segunda-feira, junho 21, 2021

Algumas palavras sobre o capítulo 1 do livro de Jó

Propus-me a ler o livro de Jó, uma das obras magnânimas do Judaísmo e do Cristianismo. Pretendo ler um capítulo por dia. Jó é um livro bastante emblemático, pois possui uma teologia suscitadora de possibilidades interpretativas que chega ao terreno do mito. É inegável a sua magnificente estrutura poética. Já o li algumas vezes. Sempre ficou aquela sensação de que há, no livro, uma intenção sapiencial e moral em seu autor. Não se sabe ao certo quem é o seu autor.

Outro fato bastante curioso sobre o livro é a historicidade do seu personagem principal. Quem é Jó? O livro começa situando os leitores geograficamente: “Havia na terra de Hus um homem chamado Jó” (Jó 1.1)[1] .  É uma forma de posicionar o leitor para a história que vai começar. É muito parecido com “Era uma vez,...”, das histórias extraordinárias.

A personagem é apresentada e, de início, já se diz que ele é “um homem íntegro e reto, que temia a Deus e se afastava do mal”. A introdução procura estabelecer duas características para a personagem: (1) uma preocupação moral; e (2) uma preocupação religiosa.

No segundo versículo, os dez filhos de Jó são apresentados. E, somente em quarto lugar, aparece a fortuna da personagem. Não se fala nada a respeito, mas, nota-se que os anos se passam. Jó reúne a família. Há festas, banquetes, congraçamentos.  Um espírito de fraternidade e amor parece existir entre os irmãos. Mesmo com todas essas situações, Jó é escrupuloso ao ponto de oferecer sacrifícios ao seu deus (Jó 1.5).

A partir do versículo 6, há um deslocamento no texto. Assemelha-se a um efeito cinematográfico. “Os Filhos de Deus”, em certo dia, vieram se apresentar a Iahweh. Quem eram esses “Filhos de Deus”? Seriam deuses? Arcanjos? Entidades miríficas que habitam a eternidade? A imagem deixa a entender de que se trata de um panteão. Vale ressaltar que os povos vizinhos de Israel eram politeístas. Ou seja, acreditavam em vários deuses. Do ponto de vista histórico, acredita-se que os judeus absorveram muito da mitologia cananeia. Inclusive, há o entendimento por parte de alguns historiadores, que o próprio Yaweh tenha sido incorporado da mitologia dos cananeus.  

Outro aspecto curioso a respeito dessa narrativa é que entre esses “seres especiais”, apareceu “Satanás”. Observa-se, nesse sentido, que “Satanás” ainda não possui os atributos diabólicos que assume no Novo Testamento. Ainda não é o “Baal Zebuf” (“o senhor das moscas”). Ou seja, aquele que habita o mundo escuro. Questionado por Yaweh a respeito do que fazia, ele responde: “Venho de dar uma volta na terra, andando a esmo”. É como se vivesse de forma desgarrada dos demais seres eternos. Nessa separação, ele “espreita” a criação. É responsável pela fermentação de antagonismos.

Iahweh parece provocar a criatura que acabara de chegar: “Reparaste no meu servo Jó? Na terra não há outro igual: é um homem íntegro e reto, que teme a Deus e se afasta do mal”. (Jó 1.8). Nota-se nesse sentido, que a observação em tom de arrogância provocativa vem do próprio Iahweh. Satanás retruca, afirmando que era muito fácil para Jó possuir todos aqueles atributos. Ele era protegido. “Porventura não levantaste um muro de proteção ao redor dele, de sua casa e de todos os seus bens?”. (Jó 1.10).

O que mais impressiona nesse fato é que, a partir dali, inicia-se uma espécie de aposta meta-histórica. Algo que acontece numa dimensão imiscível, mas que passa a ter efeitos no mundo material. Iahweh autoriza que Satanás inicie um processo de teste extremo à fidelidade de Jó. “Pois bem, tudo o que ele possui está em teu poder, mas não estendas tua mão contra ele”. (Jó 1.12). Diz o texto que “Satanás saiu da presença de Iahweh”.  

Fenômenos terríveis começam a ocorrer com Jó. As suas posses são aniquiladas. Os seus filhos são assassinados ou mortos em desastres naturais. Mas, vale lembrar, que a manipulação dos elementos naturais, estava sendo realizada por Satanás. A consequência desses eventos é a miséria suprema de Jó. O ato de Jó foi ‘rasgar o manto’; ‘rapou a cabeça’; ‘caiu por terra’; ‘inclinou-se para o chão’. São gestos que atestam o não conformismo, mas, ao mesmo tempo, uma humildade, uma aceitação inquestionável. O capítulo 1 finaliza com a sentença objetiva: “Apesar de tudo isso, Jó não cometeu pecado nem protestou contra Deus”.

Nota-se nesse primeiro capítulo de Jó, pelo menos, duas perspectivas:

(1)    O destino e a sorte dos homens são decididos, muitas vezes, em “jogos” ou “apostas” meta-históricas. Iahweh parece ignorar todos os sofrimentos que seriam experimentados por Jó. Há um claro equívoco na perspectiva da bondade divina. A fidelidade como fica evidenciada nos versículos iniciais do livro, não é uma garantia de proteção e zelo divino. A principal preocupação de Iahweh é provar uma tese: a de que ele era temido por Jó, independentemente da situação. Ou seja, muitos dos eventos trágicos – enfermidades, acidentes variados, casos inexplicáveis – podem indicar a presença de um jogo. Isso do ponto de vista das leis naturais é absurdo. Há ainda uma clara falta de lógica no que tange ao controle dos fenômenos.

