domingo, agosto 17, 2014

Uma pensata matinal sobre o antipetismo, o antiesquerdismo etc...

"Os homens usam o dinheiro e com ele fazem as transações mais complicadas, sem ao menos saber, nem ser obrigados a saber, o que é dinheiro. Por isso a 'praxis' utilitária imediata e o senso comum a ela correspondente colocam o homem em condições de orientar-se no mundo, de familiarizar-se com as coisas e manejá-las, mas não proporcionam a compreensão das coisas e da realidade" (Karel Kosik, in "Dialética do Concreto"). Vejo a maior parte dos argumentos contra o PT como um problema de foco. Estamos acostumados a enxergar somente a aparência dos fenômenos, sem ir a fundo na consecução que proporcionou a existência desse mesmo fenômeno. Nós somos resultado de um processo caudaloso de eventos que, consequentemente, determinam uma forma de ver e estar no mundo. E isso forma a nossa ontologia - o que somos, quais as nossas preferências, o porquê de gostar de determinada música, o porquê de pertencer a determinada religião ou gostar de determinada comida. Definitivamente, eu não existo desgarrado dos fatos sociais. Se sou capaz de enxergar um poema onde outra pessoa ver apenas um fato banal, isso é qualidade do olhar proporcionado pela história. Ou seja, é necessário sair da leitura enviesada e que somente enxerga  a aparência (a pseudoconcreticidade), para uma leitura da essência. 

Assim, penso que as opiniões contrárias ao PT sejam resultado justamente daqueles que apenas olham para "a casca dos fatos", sem contudo atentar para a essência das coisas. E quando falo sobre essência, refiro-me à história. Contra a história não há argumentos, pois ela está pautada na materialidade. É necessário sair da caverna das aparências e enxergar na luz os fenômenos que formam a realidade. É necessário ser humilde para reconhecer a nossa ignorância sobre determinados assuntos.  Apenas para ilustrar: sou pernambucano e vivi a minha infância à luz de candeeiro. Hoje, muita gente do sertão e do agreste pernambucanos tem energia graças ao programa Luz para todos do governo Lula-Dilma. Quem se apressa em falar sem conhecimento, acaba falando o desnecessário, fazendo consequentemente que seu argumento caia no lugar comum. A melhor forma de entender o PT ou o PSDB é estudando os nossos quinhentos anos de história. Quem nunca viajou ao interior pobre do Brasil (Nordeste, Norte) - não me refiro às capitais, às praias; quem nunca passou necessidade, quem tem o seu emprego e tem as suas necessidades de pequeno burguês supridas, não tem direito a falar mal do PT.

quinta-feira, agosto 14, 2014

Um mistério chamado Machado de Assis

Terminei a leitura de Papéis Avulsos (1882), de Machado de Assis. E ficou posta em mim uma admiração indefinida. Ler contos como O alienista, Teoria do medalhão, O empréstimo, A sereníssima república e O espelho, deixou-me por dias absorto com a elegância e o controle da narrativa por parte da pena do escritor. Machado foi um literato cuja limpidez e pureza do texto impressionam. O escritor carioca, com certeza, foi uma das mentes mais brilhantes que já produziram literatura. Pensando na grandiosidade de Machado, resolvi reler a sua obra em prosa - ou pelo menos aqueles livros que li há muito tempo e a memória não coou os fatos e tudo se diluiu pelas frestas do esquecimento. Após terminar Papéis Avulsos, comecei a leitura de Ressurreição. Este livro é a primeira obra em prosa do escritor. É um livro cujo estilo ainda está preso no artificialismo romântico. Machado parece fazer um ensaio estilístico para a produção de suas grandes obras.

E essa mesma tendência vai se dá nos próximos dois romances - A mão e a luva (1874) e Helena (1876). São livros que mostram a mulher idealizada. Uma expectativa irreal sobre o ser humano. É um texto que exalta as senhoras de belos vestidos e falas grandiloquentes; os salões; os teatros; e o todo charme burguês. As personagens parecem bonecos programados que reproduzem falas técnicas em excesso e vivem de infelicidade em infelicidade até encontrar o bendito amor.  Em dados momentos, a coisa chega a provocar riso. Mas, ao fundo, enchergamos a sociedade com os seus caprichos e sua hipocrisia ocultada pelo pó, pelas falas artificiais e pelo luxo fútil. 

Machado parece ser um mistério. Como um garoto suburbano, de origem humilde, gago, mulato, de aspecto frágil, epilético, chega se tornar um monstro capaz de produzir livros como Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba ou Memorial de Aires? E maior mistério se dá a partir do final da década de 70 do século XIX. É neste marco cronológico que notamos o crescimento exponencial à estatura de um colosso. Se Machado tivesse ficado apenas a produzir livros com o sabor daqueles produzidos na primeira fase, hoje ele seria um escritor menor. Em 1881, Machado lançou Memórias Póstumas. Acredito que este seja um dos livros mais densos em ironias, sarcasmos, erudição e vocacionado para uma análise profunda da sociedade brasileira. O livro possui uma escrita singela. Acompanhamos o seu fluxo e parecemos ouvir o marulhar das águas de um rio, dado à grandeza e transparência do texto. Machado decanta as palavras. Esmerila. É uma artesão preocupado com a fluência e com perspicácia do foco narrativo. Fala de coisas profundas com uma linguagem imaculadamente simples e pura. Como que em dez anos, alguém consegue mudar de forma tão profunda?

Há quem diga que mudança se deu por causa de Carolina, sua esposa. Eles casaram em 1869 e ficaram juntos até 1904, ano em que ela morreu. Carolina Augusta Xavier de Novais era portuguesa e bastante culta. Segundo alguns historiadores, ela foi responsável por apresentar a literatura inglesa para Machado. Foi por intermédio dela que ele teve acesso ao texto de Sterne e nomes importantes que foram definitivos, como Swift; nomes responsáveis pelo amadurecimento da segunda fase literária do escritor.

O fato é que cada página que leio de Machado de Assis, mais me fica a certeza de que ele é um daqueles escritores que cada minuto com ele nos enriquece para que tenhamos uma visão mais apurada do ser humano. Ele era uma espécie de Dostoiévsky carregado de ironias. Há tesouros inesgotáveis em seus escritos. Os seus contos à la Maupassant, não perdem em nada para os grandes contistas da literatura universal. Ele conseguiu dominar o gênero e produziu livros de leitura obrigatória como Papéis Avulsos, Histórias sem data, Páginas recolhidas e Relíquias de casa velha.

sábado, agosto 09, 2014

Uma reflexão de aniversário

João Pessoa - PB - janeiro de 2013
"E, ao final de nossa longa exploração, chegaremos finalmente ao lugar de onde partimos e o conheceremos então pela primeira vez". T.S. Eliot.

Há alguns dias, vi pela décima vez, o filme Sociedade dos poetas mortos, uma das produções mais encantadoras que conheço sobre o verdadeiro sentido da vida. E existe aquela cena em que o professor leva os alunos até o pátio da escola e mostra aqueles que haviam estudado em tempos passados. O professor pede para que os alunos olhem aquelas fisionomias cristalizadas pelo tempo. Aqueles sorrisos despreocupados e saudáveis como se a vida seguisse um fluxo contínuo e que nunca teria fim; como se nunca fôssemos deixar de viver esse ritmo, essa energia luminosa. Ao dar continuidade à sua lição, ele pede para que os alunos se aproximem da fotografia para ouvir o cada um daqueles seres que "fermentavam narcisos", naquele momento, estariam a dizer. Eles obedecem e escutam um sussurro sendo pronunciado pelo professor: "Carpe diem, meninos! Tornem as suas vidas extraordinárias!"

E é pensando justamente nessa afirmação que completo mais um ano de vida. Chego aos trinta e cinco anos e analiso a longa trilha por onde caminhei. As marcas da poeira ainda estão em meus pés. Tantas paisagens já ficaram presas na memória; e tantas outras já se descolaram, sendo abandonadas pelo artifício falho da mente. Carpe diem é um termo latino que significa "colha o fruto". Ou seja, colha as coisas que estão maduras. Não desperdice aquilo que se mostra. E diante de afirmação tão bela e trágica, surge a indagação: "O que é essencial?" Sim! O que é essencial na vida? Com qual matéria ou assunto eu devo gastar o meu tempo? Quais frutos eu devo colher? 

