quinta-feira, maio 12, 2016

As primeiras horas da manhã...

Escutei há poucos instantes alguns fogos tímidos de sujeitos que comemoravam o afastamento da presidenta Dilma Rousseff. Não deveria haver comemoração. Aqueles que assim fazem não dimensionam o que estão comemorando. É uma ignorância homérica, um gesto de completo desconhecimento do mundo duro que é a política; não percebem que é justamente a política que determina a qualidade de vida que teremos ou deixaremos de ter. 

O tensionamento político que se gestou no Brasil nos últimos meses, não era só contra o PT ou contra a Dilma. Esse bombardeio era contra os trabalhadores. O que está em jogo são direitos, avanços, conquistas sedimentadas no governo que ora sofre o golpe e outras que são o resultado da luta histórica dos trabalhadores.

Não é bom se enganar nesse sentido: os direitos não vêm pelo fato do capital ser bonzinho, pelo fato "patrão" se compadecer da condição do "operário". Os direitos são o resultado da cristalização da luta, do suor, do derramamento de sangue. Assusta-me a ignorância de quem não percebeu ainda - e ainda comemora a saída de um governo, que apesar dos erros, resguardou muitos desses direitos, para se fiar por uma aventura incerta, pelo devaneio neoliberal - que quebrou países com uma experiência democrática mais consolidada como Portugal, Itália, Islândia e, o caso mais extremo, a Grécia.

Quebrar um país significa colocá-lo no chão. Significa colocá-lo a mercê dos ditames dos organismos internacionais como FMI, Banco Mundial etc - o quanto teremos de saúde, de educação, de infraestrutura, de empregos, de autonomia.

Não vejo motivos para comemorações. O Brasil é um país que não se leva a sério e que possui uma classe média cega, ignorante, que é vassala;  que se acha dona da casa grande. Um país que em 66 anos, apenas três dos seus presidentes terminaram os mandatos integralmente. Não somos sérios. O que está em jogo é justamente isso. Não é simplesmente o fato de retirar um político com o qual eu não simpatizo. Perdemos a oportunidade de avançar. Caminhamos para trás. Talvez daqui a trinta anos, criemos verdadeiramente uma euforia autêntica, genuína, que aponte para avanços sérios.

domingo, maio 08, 2016

Cinco de maio, aniversário de Karl Marx e Kierkegaard

Kiekergaard (esq.) e Karl Marx (dir.)
"A nossa existência é vivida para frente, mas entendida quando olhada para trás". Esta frase sempre me serviu de bússola. Em vários momentos em que me vi incompreendido, sem saber que direção tomar ou, simplesmente, buscando entender um evento, um comportamento meio autômato, ela surgiu sorrateira como um luzeiro e me fez colocar os pés no chão e continuar a caminhada. A frase pertence ao filósofo dinamarquês Sorem Aabye Kierkegaard. Ora, por que me remeto a ele assim de forma gratuita? Quinta-feira, dia cinco de maio, o mundo comemorou 203 anos do seu nascimento. 

Coloco Kierkegaard entre as minhas preferências filosóficas, assim como outras criaturas preocupadas com a existência - Agostinho, Pascal e Nieztsche. Os dois primeiros inequivocamente cristãos e, o último, alguém que buscava o conhecimento de si, desvencilhando-se de tudo aquilo que cheirasse a niilismo, sendo que o cristianismo se constituía uma grande abertura que impelia a um mundo de farsa, de negação da vontade, de resignação a um moral de escravo. Enquanto estivermos ocupados com deuses e uma moral mesquinha, jamais nos auto-determinaremos como sujeitos.

Curiosamente, no dia cinco de maio, outro filósofo que aprendi a admirar também, completou aniversário - 198 anos do nascimento do filósofo alemão Karl Marx. Marx anda na direção contrária de Kierkegaard. Aquele não olhava para dentro de si para determinar o mundo, como este procurava fazer. O alemão entendia que as relações que constituem o sujeito são forjadas na história. A base abstrata do homem, algo tão caro para o pensamento kierkegaardiano, é para Marx forjada a partir de determinada forma social. Ou seja, aquilo que é sentido e criado, é "a consciência invertida do homem", conforme diz Marx. O único ponto em comum dos dois é Hegel. Os dois haviam sido hegelianos quando jovens.

O que explica a minha predileção por dois filósofos que são antípodas? É possível conciliar essa discrepância? Como suavizar por meio de uma uniformização frases como estas: "A verdade é a subjetividade" (Kierkegaard); e "Não é a consciência dos homens que determina seu ser, mas, pelo contrário, seu ser social é que determina sua consciência"? (Karl Marx). 

Não é minha pretensão amarrar as pontas desse lençol de costura intrincada. Todavia, tento conciliar uma explicação, romantizando o presente fato. Kierkegaard, assim como os filósofos que citei acima, preenche minha parte mais intuitiva, mais propensa às metáforas, ao sentir poético; às projeções idealistas. Embora Kierkegaard estivesse à procura de um sentido que determinasse a sua existência ("procuro uma verdade que seja verdadeira para mim"), a frase que inicia o texto possui de forma subjacente elementos do devir, que é tão necessário para fecundar o pensamento de Marx. Olhando para trás, percebendo as curvas silentes, os saltos por vales cerrados, por escarpas longínquas, a história me forjou tal qual sou. Se sinto, se poetizo a vida, se procuro sentir, se mesmo não acreditando na religião institucional, fio-me por "uma vida na fé", acercando-me da terceira etapa do pensamento de Kierkegaard (estética, moral e fé) - claro, guardando as devidas proporções. Fé aqui não deve ser entendido em sentido comum. Fé a possibilidade de destruir todas as finitudes e transformar a existência em algo que está acima das pequenas coisas da vida.

Já Karl Marx me ajuda a colocar os pés no chão da história. Ajuda-me a despistar as convenções sociais forjadas, construídas para amarrar e impedir que compreendamos que existe um movimento latente, capaz de mudar o curso do mundo material. São os homens que constroem a história. Interpretá-la apenas não a torna um palco favorável à minha condição. Marx afugenta as ilusões. Em Marx, sentimos que a realidade é dura, que ela tem um corpo afiado e inquieto. Na teríamos essa consciência, não sentiríamos como sentimos; não leríamos o mundo como lemos; não perceberíamos como percebemos; não seríamos iludidos como somos; as estruturas jurídicas, políticas, religiosas, educativas, artísticas, filosóficas, morais seriam outras, se outras fossem as determinantes econômicas, se outras fossem as estruturas que determinam o ser social. 

Kierkegaard me impele ao ser; Marx, à ação. Em mim não há antagonismos. Antagônicas são as ideias. O ser tenta acolhê-las. Agasalhá-las. Tendo a consciência de que o fluxo contínuo de movimento forja as ideias, cria pessimismos e alegrias; cria a dureza para suportar e a sensibilidade que nos leva ao choro; a melancolia incontida e o gozo pela expectativa de vitória, sou enquanto sigo; mas sou sabedor de que a caminhada me marca, risca-me com o seu cinzel. Se tenho a percepção que tenho, não foi de forma gratuita. Sou assim, porque não sou de outro modo; mas, sendo como sou, posso ser de outro modo, desde que lute para sê-lo. Em quando assim for, olharei para trás compreenderei o ser que levo e tenho.

Parabéns, Marx e Kierkegaard!

sexta-feira, maio 06, 2016

Algumas considerações sobre "O amor de Mítia", de Ivan Búnin

Em que medida ele fora então bom menino, inocente, de coração singelo, pobre nas suas modestas tristezas, alegrias e devaneios! O seu amor sem objeto, incorpóreo, de então tinha sido um sonho ou, melhor, a recordação de um sonho maravilhoso. Mas agora havia Kátia, havia uma alma que encarnara em si o mundo e que o dominava por inteiro. p. 46

A literatura é mundo de possibilidades infinitas; de incontáveis  belezas; de polifonias; de feições e linguagens variadas; de poesia em estado puro; de insinuações implícitas; de depuração. É por esse motivo que lemos literatura; que não conseguimos nos afastar dela. A boa literatura é remissora, humanizadora. Nela encontramos a exatificação daquilo que poderia ser o mundo. Aquilo que os homens não conseguem desenhar, materializar, a literatura possui o potencial de representar, de simular. As tintas da literatura são mais densas do que as cores do mundo real. Ela permite a transfiguração do mundo. 

Pois essas impressões se tornaram mais vivas após terminar a leitura do livro O amor de Mítia, de Ivan Búnin. Certamente, uma das prosas mais belas e elegantes que já tive a oportunidade de ler. Um estilo que beira a uma epifania poética. Boris Schnaiderman, o famoso tradutor de obras do russo afirma: "Enfim, bem poucas vezes, em minha tão extensa caminhada como tradutor, me defrontei com um texto vigoroso como o desta novela". Não é para menos.

