigor as minhas fraquezas e em teu esplendor o sabor amargo de meu anonimato.
Verei em tua janela, que se abre para a minha casa, a subversão de todos os valores, como se nos cômodos que te abrigam findassem todos os princípios, escorrendo pelo ralo tudo aquilo que num lar soava como sinônimo de família. Ampliados pela eletrônica, meus olhos contemplarão as tuas intimidades mais ousadas. Sentirei os teus odores e beberei o teu suor.
Esticarei o meu olhar até os limites proibitivos do escárnio e, quem sabe, verei o teu rancor extirpar toda a inveja que jaz em meu peito e a tua voracidade explodir em taras que haverão de suprir os meus desejos mais ignóbeis e saciar as minhas pulsões mais abjetas. Deste lado da tela, sentirei os teus sentimentos e comungarei as tuas emoções, vendo-te virar pelo avesso nesse zoológico de luxo, exposto à multidão como carne no açougue, a engordar no balcão do voyeurismo a gorda soma dos teus patrocinadores.
Em ti livrar-me-ei de todo ideal que não seja fazer da vida um jogo de entretenimentos, a sedução epidérmica como sucedâneo de quem não atinge as profundezas do amor, vendo-te representar a ti mesmo sob os aplausos invejosos de meu olhar sequioso, preso ao teu desempenho huit-clos.
Aprisionarei a tua vida em meu olhar, tornar-me-ei teu carcereiro eletrônico, decidindo o teu presente e o teu futuro, absolvendo-te ou condenando-te, juiz supremo que se ignora refém do próprio equívoco.
Inebriado com as tuas loucuras, te elegerei objeto supremo de minha admiração, deixando-me devorar pelo teu sucesso, do qual farei tema de todas as minhas conversas.
À espera de que os corvos venham devorar o meu coração, e agora que a nossa história foi para os quintos dos infernos, quero ser consumido e consumado por ti, arrancando de meus olhos todas as escamas, até que eu possa ver também ao vivo, na busca desenfreada de audiência, o marido espancar a mulher; o filho estuprar a mãe; o pai assassinar a filha; enfim, o horror, pois sei que o show não pode parar e que o seu limite é não ter limites.

31 de janeiro de 2002
Fonte: ADITAL

[1] SODRÉ, Muniz, O monopólio da Fala – função e linguagem da televisão no Brasil, Editora Vozes, Petrópolis – RJ, 1978, p. 45.
[2] Idem, p. 49


Por Carlos Antônio M. Albuquerque

quinta-feira, janeiro 06, 2011

Mais que sentidos

Escrito há mais de 2 anos.

Os sentidos nos permitem apreender o mundo. Com o paladar podemos experimentar sabores vários – o prato suculento, o beijo. O tato nos revela a superfície, a temperatura das coisas. A visão nos permite ver, contemplar o mundo com suas cores variadas. O olfato nos faz sentir as fragrâncias e odores mais variados e complexos. A audição é uma porta por onde permitimos que os sons entrem em nossa dimensão interior. À medida que os ciclos evolutivos foram se dando, essas habilidades foram sendo desenvolvidas.

Esse fato é tão marcante que, na natureza, há animais que possuem um sentido mais aguçado que o outro. Um exemplo claro são os cães. Esses animais possuem uma audição e um olfato densamente desenvolvidos. As águias enxergam uma presa a quilômetros de altura. Isso permite a elas, mesmo estando voando muito alto, capturarem os animais que lhes servirão de refeição. Os tubarões percebem a presença de sangue a muitos metros de distância. As serpentes percebem a presença de outros seres pela língua bifurcada. As baratas, pelas antenas. Isso me faz lembrar um conto extraordinário de Guy de Maupassant. O escritor cria a figura de um personagem que escreve para o seu médico contado como os sentidos são a única ponte que liga o homem ao mundo. “Nossos órgãos seriam os únicos intermediários entre o mundo exterior e nós”. Esse exterior nos escaparia por suas proporções, suas propriedades infinitas e impenetráveis, suas origens, seu porvir ou seus fins, suas formas longínquas e suas manifestações infinitas. Nossos sentidos e órgãos determinam e limitam as propriedades aparentes da matéria. Por possuirmos apenas cinco sentidos, a nossa capacidade de apreensão do mundo é profundamente restrita.

O personagem do conto de Maupassant diz ainda que o que o fez acordar foram as palavras de Montesquieu: “Uma órgão a mais ou a menos em nossa máquina teria feito de nós uma outra inteligência”. E em outra parte é dito assim: “Se tivéssemos, portanto, alguns órgãos a menos ignoraríamos coisas admiráveis e singulares, mas, se tivéssemos alguns órgãos a mais, descobriríamos em torno de nos uma infinidade de outras coisas de que suspeitaremos por falta de meios de constatá-las”. O que gosto nesse conto de Maupassant é justamente a exatificação científica com uma carga fictícia da importância dos sentidos para a apropriação do mundo.

Percebe-se com muita clareza que os sentidos humanos são a porta que estabelece relação entre o homem e o mundo exterior. Se enxergássemos mais do que enxergamos possivelmente nossa relação com a matéria seria diferente. Se ouvíssemos mais do que ouvimos atualmente possivelmente arrumaríamos mais encrencas. Ouviríamos aquilo que não podemos ouvir e isso aumentaria o nível de desarranjos nos relacionamentos. Em compensação também desenvolveríamos a prudência e aprenderíamos a falar de forma mais sábia.

