quarta-feira, fevereiro 25, 2015

O "FORA DILMA" e as "opiniões"

O Brasil atual, do ponto de vista político, tem sido um palco para uma profunda crise de representatividade. O governo atual é responsável por um pouco desse aspecto cinzento que se abateu sobre a política nacional. Mas, penso que essa realidade seja sustentada, principalmente, pelo desserviço que a mídia conservadora presta diariamente em seus veículos ditos informativos - sejam eles escritos, visuais ou falados (no caso das emissoras de rádio). Um forte movimento fascista e golpista se instalou de forma silenciosa a serviço de certos interesses e, como se fosse um vírus, passou a fazer parte do vocabulário do homem médio (algo que se estende das crianças aos idosos) contra o governo. Ora, se existe esse consenso e uma forma homogeneizada de discurso raivoso, canino, babão, contra o governo petista, o "FORA DILMA" não é nada mais nada menos do que uma espécie de "catapora coletiva" pulverizada pelos jornalões que têm uma clara posição ideológica e que acometeu a sociedade. 

Não defendo o governo petista. Votei em Dilma o ano passado como um último recurso político. Penso que a base hegemônica que comanda o PT há muito esmaeceu o sonho inicial de fundação do partido. Nas eleições do ano passado, quando os movimentos sociais e vários intelectuais apoiaram o partido, fiquei de longe observando os passos do governo, e, principalmente, do explícito interesse midiático e do mercado em torno do projeto de cada um dos candidatos. Havia duas possibilidades: a guilhotina (Aécio), que era a decapitação certa, sem possibilidade de graça, indulgência ou anistia a e cruz (Dilma), mas que trazia em seu bojo toda aquela força esperançosa e simbólica que o objeto representa. Boa parte dos brasileiros optou pela cruz. Todavia, a esperança se mostrou mole, frouxa, como uma chuva de dois minutos. Simplesmente, ela não aconteceu, pois o braço hegemônico do PT, que tem em Dilma Rousseff a sua base, optou por uma saída pela direita em meio à crise. O fato é que a crise está posta com toda a sua latência. Mas o PT ao invés de sair pela esquerda, com a opção clara pelo trabalhador e pelos movimentos sociais, o que fortaleceria o governo e o tornaria defensável, ficou sem titubeios com o mercado.

Mauro Iasi já apontava isso em seu lúcido e esclarecedor artigo O sexto turno, escrito quinze dias antes do segundo turno da corrida presidencial. Nele, o intelectual falava sobre a opção clara que o Partido dos Trabalhadores havia feito desde o primeiro mandato de Lula e, que não seria naquele momento, que as coisas mudariam. Analisando a atual conjuntura à luz da reflexão de Iasi a realidade se torna mais clara. A mídia sabe do "alheamento político" do brasileiro médio - e faz política em cima disso. São hábeis jogadores. Buscam desgastar o governo por causa de suas últimas decisões para salvar o mercado - aumento da gasolina, alta dos impostos, corte nos direitos trabalhistas etc; os escândalos de corrupção, principalmente, aquele que tem ajudado a lançar abaixo os flancos táticos do governo, o caso Petrobras. Trata-se de um jogo em que, aquele que tem o poder de formação da "opinião", acaba levando a partida. Aconteceu isso, por exemplo, em 1992 com os caras pintadas. Isso parece clichê: mas não foi o povo que necessariamente que impeachtmou Fernando Collor; mas sim, a Globo que fez isso. Ela o colocou e ela o tirou.

O atual movimento antidilmista possui uma fonte clara. Só não não enxerga quem diz "FORA DILMA!". Não é o PT de Dilma que é incompetente. É o tipo de política a favor do mercado e do capital rentista que traz essas consequências. Foram as escolhas e as alianças costuradas a favor do deus mercado. Com Aécio não seria diferente, já que o seu partido é a personificação de um projeto de política que possui um rio que se sabe onde desemboca: no mar do conservadorismo e do atraso. Como diz Alysson Leandro Mascaro em Estado e forma política, sob o capitalismo, até mesmo o estado tornou-se uma mercadoria para a burguesia. Ou seja, o estado se tornou uma força que age a favor do lucro e dos interesses do capital. Uma prova disso, como se pode atestar, é o lucro absurdo do Banco Itáu. Em um tempo de arrocho e suposta crise, como se pode explicar uma entidade financeira que lucra 20 bilhões de reais em um ano, sendo que o recorde se consuma ano a ano?

Mas, por que escrevi essas linhas? Ontem olhava de forma descompromissada algumas coisas no Facebook. Percebi que o Milton Ribeiro havia curtido determinado comentário. Quando o li, percebi que ali estava uma das declarações mais felizes que li nos últimos meses. Fez-me lembrar o livrinho que tenho aqui em casa de Schopenhauer, em que ele fala sobre o perigo dos textos ou de leituras mal feitas. No caso em questão, o grande perigo é a leitura de opiniões de colunistas que escrevem claramente aquilo que o chefe manda e depois apregoam os termos carunchados imparcialidade e independência, como se isso fosse possível, quando interesses de classe estão postos. Não conheço o dono do comentário, mas penso que "papagaios de plantão" antes de proferirem o baboso "Fora Dilma", deveriam ler algum livro de ciência política; ao invés de ouvir o Bonner, deveriam ler os iluministas (Hobbes, Locke, Rousseau, Montesquieu etc), que são responsáveis pela elaboração da concepção de estado moderno; ao invés de fixarem atenção naquilo que os colunistas (animais amestrados das redações) falam a mando do patrão, deveriam ler algum livro de história para entender a complexidade que é o Brasil e quais foram os interesses que o formaram.

Segue o texto:



O objetivo de se estudar e ler muito (num primeiro momento descartem os jornais e partam para os livros) não deve ser o de querer mudar o mundo, mas o de mudar a si mesmo, de se proporcionar a possibilidade de olhar em volta com olhar crítico, analisando as situações e os fatos de forma coerente, racional. A leitura (filosofia, história, antropologia, sociologia, literatura) te dá a capacidade de entender as nuances, os jogos, as distorções, a má intenção por trás do que é escrito em notícias e principalmente do que é dito por comentaristas. Ler jornal não torna ninguém inteligente. Dizem (não sei se é verdade) que certa feita Luis Fernando Veríssimo afirmou que em certos dias a única coisa verdadeira em um jornal é a data. Há alguns anos eu lia muito jornal. Hoje leio bem menos, e o aumento diário de dedicação aos livros melhorou a qualidade da minha leitura de jornais - quando os leio. A notícia é para informar. Opinião cada um deve ter a sua. Acontece que a grande maioria não distingue uma da outra, principalmente quando uma se disfarça de outra. E está cheio de gente aí que não tem opinião própria (acha que tem mas não tem), apenas replicam o que ouvem do marido, da esposa, do companheiro, da companheira, do pai, da mãe, do tio, do jornal, da TV etc. Tá cheio de gente opinando sobre política, sobre a economia do país, sobre corrupção, sem sequer pegarem em um livro. Sua inteligência e conhecimento resumem-se em adjetivar de vaca a mandatária do país. Apenas repetem feito papagaios (maritacas, caturritas) o que ouvem dos outros. Façam uma tabela com horário diário de trabalho e muita leitura, e só depois de se dedicarem DIARIAMENTE à leitura, aos estudos, por pelo menos uns quatro anos, poderão então opinar sobre algum assunto sem correrem o risco do ridículo. E olhem lá, tempo de estudo nem sempre é atestado de inteligência...             

