segunda-feira, abril 24, 2023
A história, a mitologia judaico-cristã e as mulheres
terça-feira, abril 18, 2023
"Latim em pó", de Caetano W. Galindo
Terminei o
excelente “Latim em pó”, muito bem escrito pelo professor, tradutor, pesquisador,
doutor em linguística Caetano W. Galindo. Recordei minhas aulas de linguística
e sociolinguística do período em que fiz o curso de letras. Existem muitos
livros sobre esse tema escritos por aí. O próprio autor reconhece. Mas, o que o
torna especial? Vale mencionar que é um livro cuja maior importância é divulgar
o que há de atual em matéria de pesquisa em torno da formação da língua
portuguesa falada no Brasil. Outra importante contribuição diz respeito à
divulgação de um material com essa relevante temática. Existem mitos
diversificados em torno da nossa língua: o primeiro deles é que é uma língua
difícil; que é uma língua originada em Portugal. Simplificar dessa forma não
explica o fenômeno. Não. Aqui, como expressa Caetano Veloso – lembrado no
título do livro – temos uma versão muito diferente daquele idioma surgido na
Europa; aqui, nós temos um “latim em pó”.
A língua portuguesa é a sexta língua
mais falada do mundo. O Brasil em especial contribui significativamente para
engrossar esse percentual. Existem quase 300 milhões de falantes da língua originada
em Portugal. No Brasil, são mais de 220 milhões. Como qualquer língua, o
português falado no Brasil possui algumas características. Olavo Bilac, que
cunhou a tão famosa expressão “flor do Lácio” para indicar o local de
surgimento da língua oficial do Império Romano, deve ser considerado. O
português, assim como as demais línguas românicas, foi originado do latim.
Todavia, somente esse dado não explica as atuais características do português.
Houve um momento em que a língua portuguesa
não existia. Os primeiros indícios do seu nascimento se deram nos séculos XI e
XII. A presença árabe na península Ibérica foi determinante para que a língua
também ganhasse características bem próprias.
Quando os portugueses vieram
diretamente para cá, em 1500, o português não foi introduzido de maneira
automática como se pensa. O contato com as populações que estavam aqui, seguida
pelo comércio de escravos permitiu que surgisse a chamada “língua-geral”.
Galindo afirma algo importante sobre o processo de evolução de uma língua: “...
o nome dado a uma língua é de certa forma o nome de uma fase histórica de
determinado idioma em determinado local”. Nossa língua, por causa de inúmeras absorções,
tornou-se muito diferente da variante falada em Portugal.
O primeiro grande fenômeno
linguístico brasileiro foi a chamada “língua-geral”. Em um país em que o tupi
era o tronco linguístico predominante, o encontro de diversas línguas promoveu o
surgimento de uma língua que, inicialmente, teve uma grande profusão na
Colônia. Os jesuítas sistematizaram a língua-geral. Foi amplamente usada para a
comunicação com os indígenas.
A língua-geral, nos séculos XVII e
XVIII, possuía mais falantes do que a língua portuguesa. Esta era usada pela
burocracia da colônia. Mas, as populações analfabetas e marginalizadas não
usavam o idioma da Metrópole. Da língua-geral, surgiu o nheengatu, usado no
Nordeste e Norte do país. O nheengatu ainda é falado por populações do extremo
da Amazônia. A língua-geral, hoje, é uma língua morta. Perdeu o seu uso, mas
deixou marcas na língua portuguesa. Muitos topônimos usados amplamente em
nossos dias – Paraná, Amapá, Aricanduva etc – foram assimiladas a partir da
língua geral.
Além da influência indígena, há
ainda a presença dos dialetos africanos. Um país estruturado na escravidão de
homens e mulheres africanos, certamente recepcionaria inúmeras palavras, expressões,
maneirismos linguísticos originados dessas populações. Galindo fala do dominado
que conseguiu inserir aspectos de sua cultura sobre o dominador. Sendo assim,
no caso brasileiro, não há que se falar em português, mas em “pretoguês”. A
versão do português falado por aqui não é mais – apenas – “a flor do Lácio”; o
português brasileiro é um “broto africano”, que rebentou fecundamente por aqui.
