sábado, abril 11, 2015
domingo, abril 05, 2015
Abc do preguiçoso - Xangai
Um dos maiores artistas populares do nosso país. Abc do preguiçoso é uma das canções mais sensacionais do seu repertório. No vídeo, Xangai consegue representar de forma genial. É uma "ópera popular". Não há palavras para descrever.
sábado, março 28, 2015
O cinema em fevereiro
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| Othon Bastos, no papel de Paulo Honório |
Ao todo foram apenas cinco filmes. Posso classificar como um período excessivamente mirrado. Desde o mês de junho do ano passado, quando assisti a apenas um filme (Os últimos passos de um homem - 1995), que eu não via uma quantidade tão ínfima. Dos cinco filmes, o destaque fica com São Bernardo, baseado no livro homônimo de Graciliano, filme de 1972; e Nove Rainhas, mais um filme argentino com o onipresente Roberto Darín, que tem sido bastante comentado por aqui nos últimos meses. Os outros três são colocados num subgrupo. São eles: Santo Agostinho - o declínio do Império Romano (2010), Coração Valente (1995) e Oblivion (2013).
São Bernardo é daquelas obras que exigem mais de uma leitura - pelo menos uma a cada ano. É um trabalho cujo nível de análise de uma personagem chega a alturas adstringentes, de laceralidade psicológica, de secura de exame que nos coloca diante de um dilema: Paulo Honório é um herói ou um homem mal, rústico, bárbaro, desumanizado? Graciliano Ramos narra a história de um sujeito amargo, de vontade indômita, que subjuga os seus semelhantes como subjuga a terra. Paulo Honório conta a a história. Já nas primeiras páginas do livro, notamos a querela em torno da redação de um romance. Mas é depois que sua esposa Madalena se mata, que Paulo Honório inicia o seu calvário existencial. É um sujeito que busca se compreender, se medir. Afinal, como diz Eduardo Coutinho: "...a ambição de poder acaba por consumi-lo: ser e ter, define-lhe a visão de mundo".
Acima, ative-me de forma sucinta e superficial aos aspectos mais gerais dessa obra, uma das maiores da nossa literatura. O que é fantástico é que o ícone do Cinema Novo Leon Hirszman, que mais tarde faria aquele que é um dos grandes filmes do cinema brasileiro - Eles não usam black-tie (1981), conseguiu fazer uma das adaptações mais felizes que conheço. Othon Bastos conseguiu fazer viver esse que é um dos mais complexos personagens da literatura brasileira.
O outro filme que destaco é Nove Rainhas, que tem como diretor Fabían Bielinsky e é protagonizado pelo incansável Ricardo Darín e Gaston Pauls. Trata-se da história de dois picaretas que vivem a tirar vantagens de situações pequenas, até que surge a oportunidade de se darem bem. Eles conseguem uma série de selos ingleses raros conhecidos como Nove Rainhas e, a partir daí, terão que negociar com um empresário. Mas o que é surpreende no filme é o desfecho inesperado que deixa o telespectador boquiaberto, com ar embasbacado e a dizer: "Meu Deus, o que aconteceu?!" A partir desse evento, um sorriso bobo espraia-se no canto da boca, enquanto percebemos a ficha técnica do filme subindo. Foi assim que me senti ao ver essa produção argentina bem urdida.
Os três filmes que restaram ficam em um degrau abaixo, como enunciei acima. Coração Valente, uma obra cuja duração tem quase três horas, vi quando ainda era adolescente. Isso lá pelos idos de 1996 ou 1997. Voltei a ver a obra movido por uma curiosidade analítica, que busca reviver antigos otimismos que se fecundaram em tempos passados. O filme é plasticamente bem elaborado. Mel Gibson, que é diretor e protagonista (vive o papel do caudilho libertador William Wallace), conseguiu jungir drama épico, belezas naturais, fortes emoções e um mote invencível, a busca pela liberdade. Se não estou equivocado, Coração Valente ganhou o Oscar de melhor filme do ano de 1995. É uma drama épico grandioso. Podemos notar nesse tipo de filme dois aspectos: (1) quando o herói consegue cumprir a sua missão, realizando aquilo que é esperado dele, essa previsibilidade nos leva a um desenlace daqueles: "e eles viveram felizes para sempre", o que é tão típico em filmes hollywoodianos; (2) mas quando o herói morre, como é caso de Coração Valente, resta fazer desse evento algo grandioso, capaz de gerar emoções ou inocular no telespectador uma impressão de que ele era grande, enorme; que o herói mesmo morrendo é imortal. Mel Gibson conseguiu isso com a obra.
Já em Santo Agostinho - o declínio do império romano, o otimismo foi baldado pela qualidade ruim do filme. Agostinho foi o filósofo relevante para a história da Igreja e para ampliar o debate sobre temas metafísicos. Sua conversão à fé cristã mudou a sua forma de compreender o homem, a história e o tempo universal. O filme buscou retratar a sua vida pública como exímio orador a serviço do estado romano e a sua conversão como esforço incontido de sua mãe, Mônica, e a influência do bispo Ambrósio. Agostinho foi um sujeito importante para a minha caminhada. Li As confissões, o relato apaixonado de sua vida até a conversão, em 2005. Fiquei com uma impressão profunda do livro. Agostinho fala do seu Deus como alguém que está apaixonado, que vive a desmedida necessidade de respirar, sorver cada porção de ar como se fosse o último de sua existência. Recentemente, ouvi o filósofo Clóvis de Barros Filho, da USP, falar que As confissões é um livro suspeito. Para ele, trata-se de uma propaganda de Agostinho, uma forma de alcançar notoriedade. Agostinho era um sujeito que manejava bem as palavras, que sabia imprimir efeitos no interlocutor e o seu livro buscava essa finalidade.
Já o quinto filme, Oblivion, estrelado por Tom Cruise, não exige muita reflexão. Vi-o numa sexta-feira à noite, momento em que estamos desguarnecidos de qualquer coragem; e acabamos por sucumbir ante o programa fácil, kitsch; ante à estética de Hollywood. O ponto alto do filme é a canção Ramble On, do Led Zepellin - do Zep II - que há muito eu não escutara e, a partir dali - passou a ser o tema do alarme do celular, que me acorda durante a semana às cinco e meia da manhã a fim de que eu esteja na sala de aula às sete e meia da manhã.
