quinta-feira, abril 25, 2013

Manguel - sobre leituras, juventude e o nosso tempo

Trecho de uma entrevista. Muito bom!

"O intelectual não tem prestígio numa sociedade em que o que vale é o financeiro. As pessoas falam todo tempo que as crianças e os jovens não leem. Não é um problema isolado, mas consequência. Instruem a não nos ocuparmos de coisas que tomam tempo, que são profundas, lentas ou difíceis. Dizer que o intelectual não tem importância hoje leva aonde? É um tema mais profundo: que tipo de sociedade estamos propondo. Hanna Arendt define cultura como aprendizagem da atenção. Aprender a prestar atenção. Toda a cultura que alimentamos hoje é contra a atenção, com um elenco de gadgets que requerem um salto constante de uma coisa a outra. Interrupção de toda atividade pelo toque do celular, de e-mail, do que seja, o que implica que a conversação atenta e longa é menos importante. Uma estrutura estética para todas as artes visuais em que a duração do período de atenção, o parágrafo visual, é demasiadamente breve. 
 
O sistema utilizado pelas séries televisivas é formulado assim: alguém fala algo, o outro responde, segue nova cena. Há um corte rápido para dar lugar ao comercial, também editado muito freneticamente. Tudo contribui para a educação da atenção breve. Educam-se as crianças para que não dediquem a algo atenção maior do que cinco minutos. Depois de um minuto já muda de canal ou deixa o que está fazendo, muda a conversação. Isso é grave porque o tempo de reflexão deveria ser mais longo do que o tempo de observação. Vejo algo e logo precisaria de tempo para pensar, discutir ou experimentar novamente se fosse o caso. Estamos eliminando isso de nossa sociedade, para dar lugar ao elemento mais necessário que temos hoje, que é ser consumidor. Este necessita não refletir nada, não prestar atenção, porque um consumidor que preste atenção, que reflita quando olha um jeans a 500 euros pode achar ridículo e pensar: por que comprar? Se ele refletir, não irá comprar, não irá consumir. É fundamental que ele veja a publicidade e diga “eu quero comprar”, e passamos à próxima etapa ou fase, como num videogame. Isto parece ser o problema essencial. Civilização do espetáculo, como fala Llosa, sim. Mas por quê? Como? E, sobretudo, o que fazer para mudar?"

(Alberto Manguel, in Revista Cult, no. 178, mês de abril)

Entrevista completa aqui

domingo, abril 21, 2013

Sobre o excelente filme romeno "Os Contos da Era de Ouro"

Nicolae Ceausescu governou a Romênia de 1964 a 1989, ano em que foi assassinado, após a Revolução Romena. O povo se mobilizou para depor o governo do Chefe Supremo, como se auto-intitulou Nicolae Ceausescu. 

Nos anos que antecederam esse momento tão marcante da história recente da Romênia (que foi único país o qual o comunismo terminou de forma violenta), o regime de Nicolae Ceausescu foi controverso. Suas medidas levaram o povo a passar fome e privações materiais de toda sorte. Mas mesmo em face disso, Ceausescu intitulou os 15 últimos anos de seu governo como a "Era de Ouro". 

Em 2009, saiu o excelente filme "Os Contos da Era de Ouro", dirigido pelo consagrado Cristian Mungiu (ganhador da Palma de Ouro em Cannes, 2007) e quatro outros diretores - Hanno Höfer, Constantin Popescu, Ioana Uricaru e Razvan Marculescu retratando esse momento. O filme não tem por finalidade "debochar" ou "achincalhar" o regime do Nicolae Ceausescu, mas, no fundo, fica essa impressão. Em seis fantásticas histórias, o telespectador entra em contato com um estudo bem realizado de como os momentos de dificuldade de um povo pode fazer surgir as mais diversas e hilariantes saídas. Busca, de forma bem humorada e irônica, mostrar como um povo é capaz de construir um "jeitinho".

Enquanto assistia ao filme, pensei o quanto a obra também fala do Brasil. Afinal, não existe, no mundo, um país em que a ideia de "jeitinho" seja levada tão a sério quanto no nosso. Pagamos um alto preço por causa disso. Quando ele nasceu? O filme nos passa ideia de que essa "esperteza" é o modo de "respirar" em momentos dificéis. Se isso é verdade, quando foi que começamos a utilizar o jeitinho? Por quê não o deixamos? Estamos ainda em dificuldades? Ou nos acostumamos com a "malandragem"? São perguntas para serem refletidas e discutidas em moutro momento.

No filme, as histórias são muito bem urdidas. Pelo menos em duas ou três eu ri bastante. Uma delas conta a história de um líder Ocidental que vai visitar a Romênia. Na foto oficial, o presidente Ceausescu pareceu menor do que o visitante. A partir desse ponto começa a rocambólica saga de dois fotógrafos para colocar um chapéu na cabeça do venerável líder para ser veiculado pelos jornais do país. Uma montagem é feita. O chapéu é colocado na cabeça de Ceausescu. Todavia, graças a uma desatenção, Ceausescu parece na foto com dois chapéus. Quando perceberam já era tarde demais. Os jornais já haviam sido rodados e enviados a todos os cantos da Romênia. Começa o esforço hilariante dos membros do Partido para recolher os jornais. 

Outra história curiosa é a da visita oficial a um vilarejo afastado. Outra ainda é "A lenda do policial ganancioso". Esta, a última história do filme. Ri bastante com ela. O policial ganha um porco vivo do cunhado e diante da impossbilidade de matá-lo (ele não queria dividir com ninguém os despojos do animal), tenta asfixiar o animal com gás butano. Ri bastante com essa história.

