quarta-feira, abril 29, 2020

Assino por todos os lados




"O que faz de mim um brasileiro?

Nasci no Brasil, é verdade - na cidade do Rio de Janeiro, no Estado da Guanabara. Mas isso é um acidente geográfico.

Não tenho os traços estereotipados do brasileiro "típico". Não gosto de futebol. Não gosto de carnaval. Não gosto de praia.

Não tenho a sociabilidade fácil ou a alegria despreocupada que, dizem os guias de turismo, são as marcas do nosso povo.

Não acredito em Deus. Acho o Cristo Redentor um mostrengo. Torço contra a seleção - porque não consigo torcer a favor de Ronaldinhos e Neymares.

É bem verdade que gosto de pão de queijo e de arroz com feijão, mas acho que isso não me define mais do que o fato de gostar de financier e de confit de canard.

Na verdade, nesse momento, quanto mais eu penso, mais percebo que o que faz de mim um brasileiro é o imenso sentimento de vergonha.

Vergonha de ser cidadão de um país governado por um fascista grosseiro e inepto, que comanda a aplicação de uma política genocida e que nos conduz no caminho de uma catástrofe de grandes proporções.

Vergonha de ser concidadão de milhões de pessoas que são tão estúpidas e tão cruéis que aceitam ser cúmplices disso.

Vergonha de ser de um país que quando viu que havia o risco de se tornar um pouco - um pouquinho só - melhor, fez de tudo para destruir essa possibilidade e mergulhar de volta na violência, na exclusão, no preconceito, no atraso mais abjeto.

Não é a famosa "vergonha alheia". É vergonha própria, vergonha de saber que sou parte disso, porque, afinal, sou brasileiro".

Luis Felipe Miguel, professor da Universidade de Brasília

terça-feira, abril 21, 2020

20 de abril - dia do vinil

Um dos meus vinis de uma das minhas bandas favoritas
Ontem, foi o dia do vinil. Isso mesmo... Existe um dia do vinil. O bolachão já foi um produto vulgar. Cresci com eles. Meu pai era dono de centenas - Amado Batista, Luis Gonzaga, Alípio Martins, Evaldo Braga, Carlos Alexandre... uma incontável plêiade de artistas do brega (a maior parte). Era obrigado a escutar aquelas canções carregadas de um sentimentalismo piegas. Do eu poético que sofre por amor, que idealiza a mulher. Mas, que no fundo, é macho, não dar o braço a torcer. Há um descompasso no brega: ao mesmo tempo que se idealizava a mulher, ela é vista como algo menor em relação à força do homem. 

Quando adolescente, comprava os vinis por cinquenta centavos. Nessa época, comecei a comprar alguns de rock. Já tinha um número razoável de bandas de rock e artistas de que gostava - Led Zepellin, Deep Purple, Man At Work, The Cure, Bob Dylan, Chico Buarque etc. Meu irmão num assomo de loucura (até hoje não discernível) vendeu as minhas dezenas de vinis por módicos trinta reais. Fiquei incrédulo. 

Atualmente, voltou a paixão por tê-los mais uma vez. Compro-os frugalmente. O preço anda nas alturas. Um vinil não sai por menos de cem reais. Estão "gourmetizados". Tornaram-se um produto "cult", inacessíveis, para sujeitos retrógrados - ou, simplesmente, esquisitos.

As novas gerações questionam a importância disso. Com o acesso caudaloso aos "streamings" de música, tipo Spotify, quem se interessa por vinil? É justamente aí que está a questão. Existem certos prazeres que são raros e inexplicáveis. 

Ouvir um vinil está nessa conta. Abri-lo. Tirá-lo do saquinho. Conferir o encarte (verdadeiras obras de bom gosto, a maior parte da vezes). Sentir o cheiro (vinil tem cheiro). Colocá-lo no prato da radiola. Perceber a rotação. Movimentar o braço da radiola. Posicionar o braço no início. Escutar, às vezes, os estalidos. Apreciar o som límpido, com as camadas corretas da música. 

