terça-feira, outubro 09, 2018

Mangabeira Unger explica Bolsonaro

Perfeita a reflexão de Mangabeira Unger sobre Bolsonaro. Não gosto dessas propalações bobas, típicas de quem se curva a um culto bobo e subserviente. Mas, vale citar que Mangabeira é professor em Harvard e chegou a dar aulas para Obama. Mangabeira fala ainda sobre a importância do Estado, um dos alvos a serem completamente desmontados pela equipe do candidato do PSL, via Paulo Guedes.


domingo, outubro 07, 2018

De uma conversa via WhatApp


..., sua explicação faz sentido! Grande parte da esquerda pensa assim. Mas é preciso apontar  algumas coisas:

(1) Não sou cirista. Mas foi a primeira vez que votei para presidente em um candidato que não é do PT. Fiz com a faca entre os dentes e um peso enorme na consciência. Parece que eu estava cometendo um crime (risos!). Deve ser a consciência de classe! A minha relação com a história. Pensando por viés de coerência ideológica, todos deveríamos votar no Boulos, que apresenta uma pauta mais à esquerda e mais próxima das demandas dos trabalhadores. Mas, infelizmente, o PSOL ainda não é um partido de penetração popular. O PT é aquilo mais próximo do povo que conseguimos construir no campo progressista em 500 anos.  

(2) A campanha eleitoral de 2018 teve início logo após a de 2014. A vitória de Dilma foi tiro de misericórdia para a elite econômica e política do país. Eles sabiam que era preciso parar o PT. Neutralizar o governo Dilma e aniquilar o seu principal líder, Lula. Pelo transcorrer natural da história, Dilma sairia e Lula ganharia em 2018. Os donos do poder sabiam que isso aconteceria. Seria um processo para o qual não haveria freios. O golpe foi pensado com esse objetivo. Lula mesmo preso, tentou manter o PT na luta. Isso é legítimo, embora entenda que devesse haver apenas um candidato de esquerda em torno de uma coalizão. Lula deu um xeque-mate em Ciro, sem deixá-lo com muitas alternativas. Capturou as principais alianças. Recordo-me que Ciro recorreu até mesmo ao Centrão. Ainda bem que não deu certo. Ele pensava pragmaticamente,  mesmo sabendo o preço que pagaria caso fosse eleito. Não tendo muitas alternativas, formou uma chapa puro-sangue com a Kátia Abreu (um nome que causa arrepios nos eleitores da esquerda). Lembre-se de que, sendo do MDB de Temer, foi uma das mais aguerridas defensoras de Dilma durante o golpe. Isso a isenta das sinalizações políticas do passado? Não.  Todavia, é preciso olhar para ela com o pouco mais de parcimônia. 

(3) Ciro é um candidato para o qual muito esquerdista vira o rosto, mas, é uma alternativa no campo popular. Isso não pode ser negado. Não podemos dizer que Ciro está do lado de lá. Um dos graves erros do PT é entender que ele, somente ele, vocaliza as demandas da esquerda; que ele é a esquerda legítima. Essa estratégia apenas fortalece o lado oposto. Nesta eleição, por exemplo, a estratégia colocou o país em perigo, deixando-nos à mercê de um hitlerzinho medíocre dos trópicos chamado Jair Bolsonaro. 

(4) Ciro já foi ministro de Lula e já foi ministro de FHC. Atualmente, está no PDT de Brizolla, um dos sujeitos que mais entenderam as elites entreguistas do país. O PDT é um partido nacionalista. Possui incoerências como qualquer partido, mas possui um lastro histórico bastante respeitável. Se o discurso de Ciro não é arraigado no chão semântico daquilo que converge centralmente para a esquerda, o seu nacionalismo é autêntico. É preciso pensar numa liderança que consiga discernir a conjuntura sem paixões exacerbadas.

(5) Votei em Ciro, mas sei que o segundo turno será entre o Bozo e o Haddad. As chances do PT são imprecisas, mas a militância (e todos os democratas) precisa construir uma estratégia de luta para reverter a narrativa em torno da figura do candidato do PSL. É preciso apontar as incoerências, os blefes; o lodo que existe em torno de sua personalidade; o quanto um candidato como ele é pernicioso para os trabalhadores, para as mulheres, para os negros, quilombolas, para os gays etc. Bolsonaro é um fenômeno, e como todo fenômeno, há doses fortíssimas de psicologia em torno de dele. O fato dele não ter ido aos debates, ajudo-o a se fortalecer. No segundo turno, ele terá que comparecer aos debates e, acreditamos, que a sua mediocridade ficará exposta. Ele não poderá se esconder. Seja Ciro ou Haddad, vai ser preciso desconstruir a casca imantada que existe em torno dele; deixá-lo nu para que seja percebido o quanto é estúpido, boçal e um grande atraso civilizatório. 

quarta-feira, outubro 03, 2018

O perigoso flerte com o abismo, a conjuntura, a ignorância histórica e a suposta vitória de Bolsonaro

"A história se repete a primeira vez como tragédia e, a segunda, como farsa". Karl Marx. 

A eleição de 2018 aponta para um cenário dramático. Certamente, o que resultar das urnas, configurará uma situação de bastante dificuldade: (1) se ganhar Haddad ou Ciro, o cenário será de afirmação política, de luta; de enfrentamento do golpe de 2016 e seus reais resultados. (2) se ganha o candidato que representa o campo conservador, do atraso, o país será colocado num ambiente de retrocesso para os trabalhadores; de mergulho em um fosso profundo. Portanto, o momento que vivemos é de flerte com o abismo.

Muito se tem pensado e refletido sobre o fenômeno Bolsonaro. Primeiro é preciso entender que o fenômeno conservador acontece em nível internacional. Enxerga-se esse movimento em vários países europeus e, se afirmou ainda mais, com a eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos. Trata-se de uma crise central do capital, que, por sua vez, arrasta-se desde 2008. Não se deve ignorar que o contexto de crises acaba por levar a cenários de forte retração social. Esse tensionamento acaba por acirrar o que poderíamos chamar de "bloqueio ao diferente". Os supostos nacionalismos possuem uma pátina fortemente fascista.