A vida de Búnin é dividida em dois momentos: a vida na Rússia pré-revolucionária e a vida pós-revolucionária, fora da Rússia. Nascido em 1870, o ganhador do Prêmio Nobel de 1933, sempre buscou forjar um estilo que o colocasse entre a prosa e a poesia. Tornou-se amigo dos mestres Tchekov e Tóltoi. Aquele viu nele um futuro brilhante. Este o estimava com grande carinho. Búnin se utilizou dessas amizades profícuas para aprender. A maturidade foi sendo desvelada de forma gradual. Com a eclosão da Revolução de 1917, Búnin não quis continuar na Rússia. Resolveu deixar o país. Desconfiava dos destinos transigidos. Não esperou para ver. Fugiu com a mulher. Radicou-se na França. E foi lá, como emigrado, que os seus belos textos foram surgindo um a um. 

O amor de Mítia, uma novela curta, foi escrita no auto-exílio. O Estado Soviético repeliu firmemente a sua fuga. Nos anos mais duros de repressão, quem mencionasse ou citasse o escritor, poderia amargar a prisão. Ficou como exemplo negativo. Todavia, apesar da distância, Búnin não abandonou espiritualmente a sua terra. Sua paixão pela literatura do seu país, principalmente por Tólstoi, que era alçado ao nível supremo de beleza literária; a relação panteísta que nutria com as belezas da cultura e da natureza, pode ser observado em seu texto. Fazendo uma pequena digressão: Búnin não gostava de Dostoiévski. Achava-o espalhafatoso em excesso.

O amor de Mítia é uma história simples. O mote é o amor, o ciúme e o sofrimento, um tema bastante comum na literatura. Após Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, este tema assumiu paroxismos de grande dramaticidade. Goethe havia transido a existência de Werther, impingido dores contumazes, revolvido sua alma, revelado o seu espírito, suas aflições, seu martírio. Há nesse sentido um paralelismo entre Mítia e Werther. A diferença ao meu modo de ver fica por conta do estilo de Búnin. Trata-se de obra de rigor; de um controle absurdo da narrativa; e, como diz Schnaiderman, de grande "vigor". Havia sentido isso certa vez ao ler Quincas Borba, de Machado de Assis.

Ivan Búnin (1870-1953)
Mítia é um apaixonado que se alimenta apenas de um pensamento: a sua amada Kátia. Foge para tentar separar-se de sua presença. Mas a sua ausência é presença. Ele é preenchido justamente por aquilo que lhe falta. Busca a solidão do campo. Foge da Moscou barulhenta, agitada e se refugia em meio à natureza. E é nesse ponto que penso que esteja o ponto alto do livro. Búnin consegue de forma singela, descrever com uma beleza única, a vida pastoril. A natureza com sua presença luxuriosa, a exalar vida; e os seus rigores imparciais. A natureza se assume como a sua amada Kátia: bela, lúbrica, fértil, a espargir fragrâncias virginais, mas, ao mesmo tempo, sendo grave, imparcial, seguindo o seu curso implacável, pouco obsequiosa para com Mítia.

Como mencionei acima, as descrições são de uma beleza assustadora, de um realismo colorido que sinestesicamente coloca-nos diante do cenário. Apenas alguns exemplos: 

Capítulo IX

Vieram depois as neblinas tépidas, as chuvas, a neve foi derretida e devorada em poucos dias, o gelo do rio se pôs em movimento e a terra começou a negrejar alegre, renovada, a desnudar-se no jardim e no quintal...

Capítulo XIV

A floração das pereiras era particularmente densa e vigorosa, e a mistura dessa branquidão e do azul vivo do céu dava um reflexo violáceo. [...] Sentia-se no ar tépido o seu cheiro suave, adocicado, juntamente com o cheiro do estrume aquecido, em fermentação no curral. p. 59

Capítulo XXVIII

Fazia frio, havia umidade penetrante, as nuvens escureciam o dia; sobre aquele fundo negro, o verde compacto do jardim molhado destacava-se com particular densidade, frescor e nitidez. p. 113

Fica implícito no texto de Búnin uma inquietação com relação aos sentimentos fortes e que estabelecem sentido para a existência. Amor e morte são forças antagônicas, mas complementares. Elas se jungem em determinados momentos; sedimentam-se; tornam-se numa massa informe e se instalam como forças gravitacionais no coração do ser humano. Amamos, mas os ciclos e o devir universais seguem  indiferentes, apesar de sermos parte deles. 


domingo, maio 01, 2016

O arrivismo midático nosso de cada dia

Hoje cedo fui à uma banca de jornal aqui perto de casa comprar um dos exemplares da Coleção Folha. Analisei os 28 livros constantes da promoção e resolvi comprar dezessete deles. Alguns dos livros eu já tenho, mas mesmo assim comprarei (sic). A edição é elegante e a tradução é melhor trabalhada. É o caso, por exemplo, dos dois exemplares que adquiri hoje - A morte de Ivan Ilitch (Tolstói) e Um aprendizado ou o livro dos prazeres (Clarice Lispector). 

Após ter comprado os livros, pus-me a ler as reportagens dos jornais e revistas. Uma indisposição, um asco foi sendo fermentado à medida que lia o mau-caratismo discursivo da mídia hegemônica. A Veja trazia palavras fortes como "plano radical para zerar déficit público"; "Meireles e Serra, o time de atacantes da política externa" etc. Eram palavras e expressões afirmativas, que ensaiavam projeções otimistas, bem diferentes daqueles que vimos nas últimas semanas acerca do ainda sobrevivente e agonizante governo Dilma. A única nota negativa era uma uma denúncia contra Lula, acusado de receber "mensalão da OAS desde a década de 80", mas nesse ponto temos "mais do mesmo". 

A Isto É avançava em um discurso babão e mais canino. Um fundo vermelho com as fotografias de Lula, Dilma e João Pedro Stédile, líder do MST, expunha uma atmosfera de raiva e ódio. A reportagem trazia em letras garrafais: "Os sabotadores do Brasil". Duas outras reportagens encimavam o veículo ordinário (não chamo aquilo de jornalismo). Jornalismo pressupõe responsabilidade com a construção da notícia e a entrega abnegada do fato (não devemos falar em imparcialidade, pois ela não existe), algo impossível no Brasil. A primeira buscava enlamear a figura de Lula; a segunda, trazia o título "Meireles na Fazenda - o nome que entusiasma o mercado e a sociedade". É interessante notar a busca desavergonhada de fecundar, por meio da generalização, uma uniformidade possível, um clima de leveza, de consenso. Essa tônica "imparcial" era seguida por todos os demais veículos jornalísticos. Não havia um "discurso  destoante", que se contrapusesse a esse jornalismo marrom, viciado, inimigo da verdade e da isenção. 

Todos eles ficam à porta da banca, em lugar visível. As outras revistas que possuem um discurso contra-hegemônico (Caros Amigos, Revista Piauí, Le Monde Diplomátique etc) ficam em lugar escuso, como se fossem aquele material encalhado, procurado por seres estranhos, de outro planeta. Trata-se de quinquilharia, certamente. É como se alguém chegasse procurando algo exótico e o dono do estabelecimento dissesse: "Olha, eu tenho o que está aí! Mas espera aí! Há um negócio por ali, que quase num sai. Tá meio empoeirado! Mas dá uma olhada!" E colocasse sobre o balcão papiros fossilizados. Material para arqueologista. Arquivos seletos para entes secretos.

Desse fato surgem duas questões: (1) Quando terá fim esse massacre, esse bombardeio dessa mídia marrom, arrivista, conservadora, inimiga do povo e acumpliciada com o grande capital? E nesse sentido é necessário fazer uma crítica sólida ao PT, que em quatro mandatos, não moveu um centímetro a legislação da política de meios no Brasil. Os grandes grupos, leia-se cinco famílias, continuam "a formar opinião" no Brasil, criando consensos e estabelecendo "o olhar", "a plataforma política" e "as crenças da sociedade brasileira". Com o novo cenário político que se desenha, torna-se mais distante a possibilidade de qualquer movimento nesse sentido. (2) A consequência dessa blitzkrieg midiática é o envenenamento da opinião pública. Qual é a saída? O meio alternativo que projeta para a sociedade uma outra forma de enxergar os acontecimentos políticos do país de forma responsável? Gostaria, nesse sentido, de apontar uma crítica: por que o PT não fundou uma TV pública, com uma programação capaz de fazer frente ao que aí está posto? O sujeito médio, "educado" pela Veja, Revista Época, Isto É; pelo conglomerado dos jornais estaduais, pertencentes aos clãs que representam as oligarquias, inimigas do povo, seja do Goiás, Alagoas, Piauí, Rondônia ou Rio Grande do Sul; pelos jornais televisivos, pelas emissoras de rádio, ouvirá apenas uma versão "da realidade", a saber, aquela que é de interesse das elites desse país e isso "modelará" inexoravelmente o seu olhar. O ódio instalado contra o governo atualmente é o resultado desse trabalho, como se o PT tivesse inaugurado a corrupção no país; como se antes do PT, o Brasil fosse um Éden, onde as pessoas 'viviam felizes' e 'se alimentavam da árvore da vida, que está no centro do jardim'.