Todavia, no que diz respeito aos sentidos humanos, fiquei pensando naquelas pessoas que perderam a funcionalidade de um ou alguns deles. Essa reflexão me veio na noite de ontem quando fui à aula de libras – minha primeira aula. Meu professor é surdo e mudo. Contando por meio de sinais que perdera a audição e a capacidade de falar, disse em certa momento que agradecia a Deus por ter perdido a audição. Aquela afirmação me aturdiu. Fiquei pensando nessa afirmação paradoxal. Numa época como a nossa em que se preza pela perfeição, pelas formas, o não ouvir não é desejado por ninguém. Em outras sociedades, ele simplesmente teria sido morto. Os gregos espartanos o teriam lançado de um precipício. Para eles não eram toleradas deficiências congênitas. Havia uma valorização exacerbada da perfeição aparente.

Fiquei pensando como deve ser viver sem ouvir. Conta-nos a história que as melhores composições de Beethoven surgiram quando da perda da audição. A Nona Sinfonia, estrondosa, estrepitosa, um hino composto à alegria foi um projeto realizado na surdez do maestro. Parece uma contradição que alguém tenha composta uma peça da magnitude da Nona Sinfonia com um poema intitulado Ode a alegria; e o coral no quarto movimento da obra retumbe poderosamente elevando a voz a um quase inalcançável esforço. No dia em que a peça foi apresentada pela primeira vez, Beethoven por está de costas, nem ouviu os aplausos do público entusiasmado. Beethoven ouvia a sinfonia interiormente. As peças mais complexas do compositor alemão – os quartetos de cordas – também foram compostos nesse período. A capacidade perdida fez desenvolver outras percepções e habilidades.

No filme Ray Charles de 2004, do diretor Taylor Hackford, há um cena fantástica em que Ray conversava num restaurante com uma moça - aquela que viria a ser sua esposa. De repente, ele, que era completamente cego, pergunta a ela mais ou menos assim: “Você está ouvindo o som do beija-flor lá fora batendo as asas?”. Ouvir o som de um beija flor batendo as asas parece ser uma atividade extraordinária para pessoas comuns, acostumados a ignorar as percepções sensíveis. Não para alguém como Ray Charles. O fato é que uma capacidade perdida nos possibilita o desenvolvimento de outras habilidades incomuns. É mais ou menos aquilo que conta Herman Hesse no livro Sidarta. É dito que Sidarta tendo a capacidade de ouvir, havia começado a ouvir diferentemente dos outros homens. Ele podia ouvir o som rumoroso do rio, das garças que voavam alto, dos bambus que brotavam nos campos. Uma espécie de sensibilidade que somente é apreendida quando somos capazes de valorizar aquilo que sabemos perder. É como conta ainda o escritor cristão Philip Yancey que uma certa amiga estava perdendo a visão e em pouco tempo não enxergaria mais nada. Ela resolveu, antes que as trevas completas chegassem, visitar os vales e bosques do Colorado nos Estados Unidos, a fim de que aquelas paisagens se apaziguassem, fossem encaixadas e vivessem em sua memória.

Fico pensando como seria viver sem poder ouvir uma sonata de Brahms, uma sinfonia de Mahler ou um concerto de Mozart – da música que segundo Maupassant é “vaga como um sonho e exata como a álgebra”; o rumorejar das águas de um ribeiro; o som dos pássaros cantarolando; o som do vento envergando um canavial ou um bambuzal; o som afastado de um final de tarde; a voz daqueles ou daquela (e) a quem amamos. Assenta em mim a impressão que devo valorizar mais os meus sentidos, valorizar as potencialidades comunicativas e relacionais que eles me conferem. Saber sentir além dos sentidos é uma habilidade a ser desenvolvida. Ouvir com a quietude de monge é algo a ser buscado.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: Quinta-feira, 7 de agosto de 2008, 10:49:12.

quarta-feira, janeiro 05, 2011

Capitalismo: o que é isso?

Texto extremamente elucidativo extraído do blog do Emir Sader.

As duas referências mais importantes para a compreensão do mundo contemporâneo são o capitalismo e o imperialismo.

A natureza das sociedades contemporâneas é capitalista. Estão assentadas na separação entre o capital e a força de trabalho, com aquela explorando a esta, para a acumulação de capital. Isto é, os trabalhadores dispõem apenas de sua capacidade de trabalho, produzir riqueza, sem os meios para poder materializa-la. Tem assim que se submeter a vender sua força de trabalho aos que possuem esses meios – os capitalistas -, que podem viver explorando o trabalho alheio e enriquecendo-se com essa exploração.

Para que fosse possível, o capitalismo precisou que os meios de produção –na sua origem, basicamente a terra – e a força de trabalho, pudessem sem compradas e vendidas. Daí a luta inicial pela transformação da terra em mercadoria, livrando-a do tipo de propriedade feudal. E o fim da escravidão, para que a força de trabalho pudesse ser comprada. Foram essas condições iniciais – junto com a exploração das colônias – que constituíram o chamado processo de acumulação originaria do capitalismo, que gerou as condições que tornaram possível sua existência e sua multiplicação a partir do processo de acumulação de capital.

O capitalismo busca a produção e a comercialização de riquezas orientada pelo lucro e não pela necessidade das pessoas. Isto é, o capitalista dirige seus investimentos não conforme o que as pessoas precisam, o que falta na sociedade, mas pela busca do que dá mais lucro.

O capitalista remunera o trabalhador pelo que ele precisa para sobreviver – o mínimo indispensável à sobrevivência -, mas retira da sua força de trabalho o que ele consegue, isto é, conforme sua produtividade, que não está relacionada com o salário pago, que atende àquele critério da reprodução simples da força de trabalho, para que o trabalhador continue em condições de produzir riqueza para o capitalista. Vai se acumulando assim um montante de riquezas não remuneradas pelo capitalista ao trabalhador – que Marx chama de mais valia ou mais valor – e que vai permitindo ao capitalista acumular riquezas – sob a forma de dinheiro ou de terras ou de fábricas ou sob outra forma que lhe permite acumular cada vez mais capital -, enquanto o trabalhador – que produz todas as riquezas que existem – apenas sobrevive.