Nada como o dia do aniversário para pensar nessas coisas. Não tenho todo o tempo do mundo. É curiosa a percepção de que tudo passou muito rapidamente. Recordo-me de que ontem eu era uma criança, que corria descalça; que jogava bola com os colegas; que tomava banho em riachos; que subia em pés de manga e quando achava um fruto maduro, devorava as carnes amarelas até que o caldo escorresse pelos cotovelos; era uma criança que tentava jogar com as ordens e comandos dados pela minha mãe. E com a minha carapinha e roupas ordinárias seguia para a escola, com os livros debaixo do braço. Tudo passou tão rápido! E é como se houvesse uma fumaça se mexendo lá no fundo dos cômodos do tempo.

Não tenho todo o tempo, pois não poderei visitar todos os lugares que quero. Não poderei abraçar a todas as pessoas. Beber todos os vinhos. Experimentar todas as culinárias. Ouvir todas as músicas. Ler todos os livros. Acumular tudo o quero. Ter o tempo que quero. É essa angústia diante do finito, que acometeu Fausto, alongado pela reflexão de Goethe. Vendo-se incapaz de aprender, de conhecer, de aprofundar-se além dos limites daquilo que é capaz o ser humano, Fausto resolve fazer um pacto com o demônio. Essa metáfora representa justamente a inquietação que gravita no interior do homem. Somos pequenos, mas dentro de nós existe a consciência da eternidade e isso nos aniquila. A poetisa Adélia Prado diz assim: "Meu Deus, me dá cinco anos, me cura de ser grande...". Queremos viver, pois existe um gesto de grandiosidade, uma vontade de continuidade, uma força impulsiva que nos lança de encontro aos nossos limites. 

Num dia como esse eu paro para pensar, para refletir, para ficar em silêncio, para ficar sozinho. E "a solidão", como diz o Henri Nouwen, "é a fornalha da transformação". Sei que daqui para frente o meu corpo passará por mudanças profundas. Mas é justamente nesse "instrumento" que a minha consciência e a minha percepção do mundo permanecerão vivas. Por isso, nesta data, quero fazer um pacto comigo mesmo: quero ser mais humano. Quero ler mais poesia. Quero viajar mais. Quero repelir o tédio e rir das responsabilidades. Quero ouvir mais MPB e continuar a amar a música clássica. Ouvir mais as missas de Bach e Palestrina; as sonatas de Beethoven e Brahms; os concertos para piano de Mozart. Quero conversar mais com a minha esposa, fazendo ecoar aquela frase de Nietzsche: "todos os casais que pretendem casar deveriam fazer a seguinte pergunta: 'terei eu prazer em conversar com essa pessoa o resto de minha vida?'" 

Quero ver mais filmes; observar mais os pequenos detalhes das mudanças perpetradas na natureza. Rir a cada nova manhã e agradecer a cada pôr-do-sol. Brincar com o "Jesus menino", como o fez Fernando Pessoa. O Jesus que se cansou da seriedade da eternidade; que veio morar com os homens; brincar nas poças de água; que dorme dentro da minha alma e, às vezes, acorda de noite e brinca com os meus sonhos. Quero todos os dias ouvir a voz da minha mãe e dos meus parentes. Quero visitar sempre que puder o meu lugar de nascimento. Perceber as árvores; o vento com suas fragrâncias curtidas e trazidas de longe; embriagar-me com o cheiro de terra molhada quando das primeiras chuvas. Gastar tempo com as coisas "inúteis", que como diz o Manuel de Barros têm o poder de fazer "milagrar violetas". Quero fazer de cada reencontro uma primeira vez e cada despedida um réquiem de beleza. Quero ouvir mais e falar menos. Fugir da ditadura que diz que para que eu vença é necessário calar o outro "no grito". Quero serenar diante do caos e ouvir o som das cachoeiras nos dias de tempestade. Quero me entusiasmar com o silêncio e fazer da solidão uma poesia que ensina. Quero ver o mar mais vezes. Quero caminhar mais vezes só por caminhar - com as mãos no bolso. Quero correr mais vezes. Correr como o Forrest Gump, que quando quis correr, correu; e quando quis parar, parou. Quero fugir das agendas fixas; dos almoços contabilizados; do amor com hora marcada; do encontro com agendamento e cadastro para ser analisado. Em suma: quero ser singelo como aquele lírio que nem mesmo Salomão foi capaz de se vestir como ele (Mt. 6. 28,29)

Vi uma das últimas entrevistas feitas pelo Ariano Suassuna, que faleceu mês passado. Uma das afirmações feitas por ele me deixou gravitando por dias em cima de mares de reflexões. Disse ele: "É muito bom viver! É um privilégio ter passado por esse universo". É e assim que devo olhar sempre, mesmo não sabendo quais são as trilhas, as planícies e montanhas que encontrarei em minha caminhada finita. Mas o quanto eu puder, quero levar comigo a lembrança daquilo que fui e vivi; e o agradecimento por aquilo que terei tempo de ser. As nossas buscas sempre terminam no lugar onde começamos a procurar.

sexta-feira, agosto 08, 2014

"Deus existe para tranquilizar a saudade" - Rubem Alves.

Lendo a crônica "Deus existe?", de Rubem Alves, que faz parte do livro "Transparências da eternidade", encontrei algumas afirmações que me deixou cheio reflexões. É uma daquelas afirmações poéticas e singelas que eram tão típicas do Rubem. Deus é uma incógnita - ("Que seria de nós sem o socorro daquilo que não existe?" - Paul Valéry). Há aqueles que afirmam com a boca cheia que a Sua existência é indubitável. Falam com o coração cheio de certeza. Batem no peito em um gesto embriagado de convicção. Mas penso que Deus seja uma daquelas intuições misteriosas, uma tentativa de reposta para aquilo que nos inquieta; para aquilo que é maior que nós e para as quais não temos respostas.

Desconfio daquelas pessoas que abrem a boca e, num gesto de certeza, de convicção inquebrantável, afirmam: "Deus existe! Eu tenho convicção sobre isso". Deus é um sorriso de criança que às vezes brota em nosso coração. É a capacidade de nos mantermos humanos em meio a tanto caos, em meio a tanta ignorância. Dizia o velho Nietzsche que "as certezas são piores que mentiras". Respeito mais aquele que tem uma fé duvidosa e não segura de si, do que aquele que é capaz de morrer por sua convicção. Este pode se tornar em um inimigo da humanidade por causa de sua crença. 

É por causa disso que algumas pessoas matam e morrem. Para esse tipo de indivíduo, as minhas certezas somente respeitam o outro, quando o outro, coaduna com as minhas certezas. Em matéria de crença, poucas são aquelas pessoas que sabem conviver com o diferente, que sabem respeitar a crença do outro. Quem chega a isso, já caminhou bastante em direção ao amadurecimento.

Fico a pensar sobre a existência de Deus e me recordo de uma afirmação de Rubem Alves: "Se os jardins existem, Deus tem que existir". Essa concepção sobre Deus é aquela em que vejo repousar a liberdade. Hoje, na escola onde trabalho, vi uma apresentação de crianças cantando a canção Benke, de Milton Nascimento, e não pude me conter. Aquilo foi muito bonito. Fiquei a pensar na singeleza da vida; nos pedaços pequenos de alegria e beleza que existem nos mosaicos dos dias que passam. E ouvindo as crianças cantando aquela música, pensei: "Deus tem que existir, pois esse momento existe". Fujo dos dogmatismos; rechaço as convicções e me lanço completamente no caminho incerto da dúvida. E o Rubem diz assim: 

(...)A beleza é entidade volátil - toca a pele e rápido se vai.

Pois isso a que nos referimos pelo nome de Deus é assim mesmo: um grande, enorme Vazio, que contém toda a beleza do universo. Se o vaso não fosse vazio, nele não se plantariam flores. Se o copo não fosse vazio, com ele não se beberia água. Se a boca não fosse vazia, com ela não se comeria o fruto. Se o útero não fosse vazio, nele não cresceria a vida. Se o céu não fosse vazio, nele não voariam os pássaros, nem as nuvens, nem as pipas...

E assim, me atrevendo a usar a ontologia de Riobaldo, eu posso dizer que Deus tem de existir. Tem beleza demais no universo, a beleza não pode ser perdida. E Deus é esse Vazio sem fim, gamela infinita, que pelo universo vai colhendo e ajuntando toda a beleza que há, garantindo que nada se perderá, dizendo que tudo o que se amou e se perdeu haverá de voltar, se repetirá de novo. Deus existe para tranquilizar a saudade. (...)