Às vezes, bate-me uma vontade de que aquele dispositivo que existe no filme Homens de Preto, capaz de bloquear a memória e impedir que o sujeito tenha acesso ao que aconteceu com ele, existisse de verdade. Poderíamos utilizá-lo para esquecer tudo isso e começarmos do zero. Como isso não é possível, ficamos imersos nesse imenso mar de desânimo. Olhamos em volta e vislumbramos horizontes turvos. Ignorância e alienação por todos os lados. E como diz a música Vícios de Linguagens do Engenheiro do Hawaí: 

Tudo se resume a uma briga de torcidas
E a gente ali no meio, no meio das bandeiras
O jogo não importa, ninguém tá assistindo
E a gente ali no meio, no meio da cegueira
Tudo se reduz a um campo de batalha
E a gente ali no meio
Tudo se resume a disputa entre partidos
Lama na imprensa, sangue nas bandeiras
A verdade passa ao largo, como se não existisse
E a gente ali no meio, como se não existisse
Tudo se reduz, a uma cruz e uma espada

Ficamos ali, sem jeito, sem escapatória, sem possibilidade de fuga, vendo aonde tudo vai dar, enquanto as revistas, jornais e a TV, alimentam com seus discursos de cobiça, a indigência alheia. 

sexta-feira, abril 22, 2016

Algumas impressões sobre "Madame Bovary", de Flaubert

Ler Madame Bovary era um projeto existente desde o final do ensino médio. Recordo-me das aulas de literatura. Das onipresentes citações sobre a importância da obra monumental de Flaubert. Cheguei a comprar uma edição ordinária em um sebo. Esqueci-a no fundo da estante. Via o projeto como algo distante. Até que no mês de fevereiro deste ano fui à Livraria Cultura e comprei a excelente edição da Penguin/Companhia das Letras. Pensei comigo em tom profético e peremptório: 'Agora você não me escapa!"

Iniciei a leitura com um senso de reverência indescritível. Precisava me conectar a um mundo de idealismos. Era uma ação nobre aquela que estava a executar. As quase quinhentas páginas com tradução primorosa. O papel macio e resguardar em suas entranhas um cheiro lascivo. A grande expectativa em torno do que acharia pela frente. Emma Bovary era uma espécie de fada. Tentava erguer a curiosidade e construir, por meio de conjecturas, os caminhos determinantes da narrativa. Cheguei a assistir a um filme tentando entender os desdobramentos da história. O filme serviu apenas para recriar o cenário, a fotografia e o espaço romanesco. Foi ineficiente. A prosa de Flaubert é grande demais para caber em uma película. 

De fato, o romance é tudo aquilo que esperava que fosse: grandioso em todos os aspectos. Não poderia ser diferente. Flaubert é um minucioso estudioso dos costumes da sociedade do seu tempo. Difere de Balzac, por exemplo, que também era um cronista poderoso. Este parece ser mais caudaloso e recriador de consensos; aquele, por sua vez, é insubmisso, cortante, engenheiro habilidoso de uma prosa jornalística, que mais insinua do que afirma certezas. As frivolidades e fatuidades da burguesia são trabalhadas com hiperbólica ironia. A avareza de alguns personagens denuncia a transformação social por que passa a alma do homem sob a dinâmica sociedade capitalista. A crença profunda no cientificismo e no progresso da técnica são resultado da visão otimista de que o homem estava transformando a natureza naquele presente histórico, como fica expresso pelo personagem Homais. O diletantismo de alguns personagens como, por exemplo, Léon, um dos amantes de Ema Bovary. Ou ainda, o mundanismo de um Byron, o comportamento selvagem e inconsequente de um dândi como Rodolphe.

Gustave Flaubert (1821-1880)
A heroína Ema Bovary, casada com Charles Bovary, um modelo de sujeito passivo, mas de coração bondoso, construído para provocar no leitor uma fina e sensível compaixão, é estraçalhado pelos desejos incontidos e calculistas de Emma. A personagem Ema instila no leitor (pelo menos em mim foi assim) uma dupla sensação: (1) ela é culpada pela desgraça que acomete o destino de sua casa e o destino do seu marido Charles. É isso que Flaubert quer nos fazer crer em um primeiro momento. Ema é uma personagem complexa. Espera-se dela como mulher, pelo menos, um ordeiro respeito à figura do seu bom marido; o papel da boa mãe. (2) Emma é culpada. Parece-me que neste ponto, Flaubert constrói a tese de que reside no mundo feminino a susceptibilidade que impele à fantasia, ao desvario, à irracionalidade. Em suma, Emma é culpada. É traidora. É destruidora de si e da vida de seu marido. Como naquela passagem bíblica sexista de Provérbios: "Mulher virtuosa, quem a achará?" (31.10). A personagem destoa do modelo perfeito. Não é "virtuosa". É traidora. Alimenta-se de cálculos, de perfídias, de enganos; deixa-se levar por uma franqueza: busca encontrar nos amantes a segurança de que necessita. É forte por trair, mas, ao mesmo tempo, é fraca por ser romântica em excesso e deixar aflorar o sentimentalismo feminino.

A heroína soçobra ante o seus desejos. Fica cega. Ignora a presença de Charles. Fascina-se com a expectativa de uma vida de prazeres e luxos. Arruína-se no plano espiritual e no plano material. Contrai dívidas. Entendia-se da vida aldeã. Procura formas de ocultar a sua realidade e projeta o dinamismo da vida citadina. Mora em um vilarejo, mas é como se vivesse em Paris. Há uma insatisfação em sua existência. Ela busca fugir da sensação claustrofóbica em que havia se transformado o seu casamento. Emma anuncia a mulher insubmissa, não dada às convenções sociais. Suplanta o determinismo social que encurralava as mulheres, colocando-as numa posição servil. 

A prosa de Flaubert, nesse sentido, é revolucionária. Quando escreveu o livro ainda não era o gigante, o sujeito respeitado que se tornou depois. Possuía pouco mais de trinta anos. Morava com a mãe em um subúrbio. Era um sujeito de poucas posses. Não gozava de nenhum prestígio. Escrevia textos de valor incerto. Seu método de trabalho era de um estoicismo impressionante. Trabalhava um número exato de horas. Escrevia um número exato de páginas diariamente. Demorou mais de cinco anos para escrever a obra monumental. Flaubert anunciava o moderno. Emma personifica o descontentamento; o drama metafórico que anuncia uma sociedade veloz - a linha férrea, o jornal, a eletricidade. E Emma é esse ponto de inflexão que gera "desconforto", a visão do novo, de um novo que possui uma força atordoadora.




segunda-feira, abril 18, 2016

Quando andamos para trás...

É inadmissível que trabalhadores, pessoas que acordam cedo, pagam seus impostos, lutam por um país mais justo, admitam esse palco farsesco que se presenciou na noite de domingo. Chegamos ao fundo do poço de nossa infâmia, de nossa inanição moral e intelectual. Como bem enfatizou Jean Willys: "Uma Casa formada por analfabetos políticos"; uma Casa liderada por um mafioso, capaz de arregimentar como feiticeiro o baixo clero e prometer-lhes o vil metal que quebranta toda possibilidade ética, e  julgar e decidir o destino de um país com mais de duzentos milhões de pessoas. Ou como disse outro deputado do Psol: "Uma Casa presidida por um gângster". Não existe pior melancolia, pior ressaca existencial do que esta. A nossa fauna rupestre de mentes tacanhas, inflamados pela violência; legalistas que invocam deus, torturadores, assassinos, cafetões, oportunistas, párias ideológicos, infames, esquisoides, mandriões farsescos, finórios de carteirinha; que homenageiam "corretores de imóveis", "o filho", "o cachorro", "os médicos", mas que não embasam o voto de acordo com as finalidades do debate; esse exercício seria impossível para alguns, pois o baixíssimo capital cultural não permitiria. Como bem afirmou o jornal argentino Página 12, um parlamento formado por "escravocratas", filhos e herdeiros da casa grande. Uma aliança corrupta, firmada na luxúria ménage à trois entre a mídia golpista, setores atrasados da política nacional e das elites nacionais e admitida pela servil e ignorante classe média.

Os deputados que votaram pelo "sim" sabem o querem: fazer parte da composição do novo governo que será montado de forma ilegítima. O bolo já foi fatiado. Os ministérios e secretarias já foram fracionados. Eles foram para o plenário com os conchavos já montados. Aproveitaram a noite para aparecer no telão, talvez, numa das poucas oportunidades que terão na vida política. Nos dias normais, essas figuras se escondem no submundo da Câmara. Fazem migrações e engendram negócios espúrios contra o povo.