O que fica claro em cada uma das seis histórias é o quanto os regimes totalitários naufragam no rídiculo e nas aparências. E o quanto o povo consegue driblar a burocracia, o aparato repressor do Estado e toda o senso doutrinário que redunda sempre em artificialidade. Apesar de aparecerem como lendas, as histórias me pareceram bem reais.   Muito bom!
 

quinta-feira, abril 18, 2013

Algumas palavras de Affonso Romano Sant'Anna

Affonso Romano Sant'Anna é um intelectual de grande quilate. Gosto de sua serenidade profunda; de sua fala fácil, grácil, eivada por conceitos complexos da literatura, da filosofia ou do mundo político atual, abordados, sempre, de forma leve e didática. Affonso é daqueles intelctuais que podemos ficar a ouvir de forma ininterrupta por horas e horas por suas muitas qualidades. Aqui, neste pequeno tracho selcionado pela Saraiva, temos o poeta falando sobre seu encontro com Manuel Bandeira ainda adolescente, sobre a juventude, a ideia tempo para os jovens, a arte pós-moderna e um conselho para os escritores iniciantes. Muito bom!



sábado, abril 13, 2013

"O Idiota, de Dostoévsky, e o ideal de homem perfeito

"...perguntamos pelo bem não ignorando a vida, mas entrando nela. A própria pergunta pelo bem faz parte da nossa vida, assim como nossa vida pertence à pergunta pelo bem. A pergunta pelo bem é formulada e respondida em meio a situações definidas e ao mesmo tempo inacabadas de nossa vida, únicas e ao mesmo tempo transitórias, em meio a ligações vivas com pessoas, coisas, instituições, poderes, isto é, em meio à nossa existência históricas. A pergunta pelo bem é inseparável da indagação pela vida, pela história".
Dietrich Bonhoeffer, Ética, p. 120

Terminei a leitura, no dia de ontem, de O Idiota, de Dostoiévsky. Consumei, com grande expectativa e pesar, a leitura densa, complexa, de um dos livros mais fasntásticos entre os escritos pelo russo. A leitura se deu de forma irregular. O muito trabalho me impossibilitou de ler com disciplina. Li a maior parte de suas quase 700 páginas no metrô de Brasília - indo e voltando, de segunda a sexta-feira. Trajeto realizado em uma hora de minha casa para o trabalho - meia hora para ir e meia hora para voltar.

A príncipio, o que dizer de O Idiota? É um livro que nos deixa meio atordoados pela complexidade, pela profusão de temas, de diálogos densos, elétricos, arrebatadores; pela complexidade das personagens escuras. O que é o príncipe Michkin? A materialização da metafísica da bondade. Dostoiévsky nos coloca ante o pessimismo e o otimismo; ante o bem e o mal; ante a mesquinhez e a solidariedade. Michkin é tão bom, tão repleto de qualidades, que não se assemelha a um ser humano. Ele é um ente espiritual de bondade extrema, qual um Cristo que desce, mais uma vez à terra, para uma travessia experimental a fim de fazer uma incursão existencial amorosa entre os homens daqui. Em compensação, as outras persongens são modelos de vileza, ganância, loucura, interesse, arrogância e egoísmo. As personagens são mesquinhas em suas intenções. Forjam ardis. Agem motivadas pela vaidade.

E tudo aquilo que engendram, apenas serve de antagonismo àquilo que Michkin é. Ele possui uma moralidade lisa. Nada o toca. Nada o atinge. Ele é o modelo de homem perfeito. Um modelo ideal de cristão quixotesco, radical em sua essência como, por exemplo, na discussão suscitada em torno da religião. Ele representa o modelo ideal do grande homem russo. É a antítese do materialismo ocidental. É a força do cristianismo oriental-bizantino. Michkin critica o catolicismo como sendo uma religião deformada, falseadora do verdadeiro Cristo. Roma se assenhoreou, pela força, do poder e prega o anticristo, que a ausência de Cristo. Voa altaneiramente acima das mesquinharias dos homens burgueses, maculados pela natureza deformada. 

A análise psicológica das personagens impressiona. Nastasia Filippovna Barashkova é um modelo exuberante e escandoloso nesse sentido. A moça guardava qualquer coisa de misteriosa. Possuía uma força oculta, uma loucura irremediável. Michkin a ama. Encanta-se por ela, mesmo estando cônscio dessa sua natureza partida. Ele a ama como um ente santo, enquanto, Rogozhin, outro personagem, ama-a odiando. Aqui fica claro o quanto o príncipe se mostra um modelo de virtude nas mais variadas situações. 

O príncipe Michkin se constitui um modelo singular dentro da literatura de Dostoiévsky. Ele parece em seu ideal, um Raskholnikov reabilitado. Enquanto a paixão em Raskholnikov o emula para um ideal criminoso, mas mesmo assim, habitado por um forte senso filósofico, a força bondosa que existe em Michkin, impele-o sempre para o bem. É patente a ligação da personagem com aquela ética mais sensível dos evangelhos. Por exemplo, quando Michkin toma um soco e não reage. Ou seja, uma clara alusão à passagem de Mateus 5.39,40,41 ("...não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra; e, ao que demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas").

Michkin é a materizalição dessa ética. Ele leva à frente esse ideal propugnado pela ética cristã. A força do seu caráter possui contumácia e regularidade. Jesus nos evangelhos diz: "Sede perfeitos". E Michkin parece possuir um motor moral que o torna a exatificação desse imperativo. A face mais real desse ideal.