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

A literatura é um denominador comum da experiência humana, por Mario Vargas Llosa

Baita texto! Sintetiza a finalidade e a dignidade da literatura como construtora que exatifica a experiência humana. 

Em feiras de livros ou mesmo livrarias, frequentemente alguém se aproxima pedindo-me autógrafo. “É para minha mulher, filha ou mãe”, explica. “Ela adora ler!” De pronto pergunto: “E o senhor? Não gosta de ler?” E a resposta é quase sempre a mesma: “Gosto, mas sou muito ocupado.”

Já ouvi essa explicação dezenas de vezes. Esse homem – e milhares outros como ele – tem tantos afazeres importantes, tantas obrigações e responsabilidades, que não pode perder seu precioso tempo mergulhado num romance.

Segundo esse raciocínio, a literatura seria uma atividade dispensável, uma diversão que somente pessoas com muito tempo livre poderiam se permitir.

Gostaria de apresentar alguns argumentos contra a ideia da literatura como passatempo e em prol de considerá-la, além de uma das ocupações mais estimulantes e enriquecedoras do espírito humano, uma atividade insubstituível para a formação de cidadãos na sociedade moderna e democrática. Por essa razão, ela deveria ser semeada nas famílias desde a infância e fazer parte de todos os programas educacionais.

Vivemos numa era de especialização em virtude do extraordinário desenvolvimento da ciência e da tecnologia, e da conseqüente fragmentação do conhecimento em incontáveis avenidas e compartimentos.
A especialização traz benefícios. Possibilita pesquisa e experimentos, e é a força motriz do progresso. Mas também destrói os denominadores comuns culturais que permitem a coexistência, a comunicação e a solidariedade. E leva à separação dos seres humanos em guetos culturais de especialistas, confinados – pela linguagem, por códigos de conduta e pelo conhecimento particularizado – a uma especificidade contra a qual um antigo provérbio já nos advertia: não se concentre tanto na folha, a ponto de esquecer que ela é parte da árvore e esta, da floresta.

Em grande medida, a noção da existência dessa floresta depende do senso de conjunto que une a sociedade e não a deixa se desintegrar numa centena de especificidades. A ciência e a tecnologia, portanto, já não podem desempenhar esse papel unificador da cultura.

A literatura, por sua vez, foi e, enquanto existir, continuará sendo um denominador comum da experiência humana. Aqueles de nós que leram Cervantes, Shakespeare, Dante ou Tolstoi entendem uns aos outros e se sentem indivíduos da mesma espécie porque, nas obras desses escritores, aprenderam o que partilhamos com seres humanos, independentemente de posição social, geografia, situação financeira e período histórico.
Nada nos protege melhor da estupidez do preconceito, do racismo, da xenofobia, do sectarismo religioso ou político e do nacionalismo excludente do que esta verdade que sempre surge na grande literatura: todos são essencialmente iguais. Nada nos ensina melhor do que os bons romances a ver nas diferenças étnicas e culturais a riqueza do legado humano e a estimá-las como manifestação da multifacetada criatividade humana.

Ler boa literatura é ainda aprender o que e como somos – em toda a nossa humanidade, com nossas ações, nossos sonhos e nossos fantasmas -, tanto no espaço público como na privacidade de nossa consciência. Esse conhecimento se encontra apenas na literatura. Nem mesmo os outros ramos das ciências humanas – a filosofia, a história ou as artes – conseguiram preservar essa visão integradora e um discurso acessível ao leigo, pois também eles sucumbiram ao domínio da especialização.

O elo fraternal que a literatura estabelece entre os seres humanos transcende todas as barreiras temporais. A sensação de ser parte da experiência coletiva através do tempo e do espaço é a maior conquista da cultura, e nada contribui mais para renová-la a cada geração do que a literatura.

O que a literatura deu à humanidade, então?

Um de seus primeiros efeitos benéficos ocorre no plano da linguagem. Uma sociedade sem literatura escrita se exprime com menos precisão, riqueza de nuances, clareza, correção e profundidade do que a que cultivou os textos literários.

Uma humanidade sem romances seria muito parecida com uma comunidade de gagos e afásicos. Isso também vale para o indivíduo. As pessoas que nunca lê, lê pouco ou lê apenas lixo pode falar muito, mas vai sem dizer pouco, porque dispõe de um repertório mínimo de palavras para se expressar.

Não se trata de uma limitação somente verbal, mas também intelectual, uma indigência de idéias e conhecimento, porque os conceitos pelos quais assimilamos a realidade não são dissociados das palavras que nossa consciência usa para reconhecê-los e defini-los.

Nenhuma disciplina substitui a literatura na formação da linguagem. O conhecimento transmitido por manuais técnicos e tratados científicos é fundamental, mas eles não nos ensinam a nos exprimir corretamente. Ao contrário, com freqüência são mal escritos porque os autores, às vezes expoentes indiscutíveis em sua profissão, não sabem transmitir seus tesouros conceituais.

Outro motivo para se conferir à literatura um lugar de destaque na vida das nações é que, sem ela, a mente crítica – verdadeiro motor das mudanças históricas e melhor escudo da liberdade – sofreria uma perda irreparável. Porque toda boa literatura é um questionamento radical do mundo em que vivemos. Qualquer texto literário de valor transpira uma atitude rebelde, insubmissa, provocadora e inconformista.

A literatura apazígua essa insatisfação existencial apenas por um momento, mas nesse instante milagroso, nessa suspensão temporária da vida, somos diferentes: mais ricos, mais felizes, mais intensos, mais complexos e mais lúcidos. A literatura nos permite viver num mundo onde as regras inflexíveis da vida real podem ser quebradas, onde nos libertamos do cárcere do tempo e do espaço, onde podemos cometer excessos sem castigo e desfrutar de uma soberania sem limites. Como não nos sentirmos enganados depois de ler “Guerra e Paz” ou “Em Busca do Tempo Perdido” e voltar a este mundo de detalhes insignificantes, obstáculos, limitações, barreiras e proibições que nos espreitam de todo canto e em cada esquina corrompem nossas ilusões?
Nada nos protege melhor da estupidez do preconceito, do racismo, da xenofobia, do sectarismo religioso ou político e do nacionalismo excludente do que esta verdade que sempre surge na grande literatura: todos são essencialmente iguais.
Quer dizer, a vida imaginada dos romances é melhor: mais bonita e diversa, mais compreensível e perfeita. Talvez seja esta a maior contribuição da literatura ao progresso: lembrar que o mundo é malfeito, e que poderia ser melhor, mais parecido com o que a imaginação é capaz de criar.