A nossa língua fala da nossa história. Das nossas marcas; dos nossos dilemas;
da nossa maneira de ser. Língua é história; é identidade.
quarta-feira, abril 12, 2023
De um comentário político a um colega
Não existem governos perfeitos e invulneráveis - ainda mais quando se
trata do Brasil. Quando se fala de um governo, penso que a análise deve ser da
"forma" e do "conteúdo".
É importante lembrar o que foi o ano de 2013 e o estrago que a Lava Jato
provocou na política nos últimos anos. Observe como passamos a lidar com a
política. Note que desde o golpe contra a Dilma, os governos foram ruins na
forma e no conteúdo. Com relação ao governo Lula 3, há algumas aberrações na
forma, mas há coisas necessárias no conteúdo. Quiçá você não concorde com o meu
argumento, entretanto não existia outro nome e outro projeto que pudesse
desfazer o esfacelamento pelo qual o Brasil passou nos últimos quatros anos.
O radicalismo é
uma doença infantil. É importante não medir o atual governo por causa da práxis de alguns radicais. O governo
possui boas intenções. Há um quadro com importantes e respeitáveis nomes. Se há
erros, é da competência do próprio governo resolver essas pendências. Há um
Congresso adverso e imoral. O compromisso do Centrão não é com o Brasil.
No Brasil,
existe uma mídia canina, ciosa dos interesses do mercado. No fundo, essa
midialona gostaria que o Bolsonaro tivesse vencido o pleito eleitoral do ano
passado, pois a lógica segundo eles é: eu não importo com a "forma" -
se ele é um não democrata; se ele é limitado, misógino, anti-indigenista, preconceituoso -; o importante é saber se o conteúdo nos privilegia - se continuaremos
lucrando; para esses arrivistas, pouco importa se haverá desmantelamento do
estado, das leis trabalhistas; se o povo vai ficar mais pobre; se vai comer ou
não comer. Em um país como o Brasil, escravocrata e violento por natureza, um
governo que carrega o emblema "de popular" não será bem aceito.
Há uma
entrevista do Lira Neto no Foro de Teresina que reflete a grandeza e as
contradições de Lula. A entrevista procura fazer aproximações entre Lula e Getúlio;
e como cada um lidou com as crises políticas que enfrentaram. Não existem nomes
mais densos, sagazes e com uma visão política tão ampla na política brasileira
quanto os dois. Lula é um estrategista. Confesso que ele começou bem esses
quase três meses de governo. Não teria como ser diferente com um Congresso como
o que temos e com uma conjuntura tão adversa como a que se mostra.
Penso que a
tarefa histórica do Lula 3 é resgatar a política do possível. Lula só venceu a
eleição por causa da astúcia política que possui. Esquece-se de que a frente
montada por Lula é resultado de uma conciliação política. O objetivo era
derrubar a caquistocracia erguida por Bolsonaro e sua trupe. É preciso ter um
pouco de paciência. Lidamos, nos últimos quatro anos, como diria Joseph Conrad
em “O coração das trevas” com “o horror”.
Impressiona
como, no presente, utilizam o udenismo para fazer crítica. É aquela velha
fantasmagoria de um moralismo montado contra a corrupção. Às vezes, esses
mesmos atores se munem de um discurso que, no fundo, carrega a anomalia
queixosa e hipócrita montada por Carlos Lacerda. Note que a beligerância
estruturada contra o governo repete os mesmos elementos do passado. Trata-se de
uma recorrência trazendo à tona um moralismo requentado, colocando em disputada
‘Estado versus mercado’; ‘capitalismo versus comunismo’; ‘valores cristãos
versus imoralidade de esquerda’. Há sempre um maniqueísmo em jogo; uma prática
baseada no cancelamento. E, no fundo, essa gente é saudosa da Ditadura, da
escravidão, da violência institucional; do desmatamento das políticas públicas; da posse do
latifúndio; do mandonismo; da não-democracia.