 (2)  A estrutura do texto possui claros elementos mitológicos. Assemelha-se às narrativas dos povos vizinhos a Israel. Afinal, a noção de seres eternos que reúnem para decidir o destino dos homens possui fortes relações com a mitologia grega, por exemplo. A intriga entre os desejos divinos, os caprichos que acometem os deuses, estão presentes na narrativa. Seres eternos estão preocupados com aquilo que os homens fazem ou deixam de fazer. Sentimentos humanos são direcionados a seres tidos como perfeitos. Essa personificação é comum em histórias de contos maravilhosos. Para aquele que crer, que aceita irrefletidamente os elementos do texto sem notar esses arranjos discrepantes, acomodam-se com facilidade esses eventos da narrativa.

Vamos ao capítulo 2.   



[1] Na leitura, estou usando a excelente tradução da Bíblia de Jerusalém.

 

segunda-feira, junho 14, 2021

"Escolha o seu sonho", de Cecília Meireles



“Ir pensando em coisas cada vez mais distantes: a rua, a cidade, a estrada, o país, o mundo, o espaço, a eternidade...”
Cecília Meireles in “Escolha o seu sonho”, p. 95.


Em meu processo de leitor amador e incipiente, sempre que imagino a poetisa Cecília Meireles, me vem à mente uma delicada imagem de uma fada a fazer arranjos suaves com as palavras. Mas, deixemos de lado essa construção banal e piegas. Essa impressão ganhou contornos mais sólidos, pois terminei a leitura de um dos textos da autora do “Romanceiro da Inconfidência”.

A leitura realizada não é de uma das dezenas de livros poéticos que escreveu. Trata-se de uma compilação de crônicas escritas sobre os mais variados assuntos, denominado apropriadamente de “Escolha o seu sonho”. “Sonho” é uma palavra com poderes intrínsecos nos textos de Cecília. Considerada uma das grandes poetisas da Língua Portuguesa, a escritora carioca recebeu inúmeros prêmios nos países os quais visitou.

Cecília é considerada uma autora modernista. Todavia, o seu modernismo não se preocupa com os jogos herméticos de sintaxe; com a manipulação de estruturas vernáculas para criar efeitos mirabolantes de linguagem, como característico em certos escritores modernistas. Não. O texto de Clarice é límpido como um riacho alpino. É singelo. É claro. Seus textos são considerados, do ponto de vista do enquadramento técnico, como neossimbolistas. Clarice transcende a realidade com poucas imagens. De repente, mergulhamos em um sonho e nos vemos desnudos diante de um espelho, abraçados pelas delicadezas e sublimidades da Via-Láctea. Quase sempre somos impelidos à contemplação; a eflúvios brandos; com a textura de nuvens brancas, brandas, macias.

“Escolha o seu sonho”, mesmo sendo um conjunto de textos em prosa, não deixa passar desapercebido essa delicadeza repleta de simplicidade da escritora. Os textos curtos partem de situações banais do dia a dia e que, de repente, são transcendidas por uma linguagem singela como uma pincelada certeira que colore um quadro. Quando menos se percebe somos impelidos a uma paisagem que se descola do corriqueiro. O olhar privilegiado e sensível de Cecília é capaz de transformar qualquer fato cotidiano em uma joia para uma reflexão irresistível. 




O livro reúne 45 crônicas. Busquei ler uma por dia; às vezes, duas ou três. A ideia era refletir, meditar, ruminar as ideias expressas em cada texto. Apesar de serem textos simples, são densos de conteúdo. Como por exemplo, a crônica que descreve uma ida à feira numa tarde de sábado. Ou ainda, sobre quando a escritora se encontrou com nobelino escritor americano William Faulkner. O texto límpido como um regato, o qual conseguimos enxergar o fundo, deixou-me impressionado. Li-o duas vezes seguidas para me deixar encharcar pela sua prosa superior. Em certo momento do texto ela diz, referindo-se às falas enunciadas por Faulkner: “Foi um breve discurso em que afirmava a fé no espírito humano. Sua voz ainda parecia mais desaparecida ao estrugir dos aplausos. Lera, com simplicidade, pareceu-me que sem nenhuma ênfase. Pareceu-me que até com displicência. Mas o que dissera tinha eternidade” (destaque intencional). p. 56

Em suas deliciosas crônicas como se fosse uma manhã ensolarada, de vento fresco e céu azul, Cecília foge dos hermetismos. Ela possui uma fórmula capaz de transformar qualquer coisa em sagrado. Impressiona o quanto ela conseguia descomplicar o mundo. Parecia possuir uma chave que escancarava uma realidade elevada, alta, sem as peias do medíocre, do afetado, do banal.

Como o mundo precisa da singeleza, da delicadeza e da simplicidade do texto ceciliano!

sábado, junho 12, 2021

Vista Cansada - por Otto Lara Resende


Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa ideia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.

Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.

Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima ideia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença. 

Daqui

domingo, maio 30, 2021

"As ideias inertes"


Mês passado, o extraordinário Alfredo Bosi faleceu, vitimado pela Covid-19. Uma perda verdadeiramente inestimável para a inteligência brasileira. Muitas homenagens ao seu legado foram direcionadas honesta e devidamente. Procurei no Youtube algumas de suas palestras. Pus-me a escutar uma em particular, feita (penso) em 2015, na Academia Brasileira de Letras – vale ressaltar que Bosi fazia parte do corpo de imortais da instituição fundada por Machado de Assis.