A sociedade livre e democrática requer cidadãos responsáveis, críticos, independentes, difíceis de manipular, em constante efervescência espiritual e cientes da necessidade de examinar continuamente o mundo em que vivemos, para tentar aproximá-lo do mundo em que gostaríamos de viver.

Sem insatisfação e rebeldia, ainda viveríamos em estado primitivo, a história teria parado, o indivíduo não teria nascido, a ciência não teria alçado vôo, os direitos humanos não teriam sido reconhecidos e a liberdade não existiria. Tudo isso nasce dos atos de desafio a uma vida que se mostra insuficiente ou intolerável. Para esse espírito que despreza a vida como ela é – e, com a insensatez de Dom Quixote, tenta tornar o sonho realidade -, a literatura serve de magnífica espora. A verdade é que o desenvolvimento da mídia audiovisual – que ao mesmo tempo que revoluciona as comunicações monopoliza cada vez mais o tempo que dedicamos ao lazer, relegando a leitura a segundo plano – permite-nos imaginar para um futuro próximo uma sociedade moderníssima, repleta de computadores, telas e microfones, mas sem livros.

Temo que esse mundo cibernético seja profundamente incivilizado, sem espírito, apático – uma resignada humanidade de robôs.

Evidentemente , é muito improvável que essa terrível perspectiva venha algum dia a se concretizar. Não existe um destino que decida por nós o que vamos ser. Depende de nosso discernimento e de nossa vontade que essa utopia macabra se realize ou se apague.

Se queremos evitar o desaparecimento dos romances – ou sua restrição ao sótão dos objetos inúteis – e com isso o desaparecimento da própria fonte que estimula a imaginação e a insatisfação, que refina nossa sensibilidade e nos ensina a falar com eloquência e precisão, que nos torna livres e nos garante uma vida mais rica e intensa, então devemos agir. Precisamos ler bons livros e incitar à leitura os que vêm depois de nós.

quarta-feira, fevereiro 11, 2015

Teilhard de Chardin, o compositor da sinfonia universal

Teilhard de Chardin (1881-1955)
Na última segunda-feira terminei a leitura de Sinfonia Universal, de Frei Betto. O livro se propõe a fazer uma apresentação bastante instigante, apaixonada e poética da visão do padre humanista Teilhard de Chardin. Trata-se de um livro pequeno - de pouco mais de cem páginas. Frei Betto foi um dos primeiros sujeitos, ainda na década de sessenta, a introduzir o pensamento do jesuíta em terras brasileiras. Chardin buscou conciliar teologia e ciência, algo que aparentemente não se integram - como água e óleo. O resultado foi o estranhamento dos seus colegas cientistas e a imposição do silêncio pela Igreja.

O livro está separando por dois momentos: (1) aquele que busca apresentar a problemática em torno da existência do homem diante dos mistérios infinitos do cosmos. Para isso, Frei Betto dialoga com Stephen Hawking. Por causa da imensidão cósmica, aliada a uma dinâmica estritamente racional, construiu-se uma separação entre o homem e a natureza. O mundo passou a ser interpretado como uma máquina. A razão durante muito tempo foi vista como a rede capaz de apreender todos os voos da realidade. Todavia, tal pensamento levou o homem a uma condição inferior diante dos eventos universais. (2) logo em seguida, Betto nos faz uma explanação das ideias do pensador francês, que buscou levar à frente um projeto que tem por compreensão conectar todas as realidades criadas e mostrar lugar do homem como o refinamento evolutivo da matéria. 

Teilhard de Chardin durante muito tempo foi mal visto pelas autoridades eclesiásticas da Igreja que viam em seu pensamento ranços extremos de panteísmo. Tal fato, estava ligado ao fato de que Chardin havia embebido o seu pensamento de esquemas da filosofia oriental. Ele havia passado uma temporada na China e aquilo acabou mudando as suas concepções. O autor de O fenômeno humano, desde muito jovem se enveredou pelos caminhos científicos. Estudou fósseis. Fez pesquisa de campo. Aproximou-se do pensamento evolutivo. Construiu um pensamento que afirmava que entre um protozoário e uma montanha; ou entre uma flor ou uma estrela existe uma força convergente, um halo invisível que liga tudo o que existe. 

O personagem principal dessa dança cósmica seria o homem. Para ele o homem é a matéria que ganhou consciência. É o silêncio cósmico que se tornou música. É o não movimento que se tornou movimento. Chardin, desse modo, entende que todos os ciclos e processos possuem uma razão de ser. Não existe desperdício cósmico. Tudo converge. Nada se perde. Tudo se transforma. Tudo faz parte de um sistema invísível. 

Seu pensamento se estrutura da seguinte forma: a história da vida e da matéria está assentada em três etapas ou grandes momentos: (1) a cosmogênese, que tem início com com a criação da matéria até o aparecimento da vida; (2) biogênese, que vai até o aparecimento do homem; (3) antropogênese, que é o aparecimento do homem como momento máximo dos processos evolutivos; tal fase se completa de forma plena com a vinda de Cristo à terra (cristogênese), que dá início a unidade de todas as coisas com Cristo. Essa elevação ou espiritualização, que funciona como um refinamento da condição humana, leva à etapa conhecida como noosfera.

O que é bonito em Teilhard de Chardin é a sua preocupação em construir uma missa para o mundo; uma sinfonia poética para o universo; dignificá-lo. Tudo o que existe é sagrado. Nada é inútil. A vida é sagrada e está ligada a cada som, cada átomo, cada grito de esperança ou desesperança; tudo é a transparência de uma energia que é espiritual. Carl Sagan costumava dizer que o homem é a consciência do universo. É a sua voz. Penso que se Teilhard o tivesse conhecido ficaria feliz com esse pensamento.

quinta-feira, fevereiro 05, 2015

"Surpreendido pela Alegria", de C.S. Lewis. Observações da terceira leitura


"O universo se mostra fiel sempre que você o testa com justiça" C.S. Lewis

Foi uma experiência singular voltar a ler esse livro. Fi-lo como alguém que deixa a sua terra e volta a visitá-la depois de muitos anos. Ele olha as paisagens tão comuns e esquecidas e procura encontrar ali os fiapos das experiências pretéritas. E, após muito andar sem compromisso, analisando a paisagem despretensiosamente, abre os lábios, deixando escapar um sorriso saudoso e tímido de complacência por aquilo de bom que viveu. Durante muito tempo o procurei. Havia em mim uma disposição sôfrega para encontrá-lo. Li-o pela primeira vez em 2002 ou 2003. Naquela ocasião, fiz a leitura por duas vezes seguidas, dada era a minha paixão. A primeira leitura havia gerado uma impressão doce, habitada por disposições hedônicas. O livro me mostrara um mundo em que a promessa, após a caminhada pelas trilhas indeléveis da literatura, seria a ventura do bom sentir, do bom enxergar. Li-o novamente no mesmo ano. Penso que a diferença entre uma leitura e outra tenha sido de um mês, buscando sentir os mesmos efeitos produzidos na primeira leitura. 

