Vi essa imagem sendo veiculada no Facebook e fiquei imensamente
preocupado. Ela aponta para um aspecto terrível e cínico da sociedade
civil brasileira, que é a ausência de consciência crítica. Tal fato,
revela apenas o quanto o reacionarismo conservador é um jogo infame
que busca fazer chacota com as iniciativas da esquerda. É um tipo
melindre tripudiante pouco esclarecido, revelador de ignorância. Não,
senhores, a Dilma não vai trazer as ambulâncias de Cuba. Não há
necessidade. Tais ambulâncias (se forem de Cuba, pois imagem pode ser a
de um carro de algum país da África, que foi arruinada pelo imperialismo
e pelo colonialismo branco da América e da Europa) são o resultado da
prepotência política dos EUA. A fúria covarde da burguesia consegue
fazer com que argumentos fascistas como esse sejam transmitidos e que
boa parte de incautos se locupletem canhestramente com a ideia sem saber
que este é criminoso. (1) porque nega a história do século XX, pois se
existem ambulâncias como estas em Cuba, tal fato se deve unicamente
àquilo que os EUA fizeram com o país em mais de 50 anos; (2) porque nega
a assistência imediata às populações brasileiras que estão esquecidas
em boa parte do nosso vasto país; nega que ainda há mortes e doenças que
poderiam ser facilmente tratadas caso existisse um médico; um exemplo
disso são as comunidades ribeirinhas da Região Norte do país, fazendo
lembrar uma frase do grande Milton Santos: “Nunca houve cidadania no
Brasil. Os pobres desse país nunca tiveram os seus direitos respeitos. A
classe média brasileira nunca quis direitos, quis, sim, privilégio”. ;
(3) porque mostra como vivemos uma espécie de pós-modernismo que não
consegue conectar os fatos da história; e acredito que aqui esteja um
dos grandes problemas filosóficos que tomou conta do homem comum.
Vivemos “tempos gelatinosos” ou um “tempo líquido”, que é a negação de
uma forma ou de uma razão hegemônica, inviabilizando a possibilidade de
um debate em torno de qualquer ideia. Mas, o que se estabelece
hegemônica e paradoxalmente é a lei do capital em sua vertente mais
aterradora, que é a neoliberal. Enfim: é preciso que não olhemos para o
mundo com os óculos que nos dão para enxergar. É preciso que
“descolonizemos o nosso olhar”, aprendendo a olhar com as ferramentas
corretas; enxergando as causas e não os resultados mal explicados. Uma
opção política é sempre uma opção de classe.
domingo, agosto 25, 2013
quinta-feira, agosto 22, 2013
"Hannah de Arendt", de Von Trotta
Ontem, resolvi, a despeito do vendaval de trabalho que ultimamente perenizou-se em minha existência, ir ao cinema - e de lambuja ainda fui à Livraria Cultura e comprei dois livros: A maçã envenenada (Michel Laub) e "A crônica de Wapshot" (John Cheever). Queria assistir ao filme de Von Trota, Hannah Arendt. Por aqui está quase saindo de cartaz. Não é minha intenção fazer uma análise profunda do filme ou realizar um colóquio com a obra da ilustre pensadora alemã. Falar de Hannah Arendt é complexo, é difícil, pois ela não pode se "enquadrada" em uma escola de pensamento. Marxista? Existencialista? Ontologista? Acredito que ela seja tudo isso. Hannah é uma pluralista. Fugia aos epítetos academicistas. Preferia fazer um papel de debatedora lúcida dos problemas políticos contemporâneos e as implicações das políticas totalitárias perpetradas na psicologia do mundo. Diria que Hannah faz o papel de "uma Sócrates moderna", pelos questionamentos e reflexões suscitadas.
O filme de Trotta como todo filme biográfico é problemático. Acaba extirpando determinados aspectos da vida ou da personalidade da pessoa retratada, o que causa um prejuízo crítico. Hannah é maior e mais complexa do que a obra tentou mostrar. Sua perspicácia filosófica era aguda. Um exemplo disso é a visão que ela tem no filme sobre o julgamento do burocrata Adolf Eichmann cuja visão, para Hannah, destoava da crítica majoritária. Para ela, que cunhou o termo "banalidade do mal", o mal é uma força sedutora capaz de solapar o bom senso. A ideia de banalidade do mal surgiu no julgamento de Eichmann. Segundo o filme, ela se candidatou para fazer a cobertura jornalística do julgamento do arrivista alemão do partido de Hitler à revista The New Yorker.
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| Barbara Sukowa no papel de Hannah |
As autoridades secretas do estado judaico haviam prendido Eichmann em Buenos Aires e o transportado para Jerusalém. Uma corte foi montada para julgar os atos de Eichmann. O nazi era acusado de ser co-responsável pelo mortícinío de cerca de 6 milhões de judeus e crimes contra a humanidade; e por ser um dos mentores daquilo que ficou conhecido como "a solução final", que poria fim aos judeus. O primeiro impacto causado foi terem colocado Eichmann em uma jaula de vidro, como se este fosse um "animal peçonhento e repulsivo". Aquela imagem impactou Hannah. Após o início do julgamento, ficou claro para a filosófa que o réu não passava de um ventríloquo do partido nazista. Ele havia se desperonalizado. O voto que havia feito ao partido nazista anulara a sua consciência. Suas ações eram maquinais. Ou seja, com isso Hannah entendeu que Eichmann era um idiota a serviço do mal; um burocrata; um fantasma teleguiado por uma força invisível que o admosteava para ações condenáveis.
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| Hannah Arendt |
Tal tese foi rechaçada pelos sionistas. A pensadora paga um alto preço por tal tese. Afinal, havia dois problemas estabelecidos: (1) até que ponto o sujeito histórico deve ser responsabilizado pelas suas ações. O entendimento dos judeus e de boa parte do mundo era de que Eichmann deveria ser julgado e penalizado pela participação infame no genocídio. (2) a tese de Hannah era, por sua vez, a de que o alemão era um zeloso e escrupuloso operador, um tecnocrata a serviço do Reich; não havia nele um desejo personalizado para o mal ou para o bem; suas iniciativas brotavam do desejo de ascensão; ele cedera ao mal, à banalidade, à infâmia, à mediocridade e esse era um perigo que qualquer sujeito poderia incorrer. O mal que despersonaliza, que idiotiza, que extrai a solidariedade, é o mal elevado ao grau máximo; e que quando essas pessoas são expostas à possibilidade de cometer qualquer ato contra outros seres humanos, não se atemorizam, nem sentem qualquer remorso. Foi assim que Hannah viu aquele homem de fala mansa, ponderada, certa e equilibrada naquela caixa, quando do outro lado, as autoridades judaicas buscavam jogar sobre ele o peso da culpa. Hannah entendia que até mesmo o tribunal, se não avaliasse as intenções do julgamento, poderia incorrer na prática do mal.
Estou com o livro "Eichmann em Jerusalém", de 1963, e que deu origem ao filme, há uns vinte dias. Infelizmente ainda não pude lê-lo. Consegui-o em uma biblioteca pública. Gostei do filme. Um dos pontos negativos é a visão que se dá à figura de Heidegger. O ilustre filósofo, um dos nomes mais importantes do século XX, que é mostrado como um velho tolo e capacho. Um senhor apaixonado e que não possui remorsos das escolhas que faz. Um grande inescrupuloso. Fazer filmes não é algo fácil.
terça-feira, agosto 13, 2013
Um comentário sobre (D)(d)eus...
Comentário escrito no blog do Charlles.
"Bonita a sua confissão sobre (D)deus, Charlles. Aproxima-se bastante daquilo que creio, também, sobre espiritualidade. Há muito frequentei uma igreja presbiteriana. Contaram-me a história de um deus institucional, zangado, cheio de caprichos e caricaturado à imagem e semelhança dos judeus. Deixei de lado, ri sardonicamente na cara desse deus. Disse que ele era uma mentira. Uma fraude cosmológica. Alguém recalcado. Disse ainda que a mitologia grega era mais bonita do que tudo aquilo que me falaram sobre ele.