Alves, Rubem. Transparências da eternidade. Editora Verus. Campinas, 2002. 

sexta-feira, agosto 01, 2014

"Max Cavalera - my bloody roots", uma autobiografia

Quando estive em Gramado, no mês de junho, comprei a autobiografia de Max Cavalera, ex-vocalista do Sepultura, e atual líder do Soulfly e Cavalera Conspiracy. Adquiri o livro e li-o com um devotado interesse. É estranho - e parece está longe de minha personalidade - mas gosto do Sepultura e tudo aquilo em que o Max colocou as mãos a fim de construir um projeto musical - até mesmo o Nailbomb. A única coisa que não escutei - e nem ganhei intimidade - foi o Soulfly. Como já deixei claro, algumas pessoas indagam: "como você consegue ouvir o Sepultura?" Respondo: "Sei lá!".

Não escuto qualquer Sepultura. Escuto o Sepultura de Max Cavalera. Aquele que encerrou com o Roots, em 1996. O atual Sepultura é um cover de uma banda que um dia foi uma das maiores bandas de rock da década de 1990. 

Lendo o livro Max Cavalera - my bloody roots (Ed. Agir), eu pude perceber o lado bastante humano do vocalista, originário de Belo Horizonte. Max viveu única e exclusivamente, em toda sua vida, da música. Começou o Sepultura com o seu irmão Igor Cavalera. Mais tarde entrariam Paulo e Andreas. A banda aos poucos foi adquirindo respeito e fama no cenário local; e chegou a ter um relativo respeito em shows feitos no Nordeste e em São Paulo. Gravou o primeiro disco em 1985 (Bestial Devastation), pela Cogumelo Records, algo que se repetiria com os próximos dois álbuns - Morbid Visions (1986), que tem a excelente Troops of Doom e Schizophrenia (1987), que mostra uma banda que viria se tornar um fenômeno mundial. É curioso perceber que a cada novo disco, a banda conseguia se superar fazendo tecnicamente um melhor que o outro.

A partir do quarto disco (Beneath the Remains - 1989), o Sepultura começou a gravar com a poderosa Roadrunner. Beneath the Remains é o disco que notabilizou a banda. A música Inner Self é a música mais poderosa do disco. O disco possui uma pegada à la Metallica - talvez aí residisse o dedo do Andreas, que era um fã inveterado do grupo americano. Em 1991, seria produzido o Arise, ao meu modo de ver, o melhor disco do grupo mineiro. Arise mostra o amadurecimento vocal de Max e a força do riffs poderosos e primitivos.  

Três anos após Arise, sairia o álbum mais bem produzido da banda, o Chaos A.D. Se não estou enganado e li de forma equivocada no livro, o produtor de Nervemind, do Nirvana, foi o sujeito escalado pela Roadrunner para gravar Chaos A.D. A qualidade do som é notável.  Em 1996, sairia, talvez, a obra-prima da banda - Roots - gravado junto aos Chavantes, de Mato Grosso. O disco é sensacional! Para gravar o disco, a banda teve que ir para o meio da floresta. O resultado mostra o quanto a criatividade de Max e dos músicos do grupo estava em alta. Músicas como a bela, lírica(sic.) Jasco ou Itsari são delicadas, ao mesmo tempo em que trazem consigo a força milenar da tradição espiritual dos índios. Ou ainda as pesadas Attitude, Straighthate ou Ambush, que são viscerais.

É possível notar até aí o engajamento político da banda, que falava sobre guerras por territórios, por conflitos (Territory); ou sobre a ganância de sujeitos que queimam e destroem a Amazônia (Ambush). Após o disco e, no auge da carreira dos músicos, Max veio a saí do grupo por causa de desentendimentos com os outros integrantes. Segundo Max, os outros membros estavam insatisfeitos com a visibilidade que ele, Max, tinha. Os outros três músicos alegavam que Glória - esposa de Max e empresária da banda - estava privilegiando o marido. 

Acredito que a partir desse ponto, começa outro Sepultura, um Sepultura caricaturesco com Derick Green. Quem escuta o Sepultura de Max logo percebe a diferença. Eu nem sei quais foram e quantos são os discos da banda lançados após a saída de Max. Não tenho coragem para ouvir. Andreas ainda continua um grande guitarrista e Paulo consegue realizar o trabalho como sempre fez.

O que mais me chamou a atenção no livro foi o quanto a morte do pai marcou a vida do músico. Parece-me que ele passou boa parte da vida procurando por algo que se foi quando o pai morreu. Tornou-se um viciado em medicamentos, vício este, que segundo ele, teve fim em 2009 quando ele esteve internado em uma clínica. Outro ponto curioso é a sua fé em Deus. Ele fala em Deus em boa parte do livro. 

Max atualmente mora no Arizona, Estados Unidos, e segue com vários projetos. É uma lenda do rock mundial. Segundo ele, foi possível ir tão longe por causa de sua família. Na parte final do livro existe uma linda reflexão dele sobre o valor dos filhos e da família. Para ele, de que vale a vida se você não para para ser e viver com gente; se você não para a fim de amar os seus.

terça-feira, julho 29, 2014

Perguntas. O negro ontem e hoje.

Hoje cedo, enquanto voltava do trabalho, li no metrô uma reportagem do blog Pragmatismo Político, que muito me deixou pensativo. A reportagem tem no título uma pergunta bastante perturbadora: "Onde estão os políticos negros do Brasil?". Trata-se de pergunta que deve ser ampliada, pois nos quadros que conduzem o Brasil, os negros representam uma minoria insignificante, mostrando claramente que o país ainda está dividido entre a senzala e a casa-grande. 

A colonização deixou marcas terríveis em nosso país. E no que tange à dança das classes, os negros foram aqueles que mais sofreram e continuam a experimentar os infortúnios da abolição, que se deu no nível dos documentos e da história. Todavia, no que  diz respeito à materialidade e a inclusão nos quadros mais importantes da sociedade, o negro ainda está em desmesurada desvantagem. Emília Viotti da Costa em seu excelente "A abolição", diz que "A abolição no Brasil não foi resultado de uma revolução como ocorrera no Haiti, nem de uma guerra civil como nos Estados Unidos. Os proprietários de escravos não tiveram de enfrentar um governo imperial metropolitano como as colônias do Caribe, Jamaica ou Cuba, por exemplo. No Brasil, os fazendeiros puderam controlar a transição, sobretudo depois que a Monarquia foi substituída pela República federativa em 1889 e os estados ganharam maior autonomia". 

Após a abolição, que ocorreu por certo desprestígio do trabalho escravo e uma mudança no modo de produção da Colônia, os escravos se viram em condições terríveis. Eles haviam conquistado a liberdade jurídica, mas não foram reconhecidos pelo estado nem se tornaram cidadãos. Com a proibição do voto dos analfabetos, levas e mais levas de escravos se viram impossibilitados de participar dos pleitos políticos. Muitos tentaram conseguir trabalho nas cidades, mas havia um "laivo" histórico e social que os tornavam seres subalternos. De modo que a maior parte dos escravos continuou a trabalhar nas fazendas nas quais já estavam instalados. A única distinção era que agora não havia mais um cadeado a prendê-los. A mudança jurídica não mudou a materialidade.

Viotti vai dizer ainda que a partir do momento da consecução da abolição, o Estado municiou-se com medidas mais repressivas. Ao invés de trabalhar para inserir o negro no novo contexto social e fazer a Reforma Agrária, como foi proposto por André Rebouças (advogado negro que fazia parte da campanha abolicionista), que com certeza teria mudado o destino do país, as autoridades aumentaram a força policial para exercer um maior controle sobre as camadas mais subalternas da população, entre as quais se inseria o negro. 

Emília diz: "Renovaram-se antigas restrições às festividades características da população negra, como batuques cateretês, congos e outras. Multiplicaram-se as instituições destinadas a confinar loucos, criminosos, menores abandonados e mendigos. Posturas municipais reiteraram medidas visando a cercear os vadios e desocupados, proibindo que vagassem pelas ruas da cidade sem que tivessem uma ocupação e impedindo-os de procurar guarida na casa de parentes e amigos. (...) Outras medidas procuraram cercear o comércio ambulante impondo severas penas a quem desrespeitasse as restrições". 