E, com isso,
condena-se um projeto de governo que é amplamente desenvolvimentista e
nacionalista. Lula é um dos presidentes mais capitalistas que já governaram o
Brasil. Lira Neto diz que Getúlio
costumava questionar: “Por que esses caras não me dão paz? Será que esses
tubarões do capital não percebem que eu quero salvar o capital pra eles?”.
Penso que o Lula faça os mesmos questionamentos.
Lula não é um
disruptivo. É um conciliador. Penso que temos mais a ganhar com ele do que sem
ele.
segunda-feira, março 20, 2023
"Caminhos Cruzados", de Erico Veríssimo
A década de 30 do século XX foi
uma das mais ricas para a literatura brasileira. Viveu-se o que se convencionou
chamar de Segunda Geração Modernista (1930-1945). A literatura produzida por
aqui desenvolveu o seu engajamento. Liberdade para criar e reconhecer as
contradições brasileiras ganharam forma. Tanto a poesia quanto a prosa assumiram
uma posição de denúncia. Há nomes importantes na poesia – Carlos Drummond de
Andrade, Cecília Meireles, Jorge de Lima, Murilo Mendes. Na prosa, também se
observa a força, a pujança das narrativas, uma preocupação com a crítica à
condição do homem numa sociedade repleta de duros antagonismos.
No Nordeste, há nomes que
impressionam pelo aspecto prolífico da produção. As questões regionais passaram a ganhar visibilidade. A seca, as desigualdades, o jogo político que fazia com o poder
pertencesse a certas famílias – as velhas oligarquias, fruto da formação social
e econômica do país -, são expostos por Graciliano Ramos, José Lins do Rego,
Jorge Amado, Amando Fontes, entre outros.
Pode-se observar ainda um
movimento que tende a revelar os dramas do homem urbano. Os escritores
apontavam as lutas do homem da cidade. Suas dissonâncias. Seu mal-estar
psicológico. A urbe capitalista é o espaço em que o ser humano encontra-se
exposto às ambivalências; à solidão; ao aparente; à angustia. Os gestos não definem um
ensaio de definição.
Erico Veríssimo foi certamente
um mestre nesse sentido. “Caminhos cruzados” foi o seu segundo romance, escrito
no ano de 1935. Veríssimo à sua maneira, com uma prosa ágil, despojada, dedica
atenção aos homens e mulheres da Porto Alegre da primeira metade do século XX. Erico
descreve com inconformismo a realidade das vidas humanas embrutecidas ou
vulnerabilizadas pela luta no palco social. Ninguém está livre da crise. Seu texto
é imensamente humano.
![]() |
| Erico Veríssimo. |
A paisagem urbana esconde os
dilemas. O romance possui vários nichos narrativos, que funcionam como uma
novela. Cada capítulo dedica-se a uma personagem. Vamos conhecendo um a um;
solidarizamo-nos com um; tomamos aversão a outros. O autor parece apresentar um
prédio para alguém que passa pela rua. Ele aponta o seu dedo e vai descrevendo
as histórias que povoam cada apartamento. Em alguns deles, notam-se a
exuberância, o luxo, a vaidade. Em outros, a singeleza, a humildade, o despojamento.
Como diz Antonio Cândido, é como se o escritor dividisse as personagens em dois
grupos: o grupo “A”, formado pelos ricos; e o grupo “B”, formado eminentemente
pelos pobres.
Veríssimo denuncia as
desigualdades sociais e a indiferença. Em um período sensível da história
nacional, que estava na iminência do golpe de Estado de Vargas, não faltou quem
visse intenções revolucionárias na pena do escritor.
O gaúcho, também autor de
“Incidente em Antares”, utiliza a técnica do contraponto, segundo ele,
apropriada da obra do inglês Aldous Huxley. É curioso perceber como essas
personagens diversas e contrastantes se aproximam e se cruzam pela urdidura da
vida social. É nesse ponto, que Veríssimo realiza o movimento primoroso do
acerto, pois, ao estabelecer essas conexões, ele captura a imagem de uma
sociedade inteira.
