sexta-feira, outubro 26, 2007

Ao correr da pena

As folhas brancas – depositárias das idéias.
Como entes abandonados a desejar
O correr luxurioso da pena.
A fricção que é apenas
Contato mecânico e epidérmico.
No fundo existe a idéia que surge
E se espalha pelos hortos da minha alma,
Como sombras feitas por nuvens gordas.
Correm silentes que nem percebo o movimento.
Vem do alto para baixo.
São revelações silenciosas.
Sou um deus sem poderes inumanos.
Apenas a palavra que brota,
Nasce como capim.
Esparrama-se ladeira abaixo,
Precipitando-se pelos desfiladeiros da saudade.
A janela aberta é um convite
Para essas mil solidões sem faces.
Gestada por ato unilateral.
O parto se dá no encontro
Do lápis com o papel.
São as idéias gratuitas, meninas.
A plangência das horas,
O réquiem que somente eu escuto.
O não sentido que se aplica onde
Os outros dizem enxergar a vida.
Consonância, harmonia, intervalo no tempo.
O emaranhado de sensações que aprisiona
Como os tentáculos de um monstro mitológico.
O desejo de ficar nu, correr o mundo.
O mundo possui absurdos irreais
E fantasias reais.
Fico com o papel,
O lápis e as fantasias irreais.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

quarta-feira, outubro 24, 2007

Cotidiano

Os meus pés estão dentro
do carrossel veloz do
cotidiano.
O seu giro que me
entorpece.
As suas mutações insensíveis
deixa-me em estado agônico.
A cabeça já não é a mesma.
Algumas certezas não
resistiram.
O riso de ontem soçobrou
no último por to distante.
As pernas cambaleantes
já não suportam a caminhada.
O corpo lânguido não suporta
as arranhaduras da caminhada.
As dores do mundo se penduram
no ombro magoado.
A manhã me trouxe certezas
e incertezas dúbias.
Aqui estou para mais esse ato.

sexta-feira, outubro 19, 2007

Comentário sobre A Barca de Portinari

Fui a uma exposição sobre Portinari e me impressionei com o quadro intitulado A Barca (1941). Trata-se de um óleo sobre tela 200 x 200 cm. Uma tela de grandes dimensões. A impressão que fica à primeira vista é a nossa estatura diminuída diante do enorme, do silencioso, que nos absorve. A pintura em sua mensagem silenciosa é um apelo. Ouvimos o marulho das águas tempestuosas. A tela possui um aspecto soturno, aziago. As cores são fortes. Não dá para precisar se o espaço que o quadro está inserido é noturno ou se há a retratação de um vendaval que apanhou o barco e sua tripulação.
Um fundo negro com manchas entre o violeta e o azul contrasta com as águas escuras. Ondas vaporosas se erguem. O barco parece singrar por sobre as águas. O vento é rebelde e simboliza a força da natureza. Dá para perceber que a força do vento arroja e comprime os personagens. O vento faz voar os cabelos de um dos personagens que se abaixa para acordar alguém que está dormindo. Este espaço aberto nos impulsiona a crer que antes do momento difícil, havia calma e tranqüilidade. Para que alguém dormisse era necessário que houvesse calmaria. Talvez ainda Portinari tivesse na mente uma das histórias do Evangelho, que nos afirma que certa vez enquanto os discípulos de Jesus atravessavam o mar da Galiléia foram surpreendidos por um vento rijo, tempestuoso. Todos se dirigiram para Jesus, enquanto este dormia tranqüilamente na proa do barco. Os discípulos desejavam acordá-lo com instância. Não se sabe ao certo o que se passava na cabeça do poeta/artista, mas esse espaço aberto no quadro nos possibilita costurar essa ilação. Ou talvez ainda o pintor quisesse inserir um elemento religioso.
O barco inclina para o lado de quem olha a tela e sugere que os personagens correm perigo. Todos olham aflitos. Erguem os braços como que a pedir ajuda. Os braços erguidos solicitam solidariedade. Os olhos fitos, fixos, maquinais, aflitos, induzem o observador do quadro a sentir a dor dos personagens. Uma das personagens tem as mãos na boca. O choro parece ser anunciado. o vestido com bolinhas vermelhas demonstra o aspecto infantil. São crianças. Portinari tinha uma obsessão por pintar crianças. Várias obras ele dedicou a descrever as cenas infantis. Na exposição havia outros quadros. Por exemplo, O menino com o pião (1947); ou ainda O menino com carneiro. As personagens infantis rivalizam com o momento de seriedade que envolve a cena. Tem-se constituído a priori um paradoxo - a serenidade infantil, demonstrando inocência e o poder trágico da tempestade.
As personagens possuem um dos lados do corpo envolvidos pela negritude. Um dos personagens se abaixa todo para pegar um peixe. Arroja o peixe com as duas mãos. O animal parece querer lhe escapulir. Em torno do local aonde está o ser das águas, existe um espaço que nos sugere que está havendo uma luta, um esforço da parte do peixe para voltar ao seu espaço/mundo. A personagem se prostra completamente e parece ignorar o desespero das demais crianças que estão no barco. Os seus cabelos se derramam pela lateral do barco. Parece-me que o autor desejasse mostrar os aspectos mais profundos da infância: que mesmo diante do perigo, das situações difíceis sabem dosar muito bem essas características mais complexas e abafá-las por completo com o jogo mais comedido – a brincadeira.

