domingo, março 14, 2021

As redes sociais - vídeo da BBC

Ilustração do polonês Pawel Kuczynski

A linguagem usada pelas redes sociais é bastante curiosa. A começar pelo termo “rede”. Rede é uma malha com aberturas regulares, usada para apanhar coisas ou seres. É assim que falamos em rede de pesca, que serve para capturar peixes ou outros animais provenientes de água doce ou salgada. A rede também serve como armadilha. Os aracnídeos, por exemplo, utilizam-nas como um artifício para armar emboscadas.

A teia construída pela aranha é uma rede resistente e serve como elemento indispensável para a própria sobrevivência. É nesse espaço delicado e resistente que capturam certos animais para se alimentarem deles. Os animais distraídos que caem ali são incapazes, uma vez presos ao material na teia, de sair e acabam servindo de alimento para a aranha.

Outro termo bastante curioso utilizado pelas redes sociais é a ideia de “usuário”. Como diz a reportagem da BBC (vídeo abaixo), apenas duas indústrias classificam seus consumidores com tal termo – a indústria do narcotráfico e a poderosa e narcotizante indústria das redes sociais. No caso dessa última, os seus consumidores são chamados de usuários, talvez, pelo potencial viciante que ela possui.

Já pensei diversas vezes em largar Facebook, Instagram, Whatsapp e toda essa parafernália que nos tornam seres passivos e dopados pelo seu poder espetacularizante. Por trás disso tudo, existem pessoas que pensam 24 horas como tornar os chamados “usuários” em seres cada vez mais dependentes. Com essa “dependência” por parte de adultos, adolescentes, crianças, são geradas cifras bilionárias. As poderosas corporações que lucram com esse sistema de vigilância sabem muito bem como proceder para tornar “os usuários” em reféns. A matéria consumida é o tempo. Horas e horas são tragadas pelos usuários diariamente.  Segundo pesquisa da Global Digital Overview, em 2021, os brasileiros ficaram, em média, 3 horas 31 minutos, por dia, expostos às redes sociais.  De acordo com essa mesma pesquisa, cada usuário fica 100 dias por ano conectado à internet. Um número que impressiona. Trata-se de um fenômeno novo, causador de dependência psicológica.

Como a excelente reportagem da BBC explicitou, “somos seres carentes de atenção”. As redes sociais potencializam esse lado das carências psicológicas. Os usuários permanecem presos, pois se tornam adstritos às “curtidas” e respostas dos supostos amigos – “seguidores”. Cada curtida gera uma sensação de bem-estar, de reconhecimento. Na selva dos individualismos gestados pela modernidade, quanto mais uma postagem é curtida, mais a sensação de recompensa é satisfeita. No fundo, o vício é oriundo dessa relação entre aquilo que eu posto e aquilo que obtenho dos outros com quilo que posto.

Os inventores e administradores dessas redes entenderam isso. É a partir da relação de dependência que eles lucram cifras altíssimas. O vídeo explica muito bem isso:

 


sexta-feira, março 05, 2021

"O Cabeleira", de Franklin Távora - algumas impressões

 


Quando entramos em contato com a literatura de José Lins do Rego e lemos o seu “Cangaceiros”, passamos a crer que ali existe algo original. O tema do cangaço é algo – temos a impressão – que nunca foi tratado pela literatura. O estilo caudaloso, que flui de forma desimpedida, é algo que torna a narrativa do escritor paraibano em algo imperdível.

O cangaço é um fenômeno histórico ocorrido no Nordeste brasileiro e que possui uma forte ressonância social. Creem os estudiosos do fenômeno de que se trata de um fenômeno que surgiu em decorrência das graves disparidades sócio-econômicas da região. O delicioso livro Bandidos, de Eric Hobsbawm, expõe no capítulo "O que é banditismo social?", que o fenômeno do banditismo social faz parte de sociedades agrárias e pastoris. Existem determinados elementos que dão vazão para que este tipo de movimento - marginal - se forme. Por exemplo, Hobsbawm diz que em épocas de muita fome, de repressão política, de descalabros variados, existe uma tendência que dá surgimento a esse fenômeno. A violência no mando dos coronéis, aliada a séculos de escravidão, bem como a pobreza de muitos sertanejos, talvez, tenham feito fermentar esse tipo de banditismo tão característico. A violência “dos pequenos” pode ser tão atroz quanto a violência dos grandes.

Pode-se afirmar que o cangaço existiu entre os séculos XVIII até à metade do século XX, durante o Governo Vargas. Os cangaceiros ou bandoleiros como eram chamados andavam em grupos armados, cometendo assaltos, assassinatos, estupros e todo tipo de violência contra aqueles que criassem obstáculos às suas intenções. Eram nômades; conheciam com muita intimidade a geografia árida da caatinga. Esgueiravam-se de maneira habilidosa. Conseguiam, assim, fugir das autoridades. Na vasta região cálida e seca, com uma vegetação cheia de espinhos; solo pedregoso, onde se ocultavam animais peçonhentos, os cangaceiros marchavam com incomum destreza.

Corroborando com isso, Hobsbawn diz: [O banditismo] "floresce em áreas remotas e inacessíveis, tais como montanhas, planícies não cortadas por estradas, áreas pantanosas, florestas ou estuários, com seu labirinto de canais e cursos d'água, e é atraído por rotas comerciais ou estradas importantes, nas quais a locomoção dos viajantes, nesses países pré-industriais, é lenta e difícil". O historiador inglês vai dizer que baste a construção de estradas ou a conexão com as regiões desoladas, onde originou o banditismo, para que este arrefeça, perca a força. Ou seja, a rapidez na comunicação permite ao Estado ações contundentes a fim de exorcizar o fenômeno do banditismo social.


Ao longo do tempo, imprimiu-se no imaginário popular uma noção mais rarefeita do cangaço. Criou-se certo fascínio pelas suas personagens como é o caso típico de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, conhecido como o “o Rei do  Cangaço”. Esse epíteto potencializa uma imagem positiva dessa personagem. A história intrigante que o acompanha possui inúmeros fatos violentos de pilhagens e mortes cruéis a seus desafetos.

Em 1876, o escritor cearense Franklin Távora, radicado no Pernambuco, escreveu – ou romanceou – a história de José Gomes, conhecido como “o Cabeleira”. Cabeleira é conhecido como um dos primeiros sujeitos a encabeçarem o movimento do banditismo no Nordeste.

Franklin Távora, nascido em Baturité, em 1842, mudou para Pernambuco em 1844. E, a partir daí, a vinculação estabelecida com o estado dar-se-ia por longos anos de sua vida. Ainda muito jovem, ingressou na tradicional e famosa Faculdade de Direito do Recife. Em 1863, conseguiu o diploma de bacharel em direito, tendo feito carreira no direito e no jornalismo.

 O escritor era um intransigente defensor das tradições populares; um nacionalista convicto; alguém que buscava retratar em seu regionalismo eventos que tivessem uma fiel relação com a história. Foi por conta disso, que entrou em uma porfia intelectual com José de Alencar, uma entidade que, àquela época, gozava de enorme prestígio. Para Távora, o regionalismo de Alencar era idealista em excesso. Não era verdadeiro. Alencar falava, segundo ele, daquilo que não conhecia. Um exemplo é a escrita de “O gaúcho”. Segundo Távora, Alencar falava do homem gaúcho sem ter colocado os pés no Rio do Grande do Sul. Esse artificialismo na prosa regionalista de Alencar rendeu bons debates.

Para escrever “O Cabeleira”, Távora toma nota de informações históricas, como se pode perceber no prefácio e posfácio da obra. A atividade romanesca do escritor assenta-se no chão da história. Não surgiu do nada.