Solidarizo-me com as suas palavras. Existe no ser humano uma voz lancinante que clama por espiritualidade. Uma espécie de necessidade do belo. E aí encontro a ideia de deus. É, por isso, que passei a me relacionar com a ideia de deus melhor quando dessacralizei a bíblia e passei a lê-la como um livro de literatura, evocando um grande teólogo alemão chamado Rudolf Bulltmann de espistemologia kierkegaardiana e heideggeriana. Um personagem como Jesus certamente se assemelha a um Dom Quixote em sua sede pela verdade; ou um príncipe Michkin com sua necessidade de justiça. E aí encontro um apaziguamento necessário às minhas necessidades. Existem hinos mais bonitos que as sonatas de Beethoven ou de Mozart; ou a obra espiritual de Bach?
Ser espiritual é encontrar poesia em cada átomo da existência, em cada centelha da vida. Nesse sentido, encontro a espiritualidade da afirmação da vida, sempre - como diria Nietzsche. Julgo o movimento ateísta essencialmente radical. É um fundamentalismo sem deus. Ou seja, uma religião radical que prega a ausência de algo, mas que torna essa mesma ausência em uma entidade que se sobrepõe a tudo.
Abraços cordiais, Charlles!"
Solidarizo-me com as suas palavras. Existe no ser humano uma voz lancinante que clama por espiritualidade. Uma espécie de necessidade do belo. E aí encontro a ideia de deus. É, por isso, que passei a me relacionar com a ideia de deus melhor quando dessacralizei a bíblia e passei a lê-la como um livro de literatura, evocando um grande teólogo alemão chamado Rudolf Bulltmann de espistemologia kierkegaardiana e heideggeriana. Um personagem como Jesus certamente se assemelha a um Dom Quixote em sua sede pela verdade; ou um príncipe Michkin com sua necessidade de justiça. E aí encontro um apaziguamento necessário às minhas necessidades. Existem hinos mais bonitos que as sonatas de Beethoven ou de Mozart; ou a obra espiritual de Bach?
Ser espiritual é encontrar poesia em cada átomo da existência, em cada centelha da vida. Nesse sentido, encontro a espiritualidade da afirmação da vida, sempre - como diria Nietzsche. Julgo o movimento ateísta essencialmente radical. É um fundamentalismo sem deus. Ou seja, uma religião radical que prega a ausência de algo, mas que torna essa mesma ausência em uma entidade que se sobrepõe a tudo.
Abraços cordiais, Charlles!"
domingo, agosto 11, 2013
"Fogo Morto", obra prima de José Lins do Rego. Algumas impressões
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| José Lins do Rego |
Minha paixão por Zé Lins é resultado de um fascínio pela sua prosa. Dentre os escritores regionalistas nordestinos, o mais expressivo - sei - é Graciliano Ramos, que devoto como um dos maiores escritores de todos os tempos. Livros como São Bernardo, Angústia, Vidas Secas ou Infância já são suficientes para colocá-lo ao lado daquilo de mais nobre já foi produzido pela literatura mundial.
Todavia, a prosa ligeira e expressiva de Zé Lins é viciante. A matéria de trabalho do escritor é descrição, resultado de suas memórias. José Lins do Rego é um "Balzac rural". Alguém capaz de produzir freneticamente, fazendo análises do cenário; narrando o mesmo fato por vários ângulos, alargando o mesmo campo de observação. Talvez isso demonstre certa "deficiência" em sua produção. Ele não é um criador. É um reprodutor de experiências. Um contador escrupuloso de percepções apreendidas. E, assim, reconstitui as estruturas da sociedade patriarcal e erguida sobre a relação de poder do Nordeste.
Ao terminar Usina, José Lins deu a certeza ao leitor de que terminaria o seu "ciclo da cana-de-açucar". Ora, uma vez que aquilo tenha acontecido, o escritor não poderia retomar a mesma temática, sob o risco de repetir-se. Mas não foi isso que se deu. Como já mencionado acima, em 1943 sai Fogo Morto e ali estava o que de mais curioso ele havia produzido em sua carreira. Alguns entendem que Bangüe (terceiro livro do ciclo da cana-de-açucar), seja outra de suas obras destacadas. Em Fogo Morto, José Lins fez uma análise mais global da sociedade açucareira, centrando a história em três personagens emblemáticos - Lula de Hollanda Chacon, Capitão Vitorino Papa-Rabo e no mestre Zé Amaro.
O livro possui três partes costuradas por um liame, o capitão Vitorino. A personagem é a expressão mais lata do desejo de justiça, de escrúpulo político, de defesa dos mais fracos, da incansável vontade de fazer triunfar a equidade. Vitorino torna-se assim um espécie de Dom Quixote. Um anacrônico que verbaliza contra tudo aquilo que abala a causa do oprimido. Ele aparece em toda parte. É onipresente em sua luta. É a comicidade materializada. E é aqui que conseguimos vislumbrar seu aspecto quixotesco.
O curioso nisso tudo é a mensagem política que a personagem alavanca, posto que a ordem descrita pelo narrador é a ordem oligárquica. Vitorino em sua luta é aquele que defende "o clarear" das relações; que prega a assunção de uma ordem democrática, o fim dos "potentados da terra", dos desmandos, tirando o Brasil da ditadura dos grandes latifúndios, tão comum à Primeira República, já que a história se passa no início do século XX, época em que os engenhos começam a agonizar no Nordeste e que se consolidará durante o Governo Vargas com a onda nacionalista e industrializante.
O romance lida com a decadência de uma ordem antiga, representado por Lula de Hollanda, o coronel "Lula". Lula casa com Amélia, filha do Capitão Tomás, e sua inabilidade administrativa leva-o ao longo dos anos a perder o império erguido pelo sogro. De modo que o visível declínio do engenho Santa Fé e a visão enfermiça, religiosa e delirante do coronel Lula é o próprio aspecto agônico que representa metaforicamente a morte de toda uma ordem. É notório dentro da história, a decadência política dos coronéis, na pessoa de Lula de Hollanda, e a expectativa utópica da igualdade, representado pelo capitão Vitorino.
O romance ainda nos apresenta a figura do cangaço e das forças legitimadoras da ordem, representada pelo tenente Maurício. Nota-se aqui um ligação do romance com os conflitos políticos surgidos na República Velha. Antônio Silvino e o tenente Maurício são forças oponentes. Silvino é a ordem anárquica que brota fora, mas que ameaça a ordem com sua liberdade que faz tremer os poderosos da terra. Já o tenente Maurício é o outro braço do poder tentando segurar a ordem arbitrariamente. É energia fria que faz dobrar a todos. Eric Hobsbawn em seu livro Bandidos, cuja leitura estou na iminência de realizar, em sua tese sobre a origem do banditismo, diz que: "o bandistismo desafia simultaneamente a ordem econômica, a social e a política, ao desafiar os que têm ou aspiram ter o poder, a lei e o controle dos recursos". José Lins do Rego vai explorar essa temática em Cangaceiros, livro que escreveria em 1953.
O que é mais saliente em Fogo Morto é a explícita descrição da agonia política por que passava o Nordeste e as posições ideológicas do autor sendo reveladas. Enquanto nos outros livros Zé Lins se portava como um contador de histórias estático, em Fogo Morto ele deixa bem claro em sua prosa regionalista o realismo histórico da dialética dos tempos. Nesse sentido, como diz Nelson Werneck Sodré em História da Literatura Brasileira, o regionalismo surgido no século XX, difere do regionalismo de José de Alencar ou de Bernardo Guimarães (escritores românticos do século XIX), pelo alto grau de veracidade da forma. E nisso Fogo Morto acentua sua importância.
Próximas leituras do mestre Zé Lins: Cangaceiros e Pedra Bonita.
O filme Fogo Morto pode ser visto no Youtube. Vi e gostei da adaptação.
O curioso nisso tudo é a mensagem política que a personagem alavanca, posto que a ordem descrita pelo narrador é a ordem oligárquica. Vitorino em sua luta é aquele que defende "o clarear" das relações; que prega a assunção de uma ordem democrática, o fim dos "potentados da terra", dos desmandos, tirando o Brasil da ditadura dos grandes latifúndios, tão comum à Primeira República, já que a história se passa no início do século XX, época em que os engenhos começam a agonizar no Nordeste e que se consolidará durante o Governo Vargas com a onda nacionalista e industrializante.