O que não é aceitável é vê trabalhadores coadunando com esse "show" de horrores. Quem está sendo violado, estuprado, é o Estado Democrático de Direito; os direitos trabalhistas; a nossa rala e inconsistente democracia; as conquistas sociais para os grupos olvidados deste país; a dignidade dos negros, índios, mulheres humildes, analfabetos, crianças e adolescentes; a comunidade LGBT, os quilombolas, os deserdados e desesperançados; aqueles que dependem do SUS. Aqueles que disseram "sim" não votaram pelo povo, pela justiça. Votaram pelas suas famílias bem assistidas, que comem todos os dias, que quando passam mal vão a um hospital particular; que estudam nas boas escolas privadas do país. Como diria o velho Marx "a história se repete como farsa".

Chegará o dia que muitos trabalhadores, que firmaram posição contra o governo, ludibriados pela mídia, arrepender-se-ão da esparrela em que se meteram, do projeto criminoso que apoiaram. Se eles soubessem os conchavos que estão sendo costurados nas masmorras do Congresso Nacional contra os trabalhadores, sairiam às ruas para que mais da metade da Câmara e do Senado acertasse contas com a justiça, para que Dilma não fosse vítima dessa encenação burlesca. 

Uma digressão

Historicamente, o Brasil sempre foi um país dividido. As imagens que alimentamos da política e das relações sociais servem para mostrar o quanto a nossa sociedade se pauta pela violência em todos os sentidos. E essa violência é usada para estabelecer conexões com a vida social. O Brasil ainda não rompeu com os efeitos da casa grande e da senzala. Então, muitos setores da sociedade, principalmente, a classe média, principal agente de reificação do “status” das elites, é a cimentadora dessas contradições. Existem dois problemas nesse sentido: 

(1) ela é vítima de sua própria ignorância. Suas pretensas vantagens não a tornam em uma entidade autônoma dentro da sociedade de classes. Ela também é explorada. Vende a sua força de trabalho. Ocupa determinados cargos do alto funcionalismo público; algumas profissões liberais como a de advogados, médicos, dentistas etc. Acham-se “livres”, todavia, esses indivíduos não fazem parte da dança do grande capital, necessariamente fator de relação nas grandes corporações.

(2) Alguns setores, arrimados na violência, fazem escolhas alienadas, ou seja, se tornam algozes. Esses grupos ostentam signos de “status”. Gostam de exibir determinados privilégios. Usam a violência como mecanismo de orientação social – por isso, o apoio à redução da maioridade penal, desejo que o país adote a pena de morte, o apoio a pilantras nazistas como o Bolsonaro etc e todo tipo de ação que leve ao não empoderamento dos mais necessitados. Têm raiva da diversidade social, do diferente. Criminalizam as políticas sociais. Chamam os programas sociais de assistencialismo, por entenderem que “a força vem do trabalho”, todavia, não sabem que o “trabalho” de que falam é o trabalho alienado. Chamam governos progressistas de populistas, um discurso que faz parte do ideário das elites da América Latina. Têm raiva dos índios, dos negros, das mulheres humildes, da comunidade LGBT, dos sem-terra, dos sem-teto, dos necessitados plurais do nosso país. A classe média paulista, por exemplo, entregou o que tinha de ouro em 1932 e 1964, para que o país enfrentasse “a ameaça vermelha”. Todavia, quando olho para isso, não consigo deixar de enxergar o duplo caráter de que falei acima – a ignorância, fruto da alienação, leva, necessariamente, ao chancelamento da violência e do obscurantismo.

Estou triste e decepcionado, mas sereno. Sou sabedor de que a história é resultado da luta de classes; que não existem lances fáceis e gratuitos. A dialética da história não nega os seus movimentos.

"A solidão da América Latina", discurso de Gabriel García Márquez na Academia Sueca - texto atualíssimo. Faz-nos refletir sobre a farsa de ontem.

Após o episódio patético promovido pelos deputados federais no dia de ontem, que se tornou piada nas principais mídias do mundo, lembrei o discurso de Gabriel García Márquez, ganhador do prêmio Nobel em 1982. Seu inspirado discurso para a Academia Sueca é uma revelação urbi et orbi da realidade mágica do mundo latino-americano, de suas lutas, dos estupros sofridos e pela riqueza fascinante da região. Recordo que a primeira vez que o li, fiquei boquiaberto dada a beleza e a eloquência. Vale ler! É um texto com valor sagrado. Sua beleza emula sentimentos acerca da esperança, das utopias que podem ser fecundadas. O escritor colombiano, autor de Cem anos de Solidão e o Amor nos tempos do cólera, (dois dos livros mais importantes que já li), foi uma das figuras mais importantes da história do continente - e certamente continuará a ser. Leiamos:

Antonio Pigafetta, navegador florentino que acompanhou Magalhães na primeira viagem em volta do mundo, escreveu, na ocasião de sua passagem pelas terras do sul de nossa América, um relato minuciosamente apurado, mas que na verdade parece mais um delírio fantasioso.

Nessa viagem, ele diz que viu porcos com umbigos nas ancas, pássaros sem garras cujas fêmeas botavam os ovos nas costas de seus parceiros, e ainda outros, lembrando pelicanos deslinguados, com bicos feito colheres.

Ele disse ter visto uma criatura desengonçada, com cabeça e orelhas de mula, corpo de camelo e pernas de veado, que relinchava como cavalo. Descreveu como o primeiro nativo encontrado na Patagônia se olhou no espelho, e em seguida, o impassível gigante, perdeu a razão, aterrorizado com sua própria imagem.

Este curto e fascinante livro, que já naquela época continha as sementes de nossos atuais romances, é sem dúvida o mais pungente relato da realidade nossa daquele tempo.

Os cronistas das Índias nos deixou outros incontáveis relatos. Eldorado, nossa terra ilusória e tão avidamente procurada, apareceu em numerosos mapas durante anos, deslocando-se de lugar e de forma de acordo com a fantasia dos cartógrafos.

Em sua procura pela fonte da eterna juventude, o mítico Alvar Núñez Cabeza de Vaca explorou o norte do México por oito anos, numa iludida expedição cujos membros devoraram uns aos outros e, dos seiscentos que foram, apenas cinco voltaram.

Um dos muitos mistérios inimagináveis daquela época é o das onze mil mulas, cada uma carregando cinqüenta quilos de ouro, que um dia deixaram Cuzco para pagar o resgate de Atahualpa e nunca chegaram ao seu destino. Depois disso, no tempo das colônias, galinhas vendidas em Cartagena de Índias eram criadas em terrenos de aluviões e em suas moelas eram encontradas pequenas pepitas de ouro.

A cobiça de ouro de nossos fundadores nos perseguiu até recentemente. No fim do último século [XIX], uma missão alemã, indicada para estudar a construção de uma ferrovia inter-oceânica, através do istmo do Panamá, concluiu que o projeto era viável com uma condição: que os trilhos não fossem feitos com aço, que era raro na região, mas com ouro.

Nossa independência da dominação dos espanhóis não nos pôs fora do alcance da loucura. O general Antonio López de Santana, três vezes ditador do México, providenciou um magnífico funeral para a perna direita que ele perdera na chamada Guerra dos Pastéis. O general Gabriel García Moreno governou o Equador por 16 anos como um monarca absoluto; em seu velório, o corpo ficou sentado na cadeira presidencial, vestido com o uniforme completo e decorado com uma camada protetora de medalhas.

O general Maximiliano Hernández Martínez, o déspota teosófico de El Salvador, que teve 30 mil camponeses aniquilados num massacre selvagem, inventou um pêndulo para detectar veneno em sua comida, e mantinha as lâmpadas das ruas envolvidas em papel vermelho para vencer uma epidemia de escarlatina. A estátua do general Francisco Morazán, na praça principal de Tegucigalpa, é na verdade do marechal Ney, comprada num depósito de esculturas de segunda mão em Paris.

Onze anos atrás [1971], o chileno Pablo Neruda, um dos brilhantes poetas de nosso tempo, iluminou este público com suas palavras. Desde então, os europeus de boa vontade – e às vezes aqueles de má vontade também – têm sido arrebatados, com cada vez mais força, pelas novidades fantásticas da América Latina, esse reino sem fronteiras de homens alucinados e mulheres históricas, cuja infinita obstinação se confunde com a lenda.

Não temos tido sequer um minuto de sossego. Um prometéico presidente, entrincheirado em seu palácio em chamas, morreu lutando contra um exército inteiro, sozinho; e dois suspeitos acidentes de avião, ainda por explicar, abreviaram a vida de um grande presidente e a de um militar democrata que tinha ressuscitado a dignidade de seu povo.

Já ocorreram cinco guerras e dezessete golpes militares; surgiu um diabólico ditador que está realizando em nome de Deus o primeiro etnocídio da América Latina de nosso tempo. Nesse ínterim, 20 milhões de crianças latino-americanas morreram antes de completar um ano de vida – mais do que as que nasceram na Europa desde 1970.