Cheguei à seguinte constação pela complexidade caótica de O Idiota: por mais que leiamos dez vezes a obra, ainda assim, seus temas e profundidado não se esgotam. Dostoiévsky era um sujeito absurdamente religioso. Michkin seria aquilo que ele tinha como valor ideal de homem perfeito? A leitura dessa obra torna-se mais grandiosa à medida que entendemos que existe uma moralidade cristã ideal e que era alvo do romancista. Michkin certamente se coloca aqui como substrato desse fato. Ele é a compilação do mais alto nível de perfeição dentro da literatura.

Próximo livro do russo: "Os demônios". Sigamos, pois os horizontes são imensos.

sexta-feira, abril 12, 2013

"Em nome de Deus" e algumas afirmações sobre Pedro Abelardo (1079-1142)

Na última quarta-feira, 10, assisti, pela terceira vez, ao filme Em nome de Deus, de 1988. Clive Donner é o diretor. O filme é muito bom. Conta a história de amor entre Pedro Abelardo, filósofo medieval, e Heloísa, literata de mente arguta e inquieta. A obra busca colocar em primeiro plano a história de amor entre os dois, passando-nos alguns lampejos do pensamento de Abelardo. Segundo Le Goff, quando Abelardo se enamora por Heloísa, esta possui 17 anos e, aquele, 39. Até aquele momento o pensador vivera de forma casta. Mas a paixão pela jovem desatou-lhe os nós da prudência. A maior parte do romance se passa na casa do tio de Heloísa, Fulbert. Este toma inimizade pela relação dos dois.

Então, desde a última quarta, ando inquieto para saber mais sobre o pensador. A Idade Média é um período sempre gerador de curiosidade por mim. É um dos momentos mais fantásticos da história humana. Há muita produção filósofica nesse período. Aquele preconceito iluminista de que se trata da Idade das Trevas acabou gerando equívocos. Afinal, foi nesse período da história que viveram pensadores extraordinários como Santo Agostinho (final da história antiga e início da Idade Média); João Escoto Erígena, Anselmo, Alberto Magno, João Duns Escoto, Boaventura, Tomás de Aquino, Guilherme de Ockham, Mestre Eckhart, Pedro Lombardo, Alberto Magno, Avicenna, Averróis (ambos do mundo árabe) e o próprio Pedro Abelardo. Assim como o século XI foi o século de Alnselmo e, o século XIII seria o século de Tomás de Aquino, o século XII foi o século de Pedro Abelardo.

O filme de Clive Donner nos passa imagem de Abelardo como sendo um professor exemplar. Um pensador refinado, revolucionário, que se colocava à frente do seu tempo na aplicação dos métodos pedagógicos. Seus alunos o veneravam, respeitavam-no; possuíam uma vida de amizade e saber constante com os seus pupilos. O pensador consagra a dúvida como um instrumento de aprendizagem. A dialética era a sua ferramenta de averiguação. 

Para o pensador a razão (ratio) possuía um protagonismo essencial. Todavia, a razão não era um instrumento capaz de desautorizar a Bíblia. A ratio era um instumento de afinamento, de ajustamento para que o inquiridor entendesse melhor. Assim, a razão ajustava o foco para o verossímil. Ele sabia que a razão era limitada, mas pensar dessa forma em pleno século XII era por demasia avançado. A fé absorvia a razão, fazendo com que o discurso filósofico não absorvesse a razão, mas o facilitase e o tornasse acessível. A razão não justificava a fé, mas tirava esta de um mero mecanicismo.

Abelardo e Heloísa em casa de Fulbert
No campo da ética, Abelardo coloca a consciência como centro das intenções do agir ético, regulado por uma lei que emanava de Deus. Para ele, existe uma intenção pré-moral em todo homem. Por exemplo, desejar uma mulher. Em sua concepção, nesse fato não havia uma transgressão. Todavia, o problema ético residia no fato em se dar voz a essa intenção. Ou seja, o problema ético está centrado no obedecer aos próprios desejos e não atender à lex divinae

Seus pensamentos possuíam tanto fermento crítico e, indicavam um novo viés metológico, que acabou tendo suas ideias sendo rechaçadas e condenadas em dois concílios (Soissons, em 1121; e Sens, em 1140. Jacques Le Goff vai dizer que Abelardo é a "primeira grande figura do intelectual moderno".

Pedro Abelardo, morreu em 1142. 

P.S. Algumas informações de cunho histórico foram extraídas do livro História da Filosofia - volume 1, de Giovanni Reale e Dario Antiseri, da Editora Paulus; e do livro Os intelectuais na Idade Média, de Jacques Le Goff, editora José Olympio.

quinta-feira, abril 11, 2013

"...pode alguém ser deveras feliz?"

Somente a literatura para definir o que as religiões tentam entabular em discursos afetados e alambicados - e com mais beleza - onde, de fato, mora a beleza em um mundo grávido de instabilidades e devires. Parafraseando Richard Dawkins: já não basta a beleza do jardim, por que se deve imaginar que ali moram fadas?

"... pode alguém ser deveras feliz? Posso eu, por exemplo, me considerar infeliz só porque sou doente, só por causa do meu caso triste? Mas se posso ser feliz! Palavra que não entendo como é que existe gente que ao passar por uma árvore não se sinta feliz em vê-la! Como pode uma pessoa conversar com outra e nã osentir felicidade em amar essa outra pessoa? Estão entendendo? O que digo é certo, exato, nítido! Só que nã oconsigo me exprimir certo... E que de coisas inefáveis deparamos a todo instante, a cada passo, tantas e tais que mesmo o homem mais desesperançado tem de se sentir feliz, pelo menos ao dar com uma delas! Que nossos olhos batam no rosto de uma criança, que nossos olhos se deslumbrem diante do nascer do sol, que se abaixem para ver como a erva cresce! Isso não chega para a felicidade? E se nossos olhos dão de chofre com uns olhos que nos amam?!" [O Idiota, Dostoiévsky, p. 611]

domingo, abril 07, 2013

Democracia! O que é isso?