No Brasil, desde 2013, nota-se o fortalecimento de uma narrativa que busca criminalizar a política, os direitos sociais e, principalmente, os movimentos à esquerda. No fundo, sempre existiu no Brasil uma espécie de "macartismo tupiniquim". Isso ficou velado durante os dois mandatos de Lula por conta do cenário econômico. Dilma não conseguiu dar continuidade ao lulismo. A bolha da tolerância estourou em 2013. Os movimentos iniciados com pretextos aparentemente difusos, acabaram por ganhar contundência e objetividade política. Foram direcionados ao governo. Vale lembrar que nesse período, tem início a Operação Lava Jato, que foi um dos principais planos para diluir o PT. Se o Mensalão não deu conta, a Lava Jato teve uma sistematicidade sincrônica. Ela mirou os principais quadros do Partido dos Trabalhadores. O alvo era Lula, o líder carismático e atemporal do Partido. 

Com a eleição de 2014, ficou mais evidente que, caso o PT ganhasse, não concluiria o governo. Havia uma conjuntura deletéria. Os representantes da elite (a mídia, o braço político, o judiciário, o financismo, o agronegócio etc) brasileira estavam a postos. Isso ficou claro com o golpe jurídico-parlamentar de 2016. Ali estava aparentemente consolidada uma estratégia dos poderosos do Brasil, que era tirar das mãos do PT o governo, nem que para isso passassem por cima da Constituição e liquidassem com as estruturas do estado democrático de direiro. 54 milhões de votos não representam nada para o grande capital. O objetivo foi consolidado com a subida de Temer ao poder. Todavia, Temer se mostrou fraco, inexpressivo. O seu governo foi constituído por vampiros e parasitas; por dilapidadores da coisa pública e do direito dos trabalhadores. Vale lembrar que o acordo para que o golpe se consolidasse era justamente implantar reformas que retirassem direitos. Temer tinha na manga algumas reformas - política, trabalhista, previdenciária; privatização das principais empresas públicas, entregando-as a preço de banana para o grande capital; entrega do pré-sal etc. Muitas dessas reformas não se confirmaram.

Temer não logrou sucesso completo. Os sucessivos escândalos do seu governo, não permitiram que ele tivesse o apoio popular devido. Observa-se aqui que ele tinha chances de consolidar um consenso, pois a orquestração do golpe teve visibilidade. Milhares de pessoas saíram às ruas para protestar contra o governo Dilma. Houve um acanhamento, uma retração dos movimentos sociais. O governo Dilma se tornou indefensável pelo quadro montado. O velho antipetismo, que já existia no Brasil, fruto de questões históricas, passou a ganhar vida. 

O discurso da antipolítica passou a ganhar contornos. Desejava-se um herói novo. Alguém que não representasse a figura do político; alguém de fora do sistema; ou que estivesse no sistema e não tivesse passado por um processo corruptor. Esses cenários são típicos. A corrupção sempre esteve na esteira dos momentos críticos da história do país. Sempre foi utilizado como discurso político para convencer. Em tempo, vale mencionar que o problema principal do país não é a corrupção. É um enorme senso-comum tachar determinada pessoa de corrupta. Se for feita uma pergunta para determinada pessoa sobre o que ela mais abomina na política, ela proferirá a palavra "corrupção". Se perguntar algo sobre determinada figura política, haverá da mesma forma a verbalização de que "ele é corrupto". Ou: "Político não presta!" "Tudo corrupto!" "Ladrão!" Ou seja, o dado corrupção é uma informação usada mais para confundir do que para revelar as coisas. Essa noção equívoca surge do trabalho da mídia conservadora e dos seus principais jornalistas que não focam em ideias, mas sim, em acusações perigosas e deletérias. Corrupção é consequência e não causa.

Some-se a isso o baixo nível cultural do brasileiro, que desconhece completamente os rudimentos mais básicos da política. A incapacidade de fazer análises ou de pensar com elementos contrastantes. A objetividade baseada na aparência sempre aponta para juízos equivocados. Quando surge um quadro assim, geralmente, as pessoas são induzidas a acreditarem em determinadas narrativas e atuarem baseadas em emoções. O brasileiro médio é um misto de "tara" e conservadorismo contradizente e esquizofrênico, fruto de uma educação péssima e de pouco incentivo para entender as grandes produções que engrandecem o espírito humano. Ele é incapaz entender qual o lugar dos temas das grandes realizações humanas - a música, a literatura, a arte, a cultura, a história e outras manifestações - na vida cotidiana. 

O desconhecimento da história leva o brasileiro a não olhar para trás e entender a própria condição do presente. Relacionar o passado ao presente é um exercício impensável para o brasileiro médio. Um exemplo é o que se deu em 1989 com eleição de Fernando Collor. Naquele momento histórico, não havia eleições diretas desde 1960, quando Jânio Quadros fora eleito. Fernando Collor era a consolidação da juventude e da mudança. Era um político que representava a o momento novo. Possuía um discurso de ruptura. Seu moralismo tinha um alvo - a corrupção (assim como se dera com Jânio Quadros). Ficou conhecido pela sua fala intransigente como "o caçador de marajás" - sendo que ele mesmo, um membro das famílias mais tradicionais de Alagoas, também era um marajá. Acabou ganhando de Luís Inácio Lula da Silva. Collor levou a eleição com forte movimento que acreditava na construção de um momento novo na história do país. Seu partido pequeno e sem coligações chamava a atenção. Possuía supostas qualidades que o tornavam imbatível - era dono de uma oratória espetacular, era bonito, rico. Sua imagem foi trabalhada de tal forma que a vitória foi arrebatadora. Todavia, quando Zélia Cardoso de Melo, a chefa da equipe econômica, orquestrou o confisco das poupanças, notou-se claramente o quanto a eleição do caçador de marajás era temerária. Outras trapalhadas de sua equipe econômica foram minando a credibilidade do governo. Finalmente, "os esquemas" passaram a fazer parte do seu governo. O homem infalível possuía pernas de barro. Em 1992, o governo que fora guindado à posição de "salvador da Pátria", foi impeachtmado. Caía ali "o messias", o incensado político que traria resultados extraordinários para o país.