O romance lida com a decadência de uma ordem antiga, representado por Lula de Hollanda, o coronel "Lula". Lula casa com Amélia, filha do Capitão Tomás, e sua inabilidade administrativa leva-o ao longo dos anos a perder o império erguido pelo sogro. De modo que o visível declínio do engenho Santa Fé e a visão enfermiça, religiosa e delirante do coronel Lula é o próprio aspecto agônico que representa metaforicamente a morte de toda uma ordem. É notório dentro da história, a decadência política dos coronéis, na pessoa de Lula de Hollanda, e a expectativa utópica da igualdade, representado pelo capitão Vitorino.
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| Cena do filme Fogo Morto (1976), de Marcos Farias |
O que é mais saliente em Fogo Morto é a explícita descrição da agonia política por que passava o Nordeste e as posições ideológicas do autor sendo reveladas. Enquanto nos outros livros Zé Lins se portava como um contador de histórias estático, em Fogo Morto ele deixa bem claro em sua prosa regionalista o realismo histórico da dialética dos tempos. Nesse sentido, como diz Nelson Werneck Sodré em História da Literatura Brasileira, o regionalismo surgido no século XX, difere do regionalismo de José de Alencar ou de Bernardo Guimarães (escritores românticos do século XIX), pelo alto grau de veracidade da forma. E nisso Fogo Morto acentua sua importância.
Próximas leituras do mestre Zé Lins: Cangaceiros e Pedra Bonita.
O filme Fogo Morto pode ser visto no Youtube. Vi e gostei da adaptação.
sexta-feira, agosto 09, 2013
"Solto o meu bárbaro YAWP sobre os telhados do mundo". Um grande presente de aniversário
O que faz as coisas pararem no tempo é a saudade
Mario Quintana
O cimento que alicerça o mundo humano é a palavra. A palavra é um dos elementos identificadores da minha humanidade. Se eu não verbalizasse, estaria privado dessa dimensão tão intrinsecamente necessária à minha humanização. Paulo Freire diz que o sujeito humanizado é aquele capaz de praticar a "emersão", que é a existencialização de sua subjetividade, o externar de seu próprio mundo humano. Sujeitos humanizados exprimem o que sentem num gesto de liberdade plena. Quem não aprendeu "a dizer" o que sente, ainda não está plenamente emancipado.
Proibir a fala é proibir a própria capacidade de ser do outro, pois o outro está naquilo que a sua fala diz. A fala é uma dimensão existencial da vivência social. Com ela, eu aprendi a dizer "mãe", "não", "obrigado", "vou", "não vou", "gosto" e "não gosto". O sujeito que verbaliza a palavra projeta o seu próprio ser. O indivíduo proibido de dizer a palavra está proibido, na verdade, de ser. Falar é colorir o mundo com as cores que acumulamos na história. É colocar minhas impressões sobre determinado assunto, sobre determinado aspecto da realidade. É não sentir em sua privacidade, mas compartilhar com o outro um pouco daquilo que somos.
É, por isso, que que a raposa vai dizer para o Pequeno Príncipe: "A gente só conhece bem as coisas que cativou (...) Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas". Os homens são cativados pelo poder da palavra. E mesmo que haja silêncio no intervalo das falas, isso se constitui em "um dizer". Há silêncios que estão povoados de palavras.
Divago com as palavras, porque a boca se enche de sorrisos quando o coração é cativado. Hoje é o dia de meu aniversário. Fui trabalhar pela manhã e recebi durante o dia vários gestos de afeto. Dois em especial me tocaram bastante. (1) primeiro do 9° ano A. Deram a mim um livro do Mário Quintana. Presente excelente. Quintana é um gênio. Um burilador de palavras. O pastor de palavras, como o Alberto Caieiro. (2) segundo foi um gesto de carinho do 8° C. Fizeram uma festinha. Todavia, o que mais me comoveu foram as palavras escritas pela turma e lidas pela Lorena Weil. Demonstra um alto nível de perspicácia ao dizer a palavra. Transcrevo-as abaixo:
"Quando me pediram para escrever esta carta, fiquei pensando em como começá-la, em como desenvolvê-la e em como terminar. Pois é. Não tinha ideia de como escrever algo para o cara que corrige nossas provas, mesmo com todas as caligrafias borradas e estranhas, mesmo com os erros ortográficos, ele consegue entender. Nossa caminhada vai se tornando cada vez mais longa, se olharmos para trás, e cada vez mais curta, se olharmos para frente. É estranho - eu sei. Mas pare para pensar nas crianças que éramos no 6° ano e olhe para nós agora, mesmo ainda não sabendo quase nada da vida. Estamos crescendo e evoluindo.
Toda aula uma palavra carlina entra no nosso dicionário, aquelas aulas que te deixam com os cabelos, mesmo poucos, brancos. O sexto horário da segunda-feira em que já estamos exaustos, mas você está ali, de pé, passando o seu conhecimento para frente. Como não lembrar dos seus pulos de alegria quando acertamos alguma questão ou quando não sabemos a matéria? Aquele seu jeito desengonçado de andar, como você mesmo disse: "como boneco de Olinda". Esse jeito Carlos de ser nos deixa curiosos, afinal como alguém pode falar tão bonito de coisas tão bonitas? Ter sabedoria que você tem, não é para qualquer um. Pode não parecer, mas a admiração que temos por você é muito grande. E quem diria, ainda com essa vida agitada ainda sobre espaço para ler um livro? Um não: uns 10, 20, 30 quem sabe... É. Meu professor de Português também é uma biblioteca ambulante. E também uma discoteca dos mais variados rocks, dos mais diferentes clássicos.
Como ele consegue é um grande mistério. Daqui a pouco tempo essa turma vai embora. Vamos enfrentar o temido Ensino Médio e cada um aqui vai lembrar daquela professor de Português do Santa Rosa. "Lembro-me de quando ele falou desse escritor". "Acho que li esse livro". Tudo isso vai deixar saudades. Parabéns, Carlos. Continue sendo esse homem de grande coração que você é. Obrigado por cada aula. Esperamos que você realize seus sonhos e conquiste seus objetivos".
Obrigado!
domingo, agosto 04, 2013
Silas Malafaia e o seu discurso carregado de significados
Assisti ao programa Na Moral que foi ao ar na última quinta-feira, dia primeiro de agosto, pela Rede Globo de televisão. O tema era religião e estado laico. Foram convidados quatro participantes: O líder da ATEA (Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos), um clérigo católico, um babalaô, representando as religiões de matriz africana e o pastor Silas Malafaia, falando em nome dos evangélicos. Quem mais me chamou me chamou a atenção no programa foi o Silas Malafaia - não pela inteligência ou bom senso, mas pela ignorância. Sua fala descontextualziada e não problematizadora da realidade brasileira, diferente, por exemplo, do líder babalaô, criou em mim um misto de asco e riso sardônico. Ele mostrou-se com extrema falta de educação ao dizer que o líder da ATEA estava falando "asneira", quando este trouxe um dado factível. Mas não é apenas sobre isso que gostaria de refletir.
Primeiramente, deve ser explicado que o mundo evangélico é bastante complexo. Existem, pelo menos, três divisões dentro desse segmento: (1) os protestantes históricos de linhagem reformada. Nesse caso incluem-se as igrejas batistas, metodistas, luteranas e presbiterianas históricas; (2) as igrejas pentecostais, que surgiram no início do século XX, como resultado de eventos ocorridos nos Estados Unidos. Um desses casos é a Assembleia de Deus; (3) e o terceiro caso são as chamadas igrejas neopentecostais, que são resultado, também, de um fluxo teológico oriundo dos Estados Unidos e que carregam como principal mensagem a teologia da prosperidade, uma espécie de "teologia de shopping center".
Deve ser salientado ainda, que as igrejas pentecostais fixaram sua atuação nos dons espirituais ou "carismas", enquanto as chamadas igrejas neopentecostais se estribaram na filosofia neoliberal do ter. Ou seja, ter posses, "mudar de vida", como é dito pelo seguimento, passou a ser uma persecução para igrejas como a Igreja Universal, Sara Nossa Terra, Igreja Internacional da Graça de Deus, Renascer e tantos outros segmentos sedimentados no poder de convencer do seu líder.
