quarta-feira, janeiro 25, 2012

Meus Verdes Anos, de José Lins do Rego, é uma obra metalinguística

Após ter lido Meus verdes anos de José Lins do Rego, fiquei com a funda impressão de que aquilo que li era uma obra metaliguística. O livro foi publicado no ano de 1956, ou seja, um ano antes da morte de José Lins, que morreria a 12 de setembro de 1957. Escrever Meus verdes anos foi abrir um baú de memórias com as cores da infância. Era como se o escritor afirmasse: "Aqui está o meu material literário. Isso explica tudo".

Nos parágrafos finais do livro de memórias, o garoto do Pilar explica as suas dores pelo fato do canário Marechal (presente do negro José Joaquim) ter ido embora. Destaco as seguintes palavras: "E mal pus os pés por debaixo da goiabeira, ele voou para longe até sumir-se na distância. Ainda o vi como um pontinho no céu. Vi-o furando o espaço e correndo para o mundo. Lá se fora ele com os cantos que enchiam de alegria as minhas madrugadas de asmático. Lá se perdia ele para sempre, assim como estes meus verdes anos que em vão procuro reter" (o destaque é meu). As palavras em destaque expressam esse desejo de uma tentativa de reter as fragrâncias infância.

José Lins foi "um escritor menino". Nunca esqueceu as suas experiências de infância. É curioso como em Meus verdes anos a força sinestésica dos eventos estão presas em suas descrições. Ele consegue falar em "miado de gato", "chiado de carro de boi"; do "cheiro do capim" cortado pelo negro José Joaquim; da "fragrância" lascivizante de Zefinha; da vulva escura da negra que lhe dava banho e que se abria como uma flor rubra. Lê-lo é imergir num rio imenso, como o rio Paraíba (descrito no livro).

Quando lemos Meus verdes anos, entedemos Menino de Engenho, Doidinho, O Moleque Ricardo, Cangaceiros ou Usina, por exemplo. Acentuamos a compreensão de muitos dos personagens do escritor. Daí é que falamos de uma metaliguagem do livro publicado em 1956.

A obra de Zé Lins é um retrato imprescindível para a formação de uma antropologia do homem do nordeste em dado momento histórico. Assim como a obra de Balzac mostrou a França burguesa - seus costumes, hábitos, valores e doenças -, Zé Lins mostrou como nenhum outro o retrato das oligarquias do açucar e o tipo de sertanejo que é formador do homem regional brasileiro - o cangaceiro; o homem religioso; a ligação inconsciente com a igreja. Revelou os aspectos ecônomicos - a ascensão e a decadência dos engenhos. José Lins escrevia sem preocupações de engajamento e compromisso aparentes. Ele escrevia porque tinha o que dizer, como que para libertar-se das várias vozes que ele havia captado em sua infância.

Estou desejoso para ler, ainda, Usina, Pureza, Moleque Ricardo e Riacho Doce nesse primeiro semestre. Como é bom e gostoso ler José Lins do Rego, o escritor menino!

segunda-feira, janeiro 23, 2012

Dogville, uma obra magnífica

Fiquei com uma sensação de espanto após ter terminado de assistir ao filme Dogville de Lars von Trier. Tive que fazer uma concessão - Trier é "o cara"! Fiquei afrontado com o Anticristo. Julguei que o diretor dinarmarquês havia desferido golpes demasiados no juízo do espectador. Havia feito um filme para chocar; chamar a atenção para si; propalar que ele era/é "o melhor" e fazia o que bem queria. Mas após assistir a Dançando no Escuro e a Dogville, percebi uma dimensão religiosa nos filmes de Trier; aquiesci que Trier é muito bom. Talvez lhe falte apenas um pouco de humildade.

Em Dançando no Escuro, filme de 2000, protagonizado pela islandesa Björk, Trier consegue produzir uma das obras mais belas dos últimos tempos. Um musical repleto de uma linguagem sensível, terna, angélica. Selma, a personagem de Björk, é um anjo encarnado. Sua bondade é tão extrema que nos atinge. Deixa-nos enraivecidos. Trier consegue transferir emoções fortes, instigando o espectador a sentir-se dentro do filme. Sofremos com a personagem. Reunimos argumentos internos para afirmar: "Não faça isso, Selma! Não é necessário se entregar dessa forma. Seja autêntica!". Mas a obra caminha para outro rumo. O final é surpreendente.

Já em Dogville, Trier propõe uma tese anti-humana. Seu dogmatismo nos deixa de queixo caído, exemplificando em mais um caso a sua religiosidade. A obra chega a ser quase uma metáfora bíblica da história de Sodoma e Gomorra. Segundo o livro de Gênesis, estas duas cidades foram alvo da ira divina por causa da maldade dos seus moradores. Em Dogville, Grace (Nicole Kidman) chega à cidade de Dogville e pede abrigo. Ela chegara à cidade porque estava sendo perseguida por gângsteres. Os moradores da estranha cidade reúnem-se em conselho e decidem deixá-la entre eles. Talvez aqui o diretor queira fazer uma crítica contundente à ideia de democracia. O nome Grace ("graça" em português) é outro elemento que nos chama a atenção. Segundo os teólogos, graça é uma bondade oferecida pelas mãos divinas. Ou seja, é aquilo que se recebe sem que se mereça. A personagem Grace começa a oferecer a sua ajuda imaculada aos moradores. Não pede nada em troca. Queria apenas ser aceita pelos cidadãos de Dogville. Eles acham por bem remunerá-la pelos trabalhos.

O que nos impressiona é a fotografia do filme. Trier monta os cenários como Brecht em seu cinema político, naquilo que ficou conhecido como "o teatro do absurdo". Lembrei de Mãe Coragem, peça do dramaturgo alemão que vi há algum tempo atrás. Os planos nos dão uma experiência de totalidade teatral. Enquanto uma cena se passa no primeiro plano, vemos no transfundo, o que acontece com os demais personagens e com a cotidianidade da cidade. Desse modo, a estrutura do filme possui nove capítulos e um prólogo. Um narrador onisciente nos conta a história, como se tudo fosse uma faz de conta.

O dogmatismo da tese de Trier começa a se acentuar quando a polícia começa a fazer visitas à cidade à procura de Grace. A partir desse momento, os moradores revelam o seu lado cruel. Resolvem duplicar o trabalho e tratar Grace, "a graça", de uma maneira insensível. É repreendida por muitos daqueles que outrora a tratavam bem. Passa a ser alvo da lascívia dos homens da cidade, tornando-se numa espécie de Geni da música cantada por Chico Buarque. A comunidade passa a "jogar pedra na Grace". As injustiças revelam o lado asqueroso da "cidade dos cães". O nome Dogville passa a fazer jus à cidade. O intelectual e reflexivo Thomas Edison Jr. tenta ajudá-la, mas por sua vez, suas iniciativas são patéticas e infaustas. Talvez, resida nesse sentido, uma crítica ao papel ineficiente dos intelectuais. A falta de eficácia. As teorias rebuscadas e que grassam poucos resultados na realidade efetiva. O discurso vago e desarticulado. A falta de coerência com o mundo prático.

