segunda-feira, janeiro 07, 2013

Uma breve nota considerativa sobre um texto machadiano

Fazia de dez há doze anos que eu não lia Machado de Assis. Fui me afastando dele por motivos não óbvios. Razões racionais e objetivas não havia. Talvez, situações mais urgentes tenham feito que eu preterisse o Bruxo do Cosme Velho. Para o meu prejuízo. Penso que todo amante da literatura deve visitar Machado de Assis pelo menos uma vez ao ano. Ou seja, ir ao seu mundo, fazer uma incursão pelo que de melhor há em matéria de literatura, pois a estética machadiana é única. 

O último livro que havia lido dele ("Esaú e Jacó"?) não me é lembrado. O fato é que resolvi visitar duas de suas obras - "Quincas Borbas" e "Memórias Póstumas de Brás Cubas". Estes dois livros, juntamente com "Dom Casmurro", "Esaú e Jacó" e "Memorial de Aires" (todos da segunda fase, conhecida como realista) constituem aquilo que de mais excelso já foi produzido pela literatura brasileira - quiçá na história da literatura do Ocidente, corroborando com Harold Bloom. 

Ficar bastante tempo sem lê-lo fez com que eu me acercasse do juízo de que a fama do escritor carioca foi alardeada em excesso. Ou seja, que Machado era um caso de dimensionamento exagerado. Felizmente, eu estava errado. Machado é um cosmos. Estudar a história do Realismo ou o Naturalismo na literatura brasileira, é estudar o Naturalismo, o Realismo e Machado de Assis. Seu texto é mais complexo do que um bloco histórico ou uma escola literária. Machado é um amálgama. Afinal, quanto já não se tratou do aspecto mágico e fantástico de Memórias Póstumas1

O fato é que ler Machado de Assis, após tanto tempo, permitiu que o seu texto se tornasse mais vivo, mais claro, mais denso, mais largo. Uma coisa é ler Machado de Assis aos vinte anos; e ler Machado após os trinta se constitui em algo bem antagônico. A prosa de "Quincas Borba", livro cujo texto Machado demorou aproximadamente cinco anos para escrever, é um tecido bem ajustado. Cada palavra, cada graça, cada ironia, cada apreciação psicológica, cada digressão, cada diálogo é um nota musical de uma sinfonia. Cada personagem - Quincas Borba, Rubião, Cristiano Palha, Sofia; a teoria de humanitas; a célebre frase: "Ao vencedor, as batatas", não está ali por acaso.

Machado possui um controle assustador da sua prosa. Conseguiu uma maturidade, uma habilidade para narrar, que somente um escritor maduro, arguto e experimentado como ele poderia desenvolver. A cada nova página que leio, afirmo para mim mesmo: "Esse sujeito era um cavalo! Vai escrever bem assim na baixa da égua!" É a única forma que encontro para soltar a minha indignação admirada. 

João Pessoa-PB

sexta-feira, janeiro 04, 2013

Como G.K. Chesterton pensava e argumentava

Ontem eu fiz uma pequena explanação sobre uma afirmação do inglês G.K. Chesterton sobre Nietzsche. Encontrei fortuitamente, no Youtube, duas dramatizações de como Chesterton raciocinava; de como suas ideias fluíam com bastante elegância e desembaraço. Sempre moderado, com um toque suave de ironia e sarcamo, Chesterton era uma atração para o público, que lotava auditórios para ouvi-lo falar. Nos vídeos, o inglês fala sobre milagres, fé, ciência, religião, cristianismo, sempre com um tom calmo, de quem tem controle sobre tudo aquilo que fala. Abaixo, os vídeos:
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quinta-feira, janeiro 03, 2013

Uma afirmação de Chesterton sobre Nieztsche

Influenciado pelo meu colega de espaço virtual Charlles Campos comecei a ler Ortodoxia, de G.K Chesterton. Curioso nisso tudo é que percebo que existe uma plaga bastante diversa de blogs. Os sujeitos não se conhecem pessoalmente, mas acabam se relacionando de tal modo, que dá uma ideia de que a amizade é antiga.

O inglês é um argumentador habilidoso. Impressiona como ele é capaz de analisar um objeto sob os mais variados ângulos.  Não avancei muito com a leitura. Mas o suficiente para perceber o quanto Chesterton labora a questão do fundamentalismo dos mais diversos matizes. Tanto o ateu, o materialista , o cristão ou como qualquer indivíduo arraigado em seu sistema filósofico torna-se um religioso. É a atitude de arrogância intolerante que conta nesse caso. Seus argumentos são sólidos. Fogem do jargão convencional. 

Chesterton era cristão. O nome do livro já nos aponta algo absoluto (ortodoxia - palavra formada por dois termos gregos: (1) ortho - "correto", daí vem a palavra ortografia, que é "a escrita correta"; o segundo vócabulo é doxxa - "adoração". Ou seja, a palavra ortodoxia faz pressupor "a adoração correta" ou os "princípios que validam a fé de certa forma".

Todavia, não concordei com o trecho na qual Chesterton raciocina como um verdadeiro cristão falando de Nietzsche. O filósofo alemão é um enigma. Como a esfinge, diante dele, ou o deciframos ou acabamos sendo devorados por ele. Suas provocações não nos deixam sem posionamentos. Diante dele assumimos duas atitudes: "(1) ou de repulsa completa, classificando-o como intragável e um sátiro, um cínico; (2) ou nos aliamos a ele, admirando-o, rindo dos outros; abrindo os olhos; refletindo o que senso comum não nos permite refletir. Nietzsche não era um filósofo de planícies. Era um filósofo de montanhas. Se ele descia para o mundo dos homens, era para rir dos desatinos da humanidade. Não dá para ficarmos insensíveis diante dele. Jamais.

