quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Ir e Vir

Carrego em meu espaço interior
Os silêncios dispersos das galáxias universais.
Em mim Há o silêncio das catedrais
Distantes, perdidas sob o signo do tempo.
Frestas luminosas por onde escapa
Uma centelha de luminosidade.
Espanto e contemplação.
Medo e alegria a se jungirem.
Nas cavidades e reentrâncias da alma.
Nos espaços mais escondidos
E inacessíveis.
No horizonte que não pode ser atingido,
Senão pela imaginação.
Ausento-me de mim e volto.
Amo e odeio as minhas intenções.
Monstro rutilante, paradoxal.
Derramo luz como o sol,
Mas em mim há buracos negros
E bombas invisíveis que estouram
Sob o potencial de mil megatóns.
Objeto complexo.
De significância insignificante.
Ente cultural.
Eduquei-me com os homens
E aprendi a amar com as estrelas.
Os meus segredos se mostram na minha face.
Sob as pregas do rosto estão escritos livros.
Romances, crônicas e poesias.
Hoje estou para a quietude de mil eras.
Uma música é cantada no istmo
Mais afastado da alma.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Comentário à peça o Judas em sábado de Aleluia de Martins Pena

A peça teatral O Judas em Sábado de Aleluia foi escrita por Martins Pena. Este nasceu em 1.815 no Rio de Janeiro e morreu em Lisboa no ano de 1.848. Martins Pena pode ser considerado como um dos maiores escritores do gênero teatral brasileiro. Com um realismo ingênuo, o autor de O Judas em Sábado de Aleluia, pode ser considerado como o criador no Brasil da comédia de costume, com forte tom popular. Ele é o primeiro autor popular da história do país, pois os seus trabalhos buscam retratar o homem real, com suas ações reais. Dotado de singular veia cômica, soube aproveitar o momento em que se intensificava a criação do teatro romântico brasileiro, que possibilitava tratar das situações e personagens do cotidiano, e mostrou a realidade de um país atrasado e, predominantemente, rural, fazendo a platéia rir de si mesma. Seus textos envolvem, sobretudo, flagrantes da vida brasileira, do campo à cidade. Assim, apresenta com temas principais, os problemas familiares, casamentos, heranças, dotes, dívidas, corrupção, injustiças, festas populares etc. Sua galeria de tipos compreende: funcionários públicos, padres, meirinhos, juízes, malandros, matutos, moças namoradeiras ou sonsas, guardas nacionais, mexeriqueiros, viúvas etc.
A peça O Judas em Sábado de Aleluia trata basicamente de um tema comum esboçado pelos autores românticos: das moças que buscam um noivo para si , bem como um reforço retratista da pequena burguesia: funcionários públicos, militares, etc. A história se desenrola na casa de Pimenta, cabo da guarda-nacional e pai de Maricota e Chiquinha. Estas duas moças, principalmente, Maricota sonham com o casamento. Sonho e desejo comum das jovens solteiras do século XIX. Para isso, resolveu namorar a tantos quanto pudesse. Isso permitiria a ela maiores oportunidades. Conforme ela mesma disse à irmã: "Ora dize-me, quem compra muitos bilhetes de loteria não tem mais probabilidade de tirar a sorte grande do que aquele que só compra um? Não pode do mesmo modo, nessa loteria do casamento, quem tem muitas amantes ter mais probabilidade de tirar um para marido?" Já a sua irmã Chiquinha possuía uma atitude mais sôfrega. Não era dada a requestos tão intensos.
A história avoluma-se ou alcança um ponto inflexivo quando aparece a figura de Faustino à porta da casa para ter com Maricota. Faustino lamentoso, questiona o amor de Maricota por ele e afirma a infelicidade que habita a sua alma inquieta. Maricota diz que o ama. De repente chega o capitão da Guarda Nacional, que é um dos pretensos namorados de Maricota. Faustino assume o disfarce de Judas, que alguns meninos preparam para o Sábado de Aleluia. Portanto, este escuta a fala de Maricota com o capitão. Em seguida, chega ainda o pai de Maricota. Esta corre. Pimenta, o pai das duas donzelas, fica a tratar de negócios com o capitão. Conversam basicamente sobre a situação de indisciplina que anda a Guarda Nacional. Faustino disfarçado de Judas de aleluia escuta a conversa. O capitão retira-se.
Volta à sala a figura de Chiquinha para continuar a coser o seu vestido para a festa de sábado de aleluia. Em dado momento, esta suspira alto e confessa a sua paixão por Faustino. O rapaz deitado, disfarçado no chão, aproxima-se dela e é solidário ao amor da moça. Chiquinha sente-se envergonhada, mas se mostra crédula com a recepção do amor de Faustino. O pai retorna à sala, Chiquinha corre e Faustino se esconde. Pimenta dessa vez traz consigo a figura de Antônio. Os dois especulam sobre um negócio escuso que estão praticando no porto. E temem. Faustino absorve todas estas informações. Os dois homens temem ser descobertos pela polícia. Isso propiciaria um destino infausto. Faustino, deitado, ensaia uma voz que parece ser da polícia. Os dois encolhem-se de medo. Quando à porta bate o capitão. Pimenta e Antônio se atarantam. Finalmente, os três ficam juntos e entendem que algo misterioso se passava no interior daquela casa.
Os meninos que preparavam o Judas entram na sala para malharem-no. Faustino corre. Os presentes à sala se assustam com o espantalho que toma vida. Todos correm. Uns se escondem embaixo da mesa; outro sobe num móvel; outros ainda rolam no chão. Chiquinha não se altera por saber a identidade do espantalho Judas. De repente Faustino volta ao interior da casa ameaçado por algumas crianças que encontra na rua. Temendo a própria vida volta para ter com os que jaziam espantados. Martins Pena deixa transparecer a sua verve cômica nessa cena.
Começa a partir daí a vingança de Faustino. Este se põe no meio daqueles que dantes estavam espantados. O capitão, Antônio, Pimenta e Maricota ameaçam Faustino. Tal ameaça expressa claramente uma ignorância por parte dos personagens, que não têm conhecimento dos segredos adquiridos por Faustino. Este se apropria da fala e se vinga de cada um dos personagens. As suas intenções são manifestadas: Maricota se casa com Antônio (um velho). Suas intenções não graçam, não tomam vida. Ao cabo, Faustino beija o rosto de Pimenta, realizando o ato de Judas, o discípulo de Jesus, que o traiu com um beijo na face. Aqui o personagem ironiza e pede a mão de Chiquinha em casamento.
Na peça fica patente a crítica de Martins Pena à sociedade hipócrita que semeia visões distorcidas daquilo que é em sua interioridade podre. Os costumes visuais ocultam as sujidades reais. Percebe-se a crítica à moral burguesa com os seus desejos e certezas. Fica clara ainda a figura da esperteza de Faustino.
Por Carlos Antônio M. Albuquerque

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Cinco considerações de Nietzsche sobre a modernidade

