quarta-feira, maio 31, 2023

"Vila dos Confins" e os imensos confins do Brasil

 

“O sol caía de ponta, brutal. Entorpecia e queimava tudo. A areia era polvilho de espelho socado no pilão”.

                Mário Palmério

 

Terminei a leitura do terceiro de doze livros de literatura brasileira que pretendo realizar ao longo de 2023. Desta vez, li “Vila dos Confins”, do escritor mineiro Mário Palmério. Importante e reveladora leitura. Palmério foi uma figura bastante curiosa da nossa literatura. Além de autor de – pelo menos - duas importantes obras – “Vila dos Confins” e “Chapadão do Bugre” -, teve uma entusiástica carreira como político e educador. Palmério ainda foi embaixador do Brasil em Assunção, capital do Paraguai, durante o governo de João Goulart. Vale destacar sua intensa atuação como educador. Construiu, em Uberaba, a Cidade Universitária, que leva o nome do escritor, uma honesta homenagem. 

Mário Palmério nasceu em Monte Carmelo, município situado no Triângulo Mineiro, no ano de 1916. Era um grande conhecedor da vegetação, da topografia, dos rios, da fauna e dos costumes da região. Isso se faz notar em “Vila dos Confins”. O escritor mineiro à semelhança do escritor alagoano Graciliano Ramos, estreou já quadragenário na literatura. “Vila dos Confins” como ele mesmo diz, “nasceu relatório, cresceu crônica e acabou romance”. 

O romance “Vila dos Confins” foi publicado no ano de 1956. No que diz respeito às produções regionalistas, parece ser extemporâneo. Vale mencionar que desde à “Bagaceira”, do paraibano José Américo de Almeida, publicado em 1928, passando por uma enormidade de escritores como o já citado Graciliano Ramos, além de José Lins do Rego, Raquel de Queiroz, Jorge Amado, Amando Fontes, dava-se a impressão de que a estética regionalista parecia esgotada. “Vila dos Confins” acabou provocando um forte impacto. Surgiu como uma lufada de vento agradável, produzindo uma curiosidade inquestionável. A escritora cearense Raquel de Queiroz, já consolidada e que, àquela altura, era uma veterana, prefaciou a primeira edição da obra. Ela verbaliza de forma certeira: “A primeira qualidade que me impressionou no escritor Mário Palmério foi este cheiro de terra, que o livro traz, tão autêntico”. Livro com “cheiro de terra” – não se tratava apenas de uma metáfora. Era uma pujante escolha estética por parte do autor. 

“Vila dos Confins” rescende à fragrância das gerais. Escutamos o dialeto do povo. É uma obra cujo enredo tem por finalidade colocar em destaque as disputas políticas em uma cidade recém emancipada, denominada Vila dos Confins. Palmério transforma em literatura a ética que preenche as disputas políticas interioranas. Esse artifício maquiavélico ainda é o “modus operandis” de boa parte das castas políticas do Brasil profundo, do Brasil distante dos centros urbanos; do Brasil dos rincões afastados, dos confins. O Congresso Nacional, as Assembleias Legislativas e as Câmaras Municipais, ainda estão pejadas por gerações de políticos que transmitem um certo jeito de se locupletar da coisa pública. Esses personagens entendem que os cargos decisórios da vida social são um direito de herança. 

Nota-se ainda na obra uma tentativa de colocar em paralelo aspectos da vida social (política) com histórias de pescas, garimpo, caças (natureza), atravessando por uma certa maneira de dizer. O texto de Palmério procura ser fiel ao dialeto do homem da terra. Sua linguagem é caudalosa. Em alguns momentos da leitura, é perceptível algum tipo de mudança repentina do fluxo narrativo. É preciso estar atento para não perder o plano central da história com seus personagens principais em disputa. 

A linguagem de “Vila dos Confins” procura se fixar numa expressividade local, regional. O autor se utiliza de acurados neologismos. Essa estratégia cria um efeito de teor bastante significativo. O vigor da linguagem permite que, em dados momentos, o leitor seja surpreendido pela criatividade do autor. Faz lembrar a beleza da estética de Guimarães Rosa. 

Mário Palmério foi um homem que teve uma sensibilidade enorme para entender o seu meio. Seu texto aponta esse caráter. Nota-se o quanto ele conhecia a personalidade do homem do interior, encurralado por estruturas sociais e políticas, como dizia o crítico Wilson Martins, “burlescas” e “grotescas”. “Burlescas” pela forma provinciana, por uma certa forma de fazer; pela cristalização de certo entendimento; pelo atraso, pela tradição; pelo entendimento que a vida social e política, necessariamente, deveria seguir certo fluxo. E “grotescas” pela força da disputa; pela violência engendrada para que certo padrão, certos resultados permanessem. E, no que diz a isso, o texto de Mário Palmério continua imensamente atual nesse Brasil de imensos confins.

terça-feira, maio 23, 2023

Annie Ernaux e aquele acontecimento

 

“Enxerguei um bonequinho pendurado ao meu sexo por um cordão avermelhado. Não tinha me passado pela cabeça ter aquilo dentro de mim... Eu era bicho”.

In “O acontecimento”, Ennie Ernaux.

 

Até 2021, a escritora francesa Ennie Ernaux não era tão conhecida no Brasil. Havia tradução para dois ou três dos seus livros. Atualmente, seus livros são vendidos rapidamente nas livrarias. Novos livros estão sendo vertidos do francês para o português. Se não me falha a memória, há, atualmente, seis livros traduzidos. Ernaux é bastante conhecida na França. Escreveu mais de duas dezenas de livros ao longo de sua prolífica carreira.

Durante boa parte de sua vida, foi professora. Formada em letras, Ernaux é uma artífice versada na arte de dizer. Li dois dos seus livros. Mas, já tive a oportunidade de captar as características que a tornaram famosa. Seu texto é simples; despojado de requintes épicos; de empolações. Trata-se de textos curtos, de uma escrita breve, lacônica, mas que muito diz. Sua habilidade para suscitar inquietação é uma das qualidades que aparecem de imediato quando a lemos. Os textos transmitem a impressão de que foram escritos para serem lidos de um único fôlego.