Acima, um dos discos mais importantes da história do rock: "Moving Pinctures" (1981), do Rush. Trata-se de uma obra-prima.

domingo, abril 19, 2020

O deus de Spinoza


Você sabia que quando Einstein deu uma conferência em várias universidades a pergunta recorrente que os alunos fizeram foi:

- Você acredita em Deus?

E ele sempre respondia:

Eu acredito no Deus de Spinoza.

Quem não leu Spinoza não entendia a resposta.

Baruch De Spinoza foi um filósofo holandês considerado um dos três grandes racionalistas do século da filosofia, junto com o francês Descartes.

Este é o Deus ou a natureza de Spinoza:

Deus teria dito:

“Pare de ficar rezando e batendo no peito! O que quero que faça é que saia pelo mundo e desfrute a vida. Quero que goze, cante, divirta-se e aproveite tudo o que fiz pra você.Pare de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que você mesmo construiu e acredita ser a minha casa! Minha casa são as montanhas, os bosques, os rios, os lagos, as praias, onde vivo e expresso Amor por você.

Pare de me culpar pela sua vida miserável! Eu nunca disse que há algo mau em você, que é um pecador ou que sua sexualidade seja algo ruim. O sexo é um presente que lhe dei e com o qual você pode expressar amor, êxtase, alegria. Assim, não me culpe por tudo o que o fizeram crer.

Pare de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo! Se não pode me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de seus amigos, nos olhos de seu filhinho, não me encontrará em nenhum livro.

Confie em mim e deixe de me dirigir pedidos! Você vai me dizer como fazer meu trabalho?
Pare de ter medo de mim! Eu não o julgo, nem o critico, nem me irrito, nem o incomodo, nem o castigo. Eu sou puro Amor.

Pare de me pedir perdão! Não há nada a perdoar. Se eu o fiz, eu é que o enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso culpá-lo se responde a algo que eu pus em você? Como posso castigá-lo por ser como é, se eu o fiz?

Crê que eu poderia criar um lugar para queimar todos os meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que Deus faria isso? Esqueça qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei, que são artimanhas para manipulá-lo, para controlá-lo, que só geram culpa em você!

Respeite seu próximo e não faça ao outro o que não queira para você! Preste atenção na sua vida, que seu estado de alerta seja seu guia!

Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é só o que há aqui e agora, e só de que você precisa.

Eu o fiz absolutamente livre. Não há prêmios, nem castigos. Não há pecados, nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro. Você é absolutamente livre para fazer da sua vida um céu ou um inferno.

Não lhe poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso lhe dar um conselho: Viva como se não o houvesse, como se esta fosse sua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim, se não houver nada, você terá usufruído da oportunidade que lhe dei.

E, se houver, tenha certeza de que não vou perguntar se você foi comportado ou não. Vou perguntar se você gostou, se se divertiu, do que mais gostou, o que aprendeu.

Pare de crer em mim! Crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que você acredite em mim, quero que me sinta em você. Quero que me sinta em você quando beija sua amada, quando agasalha sua filhinha, quando acaricia seu cachorro, quando toma banho de mar.

Pare de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra você acredita que eu seja? Aborrece-me que me louvem. Cansa-me que me agradeçam. Você se sente grato? Demonstre-o cuidando de você, da sua saúde, das suas relações, do mundo. Sente-se olhado, surpreendido? Expresse sua alegria! Esse é um jeito de me louvar.

Pare de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que o ensinaram sobre mim! A única certeza é que você está aqui, que está vivo e que este mundo está cheio de maravilhas.

Para que precisa de mais milagres? Para que tantas explicações? Não me procure fora. Não me achará. Procure-me dentro de você. É aí que estou, batendo em você.”

O texto acima, peguei de um compartilhamento do Charlles Campos, feito pelo Facebook

Esse texto pode ser encontrado em um bonito vídeo no Youtube.

sábado, abril 18, 2020

Três textos e uma ideia





V - Há metafísica bastante em não pensar em nada.

V

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do Mundo?
Sei lá o que penso do Mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o Sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o Sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do Sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

«Constituição íntima das coisas»...
«Sentido íntimo do Universo»...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

Alberto Caiero, um dos heterônimos de Fernando Pessoa. Daqui

terça-feira, abril 14, 2020

"A Aventura", de Michelangelo Antonioni.