A crítica do filosofo residia no fato de que o homem moderno é incapaz de construir um saber e uma cultura como resultado de seu próprio crescimento. Há no mundo ocidental a triste realidade da imitação inconsciente. Copia-se tudo. Trata-se de um plágio limitador. Não há por assim dizer originalidade com relação a esse tocante. A supersaturação de contingentes culturais não enriquece, todavia faz surgir o contrário.
1. Acumulação de saberes estranhos – o homem moderno é um colecionador, um acumulador de conhecimentos sem que estes conhecimentos se tornem um fator de fecundação no próprio homem;
2. Imparcialidade, objetividade ou neutralidade científica – estuda-se fatos que não possuem uma relação direta com o indivíduo. O resultado disto é o bloqueio dos impulsos imediatos. Tais bloqueios inibem a capacidade do indivíduo de construir a sua própria experiência histórica –.
3. Desenraizamento do futuro ou interferência dos instintos vitais de um povo – constrói-se uma rede tênue de convicções sobre o que pode ter sido a experiência de um povo – sem que isso de fato possua concretude histórica. A vida é sacrifica, pois deve buscar se conciliar com um velho saber histórico, que pertenceu a um outro povo.
4. Envelhecimento precoce das novas gerações – as forças jovens são levadas a compreenderem que são as últimas dentro de um processo histórico. Deixam para trás o potencial de levarem a frente a possibilidade de construir o futuro por intermédio de um processo novo.
5. Supersaturação, auto-ironia e cinismo – desejo de romper com a supersaturação histórica, sem contudo permitir a pulverização dos saberes culturais alienígenas. Não é possível que o saber seja destruído de fora. O saber deve lançar o seu próprio aguilhão sobre si mesmo. A História deve resolver o problema da própria história.


Por Carlos Antônio M. Albuquerque

domingo, fevereiro 17, 2008

Vontade de poder

"Não escapará a um olho e a uma sensibilidade mais fina o que talvez constitui o encanto destes escritos, – que aqui um sofredor e um carente fala como se ele não fosse um sofredor e um carente. Aqui é para ser mantido o equilíbrio, a serenidade, até mesmo a gratidão ante a vida, aqui domina uma vontade austera, orgulhosa, constantemente desperta, constantemente sensível, que se impôs a tarefa de defender a vida contra a dor e de quebrar todas as conclusões que costumam crescer da dor, desilusão, tédio, isolamento e outros solos pantanosos feito esponjas venenosas. Talvez isto sirva de sinal aos nossos pessimistas para que se testem a si mesmos? – pois foi naquela época que eu me convenci da proposição: "um sofredor ainda não tem direito ao pessimismo!””

Friedrich Nietzsche

O desejo da superação conduz à vida.
Não deixar se intimidar ante o desafio.
A grandeza é construída por mãos calosas.
Os passos austeros devem se insinuar na estrada.
O não conformismo ante a expectativa medíocre.
Não se queixar, não murmurar, não esmurrar o vento.
Não fechar os olhos mesmo em face do cansaço.
Extirpar os sortilégios;
Os consolos pífios.
Os sabores anômalos de uma consciência agredida.
Não permitir que as meias verdades sejam bússolas
Orientadoras, pois elas fragilizam a sensibilidade.
Caminho em meio aos homens de uma vontade só.
“Poder-se-ia acrescentar a esta lista homens que são
Só braços, homens que são só cérebros, homens
Que são só músculos”, homens que são só homens.
Homens aleijados, limitados pela visão míope que
Foram acostumados a alimentar.
A vida não deve ser negada em momento algum.
Uma fraqueza não é uma desculpa contra a vida.
Criaturas que se acostumaram a andar apenas de
Um lado – homens caranguejos.
Que exageram com assombros deletérios.
Famigeradamente alimentam rancores e ressentimentos
Contra a grandeza.
O ressentimento é uma cola que atrai apenas a incapacidade
Do auto-encontro.
Lance-se fora toda o heroícismo auto-proclamado.
Fruto de um desejo inseguro, infantil.
É preciso manter o equilíbrio e a decência;
A gratidão por tudo o que cheira à vida.
Permitir que uma onda de ousadia rebente austeramente
Nas areias do nosso mundo.
Que dilapide, dilacere os rochedos.
Que dinamite as impurezas, os entes poluidoras de
Nossa virtude.
Sem que isso seja fruto de uma moral de rebanho.
É preciso ter um sanidade orgulhosa,
“Constantemente sensível, constantemente desperta”.
E acordar a cada manhã tendo a consciência
Que o caminho que trilhamos se estabelece à
Proporção dos passos que damos.
Pois mesmo o padecente deve está grávido de esperança.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque


domingo, fevereiro 10, 2008

Coisas XIV

A foto desbotada.
O álbum descolorido.
A memória fugidia que se dilui
Na curva distante da memória.
Os dias passam.
O silêncio do seu caminhar.
Um dia, dois dias...
Um ano, dois anos... cinco... anos...
Nem damos por essa passagem que
Vitima nossa saúde.
Põe rugas na face de nossa História.
A vida, o que é a vida?
Essa música já me fez chorar um dia.
Ela ressoa dentro de mim.
Os seus acordes suaves
Já não arranca lágrimas dos meus olhos.
A mudança que se perpetra a cada dia.
O absoluto relativo dos dias.
A pequenez frágil de nossos valores.
Desisto de pensar.
Desisto de imaginar coisas grandiosas.
Amanhã talvez essas nem mais sejam.
As sucessões do tempo trará novos humores.
Seremos visitados por uma situação nova.
As horas escorrerão, voarão.
Cansado do mistério dessa caminhada.
Sento-me ante a novidade que me abraça.
Novos dias surgirão com novidades enormes.
Penso nessas sucessões de coisas.
E sigo enervado e curvado.
A tinta invisível do tempo escreve
Em mim as suas linhas.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Sobre o trabalho e o trabalhador