Na obra, notamos a preocupação com a geografia; o nome das cidades da Zona da Mata de Pernambuco – Goiana, Santo Antão (minha cidade, hoje, chamada de Vitória de Santo Antão, Glória Goitá, Ipojuca, Limoeiro entre outras. A vegetação também surge. O rio Tapacurá também é mencionado com certa recorrência na obra. Encontramos o trecho com forte aceno histórico:

“Uma tarde Luisinha foi buscar água no rio Tapacurá, que banha a cidade de Vitória, então povoação de Santo Antão, à qual pertencia Glória de Goitá donde era natural o Cabeleira. Santo Antão distingue-se na história pernambucana pela circunstância de lhe estar próximo o Monte das Tabocas no qual se verificou em 3 de agosto de 1645 a batalha que iniciou a insurreição portuguesa contra o domínio holandês, e exercitou direta e decisiva influência no futuro político, comercial, industrial e religioso do Brasil. Esta memorável batalha, depois de seis longas horas de fogo, declarou-se em favor dos nossos primeiros dominadores. Em comemoração deste acontecimento, uma lei provincial de 6 de maio de 1843 erigiu a antiga povoação em cidade a que chamou de Vitória como acima de se vê”. (p.49).

Segundo a história, Cabeleira nasceu em Glória do Goitá, munícipio da Zona da Mata. Era uma criança dócil. Sua mãe era uma mulher de alma sensível e piedosa. Joaquim Gomes, seu pai, era um sujeito cruel, que não possuía qualquer comiseração por quem quer que fosse. Seu desejo era incutir no filho a força dos instintos. Foi assim que procurou incutir no filho hábitos de sadismo e perversidade. A lição veio, incialmente, com o estripamento de animais. Segundo Joaquim Gomes, isso permitiria ao filho nunca se dobrar a ninguém. Afinal, ele estava criando o filho para ser um homem de verdade. Ou como diz o autor: “uma máquina de cometer crimes”. (p.38).

A mãe de José Gomes – Joana - sofria com essas lições atrozes e desumanas. Ela sabia qual era o objetivo do pai. E somente rezava, tentando desfazer aquilo que o pai buscava impingir na alma do filho. Até que Joaquim foge com José. Tira o filho da zona de influência da mãe. É a partir daí que a história de Cabeleira, como era chamada por causa de seus cabelos longos e negros, passou a ganhar contornos daquilo que mais tarde seria.

Nas páginas que seguem, notam-se os feitos do bandido. Os crimes cometidos. As crueldades que se alastravam com o assassinato de crianças, de pessoas idosas ou de quem lhe surgisse no caminho. Associado a mais alguns comparsas, José Gomes passa a ser temido. Sua fama chega até ao Recife.

Os impulsos de Cabeleira são refreados, quando ele se encontra com a Luisinha, uma paixão iniciada na infância. Ela busca arrancar do coração do bandido todas as raízes da maldade. Ele mostra-se obediente. Procura refrear os instintos. E aos poucos tem a sua personalidade transformada.

Franklin Távora (1842-1888)

O romance procura amainar a imagem daquele que é considerado como um criador de um proto-cangaço.  Ele dá mostras de que está arrependido. Sua imagem é realçada como a de um herói – pelo menos essa é a depreensão que fica subentendida da leitura. Diferentemente, de outras figuras do cangaço como Antonio Silvino, cangaceiro paraibano, que iniciou no movimento após presenciar a morte do pai e se envolver em brigas de terra; ou de Lampião, que também foi vítima de violência contra a sua família, Cabeleira é treinado pelo pai para ser o que foi. Há uma espécie de isenção pela culpa por parte do escritor.

Seu estilo é a mescla da objetividade jornalística, com o rigor de uma historiografia que se preocupa em ser fiel a certos eventos. Mas, no bojo dessa característica, nota-se o estofo da prosa romanesca. Seu texto é realista. Mas é diferente do rigor naturalista do texto de Aluísio Azevedo; e diferente também do regionalismo idealista de José de Alencar.  Satisfiz um desejo antigo ao lê-lo.

domingo, fevereiro 28, 2021

Uma lista de literatura brasileira para 2021.


Impus um desafio a mim mesmo quando o ano começou: ler dez livros de literatura brasileira. Ao me referir a "literatura brasileira", quero salientar de que se trata de clássicos. Algumas das escolhas se basearam em desejos antigos. Há quem julgue que o Brasil não possui uma literatura "grande", digna de respeito. Do alto da minha pequenez, penso o contrário. A literatura brasileira é grande. Possui o tamanho dos seus intelectuais, das contradições próprias da sociedade e do momento histórico em que essas mesmas obras foram produzidas. Quando lemos Alfredo Bosi, Antônio Cândido e Afrânio Coutinho percebemos o quanto temos uma "Literatura" grande, com letra maiúscula. Dos livros da lista, apenas "O Ateneu" foi lido anteriormente.

Dos livros da lista, apenas "

A lista  foi assim desenhada:

1 - Canaã - Graça Aranha;

2 - O cabeleira - Franklin Távora;

3 - Cidades Mortas - Monteiro Lobato;

4 - Inocência - Visconde de Taunay;

5 - Memorial de Aires - Machado de Assis;

6 - O Ateneu - Raul Pompéia;

7 - Os sertões - Euclides da Cunha;

8 - Marafa - Marques Rebelo;

9 - Guerra dentro do beco - Jorge de Lima;

10 - O amanuense Belmiro.

Já lidos da lista - "Canaã" e "O Cabeleira". Vamos ao terceiro - "Inocência".

terça-feira, janeiro 26, 2021

Franco Berardi - uma entrevista

 


“Minha resposta é devagar com o andor: a vitória da esquerda na Bolívia e o referendo no Chile são acontecimentos políticos pequenos diante da extrema-direita. Trump pode não ganhar, mas está ganhando ainda assim: o fato de um monstro, fascista e racista, ter milhões de votos nas eleições estadunidenses significa que a extrema-direita ainda é forte e significa que a esquerda não está forte o bastante para realmente representar interesses dos jovens, latinos e negros. Esta é a realidade”.

 

“Na década de 2000, com a ascensão de governos como [Michelle] Bachelet no Chile, Lula no Brasil, [Evo] Morales na Bolívia, a América Latina estava mudando. Fiquei feliz, obviamente – melhor um Lula do que um Bolsonaro. Mas, sinceramente, não esperava muito da esquerda no poder, porque penso que estamos partindo de conceitos datados de mais de 200 anos, esquerda, extrema esquerda, social democratas… Na verdade, não acredito que um governo possa mudar radicalmente as coisas, pois está debaixo das regras do mercado financeiro internacional, uma ditadura global. Um governante pode mudar um pouco no nível nacional, mas há tantas limitações que, cedo ou tarde, vai desapontar”.

“O que quero dizer é que não é a política tradicional que vai equilibrar a relação entre tempo, trabalho e dinheiro a partir de regras arbitrárias de um macroprojeto de totalidade, mas os milhões de corpos que têm necessidades concretas para viver, respirar, comer, enfim, que essencialmente não deveriam ter nada a ver com ter dinheiro ou não”.

“Precisamos de comida, carinho, prazer, sensibilidade, solidariedade, tudo o que nos torna humanos. Precisamos sobreviver à pandemia para rever, beijar e abraçar as pessoas. Foi a lição mais importante que aprendi nos últimos tempos”.

 

Estes são alguns trechos interessantes da entrevista realizada com o filósofo italiano Franco Berardi, disponível no portal do The Intercept. Berardi que se classifica como um marxista não-dogmático, propõe importantes reflexões sobre a atual condição do ser humano sob o neoliberalismo – e os efeitos deletérios disso – e o desafio de pensar uma outra proposta de mundo, caso a espécie humana não queira sucumbir diante da barbárie. Essas ideias estão precisamente delineadas no livro “Extremo”, lançado por ocasião da pandemia do novo coronavírus.

             Berardi entende que o dramático cenário atual permitiu a realização de importantes reflexões. O modo como a economia global é conduzida, o modelo de sociedade que é construída a partir disso, cria antagonismos que serão insolúveis e que levarão o planeta ao colapso. O capitalismo está morto como modelo civilizatório, mas ainda produz efeitos danosos. A sua ética é pensada e reproduzida, o que só gera desigualdade, pobreza, dominação e o esgarçamento dos recursos naturais. 