Ernaux costuma nos capturar já no primeiro capítulo. A principal ferramenta que utiliza para destrancar a dimensão que guarda as palavras é a memória. Nesse sentido, pode-se afirmar que a francesa aponta para um tipo de habilidade que conseguiu desenvolver: tudo está nela. O passado é o espaço a ser estudado, arqueologizado, desvelado. Em um primeiro momento, tem-se a noção de que estamos diante de uma simples autora de autobiografias. Entretanto, sua  escrita transcende esse gênero. Ao mesmo tempo que fala de si, Ernaux dialoga com a sociologia; pincela de forma densa a construção de episódicos retratos; joga luz no quarto escuro da memória e acaba por construir uma literatura intimista. Ela mesma é o objeto da análise. A francesa eterniza o evento que é memória por meio de uma escrita que traz à vida o real que já não é, mas que já foi e que volta a ser por intermédio de uma seleção cuidadosa de um certo modo de dizer a si mesma.  

Ennie Arnaux

Ao narrar a sua vida, Ernaux realiza o movimento interior/exterior. Nesse sentido, seus textos são altamente existenciais.  Todavia, esse exercício não perece nesse ponto. Isso qualquer pessoa pode fazer – eu, por exemplo. E, nesse ponto, nota-se a grandiosidade de sua literatura. Talvez, aqui aconteça o fluxo de curiosidade que acomete os seus leitores, pois ela realiza um segundo movimento que é o do particular para o universal. É o que se dá, por exemplo, em seu livro “O Acontecimento”, que narra o aborto que ela realizou quando tinha apenas 23 anos de idade, ainda nos anos de 1960, numa França que possuía uma legislação que poderia condenar à morte tanto que realizava ou quem ajudasse a realizar um aborto. Isso pode ser verificado no filme “Um assunto de mulheres”, de 1988.

Ernaux, dessa forma, eleva o debate. Coloca-nos diante de assunto que é sensível, relevante e que deve ser do interesse de toda sociedade que seja solidária à luta das mulheres por mais liberdade para decidir o que fazer com o próprio corpo. Sendo assim, sua literatura está cheia do corpo, das escolhas, das contradições, da educação, da trajetória social, da relação com o outro, pois ela utiliza sua própria percepção para dizer-se ao mundo. Sua literatura permite que nos analisemos por meio de um outro, que é o outro da própria escritora. Essa característica torna Ernaux uma escritora singular, apesar do gênero memória ser povoado por uma quantidade enorme de escritores.

O posicionamento feminista é mais do que evidente na obra. Fica explícita a luta pessoal e a autodeterminação para levar à frente o desejo de realizar o aborto. Ela, uma jovem de 23 anos de idade, decidida a não continuar a gestação, buscou meios para pôr fim àquela condição momentânea; mas que poderia trazer transtornos para o resto de sua vida. Enfrentou o preconceito, a indiferença e a postura violenta de médicos, de colegas; o medo, a insegurança e, quiçá, o senso de culpa; e esteve, o tempo todo, sozinha com a incógnita – o que vai acontecer comigo e com o meu corpo?

“O Acontecimento” é um livro necessário. Foi escrito mais de trinta anos após o evento de 1963. Ela mesma diz na parte final da obra:

“Terminei de pôr em palavra isso que se revela para mim como uma experiência humana total, da vida e da morte, do tempo e da moral e do interdito, da lei, uma experiência vivida de um extremo a outro pelo corpo”.

“Eliminei a única culpa que senti a respeito desse acontecimento - que ele tenha acontecido comigo e que eu não tenha feito nada dele. Como um dom recebido e desperdiçado. Pois, para além de todas as razões sociais e psicológicas que pude encontrar naquilo que vivi, existe uma da qual estou mais certa do que tudo: as coisas aconteceram comigo para que as conte. E o verdadeiro objetivo da minha vida talvez seja apenas este: que meu corpo, minhas sensações e meus pensamentos se tornem escrita, isto é, algo inteligível e geral, minha existência completamente dissolvida na cabeça e na vida dos outros”. 

               

segunda-feira, maio 15, 2023

Uma resposta a partir de uma questão suscitada no WhatsApp


São boas as perguntas. Eu entendo a sua preocupação. Mas, não seria importante analisar o conteúdo daquilo que está sendo julgado?

Você acha que as decisões do Alexandre são meros caprichos jurídicos?

Não acredito que o Randolfe esteja sendo privilegiado pelas decisões do STF. Falar em ditadura do STF é bastante forte. É a retórica usada pelos bolsonaristas. Estamos a falar da instância máxima de decisões jurídicas do país. Com exceção do Kássio Nunes e do André Mendonça, penso que os demais ministros estejam à altura da Corte. Eu acredito que a culpa do STF foi ter se omitido em anos anteriores, quando permitiu que absurdos continuassem a ser praticados. Um exemplo foi a conivência com a existência da lava-jato e o acovardamento diante das notas golpistas de alguns milicos de pijama.

Mais uma vez: o PL é necessário. Condená-lo na integralidade é um erro. O PL não é do Governo atual. Ele está sendo debatido desde 2020; o PL não concede poderes de censura ao Governo. Ele “moraliza” o uso e a forma como as plataformas disseminam informações.

Outra questão importante: um amplo espectro da vida social é regulado por normas. Por exemplo, existem regras de como você deve negociar; regras para construir a sua casa; até que ponto o seu muro deve avançar na calçada; regras de como se deve comercializar alimentos. A forma como você conduzir o seu veículo. Ora, por que não deve haver regras para organizar o uso de um espaço tão imponderável como as redes sociais?

Semana passada, a Revista Piauí fez uma reportagem bastante interessante sobre o número de brasileiros conectados à internet. Os números são avassaladores. Atualmente, 84% dos brasileiros têm acesso à internet (181,9 milhões). Em 2013, eram 102 milhões.  O crescimento em uma década foi de 78%. A quantidade de brasileiros com internet, mas sem saneamento básico equivale à população do Equador. Ou seja, o total chega a 18 milhões de pessoas. Segundo a reportagem, esse valor é duas vezes a população da Áustria.