Um desgosto melancólico se apoderou de meu interior. O dia inoculou em mim o veneno do desengano. Ouvi sentenças agravosas. O capitalista é um ente sem escrúpulos. Seja ele cristão, mulçumano ou budista, quando o que está em questão é o lucro, o potencial da mais-valia transforma-lhe o semblante. O valor de um proletário está na sua força de trabalho. A única coisa que possui é esta capacidade para a ação. Seja ela braçal ou intelectual. O capitalista não se preocupa com a dignidade, com a sua saúde ou com a vida do trabalhador, mas o quanto o infeliz lhe pode produzir de riquezas.
O trabalhador não tem importância. Ele é uma mercadoria substituível. O mercado potencializa a especulação, daí a incerteza do trabalhador pelo dia de amanhã. Amanhã será outro dia que trará outros eventos, e com ele, novos humores. Pelas sucessivas crises que o capitalismo atravessa, o mercado pode se resfriar e isso pode transformar conseqüentemente a situação do assalariado. Assim existe um sentido paradoxal. O trabalho exercido pelo trabalhador é importante. Por sua vez, o trabalhador, não.
Para o capitalista “o trabalho morto, isto é, o trabalho já realizado e cristalizado no produto, nas máquinas etc., [é mais importante] do que o trabalho vivo, a pessoa do trabalhador”. Este absoluto é trágico, pois transforma os homens em produtos, objetos, coisas.
Vinha no trem, hora do rush. O réptil de lata se arrastava em cima de trilhos, apinhado desses indigentes, alienados. O semblante cansado, as fisionomias rotas. Entabulados numa furna. Eram animais confinados num espaço limitado. Jazigo de povoamento disputado palmo a palmo. Apinhavam-se à semelhança de bichos num curral. Trata-se de um rebanho marcado, crivado, tatuado pelos sinais do tempo. Criaturas emergentes a alimentar o americam way of life.
Enxerguei no rosto de cada um deles um orgulho individualista. Moços de gravatas. Trabalham nos agentes financeiros (bancos) deste país ou num escritório. Recebem um emolumento ordinário. Os bancos lucram anualmente cifras bilionárias. Pagam um salário magro ao infeliz que se sente um superstar. Moças vestidas com esmero. Ocupam cargos que há 50 anos o mundo machista ocidental não permitia. E eu como eles, alienado. O eco da infâmia a reverberar na minha interioridade. Ouvira e sentira indignidades. A sensação de estupidez na face. Talvez em meio ao surto de consciência eu me assemelhe ao Operário em Construção de Vinicius de Morais. Ao homem que um dia descobriu quem era. A visão que teve de si mesmo foi a de uma engrenagem que alimenta o sistema. Uma peça, um joguete, mero objeto inqualificado, mas que com a sua força alimentava o mundo.
Refleti que a melhor forma de desmobilizar os homens, de frear os ajuntamentos ou inibir qualquer iniciativa coletiva é promover o individualismo em detrimento da ação solidária. Deve ser por isso que a luta por movimentos sociais está tão fragilizada. Talvez seja por isso que os homens já não gritem. Não saiam às ruas lutando por melhorias. Deve ser por isso que as greves viraram seções esquecidas em livros didáticos. O indivíduo (aqui chamo “indíviduo” e não proletário apenas para reforçar a tese do individualismo) por trás da repartição não tirará a sua gravata de seda comprada com cartão de crédito numa loja de repartição para sair à rua, empunhando uma bandeira por uma causa. Afinal, o sistema diz que os que assim procedem são desocupados. O senso comum vulgariza as causas políticas e apregoa: “política é lixo. É sujeira”. Mas recordo aqui de Bertolt Brecht que no auge de sua serenidade proferiu: “Sabe mal o infeliz( o analfabeto político) que o preço do pão, do óleo, do café advém justamente de causas políticas”. Se o sujeito político não está interessado em política, o político está interessado no ser alheio à política. Porque o político sabe que a indiferença do cidadão para com a política alimenta a possibilidade de ação desenfreada, sem regras.
Althusser tinha razão quando afirmou de forma contundente que os aparelhos ideológicos se disseminam a fim de amarrar os indivíduos a uma teia forte onde o modo de produção se reproduz de forma eficaz. A ideologia se materializa por meio de múltiplos canais, que reforçam a tese do grupo dominante. O sistema se espraia por todos os lados. A mídia imprime os conceitos, o direito instila os conceitos, a igreja apregoa os conceitos, o Estado coordena a assessora os conceitos por está a serviço de uma minoria. A tese do marxista francês serve para avaliar com total e plena visibilidade as estruturas de dominação. Para Althusser ‘a ideologia é a relação imaginária que os homens mantém com as suas condições reais de existência, conservando os indivíduos prisioneiros de uma ilusão vital. Contribui também decisivamente para a reprodução da sua força de trabalho e das relações de produção que lhes são próprias’.
O trabalhador nunca foi tão crivado de exigências. O seu depauperamento se configura dia a dia. A sua situação se agrava. Penso que possa retroceder até aos dias da Primeira Revolução Industrial, quando se trabalhava de 14 a 18 horas por dia sem direitos trabalhistas. Um estado de embrutecimento e selvageria se apodera das mentalidades. Um desejo no meu peito de gritar para o mundo inteiro. Marx verbalizou no Manifesto do Partido Comunista de 1848: “Trabalhadores do mundo, uni-vos”. E eu: “Homens de todo mundo, acordai do sono letárgico que vos envolve. Temei por vossas almas. A barbárie se aproxima de vós com um desejo voraz”.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

quarta-feira, janeiro 16, 2008

A estrada


A imagem ao lado é extraída do excelente filme "Sonhos" (1990) do cineasta japonês Akira Kurosawa. O filme trata "da natureza e da sua relação com o egoísmo humano, e da destruição imposta a si mesmo e ao planeta". Esta obra serve apenas para atestar que "a vida humana se dá na estrada". A caminhada é longa e tortuosa. Amamos e choramos na estrada. Ler sinopse do filme: ttp://www.webcine.com.br/filmessc/sonhos.htm

A vida acontece na estrada
Curvas inesperadas, abismos
Os dias rolam, passam, caminham;
A vida morre na estrada;
Os pés pisam num tapete florido, mas
o abismo é escuro;
Seguimos por aqui, por ali;
O infinito é tão longe;
Está onde os meus pés
Podem ir, seguir;
A caminhada levanta poeira,
Porque a vida chora na estrada.
A trajetória desencontrada.
Vidas, muitas vidas humanas,
Muitos caminhos, infinitos caminhos
A serem perseguidos.
Distintas opções, distintas razões.
Posso caminhar contigo?
A vida ama na estrada;
Repete-se a curva;
Outra montanha azula naquela direção.
O planalto, ladeira abaixo;
O rio de água escura,
Transparente, cristalina.
A estrada nos forja;
A estrada nos forma;
A vida se transforma na estrada;
Nascemos para caminhar e
Enquanto caminhamos nos formamos.
Os pés se sujam no barro,
Na poeira, no pântano, na lama,
No charco;
As estações se sucedem na estrada;
É importante entender a caminhada,
Embora não saibamos
Onde a estrada vai dar;
O destino é tão longe,
Mas pode acabar ali,
Porque a estrada é mistério;
Ela extrapola a razão das
Causas óbvias.
Porque é caminhando que
A vida acontece na estrada.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

quinta-feira, janeiro 10, 2008

A minha solidão de todas horas

"Odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia". (Nietzsche)