            A alternativa seria a refundação de uma nova proposta civilizatória. E, nesse sentido, nada mais necessário do que o socialismo. Não aquele socialismo maquinal experimentado pelo regime soviético. Um socialismo criativo, que repense o que é o consumo, o que é a exploração da natureza; o que são as relações humanas; a administração do tempo.

            Dois outros livros do filósofo são citados: “Asfixia” e “Depois do futuro”.

            Excelente.

 

 

domingo, janeiro 24, 2021

Divagações sobre "Canaã" e o seu autor.


Desde os tempos de ensino médio, escutava informações sobre Canaã, a obra máxima de Graça Aranha. E, nesse sentido, qualquer estudo sobre literatura brasileira - por mais superficial que seja - precisa levar em conta esse importante livro do escritor maranhense. 

José Pereira da Graça Aranha é o nome de nascimento do escritor. Graça Aranha eram os sobrenomes dos seus genitores - Graça (mãe) e Aranha (pai). O escritor nasceu em São Luis, capital do Maranhão, de uma família abastada. Seu pai era político e jornalista. Ainda muito jovem foi estudar na célebre Faculdade de Direito de Recife. A instituição foi um importante centro de fermentação intelectual do Norte e Nordeste do Brasil para onde acorriam os filhos de pessoas ricas e influentes, pertencentes às mais variadas oligarquias do país. A Faculdade de Direito do Recife juntamente com a Faculdade de Direito do Largo do São Francisco, em São Paulo, eram os locais mais tradicionais onde se podia estudar, formar aqueles que seriam responsáveis pela condução do país. Boa parte da intelligentsia nacional passou por essas instituições.  

Graça Aranha ainda muito novo advoga. Mais tarde, torna-se juiz. Após se estabelecer no Rio de Janeiro, efetiva  contato com um dos mais notáveis políticos e intelectuais do século XIX e início do século XX, Joaquim Nabuco. Foi a partir desse contato, que ingressou na carreira diplomática. Morou na Europa por quase duas décadas. No Velho Mundo, entrou em contato com vibrantes mudanças estéticas no rumo das artes; percebeu, ainda, as mudanças políticas por que passava o Continente com ressonâncias mundiais. Isso certamente foi importante para fazer amadurecer algumas convicções.

O que é importante a ser notado na biografia de Graça Aranha é a sua versatilidade; a capacidade que ele possuía para sempre se redescobrir, para sempre trilhar caminhos novos. Graça Aranha representa a experimentação, o fato de "estar aberto", como disse certa vez Alfredo Bosi, ao novo, ser "um espírito aberto". Sua vida relativamente curta - já que faleceu aos 63 anos de idade - atesta isso. Foi para locais afastados dos grandes centros. Mudou de profissão. Aderiu a movimentos, mas, ao mesmo tempo, rompeu com esses mesmos movimentos.

Foi fundador da Academia Brasileira de Letras. Esteve ao lado dos bastiões da "velha fórmula" - Machado de Assis, Olavo Bilac etc. Mas, a partir de 1922, foi um dos nomes mais comprometidos e abnegados a patrocinar uma nova estética, uma maneira diferente de compreender o país e sua identidade, apoiando incondicionalmente a Semana de Arte de 1922. Em 1924, romperia com a Academia que ajudara a fundar. Ficou ao lado de Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Menotti del Picchia etc. 

Canaã é, assim, fruto de uma mente sempre buliçosa, sempre disposta a encontrar novos rumos. A obra foi escrita em 1902, encontrando um sucesso quase que imediato. Pode-se afirmar de que se trata de um romance-tese, uma experimentação sociológica e antropológica por meio da literatura. Possui um forte aceno revisionista, assim como O Guarani de José de Alencar, escrita algumas décadas antes. 

Graça Aranha

Graça Aranha então com 34 anos de idade, já era um sujeito famoso e maduro ao escrever o livro. O motivo para escrevê-lo ele encontrou quando morou no Espírito Santo nos tempos de magistratura. Ele assinalou algumas histórias e a forte impressão causada pela chegada dos imigrantes alemães na região. Milkau e Lentz são os dois personagens da obra que representam visões de mundo. Aquele acredita que o progresso das sociedades se dá à medida que ocorre a mistura de raças acontece. Quanto mais essa miscigenação ganha contornos, maiores são as chances de isso ocorrer por meio de um universalismo. Por sua vez, este acredito em um purismo. A mistura de raças leva à degeneração e, por fim, à decadência, à inferiorização. Lentz é defensor da pureza e da superioridade da raça germânica. Para ele, o universalismo de Milkau tem por consequência uma indolência que, por sua vez, leva à decadência. Milkau possui uma visão mais generosa, sem os traços imperiosos daquilo que pensa Lentz.

O romance preocupa-se em abordar os destinos da formação da identidade do Brasil. Um país complexo e diverso como o Brasil, que tipo de inspiração deveria motivar o seu desenvolvimento? 

O romance possui uma forte fragrância naturalista, o que reforça o seu tom cientificista. Todavia, pode-se asseverar que é um naturalismo já decantado, diferente daquele de Aluísio Azevedo ou de Júlio Ribeiro, que buscavam provar uma tese com as suas respectivas narrativas. Há inúmeras descrições de eventos selvagens e violentos na obra, o que destoa com o caráter pacifista do personagem Milkau - a morte de um velho caçador que, ao ser encontrado por coveiros, é disputado pelos urubus e defendido por uma demoníaca matilha de cachorros violentos; a descrição da morte do filho de Maria (que acabara de nascer) e é devorado por porcos selvagens. A linguagem de Canaã é recoberta por uma retórica repleta de imagens bonitas; de descrições sensitivas, o que revela a maestria do escritor. Entrementes, nota-se uma dimensão dura, selvagem, imparcial, talvez, para se harmonizar com o espírito daquilo que acreditava Lentz (claro, apenas um pitaco da minha parte). Bosi fala em "imagens-sentimentos". 

O livro é repleto de uma energia sincrética. Preocupa-se em buscar abarcar a problemática típica do humano, com os contrastes exuberantes de uma natureza bela, mas imparcial. Ao mesmo tempo, nota-se a preocupação em denunciar as mazelas de um país corrupto e atrasado. Impressiona o tom crítico e satírico com que descreve as autoridades corruptas do justiça, de onde Graça Aranha era oriundo. Eram figuras que se utilizam dos cargos e do poder emanado da máquina pública para extorquir os colonos e os brasileiros pobres da região. 

Excelente leitura. A próxima será "O cabeleira", do Franklin Távora - e já começamos!

quinta-feira, janeiro 14, 2021

A ignorância gera auto-convencimento.

 
 
O efeito Dunning-Kruger: o que é o fenômeno que empoderou ignorantes na internet?


O Efeito Dunning-Kruger, também chamado de Efeito de Superioridade Ilusória, é a expressão utilizada para se referir à incapacidade que as pessoas têm de reconhecer a própria ignorância, tendo uma visão ilusória de superioridade e conhecimento sobre assuntos que não dominam. A expressão passou a ser utilizada a partir dos estudos dos psicólogos David Dunning e Justin Kruger da Universidade de Cornell, EUA.


Segundo Dunning e Kruger, é um problema de metacognição, que leva alguns indivíduos a não serem capazes de identificar as suas limitações de conhecimento e compreensão de determinados assuntos. Assim, quanto mais ignorante a pessoa é sobre certo tema, mais confiante ela se sente em opinar sobre ele.


Os autores chegaram a essa conclusão a partir de um fato ocorrido em 1996. Um homem chamado McArthur Wheeler realizou dois assaltos a banco no mesmo dia e, a partir de imagens das câmeras de segurança, rapidamente foi identificado pela polícia. Ao ser preso, ele disse que havia passado suco de limão no rosto e que, conforme tinham dito para ele, isso o teria deixado invisível.