O capitalista acumula riqueza pelo que o trabalhador produz e não é remunerado. Ela vem por tanto do gasto no pagamento de salários, que traz embutida a mais valia. Mas o capitalista, para produzir riquezas, tem que investir também em outros itens, como fábricas, máquinas, tecnologia entre outros. Este gasto tende a aumentar cada vez mais proporcionalmente ao que ele gasta em salários, pelo peso que as máquinas e tecnologias vão adquirindo cada vez mais, até para poder produzir em escala cada vez mais ampla e diminuir relativamente o custo de cada produto. Assim, o capitalista ganha na massa de produtos, porque em cada mercadoria produzida há sempre proporcionalmente menos peso da força de trabalho e, por tanto, da mais valia - que é o que lhe permite acumular capital.

Por isso o capitalista está sempre buscando ampliar sua produção, para ganhar na competição, pela escala de produção e porque ganha na massa de mercadorias produzidas. Dai vem o caráter sempre expansivo do capitalismo, seu dinamismo, mobilizado pela busca incessante de lucros.

Mas essa tendência expansiva do capitalismo não é linear, porque o que é produzido precisa ser consumido para que o capitalista receba mais dinheiro e possa reinvestir uma parte, consumir outra, e dar sequencia ao processo de acumulação de capital. Porém, como remunera os trabalhadores pelo mínimo indispensável à sobrevivência, a produção tende a expandir-se mais do que a capacidade de consumo da sociedade – concentrada nas camadas mais ricas, insuficiente para dar conta do ritmo de expansão da produção.

Por isso o capitalismo tem nas crises – de superprodução ou de subconsumo, como se queira chamá-las – um mecanismo essencial. O desequilíbrio entre a oferta e a procura é a expressão, na superfície, das contradições profundas do capitalismo, da sua incapacidade de gerar demanda correspondente à expansão da oferta.

As crises revelam a essência da irracionalidade do capitalismo: porque há excesso de produção ou falta de consumo, se destroem mercadorias e empregos, se fecham empresas, agudizando os problemas. Até que o mercado “se depura”, derrotando os que competiam em piores condições – tanto empresas, como trabalhadores – e se retoma o ciclo expansivo, mesmo se de um patamar mais baixo, até que se reproduzam as contradições e se chegue a uma nova crise.

Esses mecanismos ajudam a entender o outro fenômeno central de referência no mundo contemporâneo – o imperialismo – que abordaremos em um próximo texto.

Por Emir Sader

terça-feira, janeiro 04, 2011

Caso Cesare Battisti (II)

Achei o texto abaixo graças a um colega que postou o link no Facebook. Ao ler o texto, percebi que ali estava escrito tudo o que eu intuía sobre o caso Cesare Battisti. O revanchismo da direita neofascista representado, por uma pequena parcela dos ministros STF, certamente está a jogar maquiavelicamente contra a decisão dos ex-presidente Lula. A decisão empreendida com bastante habilidade por Lula foi a correta, a acertada, a humana. Tirou Battisti da boca dos leões italianos. A mídia esconde verdadeiramente os fatos, pulverizando meias verdades. A opinião pública fica confusa e desconhece o que está por trás, verdadeiramente, dos eventos que envolvem a extradição do italiano Battisti. Chamar Cesare Battisti de terrorista, criminoso, assassino de pai de família, psicopata, é incorrer num argumento falacioso, baseado na ausência de provas concretas.














Segue o texto. Acesse AQUI

sábado, janeiro 01, 2011

Caso Cesare Battisti (I) - ao fechar a porta, Lula...

A História é curiosa. Parece ser até irônico. Mas, isso é substantivo. Ontem, no último dia de 2010, ouvi pelo rádio que Lula havia acatado o parecer da Advocacia Geral da União (AGU), resolvendo não extraditar o italiano Cesare Battisti. Battisti foi alvo de querelas durante muito tempo em nosso país. Os jornalões fizeram uma campanha sórdida contra a presença do italiano aqui no Brasil. Chamaram-no de criminoso, assassino, psicopata e outros vocábulos incriminadores. Ou seja, Battisti foi julgado previamente sem direito a qualquer defesa. Curiosamente, se perguntarmos o que acham sobre o caso Vargas x Olga Benário, reprovarão Getúlio. Acusarão Vargas de criminoso por ter entregado Olga Benários Prestes a Hitler, mas não veem problemas em fomentar teses contra o italiano Cesare Battisti, antes mesmo que os italianos o fizessem. O STF resolveu enviá-lo, sendo Gilmar Mendes o principal condutor da tese. Vasculharam porões. Resgataram acordos internacionais. Fizeram exegeses. Utilizaram as mais controversas hermêuticas jurídicas. Ao final, afimaram que a posição do STF era pela extradição, mas cabia a Lula a última palavra.

Lula soube como ninguém conduzir o problema. Esperou que a poeira dos fatos e o clamor da mídia fascista fossem arrefecidos. No último dia no cargo, Lula, presidente que ao final do mandato gozou de 80% de aprovação, deu a canetada que permitiu a Battisti continuar no Brasil. Foi o último ato oficial de Lula. O documento último de quem se portou da mesma forma desde o princípio do governo. Do metalúrgico que não se dobrou à força da mídia e à sede voraz do Estado italiano. Lá fora eles continuarão a salivar. Berlusconi deve está verbalizando os piores palavrões contra o metalúrgico ousado, infamando um "paisinho" chamado Brasil - os macacos dos trópicos, que só têm futebol, carnaval e mulatas no cio.