Todavia, Nietzsche não fazia a crítica pela crística. Havia uma finalidade em sua filosofia. Uma proponência. Quando Chesterton afirma que Nietzsche não sabia rir, penso que haja um equívoco nessa frase. Não havia um sátiro maior do que Nietzsche. Em Zaratustra, o alter ego do filósofo, achamos o riso largo e despudorado do alemão. Ou ainda em A Gaia Ciência encontramos aquela famosa epígrafe:

"Moro na minha própria casa,
Nunca imitei ninguém,
Rio-me de todos os mestres
Que nunca se riram de si".
(Inscrição sobre minha porta)

Talvez Chesterton se inscreva naquela classe de cristãos que amaldiçoam Nietzsche e ficam tentado achar explicações "espirituais" para a paralisia que acometeu o filósofo nos seus dez últimos anos de vida. Certa vez ouvi alguém dizer que Nietzsche havia ficado naquela situação por causa do pecado. Era um castigo de Deus. Ou como já vi em algumas camisetas: "Deus está morto! Assinado: Nietzsche" e "Nietzsche está morto! Assinado: Deus", o que não deixa de fazer parte de um instinto de fraqueza, uma espécie de revanchismo ressentido. Uma tentativa de resposta. Um escárnio daqueles que nunca entenderam aquilo que Nietzsche tentou dizer com essa frase que faz parte do "lugar comum".Virou moda e faz parte de um comércio especulativo.

Mas acredito que Chesterton era muito inteligente  para pensar assim.

"Nietzsche tinha algum talento natural para o sarcasmo: ele sabia escarnecer, embora não soubesse rir; mas há sempre algo incorpóreo e sem peso na sua sátira, simplesmente porque ela não tem nenhum peso de moralidade comum em que se apoiar. O próprio Nietzsche é mais absurdo que qualquer coisa por ele denunciada. Mas, de fato, ele se sustenta muito bem como exemplo típico de todo esse fracasso da violência abstrata. O amolecimento do cérebro que no fim o atingiu não foi um acidente físico. Se Nietzsche não houvesse acabado na imbecilidade, o nietzscheanismo o teria feito. Pensar no isolamento e com orgulho acaba na idiotice. Todos os homens que não passam por um amolecimento do coração devem no mínimo passar pelo amolecimento do cérebro". (Chesterton, in Ortodoxia).


terça-feira, janeiro 01, 2013

"Pálido ponto azul", uma reflexão de início de ano a partir de um vídeo de Carl Sagan

Não quero parecer pedante com este post. Não quero parecer leviano; nem ostentar aquilo que não posso ser. Este é o primeiro post para o ano de 2013. E este blog nunca foi um espaço assediado por visitantes. Insisto em escrever garatujas, pois acho que isso é um exercício catártico. E se alguém passa os olhos por aquilo que escrevo, já me sinto feliz e realizado. Obrigado.

Ontem, assisti a um vídeo de Carl Sagan, o famoso entusiasta da ciência e uma das descobertas mais caras e graciosas do ano de 2012. Li e especialmente vi muita coisa sobre Sagan disponível na internet ano passado. "Pálido ponto azul" é o nome de um dos seus livros mais famosos. No vídeo, que também possui o nome do livro, Sagan faz uma bela reflexão a partir de um evento: A sonda Voyager fora enviada para além de Saturno e de lá tirou uma foto do nosso planeta. Aquela foto acabou impressionando Sagan. Ele viu, na foto, uma mancha pouco interessante. Que não chamava atenção. Não possuía atrativos. Um pequeno ponto pálido, com uma luz bruxuleante, no meio de um universo pontilhado de estrelas.

Naquele ponto tênue, aparentemente sem interesse, estava o centro de sua reflexão. Aquilo era o nosso planeta. A Terra é a nossa casa e fora dela (até agora) não temos notícias de vidas tão complexas como as nossas. Desse modo, Sagan nos propõe uma bela mensagem, afirmando que: apesar desse ponto sem atrativos ser tão inexpressivo no palco amplo e infinito do universo, ele possui uma relevância fora de qualquer especulação para nós. Não somos nada sem ele.

Pois tudo o que conhecemos e desejamos conhecer, fazemo-lo por causa dele. É nesse palco que estão as pessoas que amamos; onde nascemos, crescemos e morremos; é nesse palco que sentimos as nossas dores; é nesse palco de luz trêmula que guerras são travadas para satisfazer a megalomania de alguns e que numa geração seguinte o triunfo conquistado se fragmenta; é nesse mundo, que não possui vantagens em relação a qualquer outro lugar do universo, que fazemos germinar as nossas vaidades, nossos pretensos conhecimentos e inteelctualidade, que nada é senão vento e cinza e que o tempo se encarrega de apagar com suas areias operárias; é nesse palco que grassam as religiões, as ideologias, os combates; é nele que não aprendemos a viver em paz uns com outros, mesmo tendo a mesma origem e possivelmente o mesmo destino, já que não somos eternos - somos transitórios como o pequeno ponto pálido azul; é nesse mundo que vivemos que julgamos as coisas conforme a nossa vontade e não somos capazes de abrir mão daquilo que pensamos como centro de toda a verdade em algumas ocasiões. 