Nesse sentido, é importante voltar a falar de Bolsonaro, o candidato que aglutina as qualidades da mudança para milhões de brasileiros. Bolsonaro em dado sentido é uma espécie de Fernando Collor. Possui um forte apelo à sua imagem. Posa como a antítese ao PT. Seu discurso pró-ruptura também se assemelha a Collor. Outro ponto que o aproxima do candidato alagoano é a imagem de alguém novo na política e que, supostamente, não é contaminado pelo sistema. Há a crença ainda de que ele venha restaurar os valores perdidos. Que combaterá a violência e, principalmente, a corrupção.

O que acontece é que o brasileiro médio adora flertar com o abismo. Mal sabe ele que Bolsonaro é um agente parasitário da velha política. De que seu discurso truculento e bravateiro ganha visibilidade pela identificação pró-violência que o brasileiro médio possui. Para o sujeito médio, acostumado a conviver com a pregação do signo da violência, nada melhor do que alguém que apareça e afirme o justiçamento que sempre se intentou realizar. O candidato do PSL não é a mudança. Ele é mais do mesmo. Sempre foi um político tacanho, medíocre e inexpressivo que só ganhou projeção por que soube se utilizar de sua retórica do ódio, vocalizada em momento de grande fragilidade em torno do pacto democrático. Se o Brasil estivesse passando por um momento de tranquilidade institucional, Bolsonaro seria um mero coadjuvante, alguém sem qualquer atrativo, Seria reprochado socialmente. Não haveria qualquer referência à sua pessoa, a não ser como modelo de tudo o que existe de mais pernicioso e abjeto em matéria de empobrecimento democrático. 

É justamente a armação em torno do golpe que criou um monstro chamado Bolsonaro. A mídia e os principais quadros que criam consenso que o criaram. Nesse sentido, ele é um resíduo do ódio, da violência, do preconceito que nossa sociedade doente é capaz de criar e cultura. Seu aspecto inculto, sua falta de polidez; seu despreparo em vários assuntos é evidente; sua misoginia, sua crença em tudo aquilo que não dignifica o ser humano é a sua principal força. Para agradar os donos do capital, Bolsonaro fala em privatizações. O principal mentor de sua equipe econômica, Paulo Guedes, é um "Chicago boy", um daqueles defensores do "Estado mínimo" - claro, mínimo para os trabalhadores e máximo para o grande capital. Vale ressaltar que o capital adora inverter discursos para confundir. 

Em suma, o antipetismo pode eleger Bolsonaro e aquilo que era tragédia, vai se transformar em farsa, levando o país, mais uma vez, para o abismo, assim como sempre acontece quando há endeusamentos a determinadas figuras. No Brasil, como disse certa pessoa, o fundo do poço não é o final da queda, é apenas uma etapa do processo. 


segunda-feira, outubro 01, 2018

Uma resposta...

Tudo é possível... O cenário é bem complexo, mas podemos conjecturar algumas coisas - principalmente, quando se trata das elites brasileiras. Os generais, os velhos reaças de sempre, têm feito política. Isso é notório! As ameaças constantes à nossa combalida democracia acontecem sem qualquer pudor. Caso o Haddad ganhe, será absurdamente difícil para ele governar. Ainda podemos sentir o calor do golpe no ar. 

A classe média pró-Bolsonaro certamente sairá à rua com suas camisas da CBF, para coreografar as dancinhas constrangedoras. O ódio ao PT encontrou no discurso pró-violência do Bozo, uma identificação certeira. Bolsonaro é a materialização do fantasma do ódio, do autoritarismo, do preconceito, do medo e da ignorância que habita no interior de grande parcela da classe média brasileira. No fundo, são vítimas do processo profundo de despolitização por que passamos. Nota-se com isso tudo, o triunfo galopante do capital, que sempre se nutre do fascismo para estabelecer falsas rupturas que, no fundo, encaminham para a perda de direitos. 

É possível que um golpe seja perpetrado. Será difícil para a turma da casa-grande perder pela quinta vez seguida para o PT. Gostaria que no lugar do Haddad estivesse o Ciro. Acredito que ele, num suposto governo, teria mais força política para estabelecer um pacto democrático e conduzir um governo mais voltado para o campo popular. Uma vez que fosse assim, talvez, daqui a quatro anos, o PT estivesse pronto para voltar. Todavia, o PT não aceita ser coadjuvante. Vejo nisso uma perspectiva negativa. Se for eleito, o candidato do PT precisará ter pulso forte e fortalecer os movimentos sociais. E é justamente nesse ponto que repousam as minhas dúvidas. A Dilma não fez isso em 2014 e o resultado todos nós conhecemos. 

Apesar de ser um simpatizante histórico do PT (sempre votei em candidatos do PT e o farei novamente agora), gostaria de votar no Ciro. O meu voto será estrategicamente medido e escovado para vencer o candidato do fascismo, o Boçalnato, que representa o atraso, o autoritarismo, a falta de razoabilidade; sujeito que alimenta as pessoas com o lodo de sua personalidade. Ele é uma espécie de caixa-de-gordura da antipolítica. E milhões de brasileiros, sem saber o porquê, alimentam-se do material liberado por ele. Há probabilidades graúdas dele ganhar. Se isso acontecer, resta-me apenas o silêncio para ver a tragédia social e o colapso civilizatório que encobrirão como um lençol cinzento o Brasil. O candidato do PSL é uma espécie de "revival" de um Jânio Quadros ou de um Fernando Collor, figuras moralistas, que posaram de salvadores da pátria, mas que, no fundo, realizaram governos trágicos e inexpressivos.

segunda-feira, setembro 24, 2018

Paulo Honório, o grande personagem de São Bernardo

"O que estou é velho. Cinquenta anos pelo S. Pedro. Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta casca espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada."