quarta-feira, outubro 17, 2007

A luz da arte e a minha cegueira

A primeira impressão que tive da pintura ao lado foi de estranhamento. Afinal de contas, não enxerguei em minhas limitações as paisagens que Benjamim descreve. Os olhos de minha sensibilidade precisam de um colírio forte para limpar a minha alma. Perguntei a um colega o que ele via na pintura e ele me respondeu mais ou menos assim: "Acredito que seja um desenho de criança". Nunca cheguei a conhecer as intenções de Klee. Mas entendo acima de qualquer coisa que a resposta do meu colega tenha um propriedade e uma profundidade inerentes. A pintura revela as mãos infantis do artista. A arte é séria, mas brinca com as nossas convenções. Ela nos choca porque fala daquilo que não estamos acostumados. Vivemos o trivial. Vemos o mundo por meio de sombras e quando nos apresentam a luz daquilo que pode ser, assustamo-nos. É bem parecido com aquilo que Platão narra em seu Mito da Caverna. Sei que as palavras revelam os limites do meu mundo, anunciando de onde venho, quem sou, as minhas experiências e as minhas limitações. Com certeza, quem mais entedeu esse quadro fora de Klee foi Walter Benjamin. O filósofo afirma de forma brilhante o seguinte sobre o quadro de Paul Klee:



"Há um quadro de Klee chamado Angelus Novus. Representa um anjo que parece a ponto de afastar-se para longe daquilo a que está olhando fixamente. Seus olhos estão arregalados, sua boca aberta, suas asas estendidas. O anjo da história deve ter este aspecto. Seu rosto está voltado para o passado. Onde diante de nós aparece um encadeamento de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que vai empilhando incessantemente escombros sobre escombros, lançando-os diante de seus pés. O anjo bem que gostaria de se deter, despertar os mortos e recompor o que foi feito em pedaços. Mas uma tempestade sopra do Paraíso e se prende em suas asas com tal força, que o anjo já não as pode fechar. A tempestade irresistivelmente o impele ao futuro, para o qual ele dá as costas, enquanto o monte de escombros cresce até o céu diante dele. O que chamamos de Progresso é esta tempestade".

quinta-feira, outubro 11, 2007

Impressões

Estática como uma rocha.
Impenetrável como uma fortaleza.
Segredos invioláveis.
Gestos sombrios.
Manhã soturna, num céu noturno.
Encontros.
Por outro lado: desencontros.
Oscilações.
Gravitações.
As estações feitas em rondó.
Segredos velados, aveludados, recorrentes.
Pasmos, paciência chorosa.
Visitado pela esperança, assaltado pelo desespero.
O que se constrói, destrói.
O que é experimentar o novo?
Atenção terreno pantanoso à frente.
Susto.
Tresvario.
Deixo a vida como quem deixa o tédio.
A chuva cairá esta manhã.
Vou me alagar.
Barricadas, urgente!
Fraqueza, lassidão.
Desfecho infeliz.
Mais um rondó.
Ciranda animada.
Roda-Viva, círculo de fogo, queimador de entranhas.
Chamuscamento.
Vai manhã e vem manhã e terra permanece para sempre.
Lei perpétua, caos perpétuo.

Por Carlos Antônio M. Albuquerque

terça-feira, outubro 09, 2007

Você tem um furúnculo?

Este é um texto de um grande mineiro: Rubem Alves. Gosto especialmente deste texto porque revela a profunda relação que o poeta possui com o sofrimento, com o parto, com a agonia de criar, de trazer à vida aquilo que grita dentro da alma. A arte é um acerto de contas consigo mesmo. É um ferrumamento insistente que se insurge e deseja ver a luz do mundo a fim de habitar os corações.