Bem vindo ao nosso meio, Cesare Battisti. Somos país um contradizente. Apregoamos os direitos humanos acima de qualquer coisa em nossa Constituição. Mas quando o que está em jogo é a submissão aos figurões do grande capital, grandes chusmas fascistas, indivíduos que no dizer de Mário de Andrade são

"O homem-curva!/ O homem-nádegas!/O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,/é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!/

(...) Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!/ Que vivem dentro de muros sem pulos, / e gemem sangue de alguns mil-réis fracos /

para dizerem que as filhas da senhora falam o francês /e tocam os "Printemps" com as unhas!"

Não hesitamos em desdizer o que escrevemos em nossa carta máxima.

Bem-vindo, Cesare.

Goiânia, 01 de janeiro de 2011.

segunda-feira, dezembro 27, 2010

C.S. Lewis, a alegria e Nárnia

Escrito há 2 anos.

Descobri o mundo de C.S. Lewis em 2003. Estudava à essa época num seminário teológico. Foi um encontro formidável. Ouvia falar dele – de seus encantos literários, de seus textos simples e profundos. A curiosidade me levou a descobri-lo. O primeiro livro que li foi Surpreendido pela Alegria. No ano de 2003 li este livro três vezes. Li cada página com senso de devoção. Lewis conseguiu me fisgar com o seu estilo sóbrio, mas rico em fantasias. Inoculou em mim o desejo pelo saber. O livro conta as experiências pessoais de Lewis rumo à conversação à fé cristã. O que causou profunda alegria em mim foi justamente o amor de Clive Stamples, significado para as duas letras inicias, pelos livros.

Lewis perdeu a mãe aos 9 anos. Ficou somente com o pai e o irmão. Daí começam as suas investidas ao mundo silencioso e eloqüente da literatura. Leu os clássicos. Inteirou-se das mitologias grega, celta, nórdica. Descobriu o Anel do Nibelungo de Richard Wagner. Criou mundos imaginários. Leu os filósofos. Questionou os posicionamentos dos pensadores. Solidificou seu próprio pensamento.

A casa de Lewis era um recanto amplo, enorme, com muitos livros. Conta Lewis que haviam livros por todos os cantos naquele espaço. A casa era uma grande biblioteca. Isso me faz lembrar de um conto de Jorge Luis Borges – Biblioteca de Babel. Borges cria no texto a imagem do mundo como se esse fosse uma grande biblioteca. Há nesse mundo escadarias com livros por todos os lados. Uma arquitetura bibliográfica. Lewis nos dá a entender que a casa dele era um mundo de livros assim como no conto de Borges. Os livros estavam em toda parte – nos armários, embaixo das escadas, no sótão, nos quartos de hóspedes. Os livros possibilitaram a Lewis fugir da solidão. No filme de 1993, Mundo de Sombras[1], que conta a história do Lewis já como professor em Oxford e como um escritor bem sucedido, dizer: “Lemos para saber que não estamos sozinhos”. Essa afirmativa resume justamente a infância e grande parte da vida Lewis.

O livro me fascinou ainda por reproduzir os aspectos mais vivos do mundo inglês: O frio inglês, a disciplina, a formalidade. O zelo pelo saber. A descrição das escolas tradicionais da Inglaterra. Os conflitos nos colégios internos. Percebemos no livro o crescimento do intelectual, o surgimento da sede pelo saber. Lewis transformou-se num dos mais notáveis intelectuais no século XX na Inglaterra. A alegria surpreendeu Lewis. A alegria a que ele se refere é a fé cristã. Ou seja, a sua conversão à fé cristão mudou completamente o itinerário de sua existência. De agnóstico cínico e despreocupado, Lewis passa a ser uma das vozes mais importantes durante a Segunda Grande Guerra. Suas conferências públicas lotavam os auditórios. Seus programas de rádio eram ouvidos por milhares de pessoas na Inglaterra e nos Estados Unidos.

Lewis não se notabilizou apenas escrevendo livros e artigos cristãos. Ele era um extraordinário catedrático em literatura medieval. Conhecia profundamente o mundo dos saberes. Era ainda um profundo conhecedor da filosofia antiga e o mundo dos mitos. Ou seja, essa base forneceu a Lewis um importante ferramental para colocar em seus livros.

O escritor dedicou boa parte dos seus 38 livros, a falar do sofrimento. No filme Terra de Sombras, em meio a uma conferência, ouvida com atenção pelos presentes, Lewis diz: “A dor é o cinzel de Deus”. Esta frase resume muitas das preocupações do pensador. Percebemos aqui a figura do teólogo. Ao se converter ao cristianismo no início da década de 30, esta experiência rendeu a Lewis um tipo de influência que transformaria o seu pensamento. Tornou-se uma espécie de teólogo livre da Igreja Anglicana. Essa foi uma das alegrias de Lewis. A outra foi a poetisa Joy Gresham, mulher que conheceu e com quem viveu um terno romance, que lhe rendeu uma experiência de agrura. O romance de Lewis com Joy foi interrompido por um câncer. Joy morreu poucos anos após ter conhecido o inglês. Isso ampliou as experiências de Lewis com a dor.

Todavia, o grande feito de Lewis como escritor, acredito, tenha sido o ato de criação do mundo de Nárnia. As Crônicas de Nárnia são uma sucessão de sete livros escritos de forma aleatória. Tais crônicas narram os acontecimentos que se dão em Nárnia, uma espécie de mundo paralelo onde as experiências constituem-se em grande metáforas de temas bíblicos. Lewis conseguiu desenvolver com habilidade imaginativa um dos mundos fictícios mais belos do século XX.

A primeira crônica foi escrita em 1950 (O leão, a feiticeira e o guarda-roupa). Esta com certeza, deve ser o livro mais conhecido da série. O último foi escrito em 1956 (A última batalha). As demais crônicas, são: Príncipe Caspian (1951); A viagem do peregrino da alvorada (1952); A Cadeira de Prata (1953); O cavalo e o seu menino (1954); e O sobrinho do mago (1955). A figura mais expressiva do mundo de Nárnia é Aslam, o grande leão. Fica explícito, que esse leão personifica a figura de Jesus Cristo. Ele aparece nas sete crônicas. Nunca li nada a respeito, mas acredito que o número de sete crônicas não seja fortuito. Na tradição cristã, o número sete representa a perfeição. O escritor deve ter partido desse pressuposto para escrever as sete crônicas.