Dentre os brasileiros conectados, mais de 9 milhões recebem salário inferior a 550 reais e 1,27 milhões não têm acesso à água potável. Os brasileiros gastam tanto tempo na internet quanto ingleses e japoneses somados. Em 2022, um brasileiro médio passou 9 horas e 32 minutos na internet por dia. O brasileiro passa o dobro de horas que um americano no Instagram. Em média, o brasileiro gasta, por mês, 15 horas e 54 minutos. É uma das médias mais altas do mundo. Só perde para os filipinos. São 954 minutos. Lendo uma página por minuto, seria possível ler um livro de 954 páginas em um mês. Seguindo essa matemática, seria possível ler o "Ulisses", de James Joyce ou "O homem sem qualidades", do Robert Musil. No Yutube são 22 horas. No Facebook, 12 horas; no Twiter, 12 horas e 48 minutos.

O caso do WhatApp impressiona. Por mês, os brasileiros ficam 28 horas e 36 minutos. Daria para ler "Guerra e Paz", do Tolstoi (risos). Os franceses ficam em média 5 horas e 30; os australianos, 5 horas e 36; os estadunidenses, 7 horas e 24; os canadenses, 7 horas e 36.

Esses dados comprovam a necessidade de que haja uma legislação para impedir abusos. As crianças, adolescentes e jovens são os alvos preferenciais dessas plataformas. Além disso, existem outras com um potencial de demolição muito maior. No Brasil, não resolvemos os dramáticos gargalos da educação básica, mas quase que conseguimos que a integralidade da população tenha acesso à internet. São as contradições que nos assolam. 

terça-feira, maio 02, 2023

As origens da religião e do deus judaico-cristão

 

                
O fenômeno religioso me interessa em muitos aspectos. O homem é em essência religioso. A religião representa um esforço do homem para organizar e entender o mundo. Ela nos remete a um período da história do gênero “homo” em que era necessário entender a natureza e os seus movimentos. Sem conhecimento científico, sem ferramentas para realizar uma sistematização do conhecimento de forma racional, os homens precisaram criar histórias míticas para que a realidade fosse ordenada. Viver em um meio adverso, sem ter uma âncora explicativa para os movimentos da natureza levaria o ser humano a não suportar a própria existência. E daí que surge a religião como um fenômeno humano, como uma dimensão essencial da vida.

Houve um período em que não havia nem deuses nem religião. Havia apenas a natureza com as suas leis. A consciência de si e do mundo permitiu ao homem a elaboração de sofisticados símbolos. O símbolo (significante) cria uma mediação entre o mundo e o próprio homem, pois carrega um significado (conteúdo virtual do significante). As religiões precisam de símbolos, assim como as demais manifestações humanas. Ao criar símbolos, o homem passou a criar cultura. As religiões são manifestações da cultura e das condições materiais de certa época e lugar.

A religião judaico-cristã como qualquer religião está repleta de disputas e influências. Analisá-la hoje como um fenômeno monolítico é desprezar algumas importantes situações que foram responsáveis pela sua formação. É como, se diante de um trem, observássemos apenas um dos vagões, desprezando as demais composições. Um vagão apenas não é o trem. A religião dos antigos judeus era politeísta. Como era comum aos antigos povos do Oriente Médio, Israel possuía inúmeras divindades. Isso pode ser notado nos vários relatos bíblicos do Antigo Testamento. Javé era apenas uma das divindades. Fazia parte do panteão dos cananeus. O panteão cananeu era constituído por setenta deuses e deusas. Javé era mais uma das divindades, cujo patrono era o amoroso deus EL. Sua consorte era Aserá. EL significa “senhor”. No Pentateuco, aparecem inúmeras referências a EL – “El Shaday” (El ou “senhor da montanha”); El Elyon (el ou “deus altíssimo”); EL Olam (El ou “senhor altíssimo”); ou a designação majestática Elohim, que significa “Elvadíssimo”, “Altíssimo”.

O fato é que há um momento na história em que os isra-el-itas decidiram abolir o politeísmo e cultuar Javé como a sua divindade suprema. Os outros cultos foram proibidos. Um dos cultos mais praticados no Israel antigo era o culto a Baal, um jovem e viril guerreiro. A abolição de outros cultos não foi tranquila. Vários séculos foram necessários. É possível que o culto a Javé só tenha sido consolidado no período dos Macabeus, pois havia uma forte questão nacional envolvida.

No vídeo que pode ser encontrado no link a seguir, o professor Emerson Borges explica como se deu “a origem do deus bíblico”. Um excelente vídeo.

1. Indicação de leitura: https://g1.globo.com/Noticias/0,,MUL652419-9982,00-DEUS+BIBLICO+PODE+SER+FUSAO+DE+VARIOS+DEUSES+PAGAOS+DIZEM+ESPECIALISTAS.html

segunda-feira, abril 24, 2023

A história, a mitologia judaico-cristã e as mulheres

 

Ao longo da história, observa-se um movimento que sempre procurou tornar as mulheres seres sem vontade. Em quase quatro milênios de história registrada, é proeminente a hegemonia do protagonismo do discurso masculino. A historiadora Gerda Lerner afirma que mais de 90% dos registros históricos desse período foram feitos por homens.

Observa-se o quanto as mulheres foram definidas a partir de uma valoração sobre o corpo. Elas sempre foram alvos de uma catalogação. Houve, por exemplo, a determinação de que as mulheres são seres maternais, frágeis, concebidas para as tarefas subalternas, domésticas. O espaço da rua, das ações, das decisões foi feito para os homens; já o espaço das mulheres é o “espaço do recôndito” – da cozinha, do quarto. Mesmo quando o homem está em casa, a casa passa a ser segmentada – a sala por ser o lugar dos encontros e da sociabilidade é do homem; à mulher, cabe a cozinha.