Como uma grande obra que é, o filme permite inúmeras leituras - teológica, histórica, sociológica, filósofica. Por exemplo, para alguns críticos, Dogville é uma metáfora da sociedade americana e sua aversão ao estrangeiro. A visão estagnada para o outro. Ou seja, para aquilo que vem de fora. Outra leitura mais globalizante, seria aquela que fala da condição humana. Nesse sentido, Trier caminha na direção contrária do "bom selvagem" de Rousseau. No fundo, a obra nos passa a mensagem de que os homens são deliberadamente arrogantes, gananciosos, lascivos, egoístas e grávidos pelos próprios interesses. Segundo, o filme não há salvação para a humanidade.

Fiquei verdadeiramente impressionado com as cenas finais do filme. O pai de Grace, o gângester (que queria partilhar o seu poder com a filha), acha-a. E os diálogos são de uma visceralidade filósófico-teológica que beiram o absurdo. Ao chegar à cidade, o gângster indaga a Grace se ela deseja que a cidade seja aniquilada. Curiosamente, ninguém vê o rosto do pai, como se este fosse um poder invisível que decide o destino dos homens. A personagem de Nicole Kidman, conversa com o todo onipotente pai sobre o poder e sobre o destino da cidade. E, por final, Grace resolve solicitar ao pai que reduza a nada a cidade. O diálogo de Grace com o pai nos faz lembrar a conversa do texto bíblico entre o patriarca Abrãao e a divindade de Israel quando da destruição das cidades já mencionadas - Sodoma e Gomorra.

O próximo filme que eu verei será Melancholia (2011). Quando vemos filmes como este nos indagamos: "Será que o cinema americano terá condições de produzir algo assim?" Mas não sejamos dogmáticos!

domingo, janeiro 22, 2012

O senso comum, como ação orientadora do status quo

E tantos são aqueles que estão amarrados às teias invisíveis do senso comum. Acorrentados a formas acríticas de pensamentos como em O Mito da Caverna de Platão, enxergando o mundo por intermédio das sombras; defendendo o indenfensável, como se isso resumisse e fosse a exata expressão daquilo que é. O mundo não "é" assim; ele "está" assim.

"O senso comum interessa (e muito) à situação conservadora da sociedade em que vivemos, em função de fato de que ele não possibilita o surgimento de uma "massa crítica" de seres humanos presentes e ativos na sociedade. O senso comum é o meio fundamental para a proliferação da manipulação das informações, das condutas e dos políticos e sociais dos dirigentes e dos setores dominantes da sociedade".

(LUCKESI, Cipriano Carlos. Filosofia da Educação. Editora Cortez. São Paulo. 2011, p. 134)

quinta-feira, janeiro 19, 2012

Viagens - a ausência-presença das obras do tempo

A visita que fiz ao estado de Pernambuco - minha "pátria" (levando em conta que a palavra "pátria" significa "terra dos pais") - me deixou com uma sensação de que o tempo é uma força descomunal. Enquanto estava por lá, lembrei de uma frase de Karl Marx - "Tudo o que é sólido, desmancha no ar".

Havia ficado oito anos sem visitar aquele estado. Sem visitar parentes. Rever amigos. Apreciar paisagens. Envolver os meus sentidos com as feições da terra. Foi estranho não ter visto o meu avô materno. Não ouvir a sua voz grossa, envolvida pelo arrojo da autoridade. Esse fato causou uma sensação de ausência. Não visualizar os seus beiços enrugados à maneira dos velhos coronéis provocou um impacto. A casa de farinha, o seu lugar de praxe, ficou abandonada. Era nesse ambiente que ele fazia as suas reflexões. Comentava casos. Desferia críticas contra as injustiças. Comentava a política dos governos estadual e federal. Vociferava contra as bestuntices dos trabalhadores, dos vizinhos, dos filhos, dos netos... do mundo.

O tempo, como diz Agostinho em suas Confissões, provoca "efeitos admiráveis". Diria que ele causa um duplo efeito: (1) um a nível externo. Ou seja, aquele que se processa no mundo físico, alterando ambientes, provocando alterações contigentes; e (2) outro a nível existencial. Ou seja, efeitos de ordem psicológica. Enquanto caminhamos vamos sendo afetados por essa força que é como a água do mar - movimenta-se num dinamismo incessante. Não o percebemos, mas os seus efeitos vão "desmanchando" as obras da realidade e infundido, no ser, "efeitos admiráveis". E tudo se encerra na afirmação do poeta Manuel de Barros - "uma ausência que é só presença".

P.S. A obra fantasmagórica acima é de Francisco de Goya, um dos pilares da pintura espanhola. O quadro retrata o deus romano Saturno (Cronos no grego), devorando um dos seus filhos. Segundo a mitologia, Saturno fora advertido de que um dos seus filhos o destronaria. A partir daí, ele passa a devorar um por um os seus filhos. Até que um deles - Júpiter (Zeus no grego) - conseguiu escapar e viver. A cena é uma das mais terrificadoras já pintadas na história da arte. Mostra Saturno, símbolo do tempo, bestializado, consumindo implacavelmente um dos seus rebentos - os cabelos esvoaçados, os olhos fora das órbitas, o esforço para abrir a boca e convertê-la numa enorme cavidade negra que morde o braço esquerdo de um corpo humano, ao qual já não tem nem cabeça nem braço, provoca impacto. O corpo encurvado; o braço direito como um coto de uma árvore; as pernas como se estivessem amputadas a sumirem na treva espessa. Apesar das várias possibilidades de leitura da obra, a que mais gosto é aquela que mostra que o tempo é aquela força que devora tudo, que é implacável. Quem seria o "Júpiter"("Zeus") capaz de destronar o seu poder acachapante?


domingo, janeiro 15, 2012

Minha visita ao Museu José Lins do Rego

Devo confessar que um dos momentos mais esperados da viagem de uma semana que fiz a João Pessoa foi poder visitar o Museu José Lins do Rego, aberto de segunda a sexta-feira, no Centro de Cultura na capital paraibana. Após ter errado o caminho do museu e ter realizado uma perquirição aos passantes, percebi que poucos paraibanos sabiam da existência do museu. Alguns diziam “é ali!”; outros, “é acolá!”. Todavia, após uma enorme mobilização eu e minha esposa conseguimos chegar ao espaço montado em homenagem a Zé Lins, como era conhecido o escritor paraibano pelos mais íntimos.

A percepção inicial foi negativa. O espaço poderia ter mais visibilidade. Fica situado num subterrâneo de um galpão incipiente e sucateado. Outro aspecto negativo eu citarei mais à frente - e este o mais sério.