Há um ditado Zen que diz: "Nunca mostres o teu poema a um não poeta." Você me enviou os seus poemas. Isso quer dizer que você me considera um poeta. Mas eu mesmo não sei se sou poeta. Sei que escrevo poeticamente, porque brinco com imagens, sons e ritmos. Mas um poema nunca me pediu que o escrevesse. Régis de Moraes, amigo meu poeta, disse-me que quando há dentro dele um poema para ser escrito ele se sente como um galinha que tem um ovo para ser botado. Eu nunca senti isso...
Você me enviou os seus poemas desejando que eu os leia. Nada mais justo: quem escreve deseja ser lido. Mas mais do que isso: você deseja que eu goste dos seus poemas. E que eu diga: "Você é um poeta! Merece ser publicado!" Está certo: quem escreve deseja que seus textos sejam transformados em livro.
Houve uma só vez, em toda a minha vida, em que lutei para que um livro de poemas fosse publicado. A Maria Antônia era minha aluna na UNICAMP. Tinha - e ainda tem - uma carinha de menina travessa. Acho que vai morrer com ela, a carinha travessa... Me deu um livrinho artesanal, Fogo-Pagô, com essa dedicatória: "Rubem: eu acho você engraçado e gosto de você e fico desejando que você leia esse livro e ache alguma graça nele. 1 abraço. Maria Antônia.
15.04.82." Amanhã completa 20 anos. Ela não foi a primeira mulher a me achar engraçado. Quando fui professor visitante no Union Theological Seminary (New York, 1971) meus alunos começaram a vir ao meu escritório, na véspera da minha volta ao Brasil, para se despedirem. Chegou uma jovem, longos cabelos ruivos, sardenta. Olhou-me nos olhos e disse: "Sonhei com você..." Sorri, imaginando o que ela teria sonhado. "Sonhei que você era um palhaço..." Aí meu sorriso virou riso: ela havia entendido. Sou palhaço. E estou em boa companhia: no final de um dos seus poema Nietzsche disse que ele era apenas um palhaço, apenas um poeta... O fato é que o rosto de menina travessa e o fato de ela me haver achado engraçado me seduziram. "Fogo-pagô canta manso e triste/ fazendo eco no fundo da gente/ encavalando alegria e agonia,/ que daí ficam disputando entre si/ prá reinarem no peito..." Foi amor à primeira vista porque o poema dela chamou pelo nome certo o canto que eu ouvia sempre nomeu peito... Depois ela escreveu outros. Um deles eu batizei e prefaciei, Ceriguela. Até que, indignado com a dificuldade que têm os poetas para publicar seus poemas, batalhei com o pessoal da Papirus e eles também sentiram o que eu sentia e publicaram o Terra de formigueiro.
Mas não me julgo em condições de avaliar poemas. Eu não sou poeta. Assim, faltam-me as credenciais. E o pior: falta-me tempo. A Natália, minha assessora, comentou dias atrás que, se eu fosse ler todos os textos que me são enviados para serem apreciados eu teria que abandonar tudo o que faço, deixar de escrever minhas coisas, e ler sem parar, 24 horas por dia, e ainda assim eu não daria conta... Razão por que eu nem mais aceito convites para participar de bancas de tese. O tempo não dá! O tempo não dá! O Drummond se viu em situação idêntica e até escreveu um texto bravo com o título Apeloaos meus dessemelhantes em favor da paz. Não, não era a paz mundial. Era a paz dele... Ele também não dava conta. Ele só queria ter tempo para escrever as coisas dele e ler os livros que quisesse...
Lamento mas minha prioridade de vida é botar os meus ovos, escrever as coisas que me dóem. Igual a um furúnculo... Você já teve furúnculo? Incha, fica vermelho, lateja, dói, forma aquele ponto amarelo de pus. Tem de ser espremido. Dói para ser espremido. Mas é só através da dor do espremer que ele pára de doer. Escrever é assim. Um texto a ser escrito é um furúnculo que dói. Os seus poemas dóem em você? Ficam atormentando você, pedindo para ser escritos? Ou são simples coceiras? Só se meta a ser poeta se seus poemas doerem muito... Escrever poesia é um ofício terrível. Primeiro porque há poetas gigantescos como Fernando Pessoa, Hilda Hilst, Cecília Meireles. Segundo, porque é muito difícil que as editoras publiquem livros de poemas.Poesia, com raríssimas exceções, é mau negócio. Dá prejuízo.
Seus poemas nascem de inspiração? Leia atentamente essa precisa descrição da experiência da inspiração, feita por Nietzsche e, honestamente, diga se esse é o seu caso. "Será que alguém, ao final do século dezenove, tem uma idéia clara daquilo a que os poetas das eras fortes chamaram pelo nome de inspiração? Se não, vou descrevê-la. Repentinamente, com certeza e sutileza indescritíveis, algo se torna visível, audível, algo que nos sacode em nossas últimas profundezas e nos lança por terra... A gente não busca; ouve. Não pede ou dá; aceita. Como um relâmpago, um pensamento se ilumina de forma irresistível, sem hesitações com respeito à sua forma. Eu nunca tivequalquer escolha! Tudo acontece de forma involuntária no mais alto grau, mas como uma onda enorme de liberdade, um sentimento de algo absoluto, de poder, de divindade." É assim que acontece com você?
Se é assim que acontece com você, então, vale a pena prosseguir. Não pelos livros que você venha a publicar, mas pela simples alegria de... botar o seu ovo... Mas é preciso honestidade para distinguir entre furúnculos e coceiras...
O que melhor posso fazer é dar a você, e a todos os que amam poesia, algumas sugestões.
Leia, em primeiro lugar, o maravilhoso livro de Rainer Maria Rilke Cartas a um jovem poeta. São cartas de enorme delicadeza, sensibilidade e honestidade. Rilke as escreveu a um jovem que lhe enviara poemas de sua autoria, pedindo que o poeta desse a sua opinião. Que tempo maravilhoso aquele, quando o tempo andava devagar, e havia tempo para se escrever longas cartas em papel, com tinta, caneta, mataborrão, envelope, selo e caminhadas até o correio... Tempo feliz aquele, quando a chegada do carteiro era um evento grave, pois se sabia que cartas eram, sempre, portadoras doessencial.
Leia, depois, o Manoel de Barros, poeta matogrossense... Livro sobre nada, Livro de pré-coisas, Arranjos para assobio, O livro das ignorãnças... O Manoel da Barros é mestre de aforismos, afirmações curtas, marteladas na cabeça de um prego, que desarrumam o arrumado e fazem pensar. "Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria". "A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos." "Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção." "Tem mais presença em mim o que me falta." "Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar." "Eu queria avançar para o começo. Chegar ao acriançamento das palavras." "Deus deu forma. Os artistasdesformam. É preciso desformar o mundo: Tirar da natureza as naturalidades.Fazer cavalo verde, por exemplo. Fazer noiva camponesa voar - como emChagall..."
E ler, bovinamente, ruminantemente, em voz alta, os poetas... É preciso ler em voz alta. Poesia não é pensamento. É música. Você sabe ler? Claro: eu sei que você sabe ler... Mas não é isso que estou perguntando. Estou perguntando se, ao ler, suas palavras fazem música. E os seus poemas? Que música fazem eles? Leia Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, Mário Quintana, Adélia Prado, Cecília Meireles, Hilda Hilst, Chico Buarque, Vinícius...
Para terminar vou transcrever o que Rilke escreveu ao término de sua primeira carta: "Mas talvez se dê o caso de ter o senhor de renunciar a se tornar poeta. Basta sentir que poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo..."
DICA: Vocês sabem como eu amei o DALÍ, restaurante onde pus os meus sonhos. Não deu certo. Fechei o DALÍ. Mas um amigo o reabriu. Está muito bom! Sugestão: experimente almoçar lá. Comida excelente. Bufê à vontade! Música suave. Sobremesa incluída. Os homens pagam R$ 7,90. As mulheres... R$ 6,90. E tudo ao lado da sombra da velha mangueira...
Por Rubem Alves

sexta-feira, outubro 05, 2007

A educação brasileira numa contingência histórica.