São Bernardo é daquelas obras que exigem mais de uma leitura - pelo menos uma a cada ano. É um trabalho cujo nível de análise de uma personagem chega a alturas adstringentes, de laceralidade psicológica, de secura de exame que nos coloca diante de um dilema: Paulo Honório é um herói ou um homem mal, rústico, bárbaro, desumanizado? Graciliano Ramos narra a história de um sujeito amargo, de vontade indômita, que subjuga os seus semelhantes como subjuga a terra. Paulo Honório conta a a história. Já nas primeiras páginas do livro, notamos a querela em torno da redação de um romance. Mas é depois que sua esposa Madalena se mata, que Paulo Honório inicia o seu calvário existencial. É um sujeito que busca se compreender, se medir. Afinal, como diz Eduardo Coutinho: "...a ambição de poder acaba por consumi-lo: ser e ter, define-lhe a visão de mundo".
Acima, ative-me de forma sucinta e superficial aos aspectos mais gerais dessa obra, uma das maiores da nossa literatura. O que é fantástico é que o ícone do Cinema Novo Leon Hirszman, que mais tarde faria aquele que é um dos grandes filmes do cinema brasileiro - Eles não usam black-tie (1981), conseguiu fazer uma das adaptações mais felizes que conheço. Othon Bastos conseguiu fazer viver esse que é um dos mais complexos personagens da literatura brasileira.
O outro filme que destaco é Nove Rainhas, que tem como diretor Fabían Bielinsky e é protagonizado pelo incansável Ricardo Darín e Gaston Pauls. Trata-se da história de dois picaretas que vivem a tirar vantagens de situações pequenas, até que surge a oportunidade de se darem bem. Eles conseguem uma série de selos ingleses raros conhecidos como Nove Rainhas e, a partir daí, terão que negociar com um empresário. Mas o que é surpreende no filme é o desfecho inesperado que deixa o telespectador boquiaberto, com ar embasbacado e a dizer: "Meu Deus, o que aconteceu?!" A partir desse evento, um sorriso bobo espraia-se no canto da boca, enquanto percebemos a ficha técnica do filme subindo. Foi assim que me senti ao ver essa produção argentina bem urdida.
Os três filmes que restaram ficam em um degrau abaixo, como enunciei acima. Coração Valente, uma obra cuja duração tem quase três horas, vi quando ainda era adolescente. Isso lá pelos idos de 1996 ou 1997. Voltei a ver a obra movido por uma curiosidade analítica, que busca reviver antigos otimismos que se fecundaram em tempos passados. O filme é plasticamente bem elaborado. Mel Gibson, que é diretor e protagonista (vive o papel do caudilho libertador William Wallace), conseguiu jungir drama épico, belezas naturais, fortes emoções e um mote invencível, a busca pela liberdade. Se não estou equivocado, Coração Valente ganhou o Oscar de melhor filme do ano de 1995. É uma drama épico grandioso. Podemos notar nesse tipo de filme dois aspectos: (1) quando o herói consegue cumprir a sua missão, realizando aquilo que é esperado dele, essa previsibilidade nos leva a um desenlace daqueles: "e eles viveram felizes para sempre", o que é tão típico em filmes hollywoodianos; (2) mas quando o herói morre, como é caso de Coração Valente, resta fazer desse evento algo grandioso, capaz de gerar emoções ou inocular no telespectador uma impressão de que ele era grande, enorme; que o herói mesmo morrendo é imortal. Mel Gibson conseguiu isso com a obra.
Já em Santo Agostinho - o declínio do império romano, o otimismo foi baldado pela qualidade ruim do filme. Agostinho foi o filósofo relevante para a história da Igreja e para ampliar o debate sobre temas metafísicos. Sua conversão à fé cristã mudou a sua forma de compreender o homem, a história e o tempo universal. O filme buscou retratar a sua vida pública como exímio orador a serviço do estado romano e a sua conversão como esforço incontido de sua mãe, Mônica, e a influência do bispo Ambrósio. Agostinho foi um sujeito importante para a minha caminhada. Li As confissões, o relato apaixonado de sua vida até a conversão, em 2005. Fiquei com uma impressão profunda do livro. Agostinho fala do seu Deus como alguém que está apaixonado, que vive a desmedida necessidade de respirar, sorver cada porção de ar como se fosse o último de sua existência. Recentemente, ouvi o filósofo Clóvis de Barros Filho, da USP, falar que As confissões é um livro suspeito. Para ele, trata-se de uma propaganda de Agostinho, uma forma de alcançar notoriedade. Agostinho era um sujeito que manejava bem as palavras, que sabia imprimir efeitos no interlocutor e o seu livro buscava essa finalidade.
Já o quinto filme, Oblivion, estrelado por Tom Cruise, não exige muita reflexão. Vi-o numa sexta-feira à noite, momento em que estamos desguarnecidos de qualquer coragem; e acabamos por sucumbir ante o programa fácil, kitsch; ante à estética de Hollywood. O ponto alto do filme é a canção Ramble On, do Led Zepellin - do Zep II - que há muito eu não escutara e, a partir dali - passou a ser o tema do alarme do celular, que me acorda durante a semana às cinco e meia da manhã a fim de que eu esteja na sala de aula às sete e meia da manhã.
sexta-feira, março 27, 2015
Sem maniqueísmos...
Esse é problema de se entrevistar gente esclarecida: os maniqueísmos acabam sendo desfeitos e o bom senso prevalece. Parte alta da entrevista:
O entrevistador enuncia.
- Miriam Leitão em artigo desmentiu que a maior parte do dos "manifestantes" [do dia 15/03/2015] tenha votado no Aécio. Já o ministro do governo [Mercadante, penso] disse que quem participou das manifestações não votou no governo. Você concorda com o ministro ou com a Miriam?