A palestra tratava sobre o conceito de cultura e seus desdobramentos. O próprio Bosi diz na palestra que o conceito de cultura é complexo e carece de enormes esforços reflexivos. E, ao longo de sua fala, buscava conciliar a reflexão sobre o conceito de cultura com experiências e histórias vividas, o que tornava a sua fala irresistível. Bosi utilizava eventos aparentemente banais e os transformava em uma reflexão poderosa. Em dado momento, ele disse algo que me deixou em suspensão. Evocando o filósofo e educador estadunidense John Dewey, o autor de “A história concisa da literatura brasileira” fala em “ideias inertes”.

Ele explica que a expressão era extraída do pensamento de Dewey, um dos nomes mais importantes da filosofia dos Estados Unidos. Dewey é considerado como um dos fundadores da corrente pragmatista de filosofia ao lado de William James, Charles Sanders Peirce e Josiah Royce. Para o pragmatismo uma ideia é boa, portanto, aproveitável, quando o conjunto dos seus desdobramentos resulta em algo prático.

Com sua maneira muito singela, mas com grande vitalidade e erudição, Bosi fala sobre as ideias que podem morar no campo da abstração e, portanto, do alto idealismo, mas que nunca se transformam em substância prática. Coloquei-me a pensar sobre essa questão – “ideias inertes” – e perceber o quanto a sociedade e a nossa própria vida podem estar encharcadas por ideias estagnadas. Um exemplo é a quantidade de leis existentes no nosso país. Somente as federais são mais de quatorze mil, sem mencionar as estaduais e municipais. Essas leis são abstrações, são fossilizações ideais. Existem apenas como um regulamento ideal. Enquanto não se transformam em prática; enquanto não são se tornam em eventos práticos, são meras ideias que pouco servem. Estão “inertes” em sua inamovibilidade. E o que mais testemunhamos é o desrespeito a essas normas. Uma sociedade que faz leis, mas não as segue, verdadeiramente, considera esse conjunto normativo como “ideias inertes”.

Do mesmo modo, há aqueles sujeitos que se cercam de “ideias inertes”; de sonhos inertes, que não se tornam em movimento. Importante dizer que existem ideias que são como o vento: elas são intangíveis. O que seria do mundo se não existissem as ideias intangíveis? Seríamos homens e mulheres apoéticos. Nós humanos temos uma necessidade de abstrair. A literatura e a arte em geral são campos das ideias e abstrações. Acredito que não era sobre esse tipo de abstração à qual Dewey estava se referindo.

Penso que Bosi ao evocar Dewey queria justamente chamar a atenção para o fato de que é preciso tornar concreto aquilo que se pensa. Sair do mundo dos pensamentos que não se encaminham para a vida. Abandonar as resoluções estéreis, aquelas que pouco contribuem com a história. Neste sentido é importante pensar em João Cabral de Melo Neto e seu fabuloso poema “A Educação pela pedra”. Diz ele que é importante experimentar da pedra “sua carnadura concreta”. Sim! É importante experimentar a “carnadura concreta” da vida. Sentir a sua resistência! Seu bafo quente! Seu arrojo, seu movimento. “Captar a sua voz inenfática, impessoal”, ainda citando o poema de João Cabral de Melo Neto.

O que é “inerte” não muda, não transforma, não exaspera, não comove o mundo.

sexta-feira, abril 30, 2021

O Concerto para piano em sol maior, de Ravel


Existem compositores que são cerebrais. É o caso, por exemplo, da música de Prokofiev; ou de Schoenberg. Escutou-os sabendo o que vou encontrar. É como se eles dissessem: “Nós não estamos aqui para que você sinta; tudo aqui é seguro e milimetricamente contado”. Todavia, há outros compositores que tocam as cordas das emoções. Visito-os e, de imediato, já sou colocado numa planície com horizontes misteriosos.

Sou acometido por essas ideias após escutar o Concerto para piano em sol, do compositor francês Maurice Ravel. Ravel é um dos compositores de que mais gosto. Nascido em 1875 e morto em 1937, Ravel é um dos compositores mais singulares e importantes da primeira metade do século XX, ao lado de Debussy, de quem herdou o lugar no rol de relevância da música francesa. Vale mencionar ainda a morte de Gabriel Fauré em 1924. Debussy morrera em 1918.

Olhando do ponto de vista da produção, nota-se que Ravel não possui uma obra numerosa. Era muito frequente, demorar de um a dois anos para terminar uma obra. Sua produção vai até o ano de 1933, quando passou a enfrentar graves problemas de saúde decorrentes de um acidente automobilístico.

O compositor escreveu dois concertos para piano. O primeiro deles é o Concerto para mão esquerda, escrito nos anos de 1929 e 1930. E, logo em seguida, encontramos o Concerto para piano em Sol, cuja escrita começou em 1929, mas que foi concluída mesmo em 1932. Ou seja, é uma das suas últimas obras. Trata-se de uma das mais bonitas obras para piano já escritas. Aliás, o Concerto para mão esquerda também pode ser colocado nessa categoria. De maneira mais extensiva, podemos afirmar que tudo o que Ravel escreveu possui um lugar especial na história da criação artística.

Em 1928, Ravel excursionou pelos Estados Unidos. Ficou impressionado com então efervescente movimento jazzístico que eclodia com muita força naquele país. Essa influência pode ser encontrada no Concerto em Sol. Outra referência é à música espanhola. 

 

O Concerto para piano em Sol possui três momentos. O primeiro movimento possui aquela orquestração perfeitamente construída, misturado aos elementos do jazz e da escola espanhola. O terceiro movimento retoma o tema trabalhado no primeiro movimento, tirando-nos  do sonho existente no segundo movimento. No terceiro movimento notamos a energia sem freios, estimulada pelos gritos resfolegantes do clarinete e do flautim. O trombone solta urros fanhos e é contrastado pelos floreios de uma pequena fanfarra.