A catalogação fornece um lugar à mulher – os homens são seres da cultura; a mulher, um ser da natureza. No entendimento masculino, as mulheres existem para preencherem certas atividades. Passaram a ser acessórias ao homem.

O mito bíblico-judaico afirma que Javé (que personaliza o masculino), criou para Adão “uma auxiliadora idônea”. É necessário destacar que "idôneo" é aquele ou aquela que auxilia, que presta uma ajuda, uma assistência. Aparece como alguém que está ao lado; que não possui protagonismo, que está à sombra de algo. Esse ser só é quando está ligado ao elemento definidor de sua existência, pois surge como apêndice. A palavra “idoneus” significa “bom”, “útil” ou que “demonstra perfeito estado”. A Bíblia na Linguagem de hoje é mais reveladora no sentido de tornar mais explícita a despersonalização da mulher. Nota-se o que Javé afirma: “Não é bom que o homem viva sozinho. Vou fazer para ele alguém que ajude como se fosse a sua cara metade”. Ressalta-se, mais uma vez, que a mulher só é algo enquanto estiver ligada ao homem. Ela nunca está só; é sempre a partir de algo. A ideia de “cara metade” possui ecos da filosofia grega; todavia, o entendimento aproxima-se disso, pois a mulher nunca é inteira, completa. Ao longo de mais de quatro mil anos de história, houve sempre o discurso da incompletude; ou que sua missão é estar ao lado do homem para ser um com ele. Ou seja, ela nunca é algo estando sozinha.

A Bíblia de Jerusalém afirma que após Javé ter criado o homem, o próprio homem afirmou: “Ela será chamada mulher, porque foi tirada do homem”. O homem passa a ser uma espécie de tutor da mulher, dando-lhe um nome, definindo-lhe a forma, a natureza.

Ainda no livro de Gênesis, encontra-se estupefaciente passagem sobre a condição: "Teu desejo te impelirá ao teu marido e ele te dominará" (Gn 3.16). Fica subjacente no texto a nação de que mulher é uma entidade com instintos irrefreáveis e em constante ebulição. Somente contida pela força atávica do homem. 

A mulher, assim, ao longo da história, possui um desejo tutelado. Enquanto os homens são aqueles que registram a história, são os seres que produzem a cultura, as mulheres são os seres auxiliares, que existem para satisfazer os homens. A história foi feita por homens, por isso as mulheres nunca tiveram um lugar de protagonismo. A Bíblia corrobora aquilo que Gerda Lerner afirma, pois foi feita à imagem e semelhança do macho. Quando não é Javé que fala, é o homem que assume o seu lugar para definir os papéis das mulheres no mundo. Observa-se ainda que não há uma única autora em qualquer narrativa bíblica. Os registros dos mitos bíblicos foram feitos por homens. E daí surge uma perturbadora pergunta: Caso as mulheres tivessem escrito a Bíblia, quais seriam as noções sobre o sagrado? Javé seria um ente melindroso, violento e contraditória como aparece em todo Antigo Testamento?

terça-feira, abril 18, 2023

"Latim em pó", de Caetano W. Galindo

 

Terminei o excelente “Latim em pó”, muito bem escrito pelo professor, tradutor, pesquisador, doutor em linguística Caetano W. Galindo. Recordei minhas aulas de linguística e sociolinguística do período em que fiz o curso de letras. Existem muitos livros sobre esse tema escritos por aí. O próprio autor reconhece. Mas, o que o torna especial? Vale mencionar que é um livro cuja maior importância é divulgar o que há de atual em matéria de pesquisa em torno da formação da língua portuguesa falada no Brasil. Outra importante contribuição diz respeito à divulgação de um material com essa relevante temática. Existem mitos diversificados em torno da nossa língua: o primeiro deles é que é uma língua difícil; que é uma língua originada em Portugal. Simplificar dessa forma não explica o fenômeno. Não. Aqui, como expressa Caetano Veloso – lembrado no título do livro – temos uma versão muito diferente daquele idioma surgido na Europa; aqui, nós temos um “latim em pó”.

            A língua portuguesa é a sexta língua mais falada do mundo. O Brasil em especial contribui significativamente para engrossar esse percentual. Existem quase 300 milhões de falantes da língua originada em Portugal. No Brasil, são mais de 220 milhões. Como qualquer língua, o português falado no Brasil possui algumas características. Olavo Bilac, que cunhou a tão famosa expressão “flor do Lácio” para indicar o local de surgimento da língua oficial do Império Romano, deve ser considerado. O português, assim como as demais línguas românicas, foi originado do latim. Todavia, somente esse dado não explica as atuais características do português.

            Houve um momento em que a língua portuguesa não existia. Os primeiros indícios do seu nascimento se deram nos séculos XI e XII. A presença árabe na península Ibérica foi determinante para que a língua também ganhasse características bem próprias.

            Quando os portugueses vieram diretamente para cá, em 1500, o português não foi introduzido de maneira automática como se pensa. O contato com as populações que estavam aqui, seguida pelo comércio de escravos permitiu que surgisse a chamada “língua-geral”. Galindo afirma algo importante sobre o processo de evolução de uma língua: “... o nome dado a uma língua é de certa forma o nome de uma fase histórica de determinado idioma em determinado local”. Nossa língua, por causa de inúmeras absorções, tornou-se muito diferente da variante falada em Portugal.

            O primeiro grande fenômeno linguístico brasileiro foi a chamada “língua-geral”. Em um país em que o tupi era o tronco linguístico predominante, o encontro de diversas línguas promoveu o surgimento de uma língua que, inicialmente, teve uma grande profusão na Colônia. Os jesuítas sistematizaram a língua-geral. Foi amplamente usada para a comunicação com os indígenas.

            A língua-geral, nos séculos XVII e XVIII, possuía mais falantes do que a língua portuguesa. Esta era usada pela burocracia da colônia. Mas, as populações analfabetas e marginalizadas não usavam o idioma da Metrópole. Da língua-geral, surgiu o nheengatu, usado no Nordeste e Norte do país. O nheengatu ainda é falado por populações do extremo da Amazônia. A língua-geral, hoje, é uma língua morta. Perdeu o seu uso, mas deixou marcas na língua portuguesa. Muitos topônimos usados amplamente em nossos dias – Paraná, Amapá, Aricanduva etc – foram assimiladas a partir da língua geral.