Ao que entrevistado responde de forma galharda:
- Concordo com o ministro. E ao concordar com o ministro não se trata de uma opinião.
domingo, março 15, 2015
Como desestabilizar uma nação
Muito oportuno para o momento.
O que se aconteceu hoje no país é resultado de um projeto com doses fortes de psicologia social.
O que se aconteceu hoje no país é resultado de um projeto com doses fortes de psicologia social.
sábado, março 14, 2015
Algumas considerações sobre "Os sertões", de Euclides da Cunha. Uma leitura futura
Nunca li Os Sertões, de Euclides da Cunha. Tenho um exemplar adquirido no ano de 2003. A assinatura impressa na página diz 14-05-2003. É assim que faço com os livros que compro: ponho a data com objetivos cronológicos exatificados. Lá pelos idos do ano 2000, tentei ler o livro. Era um jovem pouco afeito à leitura. Aquilo me custou um trauma. Quando iniciei o trajeto pelas sendas duras da prosa de Os Sertões, na parte primeira, que trata da geografia da terra, acabei caindo nos buracos, lacerações surgiram por extensões amplas; escoriações enormes se tatuaram em meu otimismo, o que me fez desistir da leitura. O fluxo dos fatos me proibiu de voltar ao livro.
Hoje cedo, senti-me premido a revisitá-lo. Os Sertões não é um livro fácil. A erudição de Euclides da Cunha é intimidante. Trata-se de uma das mais bem-sucedidas exemplificações de como se faz uma reportagem. O autor foi enviado como adido do Jornal O Estado de São Paulo, para cobrir uma das expedições do estado brasileiro contra o Arraial de Canudos, uma aglomeração que surgira com gente pobre, miserável, supersticiosa e povoada pela esperança redentora oriunda da prédica de Antônio Gomes Maciel, alcunhado de Antonio Conselheiro.
Os Sertões é uma obra imponente, de linguagem austera, rica em polifonias e ressonâncias. Tais características fizeram com que um escritor do calibre de Mario Vargas-Llosa se apaixonasse pela história e quisesse, ele mesmo, escrever a sua versão da história do Arraial de Canudos. Claro, sem prescindir do valor da obra de Euclides da Cunha. O livro do peruano está aqui comigo. Chama-se A guerra do fim do mundo. Penso que "fim do mundo" possua uma ambiguidade fecunda, pois: (1) pode representar a distante localização geográfica; (2) a narração de "um Brasil esquecido" pelo "Brasil civilizado", focalizando a contradição entre o Brasil litorâneo e "o Brasil profundo", o Brasil preterido pelas elites, pelo progresso; e (3) simplesmente fazer emular a ideia de um fim biblicamente apocalíptico, já que Conselheiro era dado a pregar o fim do mundo.
O fato é que Euclides por ser engenheiro de formação militar, republicano, positivista e evolucionista, consegue fazer um "tipo de leitura" sobre esse Brasil esquecido. Os preconceitos científicos e as ideias eugênicas estão inscritas em seu texto, seguindo à risca a vanguarda intelectual da época. Termos como "tabaréu ingênuo", "caipira simplório"; ou simplesmente chamar o nordestino de "neurastênico" evidenciam o tipo de visão sustentada pelo escritor baiano.
O fato é que Canudos é um dos exemplos de como o estado brasileiro açambarcado pelas elites, tratou historicamente os mais humildes ou como dizia Florestan Fernandes: "os de baixo". A violência que a cidade sofreu é uma vergonha histórica para o estado brasileiro. Trata-se de um caso de guerra civil do Brasil litorâneo contra o Brasil miserável do interior. É violência do otimismo bambo contra a simplicidade supersticiosa de um Brasil relegado pelos ciclos históricos. Canudos serviu de "bode expiatório" para a crença republicana do progresso propagandeado pelas elites subalternas. Um exemplo claro é a lobby criado pela intelligensia da época, que dizia que Canudos era um obstáculo, um mácula contra o "republicanismo revolucionário". Não há algo mais risível e patético. Com um pensamento como esses, chegamos a um veredicto: nossas elites são burras, cegas, criminosas, preconceituosas, xenófobas.
Fica uma certeza: lerei "Os sertões" nos próximos meses.
P.S. Hoje cedo, procurei alguns vídeos no Youtube e encontrei um material considerável sobre Canudos. Entre eles, encontrei quatro belas reportagens sobre a cidade e sobre o Nordeste.
segunda-feira, março 09, 2015
Uma resposta - mais uma!
Uma resposta!
Meu caro xxxxx, você acredita realmente nisso? A realidade é um dado objetivo da
materialidade, mas essa materialidade não é apenas aquilo que realmente vemos.
Não existe um fazer político sem ideologia e nem oportunismos. O movimento é
ideológico (por mais que a maior parte de pessoas que estão nele nem saiba o
que acontece nos bastidores do mundo político) e, portanto, político em sua
essência. Então vamos lá:
(1) Carta
Capital é uma revista diferente dos demais veículos hegemônicos. Ela possui aproximações
com a esquerda, sim. É uma opção ideológica. Mino Carta assim se define. Não há
problemas com relação a isso. O grande problema, no Brasil, são as outras que
se dizem imparciais. Elas afirmam isso, querendo deixar claro que são isentas,
independentes, mas trabalham contra a democracia, contra o povo por,
constantemente, "desvirtuarem" informações com finalidades muito
óbvias. Com relação à publicidade: O governo é um dos maiores pagadores - e um
bom pagador! Todas as grandes mídias recebem dinheiro do governo. A publicidade
feita por ele gera cifras milionárias. Por exemplo, em 2013, a Rede Globo
lucrou quase um bilhão com publicidade do Governo Federal. Não é somente a
Carta Capital.