Todavia, o que me chama a atenção nesse concerto é o segundo movimento. É um tipo de música para morrer e viver. É uma das músicas mais belas já produzidas no seio grávido de possibilidades do universo. Nele encontramos a alegria da vida, mas, também, vislumbramos as dores da morte. O compositor afirmou certa vez que, para escrever o segundo movimento, inspirou-se no Larghetto (segundo movimento) do Quinteto para clarinete, de Mozart. Escutei há pouco o aludido movimento e pude concordar com Ravel. Há beleza excesso nesse fragmento da música do compositor austríaco.

O inquestionável cenário de sonho do segundo movimento da obra de Ravel, revelam uma poética delicada. Somos conduzidos pela mão; impelidos ternamente por momentos doces. Tudo parece suspenso. Sentimo-nos nobres, exultantes e a vida e a realidade deixam de lado sua face incognoscível.  Os elementos complexos e nós herméticos que custamos a administrar se tornam rarefeitos. É uma visão do paraíso; das inomináveis visões de um sonho cristalino e iluminado. Quanta beleza colocada em nove minutos de música. Aliás, a existência inteira colocada no idílio sensível do piano.  

quarta-feira, abril 21, 2021

"Punk", o documentário.



“Eu nunca vi o ‘punk’ como movimento. Na minha opinião, eles são politizados [os movimentos]. Eles têm uma finalidade para conseguir alguma coisa. Mas, como movimento, qual era o objetivo do ‘punk’? Consegui mais adeptos? Isso ele conseguiu rápido. ‘Punk’ é uma cultura; uma cultura de rebeldia. Nós estamos falando de uma cultura energética e inspiradora. Ela estimula a adrenalina e o cérebro a fazerem coisas, mesmo que seja só sair de casa e quebrar tudo”.

Jello Biafra, ex-vocalista do Dead Kennedys.

Terminei de assistir à série “Punk” (disponível no GloboPlay). Trata-se de um documentário, mas foi dividido em quatro episódios, o que passa a ideia de ser uma série. A primeira confissão a ser realizada é de que se trata de algo muito bom. Cada capítulo (com pouco mais de cinquenta minutos) procura trabalhar a cronologia do movimento. Dessa forma, procura-se explorar o movimento, do final dos anos 60, ao final dos anos 90. Ao terminar, fica uma mensagem de que ainda há algo no ar; o movimento ainda continua respirando – apesar das muitas mudanças na indústria fonográfica - e inspirando jovens. É só olhar na direção certa.

O documentário possui como curador e produtor um dos nomes mais importantes da história do rock – Iggy Pop, fundador do “The Stooges”, uma banda considerada por muitos como aquela que iniciou o movimento. Iggy conta como se deu a criação da banda, revelando muitas das atitudes do grupo no final dos anos 60. Suas apresentações eram, geralmente, marcadas por atitudes e acrobacias impensadas. O público ficava embasbacado com as performances.

Logo em seguida, outros nomes importantes vão surgindo. Um dos pesos pesados que devem ser mencionados é o MC5, que esbanjou ao longo de sua trajetória um viés mais político. Foi perseguido por isso, tornando-se alvo da violência policial.

O surgimento do termo “punk” é controverso. Quando se deu a denominação aos seguidores do movimento de “punks”, a palavra possuía uma conotação negativa. Ela estava associada ao contexto homoafetivo. Aqueles que eram chamados assim, haviam se tornado alvo do julgamento moral.

O documentário desloca os eventos em dois grandes centros – EUA e Inglaterra. Sendo assim, a primeira geração do movimento foca em bandas como “The Stooges”, “MC5”, “New York Dolls”, “The Dead Boys” e “Blondie”. Vale ressaltar que o movimento foi marcado, nos EUA, pelo surgimento dos Ramones, que consolidou uma estética muito peculiar – calças “jeans” rasgadas, blusa branca, Jaqueta de couro, tênis e cabelos compridos. Era o visual básico de motoqueiros com fisionomia para poucos amigos. Trata-se um visual arquetípico e que remete ao movimento, à juventude e à liberdade. Influenciados pelo “The New Yok Dolls” e pelo “Television” na cena nova-iorquina, os “Ramones” eram figurinhas carimbadas e atrações cada vez mais relevantes no lendário bar CBGB. Vale ressaltar que o CBGB foi responsável por abrigar essas abandas, servindo como cenário para manifestações emblemáticas e revolucionárias de uma geração. Em poucas palavras: impossível dissociar a importância do bar para a consolidação do movimento.

Logo em seguida, nota-se que há uma mudança para a Inglaterra. Em terras da rainha, o “punk” ganha uma forte carga política e social. Enquanto o movimento nos EUA flertava com elementos banais – brincadeiras, conseguir garotas; brincadeiras em torno de bebedeiras etc, na Inglaterra houve um fermento crítico intenso.

No final dos anos 70, a Inglaterra passava por sérios problemas econômicos. Tornou-se uma plataforma para os experimentos neoliberais de Margareth Thatcher, “a dama de ferro”, a partir de 1979, diminuindo a força dos sindicatos, desregulamentando o estado inglês, bem como privatizando boa parte dos serviços públicos. Passou a haver uma menor cobertura social para população menos favorecida. Os jovens se viam numa situação instável: ou estavam desempregados ou vendiam sua força de trabalho por um salário irrisório.