Mas é nesse palco, também, que estão fecundados os grandes atos que nos tornam tão especiais. É aqui que mostramos que somos uma espécie nova, curiosa e com grande potencial criativo. Afinal, foi aqui que viveu uma criatura como Sagan, como Mozart, Beethoven, Bach ou Shakespeare; como eu ou como você: Em suma: é aqui que estão as nossas misérias e as nossas poesias criativas.

E isso me fez pensar: o que vale a pena na vida? O que devo fazer para que a minha vida tenha sentido e seja feliz? Talvez a tentativa de encontrar respostas para essas perguntas seja de fato o grande fundamento da vida. A vida feliz não é baseada na quantidade de respostas que damos, mas na quantidade de perguntas que fazemos. Então, o que devemos fazer para que a nossa vida tenha sentido nesse pequeno ponto pálido azul? 

Conversando com a minha esposa hoje cedo, falávamos justamente sobre isso. E chegamos a um acordo em um ponto: ter um coração receptivo à bondade e ao cultivo de amizade é, talvez, o antídoto mais eficaz a tornar a nossa vida positiva nos 70, 80 ou 90 anos que viveremos. O que torna a nossa vida realmente feliz não é quantidade de conquistas individuais, mas a quantidade de realizações capazes de beneficiar outras pessoas. É isso que dura. Nossa vida é passageira, mas os nossos gestos podem durar mais do que nós. De certa forma, quando praticamos o bem, começamos a nos eternizar. É o amor, a tolerância e a capacidade de nos solidarizar que nos torna a nossa existência com sentido nesse pequeno ponto azul.

Que 2013 seja um ano de bondades explícitas e sorrisos de bondade!

Abaixo, o vídeo de Sagan. Se você não deseja ler o texto, pelo menos assista ao vídeo. Será uma bela reflexão-provocação para o ano de 2013
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segunda-feira, dezembro 31, 2012

Último post do ano! Na encruzilhada do tempo!

Que 2013 seja um ano bom, repleto de paisagens belas, já que "a beleza está nos olhos de quem vê" (Sartre); que seja regado a muitos sorrisos, música e literatura; que as amizades sinceras frutifiquem e as anêmicas se obliteram como badulaques imprestáveis; que meus olhos se fixem na bondade, na sinceridade e que eu saiba sorrir com os que riem e me solidarizar com os que choram; que eu esteja pronto para enfrentar os fatos positivos e os negativos com justeza de julgamento, pois o mundo existe como vontade e representação; que eu não desista quando os meus pés vacilarem e quando os meus olhos insisterem em se fecharem por causa do cansaço; que as águas imensas do tempo lavem a minha alma e limpem a sujeira que os dias trazem; que eu esteja pronto a me levantar quando tropeçar em algum fato; que a vontade de poder e desejo de ser bom sejam bússolas que me orientem em um mundo cada vez mais repleto de cínicos. Não sou suspeticioso e sei que determinadas coisas estão aquém do nosso controle, mas desejo a todos um extraordinário 2013.

sábado, dezembro 29, 2012

Admirável Mundo Novo, de Huxley, a distopia de um mundo programado

Devo confessar que o estilo de Aldous Huxley não me agradou. Após a leitura de Admirável Mundo Novo, surgiram-me duas visões sobre o escritor inglês.

(1) Aldous Huxley era um sujeito com ideias mirabolantes com um estilo ruim. O enredo de Admirável Mundo Novo é frankensteiniano. A sucessão de fatos segue uma lógica aleatória. Há furos medonhos. Os personagens são psicologicamente fracos. Huxley me trouxe a ideia de que há escritores que, por meio de um golpe de sorte, conseguem o sucesso. Não critico a intelectualidade do inglês, para qual os competidores eram poucos. Refiro-me à prosa de Huxley. Por vários momentos pensei em abandonar o livro. Mas havia algo grandioso ali. O escritor abordava algo elevado.

Refletia sobre a nossa sociedade brutalizada. Colocava-nos diante de uma sociedade distópica e futurista. A invenção habilidosa de algo que está lá, para lançar uma crítica dilacerante a algo que está aqui. Huxley viveu em uma época em que a ideia de totalitarismo e ditadura estava em voga - na Itália, de Mussolini, na União Soviética, de Stálin, na Alemanha de Hitler, na Espanha, de Franco. E nesse sentido, chegamos a um segundo ponto;

(2) Admirável Mundo Novo (Brave New World) foi escrito em 1932. É a obra que consagrou Huxley. Se não estou enganado, tenho aqui em casa Contraponto, A Ilha e O gênio e a deusa. Huxley se notabilizou pelas atitudes que tomou e pela engajamento intelectual. Talvez, no século XX, poucos foram aqueles que travaram de forma tão fremente uma batalha pelo conhecimento e alimentaram uma saciedade espiritual tão marcante quanto ele.

As reflexões suscitadas por Huxley ainda são absurdamente atuais. Que direção estamos tomando? O que é liberdade? A nossa ânsia pela liberdade e o crescente individualismo, não nos levará a um totalitarismo? A falência das religiões não nos levará a uma sociedade cínica? O tecnicismo não nos levará a uma sociedade a qual os valores éticos são negociáveis em nome da felicidade? O hedonismo de uma sociedade amorfa não nos levará a um mundo de aparências e de valores artificiais? Seria possível a invenção de uma droga, um fármaco que propiciasse a felicidade? No livro, existe o soma "para acalmar uma ira, para reconciliá-lo com os inimigos, para o tornar paciente e tolerante" (...) "Um Cristianismo sem lágrimas". (p.287). O soma na obra é o eixo de equilíbrio gravitacional das relações. É a substância produtora de prazer, bem-estar e tradutora dos melhores sonhos.