Segundo o The Guardian, na Copa do Mundo, o número de negros nos estádios não chegou a uma porção insignificante e ínfima, ou seja, um retrato do racismo e da divisão social que existe no Brasil. Analisando a situação do negro hoje no Brasil à luz da história, nota-se claramente que o processo de mudança ainda é bastante incipiente. Em um país que 50,7% da população (dado do IBGE) se classifica como negra, por que menos 10% de negros são parlamentares? Por que segundo o Censo do Poder Judiciário, apenas 1,4% dos magistrados brasileiros se declaram negros? Por que um negro no Brasil tem oito pontos percentuais mais chances de ser assassinado do que alguém auto-proclamado como branco?

Outras perguntas devem ser feitas, além daquela estampada na manchete: se mais da metade da população é constituída por negros, onde estão os negros advogados? Os negros que são professores universitários? Os negros que são empresários? Os negros que são médicos? Os negros que viajam para o exterior?

Se, de fato, metade da população do Brasil é constituída de negros, onde é que está grande parte desse contingente expressivo? Uma resposta surge: nas periferias, nas cadeias, trabalhando na construção civil ou em funções de menor prestígio social; nas levas de desempregados.

Lendo a reportagem, percebi o quanto o Brasil precisa fazer um acerto de contas com a sua história. Os negros continuam até os dias de hoje sendo vítimas de toda sorte de preconceitos e preterições por parte do Estado. Como a frase que ouvi certa vez da boca de um jovem de periferia em uma reportagem na TV: "A única instituição do governo que vem aqui é a polícia". 

DA COSTA, Emília Viotti. A abolição - 8a edição. Editora Unesp. São Paulo. 2008. 

domingo, julho 27, 2014

"Esquerda e Direita" por Ariano Suassuna

O texto abaixo me deu uma grande alegria quando eu o li. Acredito que Ariano Suassuna, que era um grande socialista, tenha conseguido colocar de forma poética, filosófica e teológica o porquê da existência das concepções de "esquerda" e das concepções de "direita". Penso que as pessoas que alegam a não existência dessa dicotomia, queiram justamente camuflar essa distinção para que a miséria e a injustiça continuem a grassar na sociedade. A desigualdade ou a construção do campo esquerda-direita se deu no dia em que alguém disse "isso aqui é meu". A partir desse momento, o mundo passou a ser habitado por aqueles que detêm certa propriedade e aqueles que não possuem a propriedade. 

O mundo está crivado por essa diferença. E enquanto ela existir, faz-se necessário lutar pela justiça, pela equidade. É isso que justifica a defesa pelo social. As regras da sociedade de classe dizem: "Todos devem correr mil metros". E todos querem correr os mil metros para sobreviver. O problema é que algumas pessoas vão de cavalo e, outras, vão andando. Ou seja, não preciso dizer quem vai se dar melhor nessa competição. A própria bíblia está repleta de personagens que estiveram do "lado esquerdo do fronte", a defender a justiça e dignidade dos mais fracos. É só abrir em qualquer um dos livros proféticos. 

Abaixo, o texto. Excelente!

Esquerda e Direita

Não concordo com a afirmação, hoje muito comum, de que não mais existem esquerda e direita. Acho até que quem diz isso normalmente é de direita.

Talvez eu pense assim porque mantenho, ainda hoje, uma visão religiosa do mundo e do homem, visão que, muito moço, alguns mestres me ajudaram a encontrar. Entre eles, talvez os mais importantes tenham sido Dostoiévski e aquela grande mulher que foi santa Teresa de Ávila.

Como consequência, também minha visão política tem substrato religioso. Olhando para o futuro, acredito que enquanto houver um desvalido, enquanto perdurar a injustiça com os infortunados de qualquer natureza, teremos que pensar e repensar a história em termos de esquerda e direita.

Temos também que olhar para trás e constatar que Herodes e Pilatos eram de direita, enquanto o Cristo e são João Batista eram de esquerda. Judas inicialmente era da esquerda. Traiu e passou para o outro lado: o de Barrabás, aquele criminoso que, com apoio da direita e do povo por ela enganado, na primeira grande “assembléia geral” da história moderna, ganhou contra o Cristo uma eleição decisiva.

De esquerda eram também os apóstolos que estabeleceram a primeira comunidade cristã, em bases muito parecidas com as do pré-socialismo organizado em Canudos por Antônio Conselheiro. Para demonstrar isso, basta comparar o texto de são Lucas, nos “Atos dos Apóstolos”, com o de Euclydes da Cunha em “Os Sertões”. Escreve o primeiro: “Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum. Não havia entre eles necessitado algum. Os que possuíam terras e casas, vendiam-nas, traziam os valores das vendas e os depunham aos pés dos apóstolos. Distribuía-se, então, a cada um, segundo a sua necessidade”. Afirma o segundo, sobre o pré-socialismo dos seguidores de Antônio Conselheiro: “A propriedade tornou-se-lhes uma forma exagerada do coletivismo tribal dos beduínos: apropriação pessoal apenas de objetos móveis e das casas, comunidade absoluta da terra, das pastagens, dos rebanhos e dos escassos produtos das culturas, cujos donos recebiam exígua quota parte, revertendo o resto para a companhia” (isto é, para a comunidade).

Concluo recordando que, no Brasil atual, outra maneira fácil de manter clara a distinção é a seguinte: quem é de esquerda, luta para manter a soberania nacional e é socialista; quem é de direita, é entreguista e capitalista. Quem, na sua visão do social, coloca a ênfase na justiça, é de esquerda. Quem a coloca na eficácia e no lucro, é de direita.

Daqui

sábado, julho 19, 2014

Rubem Alves e o meu aprendizado a respeito do tempo e da vida

  "Poesia é uma qualidade do olhar"/ "O mundo para mim é um instrumento cósmico onde dormem as mais belas melodias". - Rubem Alves

O tempo como agente

Diz Agostinho que "o tempo produz efeitos admiráveis dentro de nós". O tempo possui um cinzel invisível que vai nos esculpindo tanto física quanto espiritualmente. Recordo-me das frases iniciais de Erico Veríssimo em Solo de Clarineta, quando ele diz que "as marcas do tempo estavam impressas no pergaminho do seu rosto". Uma metáfora que define os enunciados do tempo escritos em nós. É trivial. É natural. Mas todos morrem. Já perdi tantas pessoas queridas - meu pai, meu avô materno, minha avó paterna, conhecidos, amigos. E cada novo dia, o movimento irrefreável do rio da vida dobra mais uma curva em sua viagem. O tempo é aliado da morte. É seu companheiro. Os dois caminham de mãos dadas como no filme de Ingmar Bergman. A morte aparece para jogar com a sua vítima. Ele tenta enganá-la. Tenta negociar, mas bastou o tempo para fulminá-lo. Quando ele menos esperava, ela apareceu com sua face fria e o tragou.

A morte nos machuca, pois aqueles a quem ela faz de vítima, sabemos, nunca mais se verá. É um "sequestro", uma violência abrupta, um laceração nas emoções. Uma cisão, um corte, um passar a esponja na existência de cada um de nós. Quem vai não volta. Quando se morre, tudo termina. A expectativa da morte é a realidade mais trágica para o ser humano. 

Hoje, o tempo trouxe consigo a sua companheira e ceifou a vida de uma das figuras responsáveis por um pouco de minha formação ontológica - Rubem Alves. Fiquei sabendo da morte de Rubem Alves no início da tarde de hoje. Há dias eu acompanhava o sofrimento pelo qual ele passava. Enquanto corria hoje no final da tarde, eu ouvia a End of the Road, de Eddie Vedder, que faz parte da trilha sonora do filme Dentro da Natureza  Selvagem, pensei sobre esse "fim da estrada" a qual todos nós chegaremos, enquanto olhava para as nuvens alaranjadas, com feições sanguinolentas. A aragem fria do início da noite produziu reverberações poderosas. Acabei ficando triste.

O tempo da descoberta

Descobri Rubem Alves nos idos de 2002. Estudava em um seminário. E ao conhecer as suas crônicas, impressionei-me com sua sensibilidade. De repente, passei a procurar para ler tudo que dizia respeito a ele. Contudo, percebia que quando falava de Rubem Alves, alguns dos meus colegas seminaristas me encaravam com certa desconfiança. Afinal, entendi o porquê de tanto medo dos meus colegas. Rubem havia sido um seminarista, assim como eu o era; chegou a ser pastor, mas sua liberdade de pensamento e sua forma de "caminhar" acabaram por criar problemas. Em plena Ditadura Militar, a Igreja Presbiteriana do Brasil o denunciou ao serviço de repressão do Regime. Se ele ficasse por aqui, certamente seria preso, torturado e teria um destino incerto. Enfim viajou para os Estados Unidos e lá fez mestrado e doutorado, contribuindo proficuamente para lançar as bases daquilo que se tornou conhecido como Teologia da Libertação. Sua Teologia da Esperança é o embrião que deu feições ao movimento que teria nomes como o peruano Gustavo Gutierrez e o brasileiro Leonardo Boff como ícones. 