Após a terceira leitura de São Bernardo, de Graciliano Ramos, restou a convicção de que ele é o grande romance do inominável escritor alagoano. Li-o observando minudências. Escovando a atenção. Esmerilhando os sentidos para que pudesse beber cada frase. Cada insinuação velada. A história de Paulo Honório além de uma grande estudo psicológico é uma verdadeiro palco de como é constituído o cenário social e político da década de trinta. 

São Bernardo foi a segunda obra escrita pelo velho Graça, um escritor circunspecto, atento à palavra; carpinteiro meticuloso. Alguém que sabia o verdadeiro peso da palavras. Que não gastava tempo ensaboando os adjetivos. Ele simplesmente dizia o que queria dizer sem, que para isso, fizesse rodeios, se metesse em empolações balofas. Não era sua intenção deixar o texto literário repleto de tecidos gordos e desnecessários. Um primeiro aspecto que nos chama a atenção é a "magreza" das expressões. Paulo Honório o narrador é um sujeito rústico, dono de uma "bruteza" agreste. Ele é a voz e o estômago do patriarcado. 

No início da obra é dito que ele desejava contar a sua história. Mas após ter contratado alguém que o fizesse, percebeu que a coisa estava "pernóstica", "estava safada". Refugou o intento. E decidiu levar à frente o empreendimento. Sua forma de narrar é honesta. As palavras mais duras e sensíveis do livro são dirigidas a ele mesmo. 

Após a leitura, ficaram-me três perspectivas em leve gravitação em minha cabeça:

(1)  A econômica - Paulo Honório é um sujeito determinado. Possuía uma fome grandiosa pelo trabalho. Sabia tirar proveito das situações. Fez de tudo um pouco - foi vendedor (mascate), trabalhou com a enxada; empreendedor. Em tudo o que fez, havia um determinismo para algo maior. Viu na figura de Padilha, dono da fazenda São Bernardo, a possibilidade de triunfo. Padilha era um pândego. Representava a antítese de Paulo Honório. Faltava-lhe imaginação. A princípio, pediu um empréstimo ao futuro dono de São Bernardo. Consegue. Todavia, aquilo era uma estratégia. Acabou se enredando e teve que entregar a fazenda a um preço irrisório. Começa, a partir dali, a grande saga de Paulo Honório. Ele faz investimentos vultosos. Investe na agropecuária. Na década de trinta, o Brasil enfrentava uma crise econômica seríssima, em decorrência do processo monocultor a que se dispusera o país. O café fora o carro-chefe da economia brasileira. Com a crise de 1929, percebeu-se a necessidade de industrialização do país. Paulo Honório possui essa sensibilidade.

Ele varia as práticas. Compra máquinas. Investe em árvores pomíferas. Constrói açudes. Domestica o curso da águas. A natureza passa a ser usada para produzir riquezas. Paulo Honório é, em suma, uma representação do capitalismo. Ele avança de maneira inconteste. Não há limites para os seus desejos grandiosos. Não há sensibilidade. O lucro, a vantagem e o poder são sempre os seus objetivos. Avança com a propriedade e vai conquistando as propriedades vizinhas. Aqueles que oferecem resistência são derrubados pela pistolagem. Ele torna São Bernardo em um grande empreendimento. Uma representação fiel da vontade fáustica que há na sua personalidade.

(2)  A política - do ponto de vista político, Paulo Honório é um sujeito esperto e bem articulado. Há ao seu lado, a religião, o direito e a esfera jornalística. Ele sabe o quanto essas três dimensões são importantes para influenciar politicamente o cenário; para "manipular" a materialidade a seu favor. A construção da escola não é uma estratégia com finalidade sociais. O interesse é político. Pouco lhe interessa saber se as pessoas sabem escrever ou não. Para ele, pessoas sabidas eram pouco habilidosas para a ação de plantar. Elas atrapalhariam a condução dos trabalhos em São Bernardo. A construção da paróquia não acontece por piedosa devoção. A vida dos homens é organizada em torno de determinadas ações políticas. São justamente essas ações que potencializam a manipulação do poder. Saber utilizar a política é atrair o poder para si. Paulo Honório tem consciência de determinado empreendimento. Ao estabelecer relações com as autoridades, Paulo Honório procura fazer com que a esfera de poder lhe seja permeável.

(3) A existencial - do ponto de vista existencial, a personagem é carregado pelos mais duros e sombrios desejos. Sua disposição mental é sempre a da conquista. Quando procura uma mulher para si, não o faz motivado pelas implicações que são no matrimônio. Madalena é apenas mais uma "coisa" a ser conquistada. Como deixa transparecer em suas reflexões, Paulo passara a vida em marcha. Esta marcha enrijeceu sua capacidade para as mesuras, para os afetos. Como se pode perceber por meio de suas reflexões, Paulo consegue perceber o tamanho de sua solidão, de seu egoísmo. O último capítulo do livro - uma das mais belas autorreflexões já feitas por uma personagem - nota-se o quanto a vida colocou nele "um gosto agreste na boca". o fluxo existencial de Paulo Honório é como o de uma locomotiva sem freios. Ninguém parece detê-lo. Sua vontade é de ferro.