(2) O movimento
que se organiza para a suposta “passeata da indignação” possui, sim, apoio
partidário. Não enxerga quem não quer ver. O PSDB com seu núcleo duro (FHC –
uma ratazana política, metida a intelectual -, Aloysio Nunes, Aécio, Serra,
Jeressaiti etc), representantes de um setor da sociedade brasileira, são os
mais interessados nessa “onda de descontentamento”. Eles não verbalizam isso de
forma explícita por saberem que apoiar um golpe traria problemas com a opinião
pública. Mas, no fundo, haverá participação dos sujeitos desse partido. Essa
manifestação não foi orquestrada pelo povo apenas. Ela é resultado de um tipo
de postura golpista que sempre existiu nesse país. Se formos analisar a
história da tenra e claudicante República Brasileira, nunca ficamos mais de
trinta anos sem que houvesse um golpe. É inadmissível para as elites desse país
(que tem o PSDB como principal partido a os representar), que um partido como o
PT fique tanto tempo no poder. Criam factóides diários, como a dita aberração:
“Foi o PT que inventou a corrupção”. Ou: “O maior escândalo de corrupção da
história do país”. Quer saber mesmo? O maior escândalo de corrupção desse país
foi a privataria tucana do Governo FHC. Ou o saque que Don João VI fez aos
cofres do Banco do Brasil, quando voltou para a Europa no século XIX, entre
outros escândalos. Sabia que, quando Caminha terminou escrever a sua famosa
carta para o rei de Portugal, pediu para que o monarca arranjasse um emprego
para um parente seu, num flagrante claro de nepotismo? Ou seja, estava fundado
ali o jeitinho brasileiro. Falar de corrupção sem considerar a história é agir
de má fé.
Os representantes dessa elite caricata que chegou aos nossos dias, ainda
estão insatisfeitos com a derrota na última eleição. Já tentaram invalidá-la
por duas vezes junto ao TSE, lançando suspeições sobre a apuração que deu a
vitória a Dilma. Esse tipo de postura golpista aconteceu em 1954 contra
Getúlio; aconteceu em 1964 contra Jango. Marchas como essas são a
materialização de um movimento sujo, subterrâneo, ideologicamente enviesado das
elites brasileiras, que têm nos banqueiros, nos donos de mídias, nos donos do
capital rentista e em outros setores conservadores sua sedimentação; querem que
o deus mercado triunfe sobre as necessidades mais prementes do homem simples,
que trabalha e trabalha duro para sustentar a sua família em uma periferia. O
que esse povo deseja é um tipo de estado que os sirva. Aquelas pessoas que irão
à famigerada passeata (fascista em sua essência por não aceitar o que a maioria
decidiu nas urnas em outubro passado) são, no fundo, massa de manobra. São
brasileiros formados pela mídia. São pessoas que, do alto de seu
conservadorismo anacronicamente atômico, acham que estão sendo sujeitos de um
movimento legítimo. Não. Como já disse: “esse movimento é golpista, é fascista,
é subproduto, de um outro movimento, que tem nas elites brasileiras, a sua
principal fonte criadora.
Já tentaram “deslegitimar” as eleições e viram na
manifestação do dia 15 a oportunidade tão desejada. São pessoas que nunca
olharam para trás para entender a história do seu país. Que acham que a
materialização do presente é resultado, unicamente do presente. São pessoas que
acham que Dilma governa o país sozinha e que faz o que bem quer. São pessoas
que pensam que a realidade, o presente, está desligado das demais
contingências. São pessoas que nunca leram um clássico da historiografia, da
sociologia ou da antropologia para entender o que é o mundo político e acham
que sabem das coisas. São pessoas que não sabem que os poderes da República são
independentes e harmônicos entre si e que o Executivo não manda como quer no
país. São sujeitos induzidos pela mídia, que, no Brasil, julga e condena antes que
os órgãos oficiais do Estado o façam, num verdadeiro atentado contra a
Constituição. São pessoas que desrespeitam a presunção de inocência e ônus da
prova. Em suma, são aquilo que a Marilena Chauí fala tão bem: são um abominação
ética, uma abominação política e uma abominação cognitiva.
domingo, março 08, 2015
O cinema em janeiro de 2015
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| Serge, interpretado por Fabrici Luchini, em Pedalando com Molière |
Somente agora, tendo chegado ao mês de março, que farei o meu relatório dos filmes que vi no mês de janeiro. No mês de janeiro eu viajei para o Nordeste. Lá fiquei por quinze dias. Período de descanso. Momento de rever amigos, parentes; de visitar locais que foram abandonados, mas que moram aqui dentro como paisagens recorrentes e apaixonadas. Sou um homem habitado por paisagens e fragrâncias. No meu corpo estão tatuadas as memórias que funcionam como espelhos. Elas são portas por onde entro e me vejo como criança, imergindo em um passado que se faz sempre presente. As imagens são bandeiras tremulantes, sempre a indicarem a vitória de um exército chamado saudade (sei, no fundo, é piegas). Visitei o Rio Grande do Norte, a Paraíba e o meu Pernambuco querido.
Mesmo com esse período de viagem, ainda consegui assistir a oito filmes. Os destaques ficam por conta de Pedalando com Molière (2013), Efeito Borboleta (2004), Segunda-feira ao sol (2002), Festa de família (1998) e o Filho da Noiva (2001). Numa segunda renque, ficam Trotski, a revolução começa na escola (2009), O mesmo amor, a mesma chuva (2000) e Tatuagem (2013).
Principio falando daqueles que ficaram secundarizados. Trotski, a revolução começa na escola é uma produção canadense. É uma comédia incipiente. Busca retratar a história de um jovem que se acha a encarnação do revolucionário russo. Achei-o meio bobo. Em O mesmo amor, a mesma chuva, produção argentina, o onipresente Darín encena um romance com Soledad Villamil. Dos filmes argentinos vistos por mim recentemente, achei que esse ficou bem aquém da boa e sólida filmografia do país. Já Tatuagem é uma produção ousada do cinema pernambucano e traz o polivalente Irandhir dos Santos, uma das grandes revelações do cinema brasileiro dos últimos anos. O filme é visceral e cru em sua proposta. Somente vendo para entender o que digo.