 
A Aventura é um filme ítalo-francês, produzido em 1960 e dirigido por Michelangelo Antonioni. As credenciais, talvez, não impressionem a um espectador desavisado. Todavia, ao mencionar o nome do italiano, os sinais de atenção já devem ser ligados. Antonioni foi uma figura importante para o cinema italiano - e, principalmente, para o enobrecimento da sétima arte, elevando-a a um nível filosófico sofisticado e esteticamente impecável. 

De Antonioni, já vi Blow Up - depois daquele beijo, uma obra envolvente e repleta de suspense. Dessa vez comecei a ver a conhecida Trilogia da Incomunicabilidade. Trata-se de três filmes absurdamente densos e belos. O primeiro deles é A Aventura (1960), em seguida segue A Noite (1961) e, o último, O Eclipse (1962). Os três filmes são estrelados pela bela Monica Viotti, hoje, com 88 anos de idade.

Em A Aventura, nota-se uma obra com belas tomadas de cena; ênfase nas imensidões (planícies, mares etc); e a típica beleza e bom gosto italianos. O cinema italiano da época em que a obra foi produzida já havia passado por aquilo que ficou conhecido como "realismo italiano", que colocava em evidência a luta de classes em um estado italiano empobrecido pela Segunda Guerra e metido em um complexo caos político por conta do fascismo. Os filmes buscavam retratar a situação da classe trabalhadora. Um exemplo disso é o belíssimo Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica.

A enigmática cena final de A Aventura
Em A Aventura a ênfase é colocada sobre um grupo de italianos ricos. Enquanto nos filmes com a temática do realismo italiano encontramos o drama material, em Antonioni encontramos o drama existencial, ou seja, reflete-se sobre o imponderável e intangível material de que é feito o ser humano. Há angústias impensáveis, impossibilidade de paixão, traição; a insinuação da inconstância do ser humano. O cineasta italiano premia os amantes do cinema com uma obra cujo efeito metafórico é sempre de fuga, sempre de movimento. Os personagens parecem perdidos nas imensidões, nas planícies sugestivas. Há sempre uma busca por algo que nunca se torna presente.

Por fim, Antonioni faz uma crítica à sociedade moderna com seus movimentos tresloucados e incertos, que não levam a lugar nenhum. Aponta sua genialidade para a impossibilidade de concretização da felicidade; para a impossibilidade de comunicação, de acerto. Os outros não estão certos do que querem. Nutrem expectativas vazias sobre aquilo que desejam. Aliás, nem sabem o que desejam.

A Aventura é considerada uma das obras máximas da história do cinema. Comecei a ver O Eclipse.


terça-feira, abril 07, 2020

#forabolsonaro, por Antônio Prata

As teorias da conspiração são o último refúgio dos impotentes. É pra lá que eles fogem, acreditando libertar-se dos grilhões da mentira e da manipulação.

Ali, mocozados em seus terraplanismos, antivacinismos, cultuando seus ETs de Varginha, seus Foros de São Paulo, seus Chupa-Cabras, seus Olavos de Carvalho, suas mamadeiras de piroca, suas tramas da CIA ou da China, os olhos dos “desempoderados” brilham no gozo da verdade revelada.

Como mágica, o homem medíocre a quem os genes, a injustiça social ou a preguiça intelectual condenaram a uma existência de Zé Mané se transforma num Indiana Jones diante do Santo Graal, num Fox Mulder e numa Dana Scully num episódio de “Arquivo X”, num Moisés encarando a sarça em chamas.

As teorias da conspiração são a igreja do homem despossuído, frustrado, alienado, num mundo complexo que ele não compreende e no qual não prospera. São a arminha de mão dos pobres diabos. O Viagra da impotência social.

Quer dizer então que toda a comunidade científica, Harvard e Yale e Oxford e Cambridge e a Organização Mundial da Saúde e a União Europeia e os EUA (democratas e republicanos) e a Angela Merkel e o Bill Gates e os líderes e a imprensa de todos os países do globo estão errados sobre o coronavírus e só Bolsonaro tá certo?