A convicção de Wheeler era tão grande que motivou Dunning e Kruger a realizarem uma pesquisa sobre o que leva as pessoas a terem tanta convicção sobre alguma coisa. Eles fizeram quatro experimentos, analisando as habilidades de um grupo de pessoas em gramática, raciocínio lógico e humor. Em seguida, solicitaram que essas pessoas dissessem como estimavam que tinham se saído nos testes.


Os resultados da pesquisa mostraram que quanto mais incompetente era a pessoa, menos ela tinha consciência desse fato, já os mais competentes, se subestimavam. Desse modo, eles concluíram que a ignorância gera mais confiança e segurança do que o conhecimento.


Oposta ao efeito Dunning-Kruger, é a Síndrome de Impostor, que leva pessoas competentes a duvidarem da sua capacidade. Descrita pelas psicólogas Pauline Rose Clance e Suzzane Imes, em 1978, a síndrome indica um sentimento de inferioridade ilusória, que leva algumas pessoas a se julgarem incapazes de executarem tarefas de que dispõem de pleno conhecimento e habilidades para executá-las.

Tanto o efeito Dunning-Kruger, quanto a Síndrome de Impostor são mecanismos psicológicos que indicam uma percepção equivocada de algumas pessoas a respeito de suas habilidades. Entretanto, quem subestima a sua capacidade consegue se ajustar quando recebe um retorno que mostre as suas competências, já quem é incompetente, não consegue perceber que está equivocado. Conforme David Dunning, “Se você é incompetente, não tem como saber que é incompetente (…) As habilidades que você necessita para produzir uma resposta certa são exatamente as habilidades que você precisa ter para reconhecer o que é uma resposta certa.”


Partindo de ideias preconcebidas, intuições, notícias falsas, negações, há indivíduos que acreditam piamente que estão expressando um conhecimento confiável e ignoram que ninguém é especialista em tudo. Há sempre o que aprender e um primeiro passo para isso é reconhecer a nossa ignorância.

DAQUI

Ler mais sobre o assunto: 

 https://super.abril.com.br/comportamento/o-efeito-dunning-kruger-quanto-menos-uma-pessoa-sabe-mais-ela-acha-que-sabe/

 https://brasil.elpais.com/brasil/2017/11/29/economia/1511971499_225840.html

sexta-feira, janeiro 01, 2021

Filmes e documentários vistos em 2021


 A referência cinematográfica para o ano de 2021 será o sueco Ingmar Bergman, um gênio que dispensa comentários. Em 2020, dedicamo-nos ao cineasta soviético Andrey Tarkovsky, cuja linguagem cinematográfica está entre as mais belas da história do cinema. Consegui assistir àqueles filmes aos quais ainda eram inéditos para mim. A filmografia de Bergman é bem maior que a de Tarkovsky, mas tentaremos revisitar algumas obras e assistir a outras nunca vistas.

 O objetivo para 2021 é assistir a 70 filmes. Cada filme deve ser resenhado - nem que seja com uma singela linha.