O pensamento teológico de Rubem Alves, de certa forma, acabou por me influenciar. Desvinculei-me do dogmatismo da fé quando li Protestantimo e Repressão e Dogmatismo e Tolerância. Estes, acredito, são livros que me marcaram e que inscreveram em mim o discernimento filosófico e estético que tenho sobre a espiritualidade; me tiraram o"cabresto religioso" que estava em meu pescoço e me fazia olhar somente para o chão. Quando li Rubem Alves, pude olhar para o céu e me maravilhar com as cintilações de um azul que nunca enxergara. Os dois livros estão guardados carinhosamente em minha biblioteca e, de vez em quando, pego-os, admiro-os, folhe-os e termino tudo com um grande sorriso.

Passei a perceber que em Rubem Alves se torna fato aquela frase dele: "As palavras têm o poder de fazer acordar os desejos adormecidos dentro do corpo". É como se o corpo fosse uma lápide, um jazigo, onde estão congelados os rios simbólicos. As palavras são sóis capazes para dar vida a esse mundo inóspito. São elas, tão próprias do mundo humano, elementos capazes de fazer morar em nós a faculdade da alegria. A palavra é capaz de fazer ressuscitar o corpo. Ela é a eucaristia vivificadora. O corpo é uma realidade biológica, orgânica, mas o que nos torna humanos é a capacidade de criação dos símbolos. Criamos, pois isso é inerente aos seres humanos. Portanto, esse corpo é o espaço gerador de novas ideias, da capacidade de apreensão do mundo. Ou seja, tudo mora no corpo. A vida e a morte. Os abismos e as montanhas. Os jardins e os pântanos. O céu e o inferno. Os dias e as noites. E para subverter a logicidade da matéria, é necessário treinar o olhar. Rubem costumava repetir uma frase do poeta inglês William Blake: "O tolo ao ver uma árvore, enxerga somente uma árvore; o sábio, por sua vez, ao ver uma árvore, enxerga uma poesia". 

Após entender que existe um jogo simbólico por traz das coisas, transformei isso em uma realidade para os meus devaneios teológicos e espirituais. Rubem costumava apontar para o ritual cristão da santa ceia, dizendo que ali estava "o símbolo de uma ausência" - o pão e o vinho. Observem como ele conseguia fazer poesia com as mínimas coisas. E que o mundo estava repleto de metáforas. "E toda metáfora é um salto sobre o abismo". É esse jogo com a palavra que torna o universo de Rubem Alves tão encantador. Flertar com o seu pensamento é passar a viver com os arco-íris, com os arrebóis mais encarnados, com os jardins mais coloridos, com a sensação de que estamos saboreando as carnes delicadas de um caqui.

O pensamento de Rubem Alves se funde com um dos seus mestres - Nietzsche. Diz o alemão: "Estou convencido de que a arte representa a tarefa realmente metafísica do homem... A existência do muno só se justifica como um fenômeno estético". Acredito que estas palavras definam o que foi e como deve ser compreendido Rubem Alves.

O tempo do real (tempus fugit)

Ao saber da notícia nefanda, fez-se uma noite escura dentro de mim. Fiquei com um mal-estar horrível. É como se eu tivesse perdido alguém muito querido e que vivia comigo todos os dias. Fiquei triste por saber que não teremos textos inéditos; as palestras sempre encantadoras; as palavras embriagadas pelo cheiro de capim gordura, pelos ipês floridos, pelo barulho dos carros de boi, dos mistérios da terra de Riobaldo - Minas Gerais. Rubem nunca se afastou completamente de suas origens. Apesar de viver boa parte de sua vida em Campinas, interior de São Paulo, trazia em sua alma as aprendizagens iniciadas em Boa Esperança-MG - sua cidade natal. É como aquele poema ontológico de Carlos Drummond de Andrade, Confidência do itabirano.

Seu corpo, onde morou tantas poesias, será cremado e possivelmente as cinzas serão atirados ao vento, para que possam polinizar as flores a fim de que elas se tornem mais belas; para que as pintagueiras surjam mais vermelhas e atraentes; para que os flamboyants e ipês surjam como cabeleiras inflamadas a produzir beleza; para que os jardins sejam fecundados e possam se fortalecer. 

Em um país e em um tempo como o nosso, perder Rubem Alves é algo de muita seriedade. Mas ficarão as suas palavras, que virão como revoadas de pássaros e farão morada em mim, em nós... Marcharão numa procissão em direção ao interior de catedrais secretas. Proferirão discursos, declamarão poesias e atestarão com um verso de Manuel de Barros - repetido tantas vezes por ele: "É mais presença em mim aquilo que me falta". 

Obrigado, Rubem! Se eu não tivesse encontrado os seus textos, talvez eu não fosse aquilo que sou. O rio continua a correr e suas águas são sempre novas. Olhemos para as árvores e encontremos poemas.

quinta-feira, julho 10, 2014

Um país de nomes e fatos contraditórios

"O povo-massa, sofrido e perplexo, vê a ordem social como um sistema sagrado que privilegia uma minoria contemplada por Deus, à qual tudo é consentido e concedido"
Darcy Ribeiro, in O povo brasileiro.

No início do ano, quando fui ao Nordeste, tive a oportunidade de atravessar o estado do Piauí. Foi algo premeditado e prazeroso. Queria ver o Brasil por dentro; enxergar as vísceras de um país esquecido e que está separado do outro do litoral por séculos - evocando Euclides da Cunha. O que me chamou a atenção foi como muitas cidades e monumentos públicos foram "batizados" com nomes de políticos ou antigos oligarcas que dominaram o estado e que passaram o cetro para familiares conservadores, que se beneficiam do amasiamento com a coisa pública, um caso de "fornicação" descarada.

Mas esse não é um problema unicamente do Piauí. Há no Brasil inteiro casos de como os figurões da política deixaram os seus nomes estampados em ruas, construções, cidades, escolas, etc. Em São Paulo, por exemplo, existe a Rua Dr. Sérgio Fleury, um dos delegados mais emperdenidos dos tempos da Ditadura e chefe do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), responsável por torturar e matar uma quantidade enorme de pessoas. Há ainda a Avenida Castelo Branco, um dos generais-presidentes da Ditadura e responsável por um dos momentos de maior repressão do governo militar. Ou ainda, a Escola Dr. Garrastazu Médici, no Rio de Janeiro. Em Brasília, existe a Ponte Costa e Silva. Fico a me perguntar como é admissível tais casos. Em meu simplismo, pergunto: "Por que não se faz uma lei a fim de modificar tais nomes ou então se proibir de colocar nomes de políticos em algo público?" Ainda mais quando tais pessoas estão ligadas ao crime, à tortura e ao genocídio.

Esses casos ilustram um dos grandes e gritantes problemas do Brasil, que é falta de conhecimento da sua própria história. Ontem, por exemplo, foi feriado em São Paulo, que comemorou a chamada Revolução Paulista ou Revolução Constitucionalista, de 1932. O que não se conta é que a data de 9 julho marca a tentativa das oligarquias paulistas da República Velha voltar ao poder, após a sua derrocada em 1930. O início da Era Vargas pôs fim a certo tipo de liberalismo conveniente, que dava a São Paulo e Minas Gerais o comando do país. Para isso, as elites mobilizaram a população, que iniciou um movimento contra o restante do país. Havia uma imagem criada e repetida, que dizia que São Paulo era uma locomotiva que puxava vinte trens vazios. Ou seja, os demais estados do país e muitos intelectuais conservadores como Monteiro Lobato também encabeçaram o movimento. Segundo Boris Fausto: "Muitas pessoas doaram joias e outros bens de família, atendendo ao apelo da campanha "Ouro para o bem de São Paulo"".