A teologia da prosperidade pode ser analisada filosoficamente e sociologicamente como um movimento que supre as necessidades criadas pelos postulados neoliberais do capitalismo. O neoliberalismo criou um mundo no qual o individualismo e a particularização da percepção do mundo se tornou uma regra. Ou seja, o valor essencial que emana desse princípio é de que o espaço privado foi alargado. A ética do capitalismo consumista e individualista passou a ser o modo de navegação da teologia da prosperidade. Essa teologia se coaduna com as expectativas criadas pelo modelo neoliberal que surgiu na Inglaterra e nos Estados Unidos no final da década 70 do século XX.
O crescimento extraordinário dos evangélicos é resultado dessa lógica. Não é que o protestantismo tenha uma mensagem espiritual, baseada apenas na ética como dado que labora sobre valores invisíveis. O crescimento dos evangélicos se explica pela mensagem da teologia da prosperidade. As igrejas evangélicas nas últimas três décadas - logo após o bum do neopentecostalismo - foram para o ataque. Compraram canais de TV, emissoras de rádio. Investiram no marketing. E os seus líderes se transformaram em homens de negócio. Enriqueceram. Criaram uma lógica baseada no "ter" para "ser". E se tornaram em seres incensados pelos fieis.
Todavia, o resultado dessa atuação militante do mundo evangélico, quando se transforma numa imperiosa vontade de se colocar acima dos direitos civis e democráticos, torna-se uma violência simbólica. Os evangélicos têm o direito de professarem aquilo que desejam professar desde que não se tornem sujeitos antiquados e que estão em descompasso com as garantias individuais defendidas constitucionalmente.
Assistindo ao programa do Pedro Bial, fiquei imensamente preocupado com a sanidade do Silas Malafaia. Mas, depois compreendi que a intransigência defendida por ele, é resultado do dogmatismo encontrado no próprio seio do protestantismo. Enquanto a Igreja Católica se preocupa com questões estruturais e conjunturais da sua tradição, o Protestantismo, como diz Rubem Alves em "Protestantismo e Repressão", "é o espírito de revolta contra todas as ordens institucionalizadas". Rubem Alves ainda diz que "A Reforma sacralizou a consciência e dessacralizou o mundo". Com isso, "a reverência frente à ordem civilizatória é substituída por uma atitude de orgulhosa rebelião contra a mesma. A grande conquista protestante, de sacralizar a personalidade, tem como o seu reverso a secularização do mundo, que agora não mais pode ser gozado misticamente como o ventre divino".
Assim, o mundo deixa de ser sagrado e passa a ser resultado de um utilitarismo. Ou seja, essa análise é resultado desse paradoxo. Enquanto defende o sagrado, o protestante solidifica o individual, o personalismo e possibilidade da anomia. Isso pode ser constatado, por exemplo, na militância da bancada evangélica. Ela atua em descompasso com os debates e avanços da sociedade. Nisso, percebe-se um influxo medieval e uma posição de "rebeldia" contra os interesses da sociedade. Segundo informações do IBGE, é possível que, em 2020, os evangélicos se igualem ao número de católicos no Brasil. Com isso, cresce a possibilidade dessa lógica arbitrária.
No programa do Bial, notei que o discurso do Silas Malafaia possuía essa força aludida acima. Silas defendeu em certo momento a democracia, afirmando em linhas garrafais que não era homofóbico e preconceituoso. Todavia, quando convidado para fazer uma marcha com líderes das religiões de origem africana, numa espécie de ecumenismo, desconversou em tom bravateiro.
O protestantismo é um movimento religioso surgido na Europa e transformado nos Estados Unidos. As seitas que aqui chegaram no início do século XIX vieram missionariamente da América do Norte. Trouxeram de lá muitos dos valores europeus e americanos. Muitas dessas seitas se "adaptaram" ao Brasil. Todavia, nunca aceitaram determinados fenômenos da cultura brasileira como, por exemplo, o nosso sincretismo religioso que sempre foi visto como resultado de um paganismo demonizante. O catolicismo ao contrário, está aqui desde o início da formação do Brasil e muitos dos elementos culturais colocam a própria Igreja de Roma como personagem que não pode ser deslindado.
O Protestantismo, ao contrário, chegou trezentos anos depois, e é marcado pelo aspecto não relatizável com a cultura brasileira. Tudo aquilo que fuja ao seu dogmatismo, é visto como um elemento estranho que deve ser "catequizado" à sua imagem e semelhança. Surge daí, a dificuldade para entender muitos dos aspectos da cultura brasileira. Um exemplo claro disso é a não "legitimação" das religiões sincretizadas e de matriz africana.
Silas é apenas uma face do mundo protestante. Seu discurso é repleto de significados e que podem ser entendidos à luz da história.
Programa pode ser visto AQUI.
Uma pensata a partir de um post da ATEA
Kierkegaard já dizia isso. É que a fé não lida com categorias materializáveis, mas com o invisível, com o intangível. Lembrando aquele velho princípio agostiniano: "Creio para depois pensar". Além do que o dogmatismo da fé é uma categoria não relatizável. O crente sente sua "existência" abalada quando essa suposta "verdade" é colocada em xeque. Daí, ou se aceita a fé como verdade incondicional ou se põe abaixo toda aquela epistemologia capaz de explicar todos os fenômenos universais. Se ele relativiza, aquilo que ele crer deixa de ser "verdade" e passa a ser apenas mais uma narrativa como as tantas que já existem. Para o crente, deixar de dialogar com essa "verdade" é "perder a fé" e correr um sério risco. Admirável a fala de Carl Sagan.
sábado, agosto 03, 2013
Brasil, um país que precisa ser amado por todos nós
O Brasil é um país múltiplo - de cultura, de identidade e de sentidos próprios. Darcy Ribeiro em seu fabuloso livro O Povo Brasileiro, que deveria ser de leitura obrigatória em toda escola do nosso país, sabendo dessa complexidade, dividiu a obra em "brasis": "o Brasil Caipira", "o Brasil Crioulo", "o Brasil Caboclo" etc. Claro, deve ser levando em conta que o livro analisa, também, a gestação histórica do Brasil e o processo de formação sociocultural da terra brasileira antes de se deter nessas especificidades.
Mas, o nosso país é identitariamente variado. Sua história é trágica. Dolorosa. De opressão. Exploração. Espertezas prevaleceram. Em suma: seu processo de formação se deu por meio de reveses. Quando escuto determinadas afirmações que são resultado de nossa "síndrome de vira-latas" (a capacidade que temos de não nos levarmos a sério), entendo o quanto fomos vitimados pela violência colonizadora de Portugal. Quando viajo pelo Brasil vejo o quanto o país é lindo e negligenciado, entendo o quanto precisamos mudar nossa consciência sobre nós mesmos. Um exemplo disso foi a viagem que fiz no início do mês passado à Santa Catarina. Lá tive a oportunidade de visitar a cidade de Pomerode, de matriz alemã. As casas, a culinária, as vestimentas, a cor dos olhos, dos cabelos, as marcas linguísticas são bem singulares. Uma semana depois, após ter voltado de Santa Catarina, fui ao interior do Goiás e ouvi uma pergunta feita a mim por um adolescente.
Eu estava sobre a mesa assistindo a documentário na casa da avó da minha esposa em meu computador. O rapaz, que é morador de uma sítio próximo à cidade de Pontalina, perguntou-me: "Seu Windows é 8?". Eu disse: "Não! É 7" Mas a pergunta do jovem saiu com uma musicalidade muita peculiar, muito própria. O "r" retroflexo criou uma canção agradável. Naquela fala estava a ontologia da minha terra. Aquilo era um pedaço da história, aquilo era um pedaço do meu país. Ou seja, uma semana antes eu ouvira a fala marcadamente singular dos sulistas. E uma semana depois eu ouvi um jovem goiano falando "um português" completamente diferente daquele que eu ouvira. Dei uma boa gargalhada interna. Não de mofa do rapaz. A risada estava cheia de felicidade. Pensei comigo: "Esse é o meu país!"
