quarta-feira, agosto 16, 2023

"A luneta mágica", de Joaquim Manuel de Macedo - algumas palavras

 


“Chamo-me Simplício e tenho condições naturais ainda mais tristes do que o meu nome. Nasci sob a influência de uma estrela maligna, nasci marcado com o selo do infortúnio. Sou míope; pior que isso, duplamente míope, míope física e moralmente”.

 

Joaquim Manuel de Macedo, carinhosamente chamado à sua época de Macedinho, é um caso singular na literatura do nosso país. É atribuída a ele a inauguração do romance brasileiro. Em 1844, com a escrita de “A moreninha”, Macedo funda um tipo de texto que, ainda no século XIX, conheceria nomes prodigiosos como o de José de Alencar, Aluísio de Azevedo e Machado de Assis.

Macedo foi um autor bem diverso de Machado, por exemplo. Trilhou um caminho bem diferente. Fundou um estilo que, como diria Antonio Candido, era ‘digressivo, coloquial; entremeado por piadas e lágrimas; tendendo à caricatura, mesmo ao lado da tragédia; cheio de alusões políticas’. Candido ainda afirma que os romances do autor ‘parecem, antes, narrativa oral de alguém muito conversador, cheio de casos e novidades’.

E, talvez, essa seja uma das características profusas de sua obra. Enquanto em vida, Macedo desfrutou de um enorme sucesso. Seus textos eram aguardados por moças sonhadoras e jovens curiosos. Por exemplo, “A luneta mágica” foi publicado em fascículos, em um período de seis meses. Macedo fez fortuna; viveu confortavelmente. Há um repertório crítico que entende que os textos do autor são ingênuos, com pouca profundidade. Versam sobre passeios; namoros galantes; bailes disputados; vestidos que farfalhavam e ondulavam ao vento; idílios, suspiros; e muito romance fantasioso com aspectos impossíveis.

O escritor alcançou fama com essa fórmula. Escreveu dezoito romances e doze peças teatrais. Ficou conhecido por essas características – o Macedinho, autor d’“Moreninha. Macedo seria o nosso Johann Strauss II, só que da literatura. Uma antítese inevitável com o maior de nossos romancistas, Machado de Assis. Todavia, antes de “Memórias Póstumas”, Macedo escreveu um dos livros mais seminais da literatura brasileira – ou seja, “A luneta mágica”. 

O livro foge do esquema do romance que aborda os arroubos amorosos tão característicos dessa fase. Observa-se que Macedo está preocupado em tratar em tom de ironia muitos dos aspectos da sociedade de sua época. A partir da perspectiva do narrador em primeira pessoa, nota-se a estrutura que compõe o tecido social e os costumes desse certo período do Império. “A luneta mágica” descreve com bastante picardia e doses de ironia alguns dos personagens – os finórios, os espertos, os malandros, os oportunistas, os velhacos. 

Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882)

Simplício, como pode ser observado pelo excerto colocado no início deste texto, sofre de um problema que o preocupa desde o nascimento. Uma miopia se espraia em duas direções – uma física e outra moral. Isso traz enormes prejuízos a ele, pois não consegue se autodeterminar. Vive sempre às expensas das opiniões alheias. Para resolver essa disfunção, seu amigo Reis o apresenta a um sujeito cujo nome surge apenas como um gentílico – “armênio”, escrito com inicial minúscula, o que ainda reforça a ideia de mistério e indefinição. Essa personagem enigmática esculpe para Simplício uma luneta capaz de amplificar a capacidade de ver. Em um primeiro momento, a luneta cumpriria o seu papel, potencializar a possibilidade de mostrar os objetos e as pessoas em suas superficialidades. Mas, se “a coisa” fosse observada por mais de três minutos, enxergar-se-ia a essência, ou seja, como realmente se é.

Na primeira parte do livro, Simplício passa a enxergar o mal, a feiura das pessoas e das coisas. Não há pessoas genuinamente boas. Todos são interesseiros ou fingidos sociais. O mano Américo é um espertalhão; a prima Anica – tão recatada - é uma interesseira; a tia Domingas é uma religiosa hipócrita. Os amigos formam uma súcia de abutres. Até mesmo, no reino animal, Simplício encontra o desejo da rapinagem e da vilania. A personagem experimenta a tese hobbesiana de que ‘o homem é o lobo do próprio homem’. A fórmula que estrutura as relações sociais é maldade, o desejo de “espoliar”, de “assolar” o outro; de tirar-lhe tudo o que for necessário. Mas, inevitavelmente, essa maneira de enxergar o mundo conduziu a personagem a complexos problemas. 

Na segunda parte da narrativa, Simplício é conduzido novamente ao armênio; e este forja uma nova luneta. Diferente da primeira versão, a luneta terá a mesma configuração, mas mostrará apenas “o bem”. É enxergando bem que Simplício arranjará as maiores dificuldades, pois ele passa a experimentar, paradoxalmente, a maldade e a esperteza das pessoas. Onde havia apenas finórios, Simplício passa a ver apenas pessoas virtuosas. Torna-se generoso ao extremo. Esbanja a herança. Empresta dinheiro. Financia lautas refeições a ladinos sociais. Por fim, sua família resolve interditá-lo, pois estava dilapidando a fortuna que recebera. Pelo menos um terço de tudo o que possuía foi consumido.

Após uma crise que o empurra ao desejo suicida, Simplício é salvo. Recebe uma nova luneta. A terceira versão do objeto procura mostrar as pessoas e as coisas de forma equilibrada. A parte final da obra possui um discurso moral do armênio. Como um mestre que procura explicitar o sentido de uma parábola, o escultor da luneta busca tornar evidente para Simplício que o mal é uma possibilidade; mas, o bem também. Fica a lição de que “na visão do mal como na visão do bem há um fundo de verdade”. Ou seja, há o bem e o mal em todas as realidades da vida. É preciso buscar o equilíbrio. O erro existe no exagero, na fixação, na contumácia, na teimosia. A vida, no fundo, é constituída por um movimento que oscila entre o bem e o mal. Apegar-se a um ou a outro de maneira radicalizada constitui um vício, uma invirtude; e, necessariamente, impele à infelicidade. Procurar “enxergar” a vida com equilíbrio e bom-senso é a melhor das fórmulas. 

quarta-feira, agosto 09, 2023

9 de agosto de 1979

 

O lugar em que ficava a casa. Na estradinha distante, o lugar em que morava seu Erasmo. 