A finalidade do movimento orquestrado pelo grupo conservador paulista era retomar o poder e lançar, refundar, a hegemonia que tivera. Hoje, os nomes utilizados representam uma contradição de termos. E isso explica, talvez, o conservadorismo tão visível no estado mais rico do Brasil e como certos grupos políticos (vide o PSDB, o sucessor direto dessa burguesia ressentida) permanecem vivos e encabeçam um movimento pelo atraso. 


quarta-feira, julho 09, 2014

Futebol e rasteira - de ontem, hoje e sempre

"A rasteira! Este, sim, é o esporte nacional por excelência!"
 Graciliano Ramos

Não sou um especialista em futebol. Acompanho alguns jogos. Dou os meus pitacos. E costumo me entusiasmar quando o São Paulo ganha. Claro, nos últimos anos o time tem amargado uma série de insucessos desastrosos. Sou da opinião de que isto é resultado da má gestão que vem lá da presidência do clube. Um time bem acertado em campo é sinal de que possui uma boa administração interna; que há planejamento; a parte financeira traduz transparência, lisura e o resultado pode ser visto em campo. Resgato aquela máxima vulgar de Aristóteles: "O homem é um animal político". E como não poderia deixar de ter uma certa resplandecência nessa frase, o futebol por ser uma produção do engenho humano, também, passa pela política. 

Não entendo nada de esquema tático. Sou um crítico acintoso. Às vezes, dou minhas cabeçadas em opiniões desajustados. Todavia, vez ou outra, me pego vendo uma daquelas partidas de meio ou de final de semana. É assim. Mas, curiosamente, desde que havia começado a Copa, eu me vi metido em um ceticismo colossal. Não senti entusiasmo algum por tudo aquilo que foi desenhado com garranchos à guisa de se transformar em algo grandioso, valoroso, pelos homens sabidos de nossa terra.

O futebol é um esporte que contagia pela sua própria natureza. Ele contraria a lógica do corpo e da razão humana. É praticado com os pés. Sendo que os pés são utilizados para manter o equilíbrio corporal e, com o auxílio das pernas, nos levar aos mais variados lugares. Por que não o praticamos com as mãos? Elas são mais nobres. Sem elas, não teríamos chegado ao nível de civilização a que desfrutamos. Contudo, talvez, se o fizéssemos não teria a mesma graça. As mesmas pernas que somente "servem" para conduzir, para levar, são capazes de promover danças mágicas, bailes desnorteadores no adversário como fazia um Garrincha, por exemplo.

O futebol chegou por aqui no final do século XIX, trazido pelos engenheiros ingleses e durante as primeiras décadas do século XX foi esporte das elites. Dizia Graciliano Ramos em uma crônica de época, vociferando com sua pena irônica contra o esporte: "Não seria, porventura, melhor exercitar-se a mocidade em jogos nacionais, sem mescla de estrangeirismo, o murro, o cacete, a faca de ponta, por exemplo?" Lima Barreto por não ser branco foi um dos mais destacados detratores do novo esporte.

Com o passar do tempo, o futebol se tornou uma unanimidade nacional. Existe até uma sociologia do povo brasileiro a partir do futebol, como o fez Roberto da Matta. Há no brasileiro uma capacidade para o improviso, para a dança, para o gingado, herança vinda da África. Tais prerrogativas foram úteis ao novo esporte que por aqui chegou. É um esporte que se adaptou bem ao jeitinho do brasileiro. Acostumamo-nos a isso. Nosso sucesso reside nesta plasticidade do brasileiro e que também é parte inviolável do esporte.

O Brasil é uma das pátrias mais apaixonadas por este esporte. Todavia, uma fragilidade estrutural, que se relaciona com a política, colocou os apaixonados pelo esporte de sobreaviso. Ou seja, o futebol brasileiro enfrenta uma crise séria - da seleção, passando pelos clubes da série A, à última série. Ontem, foi um dos dias mais amargos para a história do futebol brasileiro. Não existe registro histórico de tão grande derrota. O Brasil havia perdido por 6X0 para o Uruguai, mas isso havia se dado ainda no início do século XX. Existem alguns fatores a serem colocados:

(1) aquele que diz respeito a um contexto mais imediato, ou seja, o do próprio jogo. A mídia, talvez, seja a responsável por um trabalho psicológico negativo, já que ela vende produtos e com isso se conecta ao interesse das grandes empresas. Vendeu-se desde o início da Copa a mensagem de que esta seria a competição do Neymar. Ela, nesse sentido, trabalhou contra o time criando especulações; fazendo um movimento negativo; gerando um entusiasmo que não deveria existir, pois o time era ruim. Os jogadores cantaram o hino nacional segurando a camisa de Neymar, como se ele estivesse morto ou fosse a taça da competição. Jogo é estratégia e concentração. E nesse sentido, o time brasileiro estava com os pensamentos em outro espaço. Ao tomar os gols, como se pôde ver, houve uma desestabilização, uma desarticulação psicológica. Questões psicológicas foram determinantes para a derrota brasileira e para a vitória alemã.

(2) apesar de o Brasil ser uma país onde se joga o futebol mais bonito do mundo, a administração do esporte por aqui precisa passar por uma mudança. Ainda existe o mito de que se tem o herói, o messias redentor, capaz de decidir a partida a qualquer momento, como se trabalhou o tempo todo em torno de Neymar. A Alemanha provou que essa tese é ultrapassada. Já caducou. Hoje, quem manda no futebol joga coletivamente. É o espírito de equipe. A mídia precisa de heróis para criar marketing. O futebol brasileiro deve refletir a sua condição. Olhar para o desenvolvimento que as outras equipes conquistaram. Afinal, foi uma Copa em que o equilíbrio foi reinante em boa parte das partidas. Simplesmente, porque houve o entendimento de que "esquema tático também ganha jogo". 

(3)  em texto amplamente divulgado pela mídia pela internet, o ex-jogador Romário fez críticas contundentes ao modo como o futebol tem sido conduzido no Brasil nas últimas décadas. Ao ler o texto, fiquei com a impressão de que os gestores do futebol brasileiros são mafiosos, que vivem dos saldos gordos que o nome Seleção Brasileira gera. Imagino as centenas de milhões que são rolados com patrocínios e direitos. Trata-se, com certeza, de uma agremiação que precisa de toda a atenção por parte dos torcedores. Boa gestão repercute no campo; e má gestão, idem. 

Os brasileiros sentiram uma melancolia nunca antes imaginada. Amargaram no dia seguinte ao jogo uma verdadeira ressaca moral. A Copa pode ensinar uma lição: teremos um segundo semestre árduo. As eleições começam a avultar no horizonte. Em poucas semanas será o assunto do momento. Esqueceremos o fiasco futebolístico. Outras torcidas vão se armar. Alguém terá que pagar o resultado dos gastos. Vislumbro um resto de ano bastante enigmático. E daqui a dois anos as Olimpíadas serão por aqui. Ou seja, mais gastos e novas euforias. Somos um país estranho. Termino esse texto bambo com uma citação completa da epígrafe, que serve de metáfora para o momento atual: 

A rasteira! Este, sim, é o esporte nacional por excelência!"
Todos nós vivemos mais ou menos a atirar rasteira uns nos outros. Logo na aula primária habituamo-nos a apelar para as pernas quando nos falta a confiança no cérebro - e a rasteira nos salva. Na vida prática, é claro que aumenta a natural tendência que possuímos para utilizarmos eficientemente a canela. No comércio, na indústria, nas letras e nas artes, no jornalismo, no teatro, nas cavações, a rasteira triunfa.
Cultivem a rasteira, amigos!
E se algum de vocês tiver vocação para a política, então, sim, é a certeza plena de vencer com auxílio dela. É aí que ela culmina. Não há político que a não pratique. Desde S. Exa. o Senhor Presidente da República até o mais pançudo e béocio coronel da roça, desses que usam sapatos de trança, bochechas moles e espadagão da Guarda Ncional, todos os salvadores da pátria têm a habilidade de arrastar o pé no momento oportuno.
Muito útil, sim senhor.
Dediquem-se á rasteira, rapazes.

domingo, junho 29, 2014

Entrevista - Domenico De Masi (O Brasil como alternativa!)