O romance gerou escândalos e
protestos. Os conservadores ciosos dos valores da família, enxergaram
imoralidades. Moacyr Scliar afirma que, quando adolescente, a leitura do livro
era terminantemente proibida. Despertou também furor político, pois a obra foi
acusada de disseminar o comunismo. Sim. Essa palavra tão incompreendida; tão onipresente no imaginário da classe média brasileira; essa palavra cujo conceito é desconhecido por muitos.
Ao lermos o romance, não notamos nada disso.
Observa-se que Erico é habilidoso em realizar uma crítica firme contra um país
que invizibiliza parte de sua população. Se Erico suscitou debates, é pelo fato
de sua obra está entretecida pelos limites impostos pelo mundo material. As
personagens do livro são motivadas pelo sonho, pela esperança, mas têm suas
intenções estilhaçadas pelo mundo real. Nada mais atual que isso. E nesse
sentido, este romance do autor gaúcho ainda continua dizendo muito.
terça-feira, março 14, 2023
O ganhador do Oscar 2023
quarta-feira, março 01, 2023
30 anos de um regresso
Minha família migrou para a Capital Federal em 1989. Eu recém completara nove anos de idade. Foi um evento grandioso, capaz de sugerir mudanças e descobertas. Eu era um sujeito matuto – e de certa forma ainda sou. Essa palavra deriva do latim “matto” (‘floresta’, ‘arbusto’), acrescida do sufixo “–uto”, cujo significado exprime ‘aquilo que se liga a algo’. Verifica-se assim que matuto é aquele que veio da zona rural, do mato; ou aquilo que faz referência ao mato. No Brasil, essa palavra ganhou acepções para indicar, de forma depreciativa, aquele que é rústico, acanhado, tímido.
No Nordeste, a palavra possui grande resplandecência. Ser chamado de matuto indica objetivamente aquele que possui dificuldades para, como diz o antropólogo Roberto DaMatta, realizar a “navegação social”.
Ser criança na periferia do Distrito federal no início dos anos 90 foi algo curioso. Fiquei quatro anos sem voltar ao meu Pernambuco. Esperei três anos para realizar o épico caminho da volta. Dessa vez, eu, meu irmão e minha mãe íamos na condição de visitantes. Para um sujeito recém-entrado na adolescência como eu, aquilo possuía uma inebriante fragrância. Fomentava imagens, ficções; assinalava enredos.
Recordo precisamente o dia que saímos. Possivelmente, tenha sido numa sexta-feira à noite. Era o costume. Dessa forma, chegava-se ao Recife no domingo pela manhã. Não consigo esquecer os efeitos daquela saga. A primeira noite forneceu-nos uma acomodação ignominiosa. O ônibus ziguezagueava em meio à estrada calamitosa. A BR-020 era um queijo suíço. Os solavancos recorriam com abreviada recorrência. A suspensão mole do ônibus fazia-me crer que estava em uma gangorra. Em dados momentos, o motorista direcionava o veículo para uma estrada clandestina que se formara paralela à rodovia. Era o resultado da peleja dos outros motoristas tentando fugir da estrada com aspectos lunares.
Tudo me parecia grandioso: o mundo, as paisagens, as paradas que aconteciam em intervalos irregulares – 15 minutos, 20 minutos, 30 minutos. O motorista da vez verbalizava: “Esta é cidade tal. Pararemos aqui por 15 minutos”. Era o tempo que os assustados, atarantados passageiros teriam para ir ao banheiro; ou espicharem o corpo cansado pela refrega contínua da viagem. Ficava de olhos arregalados. O ônibus não possuía ar condicionado. Viajávamos com as janelas abertas. Recebíamos o bafo quente, mesclado pelas partículas do tempo.
Minha mãe com duas criaturas que não foram iniciadas no traquejo social – eu e meu irmão - fazia advertências. Espavorido, eu arregalava os olhos. Memorizava, como se estivesse verbalizando um credo forçado, os números de registro do ônibus. Movia-me com metódico cálculo. O medo de ficar para trás era um fantasma que revoluteava como uma sacola agitada pelo vento ao meu redor. Ficávamos com os olhos grudados no ônibus da Itapemirim. Íamos assim até o nosso destino final. Toda parada envidava uma operação com estratégias estudadas com esforço.