Os desaparecidos pela repressão chegam a quase 220 mil. É como se ninguém soubesse onde foi parar a população inteira de Uppsala. Várias mulheres presas grávidas deram à luz nas prisões argentinas, e ainda ninguém sabe do paradeiro e da identidade de seus filhos, que foram furtivamente adotados ou enviados para orfanatos por ordem das autoridades militares.

Porque tentaram mudar esta situação, quase 200 mil homens e mulheres morreram em todo o continente, e mais de cem mil perderam suas vidas em três pequenos e malfadados países da América Central: Nicarágua, El Salvador e Guatemala. Se fosse nos Estados Unidos, seria o equivalente a um milhão e seiscentos mil mortes violentas em quatro anos.

Um milhão de pessoas abandonaram o Chile, um país com tradição de hospitalidade – ou seja, doze por cento da população. O Uruguai, pequenina nação de dois milhões e meio de habitantes, que se considerava o país mais civilizado do continente, perdeu para o exílio um em cada cinco de seus cidadãos.

Desde 1979, a guerra civil de El Salvador vem produzindo quase um refugiado a cada vinte minutos. O país que se poderia criar com todos os exilados e emigrantes forçados da América Latina teria uma população maior que a da Noruega.

Ouso dizer que é esta desproporcional realidade, e não apenas sua expressão literária, que mereceu a atenção da Academia Sueca de Letras. Uma realidade não de papel, mas que vive dentro de nós e determina cada instante de nossas incontáveis mortes de todos os dias, e que nutre uma fonte de criatividade insaciável, cheia de tristeza e beleza, da qual este errante e nostálgico colombiano não passa de mais um, escolhido pelo acaso.

Poetas e mendigos, músicos e profetas, guerreiros e canalhas, todas as criaturas desta indomável realidade, temos pedido muito pouco da imaginação, porque nosso problema crucial tem sido a falta de meios concretos para tornar nossas vidas mais reais. Este, meus amigos, é o cerne da nossa solidão.

E se estas dificuldades, cuja essência compartilhamos, nos atrasa, é compreensível que os talentos racionais desta parte do mundo, exaltados na contemplação de sua própria cultura, se encontrem sem meios apropriados de nos interpretar.

É simplesmente natural que eles insistam em nos medir com o mesmo bastão que medem a si mesmos, se esquecendo de que as intempéries da vida não são as mesmas para todos, e que a busca pela nossa própria identidade é tão árdua e sangrenta para nós quanto foi para eles.

A interpretação de nossa realidade em cima de padrões que não são os nossos serve apenas para nos tornar ainda mais desconhecidos, ainda menos livres, ainda mais solitários.

A venerável Europa talvez pudesse ser mais perceptiva se tentasse nos ver em seu próprio passado. Se ela recordasse simplesmente que Londres levou 300 anos para construir seu primeiro muro, e mais 300 para ter um bispo; que Roma labutou numa penumbra de incertezas por 20 séculos, até que um rei etrusco a fizesse entrar para a história; e que a pacífica Suíça de hoje, que nos deleita com seus leves queijos e simpáticos relógios, derramou o sangue da Europa como soldados mercenários, no final do século XVI. Mesmo no alto da Renascença, 12 mil lansquenetes pagos pelo exército imperial saqueou e devastou Roma e trespassou oito mil de seus habitantes na espada.

Não quero incorporar as ilusões de Tonio Kröger, cujos sonhos de unir um casto norte a um sul apaixonado foram exaltados aqui, há 53 anos, por Thomas Mann. Mas realmente acredito que aqueles europeus esclarecidos que lutaram, inclusive aqui, por um lar mais justo e humano, pudesse nos ajudar muito melhor se reconsiderassem sua maneira der nos ver.

A solidariedade com nossos sonhos não vai nos fazer menos solitários, enquanto isso não for traduzido em atos concretos de apoio legítimo às pessoas que aceitam a ilusão de ter uma vida própria na divisão do mundo.

A América Latina não quer, nem tem qualquer razão para querer, ser massa de manobra sem vontade própria; nem é meramente um pensamento desejoso que sua busca por independência e originalidade deva se tornar uma aspiração do Ocidente. No entanto, a expansão marítima que estreitou essa distância entre nossas Américas e a Europa parece, ao contrário, ter acentuado nosso distanciamento cultural.

Por que a originalidade nos foi agraciada tão prontamente na literatura e tão desconfiadamente nos foi negada em nossas difíceis tentativas de mudanças sociais? Por que pensar que a justiça social perseguida pelos europeus progressistas aos seus próprios países não pode ser um objetivo da América Latina, com métodos diferentes em condições desiguais?

Não: as incomensuráveis violência e dor de nossa história são o resultado de antigas iniqüidades e amarguras caladas, e não uma conspiração tramada a três mil léguas de nossa casa.

Mas muitos líderes e intelectuais europeus têm pensado assim, com a infantilidade de seus antepassados que se esqueceram do proveitoso excesso de sua juventude, como se fosse impossível chegar a outro destino que não o de viver entre a cruz e a espada. Isto, meus amigos, é o tamanho exato de nossa solidão.

Apesar disso, à opressão, ao saque e abandono, respondemos com vida. Nem enchentes nem pragas, nem fome nem cataclismos, nem mesmo as eternas guerras, séculos após séculos, foram capazes de subjugar a persistente vantagem que a vida tem sobre a morte. Uma vantagem que cresce e acelera: todo ano, há 74 milhões de nascimentos a mais do que mortes, número o suficiente de novas vidas para multiplicar, a cada ano, a população de Nova York sete vezes.

A maioria desses nascimentos ocorre em países de menos recursos – incluindo, claro, os da América Latina. Contraditoriamente, os países mais prósperos se realizaram acumulando poderes de destruição, com força o bastante para aniquilar, num total de cem vezes, não apenas todos os seres humanos que já existiram até hoje, mas também todos os seres vivos que um dia respiraram neste planeta infeliz.

Um dia como hoje, meu mestre William Faulkner disse: “Eu me recuso a aceitar o fim da humanidade”. Não seria digno de mim estar num lugar em que ele esteve se eu não tivesse plena consciência de que a tragédia colossal que ele se recusou a reconhecer, 32 anos atrás, é agora, pela primeira vez desde o começo da humanidade, nada além de uma simples possibilidade científica.

Cara a cara com esta realidade horrenda que pode ter parecido uma mera utopia em toda a existência humana, nós, os inventores das fábulas, que acreditamos em qualquer coisa, nos sentimos inclinados a acreditar que ainda não é tarde demais para nos engajarmos na criação da utopia oposta.

Uma nova e avassaladora utopia da vida, onde ninguém será capaz de decidir como os outros morrerão, onde o amor provará que a verdade e a felicidade serão possíveis, e onde as raças condenadas a cem anos de solidão terão, finalmente e para sempre, uma segunda oportunidade sobre a terra.

sábado, abril 16, 2016

O fabuloso discurso de José Eduardo Cardozo - 15/04/2016

Assisti ao discurso de José Eduardo Cardozo, então Advogado-Geral da União, e não deixei de me impressionar. Cardozo equilibrou-se com imensa habilidade por 25 minutos em cima de argumentos construídos com rigor, peso e método, tanto do ponto de vista jurídico quanto político. É uma verdadeira aula de retórica de alguém que domina com perícia aquilo que fala. O eloquente advogado amargou críticas pesadas de setores do Governo enquanto esteve à frente do Ministério da Justiça. Afinal, ele era o chefe da Polícia Federal. Para os sujeitos que firmavam as críticas, a Polícia atuou de forma política e viciada, sem que o ministro interviesse. Escutemos. Daqui a alguns anos, a arquitetura de seu discurso será estudada.

sexta-feira, abril 15, 2016

O momento político atual e uma frase de Lima Barreto

Lima Barreto no início do século XX, verbalizava por meio de seu imortal personagem Policarpo Quaresma: "Ou o Brasil acaba com as formigas; ou as formigas vão acabar com o Brasil". Darcy Ribeiro quando foi ao programa Roda Viva, disse que o Brasil é uma potência; é um país bonito, cheia de energia criadora, mas a sua elite 'ranzinza', 'mesquinha', finória', impede que o país avance. Pensado pela perspectiva policarpeana, as formigas continuam acabando com o Brasil. Alimentam-se de sua seiva, de suas riquezas, de seu viço; impedem avanços, refreiam otimismos. É difícil aceitar que passados mais de cem anos da escrita do livro de Lima Barreto, o Brasil continue a amargar um quadro político regressivo. 

Do início do século XX até hoje, o país passou pelo menos por três golpes. Todos eles apresentaram o desejo sanguinário das elites, conectadas aos desejos do grande capital internacional, de manter o Brasil como um país pequeno e insignificante. Golpes são dados todas as vezes que os interesses das elites são contrariados. O simulacro de democracia que temos, atesta um modelo para se chegar ao poder: no Brasil, para se alcançar o mandato eletivo, é necessário consegui-lo por meio do voto. Mas, essa garantia é relativa em um país de grande violência perpetrada pelas elites. 