O que mais impressiona na série de Nárnia é a capacidade que Lewis tem para criar e fantasiar. Os contos de fadas são contados com outros valores. Os livros foram escritos com uma linguagem simples – para criança. O caráter literário das crônicas não oferece grande complicação na interpretação. Mesmo que se conheça a Bíblia superficialmente, não é difícil identificar as metáforas escritas com tanta beleza. Todavia, a quantidade de adultos que têm lido a obra é bastante considerável. Muitas teses e livros têm sido escritos sobre as crônicas, o que apenas revela o caráter literário insuperável.

É impossível ler as crônicas e não se apaixonar pela beleza, pelo jogo narrativo, pelas lições, pela condução proverbial de cada fato. O público brasileiro ainda não conhece completamente os encantos do mundo de Nárnia, infelizmente. Conhece de forma razoável, talvez, os filmes da série que têm sido lançados pela Disney. Todavia, o filme não se compara com a beleza do texto da literatura lewisiana. Apesar dos efeitos computadorizados do cinema, o que serve par criar um aspecto mais fiel aos fatos descritos em Nárnia, a imaginação, o retrato imagético que se arma na mente não é comparável no processo de descoberta, de penetração no mundo de Aslam, do que quando se ler as crônicas.

Impressiono-me com as crônicas mais pelo aspecto literário do que pelas alegorias religiosas. O aspecto mais extraordinário e fabuloso é imaginar como alguém foi capaz de escrever algo tão belo, tão rico de significados. Assim como Tolkien, Lewis foi capaz de misturar elementos mitológicos com os aspectos mais encantáveis dos contos de fadas e transformou tudo isso numa literatura do mais alto e requintado valor para todas as eras da humanidade.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: Segunda-feira, 1 de dezembro de 2008, 10:00:40.

[1] O filme conta com Anthony Hopkins no papel principal, ou seja, como C.S. Lewis.

sábado, dezembro 18, 2010

Cobain, um romântico

O Nirvana, o grupo musical do lendário vocalista e guitarrista Kurt Cobain, foi uma das bandas que mais ouvi em minha adolescência. Constituía uma necessidade. Alimentava-me com o som sujo, distorcido e contagiante do grupo. Admirava a imagem rebelde do vocalista. Sua voz gritada era atraente, necessária. Formava uma unidade poderosa com o som ruidoso que a banda produzia. Embalei-me por muito tempo ao som do grupo de Seattle, a mítica cidade do movimento grunge, que viu surgir bandas como Pearl Jam, Alice in Chains, Mudhoney, Soundgarden e uma quantidade considerável de outros grupos menores. Recordo-me como se fosse hoje da fragrância da música de Seattle, principalmente do Nirvana, banda para a qual não havia competidores.

Estou escrevendo estas palavras, pois ontem assisti a um documentário sobre a vida de Kurt Cobain. E confesso que todas às vezes que penso no jovem Kurt, bate-me uma profunda consternação. Fico a inquirir: “Como pode? Um jovem talentoso como ele...”. Vem-me a ideia de que Cobain foi uma vítima da desagregação familiar. Sua vida, desde a separação dos pais, foi um contínuo gesto irregular. A criança doce e alegre da infância, transformou-se numa criatura de humor variável, instável. Quando o fausto e o dinheiro vieram, o moço taciturno não teve estruturas para suportar.

Pesa contra Kurt o uso exacerbado de drogas. Desde a adolescência, Kurt experimentara todo tipo de entorpecente. A heroína surgiu como uma rainha, uma musa poderosa. Supriu os delírios do vocalista. Sua sede pelo irracional era voraz. Muitas de suas apresentações foram realizadas sob o efeito da droga devastadora. Tornou-se um escravo da substância. Uma espécie de molambo humano sem vontade. Loucuras. Excessos. Depressão. Angústias. Solidão. Uma dor imaginária que lhe corroia as entranhas. Cobain foi devorado pela irracionalidade.

Vejo-o com uma sensação de melancolia. Comisero-me com a sua situação. O jovem talentoso, exímio desenhista, com uma extraordinária vocação para a arte, transformou-se num esquizóide. Absorveu o niilismo de uma geração. Transformou-se em arquétipo. Foi tudo aquilo que milhões de jovens desejam ser. O mal-do-século fez anoitecer a sua mocidade com possibilidades ensolaradas.

Dos álbuns gravados pelo Nirvana, consigo fazer algumas leituras:

(1) Bleach (1989), o famoso álbum cru e sujo, gravado pela Sub Pop, é um manifesto grunge. Cada faixa é gritada; a guitarra de Kurt; os solos são secos, quase inexistentes. Prevalece a distorção. Os momentos mais líricos e comportados ficam por conta da faixa About a Girl;

(2) Nevermind (1991), é a explosão, a consagração. O álbum que mostra o acerto, a guinada para o céu; o disco dos milhões, da projeção. Percebemos um Kurt acertado. A fama o atinge em cheio. De um mês para o outro, o garoto com pouco mais de vinte anos, torna-se um milionário. Antes, não possuía moradia certa e, de repente, dezenas de milhões de dólares jorram na conta da banda. As músicas são excelentes. A sonoridade é variada. Possui momentos ensolarados (On a Plain); de um pop sujo e cantante (Come as you are); refrãos melados e pegajosos que não se viam desde os Beatles (Lithium, In blom); nervosos e bons para sacudi a cabeça, agredir a garganta (Stay Away, Territorial Pissings);