Transposta a tumultuada primeira noite, os passageiros gestavam uma curiosa solidariedade. Conversavam. Pareciam velhos amigos. Entravam em minudências. Segredavam os destinos para onde iam. Compartilhavam – em certos momentos – os tímidos repastos. Minha mãe se munira com biscoitos, maçãs e farofa para realizar a heroica travessia e saciar a fome de sua prole.
Aquela viagem me ensinou a entender o movimento de volta, o regresso. Ao voltar, nota-se o efeito do tempo. O regresso permite a gestação de expectativas. Passa-se a compreender certas coisas. Olha-se com desvelo o corriqueiro. É a saudade que nos empurra para trás. E como diz Guimarães Rosa: “Toda saudade é uma espécie de velhice”. Mais tarde, eu compreendi que por estar voltando, eu era um Ulisses com a expectativa de reencontrar a minha Ítaca.
terça-feira, fevereiro 21, 2023
"Nada de novo no front" - livro e filme
Segundo o jornal alemão DW Brasil, o filme "Nada de novo no front" foi o grande ganhador do BAFTA 2023, o principal festival de cinema do Reino Unido. A produção alemã estabeleceu um marco como o filme estrangeiro que mais ganhou estatuetas na história do Festival - sete no total.
segunda-feira, fevereiro 13, 2023
O "homo bolsonaricus" e um comentário do professor Luis Felipe Miguel
Bolsonaro é daquelas pessoas que possui uma força de atração para piorar o seu semelhante. Não há virtudes; apenas o impulso para a delinquência. Que o sujeito que ocupou presidência do país por quatro anos seja assim, não é de se assustar. Ao longo da história, já houve inúmeros indivíduos cuja mesquinhez e a orientação para maldade eram visíveis. O que estarrece, na verdade, é a força de atração que esses sujeitos possuem. Como alguém em sã consciência pode ser arrastado para seguir as pautas tóxicas de um movimento que visa piorar a sociedade em que se vive? Bolsonaro e o bolsonarismo são indefensáveis. Ao se propor tal reflexão, não estamos aqui realizando a defesa deste ou daquele candidato. O que está em jogo é a orientação para maldade de um sujeito que sempre se utilizou de uma retórica favorável ao ódio e à morte.
Após quatro anos de um dos piores governos da história, Bolsonaro quase foi reeleito com 58 milhões de votos. Esse número espanta. Assusta saber que a população brasileira deu mais votos a eles do que ele teve em sua eleição em 2018. Curiosamente, todas as pessoas que se aproximam de Bolsonaro – ou do bolsonarismo – tornaram-se pessoas mais intolerantes e obtusas. Penso que o bolsonarismo já existia antes de Bolsonaro. O que se chama de “bolsonarismo” hoje é o resultado de um miasma pútrido do cadáver da violência e da intolerância de nossa história. O Brasil é um país que nunca privilegiou os direitos humanos. Nunca houve uma defesa das minorias e dos marginalizados. O Estado brasileiro e suas instituições sempre foram violentos. Some-se a isso a má formação educacional. A ignorância histórica e os níveis baixíssimos de cultura geral. O “homo bolsonaricus” é o resultado dessa fórmula terrível.
Segue o comentário do professor Luis Felipe Miguel:
Leio na imprensa que não foram só as carpas. Bolsonaro também matou as emas, dando a elas alimentação inadequada.
É impossível não pensar em Bolsonaro como uma encarnação do mal. Todos os seus afetos são egoístas e destrutivos. É incapaz de empatia, não há registro de um único gesto de solidariedade. Por onde passa, deixa um rastro de devastação.
Alguém que debocha das pessoas que ele mesmo está deixando morrer por falta de oxigênio. Basta isso para descrevê-lo.
Os filósofos discutem se o mal existe. Bolsonaro é um forte argumento a favor.