Meus sentidos soluçam,
Sussurram, gemem.
Um astro abandonado numa galáxia
Fria, obumbrada, distante.
As desarmonias, a inconstante leveza.
Os meus silêncios como companhia.
Pirilampos tímidos a iluminar os
Meus pensamentos.
Os meus vales secretos,
Escolas estéticas.
Metáforas coloridas, representações
A me dominar por completo.
Música, acalanto, poesia.
A solidão transforma os homens em
Monges veneráveis.
A sisudez, a reflexão, o olhar
Projetado para dentro de si.
Não penso sobre desarmonias.
Eu sou a desarmonia, o encontro e desencontro.
O espelho projeta mais perguntas
Do que respostas.
A solidão nos ensina a ouvir
Mais do que responder.
Fala muito quem não houve muito.
Acusado de louco, demente, doente,
Vivo só, mas como se andasse em
Bandos.
Há aqueles que andam em bandos,
Mas estão sozinhos.
Para mim tanto faz.
O mundo é uma estrada solitária.
As presenças que se insinuam,
São efêmeras – um sol de inverno.
Ah! Solidão, companheira, amiga,
Filósofa, ensinas-me mais do que
Todas as bibliotecas.
Tu me ensinas e me habitas.
Contigo vivo existencialmente
Entre montanhas geladas, silenciosas.
Os seus cimos brancos, tempestuosos.
Habitada por fiapos brancos da neblina
Metafísica do mistério.
Não falo por conceitos, mas por metáforas.
Porque a metáfora é o cimento que estrutura
E dá sustentação ao texto do poeta.
Os homens lá foram caminham distantes, errantes,
Em suas rotas transviadas.
Escutam, mas não ouvem;
Vêem, mas não enxergam.
A arte é uma senhora que gosta das paisagens
Calmas, tranqüilas, solitárias.
Ela habita as coxilhas indivisas do infinito.
A minha solidão é um portal
Dimensional para esse mundo
De delícias.
A vida possui fenômenos trágicos.
Todos eles são belos porque nos
Mostram quem somos.
A paisagem ao lado se extingue
Na memória,
Mas revive na existência.
A solidão é emplasto que cura
Minhas oncoses relacionais.
Os contágios, os contatos insuficientes,
Os encontros vazios.
Não me chames para fora,
Quando aqui dentro eu sou
Habitado por todas as paisagens
E prazeres do universo.
Aristóteles, aquele citadino disse
Certa vez que o homem é um
Ser social;
E: que somente um deus ou um
Estúpido tinha prazer na solidão.
Nietzsche acrescentaria:
“Este homem seria um poeta ou filósofo”.
Aquele ente de Estagira era um homem
Da pólis com os seus sonhos
De cidadania.
Por isso escreveu “A Política”.
Aquilo era um tratado de como
Os homens deveriam ser portar
E serem bons cidadãos para que a
Democracia ateniense funcionasse.
Os gregos apolíneos gostavam da ordem,
Da harmonia, da virtude, das certezas balofas,
Dos pensamentos retos e planos, cultuavam
As aparências e esqueciam o trágico da
Existência.
Rechaçavam toda forma de embriaguez,
A lucidez deles estava a serviço do nada.
A solidão me envolve e me lança em
Lagos de reflexão.
Águas profundas, turbadas pelo mistério.
Por infinitas possibilidades.
Pelas estradas que se perdem no horizonte
E pedem para que eu caminhe por elas.
Mas eu tenho somente dois pés
E a certeza infinita das minhas limitações.
Tenho uma companhia perene:
A minha solidão de todas as horas.

Por Carlos Antônio M. Albuquerque

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Sobre um assalto em Goiânia – dia 24/07/2005, 22:45hs


Esses dias fui à cidade de Goiânia e me lembrei de um episódio ruim. Aconteceu em 2005. Fui à igreja. Ao sair da reunião, quando dobrava a esquina, fui surpreendidos por um elemento que veio em nossa direção - eu estava acompanhado - empunhando uma arma. Ameaçou-nos. Levou os nossos pertences. Ficou a lembrança enxovalhadora. A indignação. A sensação de que estamos desprotegidos. Escrevi naquela ocasião algumas linhas externalizando as minhas sensações mais profundas. Transcrevi-as abaixo. Ao lado coloquei o quadro O grito de Edvard Munch para retratar esse momento de agonia trêmula.

De repente estamos vulnerabilizados
Nos esmagam com a ameaça ordinária.
Pertubam-nos, arremessam contra nós
O peso da condenação.
Vemos tudo meio cinzento.
É um fato inesperado, com certeza.
Na mira estão o amor e a amizade.
Nervosismo.
Tensão.
Guturação instantânea a se derramar
Sem precisão.
O tempo é mínimo em que o
Indesejado nos acomete.
A tensão contínua instala-se.
A desconfiança nos assalta.
As imagens parecem ecos.
Um “esquisóide” a brandir uma
Arma entupida de munições.
A arma nos ameaça.
O “esquisóide” nos ameaça.
A vida pode ser tragada por
Um espasmo involuntário.
Somos pequenos.
Os olhos, a mente, as idéias
se embaralham, se turvam.
O estado de anomia psicológica
Se apodera de cada um de nós.
Andamos depois do acontecimento
Medonho de um lado para o outro
Como formigas agitadas.
A dignidade ferida.
Jogam lama na face da nossa paz
E ficamos manchados, vilipendiados.
A matéria foi roubada e recuperada em parte,
Mas perdemos a tranqüilidade.
Nervos esquentados.
Cantáramos aos céus, proferíamos louvores,
Bendisséramos a graça que nos abraça.
Numa esquina somos acometidos pelo destino.
Seria erro esmurrar ou violentar
Aquele que agrediu a nossa paz?
Se tivesse tido oportunidade,
Agarrar-me-ia com aquele bicho
Vestido com uma carcaça de homem.
Não existe vida ou solidariedade
Dentro daquele platelminto.
Se o encontrasse, se não fosse a arma
Que tinha apontada contra cada um de nós,
Tê-lo-ia esmagado.
Sacrilégio de minha parte, meu Deus?!
A injúria nos transforma em bichos.
Somos seres andrógenos.
Inconveniência descabida.
Prejuízo financeiro e material.
Dano moral, acidente que nos achata
A capacidade de confiar no outro.
Por todos os lados, temos a impressão
Que estamos cercados por criaturas prontas
Para nos acanalhar, para nos maltratar
A serenidade.
Já não podemos, simplesmente, ser
Homens de paz.
Estamos felizes, sorridentes, saltitantes,
Como cervos em campinas silvestres
E sem que esperemos assassinam a nossa
Liberdade.
Não podemos ter o que queremos ter.
Corremos um sério risco de sermos subtraídos.
O risco de atropelarem, de manietarem, de chafurdarem
A nossa estabilidade.
Passamos a estar em terra firme.
Todavia, percebemos um pântano social a
Nos cercar.
É preciso ser diligente e saber
Onde vai pisar.
A qualquer momento um pedaço
Do charco estrutural pode
Nos engulir.
Já não sabemos o que fazer.
Esconder-nos será apenas um paliativo.
Porque ‘o maior o esconderijo,
A maior escuridão, já não servirão de abrigo,
Já não darão proteção’.
O medo ainda andará conosco.
Mostrará seus traços terríveis.
Roerá famintamente a nossa confiança.
A neurose nos fuminará.
Seremos em breve bichos esquivos,
Assustadiços.
Nos embruteceremos.
Seremos criações sinistras.
Retrocederemos aos piores dias
Da história.
Somos piores que nossos ancestrais.
Não comemos carnes dos outros
Em rituais canibalísticos.
“Evoluímos” agora.
Come-se aquilo que não se ver.
Jantam a nossa aparelhagem psíquica.
Ameaçam-nos e vulnerabilizam
A nossa psique.
Após pensar a respeito daquele episódio
Fatídico, bate-me a desconfiança.
Ser homem não significa, prontamente,
Ser humano.
Existe dois tipos de homens distintos: aqueles
Que evoluíram e os que permaneceram boçais.
Àqueles, humanos;
Estes, unicamente homens.
É homem aquele que permaneceu
Animal, predatoriamente.
É humano o solidário, o que ama
Altruistamente a liberdade do próximo.
Aquele bicho biltre era apenas um homem.
Que pena!