Essas são algumas das questões levantadas por Huxley em Admirável Mundo Novo. O escritor nos mostra o mundo em que o conceito de autoritarismo ganha nuances complexos. Ainda não vivemos em uma sociedade em que os "selvagens" são aqueles que leem a Bíblia, cultivam os valores da família, rezam e educam os filhos; encontram-se geograficamente isolados, vivendo em colônias. Uma sociedade clean, tecnicamente higienizada do ponto de vista material e social. Uma sociedade dividida em castas, no qual os seres humanos são fabricados. E nesse processo de fabricação são definidos a cor do cabelo, a cor da pele, a cor dos olhos, a capacidade intelectual. Ainda vivemos em um meio complexamente difuso. Mas a obra nos alerta para existência de um mundo despersonalizado, brutalizado pelos valores aritificiais, em que cada indivíduo é programado a sentir, a pensar e a viver de determinada forma. Para a ausência de altruísmo, de sensações daquilo que é belo e que nos comove. 

Ou seja, o livro nos alerta para a possibilidade de programação do ser humano. E a possibilidade da técnica nos tornar em esquizóides, algo deformado, amorfo, sem raízes, sem história. Em suma: quanto mais os níveis tecnológicos avançam, mais o homem se coisifica, mais se bestializa, mas se desperzonaliza, mais tende ao antinatural.

sexta-feira, dezembro 28, 2012

Ratos e Homens, de Steinbeck, excelente história

Ratos e Homens, livro de John Steinbeck, escrito em 1937, possui mais do que aparenta ter. É um daqueles livros que se deve ler com um assomo, um gole. Foi o que fiz. Li-o em uma manhã há alguns dias atrás. Comprara o livro numa daquelas seções reservadas aos pockets, aqueles livrinhos viciantes que acabamos comprando cinco ou seis de uma vez, naqueles intantes que nos propomos a namorá-los. 

John Steinbeck, ganhador do Prêmio Nobel no ano de 1962, focou a atenção num dos momentos mais conturbados da história do seu país - a Depressão Americana, aquele momento de falência do capitalismo na década de 30. Durante este período, que é resultado da Grande Crise de 1929, os Estados Unidos e vários outros países do mundo amargaram taxas impiedosas de colapso econômico. Desemprego. Fome. Pobreza excessiva. Recessão. Estagnação. Ausência de perspectivas no campo e na cidade. 

Com isso, a obra de Steinbeck narra de forma muito simples e singela, a história de Lennie e George, duas figuras completamente antagônicas. Os dois perambulam por regiões enormes da Califórnia em busca de trabalho. George é inteligente, franzino, consciencioso; Lennie, em contrapartida, é forte, ingênuo e bobo em excesso. Essas duas personagens vivem o sonho da posse da terra. Almejam ter um lugar onde pudessem viver de forma simples, sem as amarras obrigatórias que existem numa relação trabalhista de exploração. As duas personagens por trás da habilidade de Steinbeck são complementares. George parece ser aquilo qeu falta a Lennie - ou seja, a consciência, a inteligência.

É curioso como Steinbeck, um dos maiores romancistas do século XX, por meio de uma prosa simples, apresenta personagens que são verdadeiras metáforas de um momento histórico - uma mulher que sonha ser uma atriz de cinema e que tem a sua condição vulnerabilizada; é inteligente ao extremo, mas o fato de ser mulher impõe um fardo, uma sina, um carma.

Candy, um velho, que é metaforizado na figura do seu cachoro. Possuía um cachorro tão velho que teve de ser sacrificado. Com isso, Steinbeck quer demonstrar a terrível moral construída por uma sociedade que descarta aqueles seres que não possuem "mais nada a oferecer". A personagem consegue guardar dinheiro e tenciona comprar um rancho com George e Lennie. 

John Steinbeck
Crooks é outro personagem importante da obra. É um negro. Vive à parte. Não possui uma boa relação com os demais personagens. Dos funcionários da fazenda, parece que é o mais instruído. Possui livros. Um código jurídico - o Código Civil da Califórnia, de 1905. Todavia, o que é curioso é que por mais que conheça o código, o valor legal do código não lhe está franqueado. A lei não se materializa com efeitos plenos. Sua condição de negro é vituperante.

Os personagens são verdadeiros tipos. São representações da sociedade. Daquele que foi um dos momentos mais tristes do século XX. Steinbeck com a sua atenção voltada para sujeitos que são relegados, que estão à margem, narra o quanto existe de esperança, de beleza e de sensibilidade na alma da gente simples.

Este é o primeiro livro que leio de Steinbeck. Possuo outros livros dele aqui em minha biblioteca. O principal deles é As vinhas da ira, um dos mais importantes livros da literatura americana do século XX e de leitura obrigatória. Notei a habilidade de Steinbeck para fecundar o final de uma história. Os golpes lancinantes de emoções desferidos para extinguir a história. Após a leitura, ficamos meio bobos e a verbalizar: "Meu Deus!". Steinbeck nos atinge bem no plexo.

quarta-feira, dezembro 26, 2012

Devaneios ou como se aplica um golpe na consciência II

Na noite de Natal, do dia 24 para 25, como de praxe, eu e a minha esposa fomos a uma reunião de família. Como acontece todos os anos, muitas músicas cristãs alimentam o momento com uma aura rala de felicidade e paz. Logo após as músicas, foi feita uma pregação por um dos pastores da família. Foi lido o texto do evangelho segundo São Lucas: 

"A uma virgem desposada com um homem, cujo nome era José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria. E, entrando o anjo aonde ela estava, disse: Salve, agraciada; o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres. E, vendo-o ela, turbou-se muito com aquelas palavras, e considerava que saudação seria esta. Disse-lhe, então, o anjo: Maria, não temas, porque achaste graça diante de Deus. E eis que em teu ventre conceberás e darás à luz um filho, e por-lhe-ás o nome de Jesus. Este será grande, e será chamado filho do Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; E reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim". (Lucas 1:27-33).