Essas variações ocorrerão, por exemplo, se eu for para o Nordeste ou para a região Norte; ou para o interior de Minas Gerais ou do Mato Grosso. Muitos bons escritores brasileiros entenderam isso. Guimarães Rosa com sua prosa de marca essencialmente popular, universalizou determinado sentido de nossa cultura. A ideia de que "o sertão está em toda parte, o sertão está dentro da gente". Na semana que se passou estive em Pirenopólis, município goiano situado a 150 quilômetros de Brasília, e fiquei impressionado com a cidade. Fiquei refletindo como somos tão propensos a cultuarmos tudo aquilo que diga respeito ao que é dos outros - novamente a síndrome de vira-latas. Nós brasileiros não aprendemos a valorizar o nosso país. Não damos importância às nossas belezas naturais; à nossa música que é riquíssima; à nossa literatura popular; à nossa religiosidade, marca tão característica de nossa identidade; à nossa história que é tão marcante. Quando vamos fazer comparações sempre as fazemos com os países desenvolvidos do Norte. Todavia, esses países tiveram processos de formação completamente diferentes. Em sua maioria, foram países que colonizaram outros países e extraíram a riqueza de outras nações, sejam elas latino-americanas, africanas ou asiáticas. O imperialismo opressivo europeu e americano criou o atual sistema de coisas. Essas comparações estão fundadas em falácias, posto que nossa história é outra. Nunca dominamos ou oprimimos nenhuma outra nação como se deu historicamente com os países europeus ou com os Estados Unidos. Em nossas escolas a história sempre contada na perspectiva do dominador.Nunca chamaram os índios, por exemplo, para contar a sua história.
Um exemplo disso é a cultura nordestina e aquilo que nos acostumamos a chamar de cultura sertaneja. Quando falamos em Nordeste, já existe em nossa mente uma percepção da miséria e do atraso. O homem nordestino é resultado de uma complexa miscelânea cultural. Vive em um dos espaços mais hostis do território brasileiro. O tom agreste da paisagem, as dificuldades naturais, ligada a um forte instilamento sincretista moldaram o homem nordestino. É possível encontrar no Nordeste elementos medievais em meio da cultura popular. O cordel é um desses casos; a visão religiosa e que se amalgama com as mais variadas crenças, produziu um sujeito amedrontado. O medo é forjado em sociedades nas quais existe um imaginário carregado do senso da morte. Jean Delumeau em "História do Medo no Ocidente", vai dizer que a insegurança acerca da vida leva ao medo. Ou seja, o medo é resultado de uma ambiguidade. Enquanto os homens acham que são fortes, o medo torna-se um elemento desconhecido. O contrário não é possível. É, por isso, que em momentos de guerra ou de grandes catástrofes, o medo se torna palpável em sua ação.
Assim, o que existe em mim é um desejo enorme de conhecer o Brasil em sua inteireza. De ouvir os sons da nossa fauna e as belezas coloridas da nossa flora; a voz que emana dos subúrbios e dos interiores. A cultura produzida pelo homem simples. As construções importantes que resgatam a nossa história. As palavras que surgiram de situações particulares e que revelam em seu sentido mais primitivo o processo de dominação a que fomos submetidos. Amo as paisagens do Brasil. Gosto de viajar de ônibus para poder observar nossas florestas, nossas campinas; nossos rios, nossas chapadas; as flores das nossas matas. O "jeito" alegre e festeiro do povo brasileiro.
Afinal tudo aquilo que gosto está no trecho daquela música "Estrada de Canindé", de Luiz Gonzaga, que pode ser lida abaixo:
(...) "Artomove lá nem sabe se é home ou se é muié
Quem é rico anda em burrico
Quem é pobre anda a pé
Mas o pobre vê nas estrada
O orvaio beijando as flô
Vê de perto o galo campina
Que quando canta muda de cor
Vai moiando os pés no riacho
Que água fresca, nosso Senhor
Vai oiando coisa a grané
Coisas qui, pra mode vê
O cristão tem que andá a pé""
Quem é rico anda em burrico
Quem é pobre anda a pé
Mas o pobre vê nas estrada
O orvaio beijando as flô
Vê de perto o galo campina
Que quando canta muda de cor
Vai moiando os pés no riacho
Que água fresca, nosso Senhor
Vai oiando coisa a grané
Coisas qui, pra mode vê
O cristão tem que andá a pé""
domingo, julho 28, 2013
Ceilândia "confronta" Brasília - e vice-versa
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| Foto da Caixa d´Água, Ceilândia Centro |
Ontem, consegui correr 15 quilômetros. Foi um momento de bastante satisfação. Já estava há certo tempo querendo atingir essa meta. Coloquei a seguinte frase no Facebook: "15 quilômetros de corrida pelas ruas de Ceilândia. Que beleza! Sigamos..." Entre os vários comentários que surgiram, um me chamou a atenção, talvez, pelo nível de crítica contra a escolha de correr pelas ruas de Ceilândia, uma das cidades-satélites mais violentas do Distrito Federal: "fala sério pela ceilândia meu deus" (ipsis litteris), disse um dos comentaristas, professor e colega de trabalho da escola onde leciono.
Não que esteja criticando o meu colega, mas fiquei pensando sobre as posturas que tomamos a respeito de alguns fatos. Respondi para o meu colega da seguinte forma:
"Minha mãe mora lá. Fui visitá-la e, como sempre faço, aproveitei para correr. Fui da Ceilândia Sul à BR-070. Fiz alguns volteios pelo Setor-"O" e retornei à Ceilândia Sul, chegando até à Via Estádio. É uma delícia! A administração construiu aquelas pistas para ciclistas e a coisa ficou "simpática". É bom correr por lá. Além do quê, eu fui criado em Ceilândia. Conheço bem a cidade. Saiba que Ceilândia já foi matéria de poema para Carlos Drummond de Andrade. O nome do poema é "Confronto". A exata expressão crítica drummondiana que expressa o orgulho da "suntuosa Brasília", com o seu pasto verdejante de empáfia marmórea e a ressequida e "esquálida Ceilândia", todavia com muita gente séria e trabalhadora, a se mirarem num conflito social muito sério: Olhe que beleza o poema do Drummond:
"A suntuosa Brasília, a esquálida Ceilândia
contemplam-se.
Qual delas falará primeiro?
Que tem a dizer ou a esconder uma em face da outra?
Que mágoas, que ressentimentos prestes a saltar
da goela coletiva e não se exprimem?
Por que Ceilândia fere o majestoso orgulho da flórea Capital?
Por que Brasília resplandece
ante a pobreza exposta dos casebres de Ceilândia,
filhos da majestade de Brasília?
E pensam-se, remiram-se em silêncio
as gêmeas criações do gênio brasileiro"
contemplam-se.
Qual delas falará primeiro?
Que tem a dizer ou a esconder uma em face da outra?
Que mágoas, que ressentimentos prestes a saltar
da goela coletiva e não se exprimem?
Por que Ceilândia fere o majestoso orgulho da flórea Capital?
Por que Brasília resplandece
ante a pobreza exposta dos casebres de Ceilândia,
filhos da majestade de Brasília?
E pensam-se, remiram-se em silêncio
as gêmeas criações do gênio brasileiro"
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| Foto do Centro de Ceilândia, ainda na década de 1970. Ao fundo, o barracão onde hoje é Feira Central |
Esse fato me levou refletir como os conceitos enviesados são formados. Algo assim está lá na Bíblia. Diz um dos evangelhos que quando Jesus chegou a Jerusalém e começou a ensinar às multidões, os líderes religiosos, que constituíam a elite da época, passaram a questionar o lugar de nascimento de Jesus. Quando souberam que ele era do Norte de Israel (Galileia), pergutaram: "E por acaso daquele lugar pode sair algumas coisa boa?". Ou seja, uma afirmação que atrela o lugar de nascimento ao fato de ser "bom" ou "mal"; como se uma metafísica se estabelecesse como código moral formador do sujeito.
Como diz o poema do Drummond, Brasília é uma cidade em "confronto". É uma cidade na qual a sua delimitação cria uma cinturão de antagonismos. A arquitetura moderna é contrastante em relação às muitas cidades-cidades. Ceilândia é uma dessas cidades. Formada na década de 70, recebeu o nome augural de "Centro de erradicação de invasões" (daí o epíteto "CI" e o posterior nome "Ceilândia, que nos passa a ideia daquilo que o próprio nome preconiza - "terra das invasões"). A cidade é constituída por migrantes e filhos de migrantes vindos de muitos locais do Brasil para construir e ser construído pelo "sonho" chamado Brasília, sendo os nordestinos sua massa motriz. Essa influência nordestina está na fala, nas músicas, nos comportamentos, nas vestimentas e, principalmente, na Feira Central de Ceilândia, que ainda conserva a tradição gastronômica - buchada, mocotó, dobradinha, etc. É, atualmente, a cidade mais populosa do Distrito Federal e uma daquelas que apresenta o maior número necessitados da Capital Federal.