Para isso, arranja-se, constrói-se o consenso em torno de determinadas máximas falíveis aos olhos da razão. O poderes República não são esferas harmônicas, capazes de fazer funcionar o Estado Democrático de Direito. O Judiciário não é "última trincheira da cidadania", como afirma o ministro do STF, Marco Aurélio de Melo; trata-se de um espaço para que alguns juízes façam política e distorçam o direito. O Legislativo não é a casa do povo; é o espaço para que os parlamentares trabalhem para os empresários que financiaram as suas campanhas. A palavra "povo" é um termo conveniente para o Legislativo. Pensar no trabalhador, nas crianças de rua, na políticas públicas necessárias, na dignidade, é uma miragem impossível. E o Executivo é o centro que coordena "a gerência da casa". Ou seja, é de lá que saem projetos que dinamizam a vida social e econômica. Dependendo de quem coordene, presida "a casa", abre-se espaço para as políticas que podem ou não beneficiar os trabalhadores - ou ainda determinados grupos da sociedade.

Pois é justamente o Executivo o centro de interesse da burguesia brasileira. O impedimento de Dilma Rousseff está assentado em uma grande farsa, por isso é um golpe. A burguesia aliançada ao capital usa os mais diferentes métodos para aplicar golpes: firma aliança com os militares como aconteceu no Brasil em 1964; judicializa os resultados eleitorais como atualmente está acontecendo; desgasta o governo opositor e popular por meio de determinadas pautas sensacionalistas, estabelecendo conexões explícitas com o aparelho midiático. Para se destruir alguém, nada melhor do que o jogo de especulações e sensacionalismos; nada melhor do que criminalizar, enxovalhar a imagem pública, "depredar" a credibilidade política  por meio do alardeamento de escândalos selecionados e potencializados. Corrupção não é uma prática privativa do governo do PT. Os erros políticos de Dilma não são suficientes para impedi-la politicamente, fazendo romper o seu mandato.

Um golpe a essa altura, colocar-nos-ia na mesma posição de Paraguai e Honduras, que foram os primeiros países latino-americanos a experimentarem rupturas democráticas em pleno século XXI. Essa condição vulnerabiliza conquistas. Coloca-nos numa posição de bagunça; de ausência de seriedade; cria retrocessos graves; abocanha direitos como se visualiza no horizonte que se desenha: a aliança PMDB-PSDB será um massacre contra os trabalhadores e contra os mais pobres. Para que a burguesia continue a ter seus lucros, é necessário fazer mudanças constitucionais e construir garantias de que não haverá resistências ao longo dos próximos anos. Por isso, são necessários pelo menos duas certezas imediatas: (1) retirar Dilma do poder e implantar um agenda conservadora para fazer acontecer aquilo que não aconteceu nos quatorze anos de governo do PT; (2) destruir a credibilidade política do PT e do seu principal líder - Luis Inácio Lula da Silva. Para isso, é importante colocá-lo como o grande bode expiatório da Lava a Jato. Hoje, li uma notícia que informava que há intenções no juiz Moro de encerrar a Operação ainda este ano. Por quê? Por que nos dois anos de Operação nenhum parlamentar do PSDB foi investigado, por exemplo, e tantas figuras ligadas ao PT amargaram a implosão pública de suas imagens? Por que Moro se nega a investigar os duzentos nomes da lista da Odebrecht e não quis a delação do empresário famoso? 

Há quem defenda o golpe sabendo daquilo que deseja com essa ruptura. Todavia, é inadmissível perceber trabalhadores defendendo esse artifício. É como se o algoz convencesse o condenado a comprar a própria corda que matará este. Um dos meios mais eficazes das elites conseguirem seus intentos, convencendo a opinião pública, é por meio de seu aparato de informações. No Brasil, desde o Império e início da República, que os jornais hegemônicos pertencem às famílias mais ricas do país. Com o advento da TV e do rádio, a força retórica do convencimento se tornou maior. Ou seja, não há escapatória para o homem médio - se ele não ler, ele escuta no rádio; se ele não ler nem escutar no rádio, a televisão cria o consenso por meio das edições de imagem. 

Diz Lima Barreto que o quixotismo de Policarpo Quaresma, levou-o à morte. Suas ideias não surtiram nenhum efeito. O seu desejo de "reformar" o Brasil foi suplantado pelos choques com o mundo dos interesses e das conveniências dos grupos que mandam no país. Infelizmente, o que já está desenhado e, que, neste momento está sendo colorido, é a certeza manifesta de que continuamos sendo devorados "pelas formigas"; e que as nossas elites desejam que vivamos acorrentados na escuridão, sem possibilidades de sonharmos com o futuro. 

sexta-feira, abril 08, 2016

"Fome de Saber - a formação de um cientista", de Richard Dawkins

"Todos nós podemos nos considerar improváveis", Richard Dawkins.

Há mais de um mês fui à Livraria Cultura. Perambulei por entre as estantes como sempre faço. Permiti que os meus olhos passeassem pelas pilhas de livros, que ficam logo à entrada, ostentando os lançamentos. Os livros são dispostos em círculos. São três ou mais círculos. São verdadeiros chamarizes. Entre os muitos livros que encontrei, estava "Fome de Saber - a formação de um cientista" (Companhia das Letras), de Richard Dawkins.  Quando o vi, imediatamente coloquei o livro embaixo do braço. Não li nada dele - orelhas, contracapa, introdução... Desejei fazê-lo mais tarde. Sabia apenas que se tratava de material relevante. Naquela ocasião estava lendo Kafka e Graciliano Ramos, por isso, não comecei a leitura imediatamente.

Richard Dawkins é uma figura importante e internacionalmente conhecida. Sua militância é conhecida, seja em debates, palestras ou seminários. O cientista inglês é um dos mais conscientes ateus da atualidade. Não apenas isso, pois ele é um militante da causa ateia. Como em "Deus, um delírio", Dawkins mostra o quanto a religião institucional traz malefícios para a humanidade. "Fome de Saber" é uma autobiografia - sua aguardada autobiografia. Como é característico do autor, o livro possui uma linguagem simples, leve, convidativa. É possível ficar por boas horas lendo sem perceber a passagem do tempo. 

Dawkins começa a contar a história de sua vida, fiando-se pelos costumes bretões. É importante para ele contar certos feitos traditivos de sua família. Busca na história, que chega até o século XVI, o nome "Dawkins". Essa incursão genealógica é relevante para as figuras do Velho Mundo. Nós brasileiros não temos essa preocupação. A história não é um elemento no qual prestamos atenção. Não buscamos encontrar nela os caminhos que nos trouxeram ao presente. Sendo um cientista, Dawkins sabe muito bem analisar a evolução de sua história.

Como era filho de um militar, Dawkins passou boa parte de sua infância no centro-sul do continente africano. Seu pai estava a serviço do seu país. Ele morou em Uganda, Malaui, Tanzânia, África do Sul. Sua vivência com a riqueza natural talvez o tenha preparado, inconscientemente, para a biologia. Dawkins conta que aquilo era um grande prazer. Tanto é assim, que as viagens módicas que realizava para a Inglaterra a fim de visitar os avôs não possuíam o sabor que deveria ter. O clima e a natureza inglesas não davam o prazer sensual que ele sentia quando estava no continente africano. O livro traz algumas fotografias. Entre elas, é possível encontrar algumas de sua residência na África. 

Quando a Guerra acabou, Dawkins voltou para a Inglaterra. Seu pai comprou uma propriedade no interior do país. É o período em que o cientista estabelece contato com o ensino inglês. É numa dessas instituições que ele nos conta como perdeu a fé. Vale fazer uma digressão para contar que Dawkins foi um fervoroso crente na fé cristã quando jovem. Fazia suas orações. Frequentava os cultos da Igreja Anglicana. Cantava no coral da Igreja. Mas, o contato com a ciência fê-lo desistir da fé. Passou a não haver mais sentido para o conjunto de crenças em dogmas que arrimam a fé cristã. Em determinado culto, enquanto todos se ajoelhavam, ele permaneceu de pé, com os braços cruzados. Ele estava a sua nova forma de experimentar a religião - com frieza, tentando discerni-la por meio da razão.

Na segunda parte do livro, o escritor descreve a sua vida como pesquisador. As engenhocas inventadas na Academia. Sua paixão pelos computadores. A descoberta do darwinismo. O emprego conseguido em uma universidade dos Estados Unidos. Na segunda parte, há mais descrições da sua teoria, ou seja, de como ele chegou a escrever a sua grande obra, a saber, O gene egoísta, que o projetou para o mundo e o tornou um dos principais cientistas do século XX. 