Saí do seminário em 2005. Mas a lembrança da prosa lewiseana ficou em minha mente. O livro editado pela Editora Mundo Cristão rapidamente se esgotara. A primeira e única edição (parece-me) saiu em 1998. Há alguns meses atrás consegui achá-lo em PDF e grande foi o meu entusiasmo. Não hesitei em lê-lo. Consegui ler as suas mais de duzentas páginas na tela do computador em pouco mais de quinze dias. 

O que existe de tão elementar, de tão relevante neste livro? Não é necessariamente a importância o mote obra, pois trata-se de um relato de conversão ao cristianismo por parte de C.S. Lewis - embora, haja a informação de que foi um dos relatos autobiográficos mais lidos do século XX. A grandeza do livro, ao meu modo de ver, está na prosa lewiseana, ou seja, no modo leve e elegante com que a história é contada.
Lewis narra a história da sua vida, desde os dias mais tenros da infância na Irlanda, até o momento em que, já adulto, converte-se à fé cristã. Essa experiência acontece quando Lewis já era o grande catedrático de Oxford. Apesar de esse ser o grande momento do livro para o qual todos os pontos referenciais direcionem, penso que o que me fisga nesse livro é a narração do grande amor de C.S. Lewis pelos livros. Recordo-me que quando li Surpreendido pela Alegria pela primeira vez, a obra me chamou a atenção para duas coisas: a leitura e a música. Lewis cresceu em meio aos livros e, mais tarde, na adolescência, o autor de As crônicas de Nárnia, encontrou o caminho da mitologia; a segunda questão foi a descrição da paixão que ele sentia pela música de Richard Wagner. No livro, ele não explica o porquê de sua paixão pela música wagneriana, mas penso que esteja ligado ao fato de que o compositor utiliza em suas óperas os temas mitológicos os quais Lewis tanto amava.

Ao ler uma afirmação como esta "Nas tardes de sábado, no inverno, quando o nariz e os dedos podem ficar gelados o bastante para garantir um sabor a mais ao antegozo do chá e da lareira, tendo ainda à frente toda a leitura do final de semana, acho que eu alcançava tanta felicidade quanto se pode alcançar nesta terra. Especialmente se houvesse algum livro novo e longamente cobiçado à minha espera" (p. 153), sentia-me visitado por uma inominável felicidade. Eu não descobri a música wagneriana. Foi por essa época, por sua vez, que encontrei a música de Beethoven. Ficava enfeitiçado cada vez que escutava "A Pastoral" do compositor alemão. Aprendi os lances contemplativos. Acredito que essa diposição já morava em mim, todavia, ao ler o livro de Lewis e conhecer a "Pastoral", passei a entender que na natureza moram poemas não escritos e mistérios não revelados. A natureza é um dos grandes elementos presentes no livro - por exemplo, quando Lewis passa longas horas caminhando pelas cercanias; a descrição do mar entre a Inglaterra e a Irlanda; a preocupação que Lewis tem em nos relevar como eram os campos e as montanhas e seu séquito multifacetado de árvores e arbustos variados.

O livro está repleto pelo recato e pelo humor inglês. Lewis, um sujeito que passou boa parte da sua vida sozinho, olha para trás e analisa com bastante leveza e um toque fino de ironia os momentos agradáveis e difíceis de sua vida. Embora gaste dois capítulos para mostrar ao leitor o labirinto filosófico em que havia se metido até ser convencido de que o deus do cristianismo era a grande Alegria que ele passara a vida inteira procurando, penso que o momento mais bonito é aquele em que o escritor narra a sua amizade com Arthur, o que acabou ensinando a Lewis a capacidade de prestar atenção às coisas simples. Um intelectual não precisa ser necessariamente complexo ou hermético para ser respeitado ou reconhecido pela sua erudição. Precisa antes de tudo ser singelo e perceber a complexidade do mundo nas pequenas coisas que o cerca. Transformar essas paisagens invisíveis em um belo quadro para que todos vejam. É, por meio dessa confissão, que Lewis admite ter lido "os Brontës", todos "Janes Austens" etc. 

Outro importante afirmação é a amizade que Lewis desenvolveu com J.R.R. Tolkien. Pelas palavras utilizadas por Lewis, Tolkien parece ter sido um sujeito bastante risonho e tranquilo. Vale mencionar ainda o respeito de Lewis à prosa de G.K. Chesterton. Inclusive, vale mencionar que Chesterton contribuiu de forma significativa para que Lewis se rendesse à fé cristã. 

Foi curioso ter lido esse livro pela terceira vez. Analisando-o, como disse no início, acredito que ele tenha sido fundamental para a solidificação dessa porção romântica do meu ser. É justamente isso que visualizo quando leio essa obra. E, novamente, um riso frouxo derrama-se pelos meus lábios... Seria a alegria que surge quando testamos o universo com justiça? E novamente Lewis me ensina que é possível encontrar a alegria, mesmo em mundo em que os homens estão afeitos ao caos e à selvageria. Existe no cosmos um potencial de felicidade.

sábado, janeiro 24, 2015

As duas éticas e o evangelho

As parcas leituras da bíblia que realizei, levaram-me a entender que existe uma ética da contradição nas sentenças evangélicas. A bíblia é um livro dos livros. Quando afirmo isso quero dizer que lá dentro encontram-se uma quantidade grandiosa de discursos. Quem pretender lê-la, precisa estar sensível a isso. Há o discurso raivoso de um Javé melindroso no Antigo Testamento. Alguém que mata idosos, crianças, mulheres. Que culpa o rei Saul por ter poupado uma nação inimiga inteira, quando deveria ter dizimado todos os seus integrantes.