(3) Incesticide (1992), é um álbum que segue uma temática semelhante ao Bleach. Possui músicas sujas e gritadas. É uma compilação de músicas da banda - b-sides. Os bons momentos ficam com as faixas Dive, Sliver, Been a Son, Downer, e Aneurysm;

(4) In Utero (1993), este é o disco do desespero, do pedido de socorro. In Utero é um disco de audição nervosa. O som é denso, sufocante. Uma força magnética provoca ruídos, leva-nos a uma atmosfera de letras que falam de “esperma”, “cogumelos”, “antiácidos”, “loucuras”, “tranqüilizantes”. Certamente Kobain estava no útero da dor, do descompasso, da desagregação. Algumas overdoses aconteceriam. Tentativas de suicídio. O comportamento bipolar. O corpo novo transformou-se num escravo do vício. A apresentação que o grupo fez no Brasil em 1993, expõe o estado de penúria do músico. Cena deprimente é aquela em que ele caminha de quatro no palco, porque não conseguia se manter de pé. O estado de abstinência degradava o corpo magro. O organismo exigia o passaporte para o nada.

(5) Unpluggedd em New York (1994), é o álbum em que ele diz: “Adeus! Estou indo embora!”. Naquele ano o vocalista se suicidaria. Compraria um espingarda de caça e daria um tiro em si mesmo. Deixaria uma carta na qual explicava que estava cansado. Era um impostor. Enganara a todos. Penso que o maior de todos os enganos de Kurt foi aquele aplicado a si mesmo. O jovem músico cavou a sua própria ruína. A sua arte o matou. Os excessos. O flerte demorado com a irracionalidade. A heroína que anemizou a sua potência de vida, tudo isso se constituiu numa viagem fatal.

Ainda ontem escutei três ou quatro álbuns da banda – seguidamente. Ouvi Bleach e Incesticide, algumas faixas de Nevermind; não suportei o In Utero. Achei-o ácido em demasia, com muitas esporas e excrescências ruidosas. Ao final, fiquei com um banzo estranho. Um enorme vazio. Como se me tivessem tirado o direito de sorrir. A música de Kurt está cheia de Cobain. Talvez tenha sido isso que vitimou o compositor. Kurt passou muito tempo olhando para a sua arte e não suportou. Os aspectos noturnos de sua produção transformaram-se numa força labiríntica que o enfermou até a morte.


Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: sexta-feira, 17 de dezembro de 2010.

sexta-feira, dezembro 10, 2010

A teia frágil da vida

Fato curioso se deu, o que me permitiu uma reflexão afetada, excessivamente magra. Na verdade, um fato levou ao entendimento de outro fato. Foram quase complementares. Emendaram-se. O conúbio dos acontecimentos e as impressões suscitadas me deixaram satisfeito.

Estava numa fila de mercado. Os produtos da mercancia para o almoço estavam nas mãos. A enorme fila movia-se preguiçosamente como uma serpente cansada. Olhava as mercadorias. Os salgados, os doces, as revistas, as bugigangas miúdas a formarem paredes no corredor minúsculo. São colocados como que para despertar o desejo de crianças desatentas. São verdadeiras redes, arapucas. Ao longe eu avistei uma pequena planta, uma espécie de bonsai. Fiquei impressionado com a delicadeza do pequeno arbusto. As folhas pareciam de uma pitangueira. Ali, estática, a beleza miniaturizada, fez-me pensar na vida. Como poderia existir algo assim? Como a natureza é encantadora! O silêncio de eras a fecundar processos. A vida teimosa que brota e se estabelecesse em todos os locais. Ofereça as condições e ela instala-se. A fragilidade da planta me impressionou. Ela não era bela por ser grande e ter características extraordinárias. Simplesmente, ela era bela por ser pequena, cândida, delicada, cheia de silêncios poéticos.

A plantinha me fez pensar num episódio que se dera lá em casa. Uma borboleta entrou em nossa casa. As portas e janelas estavam abertas. A criatura voadora introduziu-se e por lá ficou. Minha mãe ficou feliz com a visita. Segundo ela, aquela novidade era mensageira de presságios positivos. Enxergou augúrios faustosos no simples vôo de uma borboleta. Crédula em demasia, minha mãe é uma criatura incrível. Aquiesci consternado, enxergando absurdos naquela situação.

A borboleta era enorme. As asas eram negras, com desenhos curiosos – pequenas curvas nas extremidades das asas; uma espécie de olho em cada uma das excrescências que lhe saíam do corpo exíguo. Voava por todos os lados. Pousava no teto. Embrenhava-se em ocos escuros. Outro sujeito a teria fulminado nos primeiros momentos da aparição inusitada.

Mas comecei a perceber após três ou quatro dias, que os seus saracoteios aéreos estavam cada vez mais cansados. Voava com dificuldades. Seus vôos passaram a ser rasteiros. Não pousava mais no teto. A mudança era clara. As acrobacias áreas dos primeiros dias transmudara-se em desconexas ações irregulares. Certamente a criatura alada estava envelhecendo, cumprindo o seu ciclo vital.

Num certo dia, percebi que ela não mais voava. Debatia-se em arremessos inúteis. Estrebuchava. Produzia apenas barulho. O corpo pequeno não conseguia articular as grandes asas. Parecia ter esquecido a capacidade que antes possuíra. Ficava observando aquele fato. Minha mãe, sentimental, dizia:

- Tadinha da bichinha!

Em dada ocasião resolvi minorar-lhe o sofrimento e aplicar a eutanásia. Não há uma ética para determinados bichos. Estava sentado e notei que, no descontrole da tentativa de voar, o bicho vinha para cima de mim. Todos dormiam em casa. Era quase meia-noite. Eu lia no sofá. Decidi borrifar uma pequena dose de veneno. O efeito foi imediato. O bate-bate de asas. O ruflar descompassado. A tentativa de desgrudar do solo para, talvez, um último vôo. Eu era um indivíduo cruel e frio. Suscetibilizei-me com aquele pensamento. Aos poucos as asas começaram a subir e a descer num gesto lento, brando. Coloquei-a do lado de fora de casa.