            Além da influência indígena, há ainda a presença dos dialetos africanos. Um país estruturado na escravidão de homens e mulheres africanos, certamente recepcionaria inúmeras palavras, expressões, maneirismos linguísticos originados dessas populações. Galindo fala do dominado que conseguiu inserir aspectos de sua cultura sobre o dominador. Sendo assim, no caso brasileiro, não há que se falar em português, mas em “pretoguês”. A versão do português falado por aqui não é mais – apenas – “a flor do Lácio”; o português brasileiro é um “broto africano”, que rebentou fecundamente por aqui. A nossa língua fala da nossa história. Das nossas marcas; dos nossos dilemas; da nossa maneira de ser. Língua é história; é identidade.  


quarta-feira, abril 12, 2023

De um comentário político a um colega

 


Não existem governos perfeitos e invulneráveis - ainda mais quando se trata do Brasil. Quando se fala de um governo, penso que a análise deve ser da "forma" e do "conteúdo".  É importante lembrar o que foi o ano de 2013 e o estrago que a Lava Jato provocou na política nos últimos anos. Observe como passamos a lidar com a política. Note que desde o golpe contra a Dilma, os governos foram ruins na forma e no conteúdo. Com relação ao governo Lula 3, há algumas aberrações na forma, mas há coisas necessárias no conteúdo. Quiçá você não concorde com o meu argumento, entretanto não existia outro nome e outro projeto que pudesse desfazer o esfacelamento pelo qual o Brasil passou nos últimos quatros anos.

O radicalismo é uma doença infantil. É importante não medir o atual governo por causa da práxis de alguns radicais. O governo possui boas intenções. Há um quadro com importantes e respeitáveis nomes. Se há erros, é da competência do próprio governo resolver essas pendências. Há um Congresso adverso e imoral. O compromisso do Centrão não é com o Brasil.

No Brasil, existe uma mídia canina, ciosa dos interesses do mercado. No fundo, essa midialona gostaria que o Bolsonaro tivesse vencido o pleito eleitoral do ano passado, pois a lógica segundo eles é: eu não importo com a "forma" - se ele é um não democrata; se ele é limitado, misógino, anti-indigenista, preconceituoso -; o importante é saber se o conteúdo nos privilegia - se continuaremos lucrando; para esses arrivistas, pouco importa se haverá desmantelamento do estado, das leis trabalhistas; se o povo vai ficar mais pobre; se vai comer ou não comer. Em um país como o Brasil, escravocrata e violento por natureza, um governo que carrega o emblema "de popular" não será bem aceito.

Há uma entrevista do Lira Neto no Foro de Teresina que reflete a grandeza e as contradições de Lula. A entrevista procura fazer aproximações entre Lula e Getúlio; e como cada um lidou com as crises políticas que enfrentaram. Não existem nomes mais densos, sagazes e com uma visão política tão ampla na política brasileira quanto os dois. Lula é um estrategista. Confesso que ele começou bem esses quase três meses de governo. Não teria como ser diferente com um Congresso como o que temos e com uma conjuntura tão adversa como a que se mostra.

Penso que a tarefa histórica do Lula 3 é resgatar a política do possível. Lula só venceu a eleição por causa da astúcia política que possui. Esquece-se de que a frente montada por Lula é resultado de uma conciliação política. O objetivo era derrubar a caquistocracia erguida por Bolsonaro e sua trupe. É preciso ter um pouco de paciência. Lidamos, nos últimos quatro anos, como diria Joseph Conrad em “O coração das trevas” com “o horror”.

Impressiona como, no presente, utilizam o udenismo para fazer crítica. É aquela velha fantasmagoria de um moralismo montado contra a corrupção. Às vezes, esses mesmos atores se munem de um discurso que, no fundo, carrega a anomalia queixosa e hipócrita montada por Carlos Lacerda. Note que a beligerância estruturada contra o governo repete os mesmos elementos do passado. Trata-se de uma recorrência trazendo à tona um moralismo requentado, colocando em disputada ‘Estado versus mercado’; ‘capitalismo versus comunismo’; ‘valores cristãos versus imoralidade de esquerda’. Há sempre um maniqueísmo em jogo; uma prática baseada no cancelamento. E, no fundo, essa gente é saudosa da Ditadura, da escravidão, da violência institucional; do desmatamento das políticas públicas; da posse do latifúndio; do mandonismo; da não-democracia.

E, com isso, condena-se um projeto de governo que é amplamente desenvolvimentista e nacionalista. Lula é um dos presidentes mais capitalistas que já governaram o Brasil.  Lira Neto diz que Getúlio costumava questionar: “Por que esses caras não me dão paz? Será que esses tubarões do capital não percebem que eu quero salvar o capital pra eles?”. Penso que o Lula faça os mesmos questionamentos.

Lula não é um disruptivo. É um conciliador. Penso que temos mais a ganhar com ele do que sem ele.


segunda-feira, março 20, 2023

"Caminhos Cruzados", de Erico Veríssimo

 


                A década de 30 do século XX foi uma das mais ricas para a literatura brasileira. Viveu-se o que se convencionou chamar de Segunda Geração Modernista (1930-1945). A literatura produzida por aqui desenvolveu o seu engajamento. Liberdade para criar e reconhecer as contradições brasileiras ganharam forma. Tanto a poesia quanto a prosa assumiram uma posição de denúncia. Há nomes importantes na poesia – Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Jorge de Lima, Murilo Mendes. Na prosa, também se observa a força, a pujança das narrativas, uma preocupação com a crítica à condição do homem numa sociedade repleta de duros antagonismos.

                No Nordeste, há nomes que impressionam pelo aspecto prolífico da produção. As questões regionais passaram a ganhar visibilidade. A seca, as desigualdades, o jogo político que fazia com o poder pertencesse a certas famílias – as velhas oligarquias, fruto da formação social e econômica do país -, são expostos por Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado, Amando Fontes, entre outros.