Ceilândia é um desses casos de nosso país, como diz o poema do Drummond, em que mostra a capacidade do "gênio brasileiro" de criar paradoxos. Encontramos o suntuoso, o nababesco, o babélico, mas ao mesmo tempo, retrato de nossos abismos sociais, criamos voluntariamente o inesoto, o esquálido.
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| Foto da atual Ceilândia a partir de Ceilândia Sul |
Fui criado em Ceilândia. Morei lá boa parte da minha vida. Gosto da cidade. Quando passo pelos locais onde fui criado, onde brinquei, uma porta dimensional se abre no tempo e me vejo ainda criança. Impossível esquecer. Ou seja, um pouco de minha ontologia está lá colocada, plasmada, tatuada.
Então, o fato de correr em Ceilândia se estabelece como algo poético e revitalizador. O sujeito nascido no centro de Brasília corre no Parque da Cidade, lugar feito para a fauna aburguesada exercitar-se, e julga isso como sendo natural. Ou seja, naturalizamos algumas coisas e estranhamos aquelas para as quais não estamos acostumados, sem percebermos que tudo é parte de um jogo de discursos.
sexta-feira, julho 26, 2013
Livros - mais livros... II
Parece ser um evento novelístico ou quem sabe a atestação do mito de sísifo; ou ainda uma ciranda louca e contumaz de um rio que deságua no mesmo oceano infindo de prazer marginal. A promessa não cumprida. O desafio feito como evento para apaziguar o fetiche brutal que habita as listas e as linhas da agenda. O rabiscar. O "ok" que é dado diligentemente quando o objeto é conquistado como a liberdade desejada pelo cativo. A sensação de meta realizada. De mais um plano alcançado. De mais um exercício consumado.
Fiz uma promessa no início da semana, mas ela não se sustentou por muito tempo. Simplesmente, vacilei em minha pusilanimidade de vontade, em minha indisciplina. A sensação de culpa. A consciência cônscia do desatino.
Afirmo tais coisas, pois hoje fui à Livraria Cultura aqui em Brasília. Saí do trabalho às quatro da tarde e fui com a minha esposa àquela loja capaz de criar mitologias. De fazer escancarar uma planície de ânsias indomáveis. Fizera a promessa de que não iria a espaços onde houvesse livrarias. Minha esposa procurava algum tipo de literatura que fosse ou que tratasse do filósofo Antonio Gramsci. Inconscientemente, eu sabia da potencialização do pecado. Mas fui. Acabei sendo fisgado, inevitavelmente, pela disposição da necessidade. Voltei da loja com cinco livros. Eis as materializações dos meus pecados:
Tratava-se de um projeto de compra antigo. Ganhou corpo depois que li o texto que pode ser encontrado aqui. O livro, conforme se pode ler na nota explicativa, foi publicado em 1859. É o livro que marcou a volta de Dostoiésvki ao mundo da literatura após quase dez anos de exílio na Sibéria. Obra da Editora 34 e traduzido por Lucas Simone, direto do russo.
O outro livro que, na verdade, é um conto, foi escrito em 1873. É um texto que surge com o espírito sardônico, por exemplo, como O alienista, de Machado de Assis, criando cintilações ácidas em torno dos costumes aristocráticos viciosos da Rússia do final do século XIX. Outro livro da magistral Editora 34 com tradução de Paulo Bezerra.
Já o livro O duplo eu conheci quando fazia o curso de Letras. Não cheguei a lê-lo. Apenas li referências à obra. É a segunda obra escrita pelo russo. No ano de 1846, Dostoiévski publicou Gente Pobre e, duas semanas depois, soltaria O Duplo. A obra vai revelar ao mundo a viagem dostoievskiana ao abismo escuro e caótico da consciência humana. Nesta obra está o gérmen para os personagens complexos e multifacetados como Raskolnikov ou o príncipe Michkin. Essa abordagem acontece com aquela mestria típica do russo, que sempre mergulha nas profundezas da alma humana, com finalidades perscrutatórias. Novamente, a excelente Editora 34 e tradução de Paulo Bezerra.
O primeiro livro do escritor norueguês, Karl Ove Knausgärd, a aparecer por aqui - Minha Luta 1 - A morte do Pai - eu conheci pelo blog do Charlles. Ao entrar na Livraria Cultura, pude ver na sessão de lançamentos o livro de Knausgärd e, imediatamente, fui fisgado. A começar pela capa que traz uma bela e evocativa paisagem de uma estepe. As estepes sempre foram uma espécie de porta dimensional que me leva a mundos inóspitos e carregados de mistério. Leio a seguinte informação na orelha do livro: "No presente da narrativa, com 39 anos e três filhos, Knausgärd deve se ajustar à rotina da família, trocar fraldas e apartar brigas, tudo isso enquanto tenta escrever seu novo romance, numa luta diária. É esse homem que busca se haver com a morte do pai e com o próprio passado, lançando-se em uma investigação minuciosa que resulta nesta obra aliciante híbrido de ficção e memória. Não é à toa, entre variadas referências literárias a Proust aparece como a inspiração mais evidente de seu ousado projeto, que se estende por mais de 3 mil páginas e seis volumes, sem abandonar a matéria autobiográfica".
A temática desse livro eu vi na entrevista que Mário Vargas-Llosa, um dos mais eminentes escritores latino-americanos da atualidade, deu ao programa Roda Viva no mês de maio. Llosa é um liberal franco, profundo e de fala fácil. É bom ouvi-lo. Em A civilização do espetáculo (uma evocação do livro homônimo de Guy Debord?), o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura do ano de 2010, desfere golpes contra "a banalização das artes e da literatura". Trata-se de um livro que se coloca no campo da crítica cultural. O escritor peruano entende, neste livro, que a cultura não deve se esquivar da realidade, gerando inclinações unicamente para a diversão e o entretenimento. O livro gerou algumas críticas a Vargas-Llosa como, por exemplo, a de que ele faz a defesa de uma cultura "eurocêntrica". Penso em minha simplicidade que a sua crítica seja contundente e séria.
quarta-feira, julho 24, 2013
Memórias Póstumas de Brás Cubas e a genialidade de Machado de Assis
"Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados" - Brás Cubas
Durante muito tempo alimentei dentro de mim uma oposição branda à genialidade de Machado de Assis. Questionava os laudatórios ufanistas que se faziam ao escritor carioca. Achava aquilo demasiado. Passei mais de dez anos sem lê-lo. Infelizmente. Essa negligência, creio, foi um prejuízo sem igual. Machado é daqueles escritores que precisam ser lidos de forma incansável, religiosamente. O autor de Memórias Póstumas não deve nada aos chamados grandes escritores do
mundo. Lê-lo com atenção é encontrar tesouros velados; ironias finas; críticas geniais à sociedade; impudências variadas; humor ríspido, bufônico; tiradas sensacionais; originalidade e ousadia.
Meus conceitos mudaram completamente em relação ao escritor este ano após ler dois de seus livros. Ainda bem. Em janeiro, enquanto estava de férias em João Pessoa-PB, li Quincas Borba, obra cujo nível de domínio da técnica do romance e dos personagens impressiona; sem falar na crítica terrível que desfere contra a sociedade hipócrita de sua época. E, agora, no mês julho, no meu recesso, tive a oportunidade de revisitar Memórias Póstumas de Brás Cubas. Passei dois dias - 13 e 14 - na cidade de Pontalina, município goiano, situado a 130 Km da capital. Sentado no banco da frente da casa da avô da minha esposa, eu pude constatar na leitura frenética que fiz das Memórias, que o livro é uma das coisas mais sensacionais que já foram produzidas. Pude captar dessa vez, boa parte daquele paisagem infinda que se espraia nos seus romances. E como diz muito acertadamente Roberto Schwarz em seu Um mestre na periferia do capitalismo, "a prosa narrativa machadiana é das raríssimas que pelo mero movimento constituem um espetáculo histórico-social complexo (...) Neste aspecto caberiam comparações com a prosa de Chateubriand, Henry James, Marcel Proust ou Thomas Mann".