Adoro esta tirinha da Mafalda. Ela expressa bem aquilo que sinto quando escuto os meios de comunicação de massa afirmarem que vivemos em um regime democrático. Democracia à moda burguesa é uma linguagem utilizada para a ausência de mudanças e a consolidação do conformismo. Perfeito, Quino!


quarta-feira, abril 03, 2013

Um toque brechtiano - "O açucar", de Ferreira Gullar

Fantástico este poema!

O açúcar

O branco açúcar que adoçará meu café
nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

Vejo-o puro
e afável ao paladar
como beijo de moça, água
na pele, flor
que se dissolve na boca. Mas este açúcar
não foi feito por mim.

Este açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, dono da mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.

Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.

Em lugares distantes, onde não há hospital
nem escola,
homens que não sabem ler e morrem de fome
aos 27 anos
plantaram e colheram a cana
que viraria açúcar.

Em usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.

(Dentro da Noite Veloz, 1975)

quinta-feira, março 28, 2013

O grande Gatsby, de F.S. Fitzgerald

F.S. Fitzsgerald disse certa vez que "as coisas que envergonham as pessoas geralmente dão uma boa história". Acredito que ele toque aqui em um ponto central das vicissictudes humanas, pois tendemos a esconder aquilo que nos avilta, que enfeia o nosso caráter ou nosso passado. Talvez essa frase sirva, ainda, para resumir metalinguisticamente a sua literatura. Afinal, Fitzgerald viveu uma das épocas mais opulentas da história do capitalismo na América. 

Era o período posterior à Primeira Grande Guerra. A época de ouro do jazz; de uma América voltada para o hedonismo; para os vícios; para a ostentação. Voltada acima de tudo para uma compreensão de que aquilo que experimentava era eterno. Que sua sociedade havia alcançado um modelo definitivo. E, para isso, necessitava esbanjar. Havia os muito ricos e aqueles que buscavam navegar nesse rio de aparências, mesmo não tendo condições - é o caso do escritor F.S. Fitzgerald. 

Dono de uma prosa refinada, Fitzgerald via-se obrigado a escrever de maneira frenética a fim de custear o estilo de vida de um grande dândi. Escreveu obras monumentais, contos que exemplificam o domínio perfeito da técnica. Mas acredito que sua grande obra tenha sido O grande Gatsby. Não pretendo fazer um resumo da obra - até porque estou com preguiça. Mas após ter terminado o livro pequeno (156 páginas na minha edição) e de prosa leve, singela e elegante, restou-me a certeza de que o Grande Gatsby não é qualquer livro. 

Francis Scott Fitzgerald
Ele descreve de maneira primorosa a sociedade americana pós-Primeira Guerra e antes da Crise de 1929 - conhecida, também, como período da Grande Depressão Econômica (tudo a ver com a história). Nota-se na obra o tom nababesco em que viviam os ricos - festas extraordinárias, mulheres belíssimas, bebibas finas, os carros (objetos caracterizadores dos grandes ricos) que eram sinônimos da modernidade, o riso frouxo, o enbanjar descomprometido. Para montar a história do livro, Fitzgerald cria a personagem Nick Carraway, responsável por contar a história de Jay Gatsby.

É um romance de forte sobriedade e com pitadas eloquentes de melancolia. Para muitos, ele personifica o sonho da sociedade americana, de uma sociedade que alimentou uma crença ingênua e incontida de que a vida não pode ser dobrada pela dialética da história. O tema do romance continua vivo e atual. Não é à toa que é considerado como um dos principais livros da literatura americana do século XX. Somente quem esteve dentro desse período histórico como o fez Fitzgerald, tem autoridade para contar com arrojo e realismo o que se passou. Mais que uma obra literária, O Grande Gatsby é um registro sociológico, antropológico e históriográfico do que foi este período tão peculiar da história americana.

P.S. Os cinemas do mundo, este ano, exibirão o filme O Grande Gatsby, que abrirá o Festival de Cannes, na França. Por aqui, o filme tem data prevista para 7 de junho. A primeira adaptação para o cinema aconteceu em 1974, com roteiro de Francis Ford Coppola e que acabou não emplacando. Dessa vez, a direção fica a cargo de Baz Luhrmann, mais conhecido pelo seu Moulin Rouge, de 2001. Leonardo DiCaprio fará o papel de Jay Gatsby.  É esperar para ver.

domingo, março 24, 2013

O homem e o mistério de sua própria existência - uma pensata

O ser humano ainda é um mistério. Sua existência sobre a Terra é a matriz de pesquisa de muitos estudiosos. O homem ainda é o problema dos problemas da filosofia - seja ela materialista, positivista, existencialista ou idealista. O fulcro que impele a produção de conhecimento é justamente essa inquietação de saber quem se é - mesmo tendo tantos caminhos a percorrer. O homem é o absoluto da natureza, já que todas as linguagens são, necessariamente, humanas. Ele é sempre mais do que é, e sempre menos do que deve ser. 