Se Paulo é a força indomável, Madalena é a bondade e o idealismo. Sua sensibilidade é um ponto contrastante na obra. Vale mencionar ainda que Madalena não se enquadra no perfil das mulheres da década de 30 do século passado, ainda mais em se tratando do Nordeste. Madalena é uma mulher com ideias e opiniões próprias. É comunista. Tem senso político. Debate com os homens da fazenda. É o lado humano das relações da Fazenda São Bernardo. Por outro lado, Paulo Honório atua sob o signo da violência, desde as páginas iniciais quando agride certo jornalista por ter redigido matéria contrária ao futuro dono de São Bernardo. A violência é, de certo modo, constitutiva das sociedades. E aqui deve se entender que não se trata apenas de violência física. O Estado opera sob o signo de certa violência para que organize a vida social. Cabe a ele dizer o direito, que pode ser dividido em natural e positivo. Para Paulo Honório, a sua esfera é a do direito natural. Para ele, existe certa ordem que deve ser obedecida. Sua vida é a da conquista por meio de gestos violentos - seja objetos, animais, terras ou seres humanos. Ele toma parte das terras do Mendonça; suprime a propriedade do Padilha. Madalena é, de certa maneira, apenas mais um "bem" a ser conquistado. O que desarticula o seu juízo é a vontade, o senso de liberdade que mora em Madalena. Após esse passo, um ciúme doentio se apropria dele. 

Pretendo realizar outras leituras. Por enquanto, ficam essas percepções.

terça-feira, setembro 04, 2018

Algumas ideias de Paulo Honório, personagem central de São Bernardo

"Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão e que me deu qualidades tão ruínas".

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"Penso em Madalena com insistência. Se fosse possível recomeçarmos... Para que enganar-me? Se fosse possível recomeçarmos, aconteceria exatamente o que aconteceu. Não consigo modificar-me, é o que mais me aflige."

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"Hoje Não canto NEM rio. Se me Vejo ao Espelho, a dureza da boca ea dureza dos Olhos me descontentam."

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"Sou, pois, superior a mestre Caetano e a outros semelhantes. Considerando, porém, que os enfeites do meu espírito se reduzem a farrapos de conhecimentos apanhados sem escolha e mal cosidos, devo confessar que a superioridade que me envaidece é bem mesquinha."

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"O que estou é velho. Cinquenta anos pelo S. Pedro. Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta casca espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada."

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"Quinze metros acima do solo, experimentamos a vaga sensação de ter crescido quinze metros. E quando, assim agigantados, vemos rebanhos numerosos a nossos pés, plantações estirando-se por terras largas, tudo nosso, e avistamos a fumaça que se eleva de casas nossas, onde vive gente que nos teme, respeita e talvez até nos ame, porque depende de nós, uma grande serenidade nos envolve. Sentimo-nos bons, sentimo-nos fortes. E se há ali perto inimigos morrendo, sejam embora inimigos de pouca monta que um moleque devasta a cacete, a convicção que temos da nossa fortaleza torna-se estável e aumenta. Diante disto, uma boneca traçando linhas invisíveis num papel apenas visível merece pequena consideração. Desci, pois, as escadas em paz com Deus e com os homens"

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"Muitas vezes por falta de um grito se perde uma boiada."

segunda-feira, setembro 03, 2018

O incêndio como metáfora

Ontem à noite, eu estava em uma lanchonete com alguns amigos, quando um outro amigo, morador de Blumenau, Santa Catarina, informou-me pelo celular que o Museu Nacional estava pegando fogo. A princípio, julguei a informação meio extemporânea. Inusitada. Inesperada. Fiquei sem saber sobre qual museu ele se referia. O Museu Nacional da República (Brasília) ou o Museu Nacional, aquele que abrigou a família real, no Rio de Janeiro? 

Quando voltei para casa, atentei para a tragédia material e simbólica que estava acontecendo. Afinal, não era somente um museu que estava queimando, tratava-se da dignidade de uma sociedade, da promessa de um país que falhou, que está aniquilado, manietado por lideranças mesquinhas, que não desejam um Brasil grande. 

Há muito o museu amargava uma situação de penúria. Orçamento mirrado. Funcionários que não recebiam. O cupim que comia o madeiramento. Pedaços do teto que caíam. Quantos monumentos não passam pelo mesmo problema no Brasil? Há dois anos, por exemplo, visitei algumas igrejas históricas de Olinda, Pernambuco, e deixei o lugar bastante triste. Uma igreja - não me recordo do nome - do século XVII, belíssima, imponente, em degradação silenciosa. As pinturas sendo consumidas pelos insetos. O buraco que aumentava dia a dia, prestes a comprometer certa porção do teto e desabar na cabeça dos visitantes. O guia me falou meio cético e triste do completo abandono das igrejas da cidade. Certamente, assim acontece em vários estados brasileiros - Minas Gerais, Sergipe, Paraíba, São Paulo, Bahia etc - tanto os monumentos que estão sob a supervisão federal, estadual ou municipal. 

O episódio com o Museu Nacional é grávido de metáforas. Havia no local mais de vinte milhões de peças de valores incalculáveis para o Brasil e para a humanidade. O crânio de Luzia, a mulher mais antiga já encontrada no Brasil (aproximadamente doze mil anos) - e a mais antiga das Américas -, sobreviveu aos elementos do tempo, mas não sobreviveu à irresponsabilidade das nossas elites políticas. Artefatos indígenas. Esculturas. Todavia, esse tipo de riqueza é vilipendiada no Brasil, um país tacanho, pequeno, com líderes que são usurpadores, que não respeitam a vontade do povo, que engolem as riquezas produzidas pelo povo; que jogaram a soberania do Brasil na latrina.

Um governo irresponsável. Preocupado apenas com os seres sem rostos do mercado financeiro, congelou os gastos com saúde, segurança, educação (e cultura) por vinte anos. Que tem asfixiado a pesquisa no Brasil. Que tem suprimido as verbas do ensino superior. Que concede um aumento de mais de 16 por cento para os juízes do STF, gerando um afeito cascata comprometedor. Estima-se que o gasto a partir de 2019 chegue a 8 bilhões de reais por ano. O que seria possível fazer com 8 bilhões de reais em matéria de cultura para este país? Certamente, evitaria que tragédias como estas não acontecessem. Atualmente, o museu precisava de pouco mais de 500 mil reais para funcionar mensalmente. É o quê um único juiz do STF, ganha em um ano - salários e garantias. Os onze ministros do STF valem um Museu Nacional. Poderíamos fazer uma campanha: troque o STF por um museu. Certamente, o problema não é só de um governo.