01.  Os vivos e os mortos. dir. John Huston. Drama. EUA, Irlanda. 83 min. 1987. 9,2.

02. J'accuse - O oficial e o espião. dir. Roman Polanski. Drama. França. 126 min. 2019. 9,2. 

03.  Soul. dir. Peter Docter, Kemp Powers. Animação, Aventura. EUA. 100 min. 2020.

04. Cassino. dir. Martin Scorsese. Drama. EUA. 178 min. 1995. 9,7. 24/01.

05. Procurando Dory. dir. Andrew Stanton, Angus MacLane. Animação. EUA. 103 min. 2016. 8,8. 29/01. 

06. Quanto mais quente melhor. dir. Billy Wilder. Comédia, Romance.  EUA. 120 min. 1959. 9,6. 30/01.

07. Paris, Texas. dir. Wim Wenders. Drama. Alemanha, EUA. 147 min. 1984. 9,5. 31/01.

08.  Baaria - a porta do vento. dir. Giuseppe Tornatore. Drama. Itália. 150 min. 2009. 8,9. 07/02.

09.  Marie Courie. dir. Marie Noëlle. Drama, Biografia. França. 95 min. 2016. 9,1. 09/02.

10. Cinema Paradiso. dir. Giuseppe Tornatore. Drama. Itália. 155 min. 1988. 9,6.  15/02.

11.  Incêndios. dir. Denis Villeneuve. Drama. Canadá. 130 min. 2010. 9,3. 21/02.

12. Cenas de um casamento. dir. Ingmar Bergman. Drama. Suécia. 167 min. 1973.  9,6. 21/02;

13. As vinhas da ira. dir. John Ford. Drama. EUA. 128 min. 1940. 9,0.  28/03;

14. A vida invisível. dir. Karim Ainouz. Drama. Brasil. 145 min. 2019. 9,4. 07/03;

15. Os vestígios dos dias. dri. James Ivory. Drama. Inglaterra. 134 min. 1993. 9,3. 07/03;

16. A primeira noite de um homem. dir. Mike Nichols. Comédia, Drama. EUA. 105 min. 1967. 9,1. 14/03;

17. Cavaleiro de Copas. dir. Terrence Malick. Drama. EUA. 118 min. 2015. 9,4;

18. Pieces of a woman. dir. Kornel Mundruczó. Drama. Canadá. 126 min. 2020. 9,4;

19. Um príncipe em Nova York 2. dir. Craig Brewer. Comédia. EUA. 110 min. 2021. 8,7;

20. Vatel - um banquete para o rei. dir. Roland Joffé. biografia, Drama. França. 116 min. 2000. 9,1;

21. Breve miragem de sol. dir. Eryk Rocha. Drama. Brasil. 98 min. 2019. 9,0;

22. O tigre branco. dir. Ramin Bahrani. Drama. Índia. 125 min. 2021. 9,3.

23. Fanny e Alexander. dir. Ingmar Bergman. Drama. Suécia. 188 min. 1982. 9,6;

24. Nomadland. dir. Chloé Zhao. Drama. EUA. 108 min. 2020. 9,3. 25/04; 

25. Judas e o Messias Negro. dir. Shaka King. EUA. 126 min. 2021. 9,6. 02/05. 

26. Vergonha. dir. Ingmar Bergman. Drama. Suécia. 103 min. 1968. 9,4. 03/05

27. Druk - Outra Rodada. dir. Thomas Vinterberg. Comédia, Drama. Dinamarca.  116 min. 9,7. 10/05.

28. A voz suprema do blues. dir. George C. Wolfe. Biografia, Música. EUA. 96 min. 2020. 9,4.  11/05

29. Gritos e Sussurros. dir. Ingmar Bergman. Drama. Suécia. 106 min. 1972. 9,5. 14/05.

30.  O profissional. dir. Luc Besson. Drama. EUA. 110 min. 1994. 9,3. 15/05;

31. Relatos do mundo. dir. Paul Greengrass. Western, Drama. EUA. 118 min. 2020. 9,1.  31/05;

32. Onze homens e um segredo. dir. Steven Soderbergh. Policial. EUA. 116 min. 2001. 9,1. 02/06

33. O rosto. dir. Ingmar Bergman. Drama, Comédia. Suécia. 100 min. 1958. 9,2. 11/06.

34. Uma mulher fantástica. dir. Sebástian Lelio. Drama. Chile. 104  min. 2017. 9,3; 

35. Cruella. dir. Craig Gillespie. Comédia. Policial. EUA. 131 min. 2021. 8,7;

36. A fonte da donzela. dir. Ingmar Bergman. Drama. Suécia. 89 min. 1960. 10,0;

37. Fé corrompida. dir. Paul Schrader. Drama. EUA. 113 min. 2017. 9,0;

38. Deus é mulher e o seu nome é Petúnia. dir. Teona Strugar Mitevska. Drama. Macedônia. 100 min. 2019; 

39. Monika e o desejo. dir. Ingmar Bergman. Drama. Suécia. 96 min. 1953. 9,3. 03/07;

40. A escavação. dir. Simon Stone. Biografia, Drama, História. Inglaterra. 112 min. 2021. 9,2. 05/07.

41. Rio, Zona Norte. dir. Nelson Pereira dos Santos. Drama. Brasil. 90 min. 1957. 9,5. 07/07.

42. A doce vida. dir. Federico Fellini. Drama, Comédia. Brasil. 174 min. 1960. 9,2. 12/07;

43. São Paulo - Sociedade Anônima. Luís Sérgio Person. Drama. Brasil. 107 min. 1965. 9,3;

44. A família Savage. dir. Tamara Jenkins. Drama, Comédia. EUA. 113 min. 2007. 9,1;

45. Morangos Silvestres. dir. Ingmar Bergman. Drama. Suécia. 91 min. 1957. 9,7;

46. Rambo - programado para matar. dir. Ted Kotcheff. Ação, Drama. EUA. 97 min. 1982. 9,5;

47. Desobediência. dir. Sebastían Lelio. Drama. Inglaterra, EUA. 114 min. 2017. 9,2;

48. História de um massacre. dir. Roger Spottiswoode. Drama, História. Canadá. 113 min. 2007. 9,6; 28/07;

49. O preço da verdade. dir. Todd Haynes. Drama, Biografia. EUA. 126 min. 2019. 9,2; 28/07

50. O caso Richard Jewell. dir. Clint Eastwood. Drama, Biografia. EUA. 129 min. 2019. 9,4. 01/08; 

51. Segredos Oficiais. dir. Gavin Hood. Drama, Biografia. Inglaterra, EUA. 112 min. 2019. 9,4. 

52. O assalto ao trem pagador. dir. Roberto Farias. Drama, História. Brasil. 102 min. 1962. 9,5. 16/08;

53. A missão. dir. Roland Joffé. Drama, História. Inglaterra. 126 min. 1986. 9,5; 

54. Estômago. dir. Marcos Jorge. Drama.  Brasil, Itália. 103 min. 2007. 9,6, 20/08;

55. Sangue Negro. dir. Paul Thomas Anderson. Drama. EUA. 158 min. 2007. 9,6; 22/08;

56. Rambo III. dir. Peter MacDonald. Ação, Aventura. EUA. 101 min. 1988. 9,1. 24/08;

57. Trainspotting - sem limites. dir. Danny Boyle. Drama, Comédia. Inglaterra. 94 min. 1996. 9,6. 27/08;

58. A paixão de Ana. Ingmar Bergman. Drama. Suécia. 101 min. 1969. 9,4. 04/09.

59. O clube da luta. dir. David Fincher. Drama, Ação. 139 min. 1999. 9,7. 12/09.

60. O sol é para todos. dir. Robert Mulligan. Drama. 129 min. 1962. 9,5. 14/09.

61. Minari. dir. Lee Isaac Chung. Drama. EUA. 115 min. 2020. 9,4. 15/09

62. O passado. dir. Ashgar Farhadi. Drama. França. 130 min. 2013. 9,3. 18/09.

63. Onde os fracos não têm vez. dir. Joel Coen, Ethan Coen. Drama, Policial. EUA. 122 min. 2007. 9,7. 19/09.

64. Elis. dir. Hugo Prata. Biografia, Drama. Brasil. 110 min. 2016. 9,0. 

65. Tropa de Elite 2 - o inimigo agora é outro. dir. José Padilha. Ação, Drama. Brasil. 115 min. 2010. 9,6.

66. A montanha dos sete abutres. dir. Billy Wilder. Drama. EUA. 111 min. 1951. 9,6.

67. Beckett. dir. Ferdinando Cito Filomarino. Ação, Drama. Itália, Grécia, EUA, Brasil. 109 min. 2021. 9,3;

68. Mulheres à beira de um ataque de nervos. dir. Pedro Almodóvar. Comédia, Drama. Espanha. 90 min. 1988. 8,8;

69. Limite. dir. Mário Peixoto. Drama. Brasil. 120 min. 1931. 9,1;

70. 400 contra 1. dir. Caco Souza. Drama, Policial. Brasil. 98 min. 2010. 9,2.

71. 7 Prisioneiros. dir. Alexandre Moratto. Drama. Brasil. 93 min. 2021. 9,6.

72. Se a Rua Beale falasse. dir. Barry Jenkins. Drama. EUA. 117 min. 2018. 9,0.

73. Fim de festa. dir. Hilton Lacerda. Drama. Brasil. 94 min. 2019. 9,4;

74. Coach Carter - Treino para a vida. dir. Thomas Carter. Drama, Biografia. EUA. 136 min. 2004. 9,5;

75. Marighella. dir. Wagner Moura. Drama, Biografia. Brasil. 155 min. 2019. 9,1;

76. 007 - Sem tempo para morrer. dir. Cary Joji Fukunaga. Ação, Aventura. Inglaterra, EUA. 163 min. 9,3;

77. Get on Up - a história de James Brown. dir. Tate Taylor. Biografia, Drama. EUA. 138. 9,1;

78. Era uma vez na América. dir. Sergio Leone. Drama, Policial. EUA. 236 min. 9,7; 

79. Não olhe pra cima. dir. Adam Mckay. Comédia, Drama. EUA. 138 min. 9,8;

80. O Apartamento - dir. Asghar Farhadi. Drama. Irã. 125 min. 9,7;

 

quarta-feira, dezembro 30, 2020

Balanço cinematográfico de 2020

                                                                     Ingmar Bergman

O ano de 2020 não foi dos mais fáceis para ninguém. Foi um ano repleto de incertezas e sobressaltos. Os dramas psicológicos nunca estiveram tão presentes. Mas, tentando enxergar as coisas por um ponto de vista positivo, confesso que houve alguns ganhos. Entre eles está a quantidade de filmes vistos por mim. 

Já faz uma certa data que elegi o cinema como uma das minhas atividades favoritas. Tanto é assim que procuro assistir a, pelo menos, dois filmes por semana. Tentando fazer um exercício de memória, posso confessar que, nos últimos cinco anos, devo ter visto algo em torno de quatrocentos filmes. Procuro privilegiar os clássicos. A lista, conforme pode ser observada em um link do lado direito da página, traz, em sua maioria, títulos com esse perfil. Há filmes recentes. Todavia, eles são vistos quando há uma boa motivação para isso. Geralmente, levo em conta os aspectos da crítica especializada. 

Foi pensando nisso, que procurei estabelecer cinco categorias a partir daquilo que vi ao longo do ano: (1) dez melhores filmes vistos em 2020; (2) dez melhores filmes brasileiros vistos em 2020; (3) cinco melhores documentários vistos em 2020;  (4) cinco filmes que me deixaram com a respiração suspensa; (5) cinco decepções de 2020.


(1) Dez melhores filmes de 2020:

1 - Os sete samurais. dir. Akira Kurosawa  (1954);

2 - Ordet. dir. Carl Theodor Dreyer (1955);

3 - Rashomon. dir. Akira Kurozawa (1950);

4 - Vá e Veja. dir. Elem Klímov. (1985);

5 - Cavalo de Turim. dir. Béla Tarr (2011);

6 - Mississipi em Chamas. dir. Alan Parker (1988);

7 - Apocalipse Now. dir. Francis Ford Copolla (1979);

8 - Lawrence da Arabia. David Lean. (1962);

9 - Ben-Hur. dir. William Wyler. (1959)

10 -  O crepúsculo dos deuses. dir. Billy Wilder. (1950);

11 -  Parasita. dir. Bong Joon-ho. (2019)

P.S. Tive que abrir uma exceção e inserir o filme sul-coreano Parasita.