É o deus bélico. Que extermina povos inteiros para promover Israel. Muito cômodo para Israel que conta a sua história de protegido. Há o discurso da justiça social dos profetas menores.  A poesia que busca inspiração na natureza de alguns dos salmos. No chamado novo testamento, encontramos o discurso ressentido de Paulo. Alguém que, criativamente, sistematizou um código dogmático e que acabou criando o que conhecemos como doutrina da igreja cristã. Termos como predestinação, eleição, justificação, velho homem, novo homem, velho Adão, novo Adão, não são encontrados nos quatro relatos biográficos da vida de Jesus, conhecidos como evangelhos. Nesse sentido, é possível é distinguir uma mensagem paulina e uma mensagem cristocêntrica nessa teia complexa de discursos.

E acredito que o coração da mensagem cristã esteja justamente nessa pequena porção da bíblia. É como se ali estivesse o coração do sistema. O seu núcleo vital. Dali emanam a energia, a luz que irradia sobre a vida. Percebo que Mateus, Marcos, Lucas e João, os chamados biógrafos oficiais, reconhecidos pela igreja (outros escreveram também sobre Jesus), conseguiram captar ou construir um discurso de uma ética que é mais fina, mais nobre, do que aquela construída por Paulo e seguida pela igreja. Por isso, vislumbro dois horizontes distintos quando leio os evangelhos e enxergo aquilo que é praticado: 

(1) Cristo levou à frente um tipo de projeto que fazia com que os sujeitos saíssem de uma ética privativa, para uma ética coletiva. Para Jesus, o seu reino só faz sentido se levar a transformação do outro e do mundo como causa fundamental. Jesus pregou a misericórdia e disse que pobres são todos aqueles que se reconhecem como necessitados de uma mudança existencial, de uma guinada que passará a ser dirigida pelo amor, solidariedade. A moral predatória, porque desvinculada de um projeto de inclusão e solidariedade, não faz parte do seu reino. É do reino aquele que, na aceitação da diferença, vive isso como verdade incondicional. Como diz Jürgen Moltmann Cristo não é apenas o articulador de uma mensagem, mas o criador de um caminho. Esse caminho se alegra com toda causa que espalhe a justiça, que inclua o necessitado, que permita ao outro uma compreensão da sua condição e o faça buscar o bem-estar para todos os homens.

(2) Por outro lado, existe uma ética privatista, seguidora dos valores culturais do momento, como se esses fossem a exata medida daquilo que é ensinado. Seguidora daquilo que é articulado pelo sacerdote, que em muitos casos é mais ignorante, do que muitos fiéis (Mateus 23). Trata-se, no fundo, primeiro de uma compreensão que leva em conta uma tônica baseada em regra marcial de mercado: conquistar, crescer, avançar, bater no peito e alardear a sua própria justiça arrogante (Lucas 18.9-14). Ou seja, cresço à medida que conquisto, não levando em conta que o crescimento propugnado pelo evangelho se dá de dentro para fora. A água que revela que o chafariz funciona não brota de fora para dentro, mas de dentro para fora (João 7.38). Nietzsche diz que a existência do sacerdote é legitimada pela conivência do fiel; aquele possui um discurso reativo, negativo, em relação a este. Este aceita a autoridade daquele e chancela a sua autoridade.

Portanto, não acredito em um evangelho como visto por aí: de cara séria, sisudo, falso, perdulário, ufanista, irresponsavelmente despreocupado com a humildade, com o silêncio, com a reflexão sobre o mundo (não para julgar e se afastar), que não vive aquela fala de Jesus: "o que a tua mão direita faz, não conte à esquerda"; preocupado com o exterior do copo e não com o seu interior; um evangelho que segue uma ética mercantilista e que mesmo quando diz ser puro, está escondido nos recônditos de um discurso chauvinista e que não se transforma em vida.

Lendo uma entrevista do Papa Franscisco, cristalizei ainda mais essas certezas. Francisco tem sido perseguido pelo fundamentalistas conservadores por pregar, justamente, a ética coletiva que é tão evidente na mensagem de Jesus. O evangelho quer queira quer não queira faz uma opção pelos pobres. Tiago, o irmão de Jesus, em sua sede justiça, diz em sua carta (Tg 5.1-6) que os pobres foram injustiçados pelos ricos, que se aproveitaram de sua não resistência e lançaram aqueles na miséria.

Wolfgang Schrage, corroborando com o que diz Tiago em outro capítulo, diz que "fé e ação estão indissoluvelmente unidas" no cerne da mensagem evangélica. Por isso, perdi completamente a paciência com o discurso ufanista e conservador de determinados sujeitos, que levantam a bandeira de uma ética que não é o coração da mensagem evangélica; uma ética hipócrita e seletiva. Nesse sentido, quando alguém diz ser cristão analiso qual ética está inscrita em seu discurso: se privatista ou coletiva.

quarta-feira, janeiro 21, 2015

O cinema em dezembro - 2014

 O ano de 2014 é um dado da história. Já passou. Ficou na curva do tempo. E como me prontifiquei a escrever uma crônica bamba sobre os filmes a que assisto em cada mês, infelizmente, não pude fazê-lo mês passado. Estabelecendo um balanço sobre todos os filmes vistos ano passado, o total chega a noventa e dois. Um número considerável. Não possuo números factíveis na superfície da memória. Mas, certamente, foi o ano o qual mais filmes eu vi. Passei a entender a relevância do cinema. Um bom filme nos faz ficar por dias com a sua temática presa em nossa cabeça. O poder da fotografia; a posição da câmara; a atuação dos atores; a genealidade dos bons diretores, que são capazes de transportar o espectador ao mundo imagético das telas, tudo isso gera fascínio e nos prende por horas no sofá.

Se no ano de 2014 eu vi mais filmes, no mês de dezembro eu tentei me disciplinar para ver o que pude. Vi um total de quinze filmes. Entremeei aquilo que vi com obras sérias e outras não muito sérias. Não estou com disposição para fazer resumos de cada um dos filmes. Contarei sucintamente o que de mais relevante ficou preso na teia das ideias. Começarei por aquilo que julguei "obra não sérias". Diria sem assombros que a terceira parte de O Hobbit - a batalha dos cinco exércitos me pareceu uma grande porcaria. Gosto do mundo mágico de Tolkien. Celebro sua capacidade criativa. Peter Jackson, um apaixonado pelo escritor, teve a ventura de filmar o Senhor dos Anéis e obteve um astronômico sucesso. Dirigiu-se para o O Hobbit, uma espécie de pré-história da Terra Média, e conseguiu criar um "ramerrão cinematográfico". Os dois primeiros foram até suportáveis, mas o terceiro, como diz um tio da minha esposa, ficou um verdadeiro "filme espada - longo e chato". Passei quase três horas entediado no cinema. Os adolescentes gritando em polvorosa. Batalhas insossas senso perpetradas na tela. E a certeza de que aquilo já não encanta. 