                Pode-se observar ainda um movimento que tende a revelar os dramas do homem urbano. Os escritores apontavam as lutas do homem da cidade. Suas dissonâncias. Seu mal-estar psicológico. A urbe capitalista é o espaço em que o ser humano encontra-se exposto às ambivalências; à solidão; ao aparente; à angustia. Os gestos não definem um ensaio de definição.

                Erico Veríssimo foi certamente um mestre nesse sentido. “Caminhos cruzados” foi o seu segundo romance, escrito no ano de 1935. Veríssimo à sua maneira, com uma prosa ágil, despojada, dedica atenção aos homens e mulheres da Porto Alegre da primeira metade do século XX. Erico descreve com inconformismo a realidade das vidas humanas embrutecidas ou vulnerabilizadas pela luta no palco social. Ninguém está livre da crise. Seu texto é imensamente humano.

Erico Veríssimo. 

                A paisagem urbana esconde os dilemas. O romance possui vários nichos narrativos, que funcionam como uma novela. Cada capítulo dedica-se a uma personagem. Vamos conhecendo um a um; solidarizamo-nos com um; tomamos aversão a outros. O autor parece apresentar um prédio para alguém que passa pela rua. Ele aponta o seu dedo e vai descrevendo as histórias que povoam cada apartamento. Em alguns deles, notam-se a exuberância, o luxo, a vaidade. Em outros, a singeleza, a humildade, o despojamento. Como diz Antonio Cândido, é como se o escritor dividisse as personagens em dois grupos: o grupo “A”, formado pelos ricos; e o grupo “B”, formado eminentemente pelos pobres.

                Veríssimo denuncia as desigualdades sociais e a indiferença. Em um período sensível da história nacional, que estava na iminência do golpe de Estado de Vargas, não faltou quem visse intenções revolucionárias na pena do escritor.

                O gaúcho, também autor de “Incidente em Antares”, utiliza a técnica do contraponto, segundo ele, apropriada da obra do inglês Aldous Huxley. É curioso perceber como essas personagens diversas e contrastantes se aproximam e se cruzam pela urdidura da vida social. É nesse ponto, que Veríssimo realiza o movimento primoroso do acerto, pois, ao estabelecer essas conexões, ele captura a imagem de uma sociedade inteira.

                O romance gerou escândalos e protestos. Os conservadores ciosos dos valores da família, enxergaram imoralidades. Moacyr Scliar afirma que, quando adolescente, a leitura do livro era terminantemente proibida. Despertou também furor político, pois a obra foi acusada de disseminar o comunismo. Sim. Essa palavra tão incompreendida; tão onipresente no imaginário da classe média brasileira; essa palavra cujo conceito é desconhecido por muitos. 

                 Ao lermos o romance, não notamos nada disso. Observa-se que Erico é habilidoso em realizar uma crítica firme contra um país que invizibiliza parte de sua população. Se Erico suscitou debates, é pelo fato de sua obra está entretecida pelos limites impostos pelo mundo material. As personagens do livro são motivadas pelo sonho, pela esperança, mas têm suas intenções estilhaçadas pelo mundo real. Nada mais atual que isso. E nesse sentido, este romance do autor gaúcho ainda continua dizendo muito.


terça-feira, março 14, 2023

O ganhador do Oscar 2023



Demorei mais de uma semana pra ver "Tudo em todo lugar ao mesmo tempo", ganhador da edição 2023 de melhor filme do Oscar. A história me pareceu aberrante. Não me capturou. Não conseguia acompanhar mais que 20 minutos. Muito chato. O Oscar possui a sua fórmula particular de nem sempre premiar de maneira adequada qual a melhor produção cinematográfica. É só olhar as premiações de melhor filme dos últimos anos: 2022 - "No ritmo do coração"; 2021 - "Nomadland" (que é até bonzinho)"; 2020 - acertaram; premiaram o coreano "Parasita". Houve até o chato "A fórmula da água" há alguns anos.
"Tudo em todo lugar" é um pastiche de "Matrix", feito por um adolescente que gosta de videogames e animes com pretensão a filme "cult".

Penso que "Nada de novo no front", "Banshees de Inisherin", "A Baleia", "Tár" ou "Entre Mulheres" tenham muito mais conteúdo do que o entediante ganhador de 2023.

Minha intuição é a de que, em Hollywood, há aqueles que não se satisfazem com a adequada e certeira fórmula da boa história, do bom enredo, do cinema com "c" maiúsculo. Estão apenas à cata de novidades, de excentricidades.


"Tudo em todo lugar ao mesmo tempo" é apenas isso: uma excentricidade.

quarta-feira, março 01, 2023

30 anos de um regresso

 


Minha família migrou para a Capital Federal em 1989. Eu recém completara nove anos de idade. Foi um evento grandioso, capaz de sugerir mudanças e descobertas. Eu era um sujeito matuto – e de certa forma ainda sou. Essa palavra deriva do latim “matto” (‘floresta’, ‘arbusto’), acrescida do sufixo “–uto”, cujo significado exprime ‘aquilo que se liga a algo’. Verifica-se assim que matuto é aquele que veio da zona rural, do mato; ou aquilo que faz referência ao mato. No Brasil, essa palavra ganhou acepções para indicar, de forma depreciativa, aquele que é rústico, acanhado, tímido.

                No Nordeste, a palavra possui grande resplandecência. Ser chamado de matuto indica objetivamente aquele que possui dificuldades para, como diz o antropólogo Roberto DaMatta, realizar a “navegação social”.

                Ser criança na periferia do Distrito federal no início dos anos 90 foi algo curioso. Fiquei quatro anos sem voltar ao meu Pernambuco. Esperei três anos para realizar o épico caminho da volta. Dessa vez, eu, meu irmão e minha mãe íamos na condição de visitantes. Para um sujeito recém-entrado na adolescência como eu, aquilo possuía uma inebriante fragrância. Fomentava imagens, ficções; assinalava enredos.