No outro dia, minha mãe ao acordar, viu a borboleta que ainda arfava no quintal.

- Quem quem... a bichinha morreu! – disse cheia de pesares. Contei o acontecido e como ministrara o remédio letal.

- Por que tu fez isso? – inquiriu.

- Ela tem um ciclo vital, mãe. Já estava chegando a hora dela morrer. – respondi discreteando. Certamente ela não entendia aquilo.

- Farei um enterro digno – disse eu. Era desarrazoado enterrar uma borboleta. Somente os homens enterram os seus mortos. Existem fortes elementos religiosos e culturais envolvidos nisso. Enterrar uma borboleta era, simplesmente, medonho. Percebi que a questão ganhara contornos filosóficos.

Há um relógio vital a regular os organismos. Os seres vivos ao ascenderem à vida, as areias do tempo iniciam um processo incontrastável de contagem. A borboleta voara. Cumprira o desígnio da natureza. A plantinha também estava com o seu tempo contado. A beleza, o viço; o silêncio da planta a vesti-la de encantos. Mas, no invisível, a ampulheta da existência a contar-lhe os minutos de forma irrecusável. Olhei os homens e mulheres que formavam a fila; outros que caminhavam apressados nas entranhas do centro cheio de víveres. Olhei mais detidamente e verifiquei que eles não possuíam mais cabeça. No lugar do crânio, ampulhetas. A entropia a roer-lhes a estrutura orgânica, a envelhecer tecidos, órgãos, sistemas. Minha visão era absurda. Puro devaneio.

A planta era uma metáfora. A borboleta era um símbolo. A beleza silenciosa e delicada das folhas verdes dava encantos singulares à planta. Entendi que a vida tem encantos. O vôo da borboleta afirmava que enquanto vivemos podemos voar. A natureza nos dá aptidões e depois nos toma. Terrível é receber essas aptidões e não usá-la. É passar pela vida e não viver. Certamente aquilo que me sensibilizou. Fui para casa pensando como poderia voar e como poderia me vestir com o silêncio delicado das plantas.


Por Carlos Antônio M. Albuquerque Data:

09 de dezembro de 2010, quinta-feira.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

Impressões pessoais sobre “A História da Civilização” de Durant[1]

Concluí há pouco a leitura de um dos tomos da obra do historiador inglês Will Durant. Já ouvi diversas críticas ao seu método historiográfico. Quando leio tais discussões, concluo num monólogo interior: “Historiadores!”. Uns gostam dos franceses; outros, detesta-os. Alguns outros execram a análise dialética daqueles que leem a História sob a perspectiva do materialismo de Marx. Falando como mero expectador, considero a tradição francesa e penso que o marxismo é a mais elevada das concepções filosóficas, conforme disse certa vez Vladimir Lênin num ensaio. Observem que rechaço qualquer sectarismo.

Do livro de Durant ficaram três percepções a serem destacadas, comentadas gratuitamente:

(1) A decadência do Estado Romano. A toda poderosa Roma veio abaixo. Ela foi sendo minada lentamente. Seu exército tornou-se lânguido e ineficaz. O enfraquecimento do exército, do poderio bélico, é sempre uma amostra de que um Estado Onipotente esteja a ruir. O fato é que o exército romano já não conseguia deter as forças bárbaras que marchavam em magotes expressivos. Vinham do norte, do sul, do leste, do oeste. Constituíam-se num flagelo aniquilador. Os últimos imperadores romanos foram meninos frágeis e aturdidos. O Estado estava com as estruturas apodrecidas. A alta burocracia vestia-se com uma pompa patética. Golpes. Assassinatos. Conspirações. Levantes. Loucuras. Medidas ineficazes. Outro elemento que deve ser considerado, além da corrupção e do enfraquecimento econômico e militar, é o advento do cristianismo como a religião do Império. De certa forma, acredito, as circunstâncias tenham forçado o Estado Romano a se tornar cristão. A fé dos escravos crescera demais. Não havia mais como controlar. Escravos, soldados, parte da elite política, alguns indivíduos ricos haviam se convertido à nova fé. Constantino alega conversão e edita a tolerância aos cultos cristãos. Imagine: um Estado que ameaça cair; fome, desagregação, a invasão dos implacáveis bárbaros, incertezas. De repente, surge uma fé que promete o Paraíso, estabilidade, a possibilidade de um “outro reino”. Penso que diante de conjuntura tão apocalíptica, a promessa cristã tenha se tornado alvissareira, oportuna. Trouxe a esperança de estabilidade que as camadas mais angustiadas da sociedade precisava. Na calamidade, então, torna-se comum a fuga metafísica. Quanto mais acossados pela conjuntura histórica, mais os homens precisam de religião. Surgia uma nova estrutura que prometia “agasalhar” todos os homens – a Igreja Católica e Apostólica Romana (a Igreja Universal). E no dizer de Durant: “... deve a Igreja Católica figurar entre as mais imponentes obras-primas da história” (p.63). Ou seja, durante mais de dezenove séculos, ela permanece amalgamada com os poderes o mundo. A História do Ocidente querendo ou não está grávida dos feitos da Igreja de Roma. Ela é a principal herdeira das estruturas do Império dos césares. Herdou inclusive a arrogância da elite imperial e a estrutura burocrática da hierarquia que fazia o Estado Romano. Substituiu o césar (divino, augusto, que tudo podia) pelo papa (grande pai, substituto de Pedro, representante de Deus entre os homens). Quando o Estado Romano não teve mais condições de conquistar militarmente, passou à Igreja a fome imperialista para que ela empunhasse a cruz. O símbolo cristão substituiu a espada e tornou-se num eficaz instrumento de poder.