Dawkins termina o livro com a promessa que haverá continuação da sua autobiografia, ou seja, um segundo livro. 

sexta-feira, abril 01, 2016

"O Castelo" de Kafka e a anunciação: "algo falta"

"O Castelo, cujos contornos começavam já a diluir-se, continuava silencioso como sempre; K. ainda não tinha visto o menor sinal de vida; talvez fosse absolutamente impossível reconhecer qualquer coisa a distância, e no entanto os olhos o exigiam e não podiam suportar aquela atitude. Quando K. olhava para o castelo, frequentemente lhe parecia estar observando alguém, sentado tranquilamente lá, olhando para ele, não perdido em pensamentos e esquecido de tudo, mas livre e despreocupado, como se estivesse só, sem ninguém a observá-lo; e no entanto não podia deixar de perceber que estava sendo observado" Franz Kafka, in O Castelo, p. 144

Passei mais de um mês lendo O Castelo, de Kafka. A leitura seguiu lenta. Em alguns momentos larguei o livro e me fiei por outro texto. Não é que estivesse achando a história "chata". Havia em mim uma tentativa de tentar assimilá-la, degluti-la, processá-la; desejo de penetrar em seu tema; não me perder em seus labirintos. O fato é que O Castelo não é uma obra para leitores neófitos. Quem deseja gostar de ler, não comece por essa obra do escritor tcheco. Haverá abismos enormes pelo caminho. E, certamente, indisposições compulsórias surgirão. 

Novamente, Kafka flerta com a inverossimilhança. Se em A Metamorfose Gregor Samsa se transforma em um inseto asqueroso e acaba sendo repelido pela família, passando a ser uma espécie de câncer social; em O Processo, Joseph K. recebe dois misteriosos visitantes que avisam haver um processo inexplicável contra ele, em O Castelo, Kafka trabalha com uma redução ainda mais gravosa. A personagem chama-se apenas K. É o suficiente. Uma letra seca, mínima; um código tentando burlar os obstáculos para entrar no Castelo. A construção fica na distância como gigante intransponível. Ele está presente em todo canto por meio dos seus subordinados - secretários, chefes de gabinetes, autoridades várias, que impedem K. de ter acesso ao Castelo. O conde West-West, dono do castelo, ramifica-se por meio do espectro de subordinados que dificultam a existência de K. 

Franz Kafka
Nesse sentido, é importante dizer que Kafka foi um visionário, alguém que criou narrativas grotescas a fim de revelar a modernidade. Walter Benjamin, que escreveu um importante ensaio sobre o escritor tcheco (Franz Kafka - a propósito do décimo aniversário de sua morte), diz que "o mundo das chancelarias e dos arquivos, das salas mofadas, escuras, decadentes, é o mundo de Kafka" (2012, p.148). Kafka constrói cenários absurdos para exemplificar o quanto a vida do homem nas grandes cidades, metido dentro do labirinto das burocracias estatais, perdido nas incongruências de uma rede invisível, que possui o controle do olhar; um deus que é ubíquo, mas que não é alcançado. Ele se faz presente, pois vemos aqueles que agem em seu nome, mas não podemos enxergar-lhe o rosto. É nesse sentido que a obra de Kafka ganha dimensões insondáveis. 

Em O Castelo a narrativa é permeada pelo caos, pelas digressões impossíveis que quebram o fluxo narrativo; vemo-nos perdidos em meio a personagens que surgem do nada. Todos eles parecem ser cúmplices das autoridades do Castelo. Dos três romances que li do escritor, ficou a sensação de que as ações narradas por Kafka sempre insinuam algo que falta. As personagens estão numa grande busca. Samsa não entende o porquê de ter se metamorfoseado em um inseto; Joseph K. procura encontrar uma resposta para o processo e K. procura romper os muros invisíveis que impedem a sua entrada no castelo do conde. O escritor parece direcionar o seu olhar para a existência asfixiada dos homens modernos, controlados, medidos, contidos, premidos pelo poder invisível. As enormes estruturas dos aparelho estatal. O controle com mãos habilidosas. A força que coage, que reprime e aplica sanções, quando o sujeito não atende aos reclames dos tentáculos burocráticos.

Curiosamente, o livro termina do nada. A história é interrompida sem que a personagem consiga ingressar no castelo. Leandro Konder em seu "Kafka - vida e obra", diz que que Thomas Mann premeditou um final para o livro. 

"Ao se interromper o original d'O Castelo, vemos o seu herói, o agrimensor K., sozinho, cansado, obrigado a executar tarefas domésticas para a criadagem do hotel, a fim de não morrer de fome. Segundo afirma o escritor alemão Thomas Mann, o romance deveria terminar com a morte de K. e, minutos após o seu falecimento, a chegada de uma mensagem autorizando-o a se apresentar no Castelo para a tão ansiada entrevista pessoal com um dos inacessíveis comparsas do conde West-West" (1974, p. 175).

Sei que isso seria uma digressão ou, talvez, uma comparação esdrúxula, mas o esdrúxulo é a
argamassa que Kafka utilizava para erguer os seus monumentos literários. Imagine um paciente que precisa de um transplante de rim ou que esteja com uma doença que demanda cuidados urgentes. Não tendo dinheiro para pagar um tratamento em um serviço particular, a pobre criatura recorre ao serviço público. Dorme na fila a fim de conseguir uma consulta. Na primeira vez não consegue o que pretendia. Recebe apenas a indiferença de servidores públicos acostumados com a insensibilidade da máquina emperrada da burocracia estatal. Tenta mais uma, duas, três... cinco vezes até conseguir. Ele quer o hospital (o castelo?). Ele precisa entrar ali. Entrevistar-se com um médico de cara dura. Consegue marcar a consulta. Precisará esperar quatro meses para ser atendido. Todavia, nesse espaço, a sua saúde complica e o infeliz paciente acaba falecendo a um dia da consulta. 

Outra situação é um preso que acabou sendo condenado injustamente. Ele é de periferia. É pobre. Sabe que o Estado está em dívida com ele. O único advogado que consegue é da Defensoria Pública. Mas, nas idas e vindas, o seu caso acaba passando pela mão de cinco defensores. Cada defensor que analisa o caso, precisa voltar a estaca zero. O réu precisa de uma apelação. Ele deseja um novo julgamento. Não tem êxito. Sua solicitação é indeferida por juízes frios, entricheirados no regulamento. Os anos vão passando - cinco, dez, quinzes anos. A única coisa que o condenado deseja é provar a sua inocência. Quer um novo julgamento. Estar diante do juiz e da promotoria (o castelo?) com um advogado honesto, probo, comprometido. Finalmente, consegue. A audiência é marcada. Mas, uma rebelião explode em seu pavilhão. Os presos amotinam-se. Fazem reféns. A polícia tenta negociar. O charivari aumenta. E no meio do ensadecimento, dois dos reféns são mortos. Um deles é o condenado, que morre a um dia do seu julgamento. 

Por mais que sejam excêntricas essas histórias, elas são kafkianas. Penso que essa monumental obra que é o Castelo, aponte para esses casos. Kafka olhava para o mundo e ele estava  vestido pelo grotesco.

Livros citados:

BENJAMIN.Walter, Magia e Técnica, Arte e Política - ensaios sobre literatura e história da cultura - Obras Escolhidas I, Brasiliense, 2012, 271 pp.

KAFKA.Franz, O Castelo, Nova Cultural, 2003. 446 pp.

KONDER.Leandro. Kafka - vida e obra, José Alvaro/Paz e Terra, 1974, 217 pp.

segunda-feira, março 21, 2016

Algumas considerações sobre Graciliano Ramos e Memórias do Cárcere


"Quem dormiu no chão deve lembra-se disto, impor-se disciplina, sentar-se em cadeiras duras, escrever em tábuas estreitas". 

Graciliano Ramos, in Memórias do Cárcere, p. 34

Estabelecer contato com a literatura de Graciliano Ramos, permite-nos uma experiência indelével com a palavra. Para o escritor alagoano, a palavra é uma centelha poderosa capaz de produzir incêndios incontroláveis aos sentidos. Desde o fim de minha adolescência que tenho estabelecido um contato e uma admiração elevada pelo grande escritor. Desde o primeiro livro que li dele - São Bernardo ou Memórias do Cárcere? - que todos as vezes que vou aos seus textos, sou acometido por uma sensação de que estou diante de algo extraordinário; da alta literatura, da narrativa orquestrada por um maestro de gestos secos, ásperos e pouco afeito à lisonja. Conhecido pela discrição, pelas poucas palavras, pela biliosa relação que mantinha em algumas situações, é possível sentir a torrente de realismo, de honestidade e força da sua literatura. 

Quem quiser descobrir o efeito que as palavras possuem. Como elas devem ser limadas, esmerilhadas, catadas, lançadas na bateia da grande narrativa, é preciso recorrer ao Graça. Nele, percebemos a ausência de cortesia; o que há é a dureza contra os ademanes da bajulação, contra a blandícia escondida nas convenções sociais. Essa seriedade, esse vigor, extraído da vida, foi posto em sua literatura. Graça é um nome que traduz aquilo que João Cabral de Melo Neto expressou de forma arrojada em seu antológico Educação pela Pedra:

No Sertão a pedra não sabe lecionar,
E se lecionasse, não ensinaria nada;
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a alma.