O mundo inteiro caiu num conto do vigário chinês comunista para quebrar o capitalismo e só o capitão reformado do Vale do Ribeira, do alto de seus chinelos Rider, penando para ler “hospital Ualbert Uainstein” no teleprompter, descobriu a farsa?

O que para você, pessoa sensata de direita, de esquerda ou de centro, parece um absurdo completo é justamente o que dá força à teoria conspiratória. Quanto mais alucinante a teoria, maior seu poder epifânico. Quanto mais tosca a figura do presidente, mais longe chega a sua mensagem.

Tem um momento, geralmente no final do primeiro ato dos filmes de terror ou suspense, em que o protagonista tenta convencer os outros de que tem um fantasma na casa ou um monstro na floresta ou que o professor bondoso do jardim de infância é um serial killer. Todos desdenham do protagonista.
Talvez ele acabe num hospício, como Sarah Connor em “O Exterminador do Futuro 2”. A incredulidade geral, porém, faz com que o herói se insufle, cresça, tome uma atitude arriscada e sem volta para combater o fantasma/monstro/assassino e ingressar no segundo ato.

É exatamente no momento Sarah Connor no hospício que Jair Bolsonaro e seu núcleo duro de miolo mole se encontram nesta semana. E a atitude arriscada e sem volta que eles gostariam de tomar para ingressarem no segundo ato com um duplo plot twist carpado é dar um golpe.

Mandar ao STF “um jipe com um soldado e um cabo”. Amotinar as polícias e dar a elas, como disse o então candidato a presidente, “retaguarda jurídica para fazer valer a lei no lombo de vocês!”. “Será uma limpeza nunca vista na história do Brasil.”

Chegou a hora de as pessoas sãs deste país se unirem contra um golpe e contra a carnificina que a insistência deste sociopata em reduzir a quarentena irá causar. Somos nós, de Ronaldo Caiado a Marcelo Freixo, quem temos que gritar com toda a força dos nossos pulmões que há um fantasma na presidência. Um monstro no Planalto. Um serial killer no comando dos jardins de infância.

Depois, quando o pesadelo do vírus e do monstro passarem, cabe aos sobreviventes adultos de todos os matizes políticos repensar o mundo para que nele não haja um exército de excluídos frustrados, humilhados e dispostos a embarcar no primeiro filme de terror que lhes oferecer uma migalha de protagonismo.

Texto publicado no Jornal Folha de São Paulo, em 29 de março de 2020. 


domingo, abril 05, 2020

A arte de esperar pelos ovos

A última reflexão do filme Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (como é conhecido aqui no Brasil), de Woody Allen, é bastante provocante. "Annie Hall" (título original), certamente, é o melhor filme que ele dirigiu; para mim, uma das melhores da história do cinema. Na última cena do filme, o personagem Alvy Singer (Woody Allen), afirma após ter encontrado Annie Hall (Diane Keaton) com quem mantivera um relacionamento de encontros e rompimentos, um instigante e provocante pensamento. O filme é uma excelente e deliciosa reflexão sobre a arte de se relacionar. 

E me lembrei da velha piada, do cara que vai ao psiquiatra e diz:

"Doutor, o meu irmão é maluco. Acha que é uma galinha. "

E o médico pergunta: "Por que é que não o traz de volta a si?".

E ele responde: "Até faria, mas preciso dos ovos".

É mais ou menos o que sinto sobre as relações entre as pessoas.

São totalmente irracionais, loucas e absurdas...

Mas nós vamos aguentando porque precisamos dos ovos.

quarta-feira, abril 01, 2020

"Dois papas", uma importante reflexão

Vi semana passado o filme Dois papas, do diretor brasileiro Fernando Meireles. A impressão que me passou foi das melhores. A produção mescla eventos históricos com ficção. A trama é tão convincente que nos passa a ideia de que tudo que vemos é história, ou seja, aconteceu de verdade.