Uma explicação bastante emotiva se consumou após a leitura do excerto. O discurso se fiou pelos caminhos da missão de Jesus. E qual a Sua missão? A resposta surgiu fáicl: livrar o homem do pecado. E o que é o pecado? Tudo aquilo que separa o homem de Cristo. Não deixei de observar que o sermão estava cheio de termos teológicos: queda, pecado original, justificação, redenção, predestinação, graça etc. 

O que é curioso nesse sentido é que Jesus não pronunciou nenhuma dessas palavras. Todas fazem parte da plêiade do universo paulino. O sermão ficou repleto de um discurso afetado pelo "mau humor" do apóstolo. Diferente daquilo que se vê nos evangelhos, linguagem grávida de bondade, de expectativa pelo reino de deus, tornou-se numa sentença condenatória - a típica verve de Paulo

Enquanto ouvia o sermão, fiquei pensando que acontecera a leitura do evangelho, mas o discurso proferido se conciliava com a força agressiva, bárbara e ressentida do corolário de Paulo.

Não é preciso ser um estudioso profundo para perceber a diferença nítida que existe entre os quatro evangelhos - narrativas sobre a vida de Jesus - e as cartas paulinas. Não é necessário fazer um estudo das fontes, das lacunas, do "documento Q"; estudar teologia, filologia, teoria do discurso, hermenêutica, para perceber que existe uma inflexão estilística nos textos paulinos. É como se dobrassêmos a esquina. A teologia de Paulo é uma esquina. Um leitor experiente e acostumado às nuances estilísticas de um bom texto literário, consegue perceber o antogonismo que se perpetra no Novo Testamento a partir da carta aos romanos. 

Por exemplo, um leitor treinado conseguirá perceber o estilo de Machado de Assis, de Graciliano Ramos ou Guimarães Rosa com muita facilidade. Se lhe vendassem os olhos e lessem os textos de um dos três autores, perceber-se-ia de maneira clara as diferenças - o desenvolvimento de ideias, a muicalidade, a jogo linguístico, as perorações, a fluência verbal etc. Ou seja, cada autor possui elementos idiossincráticos. Peculiares. Com o texto paulino não é diferente.

Dos 27 livros do Novo Testamento, a tradição ("a lenda dos santos", no dizer de Nietzsche) da igreja atribui 13 a Paulo. Existe ainda uma controvérsia em torno da Carta aos Hebreus. Para muitos, esse documento também teria sido escrito por Paulo. Todavia, não é algo assegurado e sustentado por muitos téologos conservadores.

O certo é que mesmo sem a carta aos Hebreus, o efeito do pensamento de Paulo se faz sentir no Novo Testamento  - e, consequentemente, na história do cristianismo. Sem o chamado "apóstolo dos gentios", a configuração do cristianismo não seria a mesma que temos hoje.

Somente um homem como ele, com uma personalidade que conjugava o bairrismo de um rabino e a força, a energia de um soldado romano, poderia ter tido a a criatividade para elaborar um conjunto de pensamento tão atraente e tão bem articulado como o pensamento paulino. Paulo tira o foco dos demais díscipulos em projeta-se como centro do discurso. Vislumbra-se aqui a necessidade de auto-afirmação. 

Mesmo dentro do judaísmo Paulo não era alguém benquisto. Ele mesmo afirma em uma das suas cartas (Galátas) que ficou quatorze anos se preparando para a missão que empreendeu. E daí nos surge um questionamento: não teria sido esse o momento em que Paulo sistematizou o seu pensamento? É possível que tenha ouvido os relatos dos evangelhos; tenha feito consulta a possíveis testetmunhas e tenha coligido o arcabouço daquilo que é a sua teologia. 

Paulo transformou a morte de Cristo num discurso triunfalista. Aqui é importante dizer que os evangelhos também não são narrativas fidedignas da vida de Cristo. Há muito de triunfalismo e a forja de eventos miraculos com a finalidade de transformar a existência de Jesus em algo miraculoso. Assim, no meio da narrativa evangélica é necessário encontrar as verdadeiras palavaras e ensinamentos de Cristo - um mestre por excelência. Os evangelhos não são relatos neutros e objetivos, o que lhes deformam a intenção. Foram escritos pela comunidade de crentes, logo, são viciados e parciais. Mas, nada impede que lá dentro encontremos "algumas" palavras de Jesus. 

segunda-feira, dezembro 24, 2012

Especulação sobre uma lista de livros (em construção)

Fazer listas de filmes ou de livros é algo complexo. Existe sempre a limitação pessoal. A experiência, o influxo de cada leitor. O crivo diletante daquele que faz a lista - o meu caso. Ainda me sinto muito pequeno para tal empreedimento. 

Caminhei pouco. Testemunhei poucas paisagens. Ainda faltam os muitos mundos de Tólstoi, de Melville, de Sterne, de Saramago, de Dostoiévsky, de Borges, de Córtazar, de Sábato, de Garcia Marquez, de Thomas Mann, de George Eliot, de Faulkner, de Swift, Cervantes, de Euclides da Cunha, de Guimarães Rosa, de Dickens, de Fernando Pessoa, de Jorge Amado, de Saul Bellow, de Philipp Roth, de Pynchon, de Clarice Lispector, Tchekhov, de Leskov, de Joyce e tantos outros que aqui não citei.