Segundo foi veiculado pela grande mídia, o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, construído por Dom João VI, que deveria ser um orgulho para todos os brasileiros (muitos nem sabiam de sua existência), possuía o quinto maior acervo de peças do mundo - múmias egípcias, esqueletos de dinossauros, uma das versões mais antigas da Bíblia etc. Eu imagino episódios medonhos como estes acontecendo ao Museu de História Natural de Londres, ou ao Museu de História Natural de Nova York, ou ao Louvre ou ainda ao Museu Nacional do Prado. Não. Isso não aconteceria a estes espaços tidos como sagrados pelos seus países. Eles dimensionaram a importância cultural e social. Sabem da importância histórica, científica; como símbolo da identidade nacional e econômica. Por aqui, as coisas são sempre mesquinhas, pequenas, contrárias, paradoxais. 

Elas revelam vontades embriagadas e rarefeitas. Revelam nossa tristeza sempre presente. As cores apáticas de nossa inteligência. Nosso mofinismo crônico. Nosso entusiasmo carunchado. Nossa incapacidade de entender o passado. Parece que sempre estamos dentro de uma estrutura atemporal que nos impede de entender o que somos. Sustentamos sempre o improviso. O tragicômico sempre nos alcança. Desenha nossos caminhos; empurra-nos para buracos patéticos; para vaguidões sem paredes. O orgulho é sempre uma miragem na nossa terra. Pisoteamos com enorme desengano a nossa esperança. As cenas se sucedem numa emulação cinzentamente burlescas como, por exemplo, o fato de não haver água nos hidrantes do museu para que a debelação do fogo fosse realizada mais rapidamente pelos bombeiros.

Olhando para as fotografias tiradas por Marcelo Sayão para o jornal El País, constatei o quanto a tragédia não nos ensina absolutamente nada. Em quinhentos anos de história, ainda engatinhamos, ensaiamos pateticamente as garatujas de um pacto social que nos transformará em país sério e comprometido com o futuro. Mas como fazer isso, se não conseguimos respeitar a nossa memória? Como fazer isso, se a cultura, o conhecimento, a pesquisa, a educação, no geral, são ruídos pelos cupins, em sentido material e simbólico? Quem dera o fogo fosse purificador. Por aqui ele não é! No Brasil, a luz no final do túnel, não é uma saída; trata-se de uma pesada máquina sem freios, vindo para nos dilacerar. 

P.S. 1.  Para muitos, o importante é que Lula está preso e Bolsonaro é nossa esperança transformadora. Que país! Por isso, os museus queimam por aqui. 

P. S. 2. Vale lembrar que não entendemos muita coisa sobre arte e ciência. O ano passado (há um ano), o moralismo patético e enviesado de certos grupos tidos por liberais (sic), fez um alarde descomedido na porta de um museu em Porta Alegre. Temos muita intimidade com a arte e com a coisas sensíveis neste país. 

P.S. 3 - Segundo o jornal O Globo, mês passado, os censores atacaram novamente

sábado, setembro 01, 2018

Excelentíssimo senhor...

Uma reflexão bastante pertinente sobre Luís Roberto Barroso, uma das personalidades mais desgraçadamente medíocres, da vida pública brasileira.

Luís Roberto Barroso merece ser estudado. Não por ele próprio, mas como uma trajetória emblemática daquilo que leva ao sucesso no campo jurídico-político brasileiro atual.

Por um lado, ele é uma demonstração quase caricata dos atributos do nosso renitente bacharelismo. A vaidade gigantesca e indisfarçável. O discurso pomposo, arrogante e vazio de ideias. O gosto pelas palavras altissonantes. Até mesmo o jeito de torcer a boca para pronunciar nomes estrangeiros.

Barroso também é ilustração perfeita da tese, no entanto controversa, do caráter fake de nossos valores políticos dominantes. Ostenta a toga de herói do liberalismo, mas não esconde seu desprezo pelos direitos e horror a qualquer forma de igualdade. Posa de iluminista, mas é guardião das trevas. Paladino intransigente da moral, defende com unhas e dentes benefícios imorais para o seu grupo e o vale-tudo contra os adversários.

Visto por outro ângulo, ele pode ilustrar a ideia de "neoliberalismo progressista", colocada em circulação por Nancy Fraser. Há uma adesão a teses progressistas no âmbito da vida privada, que lhe permite manter uma fachada de homem de seu tempo, mas que se combina ao reforço de uma estrutura social extremamente excludente e autoritária.

O mais interessante, porém, é pensar por que, com tantos candidatos ao posto na política eleitoral (está aí o Álvaro Dias que não me deixa mentir), o espírito do lacerdismo decidiu reencarnar em um político togado. Desconfio que isso nos diz bastante coisa sobre a dinâmica recente da política brasileira.

Por Luis Felipe Miguel via Facebook

quinta-feira, agosto 30, 2018

A promessa Greta van Fleet

O rock é um movimento bastante curioso e dinâmico. Ele constantemente se reinventa. Uma determinada tendência acaba sendo absorvida por outra - ou, simplesmente, abre espaço para que outra surja. Foi assim, por exemplo, com o rock feito na primeira metade dos anos 70. Logo em seguida, veio o punk, um movimento completamente novo, com uma nova estética e um novo apelo. O punk, por sua vez, não cedeu a vez tão facilmente, esteve presente no pós-punk e na new wave do anos oitenta. Já na década de 90, contribuiu para o surgimento das bandas do movimento grunge. 