Outro filme que julgo "não sério" - e que já perdi a quantidade de vezes que já vi - foi Um príncipe em Nova York (1988), que possui toda aquela atmosfera risível dos anos 80. O filme em si não possui nada de notável. Todavia, proporciona momentos de alegria estrepitosa. O musical Chicago (2002), coloco-o entre as obras menores. Mas ele possui um background que nos transporta para a cidade de mesmo nome, celeiro do jazz, dos cassinos, dos prostíbulos, da máfia e dos sujeitos oportunistas à procura de sucesso. Não vejo muitos musicais (a não ser Jesus Cristo Superstar (1972), de Norman Jewison).

Maria Antonieta (2006) é outro filme que é um atentado à história. A diretora Sofia Coppola foi convincente com a fotografia e esqueceu de afinar os eventos dos filme aos fatos históricos. 

Resolvi voltar a ver Star Wars, filme que destila em mim aquela paixão nerd de adolescência e que me impele a repetir as falas, prever os lances, utilizar toda a feitiçaria jedi no dia a dia. Star Wars sempre me fascinou por criar um amálgama de tecnologia e tradições milenares orientais com virtudes medievais. O filme faz-nos refletir sobre o uso da moral, o conhecimento de si e os limites estabelecidos pela disciplina e o desejo de poder, que é capaz de conduzir ao "lado sombrio". Ou seja, a dimensão insaciável do poder pelo poder. Vi os três primeiros filmes - Uma nova esperança (1977), O império contra ataca (1980) e O retorno de Jedi (1984). Pretendo ver os outros três o mais rápido possível.

E a partir daqui, entramos em uma seara em que as obras vão ganhando uma maior substãncia - ou pelo menos uma feição mais underground. Nesse sentido, busquei revisitar dois filmes brasileiros: o excelente Tapete Vermelho (2005) e o visceral Amarelo Manga (2002). O primeiro é uma celebração à figura do caipira e àquele que o imortalizou no cinema - Amácio Mazzaropi. Matheus Nachtergaele consegue uma das suas melhores atuações. É uma aula de brasilidade. Uma celebração ao universo caipira - a religiosidade, a todo o espectro linguístico, à simplicidade, às lutas, à inocência etc. O segundo filme é de tirar o folêgo. Amarelo manga é, ao meu modo de ver, um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Como nos outros filmes de Cláudio Assis, há crueza, sexo, sangue; o cheiro do homem da periferia; do mangue; da linguagem saída das locas da alma, chegando ao mundo para estabelecer ou dirimir os conflito primitivo dos costumes azedos, escusos ou socialmente desbragados.

Outros três filmes que vi e que me chamaram a atenção foram Choros e Sussurros (1972), de Ingmar Bergman, que possui uma atmosfera de beleza enfermiça. Fotografia bela - talvez, uma das mais bonitas da cinematografia do século passado. Personagens acometidas pelo infortúnio. Atuações assustadoramente perfeitas. Jhonny e June (2005), uma cinebiografia, que busca retratar a carreira de artista folk de Jhonny Cash. O diretor James Mangold retrata com muita felicidade as vicissitudes desse que foi um dos maiores artistas americanos. Joaquim Phoenix atua muito bem nesse filme. Leva-me a lembrar de Os contos proibidos do Marquês de Sade (2000), filme que mostra outra atuação fantástica desse grande ator. Interestelar (2014) foi outro filme que me deixou pensando por dias. Que me levou a reler capítulos inteiros de O fim da terra e do céu, de Marcelo Gleiser. O diretor Christopher Nolan certamente consultou um corpo de cientistas ou professores competentes para escrever a obra. O labirintos criados por Nolan, como em Amnésia (2000) estão presentes mais uma vez. Tiremos toda aquela atmosfera hollywoodiana do filme e fiquemos com debate científico. Tudo o que de mais moderno tem sido debatido em matéria de ciência, Nolan busca retratar como, por exemplo, a viagem no tempo, os multiversos, a teoria das cordas, a complexidade da física quântica etc. E, talvez, a principal mensagem seja a problemática sobre a possibilidade da exaustão do planeta terra e, por conta disso, a necessidade de encontrar um outro lugar para a espécie humana. Eu com minha veia fortemente schopenhaueriana rechaço tal expectativa.

Vi ainda outros filmes como o excelente Biutiful (2010) com a boa atuação de Javier Barden. O diretor Alejandro Gonzalez Iñarritu acertou novamente. Embora, pense que seu melhor filme seja Amores Brutos (2000). Sétimo (2013), que traz o incansável Ricardon Darín é mais um bom filme argentino. Ele não possui nada de extraordinário. É um suspense, vestido por um drama. Todavia, Darín consegue tornar a coisa intrigante e dá liga até o final. Factotum (2005) é baseado no livro homônimo de Charles Bukowski. O filme cheira a banheiro sujo de rodoviária. É visceral. Derrotista. Revela a ausência de fixações geográficas, de vontades plenas, de organização vital da personagem principal. É uma mostra da geração beat a qual o próprio Bukowski esteve ligado. Ficaram ainda o iraniano Um instante de inocência (1996), de Mohsen Makhmalbaf e Histórias Proibidas (2001), do excelente diretor Todd Solondz, capaz de revelar como ninguém as misérias e contradições da sociedade americana.

terça-feira, janeiro 20, 2015

Os novos moradores


A Livraria 30porcento é uma delícia viciante. Enquanto curtia minhas férias no Nordeste (estava em Porto de Galinhas), entrei lá para ver os lançamentos e acabei vitimado pelo fetiche da mercadoria. Restou-me aquela sensação prazerosa de atordoamento, de contemplação espantada, de desejo premente de adquirir algumas maravilhas ali encontradas. Comprei. Hoje à tarde, enquanto tentava me alimentar com as ideias de Telhard de Chardin - e o livro sensacional de Leonardo Padura (O homm que amava cachorros) no meio da tarde quente - absurdamente quente -. o porteiro do prédio me interfonou avisando sobre uma caixa que chegara. Intuí o que era. Desci esfuziante. A beleza do David Copperfield é de provocar espanto. Sem falar na bela capa da Editora 34 para a edição do livro de contos Homens Interessantes, dos escritor russo Nikolai Leskov. Há ainda o desafiante Os limites do capital (Editora Boitempo), de David Harvey, uma literatura difícil, mas que provoca apetites. Somados aos outros inúmeros moradores já existentes nos cômodos de minhas estantes, mais do que tempo para ler, é necessário bastante disciplina para ficar com eles; para berber os conteúdos de cada um deles. 

sábado, janeiro 03, 2015

Sobre o Deus que precisamos para atravessarmos o milênio


Excelente reflexão.

Por Rita Almeida

Daqui

O interesse que hoje tenho por Deus é mais filosófico do que religioso. Sendo assim, entendo que o conceito que se tem de Deus não é unívoco, ele vem se modificando de acordo com o tempo e as diversas culturas e sociedades. É como se cada tempo e cada sociedade tivesse o Deus (ou os deuses) que precisasse ou desejasse.