Tenho a consciência de que a minha caminhada foi curta; meus passos, estreitos. Ainda há distâncias enormes a serem percorridas. Polifonias variadas. Amplidões que se estendem até ao infinito. 

Antes de colocar a minha lista - que não segue uma ordem de importância; foram sendo assinalados à medida que lembrava -, gostaria de explicar a presença de duas obras - o livro de C.S. Lewis e o livro de Carl Sagan, nomes de significâncias tão antagônicas. 

(1) O livro de C.S. Lewis foi marcante em minha existência. Era o ano de 2002. Meu primeiro ano no seminário como estudante de teologia. Um mundo de especulação. De paixões frementes. Sonhos. Expectativas. Paixão neófita. De repente, caiu-me às mãos o livro de Lewis. Um encontro apaixonante - sem sombras de dúvida! Um deslumbramento. O livro foi escrito no ano de 1955 e conta a sua história de conversão à fé cristã; sua cruzada como intelectual. Uma autobiografia. Suas descobertas como literato nos colégios ingleses. A descoberta dos clássicos. Os caminhos inescrutáveis da mitologia. No ano de 2002, li o livro duas vezes. Já procurei em várias livrarias, em sebos virtuais, mas não o encontro. A edição está esgotada. 

(2) O livro de Carl Sagan me surgiu como uma força elegante e compressora. Não possui relação com a literatura. É um livro de divulgação científica. Mas, pela beleza, pelo estilo apurado, pela singularidade, pela abordagem, bem que deveria figurar entre os grandes clássicos. È o último livro escrito por Sagan. Aquele em que ele resumiu, compilou de forma burilada o seu pensamento. Sagan era um gentleman mesmo quando era duro, mesmo quando era implacável com o oponente. Posso parafrasear Kant e dizer que, quando li Sagan, 'eu acordei de meu sono dogmático'. Ou seja, passei a perceber o quanto a relatividade, a ausência de um olhar sem preconceitos é necessária para que hajamos e encaremos o mundo com bom senso. A verdade não é algo que uns possuam e, outros, não, como dizia Nietzsche; e ainda citando o grande filósofo: "Não nos enganemos; os grandes espirítos são céticos". Era justamente esse ceticismo que Sagan pregava. Para ele, para se chegar à verdade eram necessárias duas coisas: ceticismo e a ousadia para criar. 

Abaixo a minha lista (em construção) - ratificando: ela não é definitiva nem segue uma ordem valorativa:

1 - Angústia - Gracialiano Ramos;
2 - Crime e Castigo - Dostoiévsky;
3 - As Confissões - Santo Agostinho;
4 - Memórias Póstumas - Mchados de Assis;
5 - O processo - Franz Kafka;
6 - Memórias do Cárcere - Graciliano Ramos;
7 - O mundo assombrado pelos demônios - Carl Sagan;
8 - Surpreendido pela Alegria - C.S. Lewis;
9 - A náusea - Jean-Paul Sartre;
10 - São Bernardo - Graciliano Ramos;
11 - Os sofrimentos do jovem Werther - Goethe;
12 - O fausto - Goethe;
13 - O morro dos ventos uivantes - Emily Brontë;
14 - Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk - Leskov;
15 - O vermelho e o negro - Stendhal;
16 - Quincas Borba - Machado de Assis;

Há obras de autores que não citei como, por exemplo, Erico Veríssimo, Clarice Lispector, José Lins do Rego e outras obras de Machado de Assis.

P.S. Quiçá no próximo ano eu faça outra e outros nomes surgirão.

domingo, dezembro 23, 2012

Devaneios ou como se aplica um golpe na consciência I

Isso é algo que tem me perseguido nos últimos dias, mas não devo deixar de verbalizá-lo:

Ao criarem uma religião, os judeus se insurgiram contra as leis naturais. Eles mesmos se elegeram a raça eleita. Criaram a ideia de um deus carrasco, punitivo, egoísta, inimigo da humanidade; compensador de debilidades; patrocinador de extermínios; amante da culpa. Por que somente a religião dos judeus e, mais tarde, o seu mais conhecido derivativo, o cristianismo, deve ser entendida como verdade? É curioso perceber aqui como a história de um povo é sacralizada. Torna-se uma bússola orientadora. É transmitida ao mundo. Como o passado nacional de um povo se torna uma virtude. A base de toda moral. A ofensa contra Yaweh, a mais perniciosa de todas as ações.

Passou-se a medir os destinos do mundo pelos óculos parciais da história dos judeus. A história de Israel siu do plano de um ínfimo acontecimento, para ser a norma de destino do universo. As noções míticas preencheram os espaços vazios de uma época a-científica.

O golpe de misericórdia do judaísmo se deu quando do surgimento do cristianismo. A religião cristã não é uma ruptura do judaísmo, mas a sua consecução. É a sofisticação. O burilamento estilístico. Com o cristianismo, a filosofia grega - leia-se a platônica - consolidou-se como um entedimento para as massas. O platonismo fazia parte do mundo especulativo dos filósofos, mas essa mesma base epistemológica estrutural, foi traduzida para o povo. É  por isso, que Nietzsche vai dizer que "o cristianismo é um platonismo para o povo". Os judeus, assim, trasmitiram a sua psicologia, os seus esquemas mentais, sua visão escatológica para o mundo.