E o que dizer de dezenas de milhões de pessoas que o viram tal como ele é, porque ele nunca disfarçou (ou então disfarçava sem qualquer empenho), e votaram nele?
Gente que vê um vilão de desenho animado e pensa: “Opa, esse pode ser nosso presidente!”
Sim, o processo de formação das preferências políticas é complexo, ainda mais num ambiente tão saturado de desinformação e de manipulação. Mas não tem antipetismo ou teoria da conspiração que justifique a opção por algo tão aberrante.
Penso que Bolsonaro apela para o que há de ruim em todos nós. Como se demonstrasse que é possível nos livrarmos do fardo do respeito pelo outro, da compaixão, da reciprocidade, da generosidade, para chafurdar no egoísmo mais descarado e mais mesquinho.
É isso é tão atraente para tanta gente, desperta tanta identidade, que estão dispostos a entronizar alguém que represente esse ideal.
Cada voto em Bolsonaro, cada apoio que ele mantém, é um tapa na cara da nossa fé na humanidade.
Leio na imprensa que não foram só as carpas. Bolsonaro também matou as emas, dando a elas alimentação inadequada.
É impossível não pensar em Bolsonaro como uma encarnação do mal. Todos os seus afetos são egoístas e destrutivos. É incapaz de empatia, não há registro de um único gesto de solidariedade. Por onde passa, deixa um rastro de devastação.
Alguém que debocha das pessoas que ele mesmo está deixando morrer por falta de oxigênio. Basta isso para descrevê-lo.
Os filósofos discutem se o mal existe. Bolsonaro é um forte argumento a favor.
E o que dizer de dezenas de milhões de pessoas que o viram tal como ele é, porque ele nunca disfarçou (ou então disfarçava sem qualquer empenho), e votaram nele?
Gente que vê um vilão de desenho animado e pensa: “Opa, esse pode ser nosso presidente!”
Sim, o processo de formação das preferências políticas é complexo, ainda mais num ambiente tão saturado de desinformação e de manipulação. Mas não tem antipetismo ou teoria da conspiração que justifique a opção por algo tão aberrante.
Penso que Bolsonaro apela para o que há de ruim em todos nós. Como se demonstrasse que é possível nos livrarmos do fardo do respeito pelo outro, da compaixão, da reciprocidade, da generosidade, para chafurdar no egoísmo mais descarado e mais mesquinho.
É isso é tão atraente para tanta gente, desperta tanta identidade, que estão dispostos a entronizar alguém que represente esse ideal.
Cada voto em Bolsonaro, cada apoio que ele mantém, é um tapa na cara da nossa fé na humanidade.
quarta-feira, fevereiro 08, 2023
Heráclito - nada permanece
Heráclito de Éfeso é o pensador
que cunhou a noção de um movimento incessante em todas as coisas. É atribuído a
ele o termo “panta rei” (“tudo flui”), embora essa expressão não seja
encontrada nos fragmentos deixados por ele.
O filósofo teria identificado –
em oposição a Parmênides – uma “buliçosa” atividade dos elementos que
estruturam a realidade e o cosmos. Nada permanece. Tudo é grande ou faz parte
de um grande fluxo. Enquanto para Parmênides a realidade é o ser – e o ser é -,
Heráclito estabelece um importante fundamento sobre todas as coisas – a
dialética é o elemento central da vida.
Sofre quem espera que tudo
permaneça como pensava Parmênides. Não se está a insinuar que o pensamento de
Parmênides conduza à infelicidade. O que se afirma é que, quando se espera que
algo permaneça para sempre, o resultado é o sofrimento. Bom seria que as
pessoas as quais amamos não morressem, que elas permanecessem ao nosso lado
para sempre; que o amor nunca acabasse; que a morte nunca chegasse; que a alegria
fosse eterna.
A noção de Deus para o filósofo
também era bastante diferente. Deus não é o criador. Não é o ser capaz de fazer
todas as coisas. Não é imanente. Não interfere na vida dos homens. Deus é o
fogo que se mistura em pares antagônicos – dia/noite; luz/escuridão;
verão/inverno; belo/feio; guerra/paz. O elemento constitutivo da realidade é a
contradição. É preciso está preparado para essa oposição.