Penso que o filme que mais me chamou a atenção no mês de janeiro foi Efeito Borboleta, embora a maviosidade de O filho da noiva, tenha me tocando fundo. Efeito Borboleta, dos irmãos Eric Bress, J. Mackye Gruber, cuja fama eu havia escutado apenas por comentários esparsos, é daqueles filmes que deixam a gente impressionado pela sua proposta filosófica. O filme aborda em linhas gerais a seguinte questão: por que eu tenho esta vida e não outra? E se eu tivesse feito outras escolhas, como seria a minha vida, aonde eu estaria? E se naquele dia eu não estivesse naquele lugar? E se eu não tivesse me decidido por realizar determinadas ações e não as que realizei e tenho realizado? A obra é rica em reflexões filosóficas, sendo que o seu fulcro epistemológico é a teoria do caos. A outra obra, como aludi acima, é o sensível O filho da noiva, um filme que mostra um Darín fantástico. Um dos grandes filmes argentinos realizados até hoje.
Vale mencionar ainda Festa de família, do dinamarquês Thomas Vintenberg, uma das primeiras realizações do manifesto chamado de Dogma 95, que teve também Lars von Trier como signatário. O filme possui uma revelação espetacular. A família se reúne para uma comemoração. Quando todos seus fartos ramos familiares se reúnem com amigos, filhos, netos, o primogênito revela que foi abusado sexualmente pelo pai. Um mal-estar coletivo toma proporções impensadas. Excelente filme.
Segunda-feira ao sol, do diretor espanhol Fernando León de Aranoa, é outra boa película. A obra, que traz Javier Bardem no papel principal, faz uma reflexão amarga sobre a crise econômica europeia e como esta traz os seus efeitos deletérios sobre a estima de um grupo de desempregados espanhois. Numa sociedade de consumo, quanto vale um homem que não pode consumir, que não pode vender a sua força de trabalho? O capitalismo gera crises profundas na alma daqueles que não podem participar da sua dança. E não poder dançar, significa sofrer a estigmatização social e uma auto-mutilação psicológica. Aranoa também fez Nos guetos de Madri (1998), outra película que quero ver.
A comédia amarga Pedalando com Molière é uma delícia. Recordo-me que vi esse filme no cinema, quando da sua estreia em 2013. Resolvi vê-lo novamente por conta da atuação de Fabrici Luchini que, no filme, faz o personagem Serge. O filme é estudo sobre a alma humana. Ou seja, até que ponto a vaidade humana pode crescer em um sujeito. Além de ser muito divertido, tendo fortes doses de simulação teatral, Serge é o alter-ego de O Misantropo, do dramaturgo Molière. O personagem funciona como uma metáfora metalinguística para a obra. Muito bom esse filme francês.
sábado, março 07, 2015
A sensação "de ser livre"
Sob a lei geral do capitalismo - gerar o máximo de lucro com o mínimo de despesas -, o trabalhador precisa separar-se do seu produto. A educação, a ciência, a técnica, a inteligência e a arte são gratuitas apenas para o capitalista.
Dos métodos brutais de exploração do capitalismo do século XIX passou-se no século XX aos métodos racionalizados e ao trabalho em série, dividindo o trabalho em múltiplas fases, tornando-o repetitivo, impessoal e mecânico. Embora o esforço físico tenha diminuído, o impacto sobre a mente humana leva frequentemente ao stress e à fadiga mental.
Se o trabalhador de hoje pode, muitas vezes, escapar durante uma parcela do seu tempo do domínio da produção esgotante, não é menos explorado nesse seu tempo livre. Através da criação e incentivo de "necessidades" de todo tipo, torna-se escravo de uma sociedade que o obriga ao consumo do que interessa unicamente ao capitalista.
Se contarmos as horas extras e o tempo de locomoção da casa à fabrica ou ao local de trabalho, o chamado "tempo liberado", o segundo emprego ou o biscate, para a grande massa dos trabalhadores, o tempo livre é apenas uma ilusão. As horas de TV serão as únicas capazes de distraí-los. Seria um suplício ter de aguentar na TV ou fora dela um debate dos problemas políticos e econômicos. Por isso ele vê ("é isso o que eles querem", dizem isso os programadores de TV) o que sonha: ambientes bonitos, finos, ouve coisas boas e engraçadas, vibra com o amor e o casamento do rico com o pobre etc. notadamente através das novelas incluídas nos "horários nobres" da reposição física de trabalho.
GADOTTI, Moacir. Concepção Dialética da Educação. Editora Cortez. 16ª edição. São Paulo. 2012. pp. 58-59.
quarta-feira, fevereiro 25, 2015
O "FORA DILMA" e as "opiniões"
O Brasil atual, do ponto de vista político, tem sido um palco para uma profunda crise de representatividade. O governo atual é responsável por um pouco desse aspecto cinzento que se abateu sobre a política nacional. Mas, penso que essa realidade seja sustentada, principalmente, pelo desserviço que a mídia conservadora presta diariamente em seus veículos ditos informativos - sejam eles escritos, visuais ou falados (no caso das emissoras de rádio). Um forte movimento fascista e golpista se instalou de forma silenciosa a serviço de certos interesses e, como se fosse um vírus, passou a fazer parte do vocabulário do homem médio (algo que se estende das crianças aos idosos) contra o governo. Ora, se existe esse consenso e uma forma homogeneizada de discurso raivoso, canino, babão, contra o governo petista, o "FORA DILMA" não é nada mais nada menos do que uma espécie de "catapora coletiva" pulverizada pelos jornalões que têm uma clara posição ideológica e que acometeu a sociedade.
Não defendo o governo petista. Votei em Dilma o ano passado como um último recurso político. Penso que a base hegemônica que comanda o PT há muito esmaeceu o sonho inicial de fundação do partido. Nas eleições do ano passado, quando os movimentos sociais e vários intelectuais apoiaram o partido, fiquei de longe observando os passos do governo, e, principalmente, do explícito interesse midiático e do mercado em torno do projeto de cada um dos candidatos. Havia duas possibilidades: a guilhotina (Aécio), que era a decapitação certa, sem possibilidade de graça, indulgência ou anistia a e cruz (Dilma), mas que trazia em seu bojo toda aquela força esperançosa e simbólica que o objeto representa. Boa parte dos brasileiros optou pela cruz. Todavia, a esperança se mostrou mole, frouxa, como uma chuva de dois minutos. Simplesmente, ela não aconteceu, pois o braço hegemônico do PT, que tem em Dilma Rousseff a sua base, optou por uma saída pela direita em meio à crise. O fato é que a crise está posta com toda a sua latência. Mas o PT ao invés de sair pela esquerda, com a opção clara pelo trabalhador e pelos movimentos sociais, o que fortaleceria o governo e o tornaria defensável, ficou sem titubeios com o mercado.