Foi assim que, abandonou-se a cultura pacificadora dos “hippies” por um movimento que usava o poder jovem e a atitude para criticar o sistema. O movimento “punk” inglês viu surgir bandas engajadas. É caso do “The Clash”. Mas, pode-se citar o “The Sex Pistols”, “The Damned” e “The Slits”. Curiosamente, conforme conta o documentário. Essas bandas ficavam restritas em guetos – bares e clubes. Não havia uma capilaridade do movimento em solo inglês. Ele estava restrito a certos grupos. Foi a ida dos “Ramones”, a banda nova-iorquina, um dos ícones do movimento, que tudo mudou. Após a excursão do grupo de Joey Ramone, a juventude inglesa foi incendiada. Foi graças a isso que o tão famoso movimento do “punk” inglês não se tornou um movimento marginal, mas acabou ganhando as massas.

Ao longo da explanação desses eventos, Johnny Rotten, antigo vocalista do “Sex Pistols” faz inúmeras afirmações sobre os eventos marcantes com a sua banda e com a história que vivenciou. Nota-se um “Rotten” insinuantemente controverso, gordo, malvestido, indigesto, “vomitando” palavrões com bastante naturalidade, o que transparece o aspecto mais virulento de sua personalidade. Se ainda se encontra assim, imagine à época em que os “Sex Pistols” estavam no auge.

Logo em seguida, o documentário volta-se para o movimento nos Estados e o quanto de violência passou a existir. Outro fato importante – isso já nos anos 80 – foi o surgimento do “hardcore”, uma sonoridade mais rápida e agressiva. Vale ainda mencionar o surgimento de de bandas como “Black Flag”, “Dead Kennedys”, “Bad Brains” as quais passaram a ser seguidas por grupos fascistas e nazistas. E alguns – como o caso do “Dead Kennedys” – passaram a ser perseguidos por eles. Outro fato é o machismo e a misoginia incrustada no movimento. As mulheres não possuíam muito espaço.

Criou-se, por conta disso, mais tarde, o movimento feminista “Riot Grrrl”. E desse movimento surgiram bandas como “L7” e “Bikini Kill” para denunciar a misoginia existente no movimento. O movimento “Riot Grrrl” buscava revelar o quanto aqueles homens brancos que se diziam oponentes do sistema, eram misóginos. Sendo assim, as bandas participantes do movimento buscaram enfatizar o protagonismo das mulheres como participantes do “punk”. Ou seja, o quanto elas poderiam contribuir.

No último episódio, há uma ênfase nas bandas que surgiram nos anos 90 – “The Offspring”, “NOFX”, “Green Day”, “Pennywise”. Os membros desses grupos revelam o quanto o movimento “grunge” foi importante para alavancar essas bandas, principalmente o Nirvana. Para eles, a banda de Kurt Cobain foi responsável por alavancá-los quando do lançamento de “Nevermind” (1991), o icônico disco do Nirvana.

Finalmente, há uma reflexão sobre as mudanças ocorridas com o advento da internet e o quanto esta foi responsável pelo enfraquecimento do movimento. Para eles, a possibilidade de “baixar” música matou a indústria fonográfica, dando prejuízos absurdos às bandas. Claro, que essa é a perspectiva dos artistas – e, por isso, válida. Afinal, eles sentiram verdadeiramente as mudanças. Com o advento da internet foi necessário se repensar a forma como as músicas deveriam alcançar o grande público. É um problema para as gravadoras, mas também para os artistas. As tecnologias não devem ser encaradas como vilãs apenas; devem ser vistas, também, como aliadas potenciais.

O documentário é muito bom. Não inova. Quem já conhece o movimento não vai se sentir impressionado. É algo relevante feito para aqueles que querem ter um contato inicial com o movimento. Duas qualidades devem ser apontadas: (1) as imagens muito bem escolhidas; (2) o depoimento de importantes nomes que fizeram o movimento: Flea (“Red Hot”), “Iggy Pop” (“The Stooges”), Henry Rollins (“Black Flag”), Debbie Harry (“Blondie”), Jello Biafra (“The Dead Kennedys”), Marky Ramone (“Ramones”), Wayne Kramer (“MC5”), Duff MacKagan (“Guns n’ Roses”), entre outros. 
 

segunda-feira, abril 12, 2021

“Inocência”, de Visconde de Taunay.





Durante o século XIX, alguns escritores deram vasão a uma experiência sertaneja. O Brasil com sua extensão enorme e seu interior ainda pouco explorado promovia um impulso a essas intenções. Procurava-se com isso encontrar a essência do homem brasileiro nos vastos rincões ignorados do país. Vale mencionar que o Brasil era um país que ainda não conhecia o florescimento urbano que somente ocorreria com o deslocamento do eixo econômico para as grandes cidades, principalmente com a industrialização ocorrida a partir de 1930, coincidindo com o fim da República Velha, essencialmente oligárquica e agrária, e os anos do Governo Vargas.

Ainda no século XIX, escritores como Bernardo Guimarães, Franklin Távora, José de Alencar e Visconde Taunay, tentaram descrever essa face ignota do país. Soma-se a isso a estética idealista do romantismo, preocupado com a construção de arquétipos com força representativa.

Nesse sentido, como afirma Alfredo Bosi, Visconde de Taunay (1843-1899) é aquele que “tinha condições de dar ao regionalismo romântico a sua versão mais sóbria”. Essas características saltam de imediato do texto de Taunay. O seu nome sempre me chamou a atenção. Sempre mantive contato com o seu livro mais famoso – “Inocência” – mas sempre me ausentei dele por causa do nome (sic). Julgava que o nome estranho, talvez, evidenciasse uma história enjoativa. Claro, trata-se de um critério tolo – julgar um escritor pelo nome. Taunay tinha ascendência francesa. O seu nome era Alfredo Maria Adriano d'Escragnolle Taunay. Foi político, escritor, sociólogo, engenheiro militar, historiador, músico, professor. Essa plêiade de formações atesta sua estatura intelectual bem como a influência do seu texto.