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

terça-feira, janeiro 01, 2008

O colapso

O colapso temporal se aproxima;
Como um mecanismo indiferente
Caminha para realizar novos nascimentos;
Comemorações, promessas, expectativas
Surgirão esta noite em lábios plurais;
A cordialidade seguirá a dança.
Um novo tempo vai brotar;
Outros homens já experimentaram estas
Sensações, este otimismo do momento;
Hoje, já não são;
Ficou a lembrança remota que se exntigue
No tempo.
Nossas memórias são erigidas por uma
Substância poeirenta;
Novos dias surgirão.
Trará as mesmas marcas do ontem
E nos fará pensar que somos melhores do que hoje;
Apaixonamo-nos pelo momento que é apenas
Representação sem ser a coisa em si.
Brincamos com o que desconhecemos.
O tempo que nem existe.
A consciência invisível que nos domina.
Esta noite, nesta cidade, um novo tempo
Vai surgir e ser apenas tempo.
Amanhã os homens acordarão sendo
Apenas o que sempre foram;
A vida se estabelece apenas como fenômeno.
Nada mais do que isso.
Uma melancolia inominável, inextricável
É o que tenho como matéria mais sólida.
Amanhã será como hoje;
Os fatos do hoje nos fazem pensar que somos
Melhores do que ontem;
Apenas a impressão gestada, lapidada pela
Consciência do ser que busca ser sem ser.
Já que o mundo não é em si, pois a criação
Da idéia cria o em si que não é, mas se torna
A medida que o elegemos com esta propriedade.
No fundo o mundo é apenas a criação
De um fenômeno que se dá no aqui e agora.
A paixão nos consome.
Amamos a nossa criação.
No fundo somos os mais iludidos dos
Homens;
Os mais infelizes.
E o tempo que não é caminha, gira,
Avança no meu relógio e na
Consciência dos homens lá fora!

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: segunda-feira, 31 de dezembro de 2007, 19:38:04.

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Sobre a religião

Andei refletindo sobre a religião este final de semana. O final de ano se apresenta como um momento para reflexões, análises, promessas, eminentemente. Como não poderia deixar de ser, a religião se mostra como uma prática que une o indivíduo aos seus desejos mais íntimos. Afinal as promessas, desejos, fantasias, expectativas são gestadas e alimentadas por uma profunda unidade mística do ser com o mundo empírico. A religião é a força que impulsiona o ser na direção das suas conquistas.


Falar sobre minha preferência religiosa é algo complexo, pois a crença em algo é um universal humano. Pelas nomenclaturas identificáveis posso ser denominado como cristão protestante. O ser humano não se contenta apenas com a explicação da matéria em si (materialismo). Ele busca uma explicação para aquilo que está além dela (metafísicameta do grego: além, para além; físico(phisys) do grego: matéria física. Ou seja, aquilo que está para além da matéria). A religião ordena o caos da matéria. Ela é um dique que represa nossas inquietações nos dando uma sensação de conforto e segurança. O caos seria insuportável. Seriamos destruídos pela anomia e pela rudeza da vida. O sagrado é a dimensão valorativa da perfeição, da pureza, do absoluto. Daí o absoluto da crença. Se não estou equivocado foi Rudolfo Otto que afirmou que a religião está em todas as coisas da vida humana; que as realizações humanas são religiosas. Mas penso como C.S. Lewis. Num sentido não muito distinto, as mesmas inquietações de C. S. Lewis, são as minhas inquietações no que diz respeito à fé. Ele escreveu em seu livro Surpreendido pela Alegria: “A maneira mais segura de estragar um prazer era[é] começar examinar a sua satisfação”. Porque

“Ninguém jamais tentou mostrar em que sentido o cristianismo cumpriu
o paganismo, ou como o paganismo prefigurou o cristianismo.
A posição aceita parecia ser a de que as religiões eram normalmente uma
Mera miscelânea de absurdos, embora a nossa – feliz exceção – fosse
Perfeitamente verdadeira. As outras religiões não eram sequer explicadas,
Segundo o primitivo modo cristão, como obra de demônios. Nisso,
Possivelmente, eu podia ser levado a crer. Mas a impressão que tive foi de que
A religião, em geral, embora totalmente, era um desenvolvimento natural,
Uma espécie de absurdo endêmico no qual a humanidade tendia a tropeçar.
Em meio a um milhar dessas religiões, lá estava a nossa, a milésima
Primeira, rotulada Verdadeira. Mas com base em que eu poderia crer nessa
Exceção? Ela obviamente era, num sentido geral, o mesmo que todas as
Outras. Por que então era tratada de modo tão diferente? Será, afinal,
que eu precisava continuar tratando-a de forma diferente?
Desejava ardentemente não ter de fazê-lo.”