Mauro Iasi já apontava isso em seu lúcido e esclarecedor artigo O sexto turno, escrito quinze dias antes do segundo turno da corrida presidencial. Nele, o intelectual falava sobre a opção clara que o Partido dos Trabalhadores havia feito desde o primeiro mandato de Lula e, que não seria naquele momento, que as coisas mudariam. Analisando a atual conjuntura à luz da reflexão de Iasi a realidade se torna mais clara. A mídia sabe do "alheamento político" do brasileiro médio - e faz política em cima disso. São hábeis jogadores. Buscam desgastar o governo por causa de suas últimas decisões para salvar o mercado - aumento da gasolina, alta dos impostos, corte nos direitos trabalhistas etc; os escândalos de corrupção, principalmente, aquele que tem ajudado a lançar abaixo os flancos táticos do governo, o caso Petrobras. Trata-se de um jogo em que, aquele que tem o poder de formação da "opinião", acaba levando a partida. Aconteceu isso, por exemplo, em 1992 com os caras pintadas. Isso parece clichê: mas não foi o povo que necessariamente que impeachtmou Fernando Collor; mas sim, a Globo que fez isso. Ela o colocou e ela o tirou.
O atual movimento antidilmista possui uma fonte clara. Só não não enxerga quem diz "FORA DILMA!". Não é o PT de Dilma que é incompetente. É o tipo de política a favor do mercado e do capital rentista que traz essas consequências. Foram as escolhas e as alianças costuradas a favor do deus mercado. Com Aécio não seria diferente, já que o seu partido é a personificação de um projeto de política que possui um rio que se sabe onde desemboca: no mar do conservadorismo e do atraso. Como diz Alysson Leandro Mascaro em Estado e forma política, sob o capitalismo, até mesmo o estado tornou-se uma mercadoria para a burguesia. Ou seja, o estado se tornou uma força que age a favor do lucro e dos interesses do capital. Uma prova disso, como se pode atestar, é o lucro absurdo do Banco Itáu. Em um tempo de arrocho e suposta crise, como se pode explicar uma entidade financeira que lucra 20 bilhões de reais em um ano, sendo que o recorde se consuma ano a ano?
Mas, por que escrevi essas linhas? Ontem olhava de forma descompromissada algumas coisas no Facebook. Percebi que o Milton Ribeiro havia curtido determinado comentário. Quando o li, percebi que ali estava uma das declarações mais felizes que li nos últimos meses. Fez-me lembrar o livrinho que tenho aqui em casa de Schopenhauer, em que ele fala sobre o perigo dos textos ou de leituras mal feitas. No caso em questão, o grande perigo é a leitura de opiniões de colunistas que escrevem claramente aquilo que o chefe manda e depois apregoam os termos carunchados imparcialidade e independência, como se isso fosse possível, quando interesses de classe estão postos. Não conheço o dono do comentário, mas penso que "papagaios de plantão" antes de proferirem o baboso "Fora Dilma", deveriam ler algum livro de ciência política; ao invés de ouvir o Bonner, deveriam ler os iluministas (Hobbes, Locke, Rousseau, Montesquieu etc), que são responsáveis pela elaboração da concepção de estado moderno; ao invés de fixarem atenção naquilo que os colunistas (animais amestrados das redações) falam a mando do patrão, deveriam ler algum livro de história para entender a complexidade que é o Brasil e quais foram os interesses que o formaram.
Segue o texto:
O objetivo de se estudar e ler muito (num primeiro momento
descartem os jornais e partam para os livros) não deve ser o de querer mudar o
mundo, mas o de mudar a si mesmo, de se proporcionar a possibilidade de olhar
em volta com olhar crítico, analisando as situações e os fatos de forma
coerente, racional. A leitura (filosofia, história, antropologia, sociologia,
literatura) te dá a capacidade de entender as nuances, os jogos, as distorções,
a má intenção por trás do que é escrito em notícias
e principalmente do que é dito por comentaristas. Ler jornal não torna ninguém
inteligente. Dizem (não sei se é verdade) que certa feita Luis Fernando
Veríssimo afirmou que em certos dias a única coisa verdadeira em um jornal é a
data. Há alguns anos eu lia muito jornal. Hoje leio bem menos, e o aumento
diário de dedicação aos livros melhorou a qualidade da minha leitura de jornais
- quando os leio. A notícia é para informar. Opinião cada um deve ter a sua.
Acontece que a grande maioria não distingue uma da outra, principalmente quando
uma se disfarça de outra. E está cheio de gente aí que não tem opinião própria
(acha que tem mas não tem), apenas replicam o que ouvem do marido, da esposa,
do companheiro, da companheira, do pai, da mãe, do tio, do jornal, da TV etc.
Tá cheio de gente opinando sobre política, sobre a economia do país, sobre
corrupção, sem sequer pegarem em um livro. Sua inteligência e conhecimento
resumem-se em adjetivar de vaca a mandatária do país. Apenas repetem feito
papagaios (maritacas, caturritas) o que ouvem dos outros. Façam uma tabela com
horário diário de trabalho e muita leitura, e só depois de se dedicarem
DIARIAMENTE à leitura, aos estudos, por pelo menos uns quatro anos, poderão
então opinar sobre algum assunto sem correrem o risco do ridículo. E olhem lá,
tempo de estudo nem sempre é atestado de inteligência...
segunda-feira, fevereiro 23, 2015
A literatura é um denominador comum da experiência humana, por Mario Vargas Llosa
Baita texto! Sintetiza a finalidade e a dignidade da literatura como construtora que exatifica a experiência humana.
Em feiras de livros ou mesmo livrarias,
frequentemente alguém se aproxima pedindo-me autógrafo. “É para minha
mulher, filha ou mãe”, explica. “Ela adora ler!” De pronto pergunto: “E o
senhor? Não gosta de ler?” E a resposta é quase sempre a mesma: “Gosto,
mas sou muito ocupado.”