Nos vinte anos do século XX, quatro eventos foram marcantes na história da Igreja Católica, uma das instituições mais longevas da terra. (1) a morte de João Paulo II (Karol Józef Wojtyła); (2) o pontificado de Bento XVI (Joseph Aloisius Ratzinger); (3) sua renúncia; (4) e o pontificado de Francisco I (Jorge Mario Bergoglio), o papa argentino; o primeiro não europeu da história. A renúncia de Bento gerou grande repercussão pública. Afinal, em poucos momentos da história isso havia acontecido. No período moderno da Igreja Católica, os papas ocupam o cargo até a morte. O último a abdicar da cadeira de Pedro havia sido Celestino V, em 1294. 

O filme enfoca a eleição de Joseph Ratzinger para o papado, após a morte de João Paulo II e a preterição de Jorge Bergoglio. Logo em seguida, há um enfoque na pessoa do argentino e o pedido de sua aposentadoria. Bergoglio é chamado a Roma. Encontra-se com Bento XVI no Castelo Gandolfo, a famosa casa de verão dos papas. Nas conversas que são travadas entre Bergoglio e Bento, nota-se o quanto este, o erudito, filósofo, parece viver uma crise de fé.

É a partir desse encontro que há a explanação de duas visões sobre a fé e sobre o papel institucional da Igreja Católica. Bento é o ardoroso defensor de uma Igreja "pesada", dogmática, preparada para enfrentar os dilemas da modernidade com uma resposta pontual, não fundada em relativismos. Segundo ele, como fica evidente no filme, a perda de fiéis por parte da Igreja é um problema do homem moderno que se deixou dominar pelo pecado, pela corrupção. A Igreja precisa combater de maneira enérgica esses desafios. Bento XVI é uma espécie de Bonifácio VIII, um dos papas que eram defensores do poder temporal da Igreja; defensor de uma igreja pesada, galante, institucionalmente, burocrática.

Por sua vez, Francisco é, como o próprio nome evoca, a voz da simplicidade, da renovação, que está aberta ao diálogo. Francisco é a Igreja que saiu à rua para conversar com os homens e mulheres. Bento é a Igreja trancada em seu gabinete, encerrada em sua frieza, em sua tradição teológico-dogmática. O sucessor de Bento XVI simboliza uma Igreja jovem, disposta a sentar com os jovens. A entender os dilemas políticos e éticos do nosso tempo. As transformações pelas quais tem passado o Planeta, estabelecendo profícuos debates ecológicos. Francisco tem criticado a ganância do capital em detrimento do ser humano.

De certa forma, o filme serve para estabelecer um antagonismo entre Bento XVI e Francisco I. Todavia, não se deve negar que Anthony Hopkins, que representou o papel de Bento XVI, consegue impingir uma face humana, dócil e, às vezes, leve e gentil ao pontífice. 

Trata-se de um filme agradável. Serve para nos fazer refletir as múltiplas possibilidades de um movimento, pois o que se procura enfocar é um cristianismo mais dogmático, encerrado em pesadas sentenças dogmáticas e uma face mais leve e generosa da fé. 


sexta-feira, março 27, 2020

"Star Wars: A ascensão de Skywalker" - mais do mesmo

 
Esses dias de quarentena têm servido para, entre outras coisas, assistir a alguns filmes. Por causa de uma demanda categórica, resolvi ver Star Wars: A ascensão de Skywalker, o episódio IX da conhecida saga iniciada or George Lucas ainda nos anos 71 do século XX. Falo em "demanda categórica" por ser fã de Lucas. Queria ver o que fizeram com a intriga cósmica que ele criou.

Como explicitei aqui há algumas semanas, Lucas vendeu para os estúdios Disney os direitos sobre os filmes. Até o momento da venda eram apenas seis filmes. 

Para preencher uma sede, a princípio, dos fãs do filme, começaram a surgir obras quase anuais da saga. Quando não seguem o fluxo dos episódios, abordam perifericamente algum personagem ou evento não muito bem explicitado da saga. O objetivo disso tudo, claro, é o fator financeiro. Busca-se o lucro. As cifras bilionárias, pois ainda existe um público cativo; disposto a quedar-se diante da magia iniciada por Lucas.