A arma mais poderosa, mais sutil, mais eficaz, forjada pelos judeus não é material - uma espada, uma adaga, um punhal. A arma utilizada para aprisionar, cortar e ferir é a ideia de pecado. Do pecado se extrai a culpa. Explica-se a partir desse fato, a necessidade, de nos cultos cristãos, que exista o momento da contrição; de pedir perdão pelas faltas cometidas. É justamente nesse ato que se consuma a dominação e o poder dessa força abstrata chamada fé.

Em outars palavras: se não existisse pecado não existiria culpa; se não existisse culpa, de outro modo, não haveria fé; e se não existisse fé, não haveria esperança. Pecado, culpa, fé e esperança são nomes que se dão a uma força que predispõe o ser a se submeter - a deus, à igreja, à tradição, aos dogmas, ao sacerdote, à ideia de comunidade. A partir dessa consciência, tudo aquilo que não se coadune ou que não se encaixe ou resvale nessa linguagem é encarado como erro, como heresia, como pecado.

É o que diz, por exemplo, a metalinguagem bíblica do evangelista são João: "... o pecado é a transgressão da lei" (1 Jo 3.4). Qual lei? Ora, a lei escrita pelos judeus como universal, como algo que não se pode ultrapassar - um non plus ultra.

sexta-feira, dezembro 21, 2012

Pascal, Cristo e o cristianismo

Sou um sujeito grávido de espiritualidade por natureza. As ideias eternas andam comigo. Sou um ser moral. Procuro viver virtuosamente, numa espécie de socratismo inevitável. Cidadão que cumpre o dever ordinário, busco viver em paz com os homens, criaturas estúpidas e com essa força que nos alimenta e faz viver. Existe uma lei inscrita em meu coração que me leva a proceder de tal modo. Todavia, apesar dessa inclinação, angustio-me com a ausência de fundamento da fé institucionalizada. 

Tenho chegado a conclusões contudentes sobre as religiões - principalmente a cristã cuja doutrinação se deu desde pequeno. Não me tornei contrário a tudo aquilo que diga respeito a Cristo; tornei-me contrário, por sua vez, a tudo aquilo que diga respeito ao cristianismo. A mensagem de Cristo é uma mensagem autêntica. Já, por sua vez, a mensagem do cristianismo atua como uma anti-vontade contrária à liberdade. O cristianismo é uma religião doente. Enfermante. Segregadora. Arrogante. Inimiga da natureza. Cristo foi fiel àquilo que pregou. Havia bondade em sua mensagem - era "a boa-nova", que chamava aquele de coração cativo a ter em si o reino de deus. O reino de deus não era uma realidade metafísica, invisível, mas era a essência do evangelho que mora no coração. Cria tanto naquilo que falava, que morreu por aquilo que pregou. O cristianismo, de outro modo,  é uma vontade ressentida contra as forças do mundo, desejoso por afirmação e glória. 

O cristianismo enquanto sistema religioso é a negação da vida. É o escoderijo de uma metafísica arrogante, triunfalista e inimiga do mundo - porque inimiga da vida. É uma religião para homens com sentidos deformados e que buscam refúgio na culpa e na doença. 

Afirmo tais coisas, porquanto, ontem assisti ao filme Blaise Pascal (1972), do diretor italiano Roberto Rossellini. Na década de 70, Rossellini gravou filmes sobre a vida de alguns filósofos. Abordou a vida de Sócrates, Santo Agostinho, Blaise Pascal e Descartes. Tenho os quatro filmes do diretor italiano. Reservei três dos quatro para assisti neste final de ano - Sócrates, Blaise Pascal e Descartes. Mas é certo que eu assista à película sobre Agostinho também. 

Voltando: o retrato pintado a respeito do francês gerou curiosidade para que eu conheça mais profundamente o inquieto pensador. Há muito que tenho intenção de ler os Pensamentos, projeto que pretendo encetar no próximo ano. Comprei, há alguns dias, um livro sobre Pascal na livraria Paulus aqui em Brasília ("Blaise Pascal - conversão e apologética", de Henri Gouhier). Pretendo lê-lo assim que terminar os Pensamentos

O que me interessa em Pascal é a sua acuidade intelectual e filósofica. Pascal era dono de uma inteligência rara, capaz de se expandir em especulações sobre os mais variados campos do saber - era físico, astronômo, filósofo, matemático, teólogo. 

 O que é curioso nessa argúcia do pensador é o quanto a religião cristã foi responsável por oprimir o espírito de Pascal; o quanto isso lhe amofinou o engenho, a capacidade. O quanto ele sofreu. O quanto a sua saúde se tornou frágil por causa dos sofrimentos infligidos pela fé. Ele chega quase a sofrer uma paixão. Buscava suprimir um questionamento, uma ausência, uma ânsia pelo infinito. Para isso, fiou-se pelo cristianismo. Anulou-se. E aquilo acabou por matá-lo. A crença o assassinou de forma lenta, gradual, terrificante.

É conhecida a fala sarcástica e irônica de Voltaire sobre Pascal. Conta-se a lenda que Pascal se converteu ao cristianismo após ter caído de um cavalo. Voltaire disse, que, nesse tombo, Pascal bateu a cabeça e, a consequência, foi a perda da inteligência. 

Pascal poderia ter sido uma das mentes mais destacadas dos últimos mil anos, já que habitava nele uma sede pela especulação. Segundo ele, a existência não deveria se organizar apenas por intermédio de um método racional, como fica explícito em sua conversa com Descartes no filme de Rossellini. Além disso, é conhecida a frase de Pascal - "o coração tem razões que a própria razão desconhece" - que foi proferida para se constituir em antítese ao cartesianismo.