Embora seja um movimento bastante heterogêneo, o grunge possui um forte apelo punk. Escrevo assim para ilustrar um fato curioso. Pois, às vezes, o rock aponta para os locais já visitados, para as paisagens já conhecidas. Cheguei a esse conclusão rala após escutar a banda estadunidense Greta van Fleet. Trata-se de um quarteto formado por três irmãos (baixo, guitarra e baixo) e o baterista. A banda vem da região norte do país, do industrializado estado do Michigan. Ao ouvir, o nome pela primeira vez, ao invés de ouvir "Fleet", eu pensei ter ouvido "Flint", a cidade natal de um poderoso trio do rock setentista, Grandfunk Railroad, também do Michigan.  

O Greta van Fleet não olha para frente. O seu alvo é o rock produzido na primeira metade dos anos 70, o bom e velho hard rock, com fortes pitadas de blues rock. A banda é bastante nova. Os garotos não aparentam ter mais do que vinte anos. Ao ouvir o EP "From the Fires", fiquei contaminado por aquilo. A primeira canção ("Safari Song") nos remete imediatamente a Robert Plant. E toda aquela força saída de um garoto. Movido pela curiosidade, procurei um vídeo no Youtube e fiquei com os olhos grudados ininterruptamente por quarenta minutos, assistindo a um apresentação dos talentosos muúsicos. 

A tradição do velho e bom rock n' roll soprando mais uma vez. A apresentação mostrou muita consistência. O vocal é poderoso. O baterista é bom. O baixista sustenta bem a estrutura da música. E o guitarrista faz bem o dever de casa. No conjunto, o som possui grande densidade. Safari Song me remeteu a Custard Pie ou Travelling Riverside Blues, do Led Zeppelin. A segunda canção do disco ("Edge of Darkeness") é outro soco de bom gosto. Impressiona. E a terceira faixa ("Flower Power"), faz lembrar, principalmente, na parte final, quando surge o som de um órgão, a famosa faixa do Zep II, "Thank you". Há ainda a excelente "Highway Tune", que faz lembrar "Misty Mountain Hope" ou remotamente "When the levee breaks", do Zep IV. Há ainda outras três faixas graúdas "Meet on the ledge", "Talk on the street" e a música de trabalho "Black smoke rising"

Enquanto escutava os jovens do Michigan, fiquei me questionando sobre a questão da autenticidade, da originalidade. Esse é quesito que a banda deixa a desejar. Mas eu não ligo. O importante é que o quarteto se propôs a fazer algo e o fez muito bem. O álbum é graúdo, repleto de densidade. As melodias são bonitas. Os arranjos são bem trabalhados. Os vocais empolgam e a banda possui um carisma bem característico daquela geração que produziu uma das safras mais importantes da história do rock, momento este que viu surgir bandas como Led Zeppelin, Deep Purple, Black Sabbath, UFO, Free, Uriah Heep etc. Resta-nos apenas o aceno da paciência para perceber o trabalho do tempo. Ou seja, o amadurecimento da banda, dos vocais poderosos do jovem Joscha Riszka e dos seus irmãos inspirados. 

Por enquanto, deliciemo-nos com excelente EP lançado ano passado. Parece que a coisa saiu do fogo do rock setentista. Foi burilado pela mãos dos deuses do rock. 

quarta-feira, agosto 29, 2018

A nova razão do mundo

“Nunca fomos tão livres. Nunca nos sentimos tão incapacitados.” Zygmunt Bauman 

Tenho acompanhado à distância algumas entrevistas dos postulantes à eleição para presidente da República, que ocorrerá em outubro próximo. Semana passada, a Globo News promoveu uma série de debates com os economistas de cada um dos candidatos. Observe: a conversa não se estabeleceu com o suposto ministro da educação ou da saúde. O escolhido foi o chefe da economia. 

Existe uma preocupação profunda sobre como a equipe do novo presidente da República vai conduzir os destinos da economia do país. Até esse ponto tudo parece está muito bem. Na mesma entrevista promovida pelo canal do Grupo Globo, Miriam Leitão, a empregada mais comprometida com a riqueza dos patrões, esforçava-se em uma das entrevistas para tentar entender como o mercado não seria afetado por determinadas intervenções. 

Os jornais têm noticiado o frenesi em torno da alta do dólar. A explicação: a indefinição do cenário eleitoral. Lula estando preso e, mesmo assim, ainda na liderança das pesquisas é algo inaceitável para essa entidade sem rosto, imaterial, chamada mercado.

As empresas que fazem jornalismo no Brasil pertencem às famílias mais ricas do país. Portanto, defendem determinados temas por conveniência própria. São defensores de inclinações econômicas que não comprometam o status quo político. O termo mercado ganhou ares de sacralidade. Destoar de sua atuação é cometer um sacrilégio. Mercado é uma entidade invisível. Ninguém o ver, mas ele comanda tudo. Ele pertence a seis famílias, que monopolizam serviços, ganhos, aplicações; desmantelam economias quando é necessário; apropriam-se dos resultados do trabalho coletivo; subordinam governos; e compram a política. 

O mercado possui uma ideologia e ela se chama neoliberalismo. Sua força está justamente no anonimato. Ela não é visível. Poucos sabem o seu significado. Alguns até ignoram que ela ainda prevaleça ou tenha força no mundo atual. Todavia, o neoliberalismo não pertence apenas ao primado da economia. Ele é uma razão, uma força invisível e coercitiva. O colapso humano que talvez estejamos enfrentando; a crise de valores; o individualismo desumanizante do nosso tempo tem a sua origem no neoliberalismo. Para o neoliberalismo o individualismo é uma força necessária. 