Se tomarmos o cristianismo, por exemplo, o Deus do Antigo Testamento era uma espécie de grande líder tirano e cruel, que vigiava e castigava seu povo sempre que lhe conviesse. Suas normas e regras eram rígidas e, muitas vezes, sem qualquer sentido ético, moral ou prático. O único sentido parecia ser deixar bem claro quem era o Todo Poderoso.

Já o Deus do Novo Testamento é um Deus que desceu do seu pedestal e da sua arrogância para se tornar um meio-irmão, um semelhante, que mesmo depois de morto promete ficar entre nós. Esta é exatamente a mensagem final de Jesus na Última Ceia, horas antes de ser crucificado e morto. Mas em algum momento, o Deus do cristianismo que prometeu estar entre nós passou cada vez mais a estar dentro, “habitar o coração do homem”.

Sabemos que o Deus do protestantismo, que nasce no século XV, serviu muito bem à disseminação e ao desenvolvimento do capitalismo. Ao que parece, a noção de um Deus que está dentro de cada um, tem servido muito bem à sociedade capitalista-ocidental em sua versão cada vez mais individualista e narcisista. E o Deus que produzimos neste caldeirão me parece assustador. É uma espécie de Deus-portátil, Deus-de-bolso ou um Deus-I fone; aquele que possui todos os aplicativos, conexões, contatos e arquivos que eu preciso para ser feliz.

O Deus que encontramos na sociedade capitalista-narcisista atual é um Deus que serve cada vez mais para resolver os meus problemas individuais, mesmo os mais egoístas. É um Deus capaz de atender a um pedido meu, mesmo que isso implique em sabotar o pedido de outrem. O Deus do narcisismo me permite agradecer pelo sucesso num concurso, numa seleção de trabalho ou a conquista de uma vaga na faculdade, sem questionar o fato de que isso aconteceu apenas porque alguém foi preterido. Somente o Deus do narcisismo me permite colocar aquele tradicional adesivo no carro: “Foi Deus que me deu”, mesmo quando o digno presente é mais um a poluir o ambiente já a beira do completo caos. O Deus do narcisismo é capaz de me fazer vencedor numa disputa, ainda que do outro lado esteja alguém que fracassou, como se o meu Deus fosse melhor ou mais poderoso que o dele.

Mas que tipo de Deus é este que tolera um pedido de salvação, cuidado ou proteção para apenas eu ou meus familiares e amigos mais próximos? Que tipo de Deus me permite agradecer por ter escapado viva de um acidente em que muitos outros se tornaram vítimas fatais? Que tipo de Deus me autoriza fazer um pedido de mesa farta nas festas de fim de ano, quando a miséria e a fome devasta milhões mundo afora?

O conceito de Deus que vemos hoje é tão narcisista que até quando um desejo meu não é atendido, a explicação é: “porque Deus sabe o que é melhor para mim”.

Enfim, lamentavelmente, o Deus que nos resta atualmente é aquele que atende aos apelos do Eu, o Deus- I fone. É o Deus que promete a tão sonhada felicidade individual. Um Deus que nos demanda louvores, adoração e glorificação, além de uma prova de sua devoção e fé por meio de doação financeira. Somente um Deus narcisista e egocêntrico precisaria deste tipo de devoção ou reconhecimento.

“Meu Deus!” Aí está a exclamação que usamos em nossas orações ou sempre quando o desespero bate e tudo parece perdido. Entretanto, o Deus do indivíduo não será capaz de cumprir sua missão de nos salvar, especialmente porque nosso tempo precisa urgentemente se livrar do individualismo.

No cristianismo é preciso se livrar do Deus que se ocupa das nossas misérias egoístas e individuais e resgatar o “Pai Nosso”, aquele capaz de nos ajudar a reparar as nossas mazelas coletivas. Não aquelas que estão dentro de nós, mas as que estão entre nós; a fome, as injustiças sociais, a degradação do meio ambiente, a falta de água e saneamento básico, as guerras.

É bem provável que não seja possível ou desejável um Deus único para toda a humanidade. A diversidade de culturas e religiões pelo mundo não possibilitaria isso, mas é fundamental e urgente perseguirmos a ética de um Deus para Todos, e não só para todos os seres humanos, mas para todos os seres que habitam este planeta, animados ou não.

Resumindo, se a função de Deus é nos salvar, nos libertar e nos proteger, o Deus do narcisismo, se é que realmente precisamos dele algum dia, não nos serve mais. O Deus que irá permitir à humanidade fazer sua travessia em direção ao próximo milênio precisa ser um outro Deus. Precisamos parar de orar a Deus para curar nossa unha encravada, proteger nossa prole, melhorar nossa vida financeira ou sustentar nosso amor-próprio. Nossas orações (representantes autênticas do nosso desejo) precisam se livrar do narcisismo e do egoísmo e alcançar o campo da alteridade. Caso não modifiquemos nossas orações, o abismo narcísico do EU irá nos engolir em breve.

Sendo assim, o Deus que precisamos ou que deveríamos desejar não é mais o Deus que está dentro, mas o Deus que está entre nós. O Deus que nos une, que nos enlaça, que possibilita o amor, que nos faz irmãos porque habitantes do mesmo planeta. O Deus que precisamos invocar não é o “Meu Deus”. O Deus que nos permitirá sobreviver é o "Nosso Deus", ou o "Pai Nosso" o Deus da alteridade.

O Deus que precisaremos para não sucumbirmos como espécie não poderá ser tolerante com a ideia de salvação individual, seja ela de que tipo for. O Deus que rogaremos, caso haja futuro, é aquele que exige que respeitemos o seguinte mandamento: ou nos salvamos todos ou ninguém se salva.


quarta-feira, dezembro 31, 2014

Tempos de alegria - sobre dois livros de Eric J. Hobsbawm

Certamente que algumas das leituras mais interessantes que realizei neste ano de 2014 - que ainda resfolega os seus últimos estertores -, foram Tempos Interessantes - uma vida no século XX e História Social do Jazz, de Eric J. Hobsbawm. No início do ano, também li a nova edição para Bandidos, lançado pela Editora Paz Terra. Hobsbawn, falecido em 2012, era daquelas personalidades altas, que têm a chance de carregar em si o peso dos eventos históricos, por ter testemunhado e medido com os elementos exatos cada um desses fatos. Como de forma subentendida em Tempos Interessantes - sua autobiografia -, Hobsbawm foi testemunha de um século de fraturas, caos, transformações profundas em seus costumes e em sua base produtiva; um século de conflitos e de alastramento da cultura de massa.