Foi em busca da magicidade, que busquei assistir ao episódio IX. Infelizmente, a experiência não foi das melhores. Acredito que não existe mais o que explorar naquilo tudo. Falta imaginação. Há uma previsibilidade em tudo o que acontece. Os conflitos entre as personagens que compõem as hostes que se rebelam contra a Primeira Ordem já não empolga. Mais do mesmo. Os vilões, por sua vez, são imperfeitos em demasia. Houve uma tentativa de inserção do Senador Palpatine contra a Ray, a última Jedi. Teria sido melhor se o conflito entre os dois não tivesse acontecido. O conflito entre os dois possui rápida resolução. Acredito que este seja um dos problemas do filme: os conflitos possuem uma rápida resolução.

O conflito que leva ao clímax é um dos pontos mais baixos do filme. Sinceramente, cansa do início ao fim: milhares de naves imperiais contra naves capengas e sucateáveis. Foi-se o tempo em que havia filosofia, religiosidade, magia; uma crença imponderável, a maravilhosa direção e o olhar clínico de Lucas. Tudo me pareceu bastante descuidado. Sem força imagética. Repetitivo. Suntuosamente, desgastado.

Trata-se de um tipo de obra que não dá sustos no espectador. É redonda em excesso. Já se sabe a que porto vai chegar. 

Com certeza, um dos piores filmes que vi nos últimos tempos.

quarta-feira, março 25, 2020

"Rashomon", de Akira Kurozawa

"É inevitável suspeitar dos outros num dia como este". 

Gosto de filmes que me faz pensar; que permite a reflexão, a tentativa de entender seus elementos simbólicos e metafóricos. Daqueles que deixam suas imagens presas em minha mente e inoculam o desejo de visitá-lo mais de uma vez. E, com o tempo, tornam-se referências necessárias a uma boa reflexão. 

Esse fato aconteceu mais uma vez esta semana. Com a decretação da quarentena por causa da pandemia de coronavírus, tive a oportunidade de assistir a Rashomon, umas das experiências mais felizes que já tive com o cinema. Rashomon é uma obra de 1950, dirigida por um dos mais importantes e geniais diretores da história do cinema, o japonês Akira Kurozawa. 

O diretor utilizou-se de dois contos escritos por Ryunosuke Akutagawa. Com elementos simples, Kurozawa dirigiu uma das mais belas, poéticas e misteriosas obras de todos os tempos. Existem basicamente três espaços na história: os portões de Rashomon, a floresta e o tribunal. Não há muitos personagens: um ladrão, um padre, um lenhador, um plebeu, um samurai e a esposa deste.

A história não possui um plano linear. Não existe um plano em que se deixe prevalecer certa impressão sobre os fatos. Na verdade, com exceção do padre e do plebeu, todas os demais personagens são narradores. O filme problematiza os limites para se contar um fato e os seus desdobramentos; consequentemente, as interpretações que são dadas a esse fato.


Nesse sentido, evoca-se Nietzsche que disse certa vez que "não há fatos; apenas interpretações". Um fato não gera fidelidade àquilo que vai ser feito com ele. 

O filme não nos permite ter uma pista do porquê cada personagem personaliza a descrição do assassinato do samurai e do estupro de sua esposa pelo endiabrado Tajomaru. Mas, tanto quanto as personagens que estão no portão, ficamos sem saber qual das quatro versões do evento da floresta é a verdadeira. 

A atuação dos personagens é genial. O padre é a figura que perde a crença no ser humano. Essa perspectiva fica evidente em sua fisionomia, no seu atordoamento. Na última cena do filme, assim como a chuva que cessa (como se ela metaforizasse o aspecto pessimista do anti-humanismo), um lampejo de crença ensolarada brota em seu rosto e esparrama-se em suas palavras, dirigindo-se ao lenhador: "Graças a você acho que posso manter minha fé nos homens". Todavia, com tudo o que se testemunha no filme, questiona-se as próprias intenções do interlocutor do padre. A cena final é bonita, emblemática, insinuadora de pessimismo e, ao mesmo tempo, de uma esperança luminosa. 