Já ouvi essa
explicação dezenas de vezes. Esse homem – e milhares outros como ele –
tem tantos afazeres importantes, tantas obrigações e responsabilidades,
que não pode perder seu precioso tempo mergulhado num romance.
Segundo
esse raciocínio, a literatura seria uma atividade dispensável, uma
diversão que somente pessoas com muito tempo livre poderiam se permitir.
Gostaria
de apresentar alguns argumentos contra a ideia da literatura como
passatempo e em prol de considerá-la, além de uma das ocupações mais
estimulantes e enriquecedoras do espírito humano, uma atividade
insubstituível para a formação de cidadãos na sociedade moderna e
democrática. Por essa razão, ela deveria ser semeada nas famílias desde a
infância e fazer parte de todos os programas educacionais.
Vivemos
numa era de especialização em virtude do extraordinário desenvolvimento
da ciência e da tecnologia, e da conseqüente fragmentação do
conhecimento em incontáveis avenidas e compartimentos.
A
especialização traz benefícios. Possibilita pesquisa e experimentos, e é
a força motriz do progresso. Mas também destrói os denominadores comuns
culturais que permitem a coexistência, a comunicação e a solidariedade.
E leva à separação dos seres humanos em guetos culturais de
especialistas, confinados – pela linguagem, por códigos de conduta e
pelo conhecimento particularizado – a uma especificidade contra a qual
um antigo provérbio já nos advertia: não se concentre tanto na folha, a
ponto de esquecer que ela é parte da árvore e esta, da floresta.
Em
grande medida, a noção da existência dessa floresta depende do senso de
conjunto que une a sociedade e não a deixa se desintegrar numa centena
de especificidades. A ciência e a tecnologia, portanto, já não podem
desempenhar esse papel unificador da cultura.
A
literatura, por sua vez, foi e, enquanto existir, continuará sendo um
denominador comum da experiência humana. Aqueles de nós que leram
Cervantes, Shakespeare, Dante ou Tolstoi entendem uns aos outros e se
sentem indivíduos da mesma espécie porque, nas obras desses escritores,
aprenderam o que partilhamos com seres humanos, independentemente de
posição social, geografia, situação financeira e período histórico.
Nada
nos protege melhor da estupidez do preconceito, do racismo, da
xenofobia, do sectarismo religioso ou político e do nacionalismo
excludente do que esta verdade que sempre surge na grande literatura:
todos são essencialmente iguais. Nada nos ensina melhor do que os bons
romances a ver nas diferenças étnicas e culturais a riqueza do legado
humano e a estimá-las como manifestação da multifacetada criatividade
humana.
Ler boa literatura é ainda
aprender o que e como somos – em toda a nossa humanidade, com nossas
ações, nossos sonhos e nossos fantasmas -, tanto no espaço público como
na privacidade de nossa consciência. Esse conhecimento se encontra
apenas na literatura. Nem mesmo os outros ramos das ciências humanas – a
filosofia, a história ou as artes – conseguiram preservar essa visão
integradora e um discurso acessível ao leigo, pois também eles
sucumbiram ao domínio da especialização.
O
elo fraternal que a literatura estabelece entre os seres humanos
transcende todas as barreiras temporais. A sensação de ser parte da
experiência coletiva através do tempo e do espaço é a maior conquista da
cultura, e nada contribui mais para renová-la a cada geração do que a
literatura.
O que a literatura deu à humanidade, então?
Um
de seus primeiros efeitos benéficos ocorre no plano da linguagem. Uma
sociedade sem literatura escrita se exprime com menos precisão, riqueza
de nuances, clareza, correção e profundidade do que a que cultivou os
textos literários.
Uma humanidade sem
romances seria muito parecida com uma comunidade de gagos e afásicos.
Isso também vale para o indivíduo. As pessoas que nunca lê, lê pouco ou
lê apenas lixo pode falar muito, mas vai sem dizer pouco, porque dispõe
de um repertório mínimo de palavras para se expressar.
Não
se trata de uma limitação somente verbal, mas também intelectual, uma
indigência de idéias e conhecimento, porque os conceitos pelos quais
assimilamos a realidade não são dissociados das palavras que nossa
consciência usa para reconhecê-los e defini-los.
Nenhuma
disciplina substitui a literatura na formação da linguagem. O
conhecimento transmitido por manuais técnicos e tratados científicos é
fundamental, mas eles não nos ensinam a nos exprimir corretamente. Ao
contrário, com freqüência são mal escritos porque os autores, às vezes
expoentes indiscutíveis em sua profissão, não sabem transmitir seus
tesouros conceituais.
Outro motivo
para se conferir à literatura um lugar de destaque na vida das nações é
que, sem ela, a mente crítica – verdadeiro motor das mudanças históricas
e melhor escudo da liberdade – sofreria uma perda irreparável. Porque
toda boa literatura é um questionamento radical do mundo em que vivemos.
Qualquer texto literário de valor transpira uma atitude rebelde,
insubmissa, provocadora e inconformista.
A
literatura apazígua essa insatisfação existencial apenas por um
momento, mas nesse instante milagroso, nessa suspensão temporária da
vida, somos diferentes: mais ricos, mais felizes, mais intensos, mais
complexos e mais lúcidos. A literatura nos permite viver num mundo onde
as regras inflexíveis da vida real podem ser quebradas, onde nos
libertamos do cárcere do tempo e do espaço, onde podemos cometer
excessos sem castigo e desfrutar de uma soberania sem limites. Como não
nos sentirmos enganados depois de ler “Guerra e Paz” ou “Em Busca do
Tempo Perdido” e voltar a este mundo de detalhes insignificantes,
obstáculos, limitações, barreiras e proibições que nos espreitam de todo
canto e em cada esquina corrompem nossas ilusões?
Nada nos protege melhor da estupidez do preconceito, do racismo, da xenofobia, do sectarismo religioso ou político e do nacionalismo excludente do que esta verdade que sempre surge na grande literatura: todos são essencialmente iguais.