Ao analisarmos sua vida em Tempos Interessantes, resta-nos uma conclusão: existem pelos menos três elementos que não poderiam ter sido extraídos de sua ontologia - (1) ele era comunista e assim verbaliza sobre sua crença na doutrina de Marx: "O sonho da Revolução de Outubro ainda está em algum lugar dentro de mim, assim como um texto apagado no computador lá permanece, à espera de que os técnicos o recuperem dos discos rígidos". (2002, p.73). (2) Hobsbawm era um historiador e foi por meio das ferramentas proporcionadas pela história e pelo materialismo dialético, chave com se destranca a porta do grande castelo da história, que ele olhou, pensou e analisou o mundo. ("Não se pode escapar do passado... Nossas vidas cotidianas, os países em que vivemos e os governos que nos dirigem, tudo isso está rodeado e inundado pelos produtos de minha profissão" (2002, p. 311). (3) e o grande pensador, intelectual e erudito era apaixonado por uma das maiores revoluções que marcaram a música popular - o jazz. O movimento cultural nascido nos Estados Unidos alcançou o historiador quando este tinha apenas 16 anos de idade; e surgiu como um supridor de carências emocionais e afetivas. Ele mesmo diz: "No meu caso, porém, o jazz praticamente substituiu o primeiro amor, pois envergonhado por minha aparência física e convencido de que era pouco atraente, reprimi deliberadamente a minha sensualidade e meus impulsos. O jazz trouxe a dimensão de uma emoção física sem palavras, sem questionamentos, para um vida quase completamente monopolizada por palavras e exercícios intelectuais". (2002, p. 99). 

Em outro trecho ele afirma sobre esse movimento, dizendo que o jazz não era apenas "um certo tipo de música", mas sim "um notável aspecto da sociedade em que vivemos". (2002, p. 252). Foi essa paixão pelo jazz que o levou a escrever História Social do Jazz, em 1959. Ao escrever o livro, Hobsbawm usou o pseudônimo de Francis Newton (em homenagem a Frankie Newton, nome de um trompetista que tocara com Billie Holiday, um dos poucos músicos de jazz sabidamente comunistas). A grande questão em torno do livro é o fato de ter sido escrito em 1959, deixando de levar em conta a transformação por que passou o movimento a partir dos anos de 1960 - principalmente com a ascensão do rock. Segundo o historiador o historiador diz em Tempos Interessantes, o rock "em poucos anos quase matou o jazz". A revolução foi insuperável. O fenômeno da nova música, reforçada pela energia jovem e contagiante, fez com que os músicos de jazz vivessem um período de ostracismo musical. Muitos deles migraram para a Europa. O movimento poderoso e avassalador vivido pelo jazz em 20 anos, principalmente entre 1940 e 1960, foi substituído pelo febricitante movimento de corpos estimulado pelo rock. No prefácio à edição de 1989 de a História Social do Jazz, Hobsbawm diz que: "as vendas de discos nos Estados Unidos, que tinham aumentado de US$ 227 milhões em 1955 para US$ 600 milhões em 1959, ultrapassaram os US$ 2 bilhões em 1973. Setenta e cinco a 80% dessas vendas representavam gravações de rock ou gênero afins". E esse fenômeno avassalador não deixou o jazz intacto. Como é típico dos processos dialéticos, os movimentos incorporaram os elementos do rock e o jazz acabou vivendo a sua fase experimentalista. O fusion é uma dessas manifestações, que acabou levando os puristas a aumentarem a quantidade de cabelos brancos por causa de suas preocupações em manter o movimento sem a influência, segundo eles, "perniciosa" desse movimento "maculador". 

Para Hobsbawm, entre os vários motivos que levaram a ascensão do rock, três eram os principais: (1) o tecnológico, que acabou possibilitando o grande avanço da música eletrônica. O rock foi um dos movimentos musicais a utilizar uma engenharia capaz de produzir para as grandes massas. (2) dizia respeito ao conceito de conjunto, pois o movimento não precisava de virtuoses como o jazz a exibir as suas habilidades. Estrutura do rock (baixo, bateria, guitarra, voz) possuía uma aspecto absurdamente simplificador. Nesse sentido, o rock era mais democrático, pois qualquer sujeito "amador" ou formalmente "analfabeto" para as convenções musicais poderia montar o seu conjunto e "gritar" para o mundo. (3) dizia respeito ao ritmo "insistente" e "palpitante". Tal fato, fez com uma multidão cada vez mais densa de jovens, principalmente adolescentes, visse no movimento a expressão do seu universo de desejos, instintos, sentimentos e aspirações. O jazz passou, a partir daí, a ser encarado como música de intelectuais ou de velhos. 

Mas de onde veio o jazz? E é para responder a essa pergunta que existe como substrato em toda a obra, que o grande historiador marxista gasta boa parte de seu tempo. Para ele, o jazz é uma manifestação social alijada a um herança africana. As melodias complexas. A energia vibrante. A estrutura harmônica. E a sua estrutura inconfundível atestam a sua essência revolucionária. Talvez, seja uma das manifestações mais revolucionárias da música ocidental, pois surgiu no seio da cultura negra, visto pela mainstream hegemônico como forma inferior. Sua força vem justamente do grito oprimido dos negros. Vem dos spirituals americanos. Dos cultos protestantes gritados, angustiados, no qual o pregador encarna a energia a serviço do fervor da palavra. O jazz é essa força, esse espírito carregado de energia esfuziante, capaz de revelar a intimidade daquele que externa a sua manifestação. Não é uma manifestação contida. O jazz assim como o blues, que é o seu parente mais próximo, são feitos para que o ouvinte sinta. 
Apesar de ter surgido nesse meio carregado de fervor religioso, o jazz estava carregado de uma energia antipuritana, secularizante, sensual ao extremo. E, talvez, tenha sido por isso que migrou para os bares de Chicago; para os cabarés de St. Louis; para os prostíbulos de New Orleans; para os guetos e passou a ser associado a música de negro. Nomes como Louis Armstrong, Thelonius Monk, Charlie  "Bird" Parker, Miles Davis, Eric Dolphy, Art Blakey, John Coltrane, Ornete Coleman, Dizzy Gillespie etc estão amarrados à história do movimento. São figuras icônicas, as quais não se pode desvencilhar a identidade do movimento. 

Resta apenas me aproximar do jazz com o máximo de reverência como um ser apaixonado que se aproxima de uma ninfa jovem, mas sendo sabedor do potencial de amor que ela guarda em si. Estou ouvindo Somethin' Else, de Miles Davis, em um disco que traz nomes como Cannonball Adderley, Art Blakey e o próprio Miles Davis e tenho certeza que Hobsbawm faria um sinal com a  cabeça em sinal de aprovação e balançaria a perna, gesto consequente quando ouvimos uma música como essa Somethin' Else.