Em um dia como este só me vem à cabeça as imagens descritas por José Lins do Rego em “Meus Verdes Anos”. Nas páginas iniciais, quando faz referência à morte de sua mãe, ele fala de “névoas espessas” da memória. De um momento em que as imagens se misturavam; confundiam-se; voavam; pareciam indivisas.  Da infância ficavam os pequenos registros. As imagens que se prenderam à memória pela significação que elas tiveram no momento em que aconteceram.

                Diz minha mãe que, dia 9 de agosto de 1979, deu numa quinta-feira. Ela passara a noite inteira do dia 8 com lancinantes contrações. Eu estava dando trabalho para nascer. Os recursos eram escassos. O casal humilde, que era o meu pai e minha mãe, morava numa casa de barro, desguarnecida de qualquer conforto. Não havia móveis. O barro cru que cobria a armação de gravetos dava um aspecto primitivo àquele lugarejo. Às vezes, quando tenho a oportunidade de ir ao local onde nasci, fico a observar tentando desenhar com a fantasia a possível habitação. A casa já não existe. Foi derrubada pelo mel avô há bastante tempo. Existem fragmentos das paredes dispersos no meio do mato.

                Naquele dia, imagino que a vegetação estivesse verde – afinal era agosto. Nas matas resplandecia o fulgor da beleza verde dos paul d’alhos e facheiros que dançavam impelidos pelo vento. A mata da fazenda próxima estava lá com os seus bambuzais, com as copas viçosas que ainda podem ser observadas hoje. As jaqueiras e mangueiras estavam em flor. Ir a Vitória de Santo Antão não era tarefa fácil.

                A manhã foi avançando. As dores se tornando cada vez mais agudas, graúdas, difíceis de serem suportadas. Minha avó materna tentava dar os auxílios necessários. Acostumada na arte de parir, ela certamente orientava minha mãe. No inexorável paroxismo da dor, impuseram uma tarefa ao meu pai: ir à casa de seu Erasmo, um dos únicos moradores das imediações da zona rural que possuía um carro (no caso, uma Rural), a fim de que minha mãe fosse levada a algum hospital de Vitória. Meu pai saiu em disparada. Há relatos de, no dia, ele usava uma camisa de botões. Ela estava aberta. A camisa voava por conta da velocidade do meu pai. A casa do seu Erasmo distava a uns cinco quilômetros. Numa caminhada tranquila e sem imposições, demoraria algo em torno de cinquenta minutos. Meu pai deve ter gastado uns vinte na estrada de chão.

                Nesse interregno, chamaram dona Bil, a parteira da região. Acostumada na arte de ajudar as mulheres a trazerem novos seres humanos ao mundo, dona Bil criara uma reputação. Do lugar onde residiu, restou apenas uma tapera. Havia duas frentes para resolver o dilema do nascimento: meu pai que buscava um transporte; e dona Bil, a parteira, que procurava minorar as dores espasmódicas de minha mãe. A natureza acabou sendo mais célere que o meu pai e a Rural de seu Erasmo. Nasci às 11h15, do dia 9 de agosto de 1979.

                Quando o transporte chegou, minha mãe se esvaía em suores e alívios; eu era apenas uma criança bochechuda e chorona.  

segunda-feira, julho 31, 2023

"As meninas", de Lygia Fagundes Telles

 

 

Terminei, há semanas, “As meninas”, de Lygia Fagundes Telles. Trata-se de uma das leituras que resolvi realizar ao longo do ano de 2023. Confesso que o livro somente me capturou da metade para o final.

“As meninas” é um dos romances da escritora paulista. É o seu livro mais famoso; aquele que alcançou maiores ressonâncias críticas e repercussões. Escrito em um período sensível da história do Brasil, “As meninas” é um livro de coragem porquanto problematiza uma série de temas tidos como tabu naquele período conturbado de nossa história. O livro foi publicado em 1973. Àquela altura, Lygia já se encontrava com 55 anos de idade. Era uma intelectual respeitada. Não precisava provar nada a ninguém. Sendo assim, o livro é uma prova cabal do papel dos intelectuais em um período de repressão. A onipresença do controle da Ditadura Militar, não impediu que o livro eclodisse como um destemido e ousado estampido. Talvez – e isso é apenas uma suposição – o censor não tenha conseguido apreender o intrincado enredo da obra, com aquelas constantes idas e vindas do fluxo de consciência das personagens.

“As meninas” é uma obra que foge a determinismos. Lygia se utiliza de um artifício, que permite que os leitores conheçam o momento histórico em que os eventos ocorrem a partir do ponto de vista das personagens – Lorena, Lia e Ana Clara. As três são imensamente diferentes. Possuem densidades e personalidades heterodoxas. É possível notar – a partir da vocalização dos anseios de cada uma delas – que se está diante dos anseios dos jovens daquela geração.

Interessante que Lygia tenha resolvido dar destaque a três figuras femininas, colocando em evidência a voz das mulheres. Naquela sociedade constrita pelo controle e com papéis definidos, as mulheres (as meninas) tinham uma mensagem importante; alimentavam sonhos; inquietações; desejos; medos; vaidades; possuíam uma vontade de poder que estava para além das convenções mesquinhas do conservadorismo rasteiro, propugnado por certos segmentos da sociedade. Cada uma das personagens, representava a verbalização sobre algo:

Lorena – era a filha da burguesia; rica, possuía gostos bem diferentes. Culta e virgem, sua grande ânsia era entabular um tórrido caso de amor com um médico casado e mais velho que ela, que recebe a alcunha de M.N.

Lia – é a intelectual do grupo. Seu engajamento é explícito. Oriunda do Nordeste, mete-se em organizações clandestinas a fim de combater o horror patrocinado pelos militares. Filha de um ex-militar nazista, Lia vive a angústia de saber que o namorado está preso.