Há alguns dias atrás estive em Gramado e Canela, cidades famosas e bem procuradas pelos turistas, na Serra Gaúcha. No Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, ganhei um exemplar da "ordinária" Revista Época, da Editora Globo. Não é preciso especular muito para perceber o viés ideológico desse veículo semanal que busca informar (sic.) o brasileiro médio. Ao folhear a revista, nas quase duas horas de viagem pela Serra, fui me impacientando com os colunistas da revista. Chega a níveis insuportáveis o mau-caratismo dos articulistas. Tudo aquilo que tenha o nome ou a resplandecência dos nomes da esquerda é "satanizado" e tratado com imensa verve irônica. Mas, em meio àquele lodoçal de más intenções, eu encontrei uma deliciosa e curiosa entrevista com o sociólogo Domenico de Masi, que conheci por algumas entrevistas que vi há algum tempo. A entrevista servia para divulgar e expor o conteúdo do seu novo livro denominado O futuro chegou, de De Masi, que acabei comprando na 18a. Feira do Livro de Gramado, que estava acontecendo quando cheguei à cidade. Grata surpresa! Curioso um sociólogo, pensador, enxergar no Brasil a possibilidade para a construção de uma nova sociedade - ou pelo menos que o mundo aprenda com o país. Abaixo, a entrevista!

Os brasileiros, de um tempo para cá, passaram a ver sociologia em tudo – até no rolezinho dos adolescentes. Talvez seja uma característica do país. “Enquanto na França prevaleceram os filósofos, na Inglaterra os economistas, na Espanha os escritores, na Alemanha os músicos, no Brasil prevaleceram os sociólogos e os antropológos”, diz o italiano Domenico De Masi, de 75 anos. “Tanto que vocês elegeram um sociólogo para presidente.” De Masi, que também é sociólogo, é um profundo conhecedor do Brasil. Mergulhou nas obras de autores fundamentais para a compreensão do país, como Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro e Sérgio Buarque de Holanda. A admiração pelo Brasil está presente em seu novo livro, O futuro chegou – Modelos de vida para uma sociedade desorientada 

ÉPOCA – Entre os autores brasileiros que o senhor leu, qual deles mais o impressionou?
Domenico De Masi – O Brasil tem a sorte de ter tido no passado e ter no presente intelectuais de alto nível, que projetaram a identidade e enalteceram os valores brasileiros, ganhando respeito em todo o mundo. Enquanto na França prevaleceram os filósofos, na Inglaterra os economistas, na Espanha os escritores, na Alemanha os músicos, no Brasil prevaleceram os sociólogos e os antropólogos. O Brasil é o único país do mundo que teve um grande sociólogo na Presidência da República – e por duas vezes. Por isso, e por seu imenso patrimônio cultural, espero que sejam os intelectuais brasileiros a guiar a elaboração de um modelo de desenvolvimento mundial necessário para vencer a desorientação de nossa sociedade e dar uma dimensão unificada e global para as diversas regiões da Terra. Li e me apaixonei pelo pensamento de muitos intelectuais brasileiros, mas dois deles me enriqueceram de modo particular: Darcy Ribeiro, que não tive tempo de conhecer, mas de quem li toda a imensa obra; e Oscar Niemeyer, com quem tive uma profunda amizade. Ambos deram uma contribuição criativa inestimável para impor ao mundo a excelência original do modelo brasileiro.
 
ÉPOCA – O senhor afirma que o Brasil é rico materialmente e rico de esperança, por isso tem algo a ensinar ao mundo. E as sociedades que eliminaram a miséria, como o Japão, o Canadá e os países escandinavos? Não seriam eles os melhores exemplos?
 
De Masi – Japão, Canadá e os países escandinavos têm muito a ensinar nos aspectos econômicos e sociais para ajudar na construção do novo modelo que o mundo precisa. Mas não se vive só de pão e bem-estar não é sinônimo de consumo. A felicidade de um povo e a excelência de seu modelo de vida não dependem apenas da riqueza. Os japoneses têm um PIB per capita de US$ 46 mil, mas se suicidam com tamanha frequência que, em 2007, o governo japonês sentiu a necessidade de publicar um Livro Branco antissuicídio. O Butão tem um PIB per capita de apenas US$ 2.400. Mas adota o índice de Felicidade Interna Bruta (FIB), que contempla a qualidade do ar, a saúde dos cidadãos, o ecossistema, a educação, o desenvolvimento de comunidades locais e a riqueza das relações sociais. Com base no PIB, esse pequeno Estado é um dos mais pobres da Ásia. Se levarmos em conta o FIB, passa ao primeiro lugar no continente e oitavo no mundo.

ÉPOCA – Em que o Brasil pode contribuir?
 
De Masi – O Brasil tem um PIB que o coloca na sexta posição no mundo (segundo dados de 2012 do Banco Mundial, o Brasil tem o sétimo PIB mundial), e, com seus US$ 12,6 mil de PIB per capita, pode se orgulhar de ter preciosos recursos econômicos, cada vez mais escassos no resto do mundo e cada vez menos desprezíveis na construção do novo modo de vida. Penso na copiosa mistura de raças aliada ao baixo índice de racismo, no sincretismo cultural, no amor pelo corpo, na sensualidade, na cordialidade, na musicalidade, na propensão do brasileiro a assimilar as contribuições dos estrangeiros, na hospitalidade, na alegria, na espontaneidade, na abertura ao novo e ao diferente, na tendência a encarar a realidade com um pensamento positivo, na capacidade de considerar fluidas as fronteiras entre o sagrado e o profano, o formal e o informal, o público e o privado, o emocional e o racional. A todos esses elementos positivos já presentes, hoje devemos acrescentar dois: o aumento da consciência dos grandes desafios a ser enfrentados e superados dentro do país – corrupção, violência, desigualdade, deficits educacionais –, e a percepção, agora clara, de ser um país de ponta, diferente e positivo, capaz de propor, mesmo no exterior, com orgulho, sua própria maneira de ser.
 
"Quando o novo modelo surgir,
o brasileiro terá orgulho
de seus ancestrais índios"
 
ÉPOCA – Qual foi seu objetivo ao identificar 15 modelos de sociedade? Os modelos certamente nos ajudam a entender o passado. Compreendê-los ajuda a melhorar o futuro?
 
De Masi – Cada sociedade formou a base de um modelo existente. A Idade Média cristã foi estruturada na pregação de Cristo e na doutrina elaborada pelos padres da Igreja do Oriente e do Ocidente. A sociedade muçulmana nasceu e se desenvolveu seguindo o padrão ditado por Maomé e pelos califas que lhe sucederam. A sociedade dos Estados Unidos se fundou com base num modelo que gradualmente influenciaria todo o Ocidente e que se inspirou em ideias protestantes, iluministas e puritanas. O modelo liberal que triunfou no século XIX e que ainda afeta nossa economia e nossa política é derivado do pensamento de John Locke, Adam Smith, Alexis de Tocqueville e outros. A sociedade soviética tentou a construção do modelo concebido por Marx, Engels e Lenin. Nenhum modelo de vida passado ou presente é capaz de tornar felizes os homens que os adotaram. Mas temos o dever de abordar a plenitude da vida, melhorando os modelos que não nos satisfazem. Não estou convencido que o bem-estar econômico seja uma meta coletiva que deva ser encampada pelo Estado, enquanto a felicidade deva ser uma meta pessoal que cabe apenas ao indivíduo atingir. Creio, no entanto, que o indivíduo não possa se aproximar da felicidade plena se o contexto social em que ele vive é violento, injusto, anárquico, desnorteado, negativo, predatório. Assim, cabe ao Estado garantir as condições essenciais para todo cidadão cultivar a própria felicidade.
 
ÉPOCA – Entre os modelos em que o senhor dividiu a humanidade, alguns produzem muito mais pobreza. Outros produzem muito mais abundância. Isso já não indica uma clara superioridade de alguns modelos em relação a outros?
 
De Masi – Os modelos japonês e protestante produziram mais riqueza, mas os modelos clássico e católico produziram mais humanismo. O modelo dos Estados Unidos produziu mais guerras que o do Brasil, que por sua vez é mais dinâmico e positivo que o modelo de italianos e franceses. Os modelos politeístas são menos intransigentes que os monoteístas. Todos os 15 modelos analisados apresentam qualidades e defeitos. Nenhum sozinho basta para orientar o homem pós-industrial, portador de necessidades inéditas em relação àquelas das gerações que o precederam.

ÉPOCA – O senhor sugere que a humanidade deveria abraçar um novo modelo. Mas não seria mais simples copiar ou melhorar o que já existe?
 