Atualmente estou sem tempo para escrever, por isso, recsolvir colocar nesta semana um texto escrito para uma atividade da faculdade
Analisando sob uma perspectiva comparativa o tipo de colonização que o Brasil – colonização de exploração – e o tipo de colonização que países como os Estados Unidos sofreram há uma abismal diferença. O tipo de colonização que este país sofreu tinha por objetivo reproduzir as condições da Metrópole nesse “Novo Mundo”. Portanto, a relação que a Metrópole tinha com a Colônia não era espoliativa. Era, na verdade, um tipo de colonização para novas oportunidades. As famílias que migravam para os Estados Unidos, por exemplo, levavam consigo o sonho de reproduzir na nova terra as condições elementares que haviam deixado.

O tipo de subordinamento que os países periféricos sofreram não teve esse tipo de contingência. Os países que foram alvo de um modelo de colonização de exploração amargam grandes problemas estruturais ainda hoje – subordinação cultural, econômica, política e etc. É inegável que esse princípio de decadência tenha a sua gênese no tipo de colonização a que foram submetidos. O colonialismo português e espanhol infringido à América Latina, expropriou-a de seus minérios, suas florestas e seus vários recursos. E um dos vetores mais eficazes foi a desapropriação dos nativos que haviam no continente dos seus usos e costumes. As nações pré-colombianas, como são chamados os povos que estavam no continente antes da chegada de Colombo foram dizimados e tiveram os seus respectivos patrimônios destruídos. Restaram apenas lembranças. Um exemplo claro são o dos indígenas brasileiros: quando da chegada dos portugueses ao Brasil haviam 5 milhões de indígenas, sendo que atualmente há em todo o território nacional pouco menos de 300 mil. Esse é um claro exemplo da exploração imposta à nova terra.

O caso brasileiro é especifico em seu processo, mas não diverge em muitos episódios de exploração engendrados na América Latina. Os portugueses ao chegarem às terras brasileiras, foram claros na explicitação de seus interesses. Pero Vaz de Caminha, o escrivão da esquadra de Cabral, fala ao rei de português que naquele momento ainda não era claro se haviam metais ou outros apetrechos de interesse para a Metrópole. Decorridos trinta anos, os portugueses voltam ao país dispostos a retirar dele tudo aquilo que fosse possível e necessário. Começa a partir daí uma espécie de “esmagamento” da terra, posto que os portugueses queriam apenas “retirar”, “extrair” bens para alimentar a corte e a burguesia portuguesa. Não há um interesse claro em consolidar uma estrutura que possibilitasse a autonomia da colônia.
A Colônia era um ente subordinado. Um latifúndio da Metrópole. A noção geral dos portugueses era submeter os povos aqui encontrados. A vinda dos jesuítas tem esse objetivo claro. O processo de aculturação vitimou os indígenas que tiveram de aprender uma nova religião, usar outras vestimentas, disciplinar-se nos costumes dos “ditos brancos cristãos civilizados”. A Companhia de Jesus aplicou sobre a mentalidade dos indígenas um tipo de currículo medieval, baseado numa educação domesticadora. Os indígenas aprendiam a tocar a música dos brancos, a rezar como os brancos a repetir a fala dos brancos e eram tratados como bichos.
Ora, é inegável que um tipo relação meramente expropiadora como a que se deu de Portugal em relação à Colônia tenha gerado uma consciência, um comportamento, uma personalidade na sociedade que então nascia. Quando se analisa a conjuntura histórica nacional é perceptível que não houve em nenhum período da história nacional, um investimento num tipo de educação emancipadora; numa base que permita ao aprendente fazer uma análise crítico-criadora da realidade em que ele está inserido.
Muito dos aspectos que norteiam o comportamento do país são resultado de sua história. Daí a necessidade de se entender o fluxo da História. Ela é criada por alguns indivíduos ou uma classe que submete os dominados a um comportamento imobilizante. No caso brasileiro, em muitos aspectos o organismo nacional ainda continua manietado pela posição em que o colocaram – sempre de uma postura de subordinação. Um método tradicional de educação apenas consente com a construção que está aí posta.
Sendo assim, concluímos que a repetição de um currículo que priorize o tradicionalismo não dá ao aluno uma capacidade crítica para pensar, refletir e discernir a realidade. E essa realidade não existe como ente-em-si (estrutura autônoma), mas é o resultado criado pela atuação dos homens sobre as condições que o mundo externo permite criar. Essa relação privilegia os mais fortes e submete os mais fracos. A história nacional mostra explicitamente que o tradicionalismo impingiu uma mentalidade conservadora e imobilista da sociedade, bem como dos atores que construíram a História nacional – uns como protagonistas, outros como coadjuvantes.

sexta-feira, setembro 28, 2007

O silêncio do tempo

Esperamos pela alegria e nos surge o silêncio.
Ele brota sem pedir licença.
Os olhos lânguidos do meu amor que perguntam:
“Onde está você?”.
Nascemos, vivemos, morremos e todos esses
Dias são silêncios.
São divagações constantes.
O relógio do tempo que escorre pela memória.
A fantasia medonha que desenha curvas informes.
O pano rasgado, apenas.
As marquises abjetas com o seu limo curtido.
E os olhos do meu amor que me perguntam:
“Onde você foi?”
O silêncio que surge em forma de tristeza, de verso.
As constatações apenas de um dia sem história.
A vida que corre.
O ontem que foi.
Apenas o meu silêncio diante do mundo.
A marcha frenética por esses campos sem horizontes.
Os olhos do meu amor que me perguntam:
“Quem é você?”
Curvo a cabeça em sinal de desesperança.
As perguntas não respondidas, apenas.
O silêncio se consuma.
Apenas o silêncio nesse deserto profundo.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

terça-feira, setembro 25, 2007

Uma realidade Histórica e os rumos da educação no Brasil

Este texto é parte de um exercício que fiz para uma disciplina do curso de Letras que faço. Por isso há dois momentos num texto: (1) há uma explanação histórica sobre a desafasagem histórica da educação; (2) um breve comentário sobre o enigma da língua portuguesa ensinada na escola e vivenciada no cotidiano.