Ana Clara – é a personagem mais nebulosa. Sua soturna personalidade, faz com que Lia e Lorena chamem-na de “Ana Turva” – um trocadilho, já que de “claro” ela não tinha nada. Ana é mais bonita das três. Parece luminosa por fora, mas existem noites misteriosas em seu interior. Seu namorado é um traficante e ela é viciada em drogas.

Lygia realiza enormes digressões ao longo da obra. Às vezes, a história é contada em primeira pessoa; mergulha-se na cabeça das personagens; e elas assumem o protagonismo sobre si mesmas. Em seguida, ela utiliza o discurso indireto livre. Ou seja, o narrador passa a conduzir a história sob o seu ponto de vista, assumindo a descrição dos meandros psicológicos de cada personagem.

Alguns temas surgem no enredo do livro, explicitando a coragem da autora: uso de drogas – uma das personagens é viciada. Sexo – as três conversam abertamente sobre sexo; menciona-se a masturbação feminina. Em uma época em que se pregava a pureza das mulheres e havia uma noção vigente de que as mulheres eram tímidas e frígidas, Lygia subverte o consenso. Suicídio – trata-se de um tema que gravita em torno da história de uma das personagens. O terror da Ditadura – há a descrição pormenorizada de uma sessão de tortura. Vale mencionar que à época, havia uma noção pública de que a tortura e o sumiço de prisioneiros políticos existiam, mas era um assunto velado. Lygia de forma destemida, decide abordar com desassombrada galhardia o assunto.

“As meninas” é um livro que transmite uma noção de inquietação – os jovens agem, são ousados, leves e densos, porém carregados de ânsias, inseguranças e muitos sonhos. É como afirma uma das personagens, explicitando a ética que estrutura o desejo dos jovens: “Se a gente tem vontade, tudo é bom”.

Abaixo, a descrição da sessão de tortura:

Quero que ouça o trecho do depoimento de um botânico perante a justiça, ele ousou distribuir panfletos numa fábrica. Foi preso e levado à caserna policial, ouça aqui o que ele diz, não vou ler tudo: Ali interrogaram-me durante vinte e cinco horas enquanto gritavam, traidor da pátria, traidor! Nada me foi dado para comer ou beber durante esse tempo. Carregaram-me em seguida para a chamada capela: a câmara de torturas. Iniciou-se ali um cerimonial frequentemente repetido e que durava de três a seis horas cada sessão. Primeiro me perguntaram se eu pertencia a algum grupo político. Neguei. Enrolaram então alguns fios em redor dos meus dedos, iniciando-se a tortura elétrica: deram me choques inicialmente fracos que foram se tornando cada vez mais fortes. Depois, obrigaram-me a tirar a roupa, fiquei nu e desprotegido. Primeiro me bateram com as mãos e em seguida com cassetetes, principalmente nas mãos. Molharam-me todo, para que os choques elétricos tivessem mais efeito. Pensei que fosse então morrer. Mas resistia e resisti também às surras que me abriram um talho fundo em meu cotovelo. Na ferida o sargento Simões e o cabo Passos enfiaram um fio. Obrigaram-me a então a aplicar os choques em mim mesmo e em meus amigos. Para que eu não gritasse enfiaram um sapato dentro da minha boca. Outras vezes, panos fedidos. Após algumas horas, a cerimônia atingiu seu ápice. Penduraram-me no pau-dearara: amarraram minhas mãos diante dos joelhos, atrás dos quais enfiaram uma vara, cujas pontas eram colocadas em mesas. Fiquei pairando no ar. Enfiaram-me então um fio no reto e fixaram outros fios na boca, nas orelhas e mãos. Nos dias seguintes o processo se repetiu com maior duração e violência. Os tapas que me davam eram tão fortes que julguei que tivessem me rompido os tímpanos: mal ouvia. Meus punhos estavam ralados devido às algemas, minhas mãos e partes genitais completamente enegrecidas devido às queimaduras elétricas. E etcétera, etcétera.

 

segunda-feira, julho 10, 2023

"Antes do Baile Verde" - algumas breves palavras

 


                Terminei a leitura do livro de contos “Antes do baile verde”, da escritora paulista Lygia Fagundes Telles. Desde que terminei o livro, fui acometido por um grande interesse por outros textos lygianos. Esse desejo é uma forte reverência resultante do contato com a literatura sob medida da autora de “As meninas”.

                Lygia, morta no início do ano de 2022, aos 103 anos de idade, é uma das autoras mais singulares das letras brasileiras do século XX. E, por extensão, pode-se afirmar que também o é da grande literatura do século XX. Seu texto primoroso é feito sob medida. Não há desperdícios. As palavras estão amarradas, urdidas, alinhavadas em feixes de ideias. Em sua escrita, não existem sobras. Tudo é por demais preciso e singelo. A impressão transmitida pela sua escrita é a de que ela sentou à mesa e, em trinta minutos, escreveu - sem qualquer transpiração – aquilo que lemos. Lygia é a elegância. A exuberância.

                Nascida na capital paulista, sua vida representou a quebra de padrões.  Ainda muito jovem – e de beleza física invulgar – ingressou na tradicional Faculdade de Direito do Largo do São Francisco. Dos quase trezentos aprovados no ano em que passou no processo seletivo, apenas seis destemidas mulheres contrastavam a paisagem no rígido ambiente dominado por homens. Em alguns momentos, havia o questionamento por parte de alguns machos, explicitando o que a maioria pensava: “O que vocês estão fazendo aqui?” Tudo parecia ser feito para que as mulheres permanecessem estáticas em espaços de inamovibilidade e invisibilidade. Lygia quebrou esses padrões sendo, por exemplo, casada por duas vezes, passando em concurso público (que lhe deu liberdade econômica) e publicou livros.