Como poderemos justificar o injustificável? Exercemos fé naquilo que não vemos. E regozijamos com isto. Cremos no absurdo. Adoramos sem ter certeza táctil com relação àquilo que cremos. Fechamos os olhos e descerramos os lábios em preces quentes. Gestos ou soluços da alma. Instituições se organizam com o objetivo de defender a devoção. Pessoas matam, explodem por causa da religião. Entendem que todo sacrifício é necessário e valido para justificar a fé. Quanto maior é a dor, o dispêndio de energia, maior é a devoção. Fico aturdido com este pensamento. Imagino que esta tendência tão extremada seja apenas resultado da inventividade humana. Penso que a singularidade humana é responsável por criar todas as realidades relativas àquilo que justifica e dá sentido à existência humana. Ou seja, é o próprio homem que classifica o mundo e extrai dele os significados que deseja empregar para tornar a vida cheia de respostas eloqüentes. O mundo existe como vontade e representação, pois o homem é a medida que dá forma a todas as coisas. Assim, vou pensando enquanto entendo que estou sendo trepidado por este fato que me abraça e sufoca como uma grande serpente. A religião é um sonho que mente humana alimenta para colorir os seus pesadelos existenciais. Dar-se expressão ao injustificável. Assim, não abraço a fé com adesismos externos. Fé para mim é fé para morrer e viver. É categoria máxima, filosófica, que abarca as categorias da vida. Não identifico a religião apenas com o fato de se ir a igreja ou a qualquer lugar que se queira ir para exercer a fé. Sören Kierkegaard afirma em seus escritos que há três estágios geralmente vivencialmente vinculados ao ser humano. (1) O modo estético. Ligado ao indivíduo que se envereda pelo caminho externo dos vícios, da matéria; pela diversidade a que conduz o desejo. Esse estágio não realiza o ser humano (2) O modo ético ou moral é aquele governado essencialmente pelas normais morais. Mas a vida ética não possui um potencial de realizar os desejos humanos. E (3) o modo religioso que ela afirma como o estágio sublime. Não a religião parasitária, instrumentalizada pelos dogmas e ritos externos. Isso aparece com total evidência na sua obra Temor e Tremor onde trabalha filosoficamente sobre o significado do sacrifício de Abraão no monte Moriá. “Seu objetivo é mostrar através do sacrifício de Abraão que o estágio ético não é absoluto, pelo contrário fica até ofuscado diante de exigências superiores do estágio religioso. Como apelo à subjetividade profunda, o estágio religioso pratica uma devoção ao Deus que não aparece e comunica-se através do silêncio que provem desta relação. Isto nos faz perceber que os dois primeiros estágios são mais populares do que o terceiro. Kierkegaard entendia que os estágios estéticos e éticos não podiam existir sem o estágio religioso. Em outras palavras, o religioso estava presente tanto no estético quanto no ético. O religioso é um estágio conseqüente, pois é a partir da desordem dos estágios inferiores que se tem a possibilidade de encontrar a realidade superior da vida religiosa”. Para mim a religião só tem significado se entendida e compreendida em sua radicalidade. A fé é em si uma decisão. Uma realidade que tem que ser experienciada existencialmente. Termino com uma frase de Kierkegaard dita na sua obra O Desespero Humano: “Varia o escândalo segundo a paixão que o homem põe na admiração”.

Por Carlos Antônio M. Albuquerque

terça-feira, dezembro 18, 2007

O itinerário do menino


Resolvi postar esta mensagem por conta destes dias festivos. Sei que o nascimento de Jesus não se deu no dia 25 de dezembro conforme as convenções ocidentais. A data de 25 de dezembro foi arranjada por Constatino a fim de substituir uma divindade pagã, por um "deus" cristão. Com isso ele não queria provocar estranhezas àqueles que estavam se convertendo à nova fé. Isso gerou fatores mais negativos do que positivos. Mas fica a data apenas como uma oportunidade para confraternizações e uma comemoração a serviço da saúde de todos nós. Afinal, todo o dia é dia de nascimento.

Mateus 2

O Salvador entra no mundo causando frisson nas lideranças dos homens.
Ele é apenas um ente nascido, frágil ainda pela sua constituição física.
Mas já suscita preocupação aos potentados.
O Seu nascimento faz com uma estrela nasça no coração dos homens.
Ele não é um simples menino.
Ele é o Salvador.
Ele é o Pastor Divino que ajuntaria o povo disperso.
O poder religioso e o poder político da magistratura se reúnem para inquiri acerca de que Ele viria ao mundo (vv.3,4).
Aonde nasceria?
Quais seriam as características do seu nascimento?
Qual a geografia?
Herodes é uma hiena.
O medo se apodera do seu coração.
Ele teme perder o seu trono.
“Rei dos Judeus” (v.2).
Quem seria esse rei dos judeus?
Ele, Herodes, já não era o rei?
Como surgiria outro rei?
Os homens do Oriente são guiados por uma estrela.
A estrela é uma bússola que nasce na interioridade de cada um dele e os leva aonde eles querem chegar: na presença do menino (vv.9,10).
Ele é o rei, por isso as honrarias – incenso, ouro e mirra – elementos finos, dignos da Majestade das Majestades.
Jesus, o Rei Eterno que aporta na História, que nasce numa manjedoura simples, numa cidade simples, no coração da Palestina, terra de Davi.
Esse menino não era qualquer menino.
O magistrado temeroso mandar matar todas as crianças com até dois anos de idade para que o perigo seja extirpado.
Um morticínio, um infanticídio acontece num determinado dia.
De repente, soldados armados com adagas, lanças e espadas invadem as casas e matam quantos acham.
Mães desesperadas, agonizantes, desejam a mesma sorte dos pequeninos.
Mas, o Filho de Deus já estava distante dali.
Havia ido para o Egito.
Nada na sua vida acontece em vão.
Tudo é resultado de promessas que se cumprem na História.
O Deus da promessa é fiel (Hb 10).
Do Egito ele vai para a região da Galiléia;
Vai “habitar numa cidade chamada Nazaré” (v.23), situada ao norte de Israel.
Este é o itinerário do Messias.
Os trinta e três anos de existência na terra foram marcados por sucessivos fatos marcantes.
Já no seu nascimento, fica provado que não se tratava de qualquer criança.
Tratava-se do menino que veio fazer uma revolução no coração dos homens.
Veio escandalizar os orgulhosos;
Suscitar fagulhas de medo e temor na alma daqueles que amam o poder;
Veio desmantelar a religião.
Revogar os estatutos que prejudicavam a vida.
Pregar a esperança, anunciar salvação a todos aqueles que crerem.
Apontar o Caminho do Reino.
Fazer de homens pecadores, seus melhores amigos.
Tirar os homens das trevas, para o reino do Filho do Seu Maravilhoso amor.

Por Carlos Antônio M. Albuquerque

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Jesus e Javé – os nomes divinos

Breve Comentário sobre: Jesus e Javé – os nomes divinos, Harold Bloom, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2005.