Memórias Póstumas, escrito em 1881, inicia aquela grande fase que traria livros como, por exemplo, Dom Casmurro, Esaú e Jacó, Quincas Borba e Memorial de Aires; sem falar no conjunto de contos contidos em Papéis Avulsos. Especificamente em Memórias Póstumas, Machado firma um tipo de "impudência narrativa" que consegue dá um ritmo peculiar à obra. A epígrafe em forma de saudação já é um grande disparate literário: "ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver", deixa de forma clara a mensagem que ali não existe um narrador comum. Somente alguém com muita ousadia e domínio da forma para encetar algo assim.
O narrador-personagem mostra-se como um clown, uma espécie de pândego. Todavia, essa perspectiva é construída a partir daquilo que foi. Mas tudo aquilo que diz busca construir um humor infame, como se a sua vida tivesse sido uma sucessão de quadros quixotescos, a qual o herói surge espoliado das qualidades reluzentes necessárias à sua condição. Brás Cubas é um narrador cara-de-pau; é um basbaque; um piadista. Mas, um crítico severo. Seu humor é mordaz. Nesse sentido, as palavras de Machado ganham em grandeza, posto que cada palavra deve ser deslocada de seu sentido. Schwarz vai dizer que em Machado "não há frase que não tenha segunda intenção ou propósito espirituoso".
Aspecto curioso de Brás Cubas é o veio enciclopédico. Ele utiliza variadas citações e referências. Começa pelo Pentateuco, conjunto de cinco livros Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) considerados como sagrados pela religião judaico-cristã. Todavia, essas menções intertextuais se expandem dos tempos bíblicos à literatura clássica; dos romanos à Idade Média; da Reforma ao Renascimento; da Guerra Civil Inglesa às unificações alemã e italiana; de Stendhal a Lawrence Stern; de Verdi à esposa de João Caetano. Não são simplesmente alusões frias, pedantes, desnecessárias, empoladas. Não. O narrador o faz com tanta graça e leveza que, uma vez que fossem extraídas, traria prejuízo para o texto.
Cada capítulo é construído com uma liberdade de forma que põe Memórias Póstumas na esteira do moderno. Machado inova com isso. Temos assim uma obra com muitas polifonias. É isso que torna essa obra algo perene e inesgotável para as análises. Um exemplo da genialidade de Machado está, por exemplo, no capítulo 68, denominado "Vergalho". Transcrevo-o abaixo:
"Tais eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquele Valongo fora, logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-mas um ajuntamento; era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a fugir; gemia somente estas únicas palavras: — Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão! Mas o primeiro não fazia caso, e, a cada súplica, respondia com uma vergalhada nova.
— Toma, diabo! dizia ele; toma mais perdão, bêbado!
— Meu senhor! gemia o outro.
— Cala a boca, besta! replicava o vergalho.
Parei, olhei... Justos céus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudêncio, — o que meu pai libertara alguns anos antes. Cheguei-me; ele deteve-se logo e pediu-me a bênção; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele.
— É, sim, nhonhô.
— Fez-te alguma coisa?
— É um vadio e um bêbado muito grande. Ainda hoje deixei ele na quitanda, enquanto eu ia lá embaixo na cidade, e ele deixou a quitanda para ir na venda beber.
— Está bom, perdoa-lhe, disse eu.
— Pois não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bêbado!
Saí do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjeturas. Segui caminho, a desfiar uma infinidade de reflexões, que sinto haver inteiramente perdido; aliás, seria matéria para um bom capítulo, e talvez alegre. Eu gosto dos capítulos alegres; é o meu fraco. Exteriormente, era torvo o episódio do Valongo; mas só exteriormente. Logo que meti mais dentro a faca do raciocínio achei-lhe um miolo gaiato, fino, e até profundo. Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, — transmitindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as sutilezas do maroto!"
— Toma, diabo! dizia ele; toma mais perdão, bêbado!
— Meu senhor! gemia o outro.
— Cala a boca, besta! replicava o vergalho.
Parei, olhei... Justos céus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudêncio, — o que meu pai libertara alguns anos antes. Cheguei-me; ele deteve-se logo e pediu-me a bênção; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele.
— É, sim, nhonhô.
— Fez-te alguma coisa?
— É um vadio e um bêbado muito grande. Ainda hoje deixei ele na quitanda, enquanto eu ia lá embaixo na cidade, e ele deixou a quitanda para ir na venda beber.
— Está bom, perdoa-lhe, disse eu.
— Pois não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bêbado!
Saí do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjeturas. Segui caminho, a desfiar uma infinidade de reflexões, que sinto haver inteiramente perdido; aliás, seria matéria para um bom capítulo, e talvez alegre. Eu gosto dos capítulos alegres; é o meu fraco. Exteriormente, era torvo o episódio do Valongo; mas só exteriormente. Logo que meti mais dentro a faca do raciocínio achei-lhe um miolo gaiato, fino, e até profundo. Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, — transmitindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as sutilezas do maroto!"
O capítulo acima atesta o quanto o autor sabia construir crítica social com humor. É curioso que aquele que fora castigado na infância de Brás Cubas, havia se tornado em carrasco. Uma ironia terrível. Machado aqui posiciona a sua crítica contra a sociedade escravista e contra os dilemas da natureza humana quando exposta à ganância e ao poder.
Machado tem aumentado o seu prestígio internacional. É lamentável que isso não tenha ocorrido há mais tempo. Penso que ele não fique abaixo de qualquer outro grande romancista francês, russo, americano ou inglês como dito acima. Machado passou a ser reverenciado por nomes como Salman Rushdie, Martin Amis, Paul Auster e Woody Allen. Manguel - ainda vivo - e Carlos Fuentes - já falecido - elaboraram estudos sofisticados sobre o Bruxo do Cosme Velho. Susan Sontag elogia Machado em Questão de ênfase, colocando-o como o maior autor da América Latina. E Harold Bloom o coloca naquele rol dos cem maiores escritores da história.
Ou seja, Machado de Assis é um caso de gênio com uma galáxia de inesgotabilidade literária. Sua originalidade coloca-o entre os grandes. Entre os imortais.
P.S. Depois tentarei escrever sobre a parte final de Memórias Póstumas.
domingo, julho 21, 2013
Livros - mais livros...
É uma vocação para a megalomania. Para a necessidade criada a partir da pulsão de "mais ter". O fator castrante é o tempo e sua força aterradora que tudo reduz e limita. Eu, mais um elemento reduzido e limitado nessa jornada tortuosa de comprar e ler mais livros. Nestas minhas duas últimas semanas, a aquisição foi considerável. Ouvi muitas reclamações de minha esposa. O apartamento pequeno. As necessidades de organização de minha companheira. Do outro lado, e a minha compulsão inevitável. Cheguei ao plano arrazoado de comprar somente dois livros por mês - isso até o final do ano.
Não vejo o momento em que poderei comprar um lugar maior para que eu possa fazer uma biblioteca. Atualmente, coloco os livros em uma grande estante que fizemos quando casamos. Os livros já passaram da casa dos mil. A estante não mais os comporta. Já fiz filas duplas. Todavia, quando visito sites como o da Saraiva, da Livraria Cultura, Livronauta ou Estante Virtual, sempre cometo o pecado da bibliomania.