Queremos crer, mas gesta-se certa desconfiança. Por que acreditar se os homens são potencialmente mentirosos e egoístas? Este é dilema que resulta da experiência de assistir ao filme. Celebra-se o humano, mas celebra-se a desconfiança, a descrença. Kurozawa genial!


sexta-feira, março 20, 2020

A justiça em um coportamento exemplar - o caso do irmão mais velho do filho pródigo

O Retorno do Filho Pródigo, de Rembrandt, séc. XVII


A parábola do filho pródigo ou do pai amoroso, encontrada no texto bíblico atribuído ao médico Lucas, é rica em significados. A enorme quantidade de reflexões procura colocar em evidência a jornada inconstante do jovem que abandona sua casa, seu velho pai e leva consigo parte da herança. Há ainda uma preocupação em tornar visível o amor incontido, silencioso, gracioso do pai. Ele ficava à porta esperando, diariamente, o retorno do filho inconsequente.

Por sua vez, ao se falar do filho mais velho, o que ficara em casa, aquele que vivera o luto do pai com a partida do irmão; que concentrara responsabilidades por causa da saída do irmão novo; que estivera trabalhando no campo e observou, ao voltar, uma algazarra, um vozerio, que vinha da casa e, simplesmente, perguntou para um criado o que acontecera. Ele é costumeiramente retratado como alguém amargo, ressentido, rancoroso. Reforça-se a noção de que ele seja uma pessoa dura. Parece não haver um esforço para entender o seu ponto de vista. Segundo Lucas, ao ouvir os sons do festim - e saber ainda que o pai matara o "o novilho gordo" - "encheu-se de ira". Ficou à distância. Nutria em seu silêncio, a indiferença do pai. Procurara, por meio de um comportamento justo, exemplar, ser um filho que orgulhava o pai. Os vizinhos certamente o admiravam. Viam nele um exemplo a ser seguido. Muitas jovens o queriam por marido.

Ele fizera tudo correto. Procedera de forma irretocável. Não havia juízos contra ele. Sua ira era é justa. Seu pai tentou consolá-lo. Arranjar razões. Por sua vez, o filho mais velho estava duro e inerte. Algumas lágrimas brotaram quentes. Rolam pela pele corada e escura. Chegam até à barba fechada - um sinal de dignidade. Prepara-se para falar. Os pensamentos estão em ebulição. As palavras marcham firmes de sua boca. "Olha! Todos esses anos tenho trabalhado como um escravo ao teu serviço e nunca desobedeci às tuas ordens". E, segue, como se as palavras viessem de uma fonte torrencial. "Tu nunca me deste nem um cabrito para eu festejar com os meus amigos. Mas quando volta para casa esse teu filho, que esbanjou os teus bens com as prostitutas, matas o novilho gordo para ele". 

A resposta do pai é desconcertante. Revela uma face para a qual o filho mais velho não estava acostumado. "Tudo o que tenho é seu". E justifica da seguinte forma as comemorações iniciadas: "Mas nós tínhamos que comemorar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi achado". O pai diz "teu irmão" (lembrando que o irmão mais velho empregara a expressão "esse teu filho"), buscando reintegrar a familiaridade entre os dois. 

Diante desse episódio, a sua justiça, comportamento exemplar, são rebaixados. Não há exaltação à sua pessoa. Sua indignação se situa entre a injustiça e o amor. Ele é visto como um coadjuvante vingativo. Cheio de virulência. A história encerra-se com as palavras do pai. Não se sabe o que aconteceu: se ele entrou desconfiado e contrariado, e aos poucos, buscou observar o irmão com outros olhos; ou, simplesmente, continuou inarredável, inflexível em suas convicções de justiça. 