Participou da Guerra do Paraguai como engenheiro militar, entre os anos de 1864 e 1870. Essa experiência é narrada em “A retirada da Laguna”.

O romance “Inocência” é a sua mais relevante produção artística. O livro é agradável de ser lido. Escrito em 1872, “Inocência” já evidencia as mudanças estéticas por que passava o Romantismo, que marchava em direção ao Realismo e ao Naturalismo.

Taunay procura retratar a história da doce, mas infeliz “Inocência”, que vive na província de Mato Grosso. O escritor procura retratar com rara beleza a natureza do lugar. Isso, por exemplo, se faz sentir no capítulo que abre o livro. Somos bombardeados por uma escrita lapidada, preocupada em fotografar o espaço natural. Em Taunay, já não percebemos as incursões exageradas de Alencar. Taunay é mais “jornalístico”. Talvez, a carreira militar tenha dado a ele esse aspecto mais contido. É, por isso, que Bosi fala em “sobriedade”.
Visconde de Taunay

“Inocência” é um romance em que o verossímil é possível. Não possui um aspecto puramente ideal ou mítico como em Alencar – outra vez.

Como conhecedor das ciências humanas – história e sociologia – Taunay procura retratar os valores e costumes sertanejos. Mas, vale ressaltar que essa característica não tem nada a ver com o naturalismo. Taunay não está preocupado em comprovar uma tese; não torna os seus personagens em meros títeres do meio.

Taunay mescla o romantismo com um enredo carregado de realismo. Observando as características da obra, pode-se afirmar que o livro possui romantismo, realismo, drama e comédia. Os personagens apresentam características e humores bastante variados. Vai desde o comportamento atrapalhado do alemão Meyer ao aspecto rude e inculto de Manecão; do aspecto sombrio de quem se esgueira pelos cantos do anão Tico ao altruísta e apaixonado Cirino; da bondade angélica e amedrontada de Inocência ao rigor conservador de Pereira.

Outro fato importante a ser mencionado é como a figura da mulher é mostrada na obra. Pereira promete a jovem Inocência a Manecão. Vale especular que ela tivesse de 15 a 17 anos. A promessa deveria ser cumprida. A questão da honra prevalecia sobre a vontade individual. Pereira ameaça a própria filha, caso ela não cumpra o acordo e case com Manecão.

O final do livro é shakespereano. O amor impossível entre Inocência e Cirino faz lembrar a história de Romeu e Julieta, uma das histórias mais famosas da literatura.

Vamos, agora, ao quarto livro – “Memorial de Aires”. Já o estamos lendo.

quarta-feira, abril 07, 2021

Morre o gigante Alfredo Bosi


Morreu, hoje, o professor Alfredo Bosi. Uma perda irreparável. Figura de ponta do pensamento brasileiro, Bosi foi fulminado pela COVID-19, essa matadora implacável e negligenciada por um governo associado ao vírus. Bosi tinha 84 anos de idade. Estava lúcido. Apesar da idade, tinha muito ainda o que contribuir com o país. 

O primeiro contato que tive com ele se deu no curso de Letras. Qualquer sujeito que estudar literatura, precisa passar por ele. Seu "História Concisa da Literatura Brasileira" ainda hoje é uma referência. Apesar do nome "conciso" trata-se de uma manual de análise escrito de forma clara, com as palavras medidas, polidas, sobre a produção literária do Brasil. Há uma forte preocupação em fazer com que o social e o histórico dialoguem com a produção estética. E aí reside uma das suas marcas.

Mais tarde, comprei outros livros dele: "Dialética da Colonização", "Machado de Assis - o enigma do olhar" e "O ser e o tempo da poesia". 

Ao longo da vida ganhou inúmeros prêmios. De voz mansa e vocábulos medidos, Bosi deixa enormes lembranças nos seus ex-alunos. Seguem abaixo, algumas palavras de Lillia M. Schwarcz, extraídas do Instagram

"Acaba de falecer o querido Professor Bosi, que deixa de luto e enviuvados uma legião de alunos, amigos, colegas e admiradores. Alfredo Bosi tinha formação em literatura italiana e vasto conhecimento em filosofia, passando por Vico, Hegel, Croce, Lukács e Gramsci. Com o tempo passou a se dedicar sobretudo à literatura brasileira, escrevendo livros fundamentais como “História Concisa da Literatura Brasileira”, já em 1970. Da mistura entre Gramsci e Croce inventou uma forma própria de crítica literária que, sem abrir mão da análise estética, incluía a questão política e social. O professor Bosi foi militante junto a um grupo operária em Osasco nos anos setenta e também atuou no Centro de Direitos Humanos D Paulo Evaristo Arns, e na comissão de Justiça e Paz. Os livros “O ser o tempo da poesia” (1977), “Dialética da colonização” (1992), “Literatura e resistência” (2002) e “Ideologia e contraideologia” (2010) são provas do intelectual brilhante, do crítico literário humanista e comprometido com a democracia. O professor Bosi era membro da Academia Brasileira de Letras, foi casado com sua eterna companheira Ecléa Bosi, e era pai de Viviana, crítica literária como ele, e de José Alfredo, economista com formação em ciência ambiental e médico. Bosi estava internado com Covid e não resistiu. Precisávamos tanto dele lutando conosco por um país mais justo e democrático. Vai fazer e já faz muita falta".