Penetrei o espaço como uma criança que visita uma loja de brinquedos. Ali eu encontraria objetos, memórias, apetrechos, badulaques, quinquilharias, obras artísticas que tiveram uma ligação direta com um dos principais escritores do século XX. Essas sensações são curiosas. Enchi-me de uma emoção prazerosa. Logo na entrada, encontramos diversos cartazes de exposições já acontecidos para homenagear o escritor paraibano. Mais à frente, encontra-se uma outra sala com fotos de seus familiares, diversas traduções de sua principais obras. Em meio aos quadros, um em especial me chamou a atenção: um que demonstrava o amor do escritor pelo futebol. E a informação curiosa de que o dinheiro necessário para que o Brasil viajasse para disputar a Copa de 1954 foi conseguido por Zé Lins junto a patrocinadores.

Outro aspecto dessa sala diz respeito às diversas traduções que as suas obras receberam, mostrando de maneira clara que o José Lins do Rego não é somente um escritor regional. Zé Lins saiu do regional para o universal. O escritor tornou-se um dos grandes nomes da literatura em todo o mundo. Os russos, alemães, ingleses, americanos, espanhóis, argentinos, romenos já tiveram a grande ventura de ler as letras do garoto do Pilar.

Mas, a grande riqueza do Museu José Lins do Rego se encontra numa sala com mais de 3 mil livros que pertenceram ao escritor. Era a minha grande curiosidade. A sala fechada guarda um tesouro extraordinário. Um amante de literatura sempre vai querer saber o que um grande escritor lia. Quais eram as suas influências. Quem foram os escritores que fecundaram o seu pensamento. É como se um aprendiz de feitiçaria desejasse saber o que o seu mestre utilizava como ingredientes para produzir bruxarias.

Fiquei imensamente triste quando me informaram que eu não poderia entrar no espaço da biblioteca de Zé Lins. Uma profunda sensação de desalento tomou o meu coração. A grande razão da minha visita era saber o que o escritor lia. Conseguir distinguir somente dois nomes em meio às lombadas encardidas – James Joyce e Virginia Woolf. E alguns volumes com textos críticos sobre a obra de Eça de Queirós e Machado de Assis. Sabia que o velho Zé Lins deveria ter digerido alguma coisa do “Bruxo do Cosme Velho”. Os textos do escritor paraibano estão povoados por um realismo delicioso. Por uma crueza dos grandes realistas do século XIX. A leitura que estou fazendo de Doidinho me deixa essa compreensão. Em Banguê fica mais evidente esse artifício.

Mas continuando: perguntei a um funcionário que se encontrava numa sala contígua. Ele me disse que só existia uma pessoa autorizada para abrir a sala, todavia ela não estava. Desfrutava as férias. Fiquei a remoer internamente uma grande aversão. Rapidamente me veio um senso de indignação com o Brasil. Num país sério aquilo não aconteceria. Um turista vai visitar um museu sobre determinado artista, mas é impedido pela falta de organização e pelo amadorismo. Imagine se os turistas que fossem visitar o Louvre tivessem que abortar a viagem por causa da ausência de funcionários? Com certeza que tal desorganização não aconteceria em outro Estado com o mínimo de preocupação histórica. Mas no Brasil é outra história...

Vitória de Santo Antão - PE

quinta-feira, janeiro 05, 2012

Memórias - os itinerários do tempo (III)

No esforço de re-tomar a infância distante, a que já me referi, buscando a compreensão do meu mundo particular em que me movia, permitam-me repetir... no texto que escrevo, a experiência vivida no momento em que ainda não lia a palavra.

Paulo Freire, in A importância do ato de ler, p. 14.

Nasci no dia 9 de agosto de 1979, às 11 horas e 15 minutos, numa quinta-feira. Vim para o mundo no Engenho Cacimba. Não propriamente dentro do Engenho, mas nas terras que receberam o nome por ficarem próximas ao engenho. Cacimba para o povo nordestino é toda loca aberta em local úmido capaz de abrigar água. A água retirada da cacimba serve para todas as atividades: para beber, para lavar roupa, para tomar banho e assim por diante. Não sei porquê foi dado esse nome ao engenho. A região em que estava o Engenho Cacimba é formada por terrenos cheios de ondulações. Ladeiras escarpadas. Terreno composto basicamente por uma terra calcária; nos locais mais úmidos, um resíduo de massapê, própria para o cultivo de cana de açúcar. Em outros locais, pedaços arenosos, intervalos alagados, planuras.

O Engenho Cacimba foi um dos únicos que não morreram tão rapidamente com as investidas do tempo. Suportou impávido por algumas décadas. Até que sua saúde começou a agonizar. Tratava-se das investidas renhidas e impreteríveis da morte. O carunchamento do tempo começara a roê-lo por dentro: dívidas, acúmulos de dispêndios, safras minguadas. Ele adoeceu, desfaleceu e acabou morrendo. A crise o acometeu inexoravelmente. Lacerou as suas forças. Comeu completamente o seu vigor. Má administração somada a obsoletismo, foram forças poderosas que levaram-no ao chão como um gigante vencido.


As suas terras não abrigavam nenhum rio poderoso, caudaloso. Era atravessado por um filete intermitente de água. Nos períodos de sol abrasivo, reduzia-se a uma linha tênue, anêmica, morredoura. No meio do engenho, achou-se prudente construir uma barragem. Em tempos de chuva, as águas barrentas corriam com fúria. Vinham rumando de longe. Desciam das matas, se ajuntavam nos alagadiços, ganhando volume como uma multidão em marcha. Reuniam-se na barragem com profusão. Braças grossas de água caiam pesadas e barulhentas. Provocavam estrondos. Nas noites silenciosas, imaginava que as águas estavam brigando. Era como se tambores poderosos retumbassem para uma batalha entre dois exércitos invencíveis. Primeiras impressões passadas, o mais se esboroa como um pano velho.


De vez em quando ia com a minha mãe ao vilarejo do engenho visitar conhecidos. Abestalhava-me em contemplações espantadas. A torre por onde saía a fumaça das caldeiras era enorme. Doía-me às vistas olhar para ela. Cocheiras com bois taludos. Açude cheio de traíras, piabas e lambaris, alimentação dos moradores do engenho. As casas dos moradores eram toscas. Por fora, a cal vestia as paredes construídas com barro; por dentro, a treva enfronhava os cômodos nus. Canaviais verdes que se deitavam em coreografias às lufadas do vento quente. Era um cenário extraordinário, impingidor de lembranças e sensações graúdas. Todas estas impressões se desenharam com tintas multicoloridas na minha alma. Uma enxurrada de cores. Arco-íris psicodélico.