                Recordo precisamente o dia que saímos. Possivelmente, tenha sido numa sexta-feira à noite. Era o costume. Dessa forma, chegava-se ao Recife no domingo pela manhã. Não consigo esquecer os efeitos daquela saga. A primeira noite forneceu-nos uma acomodação ignominiosa. O ônibus ziguezagueava em meio à estrada calamitosa. A BR-020 era um queijo suíço. Os solavancos recorriam com abreviada recorrência. A suspensão mole do ônibus fazia-me crer que estava em uma gangorra. Em dados momentos, o motorista direcionava o veículo para uma estrada clandestina que se formara paralela à rodovia. Era o resultado da peleja dos outros motoristas tentando fugir da estrada com aspectos lunares.

                Tudo me parecia grandioso: o mundo, as paisagens, as paradas que aconteciam em intervalos irregulares – 15 minutos, 20 minutos, 30 minutos. O motorista da vez verbalizava: “Esta é cidade tal. Pararemos aqui por 15 minutos”. Era o tempo que os assustados, atarantados passageiros teriam para ir ao banheiro; ou espicharem o corpo cansado pela refrega contínua da viagem. Ficava de olhos arregalados. O ônibus não possuía ar condicionado. Viajávamos com as janelas abertas. Recebíamos o bafo quente, mesclado pelas partículas do tempo.

                Minha mãe com duas criaturas que não foram iniciadas no traquejo social – eu e meu irmão -  fazia advertências. Espavorido, eu arregalava os olhos. Memorizava, como se estivesse verbalizando um credo forçado, os números de registro do ônibus. Movia-me com metódico cálculo. O medo de ficar para trás era um fantasma que revoluteava como uma sacola agitada pelo vento ao meu redor. Ficávamos com os olhos grudados no ônibus da Itapemirim. Íamos assim até o nosso destino final. Toda parada envidava uma operação com estratégias estudadas com esforço.

                Transposta a tumultuada primeira noite, os passageiros gestavam uma curiosa solidariedade.  Conversavam. Pareciam velhos amigos. Entravam em minudências. Segredavam os destinos para onde iam. Compartilhavam – em certos momentos – os tímidos repastos. Minha mãe se munira com biscoitos, maçãs e farofa para realizar a heroica travessia e saciar a fome de sua prole.

                Aquela viagem me ensinou a entender o movimento de volta, o regresso. Ao voltar, nota-se o efeito do tempo. O regresso permite a gestação de expectativas. Passa-se a compreender certas coisas. Olha-se com desvelo o corriqueiro. É a saudade que nos empurra para trás. E como diz Guimarães Rosa: “Toda saudade é uma espécie de velhice”. Mais tarde, eu compreendi que por estar voltando, eu era um Ulisses com a expectativa de reencontrar a minha Ítaca.  

terça-feira, fevereiro 21, 2023

"Nada de novo no front" - livro e filme

 

Segundo o jornal alemão DW Brasil, o filme "Nada de novo no front" foi o grande ganhador do BAFTA 2023, o principal festival de cinema do Reino Unido. A produção alemã estabeleceu um marco como o filme estrangeiro que mais ganhou estatuetas na história do Festival - sete no total.

Devo afirmar que foi um dos melhores filmes que vi ano passado. "Nada de novo no front" é baseado no sensacional romance homônimo, escrito pelo alemão Erich Maria Remarque. Li o livro em 2020. É uma leitura marcante. Visceral. Daquelas que causam um forte impacto. Fiquei várias dias com as descrições ecoando dentro de mim. Pode-se afirmar que Remarque é o Varlam Chalamov alemão pelo poder de sua escrita, de frieza e crueza com que constrói a memorialística da dor. Quando vi que a adaptação do filme estava disponível, não hesitei, vi-o imediatamente. Assisti a ele, rememorando a crueza da estupidez da guerra explicitada com a lancinante caneta de Remarque. 

Na obra revela-se o niilismo da guerra; o quanto ela abisma e separa; como homens que têm histórias comuns são conduzidos para a morte, deixando para trás suas famílias e muitos sonhos. O próprio Remarque aos dezoito anos, teve de deixar os estudos para se alistar no Exército Alemão a fim de participar da Primeira Guerra Mundial. Havia um ideário fantasista sobre a Guerra. Os jovens ingressavam no conflito sem terem noção de que estavam indo para o meio de um conflito estúpido e sem sentido. Remarque foi ferido três vezes ao longo da batalha. Quando regressou do campo de batalha, exerceu vários ofícios até se estabelecer no jornalismo. Seu país estava destruído material e economicamente. Suas noites eram povoadas por insônias amargas. Lembrava os horrores da peleja. Os amigos mortos. A violência. Os corpos dilacerados. A sujeira. A fome. O medo. Passou a anotar em cadernos as suas memórias. Foi desse material que nasceu "Nada de novo no front". 

Publicado em 1929, o livro tornou-se um êxito literário imediato. Os jovens alemães liam-no sofregamente. A idealização era contrastada por um relato que questionava o fundamento do conflito. Para quê a guerra? Qual a sua utilidade?

Em 1930, o filme foi levado às telas pela primeira vez. Provocou um retumbante sucesso. O grupo nazista que estava em ascensão na Alemanha, irou-se contra o pacifismo manifesto da obra. Muitas sessões de cinema foram sabotadas. Ratos eram soltos nas salas onde o filme estava sendo exibido. 

Em 1933, ano em que Hitler chegou ao poder, o livro foi banido da Alemanha. Ao lado de exemplares de Thomas Mann, Sigmundo Freud e Stefan Zweig, o livro de Remarque ardeu nas muitas fogueiras acesas, no dia 10 de maio, na Alemanha. O objetivo era "purificar", realizar uma "limpeza" literária no Reich; acabar com os elementos 'estranhos que trouxessem fraqueza e alienação à cultura alemã'.  

Tanto o filme quanto o livro (principalmente) merecem ser visitados. 
 