Ou seja, é essa dupla possibilidade de ser que torna o homem a medida de todas as coisas. (1) porque o homem é a escrita que interpreta todos os eventos da natureza, sendo dono de uma consciência que o torna consciente. Nenhuma outra espécie vivente é capaz de saber que sabe; de angustiar-se ante o mistério da morte; de aceitar voluntariamente os processos do devir e transformar a matéria (fatum) em algo a seu favor. Mesmo estando diante de fatos que não pode controlar (o futuro), o homem vive no presente a materialização da expectativa do que será, visualizando os círculos consequentes de sua caminhada, como alguém que toca a superfície de um rio, o rio da existência. Tentamos controlar a fúria implacável do devir com o pensamento; (2) mesmo sendo esse ser que pode ser mais que é, ele é menos do que deve ser, pois diante da grandeza do cosmos, somos apenas um grão frágil da poeira das galáxias. Somos um acidente? Ou o resultado de uma mente criativa e voluntariosa? Revolvemo-nos diante dessas indagações. 

O homem é conjunto de muitas dimensões. A reunião de muitas necessidades. O ansiar de muitos desejos. A causação de muitos fenômenos. De muitas criações. Elaboramos sistemas. Explicamos o inexplicável. E isso apenas atesta a nossa capacidade. Trabalhamos o tempo todo. E com essa ação, deixamos nossas "marcas" sobre a natureza. Inventamos aquilo a que chamam de civilização humana.

A maior de todas as nossas capacidades é a de acumular conhecimentos e construir abstrações. Somente ele tem capacidade de fomentar símbolos . A possibilidade da construção do virtual, ou seja, daquilo que existe como imagem em nossa mente. Talvez, esse seja um dos maiores mistérios que se possa conceber. Como sabemos que sabemos? Como sabemos que estamos conscientes? Como nos distinguimos do mundo e separamos aquilo que somos daquilo que existe como uma realidade externa a nós mesmos? A capacidade de saber que sei, testemunha a mim mesmo sobre a minha existência e aos outros de saber que não sou um "tu", mas sou um "eu".

Essa dimensão imaterial, intangível, faz-nos criar o incriado. Ajuda-nos a consolidar a nossa trajetória sobre a terra - e quem sabe na eternidade. Acredito, acima de tudo, que a criação da metafísica, das realidades espirituais, seja, antes de tudo, uma tentativa de controlar o invisível de determinados silêncios - o maior deles é o silêncio d'além mundo. Sabemos que existe uma inexorabilidade da morte. Diante dela toda súplica é vã, todo pedido, toda oração é infausta. Ela é uma jogadora escrupulosa, como retratatou mágica e genialmente Ingmar Bergman em O Sétimo Selo. Talvez, por causa da iminência de tão atroz destino, fomentamos o fenômeno religioso. O homem apesar de viver em um mundo onde o príncipio inevitável da falibilidade de todos os seres, é o único ser a não aceitar o seu destino. Isso apenas atesta o quão fantástico o homem é. Existe uma individualidade, um acertar de contas a qual todos os viventes estão destinados. Ninguém pode substituir o sujeito individual. Não há privilégios. Seja qual for sociedade, seja qual for o sistema de governo, seja em qual for o modo de produção, todos os homens se defrontarão com essa força implacável.

Eternidade é um conceito com muitas nuanças. Inventamos a eternidade, porque desejamos ser eternos. Mesmo sendo sabedores desse lado contingente (que é a realidade, o mundo material), buscamos perpetuar além do físico a nossa existência. E é daí que surgem os vários sistemas religiosos. As religiões são as muitas linguagens da esperança. É a hipostasiação dos nossos desejos. O sujeito religioso ao ouvir a promessa da vida eterna, apazigua esse grito caótico e desagragador existente no coração. Pois a morte é desagregação absoluto do ser. Nela a consciência deixa de ser a dimensão loquaz, para se tornar o silêncio na escuridão do caminhar do tempo. A morte é aniquilação do ser. O silêncio forçado e compulsório infligido à individualidade.

Diante dessa realidade tão incomensurável do fenômeno humano, fica certeza de que o homem é um ser com muitas vozes. Ele é um construtor insistente de matéria simbólica - cria a arte, cria a cultura, cria os sentidos da vida social, cria a religião como uma das dimensões da cultura; cria muitos conceitos (amor, liberdade, solidariedade); cria a técnica e sistematiza a técnica como uma fonte de intervenção sobre a natureza; o homem, em suma, é um animal criador e espetacularizador daquilo que cria. Diante desse fato, perguntamo-nos: ó homem, quem te criou? Até hoje experimentas a inquietação de não saberes quem és, de onde vieste e para aonde vais.

quarta-feira, março 20, 2013

60 anos da morte de Graciliano Ramos - à guisa de uma lembrança

Hoje, 20 de março de 2013, completam-se 60 anos da morte de um dos maiores escritores da história da nossa literatura. Quando se faz referência à boa leitura, é imprescindível citar o mestre Graça, como era conhecido pelos mais íntimos. Graciliano nasceu no interior do sertão alagoano, lá pelos idos de 1892. Ainda muito pequeno começou a escrever poesias. Mas foi lendo Eça de Queirós, José de Alencar, Machado de Assis, os escritores franceses e russos; lendo ainda Karl Marx em francês por volta de 1913, que ele sedimentou seu gigantismo intelectual.

Foi jornalista, comerciante de secos de molhados, político, funcionário público, escritor, comunista. Possuía uma personalidade forte. É conhecido o seu mau humor crônico. Todavia, quem conviveu de perto não julgou que aquilo que fosse um defeito. Era a sua forma de encarar as pessoas e o mundo. Certa vez, estando com Zé Lins do Rego, pela ocasião do Estado Novo de Vargas (1937), sapecou a frase: "Estamos fudidos!" Ou ainda é conhecido o episódio de um jovem estudante e pedante entusiasmado, que chegou próximo dele na Livraria José Olympio e perguntou: "O que você acha de Machado de Assis?" Ao que ele respondeu: "Era um cavalo!" O estudante entendeu que ali não havia lugar para bate-papo.