É inegável que nos últimos anos a educação brasileira tenha adquirido um importante papel na construção, idealização e projeto de uma sociedade mais justa e desenvolvida sob vários aspectos. Falar em educação sempre pareceu um chavão já desgastado. É uma preocupação sempre presente. Num certo sentido, levantam-se uma série de perspectivas ora otimistas, ora alarmistas. Vários debates têm se dado nesse sentido e um contundente esforço do Estado a fim de dirimir o abismo histórico nos quais o país está posto.
Segundo reportagem da Folha de São Paulo do dia 13/10/2003, por exemplo, menos de 10% dos professores da área rural, que atuam nas séries iniciais do ensino fundamental, têm formação superior. Nesta mesma reportagem é apontado o nível de defasagem salarial dos quais os professores são vitímas. Geralmente, um professor que atua no nível médio, “em média, ganha quase a metade da remuneração de um policial civil e um quarto do que ganha um delegado de polícia”.
Analisando sob um ponto de vista histórico, o Brasil herdou uma cultura dos tempos mais idos – colonização – de ser um país que negligencia a educação. Isso é uma realidade tão marcante no histórico nacional, que a título de curiosidade, enquanto os países vizinhos inauguraram um projeto de assentamento da educação logo no início de suas histórias, o Brasil o fez tardiamente. Por exemplo, enquanto o Peru teve a sua primeira Universidade construída no século XVI e XVII, o Brasil o fez somente na década de 30 do século XX, na fase desenvolvimentista do Governo Getúlio Vargas. Esse atraso tem por conseqüência a sobreposição.
É por conta de um histórico robustamente feito de descasos, que o país ainda abriga em sua trajetória um percurso de atrasos e dívidas para com a educação. Se o Estado não possui um projeto efetivo consistente, arrojado a fim de aniquilar com essa defasagem histórica, os resultados disso reflete diretamente sobre o fazer educativo da escola. Um projeto que democratize a escola e educação algo acessível a todos não é feito, nem realizado do dia para noite. É necessário antes de tudo de uma ação efetiva a fim de mudar a mentalidade dos quadros dirigentes do país; da criação de uma mentalidade capaz de banir com as mediocridades que se grudaram às ações de todos aqueles que estão envolvidos direta ou indiretamente com a vida política do país e com investimentos financeiros. Afinal, no dizer de Paulo Freire: “A educação é antes de tudo um ato político”. De um plano de metas não especulativo, mas que possua em sua essência uma disciplina erradicadora e ao mesmo tempo eficaz; tais investimentos devem assistir às necessidades dos docentes; monitoramente físico das escolas (erradicação dos casebres ou locais inóspitos para os discentes). O ensino deve ser alvo não somente de professores competentes, mas também por locais adequados ao aprendizado.
Com relação ao ensino da Língua Portuguesa não deve se deixar de fazer menção o fato que o Brasil é um país que historicamente criou uma série de fantasmas em torno de sua própria língua. Vale mencionar que as crianças não são ensinadas a manterem uma relação harmônica com a língua. Todavia, à semelhança da esfinge, a língua ganha dotes enigmáticos que precisam ser interpretados. Cria-se dessa forma, um exército de avessos ao próprio idioma, que passa a ser visto como difícil e praticado somente por seres superiores.
Nem sentido, vale mencionar que para que a Língua Portuguesa seja ensinada no país, sejam vencidos os conceitos complexos, os mitos e fábulas que foram construído para descaracterizar e amedrontar o ser aprendente da língua. É necessário que mostre o encanto da língua como um fato, uma realidade eminentemente social. Ela não está a serviço de uma minoria tida por culta ou instruída. Ela é, na verdade, um veículo comunicante, que aproxima homens, que permite tirar o mundo humano dum caos de escuridade.

quinta-feira, setembro 20, 2007

Zênite


No alto daquela colina,
Onde os pinheiros envergam-se
Para beijar o céu;
Onde a luz é como um facho
Ondulante a acariciar-lhes os desejos

Lá, naquela colina, onde o
Mistério prende-se ao vento;
Onde as formas são sempre belas.
Um raio do rei sol bruniu aquelas virações.

E eu a vejo como um monte
Mágico, onde a minha imaginação
Perfaz as curvas sinuosas numa leve inspiração.
Esvoacei como um pássaro cativo na pretendida liberdade.

Mirei para o céu e fui
Elevado às alturas, até me
Diluir num pensamento que se perdeu no infinito.

Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: Terça-feira, 2 de julho de 2002.

sexta-feira, setembro 14, 2007

A busca por Deus

Decidi postar este texto neste espaço, motivado por este tema tão fantástico: a relação do homem medieval com a divindade. As artes na Idade Média tinham o caráter que buscava revelar o mistério de Deus. As grandes catedrais eram textos abertos a fim de que o fiel lesse os soberanos feitos do criador. Nelas, o homem medieval entrava e encontrava abrigo contra os perigos do mundo.