O ter nascido num local como este foi significativo para incutir em mim a capacidade fantasiosa. Desenvolver o lúdico, o mágico em suas formas e marcas mais profundas. Ter nascido na zona rural foi um dos maiores privilégios da minha vida. A vida diária era uma aventura. O aprendizado não se dava por teorias, mas empiricamente. Eu tocava naquilo que aprendia. Geralmente, para buscar água era necessário subir ladeiras com baldes, potes e panelas. Desde muito pequeno se aprende os trabalhos braçais da roça: carpir, cavar, semear, plantar. Todas as tardes e manhãs é necessário “buscar água”, como se diz no Nordeste, a fim de desenvolver as atividades diárias da casa. Atualmente, pelo menos no lugar onde nasci, a água já foi encanada e puxada por bombas especiais, utilizadas para este fim.


Outro aspecto interessante se dava quando tinha que ir à mata à procura de lenha seca para cozinhar. A mata era um lugar incrível. Povoada por perfumes doces, fragrâncias acres, bolores azedos. Mixórdia de aromas. Gravatás com cores fortes se escondiam na mata. Enxergar um deles era uma contemplação alegre. As suas cores vivas: o vermelho carmezim que contrastava com o verde do caule; o amarelo das suas extrermidades. Cantigas que se sucediam simetricamente. Pássaros que pareciam ter um respeito pela cantiga do outro – quando um parava o outro continuava. Melodia canora. Vento que produzia música com a folha das árvores. Sopros variados. Árvores altas, de copas que se perdiam entre outras árvores. Capim-gordura com seu cheiro peculiar; sua rouxidão, seus pendões que parecem aderir à pele, colocava-me na alma sensações agradabilíssimas. Trilhas pedregosas. Quando íamos para a mata de manhã a areia se encontrava quente, quando voltávamos as pedras ferviam debaixo dos nossos pés rústicos.


Apesar de ser um local tão cheio de beleza, histórias supersticiosas eram inventadas acerca da mata. A mata na minha concepção era um lugar terrível. Dava crédito a cada uma daquelas histórias. Alguns diziam que na mata havia espíritos de meninos travessos: um conhecido era o caipora, criatura fantástica que corria a mata montado num porco-selvagem causando travessuras. Quando se ia à mata era necessário levar uma oferenda para o espírito peralta, traquinas, para amansá-lo e tê-lo como ajudante na cata da lenha. Geralmente, se levava um pedaço de fumo e se colocava em qualquer ponto do mato. Outro ente fantástico era o curupira, também um menino travesso, com os pés em contradição. E um outro bem famoso era uma tal de comadre fulosinha, uma menina que segundo se conta, morreu perdida no meio do mato e tornou-se um espírito andante pelas matas.


Era preciso também trazer uma oferenda para essa menina, para não ser vítima das suas brincadeiras, que utilizava as lianas, cipós e sarmentos para castigar com surras medonhas os menos atentos. Acreditava-se que a tal menina tinha por principal objetivo fazer desaparecer os meninos que fossem à mata. Queria torná-los seus companheiros. Tratava-se de uma menina que queria outras crianças para brincar. Apesar de espírito não havia perdido a alma de menino. Os pequenos ela tomava para si; às mais velhas ela aplicava surras e castigos variados.


Quando ia à mata, minha mãe era toda recomendação. Pedia para que não saísse de perto dela.


- Menino, num sai de perto de mim, pelo amor de Deus! – ouvia excitado, imaginando os entes incógnitos no meio da folhagem verde.


Quando sentava-me para conversar com os meus colegas de idade, cada um inventava uma história ao seu modo. Uns diziam que tinham ouvido dos pais acerca de meninos desavisados que sumiram e nunca mais voltaram. Tinham sido capturados pelo espírito das matas e estavam agora como alma penada a correr mundo. Eram entes sombrios, cheios de treva melancólica. Por isso, aturdiam os que iam à mata. Acreditava em cada uma daquelas histórias. Ao entrar na mata, entendia que cada pipilar dos pássaros, o crocitar de alguma ave negra denunciava agouros medonhos.

Meu coração acelerava. A boca ficava seca. Os bugalhos arregalados captando todo movimento em sinal de atenção. Imaginava os espíritos enfurecidos, completamente propensos a aprontar conosco, reles mortais que íamos ali apenas catar alguns gravetos para cozinhar o feijão, o cuscuz, a charque e o peixe nosso de cada dia. Não entendia o porquê das intenções daquelas crianças Persignava-me em gestos inconscientes, fortuitos, habitados por crendices infundadas. Nunca cheguei a ver tais criaturas fantásticas. Não conservo muitas lembranças de minha infância mais tenra. As imagens que me chegam à memória são mortiças. Espectros. Corporatura indistinta. Em outros momentos parecem que elas ganham corpo, se avivam. Reminiscências constituídas por hiatos.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

José Lins do Rego e a viagem pelo clássico

José Lins do Rego é um bom contador de histórias. Seu regionalismo possui uma riqueza descritiva incrível. Li talvez três ou quatro livros do escritor paraibano. Não me recordo muito bem. Resolvi, por estes dias, lê mais três - Pureza, Meus verdes anos e Doidinho. O que me levou a lê-lo ou revisitá-lo é uma doce sensação do cheiro da minha infância.

Viajarei para a Paraíba, terra natal do escritor; e, logo em seguida, irei visitar os meus parentes em Pernambuco. Enquanto escolhia os livros (pois cheguei a cogitar a possibilidade de leitura de O Muleque Ricardo, Fogo Morto, Cangaceiros, Riacho Doce, Banguê ou Usina), estabeleci um parâmetro: quis fazer a leitura de algo que tivesse uma relação profunda com a minha infância. A literatura regionalista e, em especial a de José Lins, é um dos momentos mais ricos da história daquilo que já foi escrito em nossas letras. Os escritores regionalistas buscaram retratar com um realismo vivo a sina do sertanejo - suas dores, sonhos, supertições, ignorâncias e grandezas. O domínio sobre o estado psicólogico dos personagens, a espontaneidade da narrativa, a limpidez do estilo, a a habilidade para recriar a ambientação dos personagens sempre inculcaram em mim o apreço pelos textos do autor de Menino de Engenho.

José Lins é um escritor memorialístico. As visões e experiências apreendidas na infância servem de pano para a tecitura dos seus escritos. Escolhi Meus verdes anos e Pureza, simplesmente, por estes livros resvalarem em minha infância nordestina. Não esqueço o que vivi, nem o que fui-sendo. O universo rural é impingidor de experiências e sensações que se prolongam por toda a vida. Deve ser por isso que cresci com essa propensão pelo saudosismo. Sinto ecos daquilo que fui reverberando aqui dentro de mim. É como uma luz que se prolonga no vácuo e vai indo, indo, indo...

Outro fato:

É curioso ler um livro tido por clássico. O clássico, como diz Ítalo Calvino em Por que ler os clássicos, é aquele tipo de livro que geralmente nos dá a sensação de o estarmos lendo pela primeira vez. Ou: "Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados inéditos". Os efeitos singulares daquilo que já se tornou clássico vive ainda mais em José Lins. Lê-lo com esse duplo efeito - (1) clássico, o livro que se reinventa; (2) e estar na condição de um viajante à terra da infância, sendo o cheiro do passado por intermédio da pena caprichosa e habilidosa de José Lins do Rego - é ser acometido duas vezes pelo deleite.