Era um fulmante inveterado. Fulmava de 3 a 4 carteiras do cigarro Selma por dia. E foi justamente esse vício terrível que acelerou a sua morte. Com um câncer no pulmão, descoberto em estágio avançado, não teve como estender a sua vida. Muitos romances, histórias contadas com a maestria de sua pena foram silenciadas. Morreu com pouco mais de 60 anos de idade. Ainda relativamente jovem. 

O que é imortal, por sua vez, é o legado de sua obra.

domingo, março 17, 2013

A trilha sonora de Réquiem para um sonho, de Aronofsky

Réquiem para um sonho, filme de 2000, do diretor Daren Aronofsky, mestre incotestável dos personagens paranóicos, é uma obra assustadora. Após tê-lo visto parecemos ter saído de um transe tal qual as personagens perturbadas da película. Mas penso que a trilha sonora elaborada por Klint Mansell, amigo de Aronofsky, que trabalhou em outros projetos do diretor como, por exemplo, Pi (1998), outra obra assustadora e o excelente O Cisne Negro (2010), com a Natalie Portman simplesmente endiabrada, entre outras obras, seja uma das principais atrações do filme. 

Mansell em Réquiem para um sonho construiu uma trilha sonora fantasmagórica. Há sensações variadas. Marchas por universos distantes, repletos de delírio. Resolvi fazer essa referência ao filme de 2000, pois estou ouvindo neste instante toda a trilha sonora e penso que essa seja uma das mais belas trilhas sonoras que já foram compostas para um filme. Não devo esquecer Koyaanisqatsi e As horas, ambas de Philip Glass. Abaixo uma palhinha de duas das faixas da trilha sonora: Ghosts of a Future Lost e Meltdown.

sexta-feira, março 15, 2013

Entrevista de Leonardo Boff à Folha de São Paulo (que não foi publicada na íntegra)

Há alguns dias atrás escrevi algumas garatujas sobre a Igreja Católica. Acredito que esta semana, um dos assuntos mais propalados pela TV, pelas redes sociais e pelas mais diversas mídias tenha sido a eleição do novo papa, autodenominado Francisco I. Na entrevista abaixo (profundamente reveladora e com forte tom reflexivo e crítico, Leonardo Boff fala sobre a renúncia de Bento XVI e sobre o papel da Igreja na história. Muito boa a entrevista.