(2) Cinco melhores filmes brasileiros vistos em 2020

1 - O céu de Suely. dir. Karin Ainouz. (2006);

2 - O som ao redor. dir. Kleber Mendonça. (2012);

3 - Bacurau. dir. Kleber Mendonça Filho, Juliano Dornelles (2019)

4 - Eles não usam black-tie. dir. Leon Hirszman.(1981);

5 - Como nossos pais. dir. Laís Bodanzky. (2017);

6 - Central do Brasil.  dir. Walter Salles. (1997);

7 - O beijo da mulher aranha. Hector Babenco (1985);

8 - O caminho das nuvens. dir. Vicente Amorim.(2003);

9 - Iracema - Uma Transa Amazônica. dir. Jorge Bodanzky, Orlando Senna. (1975);

10 -  O homem que virou suco. dir. João Batista de Andrade. (1981);

 

(3) Cinco melhores documentários vistos em 2020

1 - O triunfo da vontade. dir. Leni Riefenstahl. (1935);

2 - A arquitetura da destruição. dri. Peter Cohen. (1989);

3- O holocausto brasileiro. dir. Daniela Arbex, Armando Mendz (2016);

4 - Cora Coralina - Todas as vidas. dir. Renato Barbieri. (2017);

5 - Chico - artista brasileiro. dir. Miguel Faria Jr. (2015);

 

(4) cinco filmes que me deixaram com a respiração suspensa

1 - Os sete samurais. dir. Akira Kurosawa (1954);

2 - Ordet. dir. Carl Theodor Dreyer (1955); 

3 - Vá e Veja. dir. Elem Klímov (1985);

4 - Três homens em conflito. dir. Sérgio Leone (1966);

5 - Mississipi em Chamas. dir. Alan Parker. (1988);

 

(5) cinco decepções de 2020

1 - Rio Babilônia. dir. Neville de Almeida (1982);

2 - Love. dir. Gaspar Noé (2015);

3 - O filme da minha vida. dir. Selton Mello (2017);

4 -  Star Wars: A ascensão de Skywalker. dir. J. J. Abrams. (2019)

5 -  O exterminador do futuro: Gênesis. dir. Alan Taylor. (2015);

domingo, dezembro 27, 2020

Um pequeno balanço livresco


 Acredito que tenha conseguido ler o meu último livro do ano de 2020. Uso a palavra "acredito", pois penso que não terei condições de terminar nenhuma outra leitura, entre aqueles que estou fazendo, ao longo da última semana do ano. Pais e filhos, de Ivan Turgueniev, era um projeto antigo de leitura - como tantos que possuo. Terminei-o ontem.

Não foi um ano fácil. Li menos do que eu queria, todavia, mais do que eu podia. Para leitores com uma compulsão megalomaníaca como eu, que ficam esmorecidos quando não conseguem ler, perceber a existência de obstáculos para a consecução da leitura é sempre uma tragédia. 

O ato de ler é uma atividade curiosa. Esse ano difícil em vários cenários, serviu para mostrar para mim que livros são como montanhas - algumas, quando olhamos debaixo, parecem intransponíveis. Mas elas são e continuam assim até que nos decidamos a subir. 

Há livros que, ao olharmos a sua lombada, a sua espessura extensa, assustamo-nos. Um retraimento covarde nos convence a não enfrentá-los. Isso é uma advertência enganosa. Arrumamos tempo para fazer tantas coisas, por que não organizamos o tempo para realizar algumas necessárias leituras? 2020 permitiu que eu realizasse alguns desejos. Por exemplo, consegui ler A besta humana, do escritor francês Émile Zola. Li ainda o delicioso O lobo do mar, do Jack London. Outro livro lido - e esse ficou entre os grandes que já li - foi O senhor da moscas, do nobelino William Golding. 

Outro livro de fundamental leitura foi o extraordinário Nada de novo no front, do alemão Erich Maria Remarque. O livro é uma aula sobre as transformações ocorridas no interior de um combatente durante a Primeira Guerra Mundial. O brilhantismo da narrativa aproxima-o de Os contos de Kolimá, do russo Varlam Chalámov.

Acredito que o maior desafio do ano tenha sido a leitura da extraordinária biografia sobre o chefe da propaganda nazista - Joseph Goebbels - escrito por Peter Longerich. A leitura aconteceu de forma lenta. Arrastada. Em alguns momentos, pensei realizar uma tarefa que nunca teria fim. O livro aproxima-se das novecentas páginas. Ao terminá-lo, fiquei com um senso de dever cumprido e uma sensação gratificante de que eu era capaz de enfrentar desafios aparentemente assustadores. 

É baseado nessa experiência que, no ano de 2021, tenho três grandes montanhas para galgar: (1) Brasil - uma biografia, da Lilia Moritz Schwarcz; (2) Os demônios, de Dostoiévski; (3) Jane Eyre, da Charlotte Brontë (a belíssima edição da Zahar). 

Penso ainda em ler de maneira mais detida (pelo menos uns cinco livros de cada) Clarice Lispector - por causa de seu centenário - e Lygia Fagundes Telles, para quem as apresentações são dispensáveis. Pretendo ainda ler três ou quatro obras de Jorge Amado, projeto que iniciei em 2020.

Claro, em 2020 houve outras leituras. Mas, acredito que o mais significativo tenha sido isso. 

No próximo ano, o horizonte (observando à distância) apresenta as mesmas tinturas melancólicas - filho, dois empregos, acordar cedo, grandes deslocamentos diários; tempo escasso etc. Mas, é importante continuar fazendo menos do que eu queria, todavia, mais do que eu podia.

sábado, dezembro 26, 2020

Resumo cinematográfico III

(1) "Django Livre" - filme de Quentin Tarantino, que teve sua estreia no ano de 2012. Vi-o em 7/9 deste ano. Assisti a ele, após uma cruzada tarantinesca. Por aqueles dias, vi uns três filmes do diretor. "Django Livre", penso, é o ápice da produção de Tarantino. Com exceção de "Pulp Fiction" (já perdi a quantidade de vezes que vi), fico meio sem paciência com toda aqueles volteios  previsíveis dos trabalhos do diretor estadunidense. O que fixa a minha atenção são, sempre, as belas atuações de parcerias de longa data, como é o caso de Samuel L. Jackson; ou, de em tempos mais próximos, Christoph Waltz e Leonardo DiCaprio. "Django" prende, porque possui um excelente enredo; belas atuações; diálogos cáusticos. Mas, no fundo, é uma tentativa de trazer à tona os "faroestes macarrônicos" à Sergio Leone, com efeitos "gore" e misturas típicas da cultura pop, como é o caso de cruzar lendas alemãs, com escravidão; além do modo como o ex-escravo "Django" se veste após a sua transformação. Confesso que fiquei mais entusiasmado quando vi o filme pela primeira vez, em 2017.

(2) "Um tiro na noite" - filme do lendário diretor Brian de Palma. A obra é do ano de 1982. Foi uma grata surpresa tê-lo visto. A tradução do filme para o português brasileiro, não revela a brincadeira em forma de homenagem que o diretor faz: "Blow Out". "Um tiro na noite" é uma confissão de admiração do diretor aos seus mestres. No caso em questão, De Palma rende homenagem ao diretor italiano Michelangelo Antonioni que, em 1966, filmou um dos suspenses mais originais da história do cinema: "Blow Up - Depois daquele beijo". No filme de Antonioni, um fotógrafo realiza o seu trabalho corriqueiramente em um parque. Quando decide revelar as fotografias, desconfia que registrou o cometimento de um crime. Inicia uma caçada que o leva por um labirinto de eventos com direito, inclusive, a entrar em um "pub" onde o "The Yardbirds", a primeira banda do Jimmy Page, guitarrista do Led Zepellin, faz uma apresentação. No caso do filme de De Palma, um diretor de "filmes B" capta sons próximo a uma ponte, numa noite erma e banal. De repente,  grava o estampido de um tiro. Um carro precipita-se da ponte e cai no rio. Esse é o "start" para a condução brilhante do diretor. Antonioni privilegia a imagem; De Palma, o som. Todavia, há ainda a clara presença dos mistérios hitchcockeanos. É um filme para que os detalhes sejam captados. Uma aula sobre o conceito de metalinguagem.