Vamos à Paraíba; vamos a José Lins; vamos aos clássicos.

sábado, dezembro 31, 2011

Eu, Jorge Luis Borges, Santo Agostinho e o tempo

Neste instante, em que nossa caminhada nos faz chegar aos portões de uma zona imaginária, paro e reflito sobre tal efeito simbólico - 31 de dezembro, último dia do ano. Amanhã, o hoje não mis será. Penso em Janus, deidade mítica romana, capaz de olhar para frente e para trás simultaneamente. Considera o futuro, mas ainda está preso ao passado - é presente. Janus, porteiro do Monte Olimpo, também era o deus da dúvida, pois uma cabeça considerava o passado e, a outra, o futuro. Eu, de forma semelhante, estou com os pés fincados no presente, mas os meus olhos vislumbram as colinas afastadas do futuro; a minha mente é uma porta dimensional, condutora dos fatos e eventos acontecidos - alguns que já se gastaram e foram esquecidos; outros, que ainda persistem e já se tatuaram no meu, deixando os seus efeitos. Sou o intervalo entre o ontem e o manhã no tempo, essa força invísivel, criada para nos fatigar e determinar a nossa finitude. O tempo é consciência do que se espera no hoje, sendo que no ontem eu já esperava pelo hoje, e é no hoje que se espera pelo amanhã, tendo a consciência de que se é neste momento chamado hoje e projetando uma expectativa para aquilo que ainda não é e chamamos de futuro.

"O tempo é um problema para nós, um terrível e exigente problema, talvez o mais vital da metafísica; a eternidade, um jogo ou uma fatigada esperança"

(Jorge Luis Borges, in História da Eternidade, p. 6)


"Rubayat

Volte em minha voz a métrica do persa
A recordar que o tempo é a diversa
Trama de sonhos ávidos que somos
E que o secreto Sonhador dispersa.

Volte a afirmar que é a cinza o fogo,
A carne o pó, o rio o fugidio
Reflexo de tua vida e de minha vida
Que lentamente se nos esvai logo.

Volte a afirmar que o árduo monumento
Que constrói a soberba é como o vento
Que passa e que, à luz inconcebível
De Quem perdura, um século é um momento.

Volte a advertir que o rouxinol de ouro
Canta uma única vez no sonoro
Ápice da noite e que os astros
Avaros não prodigam seu tesouro.

Volte a lua ao verso que tua mão
Escreve como transforma no temporão
Azul o teu jardim. A mesma lua
Desse jardim há de procurar-te em vão.

Sejam sob a lua das ternas
Tardes teu humilde exemplo as cisternas,
Em cujo espelho de água se repetem
Umas poucas imagens eternas.

Que a lua do persa e os incertos
Ouros dos crepúsculos desertos
Voltem. Hoje é ontem. És os outros
Cujo rosto é o pó. És os mortos".

(Jorges Luis-Borges, in Elogio da Sombra, p. 24)

"Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o seu conceito? E que assunto mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem o pergunta, já não sei. Porém, atrevo-me a declarar, sem receio de constatação, que, se nada sobreviesse, não haveria tempo futuro, e se agora nada houvesse, não existiria tempo presente".

(Santo Agostinho, in As Confissões p. 322)

quinta-feira, dezembro 29, 2011

Rush, mais que uma banda de rock

Esta manhã, me bateu um desejo de ouvir uma das melhores bandas de todos os tempos - o Rush. É uma das minhas paixões. O Rush possui um tipo de som bem trabalhado, que me faz muito bem. Sou capaz de ouvir um álbum seguido do outro sem me cansar. Ou ouvir o mesmo álbum, como acontece aos álbuns Hemispheres (1978), Permanent Waves (1980) ou Moving Pictures. E essa "disciplina da continuidade" é bastante rara.

Os primeiros elementos do Rush começaram a ser construídos no ano de 1968, na cidade de Toronto, maior cidade do Canadá, capital da península de Ontário. Passaram por algumas fases: hard rock, progressivo experimental, a fase progressiva com sintetizadores e teclados e de rock atual. O Rush já vendeu algo em torno de 40 milhões em sua história bem-sucedida.

O que singulariza a trajetória da banda é a qualidade. Os seus componentes ficaram marcados como extraordinários instrumentistas - Geedy Lee (baixo, vocal e teclados), Alex Lifenson (guitarra) e Neil Peart (bateria). As composições são complexas. O som é bem urdido, o que define um tipo seleto de seguidor da banda. É necessário treinar os ouvidos para ouvir os moços canadenses.

As letras sempre ecléticas abordam temas como ficção-científica, mitologia e filosofia. Músicas como 2112, do álbum homônimo de 1976, são escandalosamente belas. Uma verdadeira obra com recortes épicos e eruditos. Certamente, esta é a maior canção em extensão da banda. A música possui quase vinte minutos. No álbum A Farewell to Kings temos duas canções maravilhosas: Xanadu e Closer to the heart, esta última, uma das canções mais famosas da banda. Outra canção como La Villa Strangiatto, a primeira canção instrumental do grupo, do álbum Hemispheres, é de uma profundidade e beleza desconcertantes. É perceptível o conflito entre razão e emoção. Hemispheres é um dos álbuns que eu mais escuto. Já o álbum Permanent Waves, um disco mais comercial, traz faixas belíssimas como Freewill e The Spirit of the Radio. Mas este disco traz a belíssima Natural Sciense, uma das músicas de que mais gosto da banda.

Logo em seguida, gravaram o maravilhoso disco Moving Pictures, de grande repercusão comercial. Na abertura temos a monumental Tom Sawyer, música esta bastante conhecida aqui no Brasil - pelo menos para aqueles que foram meninos em minha geração. É de se lembrar que esta era música de abertura do seriado oitentista Profissão Perigo, do mítico personagem MacGyver. O personagem era famoso por desembaraçar-se das mais intricadas situações sem o uso de recursos técnicos. Seus conhecimentos científicos, materiais comuns e um canivete suiço, que sempre portava consigo, eram as suas armas. Tanto é assim que, ainda hoje, aqueles pessoas que possuem determinadas habilidades são chamadas de MacGyver. Mas Moving Pictures trazia as belas Limelight, Red Barchetta e Vital Signs. Em Limelight temos a bela frase: "O mundo inteiro é um palco, e nós meros participantes, intérpretes e atores".

Que bom seria se as novas gerações descobrissem a banda. Se livrassem da superficialidade e do barulho gratuito, sem propósito, das maioria das bandas frívolas da atualidade e viajassem nessa estrutura sonora repleta de símbolos e riquezas. Não entendam isso como uma ofensa. Como diz Nietzsche no seu livro Anticristo: "Há entendimentos que são admitidos com o tempo". Não é que os mais velhos tenham mais razão do que os mais jovens. Eles apenas tiveram mais tempo para pensar e refletir determinados assuntos.