Dei generosamente uma entrevista à Folha de São Paulo que quase não aproveitou nada do que disse e escrevi. Então, publico a entrevista inteira a seguir para reflexão e discussão entre os interessados pelas coisas da Igreja Católica. As perguntas foram reordenadas.
1. Como o Sr. recebeu a renúncia de Bento XVI?
Eu, desde o principio, sentia muita pena dele, pois pelo que o conhecia, especialmente em sua timidez, imaginava o esforço que devia fazer para saudar o povo, abraçar pessoas, beijar crianças. Eu tinha certeza de que um dia ele aproveitaria alguma ocasião sensata, como os limites físicos de sua saúde e o menor vigor mental, para renunciar. Embora mostrou-se um Papa autoritário, não era apegado ao cargo de Papa. Eu fiquei aliviado, porque a Igreja está sem liderança espiritual que suscite esperança e ânimo. Precisamos de um outro perfil de Papa mais pastor que professor, não um homem da instituição-Igreja, mas um representante de Jesus que disse: “se alguém vem a mim eu não mandarei embora” (Evangelho de João 6,37), podia ser um homoafetivo, uma prostituta, um transexual.
2. Como é a personalidade de Bento XVI já que o Sr. privou de certa amizade com ele?
Conheci Bento XVI nos meus anos de estudo na Alemanha entre 1965-1970. Ouvi muitas conferências dele, mas não fui aluno dele. Ele leu minha tese doutoral: "O lugar da Igreja no mudo secularizado” e gostou muito a ponto de achar uma editora para publicá-la, um calhamaço de mais de 500 páginas. Depois trabalhamos juntos na revista internacional Concilium, cujos diretores se reuniam todos os anos na semana de Pentecostes em algum lugar na Europa. Eu a editava em português. Isso entre 1975-1980. Enquanto os outros faziam sesta, eu e ele passeávamos e conversávamos temas de teologia, sobre a fé na América Latina, especialmente sobre São Boaventura e Santo Agostinho, do quais é especialista e eu até hoje os frequento a miúde.
Depois, em 1984, nos encontramos num momento conflitivo: ele como meu julgador no processo do ex-Santo Ofício, movido contra meu livro “Igreja: carisma e poder” (Vozes 1981). Ai tive que sentar na cadeirinha onde Galileo Galilei e Giordano Bruno, entre outros, sentaram. Submeteu-me a um tempo de “silêncio obsequioso”; tive que deixar a cátedra e fui proibido de publicar qualquer coisa. Depois disso nunca mais nos encontramos. Como pessoa é finíssimo, tímido e extremamente inteligente.
3. Ele como Cardeal foi o seu Inquisidor depois de ter sido seu amigo: como viu esta situação?
Quando foi nomeado Presidente da Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Inquisição) fiquei sumamente feliz. Pensava com meus botões: finalmente teremos um teólogo à frente de uma instituição com a pior fama que se possa imaginar. Quinze dias após me respondeu, agradecendo e disse: vejo que há várias pendências suas aqui na Congregação e temos que resolvê-las logo. É que praticamente a cada livro que publicava vinham de Roma perguntas de esclarecimento que eu demorava em responder. Nada vem de Roma sem antes de ter sido enviado a Roma.
Havia aqui bispos conservadores e perseguidores de teólogos da libertação que enviavam as queixas de sua ignorância teológica a Roma a pretexto de que minha teologia poderia fazer mal aos fiéis. Ai eu me dei conta: ele já foi contaminado pelo bacilo romano que faz com que todos os que ai trabalham no Vaticano rapidamente encontrem mil razões para serem moderados e até conservadores. Então, sim, fiquei mais que surpreso, verdadeiramente decepcionado.
4. Como o Sr. recebeu a punição do “silêncio obsequioso”?
Após o interrogatório e a leitura de minha defesa escrita, que está como adendo da nova edição de “Igreja: carisma e poder” (Record 2008), são 13 cardeais que opinam e decidem. Ratzinger é um apenas entre eles. Depois submetem a decisão ao Papa. Creio que ele foi voto vencido, porque conhecia outros livros meus de teologia, traduzidos para alemão, e me havia dito que tinha gostado deles, até, uma vez, diante do Papa numa audiência em Roma fez uma referência elogiosa. Eu recebi o “silêncio obsequioso” como um cristão ligado à Igreja o faria: calmamente o acolhi. Lembro que disse: “é melhor caminhar com a Igreja que sozinho com minha teologia”. Para mim foi relativamente fácil aceitar a imposição, porque a Presidência da CNBB me havia sempre apoiado e dois Cardeais, Dom Aloysio Lorscheider e Dom Paulo Evaristo Arns, me acompanharam a Roma e depois participaram, numa segunda parte, do diálogo com o Cardeal Ratzinger e comigo. Ai éramos três contra um. Colocamos algumas vezes o Cardeal Ratzinger em certo constrangimento, pois os cardeais brasileiros lhe asseguravam que as críticas contra a teologia da libertação que ele fizera num documento saído recentemente eram eco dos detratores e não uma análise objetiva. E pediram um novo documento positivo; ele acolheu a ideia e realmente o fez dois anos após. E até pediram a mim e ao meu irmão teólogo Clodovis, que estava em Roma, que escrevêssemos um esquema e o entregássemos na Sagrada Congregação. E num dia e numa noite o fizemos e o entregamos.
5. O Sr deixou a Igreja em 1992. Guardou alguma mágoa de todo o affaire no Vaticano?
Eu nunca deixei a Igreja. Deixei uma função dentro dela, que é de padre. Continuei como teólogo e professor de teologia em várias cátedras aqui e fora do país. Quem entende a lógica de um sistema autoritário e fechado, que pouco se abre ao mundo, não cultiva o diálogo e a troca (os sistemas vivos vivem na medida em que se abrem e trocam), sabe que se alguém, como eu, não se alinhar totalmente a tal sistema, será vigiado, controlado e eventualmente punido. É semelhante aos regime de segurança nacional que temos conhecido na América Latina sob os regimes militares no Brasil, na Argentina, no Chile e no Uruguai. Dentro desta lógica, o então Presidente da Congregação da Doutrina da Fé (ex-Santo Oficio, ex-Inquisição), o Cardeal J. Ratzinger, condenou, silenciou, depôs de cátedra ou transferiu mais de cem teólogos. Do Brasil fomos dois: a teóloga Ivone Gebara e eu. Em razão de entender a referida lógica, e lamentá-la, sei que eles estão condenados a fazer o que fazem na maior das boas vontades. Mas como dizia Blaise Pascal: “Nunca se faz tão perfeitamente o mal como quando se faz de boa vontade”. Só que esta boa vontade não é boa, pois cria vítimas. Não guardo nenhuma mágoa ou ressentimento, pois exerci compaixão e misericórdia por aqueles que se movem dentro daquela lógica que, a meu ver, está a quilômetros luz da prática de Jesus. Aliás é coisa do século passado, já passado. E evito voltar a isso.
6. Como o Sr. avalia o pontificado de Bento XVI? Soube gerenciar as crises internas e externas da Igreja?