Abaixo, três vídeos do mestre com sua profundidade e elegância eruditas.  


segunda-feira, abril 05, 2021

A metáfora da ressurreição

 




“Em verdade, em verdade, vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto”. Jo 12.24

Ontem, a cristandade comemorou a Páscoa, que tem a sua origem no judaísmo. Para os judeus, a instituição da Páscoa está relacionada com a saída do Egito, conforme se narra no Antigo Testamento. Páscoa é a festa do Pesach, cujo significado é “passar adiante”. O rito alicerça-se em duas ações: comer pão ázimo e imolar o cordeiro. Quando da saída do povo de Israel do Egito, conforme descreve o livro de Êxodo, foi necessário derramar esse sangue sobre o umbral da porta para que a família fosse poupada pelo anjo exterminador.

No cristianismo, a Páscoa está ligada à ressurreição de Jesus. Para os cristãos, trata-se do dia em que Jesus abandonou o túmulo, após o terceiro dia da sua morte. Este é um fato que intriga. Não existem provas materiais desse evento. Apenas a Bíblia o descreve como sendo um fato histórico. Todavia, não há indícios antropológicos de que isso tenha se dado com o grau de facticidade narrado pelos evangelhos. A Bíblia não é um livro de ciências ou de história; e até mesmo os fatos históricos, estão eivados de erros e incertezas.

Segundo o escritor e estudioso do Novo Testamento Bart D. Ehrman, um dos grandes críticos dos dogmas cristãos, o que torna vida Jesus um fato singular para os seus primeiros seguidores foi a crença de que ele tenha ressuscitado. Sua mensagem em um primeiro momento não chamou atenção de muitos judeus. Afinal, havia inúmeros pregadores com mensagens apocalípticas. Todos eles denunciavam o descalabro moral de Israel, a dominação romana e uma possível chegada de um domínio divino a fim de libertar Israel do julgo e da humilhação. Segundo Ehrman diz em seu excelente livro “Como Jesus se tornou Deus”, sobre nenhum deles pode se afirmar que houve ressurreição. Essa crença singular dá a Jesus um atributo particular.

E aqui reside o problema, pois, os escritores da Bíblia – muitos deles viveram 50, 60, 70 anos após os supostos eventos narrados – e, assim, não testemunharam os fatos descritos. Houve um movimento, inicialmente, estruturado numa tradição oral sendo transmitida pelos primeiros seguidores de Cristo. Alguém pode dizer, mas Mateus e João foram discípulos. Não se sabe ao certo se os dois evangelhos foram escritos por essas pessoas. É possível que o Evangelho segundo Mateus tenha sido escrito entre os anos de 70 e 115 d.C. por um autor anônimo de origem judaica, que utilizou uma narrativa já existente. Já o Evangelho segundo João, também, foi escrito por autor anônimo, provavelmente numa data entre 90 e 110 d.C. Em seu estilo é o mais distinto dos evangelhos, constituindo um evento à parte. As frases estão carregadas de uma forte intencionalidade teológica. Os outros evangelhos se pautam nos exemplos, nas ações de Jesus. João, por sua vez, é fortemente verbal; chancelado por afirmações mistificadoras.

O que quero enunciar após essa digressão é que a ressurreição de Jesus é um registro da fé, mas não da história. Fé e história nem sempre estão conectadas. Eu posso ter fé sem, necessariamente, conectá-la a eventos materiais. Em muitas situações, quando a história não cabe ou não se harmoniza com as categorias da religião, aquela acaba sendo preterida e subjugada pela fé.

A ressurreição de Jesus – não falo Cristo, pois Cristo é uma categoria teológica – deve ser compreendida como um evento metafórico, mitológico. Desse suposto evento, deve-se estruturar esperança em melhores dias; a busca pela afirmação da vida; uma crença inabalável na existência. Todavia, isso não deve acontecer pelo fato de ter havido uma ressurreição física – esta não existiu – mas, na certeza simbólica de que algo com esses termos, faz brotar dentro de cada um de nós um apego pela vida. A ressurreição é uma aposta na esperança. Em dias tão turbulentos como os nossos, a metáfora da ressurreição nos anima a caminhar, a “passar adiante”. É uma posta de que a vida pode vender a morte – e isso nunca foi tão necessário no Brasil como agora.

quinta-feira, março 25, 2021

100 anos de Clarice; algumas leituras

 


Em 2020 – mais precisamente, no dia 10 de dezembro -, o universo comemorou o nascimento de uma das mais geniais e enigmáticas romancistas. Daqueles seres que não somente a obra, mas a própria vida é um evento literário. Refiro-me à Clarice Lispector. Um astro enigmático que, com a sua face escura, esconde segredos e mistérios sempre por serem desvelados. Talvez, aí resida verdadeiramente os seus mistérios. Poderíamos inventar a expressão, quando percebêssemos um nível razoável de mistério ou de propensão a segredos escondidos: “Ele ou ela possui os mistérios de Clarice”. A escritora que nos remete ao "claro", mas que escondia em sua personalidade segredos eclipsados.

Meu contato com Clarice se deu ainda na minha adolescência. Quando em idade escolar, estabeleci contato com “A hora da estrela”, um livro relativamente curto, mas de leitura lancinante. Impressiona o que a narradora faz com a sua personagem. Esses dias, assistindo a um documentário sobre a escritora, escutei da diretora – Suzana Amaral (falecida o ano passado) - que adaptou a obra para o cinema, que a personagem do livro – Macábea – um símbolo do que é o Brasil. Achei a relação imensamente feliz. Nunca havia parado para pensar sobre a personagem a partir desta perspectiva. Macábea do alto de seu alheamento, de seu simplismo selvagem, de seu contentamento ingênuo, é o averso do Macunaíma de Mário de Andrade.