A doutrina é a razão que governa o mundo. Ela é o resultado da astúcia dos ricos para se apropriar das riquezas do mundo. Ela depaupera o mundo física e espiritualmente. Enxerga na competição o elemento definidor das relações humanas. Permite que os ricos se tornem mais ricos; e, os pobres, mais pobres. Toda regulação é vista como uma violência contra a liberdade. Mas não se deve entender a liberdade como um elemento isento, desgarrado de condicionamentos. Lembrando a brincadeira que George Orwell realiza em "A revolução dos bichos": "Alguns são livres, mas alguns são mais livres que os outros". 

Estados, governos, sindicatos ou qualquer organização que ofereça um sistema de regulação é visto com máxima desconfiança. Todavia, neste ponto o indivíduo acaba caindo em um abismo perigoso. Já que o neoliberalismo é a ideologia a serviço das elites, quem poderia defender o interesse dos trabalhadores, daqueles que não são ricos? O curioso é o neoliberalismo subverteu a consciência do sujeito. Somos convencidos diariamente de que existe uma regra que determina a naturalização do mundo. Entendemos que o mundo sempre foi assim. Que aqueles que alcançaram a riqueza, conquistaram pelos próprios méritos - ignoramos o primado da herança, da melhor educação, de uma melhor preparação para iniciar a competição. 

O neoliberalismo atua no plano econômico para depois gerar efeitos sociais. Os ricos serão mais ricos. Mas você, se não conseguir ter o sucesso que o empreendimento neoliberal exige, ficará com toda a culpa. Os governos não devem se ocupar na construção de planos econômicos que diminuam a desigualdade. A desigualdade é um primado natural das relações entre os homens, entende o neoliberalismo. Para quê gastar dinheiro com políticas compensatórias? Para quê cotas? O triste é quando vemos um pobre defendendo esse tipo de coisa. Muitos candidatos já deixaram explícito que estão sendo conduzidos por sentenças neoliberais. É o caso de Alckmim que deixou nas entrelinhas que pretende privatizar a educação superior. Para o neoliberalismo, se você não tem condições de cursar o ensino superior público, a culpa é toda sua. Não se questiona a ausência da prestação pelo Estado. O questionamento fica retido no sujeito. Ou seja, quem conseguiu é vitorioso; quem não conseguiu, é fracassado. 

O fracasso passa a ser uma força operante em determinados grupos sociais, principalmente os mais pobres. Os defensores dessa ideologia não verbalizam ainda para manter as aparências. Se pudessem, diriam: "Ora, que cada um viva com o que tem. Se alguns não conseguiram nada é por que são incompetentes. Logo, que morram, que sumam". Cria-se, assim, uma elite, uma nobreza, uma oligarquia, uma casta de poderosos que manipula a maioria. A suposta liberdade defendida pelo neoliberalismo é para que os ricos continuem mais ricos; para que não surjam freios para suas especulações. 

* Para entender mais sobre este tema, ler o excelente texto de George Monbiot
** A Boitempo lançou recentemente o sensacional "A nova razão do mundo - ensaio sobre a sociedade neoliberal", de Christian Laval e Pierre Dardot.

segunda-feira, agosto 27, 2018

Um comentário interessante sobre Olavo de Carvalho

Assistindo a um vídeo em certo canal do Youtube, cujo objetivo era refutar algumas afirmações de Olavo de Carvalho, um charlatão, embusteiro, metido a filósofo; divulgador de generalizações perigosas, de uma lógica comprometida com o sofismo, resolvi dar uma olhada em alguns comentários. Acabei encontrando uma pérola. Certo visitante deixou um pequeno texto, encimado pelo título: "O mínimo que você precisa saber para não ser Olavo de Carvalho". A afirmação ecoa o título de um livro do bazofioso "intelectual" ("O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota"). 

A obra impressionou alguns incautos novidadeiros por aqui. Na verdade, suas olavices* fizeram sucesso por causa do momento político que o país enfrenta, de ascensão de um pensamento conservador e dito liberal - que de liberal mesmo não tem nada. Há hordas a postas para defender o grande Nostradamus do pensamento conservador brasileiro. Ele inclusive é citado no plenário do Congresso Nacional; é guru de candidatos a presidente da República; impressiona setores da obtusa classe média do país. O único lugar onde ele não é citado: a academia, espaço que, segundo ele, só produz preguiça, esquerdismo, analfabetismo funcional e muitos "filhos da puta".

Segue o belo comentário (observe a ironia nas afirmações):

O MÍNIMO QUE VOCÊ PRECISA SABER PARA NÃO SER UM “OLAVO DE CARVALHO” 

- Desonestidade de qualquer gênero, é uma merda. 
- Estuprar a história não mudará a história. 
- Ver o demônio nos outros, naqueles que não pensam como você, não te tornará melhor; ao contrário, fará de você um pervertido irrecuperável. 
- Um palhaço letrado continuará sempre... um palhaço, e entrará no hall do anonimato da história como palhaço, nada mais. 
- Generalização é a filosofia do ignorante que ama ser ignorante; aquele que abdica do raciocínio e do estudo para se tornar o “especialista de tudo o que não conhece”. 
- Mentir continuamente é no final, cair na desgraça de acreditar piamente nas próprias mentiras. 
- Qualquer canalha pode desprezar os pobres; qualquer miserável pode tripudiar o sofrimento humano; qualquer crítico venal pode desqualificar culturas e povos... grandeza humana e intelectual é outra coisa, pertence a um nível muito superior a tudo isso.


* É o nome que é dado às afirmações mirabolantes do astrólogo distribuidor de ódios, cuja imagem refletida da inteligência é a dele mesmo. Olavo não impressiona pelo conhecimento, mas pelo suco histriônico que faz com tudo o que sabe, ao fazer afirmações que achincalham o mundo como ele é. Vive a pregar conspirações - principalmente a comunista, a petista e do Foro de São Paulo, que para ele é a reunião das bestas do apocalipse. Por fim, as olavices são construções verossímeis, que se parecem com o conhecimento do mundo real, mas que,  no fundo, são meras ficções capazes de inebriar e desarticular a inteligência de seres instáveis e impressionáveis por conspirações pueris.