Sendo assim, penso que a religião constrói cadeias, esconde a vida da vida. A mensagem que abarca a existência é resultado de uma explosão luminosa chamada devir, que é sempre uma força criadora. Ela pode trazer eventos ditos positivos ou negativos; mas seja bom ou ruim, tudo é vida. Esconder-se por trás de promessas inócuas, debéis, com a consistência de eflúvios gelatinosos é jogar, se conduzir,  de forma inautêntica. Talvez tenha faltado isso a Pascal.

quarta-feira, dezembro 19, 2012

Lima Barreto e sua crítica ao país dos bruzundangas


 Ao ler o trecho abaixo do livro Os Bruzundangas, de Lima Barreto, não pude deixar de pensar no Brasil que foi e no Brasil que é; percebi que o Brasil que é não mudou a sua face, a sua estrutura corrupta e parasitária.

"Não há lá homem influente que não tenha, pelo menos, trinta parentes ocupando cargos do Estado; não há lá político influente que não se julgue com direito a deixar para os seus filhos, netos, sobrinhos, primos, gordas pensões pagas pelo Tesouro da República. 

No entanto, a terra vive na pobreza; os latifúndios abandonados e indivisos; a população rural, que é a base de todas as nações, oprimida por chefões políticos, inúteis, incapazes de dirigir a cousa mas fácil desta vida. 

Vive sugada; esfomeada, maltrapilha, macilenta, amarela, para que, na sua capital, algumas centenas de parvos, com títulos altissonantes disso ou daquilo, gozem vencimentos, subsídios, duplicados e triplicados, afora rendimentos que vêm de outra e qualquer origem, empregando um grande palavreado de quem vai fazer milagres". ( Lima Barreto, Os Bruzundangas, p. 31)

Lima Barreto viveu em um período singular da história do Brasil - durante a nossa Primeira República, também conhecida como República Velha, um período viciado e atrasado economicamente da história nativa. Era o período dos grandes latifúndios. A burguesia, com dois cavalos, alguns militares e um grito, derrubara um Império e instituira a República. Isso era o ano de 1889. A elites agrárias, dona dos grandes latifúndios, como os barões do café, já estavam instalados nas metrópoles regionais. Deixamos a casa-grande para trás, mas a tradição oligárquica de concetração da terra e do poder político permaneceu entre nós. 

Os velhos fazendeiros do passado se converteram nos empresários e nos banqueiros dos dias de hoje, mas os costumes da gênese rural se processam desde aqueles tempos. Essa "fauna nativa" está nos sucessivos revezes pelas quais a vida política brasileira atravessou: aplica golpes, faz pactos para manuntenção do poder, passeatas reacionárias, criminaliza os movimentos sociais e voluntariamente se rebaixa aos interesses dos países centrais. 

A evolução do capitalismo no Brasil é o de uma modernização sem ruptura, como diria Lênin. A nossa história não registra nenhuma revolução que engendrou uma interrupção na forma de domínio político, que se inseriu verdadeiramente no imaginário da coletividade nacional. Não temos uma tradição revolucionária. Somos um país de coiós, de atoleimados que espera o carnaval e a final do campeonato. 

É justamente em um país como esse, descrito aqui que Lima Barreto viveu. Talvez a diferença do ontem para o hoje repouse no nível de urbanização e na mudança interna do modo de produção: saímos de capitalismo agrário e exportador para um capitalismo corporativista e monopolista a serviço do deus mercado.

Se formos elencar a importância política da prosa dos literatos tupiniquins, veremos que Lima Barreto, Graciliano Ramos e Machado de Assis, tenham realizado os discursos mais contudentes. Dos três, penso que Machado tenha sido aquele que se aburguesou. O mulato, gago e epiléptico fundou uma Academia para escritor conservador e reacionário. Vale mencionar que enquanto esteve vivo, Lima tentou ingressar por duas vezes na fatídica Academia e foi recusado. Bloqueram-lhe o acesso. Todavia, em sua história teve figuras dantescas como Getúlio Vargas e Roberto Marinho e até quixotescas, como por exemplo, os atuais José Sarney e Paulo Coelho.

Lima Barreto era um sujeito maldito. Morador de subúrbio. Mulato. Filho de pais alforriados. Funcionário de repartição pública. Uma função pequena, ordinária. Viciado em álcool. Considerado como dono de uma prosa ruim. Picaresco em suas abordagens. Cínico em demasia. Leitor de Voltaire. Amante de Nietzsche. Amigo de Monteiro Lobato. Anarquista e simpatizante da Revolução Russa. Conhecedor da angústia de Dostoiévsky. Cético. E no final da vida, abandonado e louco. Esse curriculum não agradava à Academia, que desejava figuras de prosa ensaboada e escovada como os parnasianos. 

O autor de O Triste fim de Policarpo Quaresma, sua tese pintada de maneira sarcástica contra o convencionalismo político e cultural, precisa ser lido para que conheçamos o Brasil "deitado em berço explêndido". O Brasil que é a antítese de si mesmo. O Brasil que não acredita no Brasil. O Brasil que se orgulha de patacas; dos sonhos adormecidos; dos rompentes de dois palmos. O Brasil que sonha em ser uma potência cosmopolitista. O Brasil das utopias estranhas e infantis. O Brasil que se vê, identifica-se, que se resigna com as novelas globais.

A nossa superestrutura (política, cultural, econômica) é pintada com as cores daquilo que foi, mas que ainda insiste em permanecer. O país dos bruzundangas não conhece a sua história e ostenta sonhos não velados.