A seguir, três músicas muito importantes para mim. Difícil fazer a seleção:

Tom Sawyer, do álbum Moving Pictures (1981), tradução Aqui



La Villa Strangiato, do álbum Hemispheres (1978)



2112, do álbum 2112 (1976), tradução Aqui





quarta-feira, dezembro 28, 2011

Os votos de final de ano e as crenças

Viver entre os homens é considerar comportamentos e contradições. Nos últimos dias, e com a proximidade das últimas horas que nos conduzirão ao ano de 2012, notamos o discurso do otimismo, das supertições de final de ano. No noticiário que vi esta manhã, como que por meio de uma instigação a um otimismo para fecundação de um ato, mostrava-se como as pessoas reagem ao esperarem melhores dias no novo ano que vai começar. Já me acostumei com esse comportamento de final de ano. Todos os anos essa corrida à supertição acontece.

Para alguns, a cor da roupa determina o ano que se vai ter. A peça intíma feminina também. A comida que se come também é um fator determinante àquilo que se vai ter durante todo o ano. É comum se comer lentilhas para atrair dinheiro. Alguns outros vão para a praia e depositam nas águas as suas esperanças. Outros ainda, refulgiam-se em igrejas buscando proteção divina no período de 365 dias do próximo ano. Seja uma crença institucionalizada ou não, o fato é que tudo isso é resultado de um comportamento religioso.

O que é a crença? É a percepção dos valores que sustentamos. Uma coisa só vale mais do que outra porque assim o estabelecemos e desejamos. A fé é uma disposição biológica. Parece haver no cérebro humano um lugar para o numinoso. Quando debato sobre a fé de alguém, piso no terreno do indiscutível. "Fé é porque é"; "vejo algo e dou fé do que vi". É aquilo que Kierkegaard disse certa vez: "Fé é fé e eu procuro uma que seja verdadeira para mim". Ou seja, a crença é algo vinculado ao ser humano, ao mundo humano.

No século XIX, Auguste Comte, conhecido por muitos como o pai da sociologia e também do positivismo, dizia que a religião é resultado de um primitivismo. O "primitivismo" em acepção comteana estava relacionado a um valor negativo. Não cabia ao homem moderno, na era da razão, da ciência, conviver com este "estigma" que o inferiorizava. Era preciso dar voz à razão científica. Sem perceber, invonluntariamente, Comte estava fundando uma religião - a religião científica.

O homem é, por natureza, um animal religioso. O propalado ateísmo da modernidade é, no fundo, uma crença na não-crença. O fato é que o ser humano não se acostuma com a materialidade e busca sempre um significado para aquilo que está por trás dela. Para que apazigue seu medo, sua pulsão-tensão em torno do desconehcido, cria um desejo de transferência para aquilo que está ausente dele. De maneira inconsciente, precisamos de algo que nos oriente. O caos seria insurportável. Descasamos, somos pacificados, uma carga sai dos nossos ombros, quando sentimos ou cremos que um ser superior (ou sentimento simbólico) cuida dos nossos medos, de nossa ansiedade, do desejo que se alastra pelo nosso ser. É aí, que se abre espaço para a crença, para o religioso.

Não existem seres humanos sem crenças. Crer não é, necessariamente, depositar fé em um deus, em uma religião institucional - cristianismo, judaísmo, islamismo, hinduísmo etc. Durkheim afirma que os nossos critérios de julgamento da realidade estão balizados na crença. É isso que faz criar os valores. Julgamos o que é certo e o que errado diante de validações com características duais - o bom e o ruim. Posso afirmar que sou ateu ou agnóstico, mas no fundo há reservas quanto a determinados fatos cotidianos. Se o meu time joga e desejo que ele seja campeão, deposito em relação a isso, uma confiança (crença não institucional). A minha torcida é confiante. É em outro sentido, uma confiança positiva. Se estou desempregado e busco emprego, no fundo, creio que posso encontrar um emprego. O garoto que se apaixona e investe no flerte, acredita que pode namorar a moça dos seus desejos. O jogo com a crença se estabelece como uma relação com o imaterial, com simbólico, com o intangível.

Na atualidade, há um movimento de esvaziamento da religiosidade institucional, ou seja, um movimento de "dessacralização do mundo". Mas a ideia do religioso está camuflado por trás de movimentos que se dizem laicos ou até anti-religiosos. A institucionalização do mercado não deixa de ser um evento religioso. De certa forma, este assume o poder de uma entidade absoluta, invisível, que tudo regula. Os investidores têm fé nessa força, senão ninguém arriscaria seus recursos em algo que só no futuro trará benefícios. O mercado possui sacerdotes - os economistas. Estes sacerdortes são os agentes autorizados para interpretar os humores do deus mercado. O mercado possui templos - os shopping centers - as "catedrais luminosas e limpas" do deus mercado. Richard Dawkins, um dos mais instigados defensores da ciência, no fundo, é "um religioso", que busca fundar uma outra crença: a possibilidade de que o homem possa viver no mundo sem a ideia do deus institucional.

Pensando sobre comportamento dos homens, lembro da frase daquele sofista antigo: "O homem é a medida de todas as coisas". O ser humano é o único animal capaz de criar abstratamente. De engendrar mundos. De fantasiar. De ter a consciência de que está consciente. E de criar perspectivas quanto ao seu futuro. Como o futuro é uma força indomável, preciso lhe dar com ele baseado na expectativa em torno do incerto. O futuro é incerto porque está ausente das nossas mãos. É um fato intangível. Parafraseando o filósofo pernambucano Evaldo Coutinho: "O tempo é a aproximação ininterrupta do fato".

Vivemos por causa da crença. Trabalhamos por causa da crença. Estudamos por causa da crença. Militamos em partidos políticos por causa da crença. Frequentamos igrejas e vamos ao culto ou à missa por causa da crença. Constituímos famílias por causa da crença. Votamos e esperamos uma sociedade mais justa por causa da crença. Lemos livros ou escutamos música por causa da crença. Fazemos votos de melhores dias, mesmo que não tenhamos controle sobre isso, por causa da crença.

Por Carlos Antônio M. Albuquerque

domingo, dezembro 25, 2011

Lolita (de Kubrick), obra menor. Imagine as maiores?

Ainda estarrecido por causa da maestria de Stanley Kubrick. Comecei a ver no dia de ontem o filme Lolita (1962) do diretor americano Stanley Kubrick. Terminei hoje pela manhã. Assisti ao filme em prestações. O filme é baseado num dos livros mais controversos do século XX, escrito pelo russo Vladimir Nabakov, Lolita (1955). Vale lembrar que em 1997, foi feita uma releitura da obra em um outro filme com o mesmo nome, pelo diretor Adrian Lyne. Vi algumas cenas e achei que a nova versão abusou na sensualidade, na lascividade exagerada da ninfeta Lolita. Ou seja, não dá para comparar com a primeira versão de 1962. Voltemos ao maestro Kubrick. É curioso como um filme feito há tanto tempo conserve traços de uma obra genial.