O rio que ondula os seus
movimentos, não o faz da mesma forma. O rio muda e impele o movimento em todos
os momentos do seu curso. A água muda; assume formas variadas incessantemente. Sendo
assim, ninguém pode banhar nas mesmas águas duas vezes.
Todo encontro é desencontro.
Todo amor é desamor. Todo nascimento é também morte. Toda chegada é também
partida. Todo abraço é também separação. A oposição ao som é o silêncio; mas a
oposição ao silêncio é o som. A oposição à ausência é a presença. Resta o
instante. Fica o lapso temporal entre aquilo que foi e aquilo que está vindo a
ser.
Para Heráclito o tempo (aion) é
o elemento buliçoso que cria o novo. O tempo brinca. É a criança traquinas. É
caprichoso. Construtor de eventos. Responsável pelo movimento das águas do rio.
quinta-feira, fevereiro 02, 2023
"Tár", algumas apalavras
"Tár" é um filme, no mínimo, enfeitiçante. É uma aula sobre como atuar, sobre como insinuar certos detalhes. A atuação da excelente atriz australiana Cate Blanchett é mesmerizante. Ela ocupa todos os espaços da obra. Não há vácuos. É um verdadeiro espetáculo de como se encena; de como se leva ao extremo o significado da palavra atuar.
O filme conta a história da bem-sucedida Lydia Tár, que chegou ao cume do sucesso. Respeitada. Incensada pela "mainstream" erudito, Lydia é a materialização do êxito que certas figuras alcançaram ao longo da história da música de orquestra. Um dos casos é o de Leonard Bernstein, citado no filme.
Ela conversa com uma profundidade que impressiona sobre cultura. Possui um raciocínio e um carisma desconcertantes. É uma professora rigorosa, que foge ao radicalismo de uma visão única. Em uma aula, ela profere para um dos seus alunos, quando este informou que não gostava de Bach, pois o compositor alemão era misógino por ter quase duas dezenas de filhos: "O narcisismo das pequenas diferenças leva ao mais enfadonho conformismo". A própria Lydia era uma figura que não se conformava no mundo da música clássica. Todos sabiam do seu relacionamento homoafetivo com a "spala" da orquestra. Ela era uma mulher, em um mundo governado por homens. E, nesse sentido, parece haver uma clara ironia implícita ao padrão do macho alfa, uma referência - talvez - indireta ao regente Herbert von Karajan, que conduziu com mãos de ferro a Filarmônica de Berlim por mais de trinta anos e criou uma noção de modelo autoritário.
Além dessa força, Lydia conseguiu alcançar o posto de regente da já referida e mítica Filarmônica de Berlim, uma das mais emblemáticas orquestras do mundo. E aqui notamos a grandiosidade do trabalho de Blanchett, pois se pode observar que ela, para fazer o filme, aprendeu a reger. No filme, sua personagem após ter gravado o ciclo de sinfonias do compositor austríaco Gustav Mahler, deixou a Quinta Sinfonia por último. A Quinta é a sinfonia mais conhecida e apreciada pelos admiradores da obra do austríaco. Observa-se o trabalho sensacional de Blanchett regendo uma orquestra. A Quinta de Mahler parte de uma premissa filosófica de como a vida é atravessada pela ironia e pela tragédia. Ela subverteu a noção histórica de uma estrutura sinfônica, pois começa por uma marcha fúnebre. Até o final do século XIX, aquilo não era comum. A Quinta é de 1902 e parece fundar o moderno. Nesse sentido, ela é uma ponte de inflexão entre o clássico e o moderno. Mas para além disso, é uma metáfora sobre a existência humana. Ela é marcada filosoficamente pela sentença de que a vida é resultado de um grande devir; de que somos alvo dos fluxos aleatórios da própria vida; que o sublime, o grandioso, pode ser sucedido pelo trágico.