(2) Outro fato que se destaca na obra de Durant é a descrição feita a respeito dos bárbaros. Indiretamente eu possuo sangue bárbaro. Pois, eles são os principais formadores das nações européias – França (francos), Inglaterra (anglo-saxões), Ibéria – Espanha-Portugal (visigodos), Itália (ostrogodos), Alemanha (alamanos) e etc. As tribos bárbaras sempre existiram nas cercanias de Roma. Os romanos chamavam de bárbaros àqueles que não faziam parte do Império ou que estavam para além dos limites geográficos da terra dos césares. Assim, as inúmeras tribos e povos que estavam fora das fronteiras romanas, constituíam-se bárbaros. O termo barbarer provavelmente tivesse uma relação com o sânscrito varvara, o qual significava um indivíduo grosseiro e ignorante. E, de fato, os bárbaros possuíam um estilo de vida bastante rústico. Não tinham o costume de tomar banho. Banho e limpeza são coisa de árabe e índio. Gilberto Freire enuncia essa tese em sua obra Casa Grande e Senzala. Os árabes estiveram na Ibéria e deixaram lá o gosto pelos aromas. Já o banho é resultante de nossa matriz indígena. Voltando aos bárbaros: dormiam em cima dos cavalos. Comiam carne semi-crua. Tinham o costume de colocar a carne entre as pernas e o corpo do cavalo. O calor provocado pela fricção entre homem e animal modificava o estado da carne. Eram criaturas implacáveis. Não concediam clemência a quem quer que fosse. Matavam homens, mulheres, crianças, animais; ateavam fogo nas aldeias por que passavam. Átila, o huno, era chamado de “o flagelo de Deus”. Fato que deve ser considerado com relação aos bárbaros era a habilidade diplomática. Além de mordazes guerreiros, eram extraordinários negociadores. À medida que foram se estabelecendo nos domínios combalidos do Império Romano, foram ampliando geograficamente as terras ocupadas por intermédio da diplomacia. Grandes líderes bárbaros como, por exemplo, Alarico, Teodorico, Átila, Meroveu, foram responsáveis pela consolidação dessas tribos. A presença bárbara ruralizou a Europa. O cristianismo com o seu ideal de ruptura com o mundo fez com que surgissem os monastérios. Viver no claustro. Tornar-se um anacoreta. Exorcizar as paixões corruptas da civilização. Ou numa tese agostiniana de filosofia da História: deixar a “cidade dos homens” e ingressar na civitate dei (“cidade de Deus”). A vida citadina dos romanos tornou-se em algo deletério. De modo que é a partir desse movimento que pode se falar em feudalismo. Os indivíduos saíam das cidades e, geralmente, procuram a proteção de um senhor que lhe concedia terras para trabalhar. Isso fez com que surgisse um novo modo de produção, uma nova relação material para com a História – o Feudalismo.

(3) E outro aspecto bastante considerável da obra de Durant foi a “revelação” do povo árabe. O Ocidente não conhece a riqueza que se esconde por trás das areias quentes do Oriente. Imaginar um árabe é visualizar um indivíduo que se rende a Deus (Alá) de forma incondicional. É dessa submissão (inclusive o termo islão, significa submissão), que derivam todas as relações que o sujeito histórico estabelece com o próximo e com o mundo. Viver para um mulçumano é render-se a Deus e prestar crédito ao que disse o Seu profeta, Maomé. Das principais religiões do mundo, o Islamismo foi uma das últimas a surgirem. Como tudo isso veio a existir? A fé aglutinou as diversas tribos semitas que viviam no deserto antes do século VII. A maioria possuía as suas crenças particulares – muitos cristãos e judeus. Maomé conseguiu iniciar um movimento que consolidou a nova fé e fez com que surgisse dadivosamente uma bela flor no deserto. Quando assistimos àquelas reportagens descaracterizantes montadas pela grande mídia que atende a interesses econômicos, afugentamos a possibilidade de conhecer um dos povos mais belos do mundo. Os árabes possuem pensadores sofisticados, poetas absurdamente sensíveis, matemáticos fantásticos, músicos complexos, cientistas com um alto grau de especulação, estadistas valorosos. Nomes como Avicena, Averróis, Tabari, Muhammad ibn Musa, grande matemático, Abu AL-Rayhan Muhamadd ibn Ahmad AL-Biruni, entre tantos outros devem ser respeitados. Os árabes anteciparam em muito aquilo que viria a ser pensado séculos mais tarde na Europa. Para que tenhamos um exemplo é só mencionar o filósofo Avicena, uma das mentes mais belas e privilegiadas da História. Há inúmeros outros pensadores árabes como mencionei, mas Avicena sobrepujou-os pelo estilo, pela beleza das figuras metafóricas, criadas para elucidar fatos, aclarar exposições. Avicena antecipou o pensamento de Aquino em muitos aspectos. Era um verdadeiro “discípulo” de Aristóteles. Em muitos sentidos, é por causa do entusiasmo dos árabes para com o pensamento que temos a possibilidade de conhecer os grandes pensadores helênicos. Eles fizeram um belo trabalho de resgate da filosofia grega, principalmente de Aristóteles. Em suma: os árabes são uma jóia rara a ser contemplada mais atentamente. A arquitetura de suas mesquitas, os aromas afrodisíacos, a paixão pelas mulheres, a música evocadora de mistérios represados, o pensamento, a poesia com gosto e cheiro de jasmim e mirra. Tudo isso aguça os sentidos e confirma o poder de seu povo.


Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: 01 de dezembro de 2010, quarta-feira.

[1] História da Civilização (4a. parte) – Idade da Fé – Tomo 1º., Will Durant, Companhia Editora Nacional, 1957, 411p.