                Ainda muito jovem, começou a escrever contos. Orientada por um julgamento implacável, afirmaria mais tarde de que se tratava de textos juvenis, inexperientes, apoucados, que não deveriam distrair o leitor. Para ela, a relação autor/leitor deve ser de respeito, reverência. Antônio Cândido disse algo definitivo a respeito da obra de Lygia. Em sua concepção, a guinada que a levou ao amadurecimento, deslocando-a para a galáxia dos grandes escritores se deu com o lançamento do romance “Ciranda de Pedra”. Os nomes escolhidos para nomear os seus textos também constituem um nível de perfeição – “A estrutura da bolha de sabão”, “As horas nuas”, Seminário dos ratos”, “A disciplina do amor”, “Antes do baile verde”. Os nomes são sinestésicos, esteticamente delicados, capazes de revirarem a imaginação.

                “Antes do baile verde” é uma das obras mais importantes da escritora. Lançado em 1970, o livro reúne 18 preciosos contos, escritos em um período de vinte anos (1949-1969). Alguns desses contos estão entre os escritos mais conhecidos da autora. É caso, por exemplo, do conto que inspirou o livro “Venha ver o por-do-sol”; vale ainda a menção de “Natal na barca” e o “Jardim selvagem”. São criações literárias que transcendem a condição do indivíduo numa sociedade, permeado por eventos psíquicos, a maior parte deles inconscientes, que os conduzem a situações inopinadas, extremas. O texto lygiano capta as fagulhas, os lances indecisos, indivisos, incongruentes; os gestos misteriosos, contidos a priori, mas que acabam se tornando em epifania.

                Lygia sabe explorar os vãos onde estão as emoções das personagens. Ela não faz insinuações grandiloquentes. Sua habilidade se fixa na exploração dos pequenos gestos; para insinuações comedidas. Como afirma o professor Antonio Dimas, Lygia é uma escritora com hábitos felinos. Seus passos são moderados, cautelosos, medidos. Ela acumula detalhes de uma maneira quase imperceptível. Cria camadas de fatos, de contradições, silêncios, medos. Põe tudo diante do leitor e encerra o conto. Como um felino, ela deixa a sua marca com unhas retráteis em nossa imaginação. Uma fisgada breve, leve, mas que nos faz sentir.

Carlos Drummond e Lygia Fagundes - um galáxia de literatura
                Dois dos seus contos mais brilhantes são “O menino” e “Venha ver o pôr-do-sol”.  Os dois possuem os fechos mais surpreendentes e geniais da literatura do século XX. Tudo parece muito singelo, mas estão repletos de crueldade, de desumanidade. De um lado, um ex-namorado abandonado por uma moça de valores fúteis. Ele procura atraí-la para um jazigo. A influência do texto de Edgar Allan Poe é incontestável. Há uma ironia macabra no convite: ver de um cemitério abandonado, o mais lindo pôr-do-sol. “Ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado. Acendeu o cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda”. Os períodos são curtos. As ações indicam a concretização de um cálculo. Há um movimento, uma ação consciente, um desfecho planejado. A vingança. A retaliação. A desforra. Lygia encerra o conto e abandona o leitor com um fato intrigante e, aparentemente, insolúvel, angustiante. A solidão não é só da personagem. É do leitor também, que se vê recluso por um dilema. O que acontecerá com a mulher dentro daquele jazigo abandonado? As crianças que brincam à distância escutarão os brados agônicos de Raquel? O desejo é de correr até aquele lusco-fusco e arrancá-la daquele espaço lúgubre e, potencialmente, assombrado.

                No conto “O menino”, Lygia faz sucumbir os sonhos mais inocentes de uma criança. A masculinidade juvenil, permeada por emoções edipianas, vai ao chão. É cruel assistir a tudo isso. A sua tentativa de ser mais maduro do que é: “Pô! Homem não usa perfume! ” Para ele, sua mãe é a perfeição. Ele a exibe. Ela é um patrimônio. Seu orgulho. Deseja que os colegas a vejam. Invejem-no. Todavia, a cena que constatou no cinema, foi o suficiente para terminar com as suas fantasias. A volta para casa é a inversão dos sentimentos da ida – “Saiu crianças e voltou homem”.

                Ao encontrar o pai, fica evidente a tristeza. O menino olha-o, na sala, lendo o jornal. “O menino encara-o demoradamente. Aquele era o pai. O pai. Os cabelos grisalhos. Os óculos pesados. O rosto feio e bom”.

                - “Pai... – murmurou, aproximando-se. E repetiu num fio de voz: - Pai...”

                - “Mas, meu filho, que aconteceu? Vamos, diga!”

                - “Nada. Nada”.

                Fechou os olhos para prender as lágrimas. Envolveu o pai num apertado abraço!

                A atitude do narrador é excessivamente fria. Como dito anteriormente, tudo parece frágil, mas está eivado pela própria cruel da própria vida. O mundo não possui as tinturas da alegria da fantasia apenas. Há o lado insuportável da maldade, da feiura.  Até mesmo a heroína, a agente que constitui o modelo mais alto de perfeição para uma criança – sua mãe – pode ser canalha. Atroz. Inclemente. Hedionda.

                Quando se ouve a fala da escritora nas entrevistas que dava, notamos sempre o tom de entusiasmo. Todavia, mesmo com toda essa leveza, com a fala carregada por cintilações de bom-humor, seus textos são rios subterrâneos com o potencial de provocar inundações. Afinal, a vida, no fundo, deve ser isso: uma paisagem ensolarada, com um rio plácido, que pode mudar as características a depender dos humores do tempo.

 

segunda-feira, junho 05, 2023

Últimos filmes vistos - I

 (1) "O alucinado" (1953), de Luis Buñuel. Quinto filme do diretor a que assisti neste ano. Certamente, o segundo melhor. Perde apenas para o "O anjo exterminador", uma obra-prima incontestável. "O alucinado" está inscrito na fase mexicana da filmografia de Buñuel. É um filme relativamente simples. Todavia, nota-se a transformação de uma personagem. Francisco, o personagem principal, é aristocrata. Um dia, ao ir à missa, encontra Glória. Apaixona-se imediatamente. O magma que emana da paixão é tórrido, irresistível. Mesmo Glória estando noiva de outra pessoa, os dois acabam ficando juntos. A partir daí, Francisco se torna um homem cruel, possessivo, paranoico; e, Glória, por sua vez, uma mulher infeliz. Excelente filme! Não é um dos mais conhecidos do diretor.