(3)  "Iracema - Uma Transa Amazônica".  Filme de Jorge Bodanzky e Orlando Senna. Trata-se de uma obra ácida em sua ironia. O filme veio à luz ano de 1974, período da Ditadura Militar em que a propaganda oficial alardeava o chamado "Milagre Brasileiro". Era o período das faraônicas construções. Entre elas, a construção da Rodovia Transamazônica, que levaria, conforme assim era apregoado, o progresso ao Norte do país, cumprindo o projeto de integração nacional, doutrina defendida pelos militares. O filme é relevante, pois faz uma denúncia, mostrando o lado averso, ignorado pelo restante do país - queimadas descontroladas, prostituição à margem da rodovia; a força e a violência dos donos da terra; desmatamento;  a fome e a miséria grassante nas comunidades pobres.  A narrativa do filme é fluida. Em alguns momentos, temos a impressão que estamos vendo um documentário. Vale a pena observar, que a índia Iracema do filme é bem diferente daquela de Alencar. No romance do escritor cearense, há a tentativa de criação de um mito (uma espécie de idílio), deixando evidente que o Brasil é fruto do cruzamento entre a civilização europeia e a natureza americana. No caso do filme, Iracema é prostituída às margens da rodovia símbolo do milagre brasileiro, evidenciando um claro contrassenso. O nome de um dos personagens (inclusive que engana Iracema) é Tião Brasil Grande, que viaja pelo interior e gosta de contar loas patrióticas. Mas que, no fundo, é um grande embusteiro, inclusive enganando Iracema. Baita filme!


segunda-feira, novembro 16, 2020

"O país do carnaval", de Jorge Amado. Algumas impressões pós-leitura


Terminei a leitura de "O país do carnaval", de Jorge Amado. Sempre alimentei curiosidade pela grandiosa obra do escritor baiano. Grandiosa, claro, em todos os sentidos. Foram quase cinquenta livros escritos ao longo de quase 70 anos de produção. Jorge é um dos escritores brasileiros mais lidos no mundo. Tudo teve início em 1931, quando foi lançado "O país do carnaval". 

Jorge ao escrever o livro tinha impressionantes dezoito anos de idade. Era um garoto recém saído da adolescência, mas estava atento aos acontecimentos do Brasil e, principalmente, da sua febril Bahia. No plano nacional, o país estava saindo da República dos coronéis. Mas, como no Brasil, o futuro repete o passado, fazendo ecoar aquela frase do Cazuza: "Eu vejo o futuro repetir o passado", outros coronéis tomaram conta do país com novos arranjos. 

Todavia, vale mencionar que mesmo em face dos arranjos políticos para conservar os "status quo" das mesmas lideranças, há a gestação de indignações. A Coluna Prestes deixou a sua marca. O Partido Comunista já tinha oito anos desde a sua fundação. O mundo enfrentava uma crise econômica sem precedentes. O coração do capitalismo foi atingido com a quebra da Bolsa de Nova York. O Brasil é um pequeno país periférico. O efeito do movimento dessas ondas demoram a chegar, mas acabam chegando. 

Todas esses eventos geram incertezas. O Brasil parece parado no tempo com seus costumes. Com sua religiosidade repleta de superstições. O provincianismo é uma constante de Norte ao Sul do país. A sensualidade das mulatas. As festas carregadas de lubricidade, expõem o caráter primitivista dos costumes. Por outro lado, existem papéis definidos. Uma estrutura social construída para beneficiar certos imbecis que se aproveitam do aspecto letárgico do povo. 

Quando se lê "O país do carnaval" todos esses sinais aparecem como pano de fundo. O livro é de leitura rápida. Não há agudas análises psicológicas. Pouca preocupação em trabalhar aspectos mais densos dos personagens. Há inúmeros diálogos. Nesse sentido, a obra possui aspectos teatrais. Parece que foi feita para ser encenada. Os capítulos são curtos e aparecem como "flashes". 

O narrador não fala da política, do momento histórico por que passava o Brasil. O livro procura problematizar a natureza, o elemento constitutivo dos costumes do povo brasileiro. Paulo Rigger, a personagem central do livro, filho de ricaços da terra, volta da França, para onde fora estudar. Ao chegar à Bahia, sente o mormaço tropical ainda no navio. Ou seja, o calor dos trópicos seria um elemento responsável pelo atraso, pela sensualidade? Paulo volta repleto de convicções filosóficas. É um cético; um entusiasta da dialética. Nos círculos parisienses, tornara-se um polemista. 

Aos poucos abandona suas convicções iniciais ao regressar. É recepcionado por uma festa de carnaval. É o seu batismo lúbrico. Uma marchinha de Ary Barroso causa-lhe espanto: "Esta mulher / Há muito tempo me provoca / Dá nela! Dá nela".  Mete-se com outros sujeitos: um é um intelectual frustrado, que não consegue levar à frente os próprios projetos; outro, um cínico, que nega tudo; outro ainda decide casar e morar no interior, mas logo depois se encontra cercado por um mar de frustração e infelicidade. Paulo Rigger irrita-se com o país; perde a crença na ausência de ímpetos por uma energia criadora. O Brasil alegra-se com o corpo, apenas. Decide, pois, voltar para a Europa.

Enxerga-se no livro um laboratório para muitos dos temas que seriam, mais tarde, trabalhados em inúmeras obras escritas pelo grande intelectual baiano. Vamos ao segundo livro do autor: "Cacau".

segunda-feira, outubro 26, 2020

Resumo cinematográfico II




Três dos últimos filmes que vi:
 

(1) "O homem que virou suco" (1981) - é uma produção brasileira, dirigida por João Batista de Andrade. O filme recebeu uma importante premiação no Festival de Moscou, no mesmo ano em que estreou, como melhor produção daquele festival. A produção é importante por alguns motivos - um dos principais pontos do filme é a excelente atuação do ator paraibano José Dumont. A história possui uma forte ressonância social. Aborda questões importantes como a migração de nordestinos para o Centro-Sul; a subcidadania, característica de grupos marginalizados; a violência perpetrada pelo estado contra os mais vulneráveis; a relação esnobe dos ricos em relação às massas de oprimidos; e o quanto se paga pela insurgência contra os opressores. 

(2) "Colette" - Com direção de Wash Westmoreland, teve a sua estreia em 2018. Ele retrata parte da vida da escritora e vanguardista francesa Gabrielle Colette. A obra narra os anos iniciais da relação com o boêmio Willy, um escritor e aproveitador de ocasião da sociedade francesa do final do século XIX e início do século XX. Colette, cujo início obra literária é retratada no filme, escreveu livros de grande sucesso à época. Vale mencionar a criação da personagem "Claudine", que virou uma sensação na sociedade francesa. Mas, diante disso tudo, Colette não podia ostentar o nome nos livros que escrevia. Os direitos autorais eram administrados pelo marido. O marido dirigia-lhe os passos. Aproveitava-se do talento da esposa. Chegou a trancá-la durante 16 horas para que ela escrevesse; e vendeu os direitos autorais da obra da esposa sem consultá-la. Na sociedade francesa da época, uma escritora feminina não seria benquista. Colette, tendo como pano de fundo uma sociedade que definia o papel da mulher, não aceitou essa imposição. Subverteu as regras do conservadorismo, sendo uma das primeiras mulheres da época a lutar pela emancipação e pelo reconhecimento do papel feminino. Um excelente filme, com uma fotografia muito bonita.