Mais tarde, li “A paixão segundo G.H.”, obra que ficou comigo por vários meses. Ler Clarice é mergulhar em um oceano largo e denso, de profundidade recôndita, que nos abraça, que nos embriaga, que nos toma e que acaba gerando transbordamentos reflexivos. Clarice é uma promotora de epifanias verbais. Não saímos ilesos de seu texto apaixonado. G.H. é a metáfora transfigurada de todo aquele que vive, mas não sabe que existe. Cada frase escrita por Clarice está repleta de larguezas, de abismos espelhados, onde nos vemos. E se demoramos demais a contemplar, somos tragados pela sua força irresistível.

Foi pensando nesse fato – os cem anos do seu nascimento – que decidi ler, ao longo do ano de 2021, pelo menos seis das suas obras – “Perto do coração selvagem” (já lido; farei alguns comentários sobre a obra em outro momento), “O lustre”, “Laços de Família”, “A maçã no escuro”, “Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres” e “A descoberta do mundo”. São livros para os quais sempre tive curiosidade.

Em paralelo à leitura das obras, estou lendo a excelente biografia escrita por Benjamin Moser. O biógrafo é estadunidense. Chegou ao texto clariceano por acaso. Mas, como não poderia deixar de ser, acabou sendo tragado pelo magnetismo do texto da dama da literatura brasileira. Em outro momento, procurarei “rascunhar” algumas palavras sobre o seu texto.

Sigamos.  

terça-feira, março 16, 2021

A linguística do preconceito de classe - Por Luis Felipe Miguel

 

Eu, que sou ingênuo, fiquei surpreso com o fato do jornalismo conservador pautar o metaplasmo de Lula.


O anaptixe indigitado pela apresentadora da GloboNews é, todos sabemos, de uso corrente. Mas variações da prosódia são hierarquizadas de acordo com grupo social e região.


Uma outra samprasárana qualquer, mais comum na boca de professores universitários do que de operários, passaria despercebida. O que a tal jornalista estava fazendo era debochar da origem popular do ex (ou seria melhor dizer "futuro"?) presidente.


É o velho preconceito de classe. Contra Lula - que é um sujeito culto, de amplos horizontes, largo vocabulário, grande curiosidade intelectual e indiscutível inteligência - resta martelar a falta de diploma universitário e caçar suarabáctis como o encontrado no discurso de quarta-feira.


Esse tipo de preconceito foi muito martelado nas vezes em que Lula enfrentou Fernando Henrique Cardoso - que, afinal, é o eterno "príncipe da sociologia brasileira". Embora já fosse há tempos apenas um ex-intelectual, FHC fazia questão de usar até a última gota do prestígio que isso lhe dava.


O objetivo, claro, era estabelecer contraste com Lula. A imprensa deitava e bordava; os jornalistas não perdoavam, em Lula, os mesmos desvios da norma padrão que corriqueiramente cometiam.


Lembro de um episódio de 1994. Quando o senador José Paulo Bisol, ainda vice na chapa da Frente Brasil Popular pela Cidadania, declamou um poema de sua autoria, intitulado “Os álamos”, a imprensa correu para perguntar a Lula se ele sabia o significado da palavra (o candidato se recusou a responder e, segundo a reportagem, mostrou-se “irritado”). O leitor da Folha podia rir tranquilo da presumida ignorância do ex-metalúrgico, já que a repórter teve o cuidado de acrescentar, entre parênteses, que álamos são “árvores”.


Era um sindicalista contra um sorbônico aristocrata. Esse enquadramento, embora cretino, fazia sentido.
Mas hoje? Lula é um líder político testado, reconhecido internacionalmente. Não tem como ser considerado ignorante.


Já seu opositor atual se embanana para ler um texto curto, não tem ideia de quem foi João Gilberto, confessa para quem quiser ouvir que não conhece nenhuma das questões sobre as quais deveria governar, difunde espetáculos semanais dantescos de estupidez e desinformação em suas laives...


A apresentadora da GloboNews acha mesmo que esse estratagema ainda tem chance de dar certo? Que um pobre epêntese vai render tanto?


(E, aqui entre nós: a linguística usa umas palavras muito estranhas... Catei todas no Google. Espero que não me processem se estiver usando errado, porque não sei qual adevogado poderá me representar.)


Daqui.


1 - Metaplasmo - Metaplasmo, também designado por metaplasma por alguns autores, são as alterações fonéticas que ocorrem em determinadas palavras ao longo da evolução de uma língua, o que ajuda a compreender a etimologia de muitas dessas palavras. O metaplasmo pode ocorrer pela adição, supressão ou modificação dos sons.


2 - Anaptixe - Anaptixe é um tipo especial de epêntese, que é um dos metaplasmos por adição de fonemas a que as palavras podem estar sujeitas à medida que uma língua evolui. Neste caso, são acrescentados fonemas ao interior da palavra para desfazer um encontro de consoantes.

3 - Samprasárana - epêntese ou samprasárana é um dos metaplasmos por adição de fonemas a que as palavras podem estar sujeitas à medida que uma língua evolui. Neste caso, há acréscimo de um ou mais fonemas ao interior do vocábulo.

4 - Suarabáctis - espécie de epêntese que consiste em se desfazer um grupo consonantal por meio da intercalação de uma vogal, como ocorreu com a palavra barata, originária do antigo brata (latim blatta ), ou com braúna > baraúna ; anaptixe.