O forte sentimento religioso que alimentou o homem da Idade Média estava fundado numa perspectiva mais irracional do que racional. Esse comportamento representava a eficaz capacidade que a Igreja teve de se insinuar sobre as mentalidades. Desta forma, a mão da Igreja guiava os homens em busca dos sentimentos mais nobres que os aproximassem de Deus. O mundo possuía características feias, caricatas e estava manchado pelo pecado. Cabia aos homens se abandonarem na crença de que não havia nada de importante no mundo. Este era infecto, apodrecido.
Todas as produções artísticas deveriam reportar-se ao eterno, ao sublime. Deveriam estar ornadas pela luz celestial, pelo caráter imarcescível dos santos. Nesse sentido, a arte medieval destoa completamente da arte romana. A arte romana possuía um caráter profundamente realista em sua abordagem. Ela buscava retratar o homem e a natureza. São esses, por exemplo, os desenhos que se encontravam nas catacumbas cristãs do primeiro século. Assim, a natureza e os seus elementos eram entes presentes nas pinturas e descrições. Todavia, a Idade Média bane de suas retratações artísticas essas características. O ideal medieval de um mundo mal, habitado por imperfeições e nódoas de corrupções fez com que a arte estivesse esvaziada de retratações humanas e naturais.
O homem medieval fugir do mundo e de suas convenções, como fica bem explícito em trechos da conversa do frade com o senhor Ciappelletto, na Primeira Novela do Decamerão e Boccaccio. O cultivo das boas virtudes, das obras boas, de um senso moral em consonância com os mandamentos dos padres e da Igreja. Os mosteiros constituíram-se em verdadeiras fortificações contra todo mal satânico. Lá os homens santos estavam abrigados de todo mal desferido contra os homens comuns: o mundo infernalmente pecaminoso. As orações, as boas obras, as preces, a intercessão dos santos, as novenas, os esmagamentos dos desejos e a proteção da Igreja constituíam um arsenal poderoso contra as investidas do mal. Os cantos gregorianos eram verdadeiros hinos de guerra, criações espiritualmente viris capazes de banir o inimigo como espadas de ataque e como escudos de defesa. Em suma: quanto mais afastados fossem os mosteiros do contato com o mundo, mas promissores e virtuosos seriam os monges que nele se abrigavam.
Dessa forma, todos os pensamentos dos homens deveriam se elevar a Deus. A arte deveria traduzir os desejos de Deus. As produções artísticas deveriam traduzir a relação magestática do Deus cristão e aquilo que a sua celestialidade representava. A partir do século XI, com o florescimento nos requintes e gestos houve, por sua vez, uma maior sutileza nas diligências do espírito. A comunicação que essas inovações propiciaram passam a fazer parte da arquitetura nas Igrejas, que devem insinuar-se até os céus, centro da morada divina. As igrejas devem humilhar o crente que nela entra. Deve ser grande como grande é a proteção divina. Nela o fiel deve depositar a sua fé, a sua confiança e achar toda a segurança que a alma necessita. Dentro dela os homens comuns estarão protegidos dos assédios de satanás e do mal.
As construções arquitetônicas das igrejas deviam gerar estupefação e ser livro aberto para todo aquele que pudesse ler os feitos grandiosos de Deus. Ou seja, a construção era livro aberto de ensinamentos. Ela era ao mesmo tempo uma fuga do mundo e uma transposição da ordem cósmica. Uma nave no qual os homens poderiam nela se inserir e viajar para uma outra dimensão.
A obra de arte quer mostrar em tudo que os aspectos da maldade do mundo desfigurava a virtude. Era assim, por exemplo, a retratação dos santos de Deus que também acabaram sendo vitimados pelo mal, varados pelas injustiças de algozes do mal a serviço do reino das trevas. Todavia, esses santos são vassalos no melhor sentido da palavra de um senhor não falível, de um senhor que rebaixa e humilha os poderosos e exalta os sofredores e humildes, que vencem o mal e se apropriam das virtudes não materiais do bem. O livro do Apocalipse do apóstolo São João torna-se um livro amedrontador, mas que demonstra com fidedignidade o destino dos santos.
O homem deveria marchar do mundo para os locais santos, fugindo da dança nefasta e ludibriosa do mundo. Deveria purifica-se indo a Jerusalém e a São Tiago de Compostela. Os homens devem se ausentar das aparências mundanas e se abrigar na Igreja, que artisticamente, celebrava o senhorio divino, conclamando todos os homens a seguirem a virtude e se transporem do lado do mal para o lado do bem.

quinta-feira, setembro 06, 2007

Artudimentos

Ando meio confuso.
Escuto muitas vozes.
Muitos caminhos a serem seguidos.
Não tenho nenhum.
Apenas penso que sou e busco não ser.
Questionam: “cadê a sua paixão?”
Afirmo: “Está aqui, dentro de mim”.
Não tenho essa certeza em meu silêncio.
O que mais desejo é compreensão.
O regaço amigo de minha companheira, para poder descansar.
Para onde seguir, quando não há caminhos?
Estarei sozinho nesse universo sem nome, sem fim.
Habitado por crenças.
Inundado de certezas balofas, arrogantes em suas explicações.
Sofre menos aqueles que não pensam.
“O muito pensar é enfado da carne”.
Ando enfadado.
Tenho muitas cores para enxergar.
Mundos para viajar.
Os meus pés estão plantados na terra.
Acima de mim a certeza ilusória.
Religião, o que é?
Prefiro me agarrar à existência.
Terei uma fé para viver e morrer por ela.
Todas as certezas são perversas, já dizia Nietzsche.
Mergulharei no escuro e pensarei sobre o meu desespero.
Prélude à l’aprés-midi d’um faune” – Debussy.
Sabor adocicado e reflexivo.
Os bosques mitológicos de minha mente são coloridos com
Os sabores suaves de uma tarde de sol.
Sinto-me mais inocente quando sinto a arte me invadindo.
Perdi o encantamento com o mundo.
O mundo é apenas vontade e representação.


