terça-feira, junho 13, 2023
segunda-feira, junho 05, 2023
Últimos filmes vistos - I
(1) "O alucinado" (1953), de Luis Buñuel. Quinto filme do diretor a que assisti neste ano. Certamente, o segundo melhor. Perde apenas para o "O anjo exterminador", uma obra-prima incontestável. "O alucinado" está inscrito na fase mexicana da filmografia de Buñuel. É um filme relativamente simples. Todavia, nota-se a transformação de uma personagem. Francisco, o personagem principal, é aristocrata. Um dia, ao ir à missa, encontra Glória. Apaixona-se imediatamente. O magma que emana da paixão é tórrido, irresistível. Mesmo Glória estando noiva de outra pessoa, os dois acabam ficando juntos. A partir daí, Francisco se torna um homem cruel, possessivo, paranoico; e, Glória, por sua vez, uma mulher infeliz. Excelente filme! Não é um dos mais conhecidos do diretor.
(2) "Já era hora" (2023), de Alessandro Aronadio. Tudo é clichê e comezinho nessa produção. Algumas vezes, enquanto assistia ao filme, questionei-me: "Por que estou vendo isso?". Todavia, em dado momento, a história vai ficando interessante. Dante é o nome do personagem principal. É um sujeito que está na casa dos quarenta anos. É um escravo do trabalho. Pretende chegar aos cinquenta para que possa desacelerar. Mas, de uma hora para outra, um fenômeno estranho começa a acontecer: ele sempre acorda no dia do aniversário. E para completar esse amalucado movimento do tempo, ele sempre nota que as coisas estão estranhas: sua companheira engravida; faz terapia de casais em outro momento; o casamento acaba; a filha cresce; tem um caso com a secretária; torna-se o diretor da empresa em que trabalha. A mensagem que fica é que ele se mantém tão ocupado, que não percebe o tempo passar; não nota as pessoas nem as coisas que estão ao seu redor.
(3) "Rio, 40 graus" (1955), de Nelson Pereira dos Santos. O filme é considerado por muitos como a produção que "inaugurou" o Cinema Novo, movimento que buscava denunciar as mazelas sociais do Brasil, influenciado pelo Neorrealismo Italiano. Talvez, seja o filme que iniciou aquilo que se passou a convencionar como 'favela movie". Ou seja, produções que colocam "a favela" como o cenário da violência e das mazelas sociais do país. O próprio Nelson Pereira filmaria, mais tarde, filmaria "Rio, Zona Norte" - para mim - um dos seus melhores filmes. "Rio, 40 graus" procura mostrar um mosaico de ventos e personagens em apenas um dia. O filme possui vários planos e tomadas que procuram destacar o contraste das personagens. No caso em questão, cinco jovens negros, oriundos do Morro do Cabuçu, vendem amendoim. Um enfoque é dado aos jovens, todavia, observa-se que as personagens vão se conectando por meio de uma série de eventos. Há o Maracanã; há um oligarca que desconhece o país; há a classe média querendo tirar vantagens. É um baita filme, que exige paciência para ser visto. Termina com o bonito samba "A voz do morro", de Zé Kéti.
(4) "O Castelo de Vidro" (2017), de Destin Daniel Cretton. Este filme é um drama visceral, daqueles capazes de provocar raiva e compaixão. No que tange a filmes que procuram retratar a contestação, o desejo por liberdade, coloco "O Castelo de Vidro", ao lado de "Dentro da natureza selvagem" e "Capitão Fantástico". O filme do diretor Daniel Cretton, é baseado em fatos reais assim como em "Dentro da natureza selvagem". "O Castelo de vidro" conta a história de uma família disfuncional. Jeannette Walls, já estabelecida, nos anos 80, rememora os fatos de sua infância e mocidade ao lado do pai (Rex), um alcoolista, insubordinado, sem morada certa, que arrasta a família de casebre em casebre; e permite que os filhos passem pelas mais aflitivas situações - de fome a não ir à escola. Sua postura anárquica é disruptiva. É um contestador. Todavia, seus filhos e sua esposa pagam um alto preço. O filme é excelente.
quarta-feira, maio 31, 2023
"Vila dos Confins" e os imensos confins do Brasil
“O sol caía de ponta, brutal.