(2) "Já era hora" (2023), de Alessandro Aronadio. Tudo é clichê e comezinho nessa produção. Algumas vezes, enquanto assistia ao filme, questionei-me: "Por que estou vendo isso?". Todavia, em dado momento, a história vai ficando interessante. Dante é o nome do personagem principal. É um sujeito que está na casa dos quarenta anos. É um escravo do trabalho. Pretende chegar aos cinquenta para que possa desacelerar. Mas, de uma hora para outra, um fenômeno estranho começa a acontecer: ele sempre acorda no dia do aniversário. E para completar esse amalucado movimento do tempo, ele sempre nota que as coisas estão estranhas: sua companheira engravida; faz terapia de casais em outro momento; o casamento acaba; a filha cresce; tem um caso com a secretária; torna-se o diretor da empresa em que trabalha. A mensagem que fica é que ele se mantém tão ocupado, que não percebe o tempo passar; não nota as pessoas nem as coisas que estão ao seu redor. 


(3) "Rio, 40 graus" (1955), de Nelson Pereira dos Santos. O filme é considerado por muitos como a produção que "inaugurou" o Cinema Novo, movimento que buscava denunciar as mazelas sociais do Brasil, influenciado pelo Neorrealismo Italiano. Talvez, seja o filme que iniciou aquilo que se passou a convencionar como 'favela movie". Ou seja, produções que colocam "a favela" como o cenário da violência e das mazelas sociais do país. O próprio Nelson Pereira filmaria, mais tarde, filmaria "Rio, Zona Norte" - para mim - um dos seus melhores filmes. "Rio, 40 graus" procura mostrar um mosaico de ventos e personagens em apenas um dia. O filme possui vários planos e tomadas que procuram destacar o contraste das personagens. No caso em questão, cinco jovens negros, oriundos do Morro do Cabuçu, vendem amendoim. Um enfoque é dado aos jovens, todavia, observa-se que as personagens vão se conectando por meio de uma série de eventos. Há o Maracanã; há um oligarca que desconhece o país; há a classe média querendo tirar vantagens. É um baita filme, que exige paciência para ser visto. Termina com o bonito samba "A voz do morro", de Zé Kéti.


(4) "O Castelo de Vidro" (2017), de Destin Daniel Cretton. Este filme é um drama visceral, daqueles capazes de provocar raiva e compaixão. No que tange a filmes que procuram retratar a contestação, o desejo por liberdade, coloco "O Castelo de Vidro", ao lado de "Dentro da natureza selvagem" e "Capitão Fantástico". O filme do diretor Daniel Cretton, é baseado em fatos reais assim como em "Dentro da natureza selvagem". "O Castelo de vidro" conta a história de uma família disfuncional. Jeannette Walls, já estabelecida, nos anos 80, rememora os fatos de sua infância e mocidade ao lado do pai (Rex), um alcoolista, insubordinado, sem morada certa, que arrasta a família de casebre em casebre; e permite que os filhos passem pelas mais aflitivas situações - de fome a não ir à escola. Sua postura anárquica é disruptiva. É um contestador. Todavia, seus filhos e sua esposa pagam um alto preço. O filme é excelente.

quarta-feira, maio 31, 2023

"Vila dos Confins" e os imensos confins do Brasil

 

“O sol caía de ponta, brutal. Entorpecia e queimava tudo. A areia era polvilho de espelho socado no pilão”.

                Mário Palmério

 

Terminei a leitura do terceiro de doze livros de literatura brasileira que pretendo realizar ao longo de 2023. Desta vez, li “Vila dos Confins”, do escritor mineiro Mário Palmério. Importante e reveladora leitura. Palmério foi uma figura bastante curiosa da nossa literatura. Além de autor de – pelo menos - duas importantes obras – “Vila dos Confins” e “Chapadão do Bugre” -, teve uma entusiástica carreira como político e educador. Palmério ainda foi embaixador do Brasil em Assunção, capital do Paraguai, durante o governo de João Goulart. Vale destacar sua intensa atuação como educador. Construiu, em Uberaba, a Cidade Universitária, que leva o nome do escritor, uma honesta homenagem. 

Mário Palmério nasceu em Monte Carmelo, município situado no Triângulo Mineiro, no ano de 1916. Era um grande conhecedor da vegetação, da topografia, dos rios, da fauna e dos costumes da região. Isso se faz notar em “Vila dos Confins”. O escritor mineiro à semelhança do escritor alagoano Graciliano Ramos, estreou já quadragenário na literatura. “Vila dos Confins” como ele mesmo diz, “nasceu relatório, cresceu crônica e acabou romance”. 

O romance “Vila dos Confins” foi publicado no ano de 1956. No que diz respeito às produções regionalistas, parece ser extemporâneo. Vale mencionar que desde à “Bagaceira”, do paraibano José Américo de Almeida, publicado em 1928, passando por uma enormidade de escritores como o já citado Graciliano Ramos, além de José Lins do Rego, Raquel de Queiroz, Jorge Amado, Amando Fontes, dava-se a impressão de que a estética regionalista parecia esgotada. “Vila dos Confins” acabou provocando um forte impacto. Surgiu como uma lufada de vento agradável, produzindo uma curiosidade inquestionável. A escritora cearense Raquel de Queiroz, já consolidada e que, àquela altura, era uma veterana, prefaciou a primeira edição da obra. Ela verbaliza de forma certeira: “A primeira qualidade que me impressionou no escritor Mário Palmério foi este cheiro de terra, que o livro traz, tão autêntico”. Livro com “cheiro de terra” – não se tratava apenas de uma metáfora. Era uma pujante escolha estética por parte do autor. 