Por Carlos Antônio M. Albuquerque

sexta-feira, agosto 31, 2007

A mulher, o amor e...

Comentário livre ao texto “O casamento e o amor na Idade Média
Este pequeno texto é um comentário livre a um artigo que li para a aula da matéria de "Medievalismo e Renascimento" do curso de Letras. Quem quiser ler o artigo na íntegra clique no link a seguir: http://www.milenio.com.br/ingo/ideias/hist/casament.htm. A foto ao lado é de Sofonisba Anguissola, uma feminista que quebrou os clichês montados pela Igreja e pela mentalidade da época - excelente pintora e escultora de obras admiradas por reis e rainhas da época, Sofonisba consititui uma antítese a esse período controverso. Espero que o texto agrade. Um abraço carlino.


O texto bíblico do Gênesis afirma que quando se deu a consumação do “pecado original”, Deus teria sentenciado: “O teu desejo [mulher] será para o teu marido”. Desse modo foi construído ao longo da história de Israel um tipo de postura seriamente machista. O direito da mulher, em Israel, partia de uma compreensão da divindade descida para o homem. Por exemplo, o homem podia divorciar-se da esposa “por ter ele ter achado coisa indecente nela”, mas à esposa não era permitido divorciar-se do marido por nenhuma razão.

A Torá de Moisés afirmava que a esposa suspeita de ter relações sexuais com outro homem devia fazer prova de ciúmes. Contudo, não havia prova nenhuma contra um homem acusado de infidelidade contra a mulher. Um homem podia fazer um voto religioso e esse voto tornava-se válido; por sua vez, o voto feito por uma mulher podia ser anulado pelo seu pai (ou se ela fosse casada) pelo marido. Ou seja, uma menina era educada para obedecer o pai sem questionar. Depois, quando se casava, devia obedecer o marido da mesma forma. Quando se nascia uma filha, era bem menos recebida do que se fosse um filho. Os meninos eram ensinados a tomar decisões e a governar as suas famílias. As meninas eram criadas para se casar e ter filhos. A mulher podia ser comprada e vendida. A mãe lhe ensinava a cuidar da casa e a criar filhos. Esperava-se que ela desse muitos filhos ao marido. Se a mulher não tinha filhas, era tida como amaldiçoada ( TENNEY e at., 1988).

Paulo de Tarso, já nos tempos do Novo Testamento, afirma que “o homem era o cabeça da mulher, assim como Cristo era o cabeça da Igreja”. Em trechos de cartas do Novo Testamento o chamado apóstolo dos gentios, que foi responsável pelo bem-sucedido proselitismo no Império Romano, leva as suas concepções judaicas para o mundo Antigo. Paulo como bom judeu na carta que escreveu para ao seu discípulo Timóteo, diz: “A mulher aprenda em silêncio, com toda submissão. E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem; esteja, porém, em silêncio. Porque, primeiro, foi formado Adão, depois, Eva. E Adão não foi iludido, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão”( II Tm 2.11-14). Percebe-se com muita clareza que a lógica nos quais se enquadra o pensamento de Paulo deriva, antes de tudo, de uma forte base estrutural no pensamento judaico, que tinha a mulher como um ser inferior em relação ao homem.

Já no Timeu de Platão e na Política de Aristóteles foi atribuída à mulher uma natureza secundária em relação ao homem à semelhança dos judeus. O macho tinha prerrogativas absolutas em relação à fêmea. Para Aristóteles, a mulher não passava de uma “evolução detida”. Em suma, aquilo que estacionou estanquimente – evolução involuída. Em Roma, por exemplo, dizia Catão que se um homem surpreendesse a sua esposa em adultério se poderia matá-la. Não haveria culpa para o castigo. Porém se o adúltero fosse o homem, nem um direito teria a mulher, que não poderia tocar o homem – nem com o dedo. Os romanos contavam uma história apócrifa de um certo Egnatius. A mulher desse homem tinha sido surpreendida pelo marido no ato e beber certo licor precioso. Isso bastou para que o marido a matasse a pauladas (ROSA, s.d).

No Oriente também havia esse consenso. Na China, por exemplo, a mulher era tida como inferior ao homem, por acreditar-se ser ela inferior aos olhos dum Ser Supremo. Escreveu Confúcio: “O homem é a representação do ciclo e está por cima de todas as coisas; a mulher obedece às ordens do homem e o ajuda na realização dos seus princípios. Desse modo, nada pode resolver por si mesma e está sujeita à regra das três obediências: solteira, deve obedecer aos seus pais e aos seus irmãos maiores; casada, obedecerá ao seu marido; viúva, obedecerá aos filhos”(sic) (ROSA, idem).

Sob vários aspectos, a Idade Média constitui um dos períodos mais enigmáticos da História Ocidental. Vários escritos têm surgido com o fim de retratar e descrever esse período de forte religiosidade. O período conhecido como medieval esteve debaixo do tacão da Igreja como a grande instituição que resistiu às intempéries do desmantelamento do Império Romano. Ela consolida a fé cristã como a religião hegemônica do Ocidente. Para isso, utiliza-se de todas as armas e influências que passam a subjugar todas as mentalidades.

Podemos afirmar que o homem medieval era um ser assustado. Uma criatura amofinada. Crédulo numa realidade construída pela Igreja, como a Grande Mãe de todos os homens. A Igreja é Católica, porque é Universal. Ou seja, é a Igreja de todos os homens. Ela tem o poder de legislar sobre tudo o que dizia respeito à vida. Assim, todas as relações, produções, sistematizações deveriam passar pelo seu crivo. Por sua vez, as ações defendidas por Roma deveriam ser acatadas sem resmungos, oposição ou questionamento.