Entorpecia e queimava tudo. A areia era polvilho de espelho socado no pilão”.
Mário Palmério
Terminei a leitura do terceiro de doze livros de literatura brasileira que pretendo realizar ao longo de 2023. Desta vez, li “Vila dos Confins”, do escritor mineiro Mário Palmério. Importante e reveladora leitura. Palmério foi uma figura bastante curiosa da nossa literatura. Além de autor de – pelo menos - duas importantes obras – “Vila dos Confins” e “Chapadão do Bugre” -, teve uma entusiástica carreira como político e educador. Palmério ainda foi embaixador do Brasil em Assunção, capital do Paraguai, durante o governo de João Goulart. Vale destacar sua intensa atuação como educador. Construiu, em Uberaba, a Cidade Universitária, que leva o nome do escritor, uma honesta homenagem.
Mário Palmério nasceu em Monte Carmelo, município situado no Triângulo Mineiro, no ano de 1916. Era um grande conhecedor da vegetação, da topografia, dos rios, da fauna e dos costumes da região. Isso se faz notar em “Vila dos Confins”. O escritor mineiro à semelhança do escritor alagoano Graciliano Ramos, estreou já quadragenário na literatura. “Vila dos Confins” como ele mesmo diz, “nasceu relatório, cresceu crônica e acabou romance”.
O romance “Vila dos Confins” foi publicado no ano de 1956. No que diz respeito às produções regionalistas, parece ser extemporâneo. Vale mencionar que desde à “Bagaceira”, do paraibano José Américo de Almeida, publicado em 1928, passando por uma enormidade de escritores como o já citado Graciliano Ramos, além de José Lins do Rego, Raquel de Queiroz, Jorge Amado, Amando Fontes, dava-se a impressão de que a estética regionalista parecia esgotada. “Vila dos Confins” acabou provocando um forte impacto. Surgiu como uma lufada de vento agradável, produzindo uma curiosidade inquestionável. A escritora cearense Raquel de Queiroz, já consolidada e que, àquela altura, era uma veterana, prefaciou a primeira edição da obra. Ela verbaliza de forma certeira: “A primeira qualidade que me impressionou no escritor Mário Palmério foi este cheiro de terra, que o livro traz, tão autêntico”. Livro com “cheiro de terra” – não se tratava apenas de uma metáfora. Era uma pujante escolha estética por parte do autor.
“Vila dos Confins” rescende à fragrância das gerais. Escutamos o dialeto do povo. É uma obra cujo enredo tem por finalidade colocar em destaque as disputas políticas em uma cidade recém emancipada, denominada Vila dos Confins. Palmério transforma em literatura a ética que preenche as disputas políticas interioranas. Esse artifício maquiavélico ainda é o “modus operandis” de boa parte das castas políticas do Brasil profundo, do Brasil distante dos centros urbanos; do Brasil dos rincões afastados, dos confins. O Congresso Nacional, as Assembleias Legislativas e as Câmaras Municipais, ainda estão pejadas por gerações de políticos que transmitem um certo jeito de se locupletar da coisa pública. Esses personagens entendem que os cargos decisórios da vida social são um direito de herança.
Nota-se ainda na obra uma tentativa de colocar em paralelo aspectos da vida social (política) com histórias de pescas, garimpo, caças (natureza), atravessando por uma certa maneira de dizer. O texto de Palmério procura ser fiel ao dialeto do homem da terra. Sua linguagem é caudalosa. Em alguns momentos da leitura, é perceptível algum tipo de mudança repentina do fluxo narrativo. É preciso estar atento para não perder o plano central da história com seus personagens principais em disputa.
A linguagem de “Vila dos Confins” procura se fixar numa expressividade local, regional. O autor se utiliza de acurados neologismos. Essa estratégia cria um efeito de teor bastante significativo. O vigor da linguagem permite que, em dados momentos, o leitor seja surpreendido pela criatividade do autor. Faz lembrar a beleza da estética de Guimarães Rosa.