Alguns críticos dizem que se trata do filme mais "fraco" de Kubrick. Discordo. Quando se trata de Kubrick tudo é um detalhe a ser observado. Fico refletindo por horas e horas como um filme como Lolita, sem efeitos mirabolantes, sem as técnicas computadorizadas da atualidade apreende a atenção do telespectador por duas horas e meia. E chego à conclusão: o que nos prende é a maestria das cenas, das falas, da habilidade dos atores, do enredo muito bem urdido, amarrado; da história muito bem construída. As cenas iniciais do filme são de um drama fascinante.

O professor de literatura francesa, Humbert Humbert, invade a mansão do produtor de cinema Clare Quilty, com um revólver, disposto a fuminá-lo. O diálogo do professor com o produtor de cinema é genial. Digno dos grandes suspenses. Longo em seguida, a obra nos conduz por um flash back, o que de fato nos insere na história. O ponto crucial é saber que o professor Humbert fica obcecado por Lolita, uma adolescente envolvente. É capaz de casar com a mãe da adolescente para ficar próximo da menina. Escreve num diário sua obsessão pela adolescente. A mãe da garota descobre e fica transtornada. Sai de casa em disparada e acaba sendo atropelada. Morre. Daí, a obra toma características de um road movie. Humbert sai em viagem com a garota.

A obra possui um eixo estrutural muito bem realizado, possuindo diversas qualidades literárias. Vai do início dramático, a um romance de menor significância, quando o professor se estabelece e passa a morar com a mãe de Lolita. Depois, como aludido acima, passa para um road movie, com uma curiosa viagem de carro. Logo em seguida, de forma extraordinária, revesa para o mistério, quando o professor Humbert e a jovem começam a ser persguidos por um sujeito oculto. A obra nos posiciona à frente de uma tensão repleta de curiosidade. E depois somos colocados numa atmosfera policial.

O que observei em Lolita foi a acapacidade do diretor de tornar um telespectador num "semipersonagem" da história. Vale ressaltar que para isso ocorresse, a atuação do ator James Mason, que fazia o papel do professor Humbert, foi crucial. Seus diálogos são de uma visceralidade incrível. Se Lolita é uma obra "menor" de Kubrick, imagine o que ele é capaz de fazer com as obras "maiores" ?

Que pena que na atualidade não tenhamos outros Kubricks.

Cenais iniciais do filme: os traços do gênio. O carro rasgando a estrada com a paisagem repleta de névoa branca. As árvores desnudas e cadavéricas... Ah! Kubrick...

Click Aqui. Não foi possível incorporar o vídeo.

sexta-feira, dezembro 23, 2011

O dia do juízo sobre nossa cultura? - Por Leonardo Boff

Extraordinário texto. O Boff é uma poeta com profundo senso profético. Uma voz que merece/deve ser ouvida.

O final do ano oferece a ocasião para um balanço sobre a nossa situação humana neste planeta. O que podemos esperar e que rumo tomará a história? São perguntas preocupantes pois os cenários globais apresentam-se sombrios. Estourou uma crise de magnitude estrutural no coração do sistema econômico-social dominante (Europa e USA), com reflexos sobre o resto do mundo. A Bíblia tem uma categoria recorrente na tradição profética: o dia do juízo se avizinha. É o dia da revelação: a verdade vem à tona e nossos erros e pecados são denunciados como inimigos da vida. Grandes historiadores como Toynbee e von Ranke falam também do juízo sobre inteiras culturas. Estimo que, de fato, estamos face a um juízo global sobre nossa forma de viver na Terra e sobre o tipo de relação para com ela.

Considerando a situação num nível mais profundo que vai além das análises econômicas que predominam nos governos, nas empresas, nos foros mundiais e nos meios de comunicação, notamos, com crescente clareza, a contradição existente entre a lógica de nossa cultura moderna, com sua economia política, seu individualismo e consumismo e entre a lógica dos processos naturais de nosso planeta vivo, a Terra. Elas são incompatíveis. A primeira é competitiva, a segunda, cooperativa. A primeira é excludente; a segunda, includente. A primeira coloca o valor principal no indivíduo, a segunda no bem de todos. A primeira dá centralidade à mercadoria, a segunda, à vida em todas as suas formas. Se nada fizermos, esta incompatibilidade pode nos levar a um gravíssimo impasse.

O que agrava esta incompatibilidade são as premissas subjacentes ao nosso processo social: que podemos crescer ilimitadamente, que os recursos são inesgotáveis e que a prosperidade material e individual nos traz a tão ansiada felicidade. Tais premissas são ilusórias: os recursos são limitados e uma Terra finita não agüenta um projeto infinito. A prosperidade e o individualismo não estão trazendo felicidade; mas, altos níveis de solidão, depressão, violência e suicídio.

Há dois problemas que se entrelaçam e que podem turvar nosso futuro: o aquecimento global e a superpopulação humana. O aquecimento global é um código que engloba os impactos que nossa civilização produz na natureza, ameaçando a sustentabilidade da vida e da Terra. A conseqüência é a emissão de bilhões de toneladas/ano de dióxido de carbono e de metano, 23 vezes mais agressivo que o primeiro. Na medida em que se acelera o degelo do solo congelado da tundra siberiana (permafrost), há o risco, nos próximos decênios, de um aquecimento abrupto de 4-5 graus Celsius, devastando grande parte da vida sobre a Terra. O problema do crescimento da população humana faz com que se explorem mais bens e serviços naturais, se gaste mais energia e se lancem na atmosfera mais gases produtores do aquecimento global.

As estratégias para controlar esta situação ameaçadora praticamente são ignoradas pelos governos e pelos tomadores de decisões. Nosso individualismo arraigado tem impedido que nos encontros da ONU sobre o aquecimento global se tenha chegado a algum consenso. Cada pais vê apenas seu interesse e é cego ao interesse coletivo e ao planeta como um todo. E assim vamos, gaiamente, nos acercando de um abismo.

Mas a mãe de todas as distorções referidas é nosso antropocentrismo, a conviccção de que nós, seres humanos, somos o centro de tudo e que as coisas foram feitas só para nós, esquecidos de nossa completa dependência do que está à nossa volta. Aqui radica nossa destrutividade que nos leva a devastar a natureza para satisfazer nossos desejos.

Faz-se urgente um pouco de humildade e vermo-nos em perspectiva. O universo possui 13,7 bilhões de anos; a Terra, 4,45 bilhões; a vida, 3,8 bilhões; a vida humana, 5-7 milhões; e o homo sapiens cerca de 130-140 mil anos. Portanto, nascemos apenas há alguns minutos, fruto de toda a história anterior. E de sapiens estamos nos tornando demens, ameaçadores de nossos companheiros na comunidade de vida. Chegamos no ápice do processo da evolução não para destruir mas para guardar e cuidar este legado sagrado. Só então o dia do juízo será a revelação de nossa verdade e missão aqui na Terra.