Coloquei o filme "Nada de novo ao lado" de "Vá e veja", do russo Elem Klimov, um dos melhores filmes de guerra de todos os tempos. 

P.S. A trilha sonora do filme é muito boa. Escutei-a hoje cedo no Spotify.

 

segunda-feira, fevereiro 13, 2023

O "homo bolsonaricus" e um comentário do professor Luis Felipe Miguel


Semana passada, li um excelente comentário do professor Luis Felipe Miguel em sua página do Facebook sobre o pendor para a perversão de Jair Bolsonaro. O mestre da Univerdade de Brasília apontava para os aspectos atrozes mais que conhecidos do bolsonarismo e do seu líder. O fator Bolsonaro tem feito cientistas políticos, sociólogos, psicólogos - e todos aqueles que desejem entender o que aconteceu com a sociedade brasileira – estudarem o que leva pessoas comuns – pais de família, pessoas comuns e outros nacos sociais graúdos - a se vincularem a um movimento – aquilo que se convencionou chamar de bolsonarismo - que possui um pacote ético declaradamente nocivo à humanidade e ao Planeta. 

Bolsonaro é daquelas pessoas que possui uma força de atração para piorar o seu semelhante. Não há virtudes; apenas o impulso para a delinquência. Que o sujeito que ocupou presidência do país por quatro anos seja assim, não é de se assustar. Ao longo da história, já houve inúmeros indivíduos cuja mesquinhez e a orientação para maldade eram visíveis. O que estarrece, na verdade, é a força de atração que esses sujeitos possuem. Como alguém em sã consciência pode ser arrastado para seguir as pautas tóxicas de um movimento que visa piorar a sociedade em que se vive? Bolsonaro e o bolsonarismo são indefensáveis. Ao se propor tal reflexão, não estamos aqui realizando a defesa deste ou daquele candidato. O que está em jogo é a orientação para maldade de um sujeito que sempre se utilizou de uma retórica favorável ao ódio e à morte.

Após quatro anos de um dos piores governos da história, Bolsonaro quase foi reeleito com 58 milhões de votos. Esse número espanta. Assusta saber que a população brasileira deu mais votos a eles do que ele teve em sua eleição em 2018. Curiosamente, todas as pessoas que se aproximam de Bolsonaro – ou do bolsonarismo – tornaram-se pessoas mais intolerantes e obtusas. Penso que o bolsonarismo já existia antes de Bolsonaro. O que se chama de “bolsonarismo” hoje é o resultado de um miasma pútrido do cadáver da violência e da intolerância de nossa história. O Brasil é um país que nunca privilegiou os direitos humanos. Nunca houve uma defesa das minorias e dos marginalizados. O Estado brasileiro e suas instituições sempre foram violentos. Some-se a isso a má formação educacional. A ignorância histórica e os níveis baixíssimos de cultura geral. O “homo bolsonaricus” é o resultado dessa fórmula terrível.

Segue o comentário do professor Luis Felipe Miguel:

Leio na imprensa que não foram só as carpas. Bolsonaro também matou as emas, dando a elas alimentação inadequada.

É impossível não pensar em Bolsonaro como uma encarnação do mal. Todos os seus afetos são egoístas e destrutivos. É incapaz de empatia, não há registro de um único gesto de solidariedade. Por onde passa, deixa um rastro de devastação.

Alguém que debocha das pessoas que ele mesmo está deixando morrer por falta de oxigênio. Basta isso para descrevê-lo.

Os filósofos discutem se o mal existe. Bolsonaro é um forte argumento a favor.

E o que dizer de dezenas de milhões de pessoas que o viram tal como ele é, porque ele nunca disfarçou (ou então disfarçava sem qualquer empenho), e votaram nele?

Gente que vê um vilão de desenho animado e pensa: “Opa, esse pode ser nosso presidente!”

Sim, o processo de formação das preferências políticas é complexo, ainda mais num ambiente tão saturado de desinformação e de manipulação. Mas não tem antipetismo ou teoria da conspiração que justifique a opção por algo tão aberrante.

Penso que Bolsonaro apela para o que há de ruim em todos nós. Como se demonstrasse que é possível nos livrarmos do fardo do respeito pelo outro, da compaixão, da reciprocidade, da generosidade, para chafurdar no egoísmo mais descarado e mais mesquinho.

É isso é tão atraente para tanta gente, desperta tanta identidade, que estão dispostos a entronizar alguém que represente esse ideal.

Cada voto em Bolsonaro, cada apoio que ele mantém, é um tapa na cara da nossa fé na humanidade.

Leio na imprensa que não foram só as carpas. Bolsonaro também matou as emas, dando a elas alimentação inadequada.

É impossível não pensar em Bolsonaro como uma encarnação do mal. Todos os seus afetos são egoístas e destrutivos. É incapaz de empatia, não há registro de um único gesto de solidariedade. Por onde passa, deixa um rastro de devastação.

Alguém que debocha das pessoas que ele mesmo está deixando morrer por falta de oxigênio. Basta isso para descrevê-lo.

Os filósofos discutem se o mal existe. Bolsonaro é um forte argumento a favor.

E o que dizer de dezenas de milhões de pessoas que o viram tal como ele é, porque ele nunca disfarçou (ou então disfarçava sem qualquer empenho), e votaram nele?

Gente que vê um vilão de desenho animado e pensa: “Opa, esse pode ser nosso presidente!”

Sim, o processo de formação das preferências políticas é complexo, ainda mais num ambiente tão saturado de desinformação e de manipulação. Mas não tem antipetismo ou teoria da conspiração que justifique a opção por algo tão aberrante.

Penso que Bolsonaro apela para o que há de ruim em todos nós. Como se demonstrasse que é possível nos livrarmos do fardo do respeito pelo outro, da compaixão, da reciprocidade, da generosidade, para chafurdar no egoísmo mais descarado e mais mesquinho.

É isso é tão atraente para tanta gente, desperta tanta identidade, que estão dispostos a entronizar alguém que represente esse ideal.

Cada voto em Bolsonaro, cada apoio que ele mantém, é um tapa na cara da nossa fé na humanidade.