Na conhecida pintura de Rembrandt, ele fica de longe, com ar inerte, segurando um cajado, observando o abraço generoso do pai. O que passa por sua cabeça? Uma indignidade o que acontecia, certamente. Ele entende assim. Trata-se de um antagonismo forte nessa brilhante parábola: de um lado o amor incomensurável de um pai que perdoa; do outro, a justiça irretocável de um filho que levara uma vida exemplar. E uma pergunta surge: ele estava errado em sua ira?


terça-feira, fevereiro 11, 2020

"O Parasita" e a crítica às verticalidades


 
Sou um crítico do festival do Oscar. Todo início de ano, há uma imensa propalação do evento, como se este referendasse o que foi produzido em matéria de cinema. As produções indicadas são alçadas ao panteão insofismável das obras definitivas. Na minha limitada maneira de ver, apenas alguns dos filmes indicados podem ser colocados no rol das grandes obras. Há muito Hollywood e, em muitos casos, pouco cinema nessas obras. Resumindo: o Oscar é um festival feito para as produções estadunidenses. O objetivo é robustecer o imperialismo daquela sociedade, ou seja, sua indústria cultural.

Há cinema de qualidade sendo produzido em outros locais do Globo. Mas, num aceno de máxima sensatez, até mesmo os enfunados norte-americanos parecem reconhecer isso. Essa tese pode ser fortalecida com a concessão que foi feita ao excelente filme sul-coreano O Parasita (do diretor Bong Joon-ho), uma obra provocante e de grande qualidade; rica em metáforas; em possibilidades temáticas; repleta de simbolismos; e detalhes psicológicos, sociológicos, filosóficos, econômicos, urbanísticos etc.

Primeiramente, é preciso dizer que O Parasita é uma experiência perturbadora. O filme nos passa a ideia inicial de uma comédia de mal gosto. Aos poucos, vai ganhando contornos dramáticos. Até ganhar cintilações trágicas. À medida que as cenas se desenrolam, há uma mal-estar provocado pela esperteza da família. São verdadeiros “parasitas” no sentido mais elementar. Aproveitam-se de um hospedeiro para extrair-lhe os nutrientes. Alimentam-se do organismo alheio, fazendo disso uma ação necessária, fundamental. Ignoram a condição do hospedeiro. Pensam apenas na satisfação de suas necessidades. Parasita é um nome forte, repleto de efeitos.

Um pai de família pobre, juntamente com a esposa e dois filhos (um casal), se equilibram financeiramente. Nesse sentido, há uma crítica sendo feita ao modo de organização social da, aparentemente, rica Coreia – ao contrária de sua irmã do Norte. A família vive em um espaço, como se fosse inseto, abaixo da superfície da rua, em Seul, capital da rica Coreia do Sul. A alimentação é irregular. Na luminosa e tecnológica Coreia, eles não têm serviço de wi-fi. Precisam capturar a senha dos estabelecimentos que oferecem o serviço gratuitamente aos clientes. Recebem os dejetos dos bêbados que urinam na rua.

Surge uma oportunidade para que um dos filhos da família desse aulas de inglês para a filha de uma família rica. É justamente nesse ponto que acontece o salto imaginativo e malandragem da família. Todos os integrantes da família assumem funções na casa da rica família após eliminarem os obstáculos de forma insensível. Os desdobramentos são os mais inusitados possíveis, tornando O Parasita uma obra cujas possibilidades da fantasia e do inverossímil são usados em doses certas.

É possível afirmar que as escadas possuem uma função fundamental na produção de Bong. Há um trabalho constante com a verticalidade. Há uma cena emblemática no filme que nos remete à metáfora da estruturação das sociedades capitalistas. Após uma chuva terrível que causa prejuízos inestimáveis para os pobres moradores das periferias da capital sul-coreana, o pai e os dois filhos descem uma escadaria. A cena sugere que eles sempre descem: do bairro rico para o bairro pobre; do ponto alto para o ponto baixo; do limite da rua, para a caserna onde moram. Trata-se da representação do esquematismo das classes sociais sob o capitalismo, fazendo lembrar a música do Chico Sciense e Nação Zumbi, A cidade.  “A cidade não para/ a cidade só cresce/ o de cima sobe/ e o debaixo desce”.

O Parasita ganhou o Oscar de melhor filme do ano de 2019. Até mesmo a autossuficiente Hollywood se dobrou diante da beleza e do emblematismo da obra.  Os americanos sempre defensores de que estão no ponto mais alto entre todas as sociedades globais, tiveram que descer à superfície e perceber que há outros olhares, além dos deles.