“Vila dos Confins” rescende à fragrância das gerais. Escutamos o dialeto do povo. É uma obra cujo enredo tem por finalidade colocar em destaque as disputas políticas em uma cidade recém emancipada, denominada Vila dos Confins. Palmério transforma em literatura a ética que preenche as disputas políticas interioranas. Esse artifício maquiavélico ainda é o “modus operandis” de boa parte das castas políticas do Brasil profundo, do Brasil distante dos centros urbanos; do Brasil dos rincões afastados, dos confins. O Congresso Nacional, as Assembleias Legislativas e as Câmaras Municipais, ainda estão pejadas por gerações de políticos que transmitem um certo jeito de se locupletar da coisa pública. Esses personagens entendem que os cargos decisórios da vida social são um direito de herança. 

Nota-se ainda na obra uma tentativa de colocar em paralelo aspectos da vida social (política) com histórias de pescas, garimpo, caças (natureza), atravessando por uma certa maneira de dizer. O texto de Palmério procura ser fiel ao dialeto do homem da terra. Sua linguagem é caudalosa. Em alguns momentos da leitura, é perceptível algum tipo de mudança repentina do fluxo narrativo. É preciso estar atento para não perder o plano central da história com seus personagens principais em disputa. 

A linguagem de “Vila dos Confins” procura se fixar numa expressividade local, regional. O autor se utiliza de acurados neologismos. Essa estratégia cria um efeito de teor bastante significativo. O vigor da linguagem permite que, em dados momentos, o leitor seja surpreendido pela criatividade do autor. Faz lembrar a beleza da estética de Guimarães Rosa. 

Mário Palmério foi um homem que teve uma sensibilidade enorme para entender o seu meio. Seu texto aponta esse caráter. Nota-se o quanto ele conhecia a personalidade do homem do interior, encurralado por estruturas sociais e políticas, como dizia o crítico Wilson Martins, “burlescas” e “grotescas”. “Burlescas” pela forma provinciana, por uma certa forma de fazer; pela cristalização de certo entendimento; pelo atraso, pela tradição; pelo entendimento que a vida social e política, necessariamente, deveria seguir certo fluxo. E “grotescas” pela força da disputa; pela violência engendrada para que certo padrão, certos resultados permanessem. E, no que diz a isso, o texto de Mário Palmério continua imensamente atual nesse Brasil de imensos confins.

terça-feira, maio 23, 2023

Annie Ernaux e aquele acontecimento

 

“Enxerguei um bonequinho pendurado ao meu sexo por um cordão avermelhado. Não tinha me passado pela cabeça ter aquilo dentro de mim... Eu era bicho”.

In “O acontecimento”, Ennie Ernaux.

 

Até 2021, a escritora francesa Ennie Ernaux não era tão conhecida no Brasil. Havia tradução para dois ou três dos seus livros. Atualmente, seus livros são vendidos rapidamente nas livrarias. Novos livros estão sendo vertidos do francês para o português. Se não me falha a memória, há, atualmente, seis livros traduzidos. Ernaux é bastante conhecida na França. Escreveu mais de duas dezenas de livros ao longo de sua prolífica carreira.

Durante boa parte de sua vida, foi professora. Formada em letras, Ernaux é uma artífice versada na arte de dizer. Li dois dos seus livros. Mas, já tive a oportunidade de captar as características que a tornaram famosa. Seu texto é simples; despojado de requintes épicos; de empolações. Trata-se de textos curtos, de uma escrita breve, lacônica, mas que muito diz. Sua habilidade para suscitar inquietação é uma das qualidades que aparecem de imediato quando a lemos. Os textos transmitem a impressão de que foram escritos para serem lidos de um único fôlego.

Ernaux costuma nos capturar já no primeiro capítulo. A principal ferramenta que utiliza para destrancar a dimensão que guarda as palavras é a memória. Nesse sentido, pode-se afirmar que a francesa aponta para um tipo de habilidade que conseguiu desenvolver: tudo está nela. O passado é o espaço a ser estudado, arqueologizado, desvelado. Em um primeiro momento, tem-se a noção de que estamos diante de uma simples autora de autobiografias. Entretanto, sua  escrita transcende esse gênero. Ao mesmo tempo que fala de si, Ernaux dialoga com a sociologia; pincela de forma densa a construção de episódicos retratos; joga luz no quarto escuro da memória e acaba por construir uma literatura intimista. Ela mesma é o objeto da análise. A francesa eterniza o evento que é memória por meio de uma escrita que traz à vida o real que já não é, mas que já foi e que volta a ser por intermédio de uma seleção cuidadosa de um certo modo de dizer a si mesma.  

Ennie Arnaux

Ao narrar a sua vida, Ernaux realiza o movimento interior/exterior. Nesse sentido, seus textos são altamente existenciais.  Todavia, esse exercício não perece nesse ponto. Isso qualquer pessoa pode fazer – eu, por exemplo. E, nesse ponto, nota-se a grandiosidade de sua literatura. Talvez, aqui aconteça o fluxo de curiosidade que acomete os seus leitores, pois ela realiza um segundo movimento que é o do particular para o universal. É o que se dá, por exemplo, em seu livro “O Acontecimento”, que narra o aborto que ela realizou quando tinha apenas 23 anos de idade, ainda nos anos de 1960, numa França que possuía uma legislação que poderia condenar à morte tanto que realizava ou quem ajudasse a realizar um aborto. Isso pode ser verificado no filme “Um assunto de mulheres”, de 1988.

Ernaux, dessa forma, eleva o debate. Coloca-nos diante de assunto que é sensível, relevante e que deve ser do interesse de toda sociedade que seja solidária à luta das mulheres por mais liberdade para decidir o que fazer com o próprio corpo. Sendo assim, sua literatura está cheia do corpo, das escolhas, das contradições, da educação, da trajetória social, da relação com o outro, pois ela utiliza sua própria percepção para dizer-se ao mundo. Sua literatura permite que nos analisemos por meio de um outro, que é o outro da própria escritora. Essa característica torna Ernaux uma escritora singular, apesar do gênero memória ser povoado por uma quantidade enorme de escritores.