É a partir dessas prerrogativas de poder temporalmente eficaz, que a Igreja passa a arbitrar sobre a política – a Igreja tirava reis e colocava reis; sobre a religião – a Igreja era única, imaculada, imarcescível; o papa o grande juiz que se assentava na cadeira de Pedro e tinha o poder de mover céus e terra. Sobre as produções artísticas(cultura) – a arte produzida nesta época deveria representar as realidades metafísicas, invisíveis. Tudo aquilo que fosse material e terreno era impuro. Portanto, o corpo, a vida, natureza estavam manchados pelo pecado. A Igreja cria, baseada no pensamento de Platão, um mundo dual. Ou seja, um dualismo que estabelecia a existência de duas realidades distintamente classificadas: de um lado o mundo do clero, perfeito, santo, espiritual. Formado em sua essência pelos bispos e os clérigos em geral. Tal classificação criava uma classe de privilegiados. Daqueles que tratavam das coisas santas, espirituais. Esse tipo de pensamento ainda domina sob vários aspectos a mentalidade dos homens. Os religiosos ainda são vistos como modelos de virtude e excelência. Por outro lado, havia o mundo habitado pelos leigos. O mundo físico, da matéria. Nele estavam os homens comuns. Que realizavam atividades comuns. Que carpiam o campo, criavam animais. Essa fatia passou a ser chamada de leigos. O termo secular ou saeculorum foi cunhado nesta época. Dizia respeito às questões “mundanas”, “profanas”. Em suma, aquilo que estava fora da igreja; afastado do clero.

Em suma, a Igreja Católica e Apostólica Romana validou o pensamento da Antigüidade. Ela como grande instituição que herdou todo o séqüito cultural dos antigos. Muitos costumes se cristalizaram e se tornaram mandamentos. No que dizia respeito à concepção hebraica sobre como teria que se efetuar as relações maritais, a Igreja preservou em muito essa visão. Por exemplo, o bispo Tertuliano afirmava que a mulher era uma espécie de “porta do inferno”. No ano de 585 d. C, o concílio de Mâcon, reunido na cidade de mesmo nome, colocou em dúvida a possibilidade da mulher ter alma à semelhança dos homens(CUNHA, 1995).

Olhando sob este ponto de vista histórico, a Idade Média apenas reproduziu o consenso que havia em torno da figura da mulher. Sempre mal vista, a mulher como é observada hoje: ativa, buscando o seu espaço no mercado de trabalho, competindo de igual para igual com os homens, assumindo altos cargos em tribunais e várias outras corporações, é fruto de uma revolução recente. Podemos chamar de revolução, porque o presente momento para a mulher se configurou nos últimos 50 anos. Com o término da Idade Média, a situação da mulher continuou a mesma. Na Rússia dos czares, por volta de 1790, havia um ditado que dizia: “assim como uma galinha não é um pássaro; a mulher não é um ser humano”. (ROSA, idem).

De certo modo, podemos afirmar que as Cantigas de Amor Cortês que surgiram na Idade Média, cantigas essas feitas em homenagem a uma mulher(uma musa), não significavam em sua essência uma ação respeitosa em relação à mulher. A mulher era o mesmo ser pequeno, atrofiado que a história produziu. Tratava-se de uma enlevo poético possibilitado pela arte. A mulher era propriedade do seu marido. Com ela o marido podia fazer o que quisesse. Dirigia-se a ele com formas de tratamento respeitosas como "meu amo e senhor". Era permitida a agressão física a mulheres quando o marido achasse que ela o havia desobedecido e as histórias de mulheres que sofriam agressões eram contadas nas vilas em tom humorístico. As agressões não podiam causar a morte nem incomodar os vizinhos, entretanto, em caso de adultério flagrante, o marido tinha o direito até mesmo de matar a própria esposa. A lei não poderia intervir em nada.

A mulher das cantigas constituíam um símbolo poético, por assim dizer: afirmado na arte; negado pela realidade. Reduzida e negada pela realidade, a mulher só existia enquanto vinculada ao marido, só a referiam como mulher dele, parte dele. O próprio designativo feminino tem em sua etimologia uma expectação preconceituosa e redutora. Palavra de origem latina, reunia em sua formação as palavras fides e minus, que significa “menos fé”, “menos crença”. O casamento como um contrato não levava em conta sentimentos de afeição da mulher para com o homem e vice e versa. Essa estrutura não privilegiava o casal. Fazia as mulheres como objetos. O amor entre um homem deve ser alimentado pela caridade cristã, sem o desejo carnal. O sexo era visto como pecado, algo sujo, deturpado, resultado inegável dos descaminhos do pecado original.

Assim, podemos afirmar que a Idade Média constituiu-se como um período de morbidez para as relações. Homens e mulheres se mantiveram embaixo da tirania “ideais” da Igreja. Às mulheres restou o descalabro. De certa forma, a Igreja apenas repetiu um consenso que havia em torno das mulheres – as mulheres como objeto, como seres submissos à vontade dos homens. A Idade Média constitui de certa forma, apenas um estágio na condução preconceituosa em torno da mulher. O machismo ainda é um aspecto constituinte na sociedade contemporânea – seja no Ocidente, seja no Oriente.


REFERÊNCIAS:

BÍBLIA. Almeida Revista e Atualizada, Sociedade Bíblica do Brasil: São Paulo, 1994.

ROMERO, Elaine(org.), Corpo, Mulher e Sociedade, Editora Papirus, Campinas, 1995.

ROSA, Ubiratan (org), Enciclopédia do Conhecimento Sexual, Editorial Amadio, São Paulo, s.d.

TENNEY, Merril C.; PACKER J. I., WHITE JR., William, Vida Cotidiana nos tempos bíblicos, Editora Vida, São Paulo, 1988.