O livro Jesus e Javé – Os Nomes Divinos, de Harold Bloom é um livro de provocações. Falo em provocações, porque é impossível para o indivíduo acostumado com os sistemas construídos pela teologia dogmática, manter-se intacto às enormes des-construções suscitadas pelo autor. O livro me pareceu estranho de início. A sua linguagem gerou em mim desconfiança. O que o sujeito/autor pretendia com suas proposições me parecia enigmático. Apenas afirmações que saíam cheirando a estranheza. Não entendi a maioria das afirmações. A maioria das ilações feitas pelo autor, pelo que entendi a priori, tinha/tem a sua origem numa fonte gnóstica.
Todavia, algumas afirmações fortes como a que se segue incutiram em mim o poder da reflexão: “Qual será a culpa humana que deve ser expiada pela tortura que Javé impõe a Jesus e pela crucificação de centenas de milhares de outros judeus, nas mãos das forças romanas de ocupação? De ínício, dispenso as apologias que São Paulo e Santo Agostinho fazem a Deus: na queda de Adão, todos pecamos. Os Grandes Sábios do Talmude não defendiam essa doutrina bárbara, importação helênica do mito do portador do fogo, Prometeu, atormentado por um Zeus sádico, e, no extremo, o relato xamanista e órfico da vingança de Dioniso contra os que dilaceraram e devoraram o deus infante”[1]. Querendo ou não para quem está acostumado com o dogma, com a absolutidade da regra teológica, uma afirmação destas exige um esforço na averiguação. Com isso, não quero dizer que há um abandono na compreensão da teologia como eu aprendi. Todavia, posso afirmar um dos maiores privilégios do ser humano repousa no fato de que a curiosidade deve ser estimulada e pensada em todo tempo. Sempre cri que “na queda de Adão, todos pecamos”. Esta é a compreensão que adquiri. Somos seres fadados a este sinal – queira “sim”, queira “não”. Fazer a relação do com os capítulos iniciais do Gênesis, com o mito de Prometeu, escrito por Hesíodo impressiona. O mito de Prometeu possui um elemento interessante que se assemelha em muito com a citação da Torá (os cinco primeiros livros da Bíblia) do que foi a queda humana. Segundo o mito grego – nesse sentido vale lembrar que o mito está a serviço da representação – a humanidade foi castigada porque o Titã Prometu roubou uma acha do fogo dos deuses e o levou aos homens. Sendo assim Zeus vendo-se decididamente iludido pelo Titã, não conteve o ressentimento e resolveu punir simultaneamente os homens e o protetor. Prometeu foi castigado com uma flagelo terrível, uma espécie de atrocidade constante, sempre repetitiva; aos homens foram enviados castigos e toda sorte de pungentes atrocidades, como pestes, fomes e doenças. A tragédia Prometeu Acorrentado apresentou Prometeu como um rebelde contra a injustiça e a onipotência divina, imagem particularmente apreciada pelos poetas românticos, que viram nele a encarnação da liberdade humana, que leva o homem a enfrentar com orgulho seu destino. Prometeu significa etimologicamente "o que é previdente". O mito, além de sua repercussão literária e artística, tem também ressonância profunda entre os pensadores. Simbolizaria o homem que, para beneficiar a humanidade, enfrenta o suplício inexorável; a grande luta das conquistas civilizadoras e da propagação de seus benefícios à custa de sacrifício e sofrimento.Ou seja, Prometeu em sua luta contra a tirania dos deuses, representa no insurgimento que lhe é pertinente, a própria humanidade. Essa era, em outras palavras, o significado do mito.
Vale ressaltar que a História do Gênesis possui também uma explicação ou uma significação bastante similar. Não quero discutir aqui se o relato do Gênesis possui uma dimensão histórica ou mítica. Todavia, nos dois relatos, é possível enxergar o elemento da representação, que visa explicar o mundo a partir da construção de um ideário simbólico. É a idéia do incompreendido tentando ser compreendido por construções fantásticas – isso é a religião! Devo ser honesto nesse sentido, pois o que é religião? A religião se instala como fenômeno mais subjacentemente vinculado ao ser humano, posto que o homem é em si um ser religioso. Ontologicamente, a religião está a serviço da explicação do numinoso, da explicação do inexplicável, do entendimento do próprio homem no dizer de Rudolf Otto. Os homens erguem catedrais porque dentro de si possuem gritos, sussurros, incompreensões, expectativas e todas elas em um momento ou outro são abraçadas pelo mistério. Daí, a necessidade de se construir um símbolo para a materialização ou visibilização do ser sagrado que primeiramente nasceu no centro da alma como projeção das respostas que são feitas do lado de fora do ser humano.
Diz Rubem Alves, num dos seus livros chamado, O que é religião, que a partir desta leitura da realidade, o homem dá vários significados à morte; a vida passa a ser encarada com os seus diversos matizes de acordo com a construção simbólica ou com o sentido de crença de cada individuo – o ateu diz não acreditar na existência de Deus e busca viver como se Deus não fosse uma realidade para ele. Já o crente em Deus, guia as ações da sua vida a partir desse sentido de crença. É por se guiar pela entidade-religioso-simbólica que alguém estoura como um saco carnes, espatifando nervos, aparelhos, órgãos e leva tantos quantos é capaz, porque para ele aquilo tem um sentido, ele entende que aquele tipo de atitude renderá galardões na eternidade – vide os mulçumanos. É essa construção simbólica que direcionou milhares de monges para mosteiros na Idade Média. O símbolo condiciona a vida. Ou seja, “com os símbolos sagrados o homem exorciza o medo e constrói diques contra o caos” – diz Rubem Alves.
Quando falo em religião, por exemplo, lembro de Feuerbach, o qual disse que a religião aparece como um sonho da mente humana. A religião surge como projeção do sonho, que deriva da voz do desejo. O desejo existe no interior do ser , mas que tem de se adequar ao que se coloca como realidade. A realidade é a negação do desejo. Ela duela com a própria essência do homem, o desejo. O desejo fala da própria essência do homem. Deste modo “as verdades” mentirosas devem ser abolidas para que o desejo no ser humano torne-se verdadeiramente consumado. E nisto é que Feuerbach afirma que “a religião é o solene desvelar dos tesouros ocultos do homem, a revelação dos seus pensamentos mais íntimos, a confissão pública dos seus segredos”.
A afirmação de Feuerbach remete a religião ao próprio homem, porque para ele falar de Deus é falar do próprio homem. Ter consciência de Deus é ter consciência de si mesmo. Deus no homem surge como uma imagem refletida na parede do ser, porque Deus varia no homem, de ser para ser. Existem várias consciências de Deus no homem, quantos são os homens, tantos são o número de projeções de Deus. Deus se relativiza no ser. Deus, assim, é criado pelo desejo humano. Decodificando as características ou a personalidade de Deus para uma determinada pessoa, descobri-se os desejos desta pessoa. Deus é subjetividade. O ser determina a imagem em sua objetividade e transforma-se em objeto perante a imagem, e, a imagem, por sua vez, toma forma de sujeito.
A realidade última da religião não estaria inclinada para fatores eminentemente metafísicos. A religião encerra-se aqui, na contingência do mundo humano. Não existem fenômenos do lado de lá, puramente espirituais. Lidar com o sagrado, seria em outros termos, lidar com a antropologia. Religião é antropologia. O homem é próprio ser divinizado. A necessidade de uma divindade para o homem fala dos próprios anseios humanos. A religião é um sonho que o individuo religioso não compreende. Para Feuerbach, a partir do momento que se interpreta o sonho, a necessidade de Deus e da religião deixa de existir. Mas fiz essa pequena explanação inicial para fixar atenção e indicar um exemplo de como a obra de Harold Bloom está eivada de afirmações surpreendentes. Este é apenas um exemplo das tantas citações que são feitas e que congestionam a nossa mente com a ânsia de averiguação.
Fiz estas conjecturas em torno do tema “religião”, porque ando bastante crítico com relação a este tema. Tenho lido alguns livros de filosofia e isto está me fazendo entender o que se passa com o homem religioso. Ou seja, a religião é justamente uma preocupação com o que está dentro da alma, mas, que nós enquanto, seres complexos que somos, buscamos do lado de fora, criando projeções que no fundo, são apenas criações humanas. Tenho vivido a minha fase agnóstica. O livro do Harold Bloom não teve um papel preponderante para estimular isso. Todavia, a análise que ele faz sobre as várias versões de Jesus Cristo e Javé são de fato uma grande construção crítico-literária.
De início é feita uma afirmação emblemática de Goethe: “Enquanto estudantes da natureza somos panteístas; como poetas, politeístas; enquanto seres morais, monoteístas”[2]. Trata-se de uma colocação extraordinária do poeta Goethe. Esta afirmação forma uma espécie de trilho por onde o eixo dos argumentos de Harold são firmados, estruturados e correm quais mecanismos mágicos no livro. E, de fato, não contexto esta afirmação, pois ela encerra uma verdade importantíssima: quando se estuda a natureza, a sua beleza fantástica nos lança a compreensão de que o pan é Deus (pan – “todo” – theímos – “Deus”). A extravagância profundamente simples da natureza nos faz concluir que ali está Deus. Assim, Deus é e está na natureza. Deus é a realidade primeira e última de todas as coisas e tudo está em Deus. Como compreendia o filósofo Espinoza, “Deus é a Substância, ou seja, o Ser que é a causa de si, que existe em si, e por si, que é concebido em si e por si e que é constituído por infinitos atributos, infinitos em seu gênero e cada um deles exprimindo uma das qualidades infinitas da substância. Desses atributos conhecemos dois: o pensamento e a extensão”[3]. Goethe na verdade afirma que Deus é e está em tudo. Para mentes argutas, não há como divorciar esta questão da sensibilidade inerente aos fatos. Aprendi que este pensamento é equívoco nos meus estudos de teologia. Deus não é o mundo; o mundo não é uma extensão de Deus.
O outro pedaço da afirmação de Goethe é curiosa, pois na ânsia de compreender e “poetizar” o mundo, acabamos por “poli-teizar” a existência, ou seja, atribuir “várias divindades” à compreensão do que foi criado. A natureza impressiona-nos pela multiplicidade extraordinária pela qual ela se apresenta na sua singela e complexa manifestação. Diante do “singelamente complexo”, tentamos achar ou atribuir uma paternidade ao natural. Não há condições de se dizer fortuitamente que a origem da beleza, da arte, do inexprimível é obra do acaso ou de um complexo natural. O humano assim percebe, sente, divindades brotando de todas as partes nas regiões mais estranhas e escuras da sua alma. Como nesses versos do poeta americano Walt Whitman:

Vós! Vós! A vital, a universal, a gigante força sem resistência, que não dorme, sempre calma,
Segurando a Humanidade em vossas mãos abertas, como se fora um brinquedo efêmero.
Que, doente, sempre vos esquece!
Pois que também vos esqueci,
Absorvido que estava nessas pequenas potências de progresso, política, cultura, riqueza, invenções, civilização,
Perdi o meu reconhecimento de vosso poder sempre controlador, vós, poderosos, agonia dos elementos,
No qual e sobre o qual flutuamos, no qual todos boiamos”
[4].

A outra implicação da afirmação de Goethe passa pela esfera moral, pois no mundo ocidental, a moralidade passa pelo mundo judaico-cristão. Afinal, de contas fazendo menção da afirmação de Fiodor Dostoievski de que “se Deus não existe tudo é permitido”, podemos entender o que Goethe afirma. A moral do mundo ocidental está subjacentemente vinculada com a idéia de um só Deus – e este Deus é o Deus judaico-cristão. Não há o preceito moral como resultado da vontade de várias divindades como de certa forma havia na Grécia Antiga ou em Roma - mesmo que existisse um Zeus como divindade suprema do Olimpo. A moral é a base sólida da crença. É o regulamento absoluto cristalizado como conceito mais gregário aos homens que formam a sociedade. Ela possui a importância da argamassa que sustenta os tijolos de uma construção. A moral está a serviço da instituição. A moral é a memória da sociedade em torno da instituição. É esse cimento que sustenta o todo da sociedade. Falar da divindade é falar do absoluto. Pois, conforme a noção ocidental da divindade, passa pela cristalização da regra e, portanto, do absoluto moral. A divindade é um ente de moralidade estática. Quebrar essa moralidade é transgredir a regra e, conseqüentemente, cometer o desatino, pecar. Friedrich Nietzsche em seu pensamento tentou justamente propor o conceito da divindade dionisíaca, que está afastado do conceito “anêmico” da crença cristã, conforme mesmo propôs. Falar do conceito dionisíaco da divindade é lembrar o lúdico e a liberdade como mecanismos que impulsionam o super-homem.
Bloom introjeta esta afirmação, pois quer fundamentar nas páginas iniciais do livro o que vai ser a sua tese até o final: as idéias da divindade passam pelo gnosticismo e o seu aparelhamento místico. Bloom busca em cada página fazer uma espécie de relação da literatura, como se a Bíblia fosse interpretada a partir de um enredo – se não estou equivocado em minha colocação. É patente que ele busca mostrar a identidade de vários personagens bíblicos e lhes faz uma espécie de busca nas intenções a posteriori. Busca mostrar Javé e Jesus como dois entes opostos entre si. Javé “não é a divindade universal de um planeta que se encontra conectado por meio da informação instantânea. Contudo, Javé permanece, em quase toda parte [...] Javé, de quem me esquivei ao longo de três quartos de século, tem uma capacidade impressionante de permanecer e me rondar, se bem que mereça ser condenado por deserção, não apenas por parte dos judeus, mas também de toda a humanidade sofredora. Neste livro, o intérprete é um judeu cuja espiritualidade reage com grande fervor à antiga inclinação por nós denominada gnosticismo, e que talvez não seja uma “religião”, no sentido em que o judaísmo, o cristianismo e o islamismo constituem as principais tradições religiosas ocidentais”[5]. Assim, a presença de Javé no mundo ocidental está divorciada do conceito trinitário em sua agregação com o entendimento cristão tradicional.
Quero afirmar que gostei porque mostrou uma vertente daquilo na minha compreensão. Veio a somar pelo fato de que passei a enxergar mais de perto como um gnóstico pensa. Conhecia o sistema gnóstico apenas por definições técnicas, definidas nos sistemas apologéticos de teologia. Sempre com aquele viés descontrutor o livro de Harold, como disse no início é provocativo. A minha compreensão da divindade é diferente desta apresentada na obra Jesus e Javé. Sou demasiado conservador para aceitar essa pluralidade. O gnosticismo tem ressurgido com muita força nos nossos dias pelo fato de haver uma espécie de re-diálogo com as vertentes da antigüidade. Nunca se foi tão místico, tão pluri-facetado como em nossos dias. Desagregação? Ou nascimento de uma nova compreensão acerca do que é a divindade? O tempo dirá.

Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: domingo, 1 de outubro de 2006, 12:16:49 P

[1] p. 175
[2] p. 15
[3] ESPINOZA, Os Pensadores, Nova Cultural, São Paulo, 2.000, pp. 14-15
[4] WHITMAN, Walt, Folhas de Relva, Martin Claret, São Paulo, 2005, p. 18.
[5] pp. 271-72