Sim! Havia uma pedra em sua literatura, de "carnadura concreta", de adensamento compacto; capaz de infundir "a lição de moral"; de malear lâminas com sua "resistência fria". A facticidade é realidade que não se pode negar, por isso, a pedra simplesmente declara a sua presença. Diz-se enquanto realidade no mundo. Em Graciliano, a palavra é pedra; e ela diz mais que qualquer coisa, é sólida, promove uma experiência concreta. Ele não buscava se meter em grandes divagações, em digressões, em perambulações elogiosas. Sua preocupação era narrar o fato. Dizê-lo. Assumi-lo enquanto realidade inolvidável. 

Essas impressões se renovaram após a terceira - irrequieta e deliciosa - leitura que realizei de Memórias do Cárcere, livro cuja singularidade me permitiu enxergar o inconfundível sabor da literatura. Foi com ele, ainda no final do ensino médio, que desejei aprender a escrever. Todo aquele comedimento, o método, a frase perfeita, o período curto às vezes, mas, lancinante, a esmiuçar o tecido nervoso da realidade. Sim! Foi com essa literatura que corta como um bisturi; que não está preocupada com os brincos e maquiagens que escondem a face nua do mundo e de suas amarras, que desejei aprender a usar a palavra. As palavras são tijolos que constroem catedrais invisíveis de discursos. São elas que dão sentido ao mundo humano. Elas distorcem fatos verdadeiros. Maximizam acontecimentos irrelevantes e a depender do locutor, pode transformar poças de água, em grandes oceanos. Saber usá-las. Medi-las com diligência. Apascentá-las com o labor e diligência de um pastor é um dever de todo sujeito que se propõe a enunciá-las. Graça aprendeu isso como ninguém. Talvez, pelo fato de ter crescido em ambiente hostil à palavra. Os pais eram duros. A mãe, Maria Augusta Ferro, revelava dureza até no nome. Essa dureza fica evidente, por exemplo, no capítulo Inferno, de Infância. Ou no outro capítulo do mesmo livro - Um cinturão - que narra a surra que tomou do pai, um sujeito de "modos brutais, coléricos". Neste livro encontramos uma afirmação bastante emblemática que serve de fórmula metalinguística à sua literatura: "Na escuridão percebi o valor enorme das palavras". 

Memórias do Cárcere é um livro póstumo. Foi escrito nos anos finais da vida do grande escritor. Sua saúde já estava bastante combalida quando começou a escrevê-lo. Graciliano trabalhou por árduas semanas. Não chegou a concluir o último volume. Interrompeu para escrever Viagens, livro que narra suas impressões da visita que realizou à União Soviética e aos países da Cortina de Ferro. São livros que ele não teve tempo de revisar. Se tivesse o tempo necessário, por exemplo, para analisar as Memórias do Cárcere, certamente teria arrancado uma quantidade enorme de fatos. Sua função era "dizer", simplesmente "dizer", a palavra mal empregada, mal assentada no edifício do texto, comprometia qualquer obra do arquiteto.

Para escrever as Memórias, Graça conta os fatos que sucederam nos anos de 1936 e 1937. Foi acusado pelo Governo de Vargas de que era um conspirador, um agente vermelho a serviço do comunismo. Todavia, eram apenas suspeições. Não havia provas materiais contra o escritor. Ela assumia o papel de K. da obra O processo, de Kafka. Existe uma acusação, mas aonde está o libelo material? Acusado pelo aparelho estatal totalitário, o alagoano se ver diante de personagens variadas. Percebe a ausência conexão entre os fatos e as intenções revolucionárias dos presos políticos. Como fazer revolução em país "cheio de beatos de Padim Cícero"? Ou como reunir a malta sub-letrada de um país afundado na indigência intelectual? Graça fora vitimado pela intrusão da burocracia varguista. O país estava mergulhado num estado de exceção. Vargas flertava com Mussolini e com Hitler. O Integralismo era um câncer social. O obscurantismo crescia por todos os lados. Graça falava em "fascismo tupinambá". Como se defender? E num erro de cálculo, os comunistas haviam tentado iniciar um levante revolucionário em 1935. Eram razões mais que óbvias para a burguesia do país referendar a perseguição. Sujeitos como Graciliano Ramos pareciam oferecer perigo. Mas que perigo? O próprio Graça ria do senso revolucionário tupiniquim e das momices do governo. Nossa anemia intelectual nos impelia a construções extemporâneas, sem que houvesse considerações da sociedade em que se vivia. Em Alagoas, ele encontrou em um muro: "Índios, uni-vos!". A afirmação incongruente alargava a indigência teórica dos revolucionários de nossa terra.

Carlos Vereza no papel de Graciliano. Memórias do Cárcere, filme de Nelson Pereira dos Santos

Graça ficou preso em um quartel no Recife. Depois, foi embarcado em um navio. Costeou o Nordeste e, finalmente, chegou ao Rio de Janeiro - Ilha Grande e Colônia Correcional. A latrina que se constituiu o porão do navio era um amostra de como a burocracia totalitária e insensível de Vargas tratava os prisioneiros políticos, em sua maioria sujeitos que haviam ingressado em uma esparrela revolucionária. Eram colocados em um submundo. Tornavam-se como bichos, jogados de um lado para outro. Sendo ruídos pelos piolhos, percevejos e pela mucurana. Alimentado-se mal. Sem um lugar satisfatório para dormir, Graça definha. Emagrece. Fuma desvairadamente. Observa a fauna humana. Seus ritos. Caprichos. A contradição nos gestos. Os muros erguidos. Os chefetes legitimados por uma farda. Criaturas inexpressivas. Insetos sociais, que se agigantavam quando escudados pela força autoritária do Estado. Mas, às vezes, a cordialidade aparecia. E esmaecia por trás das nuvens dos interesses. Como o próprio Graça vai dizer: "Éramos cupins dentro do edifício burguês".

O livro é dividido em quatro partes. Cada uma das partes tem o propósito de narrar um lugar em que esteve o autor de Vidas Secas. Quando penso em experiência em prisões, não devo deixar de citar três livros imprescindíveis para mim: "Memórias do Cárcere", "Recordação da Casa dos mortos", de Dostoiévski e "Os contos de Kolimá", de Varlam Chalámov. São retratos de como a esterilidade de pensamento político pode transformar seres humanos em resíduos, em peças de uma engrenagem que desumaniza, que espolia a dignidade necessária que nos coloca numa posição que, nós humanos, julgamos especial. A exploração do homem pelo homem é um dos fatores que levam ao emprego dos mais variados tipos de violência. 

domingo, março 20, 2016

Os heróis e a conveniência

 
A mídia burguesa precisa construir heróis para que os setores conservadores tenham uma sensação de que a justiça está sendo feita. Todavia, todo Aquiles possui um calcanhar... O que a mídia não fala é que a luta de classes tem lado. De um lado os trabalhadores, que precisam de mobilização, organização; do outro, todo o aparato que legitima esse estado de coisas da ordem burguesa (a mídia nos seus mais variados formatos a destilar consensos, empresários, setores do Estado - Polícia Federal, Judiciário, Ministério Público, que são instâncias em que "os embaixadores das elites" se estabelecem para subverter as garantias constitucionais) -, os rentistas etc. No Legislativo, boa parte dos parlamentares são meninos de negócio do capital. No meio disso tudo está a classe média "fascinada" com essa cantilena de força tarefa anticorrupção. A corrupção deve ser vista como elemento antropológico no Brasil. Deve ser estudada, debatida, pesada, avaliada. Não é um sujeito que vai erradicá-la. 

O que está em jogo é a implosão do Estado Democrático de Direito, construído a duras penas. O que está em jogo ainda é uma dura ofensiva conservadora neoliberal que virá com fúria total contra os trabalhadores e contra os direitos trabalhistas. Lembrem-se de que o projeto da terceirização está guardado "em banho maria". Ainda não foi completamente derrotado. Que o desejo da FIESP é a derrocada da CLT; a morte dos direitos que ainda dão dignidade ao trabalhador - 13° salário, férias, seguro desemprego etc; que o PSDB, o partido com mais chances de assumir a presidência caso o PT saia de cena, foi majoritariamente favorável ao projeto quando este foi votado na Câmara. A classe média não consegue enxergar que a gravidade impele para baixo todo corpo que é jogado para cima. Uma pedra atirada para o alto, pode voltar sobre a sua própria cabeça. É só olhar para o lado e perceber o que Macri tem feito com a Argentina. Mais de 30 mil servidores públicos já foram demitidos; arrocho; aumentos desordenados para favorecer o grande capital. O capital precisa de crises para se fortalecer. Todas as vezes em que há crises, quem perde são os trabalhadores que precisam voltar a rolar a pedra para tentar subir a montanha como no mito de Sísifo.
P.S. Como disse alguém, há alguns anos atrás foi o Joaquim Barbosa.