 

(3) "Gauguin - Viagem ao Taiti" - É uma produção francesa, dirigida por Edouard Deluc, do ano de 2017. O filme busca focar um pequeno período da vida do pintor pós-impressionista francês, Paul Gauguin. Após passar por uma crise criativa na França, deixa a mulher e os cinco filhos e parte em busca de novas possibilidades criativas, no ano de 1881. Viaja ao Taiti para experimentar o lado selvagem da criação artística. Lá, casa-se com a jovem Tehura, que passa a ser a sua musa inspiradora. Vivendo em um vilarejo de agricultores e pescadores, Gauguin produz febrilmente. O filme busca romantizar esse momento da vida do problemático pintor. Segundo conta a história (o que não é retratado no filme), quando casou com Tehura, ela tinha treze anos de idade; e, ele, quarenta e três. Gauguin tinha sífilis e, possivelmente, transmitiu para a jovem Tehura e para outras mulheres da ilha. Todavia, é um filme bonito, que procura explorar o lado mais primitivo do veio criativo do grande artista francês e os momentos de inspiração que ele experimentou naquela imensidão paradisíaca da Polinésia.

quinta-feira, outubro 15, 2020

Um mosaico de lembranças nesse dia dos professores

 

Dou aula há dez anos. Há quem fique dez, vinte, trinta ou mais anos nessa profissão. Não pretendo ficar por tanto tempo. A profissão docente é repleta de sabores múltiplos. Há aqueles doces, de uma pureza sofisticada; mas, há aqueles que divergem da doçura por serem azedos ao extremo. Pretendo falar um pouquinho da minha relação com alguns professores inesquecíveis.

Ao longo de minha jornada como estudante, eu tive a oportunidade de encontrar com professores e professoras para as quais eu pagaria um valor altíssimo para ter a oportunidade de ficar mais próximo; de passar uma tarde a conversar com eles. Admirava-os (e os admiro ainda hoje, embora o tempo insista em criar camadas de afastamentos). Tenho o costume de reverenciar, de nutrir grande respeito por pessoas admiráveis. E muitos professores com os quais eu cruzei ao longo de minha jornada como estudante, inseriram-se nessa categoria.

                 Nos anos iniciais, recordo-me da Marli, da Geovanete, da Suely, da Soraia - por quem me apaixonei na 2ª série). As paixões fazem parte dessa fase. Ela era professora de artes. Encontrava-me com ela uma vez por semana, às terças-feiras. Era pouco. Durante as aulas, ficava embevecido. Seus longos cabelos pretos. Sua voz melodiosa. Seus trejeitos tão singulares. Os ademanes da caminhada. Ainda posso vê-la. Ia para casa de ônibus. Um certo dia, resolvi verificar onde ela morava. Peguei o mesmo ônibus em que ela estava. Passei por baixo da catraca. Aboletei-me na última cadeira da condução. Ela ficou à frente, próxima ao cobrador. Certamente, ela me viu. Ignorou-me. Não disse nada.

                O ônibus seguiu a sua viagem. Ao chegar ao Centro de Taguatinga (Região Administrativa do DF), vi que ela se levantou. Passou por mim; nem olhou. Desceu do ônibus. Misturou-se à aglomeração de transeuntes. Sumiu no rio de pessoas como uma flor delicada que é empurrada pela correnteza. Fiquei distante a olhar. Voltei para casa após esse episódio arqueológico e nem consigo divisar o que pensava. Ao encontrá-la na escola em um dia qualquer, ela disse: “Oi! Carlos!”. Fiquei sem palavras, inexpressivo, como é comum à minha pessoa em inteirações sociais.

                Ao chegar à antiga quinta série, encontrei uma fauna docente bastante diversa. Havia professores que ensinavam bem; outros, nem tanto. Recordo-me de um professor de ciências cujo tom histriônico ficou impresso em minha memória. Suas aulas eram divertidíssimas. Ele se vestia sempre com roupas sociais – camisa social, calça social, sapato social. Parecia um corretor de imóveis com a sua valise escura. Fisicamente era magro e baixo; usava óculos. Fazia lembrar o político Éneas pela calvície.  Sua letra era milimetricamente desenhada. Seus esquemas coloridos feitos no quadro, beiravam à perfeição. Da minha cadeira, eu prestava atenção. Ele começava a falar de moléculas; de processos químicos; de transformações gasosas. De repente, fazia uma careta. Simulava gestos teatrais. Saía da sala. Ficávamos rindo. Algum tempo depois, voltava como se nada tivesse acontecido e nos empurrava para frente em sua jocosa viagem científica.

                Nessa mesma escola, havia uma professora cuja fama era das mais atrozes. Os alunos tinham medo dela. Ouvia a fama dela; punha a imaginação para funcionar. Ela parecia se alimentar dessa horrenda ressonância social. Na sexta série, tive o infortúnio de cruzar com ela. Era professora de ensino religioso. Quando a vi pela primeira vez, observei-a. Sua fama consolidou-se numa determinada aula. A sala não parecia um espaço de aprendizagem sobre as coisas divinas. Estava mais para um tribunal da inquisição. Não havia liberdade para falar. Todos alunos ficavam tensos. Perfilados marcialmente, reduzíamo-nos.  Apequenávamo-nos.  Transformávamo-nos em coisinhas insignificantes. Um olhar dela, congelava a alma. Parecia possuir um chicote de fogo nas mãos. Era magra. Um cocó no alto da cabeça. Usava uma dentadura amarelecida pelo tempo. Não sei se era tabagista. Quando falava, tinha a impressão de que a prótese dentária dançava em sua boca magra e babosa.

                Um colega olhou para o lado. Ela saiu do seu lugar, movimentou-se célere. Disse, olhando para o infeliz, que se comprimia na cadeira: “Por que você não põe uma melancia na cabeça!” “Está querendo aparecer?” Essas frases foram proferidas de uma maneira torrencial. Havia tempestades em seus olhos. Uma camada metálica em sua voz. Reduzi-me em minha cadeira. Sua pedagogia era a do pavor, do medo. Ela ficou como exemplo negativo daquilo que um professor não deve ser. Não sei aonde ela está. Aposentou-se?

                Seu filho estudava na mesma escola em que eu estudava. Vestia roupas compridas em pleno calor. Usava óculos. Ficava pelos cantos a ler a Constituição de 88. Olhava para ele. Tentava decifrá-lo. Ele era um para-raios; certamente, as borrascas inflamadas de sua mãe caíam sobre o seu corpo pequeno e mofino. Sua mãe era professora de religião. Mas era uma religião draconiana. Não a de Cristo.

                No ensino médio, encontrei outras figuras exóticas, singulares. Havia um professor de literatura que me fazia pensar nos textos de Nelson Rodrigues. Um toque de sátiro pulava de suas falas em certos momentos. Tratava-se de figura bastante cômica. Agradável. Era poeta. Tinha livro lançado. Membro da Academia Taguatinguense de Letras, fato que insistentemente surgia em conversas. Às segundas-feiras, nos dois primeiros horários, com certa recorrência, chegava atrasado. Quando estava do lado de fora da sala, via sua imagem aportar no corredor; deslocar-se com passos ligeiros, mas solenes. Uma parte do corpo franzino meio pensa. Cabelos penteados de lado. Óculos de grau. Uma mão no bolso e outra a segurar a valise. Caminhava de cabeça baixa. Parecia pedir desculpas com aquele gesto.

                Observava os seus olhos ainda inchados, da noite mal dormida, de quem saíra de casa atrasado. Quando se aproximava, notava o seu bafo etílico. Imaginava a pândega em que se metera ao longo do final de semana. Dizia possuir uma grande biblioteca. Ficava a imaginar. Vi nele a primeira figura de um grande erudito. Se isso não se confirmou ao longo das aulas, pelo menos a impressão não esmorecia.

                Poderia citar outras personalidades. Outros nomes dessas magnânimas figuras. Houve inúmeras com as quais cruzei. Todas dignas. Todas justas. Todas humanas. Como dizia a poetisa goiana Cora Coralina: “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”. Acredito que tenha recebido um pouco de cada um deles, porque a prática os ajudou a aprender aquilo que ensinavam. Sendo professor, acredito que tenha me assenhoreado de um pouquinho de cada um deles, enquanto vou aprendendo a aprender aquilo que ensino.