O posicionamento feminista é mais do que evidente na obra. Fica explícita a luta pessoal e a autodeterminação para levar à frente o desejo de realizar o aborto. Ela, uma jovem de 23 anos de idade, decidida a não continuar a gestação, buscou meios para pôr fim àquela condição momentânea; mas que poderia trazer transtornos para o resto de sua vida. Enfrentou o preconceito, a indiferença e a postura violenta de médicos, de colegas; o medo, a insegurança e, quiçá, o senso de culpa; e esteve, o tempo todo, sozinha com a incógnita – o que vai acontecer comigo e com o meu corpo?

“O Acontecimento” é um livro necessário. Foi escrito mais de trinta anos após o evento de 1963. Ela mesma diz na parte final da obra:

“Terminei de pôr em palavra isso que se revela para mim como uma experiência humana total, da vida e da morte, do tempo e da moral e do interdito, da lei, uma experiência vivida de um extremo a outro pelo corpo”.

“Eliminei a única culpa que senti a respeito desse acontecimento - que ele tenha acontecido comigo e que eu não tenha feito nada dele. Como um dom recebido e desperdiçado. Pois, para além de todas as razões sociais e psicológicas que pude encontrar naquilo que vivi, existe uma da qual estou mais certa do que tudo: as coisas aconteceram comigo para que as conte. E o verdadeiro objetivo da minha vida talvez seja apenas este: que meu corpo, minhas sensações e meus pensamentos se tornem escrita, isto é, algo inteligível e geral, minha existência completamente dissolvida na cabeça e na vida dos outros”. 

               

segunda-feira, maio 15, 2023

Uma resposta a partir de uma questão suscitada no WhatsApp


São boas as perguntas. Eu entendo a sua preocupação. Mas, não seria importante analisar o conteúdo daquilo que está sendo julgado?

Você acha que as decisões do Alexandre são meros caprichos jurídicos?

Não acredito que o Randolfe esteja sendo privilegiado pelas decisões do STF. Falar em ditadura do STF é bastante forte. É a retórica usada pelos bolsonaristas. Estamos a falar da instância máxima de decisões jurídicas do país. Com exceção do Kássio Nunes e do André Mendonça, penso que os demais ministros estejam à altura da Corte. Eu acredito que a culpa do STF foi ter se omitido em anos anteriores, quando permitiu que absurdos continuassem a ser praticados. Um exemplo foi a conivência com a existência da lava-jato e o acovardamento diante das notas golpistas de alguns milicos de pijama.

Mais uma vez: o PL é necessário. Condená-lo na integralidade é um erro. O PL não é do Governo atual. Ele está sendo debatido desde 2020; o PL não concede poderes de censura ao Governo. Ele “moraliza” o uso e a forma como as plataformas disseminam informações.

Outra questão importante: um amplo espectro da vida social é regulado por normas. Por exemplo, existem regras de como você deve negociar; regras para construir a sua casa; até que ponto o seu muro deve avançar na calçada; regras de como se deve comercializar alimentos. A forma como você conduzir o seu veículo. Ora, por que não deve haver regras para organizar o uso de um espaço tão imponderável como as redes sociais?

Semana passada, a Revista Piauí fez uma reportagem bastante interessante sobre o número de brasileiros conectados à internet. Os números são avassaladores. Atualmente, 84% dos brasileiros têm acesso à internet (181,9 milhões). Em 2013, eram 102 milhões.  O crescimento em uma década foi de 78%. A quantidade de brasileiros com internet, mas sem saneamento básico equivale à população do Equador. Ou seja, o total chega a 18 milhões de pessoas. Segundo a reportagem, esse valor é duas vezes a população da Áustria.

Dentre os brasileiros conectados, mais de 9 milhões recebem salário inferior a 550 reais e 1,27 milhões não têm acesso à água potável. Os brasileiros gastam tanto tempo na internet quanto ingleses e japoneses somados. Em 2022, um brasileiro médio passou 9 horas e 32 minutos na internet por dia. O brasileiro passa o dobro de horas que um americano no Instagram. Em média, o brasileiro gasta, por mês, 15 horas e 54 minutos. É uma das médias mais altas do mundo. Só perde para os filipinos. São 954 minutos. Lendo uma página por minuto, seria possível ler um livro de 954 páginas em um mês. Seguindo essa matemática, seria possível ler o "Ulisses", de James Joyce ou "O homem sem qualidades", do Robert Musil. No Yutube são 22 horas. No Facebook, 12 horas; no Twiter, 12 horas e 48 minutos.

O caso do WhatApp impressiona. Por mês, os brasileiros ficam 28 horas e 36 minutos. Daria para ler "Guerra e Paz", do Tolstoi (risos). Os franceses ficam em média 5 horas e 30; os australianos, 5 horas e 36; os estadunidenses, 7 horas e 24; os canadenses, 7 horas e 36.

Esses dados comprovam a necessidade de que haja uma legislação para impedir abusos. As crianças, adolescentes e jovens são os alvos preferenciais dessas plataformas. Além disso, existem outras com um potencial de demolição muito maior. No Brasil, não resolvemos os dramáticos gargalos da educação básica, mas quase que conseguimos que a integralidade da população tenha acesso à internet. São as contradições que nos assolam. 

terça-feira, maio 02, 2023

As origens da religião e do deus judaico-cristão

 

                
O fenômeno religioso me interessa em muitos aspectos. O homem é em essência religioso. A religião representa um esforço do homem para organizar e entender o mundo. Ela nos remete a um período da história do gênero “homo” em que era necessário entender a natureza e os seus movimentos. Sem conhecimento científico, sem ferramentas para realizar uma sistematização do conhecimento de forma racional, os homens precisaram criar histórias míticas para que a realidade fosse ordenada. Viver em um meio adverso, sem ter uma âncora explicativa para os movimentos da natureza levaria o ser humano a não suportar a própria existência. E daí que surge a religião como um fenômeno humano, como uma dimensão essencial da vida.

Houve um período em que não havia nem deuses nem religião. Havia apenas a natureza com as suas leis. A consciência de si e do mundo permitiu ao homem a elaboração de sofisticados símbolos. O símbolo (significante) cria uma mediação entre o mundo e o próprio homem, pois carrega um significado (conteúdo virtual do significante). As religiões precisam de símbolos, assim como as demais manifestações humanas. Ao criar símbolos, o homem passou a criar cultura. As religiões são manifestações da cultura e das condições materiais de certa época e lugar.