Bento XVI foi um eminente teólogo, mas um Papa frustrado. Não tinha o carisma de direção e de animação da comunidade, como tinha João Paulo II. Infelizmente ele será estigmatizado, de forma reducionista, como o Papa onde grassaram os pedófilos, onde os homoafetivos não tiveram reconhecimento e as mulheres foram humilhadas como nos EUA, negando o direito de cidadania a uma teologia feita a partir do gênero. E também entrará na história como o Papa que censurou pesadamente a Teologia da Libertação, interpretada à luz de seus detratores, e não à luz das práticas pastorais e libertadoras de bispos, padres, teólogos, religiosos/as e leigos que fizeram uma séria opção pelos pobres contra a pobreza e a favor da vida e da liberdade. Por esta causa justa e nobre foram incompreendidos por seus irmãos de fé, e muitos deles presos, torturados e mortos pelos órgãos de segurança do Estado militar. Entre eles estavam bispos como Dom Angelelli, da Argentina, e Dom Oscar Romero, de El Salvador. Dom Helder foi o mártir que não mataram. Mas a Igreja é maior que seus papas e ela continuará, entre sombras e luzes, a prestar um serviço à humanidade, no sentido de manter viva a memória de Jesus, de oferecer uma fonte possível de sentido de vida que vai para além desta vida. Hoje sabemos pelo Vatileaks que dentro da Cúria romana se trava uma feroz disputa de poder, especialmente entre o atual Secretário de Estado Bertone e o ex-secretário Sodano, já emérito. Ambos têm seus aliados. Bertone, aproveitando as limitações do Papa, construiu praticamente um governo paralelo. Os escândalos de vazamento de documentos secretos da mesa do Papa e do Banco do Vaticano, usado pelos milionários italianos, alguns da mafia, para lavar dinheiro e mandá-lo para fora, abalaram muito o Papa. Ele foi se isolando cada vez mais. Sua renúncia se deve aos limites da idade e das enfermidades, mas foram agravadas por estas crises internas que o enfraqueceram e que ele não soube ou não pode atalhar a tempo.
7. O Papa João XXIII disse que a Igreja não pode virar um museu, mas uma casa com janelas e portas abertas. O Sr. acha que Bento XVI não tentou transformar a Igreja novamente em algo como um museu?
Bento XVI é um nostálgico da síntese medieval. Ele reintroduziu o latim na missa, escolheu vestimentas de papas renascentistas e de outros tempos passados, manteve os hábitos e os cerimoniais palacianos; para quem iria comungar, oferecia primeiro o anel papal para ser beijado e depois dava a hóstia, coisa que nunca mais se fazia. Sua visão era restauracionista e saudosista de uma síntese entre cultura e fé, que existe muito visível em sua terra natal, a Baviera, coisa que ele explicitamente comentava. Quando na Universidade, onde ele estudou e eu também, em Munique, viu um cartaz me anunciando como professor visitante para dar aulas sobre as novas fronteiras da teologia da libertação, pediu ao reitor que protelasse esse dia, o convite já acertado. Seus ídolos teológicos são Santo Agostinho e São Boaventura, que mantiveram sempre uma desconfiança de tudo o que vinha do mundo, contaminado pelo pecado e necessitado de ser resgatado pela Igreja. É uma das razões que explicam sua oposição à modernidade, que a vê sob a ótica do secularismo e do relativismo e fora do campo de influência do cristianismo que ajudou a formar a Europa.
 8. A igreja vai mudar, em sua opinião, a doutrina sobre o uso de preservativos e em geral a moral sexual?
A Igreja deverá manter as suas convicções, algumas que estima irrenunciáveis como a questão do aborto e da não manipulação da vida. Mas deveria renunciar ao status de exclusividade, como se fora a única portadora da verdade. Ela deve se entender dentro do espaço democrático, no qual sua voz se faz ouvir junto com outras vozes. E as respeita e até se dispõe a aprender delas. E quando derrotada em seus pontos de vista, deveria oferecer sua experiência e tradição para melhorar onde puder melhorar e tornar mais leve o peso da existência. No fundo, ela precisa ser mais humana, humilde e ter mais fé, no sentido de não ter medo. O que se opõe à fé não é o ateísmo, mas o medo. O medo paralisa e isola as pessoas das outras pessoas. A Igreja precisa caminhar junto com a humanidade, porque a humanidade é o verdadeiro Povo de Deus. Ela o mostra mais conscientemente, mas não se apropria com exclusividade desta realidade.
9. O que um futuro Papa deveria fazer para evitar a emigração de tantos fiéis para outras igrejas, e especialmente pentecostais?
Bento XVI freou a renovação da Igreja incentivada pelo Concílio Vaticano II. Ele não aceita que na Igreja haja rupturas. Assim que preferiu uma visão linear, reforçando a tradição. Ocorre que a tradição a partir dos séculos XVIII e XIX se opôs a todas as conquistas modernas, da democracia, da liberdade religiosa e outros direitos. Ele tentou reduzir a Igreja a uma fortaleza contra estas modernidades. E via no Vaticano II o cavalo de Troia por onde elas poderiam entrar. Não negou o Vaticano II, mas o interpretou à luz do Vaticano I, que é todo centrado na figura do Papa com poder monárquico, absolutista e infalível. Assim se produziu uma grande centralização de tudo em Roma sob a direção do Papa que, coitado, tem que dirigir uma população católica do tamanho da China. Tal opção trouxe grande conflito na Igreja até entre inteiros episcopados, como o alemão e francês, e contaminou a atmosfera interna da Igreja com suspeitas, criação de grupos, emigração de muitos católicos da comunidade e acusações de relativismo e magistério paralelo. Em outras palavras, na Igreja não se vivia mais a fraternidade franca e aberta, um lar espiritual comum a todos. O perfil do próximo Papa, no meu entender, não deveria ser o de um homem do poder e da instituição. Onde há poder, inexiste amor e desaparece a misericórdia. Deveria ser um pastor, próximo dos fiéis e de todos os seres humanos, pouco importa a sua situação moral, étnica e política. Deveria tomar como lema a frase de Jesus que já citei anteriormente: “Se alguém vem a mim, eu não o mandarei embora”, pois acolhia a todos, desde uma prostituta como Madalena até um teólogo como Nicodemos.
Não deveria ser um homem do Ocidente que já é visto como um acidente na história. Mas um homem do vasto mundo globalizado, sentindo a paixão dos sofredores e o grito da Terra devastada pela voracidade consumista. Não deveria ser um homem de certezas, mas alguém que estimulasse a todos a buscarem os melhores caminhos. Logicamente se orientaria pelo Evangelho, mas sem espírito proselitista, com a consciência de que o Espírito chega sempre antes do missionário e o Verbo ilumina a todos que vêm a este mundo, como diz o evangelista São João. Deveria ser um homem profundamente espiritual e aberto a todos os caminhos religiosos, para juntos manterem viva a chama sagrada que existe em cada pessoa: a misteriosa presença de Deus. E, por fim, um homem de profunda bondade, no estilo do Papa João XXIII, com ternura para com os humildes e com firmeza profética para denunciar quem promove a exploração e faz da violência e da guerra instrumentos de dominação dos outros e do mundo. Que nas negociações que os cardeais fazem no conclave e nas tensões das tendências, prevaleça um nome com semelhante perfil. Como age o Espírito Santo ai é mistério. Ele não tem outra voz e outra cabeça do que aquela dos cardeais. Que o Espírito não lhes falte.