Já há algum tempo eu evito visitar shoppings, posto que todas as vezes que vou a algum desses locais reservados ao fetichismo da mercadoria, infrinjo mais códigos e sentenças e acabo voltando com uma quantidade inúmera de pockets e coisas variadas. Abaixo, uma pequena lista dos livros que comprei nas duas últimas semanas:
01. Marxismo e alienção, Leandro Konder;
02. Marighella - o guerrilheiro que incendiou o mundo, Mário Magalhães;
03. A deserticação neoliberal, Ricardo Antunes;
04. Bachelard, Elyana Barbosa & Marly Bulcão;
05. Como funciona o ficção, James Wood;
06. A imaginação dialética, Martin Jay;
07. Che Guevara: a vida em vermelho, Jorge G. Castañeda;
08. Nós e o marxismo, Florestan Fernandes;
09. A sagrada família, Marx e Engels;
10. Os anéis de Saturno, W. G. Sebald;
11. História do Brasil, Boris Fausto;
12. 1565 - Enquanto o Brasil nascia, Pedro Doria;
13. Bandidos, Eric Hobsbawn;
14. Histórias íntimas, Mary del Priore;
15. Dialética da colonização, Alfredo Bosi;
16. Orientalismo - o Oriente como invenção do Ocidente, Edward W. Said;
17. O amante da China do Norte, Marguerite Duras;
18 Uma história de Deus, Karen Armstrong;
19. Sociedade de classes e subdesenvolvimento, Florestan Fernandes;
20. A derrota da dialética, Leandro Konder;
21. Da guerrilha ao socialismo, Florestan Fernandes;
22. Marx, Engels, Lênin, Florestan Fernandes;
23. Florestan Fernandes - sociologia crítica e militante, Octavio Ianni;
24. Os sofrimentos do "homem burguês", Leandro Konder;
25. Escuta Só, Alex Ross;
26. As ideias estéticas de Marx, Adolfo Sánchez Vázquez;
02. Marighella - o guerrilheiro que incendiou o mundo, Mário Magalhães;
03. A deserticação neoliberal, Ricardo Antunes;
04. Bachelard, Elyana Barbosa & Marly Bulcão;
05. Como funciona o ficção, James Wood;
06. A imaginação dialética, Martin Jay;
07. Che Guevara: a vida em vermelho, Jorge G. Castañeda;
08. Nós e o marxismo, Florestan Fernandes;
09. A sagrada família, Marx e Engels;
10. Os anéis de Saturno, W. G. Sebald;
11. História do Brasil, Boris Fausto;
12. 1565 - Enquanto o Brasil nascia, Pedro Doria;
13. Bandidos, Eric Hobsbawn;
14. Histórias íntimas, Mary del Priore;
15. Dialética da colonização, Alfredo Bosi;
16. Orientalismo - o Oriente como invenção do Ocidente, Edward W. Said;
17. O amante da China do Norte, Marguerite Duras;
18 Uma história de Deus, Karen Armstrong;
19. Sociedade de classes e subdesenvolvimento, Florestan Fernandes;
20. A derrota da dialética, Leandro Konder;
21. Da guerrilha ao socialismo, Florestan Fernandes;
22. Marx, Engels, Lênin, Florestan Fernandes;
23. Florestan Fernandes - sociologia crítica e militante, Octavio Ianni;
24. Os sofrimentos do "homem burguês", Leandro Konder;
25. Escuta Só, Alex Ross;
26. As ideias estéticas de Marx, Adolfo Sánchez Vázquez;
27. O homem sem qualidades - Robert Musil;
28. Dialética do conhecimento - Caio Prado Júnior;
29. Dia de Finados - Cees Nooteboom;
30. São Paulo - a fundação do universalismo - Alain Badiou.
30. São Paulo - a fundação do universalismo - Alain Badiou.
segunda-feira, julho 15, 2013
"Febre do Rato", de Claudio Assis, a poesia 'esperneante' que vem debaixo
"É a coletividade que vai dar uma lapada nas leis e uma bicuda no ovo da ordem" - Zizo, in Febre do Rato
Fazia um certo tempo que eu não assistia a um filme que me perturbava tanto. O último, talvez, que me vem à memória é o Sétimo Selo, de Ingmar Bergman, que vi em 2011. Fiquei dias ruminando os efeitos filosóficos e teológicos da película de Bergman. Dessa vez, o filme que me deixou em transe foi Febre do Rato, do brasileiro Claudio Assis. O cineasta pernambucano, fugindo das preocupações do mainstream, tem produzido obras significativas, o que já o coloca como um dos grandes do cinema nacional. Assis produziu pouco. Três filmes apenas - Amarelo Manga (2002), Baixio das Bestas (2006) e o febricitante Febre do Rato (2011). Antes dos filmes, Assis produziu alguns documentários e curtas.
Não cheguei a fazer uma pesquisa, mas acredito que o termo 'febre do rato' esteja circunscrito ao mundo linguístico pernambucano. Cresci ouvindo o meu pai dizer (sou pernambucano e de família pernambucana): "Ele não está com a febre do rato", quando queria dizer que alguém não deveria exceder o bom senso, extrapolar a realidade e se fiar pelo mundo da loucura. Assim, 'febre do rato" é a realidade daquilo que não é comum, que está fora do padrão; que assume uma natureza para além do corriqueiro.
E talvez não exista nome mais adequado do que este para a película de Cláudio Assis. Como os outros dois filmes, a história se passa em Pernambuco - especificamente Amarelo Manga se passa em Recife e Baixio das Bestas centra a sua temática na zona rural pernambucana. Febre do Rato em sua exposição crua, em sua visceralidade extasiante, é o foco sendo dado ao submundo dos centros urbanos. As palavras iniciais do narrador (o poeta Zizo) aturdem, mescladas ao mundo insalubre dos cortiços à beira do mangue: "Logo ali por trás do mangue, descansa insone a faca, o serrote, o trabalho, o sexo e o sangue. Abismo, mundo escuro, profundo buraco; lateja o fardo de tuas ruas, lateja o grito ruminante, gritos de não. Não de abismo".
O filme é uma poesia desvestida. A começar pela película em preto e branco, que confere à obra uma aspecto atemporal, sublime e de funda envergadura metafísica. Não há uma fotografia corriqueira, daquelas produzidas para agradar. Tudo é feito para contrariar a estética do belo e realçar a estética do "cuspe" e do "escarro" de Augusto dos Anjos. O que existe é o movimento. O movimento da poesia, que é embriagada e embriagante como o personagem principal da obra - Zizo (Irandhir Santos, que está impecável na obra!).
A obra de Assis foge ao convencional. O grupo de amigos, que está sempre junto do poeta, composto por traficantes, vagabundos, travesti, coveiro, embriagados, parece constituir os habitantes de Sodoma e Gomorra. Ou seja, as personagens suprimem a lógica burguesa. Poeta e obra buscam pregar uma atitude anárquica ante as coisas. Não se trata diretamente ou meramente da supressão do Estado ou da ordem burguesa instituída. O filme busca fazer com que o homem médio saia de sua letargia, de seu sono profundo. Que se posicione diante do descalabro da irgonorância e do ventriloquismo a que é submetido. Em certa altura do filme, Zizo diz: "As pessoas ficam falando em futuro, em mudança, mas não estão nem aí para as coisas que estão realmente mudando. Perderam a capacidade de espernear". ( o destaque é meu)
É justamente essa capacidade "de espernear" a que o filme faz alusão. Zizo é o porta-voz, o profeta sem deus, cuja religião é a poesia. O Antônio Conselheiro, o Sandino, o Zumbi, o messias do gueto, do submundo, do mundo-abismo da periferia, obumbrado pela inferno da indiferença burguesa. Zizo é a poesia esperneante que chama os homens a trazerem vasilhas para encherem de liberdade; a que tragam as vasilhas para que encham de cumplicidade; que tragam as vasilhas para encherem de força.
Claudio Assis se aproximou dos grandes nomes ao dirigir Febre do Rato. Talvez, tenha se aproximado de um Glauber Rocha em sua capacidade dançante de construir enredos eivados de força ou de um aludido Bergman capaz de fazer grandes discursos por meio das imagens. Febre do rato é a extrapolação de qualquer consideração metódica . Fez-me refletir como a palavra pode ser utilizada como libelo que constroi realidades desestabilizadoras; que suprime as névoas do olhar; que emancipa o sujeito; que traz os atores (vítimas da omissão) a serem protagonistas de uma nova verdade dialógica.
Penso que Claudio de Assis tenha conseguido fazer um dos filmes mais belos e delirantes da história do cinema brasileiro. Que bom saber que estamos chegando a esse nível de maturidade.
É possível assistir ao filme no Youtube.
P.S. Aviso: os moralistas burgueses e religiosos podem se chocar com algumas cenas. Afinal, é preciso ser louco para ser livre. Desculpem a afirmação que soa a clichê. Mas acredito que Zizo gostaria dessa frase.
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