A religião judaico-cristã como qualquer religião está repleta de disputas e influências. Analisá-la hoje como um fenômeno monolítico é desprezar algumas importantes situações que foram responsáveis pela sua formação. É como, se diante de um trem, observássemos apenas um dos vagões, desprezando as demais composições. Um vagão apenas não é o trem. A religião dos antigos judeus era politeísta. Como era comum aos antigos povos do Oriente Médio, Israel possuía inúmeras divindades. Isso pode ser notado nos vários relatos bíblicos do Antigo Testamento. Javé era apenas uma das divindades. Fazia parte do panteão dos cananeus. O panteão cananeu era constituído por setenta deuses e deusas. Javé era mais uma das divindades, cujo patrono era o amoroso deus EL. Sua consorte era Aserá. EL significa “senhor”. No Pentateuco, aparecem inúmeras referências a EL – “El Shaday” (El ou “senhor da montanha”); El Elyon (el ou “deus altíssimo”); EL Olam (El ou “senhor altíssimo”); ou a designação majestática Elohim, que significa “Elvadíssimo”, “Altíssimo”.

O fato é que há um momento na história em que os isra-el-itas decidiram abolir o politeísmo e cultuar Javé como a sua divindade suprema. Os outros cultos foram proibidos. Um dos cultos mais praticados no Israel antigo era o culto a Baal, um jovem e viril guerreiro. A abolição de outros cultos não foi tranquila. Vários séculos foram necessários. É possível que o culto a Javé só tenha sido consolidado no período dos Macabeus, pois havia uma forte questão nacional envolvida.

No vídeo que pode ser encontrado no link a seguir, o professor Emerson Borges explica como se deu “a origem do deus bíblico”. Um excelente vídeo.

1. Indicação de leitura: https://g1.globo.com/Noticias/0,,MUL652419-9982,00-DEUS+BIBLICO+PODE+SER+FUSAO+DE+VARIOS+DEUSES+PAGAOS+DIZEM+ESPECIALISTAS.html

segunda-feira, abril 24, 2023

A história, a mitologia judaico-cristã e as mulheres

 

Ao longo da história, observa-se um movimento que sempre procurou tornar as mulheres seres sem vontade. Em quase quatro milênios de história registrada, é proeminente a hegemonia do protagonismo do discurso masculino. A historiadora Gerda Lerner afirma que mais de 90% dos registros históricos desse período foram feitos por homens.

Observa-se o quanto as mulheres foram definidas a partir de uma valoração sobre o corpo. Elas sempre foram alvos de uma catalogação. Houve, por exemplo, a determinação de que as mulheres são seres maternais, frágeis, concebidas para as tarefas subalternas, domésticas. O espaço da rua, das ações, das decisões foi feito para os homens; já o espaço das mulheres é o “espaço do recôndito” – da cozinha, do quarto. Mesmo quando o homem está em casa, a casa passa a ser segmentada – a sala por ser o lugar dos encontros e da sociabilidade é do homem; à mulher, cabe a cozinha.

A catalogação fornece um lugar à mulher – os homens são seres da cultura; a mulher, um ser da natureza. No entendimento masculino, as mulheres existem para preencherem certas atividades. Passaram a ser acessórias ao homem.

O mito bíblico-judaico afirma que Javé (que personaliza o masculino), criou para Adão “uma auxiliadora idônea”. É necessário destacar que "idôneo" é aquele ou aquela que auxilia, que presta uma ajuda, uma assistência. Aparece como alguém que está ao lado; que não possui protagonismo, que está à sombra de algo. Esse ser só é quando está ligado ao elemento definidor de sua existência, pois surge como apêndice. A palavra “idoneus” significa “bom”, “útil” ou que “demonstra perfeito estado”. A Bíblia na Linguagem de hoje é mais reveladora no sentido de tornar mais explícita a despersonalização da mulher. Nota-se o que Javé afirma: “Não é bom que o homem viva sozinho. Vou fazer para ele alguém que ajude como se fosse a sua cara metade”. Ressalta-se, mais uma vez, que a mulher só é algo enquanto estiver ligada ao homem. Ela nunca está só; é sempre a partir de algo. A ideia de “cara metade” possui ecos da filosofia grega; todavia, o entendimento aproxima-se disso, pois a mulher nunca é inteira, completa. Ao longo de mais de quatro mil anos de história, houve sempre o discurso da incompletude; ou que sua missão é estar ao lado do homem para ser um com ele. Ou seja, ela nunca é algo estando sozinha.

A Bíblia de Jerusalém afirma que após Javé ter criado o homem, o próprio homem afirmou: “Ela será chamada mulher, porque foi tirada do homem”. O homem passa a ser uma espécie de tutor da mulher, dando-lhe um nome, definindo-lhe a forma, a natureza.

Ainda no livro de Gênesis, encontra-se estupefaciente passagem sobre a condição: "Teu desejo te impelirá ao teu marido e ele te dominará" (Gn 3.16). Fica subjacente no texto a nação de que mulher é uma entidade com instintos irrefreáveis e em constante ebulição. Somente contida pela força atávica do homem. 

A mulher, assim, ao longo da história, possui um desejo tutelado. Enquanto os homens são aqueles que registram a história, são os seres que produzem a cultura, as mulheres são os seres auxiliares, que existem para satisfazer os homens. A história foi feita por homens, por isso as mulheres nunca tiveram um lugar de protagonismo. A Bíblia corrobora aquilo que Gerda Lerner afirma, pois foi feita à imagem e semelhança do macho. Quando não é Javé que fala, é o homem que assume o seu lugar para definir os papéis das mulheres no mundo. Observa-se ainda que não há uma única autora em qualquer narrativa bíblica. Os registros dos mitos bíblicos foram feitos por homens. E daí surge uma perturbadora pergunta: Caso as mulheres tivessem escrito a Bíblia, quais seriam as noções sobre o sagrado? Javé seria um ente melindroso, violento e contraditória como aparece em todo Antigo Testamento?