Quer
dizer, a vida imaginada dos romances é melhor: mais bonita e diversa,
mais compreensível e perfeita. Talvez seja esta a maior contribuição da
literatura ao progresso: lembrar que o mundo é malfeito, e que poderia
ser melhor, mais parecido com o que a imaginação é capaz de criar.
A
sociedade livre e democrática requer cidadãos responsáveis, críticos,
independentes, difíceis de manipular, em constante efervescência
espiritual e cientes da necessidade de examinar continuamente o mundo em
que vivemos, para tentar aproximá-lo do mundo em que gostaríamos de
viver.
Sem insatisfação e rebeldia,
ainda viveríamos em estado primitivo, a história teria parado, o
indivíduo não teria nascido, a ciência não teria alçado vôo, os direitos
humanos não teriam sido reconhecidos e a liberdade não existiria. Tudo
isso nasce dos atos de desafio a uma vida que se mostra insuficiente ou
intolerável. Para esse espírito que despreza a vida como ela é – e, com a
insensatez de Dom Quixote, tenta tornar o sonho realidade -, a
literatura serve de magnífica espora. A verdade é que o desenvolvimento
da mídia audiovisual – que ao mesmo tempo que revoluciona as
comunicações monopoliza cada vez mais o tempo que dedicamos ao lazer,
relegando a leitura a segundo plano – permite-nos imaginar para um
futuro próximo uma sociedade moderníssima, repleta de computadores,
telas e microfones, mas sem livros.
Temo que esse mundo cibernético seja profundamente incivilizado, sem espírito, apático – uma resignada humanidade de robôs.
Evidentemente
, é muito improvável que essa terrível perspectiva venha algum dia a se
concretizar. Não existe um destino que decida por nós o que vamos ser.
Depende de nosso discernimento e de nossa vontade que essa utopia
macabra se realize ou se apague.
Se
queremos evitar o desaparecimento dos romances – ou sua restrição ao
sótão dos objetos inúteis – e com isso o desaparecimento da própria
fonte que estimula a imaginação e a insatisfação, que refina nossa
sensibilidade e nos ensina a falar com eloquência e precisão, que nos
torna livres e nos garante uma vida mais rica e intensa, então devemos
agir. Precisamos ler bons livros e incitar à leitura os que vêm depois
de nós.
quarta-feira, fevereiro 11, 2015
Teilhard de Chardin, o compositor da sinfonia universal
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| Teilhard de Chardin (1881-1955) |
Na última segunda-feira terminei a leitura de Sinfonia Universal, de Frei Betto. O livro se propõe a fazer uma apresentação bastante instigante, apaixonada e poética da visão do padre humanista Teilhard de Chardin. Trata-se de um livro pequeno - de pouco mais de cem páginas. Frei Betto foi um dos primeiros sujeitos, ainda na década de sessenta, a introduzir o pensamento do jesuíta em terras brasileiras. Chardin buscou conciliar teologia e ciência, algo que aparentemente não se integram - como água e óleo. O resultado foi o estranhamento dos seus colegas cientistas e a imposição do silêncio pela Igreja.
O livro está separando por dois momentos: (1) aquele que busca apresentar a problemática em torno da existência do homem diante dos mistérios infinitos do cosmos. Para isso, Frei Betto dialoga com Stephen Hawking. Por causa da imensidão cósmica, aliada a uma dinâmica estritamente racional, construiu-se uma separação entre o homem e a natureza. O mundo passou a ser interpretado como uma máquina. A razão durante muito tempo foi vista como a rede capaz de apreender todos os voos da realidade. Todavia, tal pensamento levou o homem a uma condição inferior diante dos eventos universais. (2) logo em seguida, Betto nos faz uma explanação das ideias do pensador francês, que buscou levar à frente um projeto que tem por compreensão conectar todas as realidades criadas e mostrar lugar do homem como o refinamento evolutivo da matéria.
Teilhard de Chardin durante muito tempo foi mal visto pelas autoridades eclesiásticas da Igreja que viam em seu pensamento ranços extremos de panteísmo. Tal fato, estava ligado ao fato de que Chardin havia embebido o seu pensamento de esquemas da filosofia oriental. Ele havia passado uma temporada na China e aquilo acabou mudando as suas concepções. O autor de O fenômeno humano, desde muito jovem se enveredou pelos caminhos científicos. Estudou fósseis. Fez pesquisa de campo. Aproximou-se do pensamento evolutivo. Construiu um pensamento que afirmava que entre um protozoário e uma montanha; ou entre uma flor ou uma estrela existe uma força convergente, um halo invisível que liga tudo o que existe.
O personagem principal dessa dança cósmica seria o homem. Para ele o homem é a matéria que ganhou consciência. É o silêncio cósmico que se tornou música. É o não movimento que se tornou movimento. Chardin, desse modo, entende que todos os ciclos e processos possuem uma razão de ser. Não existe desperdício cósmico. Tudo converge. Nada se perde. Tudo se transforma. Tudo faz parte de um sistema invísível.
Seu pensamento se estrutura da seguinte forma: a história da vida e da matéria está assentada em três etapas ou grandes momentos: (1) a cosmogênese, que tem início com com a criação da matéria até o aparecimento da vida; (2) biogênese, que vai até o aparecimento do homem; (3) antropogênese, que é o aparecimento do homem como momento máximo dos processos evolutivos; tal fase se completa de forma plena com a vinda de Cristo à terra (cristogênese), que dá início a unidade de todas as coisas com Cristo. Essa elevação ou espiritualização, que funciona como um refinamento da condição humana, leva à etapa conhecida como noosfera.
O que é bonito em Teilhard de Chardin é a sua preocupação em construir uma missa para o mundo; uma sinfonia poética para o universo; dignificá-lo. Tudo o que existe é sagrado. Nada é inútil. A vida é sagrada e está ligada a cada som, cada átomo, cada grito de esperança ou desesperança; tudo é a transparência de uma energia que é espiritual. Carl Sagan costumava dizer que o homem é a consciência do universo. É a sua voz. Penso que se Teilhard o tivesse conhecido ficaria feliz com esse pensamento.
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