E é justamente isso que acontece com Lydia. Por trás dessa personalidade magmática, observa-se como o poder e a glória podem atrair o caos. Há uma cena no filme que parece ser de alegoria para o que ocorre a personagem. Ela sai à procura da jovem violoncelista Olga e adentra um espaço abandonado e caótico. Após avançar por um vão escuro, ela cai e "quebra a cara". O seu tombo parece prefigurar o que ocorre dali para frente. Seu tombo é grandioso. Ela se isola e sai de cena.
No geral, o filme é excelente. Há referências no filme a Beethoven, Bach, Mahler, Vàrese, Bernstein, Tchaikovsky, Elgar entre outros. O diretor Todd Field conseguiu trabalhar certas nuances, certas intrigas, que, quem já é afeito à música clássica, entende o que está sendo refletido. Mas isso não impede que qualquer pessoa seja capturada pelo drama em forma de tragédia; de como o poder possui uma face mutável.
segunda-feira, janeiro 16, 2023
Os dez melhores filmes que vi em 2022
Chegamos à terceira semana de janeiro de 2023. Mas ainda penso sobre 2022. Ainda há demandas a serem observadas. Refletidas. No início do ano passado, estabeleci a meta de 70 filmes. Não se tratava de uma tarefa inalcançável. Com disciplina e organização seria possível cumpri-la. Seria necessário assistir, no mínimo, de cinco a seis filmes por mês. Não parecia tão difícil.
O fato é que não consegui. Não fiquei decepcionado. Geralmente, essas coisas provocam uma sensação de frustração. Resolvi não impor uma carga demasiada sobre mim mesmo. Afinal, não é fácil cumprir essas metas com o estilo de vida que tenho. Por isso, dei-me por satisfeito. Repetirei o mesmo número do ano passado este ano.
Com relação ao ano que passou, assisti a 63 filmes. Menos que o ano de 2021, quando tive a oportunidade de ver 80. Entre os filmes que tive a oportunidade de ver, destaquei os dez de que mais gostei. Vale destacar que dos dez filmes, seis são do gênio japonês Akira Kurosawa. Foi um ano dedicado às suas produções. E, quando o que está em jogo é o cinema do diretor japonês, é difícil não se deparar com uma obra-prima. Segue a relação:
01 - Argentina - 1985;
02 - Ran;
03 - Trono manchado de sangue;
04 - Sonhos;
05 - A fortaleza escondida;
06 -Kagemusha - sombra do samurai;
07 - Viver;
08 - Nada de novo no front;
09 - Ataque de cães;
10 - Doutor Gama;
quinta-feira, janeiro 12, 2023
As 10 principais leituras de 2022
Os dias começaram intensos em 2023. Essa postagem era para ter sido feita nos primeiros dias de janeiro ou no final de dezembro. O trabalho e o excesso de atividade não deixaram. De qualquer forma, o mais importante é que ela sairá.
O objetivo dela é apontar as dez leituras mais importantes que fiz ao longo do ano de 2022. Um ano difícil. Repleto de tensionamentos e cansaços. De perdas e danos que deixaram arranhões. Por sua vez, não largamos as leituras. As leituras aconteceram a conta gotas. Nos intervalos. Nas caminhadas. No embalo do ônibus. Nos cochilos assustados do metrô. À noite, enquanto punha o meu filho pra dormir. Difícil. Mas seguimos com um senso de dever cumprido.
Como afirmo todos os anos, gostaria de ter lido mais do que li. Todavia, consegui ler aquilo que me foi possível. Sendo assim, seguem as dez leituras mais importantes que li ao longo do ano que passou.
01 - "Os Sertões" - Euclides da Cunha;
02 - "Antes do baile verde" - Lygia Fagundes Telles;
03 - "1984" - George Orwell;
04 - "O milagre de Espinosa" - Frédéric Lenoir;
05 - "O ventre" - Carlos Heitor Cony;
06 - "A metamorfose" - Franz Kafka;
07 - "Fascismo à brasileira" - Pedro Doria;
08 - "Lula - uma biografia - vol. 1 - Fernando Morais;
09 - "Capitães de Areia" - Jorge Amado;
10 - "Úrsula" - Maria Firmina dos Reis.