DAQUI


quarta-feira, dezembro 21, 2011

Anticristo, de Lars von Trier

Na última segunda-feira, fui à locadora aqui perto de casa e loquei Anticristo de Lars von Trier. Relutei ao máximo em vê-lo. Adiei o quanto pude a tarefa de assistir à película. Não gosto de filmes de terror nem de suspense. O estresse proporcionado por aquelas cenas tensas; as surpresas que são maquinalmente feitas para chocar o telespectador para mim são cacetes; a taquicardia, ao meu modo de ver, é desnecessária. Mas o filme de Trier me assediou por dois dias. Até que na manhã de hoje, eu resolvi vê-lo em meu notebook. Quis evitar maiores dissabores. E que surpresa me esperava. Descobri que o filme não é um terror. Poderia classicá-lo como um drama com fortes doses de suspense. Mas há apenas a utilização deste último artíficio para causar os efeitos possíveis, desejados pelo diretor.

O filme proporciona uma experiência tão densa que, após tê-lo visto, tenta-se reorganizar o caos mental, a experiência dorida a qual se enfrentou. De certa forma, ainda estou tentando ordenar os vários elementos, ou seja, cada peça que constitui a obra. Trier prende o telespectador, machuca-o, fere-o com cenas de violência, de uma eroticidade acachapante, de uma uma plasticidade quase que desnecessária. Mas como disse, nada no filme é desnecessário.

A príncipio, a história está colocada entre dois espaços, conectados a um "Prólogo" e um "Epílogo", momentos da mais intensa beleza surgida nos últimos tempos no cinema. O "Prólogo" e o "Epílogo" representam os dois espaços lumisos do filme. No intervalo desses dois espaços, está o escuro, o agonizante, o desespero e a depressão (“Luto", "Dor (Caos Reina)", "Desespero (Genocídio)" e "Os Três Mendigos"). Os cinco minutos iniciais do filme é de uma beleza e pureza enlevantes. O casal, representado pelo extraordinário Willem Dafoe e pela extraordinária Charlotte Gainsbourg, está fazendo sexo no banheiro. Trier busca ser realista. Mostra a genitália dos amantes - o pênis penetrando a vagina - talvez para sugerir o natural, o primitivo, a união profunda do homem e da mulher. As cenas se sucedem em câmera lenta. Tudo em preto e branco. Uma ária de Handel (Lascia Ch’io Pianga, com interpretação da soprano norueguesa Tuva Semmingsen) embala as emoções. A água do chuveiro cai. Fora da casa onde o casal está, a névoa despenca do céu em flocos suaves, como se fosse uma farinha celestial. O pequeno filho do casal sai do berço e ver a mãe e o pai realizando o gesto amoroso. Vira as costas. Faz uma cadeira de apoio e sobe até a janela. Brinca com a neve. E despenca. A queda parece ser uma poesia. Os pais não veem a queda do filho. Uma cena do filme, mais à frente, sugere que a mãe viu o filho caindo. Mas nada no filme de Trier é demasiadamente lógico.

Do evento trágico da morte do filho, desencadea-se o sofrimento para o casal. A mãe se ver aturdida pela dor e pelo desespero. É acometida por distúrbios psicológicos. E aqui começa de fato a viagem bíblica e psicanalítica proporcionada pela obra. Os personagens não possuem nome. Estão presente no filme a força do homem (a inteligência), contra o impulso da mulher (a demência). O marido mostra-se no filme como a energia racional, capaz de pensar os processos, de organizar o caos. É quem conduz, do ponto de vista da psicanálise, o tratamento psicológico da esposa. E é curioso o fato do casal se refugiar no interior de uma cabana chamada Éden, no coração de uma floresta. Éden segundo a Bíblia significa "paraíso" ou "jardim das delícias" e foi o local criado por Deus para que nele morasse e vivesse o primeiro casal humano - Adão e Eva. É somente após a queda, acepção bíblica, que a mulher recebe o nome de Eva. Ou seja, antes da queda ela não possuía nome. Já o homem é considerado "o pai de todos os homens" - Adão, do hebraico "adamar" ou "aquele que foi tirado da terra".

Éden, no filme de Trier, é o lugar da tentativa de cura, da busca pelas lembranças prazerosas e remidoras. Mas é em meio à natureza que os medos e reações mais intempestivas da esposa se voluntarizam. Cena curiosa e instigante é aquela que a esposa escuta um choro de uma criança. Ela procura em toda parte, mas não encontra nenhum personagem para protagonizar aquele vagido. De repente, a câmeta foca a netureza. A imensidão é mostrada. É a pópria natureza que chora. Uma agonia cósmica, metafísica, se insinua. A dor, então, é uma faceta natural do cosmos. Uma frase enunciada pelo marido no início do filme parece corroborar com esta ideia: "O sofrimento não é uma doença. É uma reação saudável e natural".

Na floresta, em meio à natureza, os instintos mais tenebrosos da esposa se avivam. Ela um ser frágil, vai adquirindo uma energia animalesca, pornográfica. Sua ânsia por sexo é um retrato curioso. Numa cena, ela atinge o falo do esposo com um objeto e este, com a dor, acaba desmaiando. E o que se sucede até o final é de uma audácia incrível. Numa cena de demasiada crueza, a esposa mutila o próprio clítoris com uma tesoura e tenta matar o marido. O marido como para se libertar da pulsão de destruição da esposa, acaba por enforcá-la e matá-la. Esse ato representa a liberdade. Ele fica livre da dor, da agonia, do selvagem que habita o feminino.

No "Prólogo", após ter matado a esposa: ele caminha cambaleante. Alimenta-se de frutas silvestres. É a harmonia com a natureza. Enquanto caminha, dezenas de fêmeas vêm ao seu encontro. Sobem o monte. O que seria esse monte? O Gólgota? - lugar da crucificação de Cristo. Mas essas mulheres não possuem rosto. E de repente, a película termina e por dois segundos, num fundo escuro, aparecem os dizeres: "Dedicado a Andrei Tarkovski (1932 a 1986)”. Tarkovski, nascido na antiga Uniãpo Soviética, foi um dos maiores diretores da história.

Lars von Trier tem gerado as mais distintas reações com os seus filmes. Polemista, "arengueiro", como se diz no Nordeste do Brasil, o diretor dimarquês tem arrancado uma beleza descomunal de suas obras. Os filmes de Trier possuem o poder de nos fazer pensar por dias. É daquelas obras que encerram efeitos densos. Deixando de lado maiores polêmicas quanto às suas afirmações sobre posicionamento político ou postura pessoal (o diretor se intitulou como o melhor do mundo e, em outro momento, disse admirar Hitler), Trier é um dos nomes mais importantes da arte cinematográfica da atualidade. Incensado por uns, odiado por outros, o diretor alimenta aquele tipo de sentimento que reside em torno dos grandes artistas.