De Masi – É necessário estabelecer o modelo capaz de assegurar a maior felicidade possível para a sociedade pós-industrial. Sem esse modelo, não sabemos qual meta buscar nem como aproveitar os recursos que nos permitam chegar lá. Uma vez elaborado o modelo ideal de futuro, caberá a cada comunidade melhorar o modelo defeituoso que adota atualmente, a fim de aproximá-lo do ideal. Cada modelo atual ou do passado, sendo o resultado de um longo projeto, uma longa reflexão e testes, tem algo bom que deve ser incorporado ao novo modelo. Até agora, um “poder forte”, como Roma, a Inglaterra ou os Estados Unidos, elaborava um modelo e todos os países colonizados eram obrigados a adotá-lo. Hoje, temos as condições tecnológicas e sociais que permitem a concepção do novo modelo, assim como ocorre com as informações nas redes sociais e na Wikipédia.
>> Daniel Goleman: "A tecnologia degrada nossa concentração"

ÉPOCA – O senhor diz que o novo modelo incorporará valores dos antigos índios brasileiros. Como é essa ideia?

De Masi – Na metade do século XIX, a cidade mais industrializada do mundo era Manchester (na Inglaterra), onde apenas 6% dos trabalhadores estavam empregados. Nas atuais fábricas pós-industriais, um terço dos trabalhadores desenvolve atividades criativas. Os outros dois terços estão engajados em atividades executivas do tipo física ou intelectual, destinadas a ser absorvidas por computadores e robôs. Num futuro bem próximo, como previu (o economista britânico John Maynard) Keynes no fim dos anos 1930, só haverá trabalho criativo, enquanto a maioria dos trabalhadores não terá de trabalhar mais que 15 horas por semana. Em grande parte do mundo, a relação entre tempo e vida será muito similar àquela dos índios, centrada em atividades rituais e estéticas. Quando o novo modo de vida for desenhado e incorporar também esses valores, os brasileiros ficarão orgulhosos dos ancestrais indígenas de que hoje se envergonham. E nada impedirá nossos netos de somar os benefícios do ócio criativo, do senso estético e da sabedoria indígena aos benefícios da ciência e da tecnologia pós-industrial.

terça-feira, junho 24, 2014

Ponto de vista!

Lendo o texto abaixo eu pude perceber e refletir um pouco mais sobre o quanto não existe isenção naquilo que é trabalhado pelos figurões da publicidade e do jornalismo nativo mal intencionado. Olho de soslaio para a Copa. Fujo dessa histeria que foi construída em torno do mundial. Todavia, o brasileiro em geral oscila entre a euforia e uma visão depreciativa do seu país. Tal "complexo negativo" é uma consequência do nosso processo de formação. Se analisarmos a nossa constituição, perceberemos que a nossa identidade enquanto sociedade foi formada por uma lógica exploratória. A nossa colonização não aconteceu com o propósito de que formássemos uma coesão em torno de projetos, intenções, sonhos e esperanças. Fomos explorados, expropriados daquilo de que melhor possuíamos. Deve ser levando em conta ainda que uma elite patrimonialista e analfabeta sempre se utilizou do Estado para fins próprios. Essa elite sempre buscou viver "uma Idade Média", ou seja, sempre buscou "feudalizar" as relações históricas e tirar vantagens disso. E ela ainda está aí! Os barões da mídia vêm daquelas antigas famílias que sempre viram esse país como uma "ilha" atrasada para as suas maracutaias, como trabalha tão bem o cineasta Glauber Rocha no seu raivoso "Terra em Transe". Essa mesma elite tira proveitos do poder de alcance que as informações têm em nosso momento histórico, para inventar factoides e tirar vantagens políticas. Analise-se o nome das famílias que são detentoras do meios de comunicação e pode se perceber que elas se ligam aos antigos coronéis da Colônia. Ultimamente, a grande moda foi, desde julho do ano passado, quando começaram as manifestações, que "murcharam" justamente por não ter um projeto, uma pauta política, falar mal do país. Já se aprendeu historicamente que revolução não se faz sem um projeto de coesão, sem uma operação sistemática de ideias com uma finalidade explícita. Apenas um ajuntamento de pessoas atomizadas não gera mudanças, caindo consequentemente na anarquia como vimos. Pois, a mídia tem explorado ao máximo esse episódio, pois com isso ela alcança três objetivos: (1) enfraquecer o governo da Dilma Rousseff e do PT. Deve ser ressaltado que a esquerdopatia e o antipetismo atual são justamente resultado desse trabalho. (2) cria uma imagem negativa do Brasil para o mundo, confirmando sua tese histórica de que somos "um povinho incivilizado"; e que aqui só temos Carnaval e Futebol. (3) sua militância resulta em lucros e em uma sociedade que não toma consciência de si e, com isso, a hegemonia dela fica preservada. Nesses dias de Copa, já passei pelos aeroportos de Brasília, Congonhas, Porto Alegre e Guarulhos e não vi o caos propalado pelos "cavaleiros do apocalipse". Pelo contrário, vi muitos estrangeiros admirados - coreanos, argelinos, equatorianos, nicaraguenses, etc. É terrível quando não nos conhecemos. Isso acaba fazendo com que não nos valorizemos. Quando isso se dá, tornamo-nos alvos fáceis para sermos cooptados politicamente e filosoficamente. Um país capaz de desligar a TV e ligar sua atenção na programação da sua história, tem tudo para promover mudanças consideráveis. Afinal, como diz a música da Nação Zumbi: "A revolução não vai passar na TV". Isso não traria solução a todos os nossos problemas, mas nos daria paz para construirmos uma sociedade diferente. Abaixo, um belo texto"

"Parte do que dizem de nós não está sob nosso controle. Mas é possível trabalhar a imagem do país no nível da influência e da reputação. Como fazem pessoas e marcas. O Brasil é uma marca. Que nós, os donos dela, temos tratado muito mal. Imagine o dono de um produto que vibra mais quando falam mal do seu produto do que quando falam bem dele. Esses somos nós".


quinta-feira, junho 12, 2014

Opinião - uma pensata sobre o hoje


Certa vez, li um adágio do poeta inglês T.S. Eliot que dizia mais ou menos assim: "Numa terra de fugitivos, aquele que anda na direção contrária é que parece que está fugindo". Parece bobo, reativo, "do contra" afirmar isso, mas não simpatizo em nada com essa histeria a respeito da Copa do Mundo. Em muito, a minha visão pessimista, que acredito ser ciorânica (de Cioran, filósofo romeno), permite-me manter a prudência e lucidez necessárias, tirando os meus pés de convicções moles e agradáveis como algodão doce. 

A ostentação, o delírio enfronhado em desejos de triunfos epidérmicos, transforma o país em um ninho de ingenuidades. É bom que agreguemos à nossa rotina mais esta anestesia para que não façamos uma reflexão sobre nossa condição, sobre a nossa história. O Governo diz cinicamente que esta será "a Copa das Copas". O meu espírito marxista da contradição me conduz à seguinte pergunta: "Para quem?" Tenho convicção de que esta Copa trará satisfações, mas não será para mim, nem para tantos milhões de brasileiros. 

Ela trará satisfação para a FIFA, que sairá daqui com alguns milhões no bolso; será positivo para as empresas que compraram os direitos de transmissão; para as sociedades esportivas, que se locupletarão com cifras estratoféricas; para as corporações que se aproveitarão para inocular as suas presas sedentas na "carne suculenta" dos lucros por causa da quantidade de espectadores (consumidores passivos). 

O Brasil gastou mais de oito bilhões com a preparação da Copa. Vimos os estádios (os templos) sendo construídos do dia para noite. Tal fato me deixou com a impressão de que eu não estava no Brasil. Fomos rápidos. Céleres ao extremo. A coisa ganhou contornos ex nihilo. Mas quando causas mais nobres são debatidas, notamos uma exarcebante dificuldade para materialização dessa mesmas causas. Uma tenativa de debate para construção de escolas, casas populares, estradas, hospitais, infra-estrutura em cidades caóticas, a coisa se arrasta de forma langorosa. Uma lei com o objetivo de combater a corrupção; os vícios do Judiciário; não vêm à tona com tanta facilidade. Terrível. 

O Brasil é o país das incoerências. Dos mandos e desmandos. Dos patrimonialismos indecentes. Das sedimentações escandalosas. Por isso, e em decorrência disso, quero andar na direção contrária. Quero firmar um pacto com a indiferença. Essa é a minha postura política. Respeito aqueles que estão entusiasmados. Contudo, já vi e percebi muitas injustiças, desatinos, espertezas, vilezas, para continuar com um otimismo ingênuo, como se estivesse numa terra onde emana bom senso, justiça e honestidade. O futebol representa diante disso tudo uma injeção de morfina a fim de amenizar os arranhões provocados pela batalha que é viver em um país como o Brasil.