Mário Palmério foi um homem que teve uma sensibilidade enorme para entender o seu meio. Seu texto aponta esse caráter. Nota-se o quanto ele conhecia a personalidade do homem do interior, encurralado por estruturas sociais e políticas, como dizia o crítico Wilson Martins, “burlescas” e “grotescas”. “Burlescas” pela forma provinciana, por uma certa forma de fazer; pela cristalização de certo entendimento; pelo atraso, pela tradição; pelo entendimento que a vida social e política, necessariamente, deveria seguir certo fluxo. E “grotescas” pela força da disputa; pela violência engendrada para que certo padrão, certos resultados permanessem. E, no que diz a isso, o texto de Mário Palmério continua imensamente atual nesse Brasil de imensos confins.
terça-feira, maio 23, 2023
Annie Ernaux e aquele acontecimento
“Enxerguei um bonequinho pendurado ao meu sexo por um cordão
avermelhado. Não tinha me passado pela cabeça ter aquilo dentro de mim... Eu
era bicho”.
In “O acontecimento”,
Ennie Ernaux.
Até 2021, a escritora francesa
Ennie Ernaux não era tão conhecida no Brasil. Havia tradução para dois ou três
dos seus livros. Atualmente, seus livros são vendidos rapidamente nas
livrarias. Novos livros estão sendo vertidos do francês para o português. Se
não me falha a memória, há, atualmente, seis livros traduzidos. Ernaux é
bastante conhecida na França. Escreveu mais de duas dezenas de livros ao longo
de sua prolífica carreira.
Durante boa parte de sua vida,
foi professora. Formada em letras, Ernaux é uma artífice versada na arte de
dizer. Li dois dos seus livros. Mas, já tive a oportunidade de captar as
características que a tornaram famosa. Seu texto é simples; despojado de
requintes épicos; de empolações. Trata-se de textos curtos, de uma escrita
breve, lacônica, mas que muito diz. Sua habilidade para suscitar inquietação é
uma das qualidades que aparecem de imediato quando a lemos. Os textos
transmitem a impressão de que foram escritos para serem lidos de um único
fôlego.
Ernaux costuma nos capturar já
no primeiro capítulo. A principal ferramenta que utiliza para destrancar a
dimensão que guarda as palavras é a memória. Nesse sentido, pode-se afirmar que
a francesa aponta para um tipo de habilidade que conseguiu desenvolver: tudo
está nela. O passado é o espaço a ser estudado, arqueologizado, desvelado. Em
um primeiro momento, tem-se a noção de que estamos diante de uma simples autora
de autobiografias. Entretanto, sua
escrita transcende esse gênero. Ao mesmo tempo que fala de si, Ernaux
dialoga com a sociologia; pincela de forma densa a construção de episódicos
retratos; joga luz no quarto escuro da memória e acaba por construir uma
literatura intimista. Ela mesma é o objeto da análise. A francesa eterniza o
evento que é memória por meio de uma escrita que traz à vida o real que já não
é, mas que já foi e que volta a ser por intermédio de uma seleção cuidadosa de
um certo modo de dizer a si mesma.
![]() |
| Ennie Arnaux |
Ao narrar a sua vida, Ernaux
realiza o movimento interior/exterior. Nesse sentido, seus textos são altamente
existenciais. Todavia, esse exercício não
perece nesse ponto. Isso qualquer pessoa pode fazer – eu, por exemplo. E, nesse
ponto, nota-se a grandiosidade de sua literatura. Talvez, aqui aconteça o fluxo
de curiosidade que acomete os seus leitores, pois ela realiza um segundo
movimento que é o do particular para o universal. É o que se dá, por exemplo,
em seu livro “O Acontecimento”, que narra o aborto que ela realizou quando
tinha apenas 23 anos de idade, ainda nos anos de 1960, numa França que possuía
uma legislação que poderia condenar à morte tanto que realizava ou quem
ajudasse a realizar um aborto. Isso pode ser verificado no filme “Um assunto de
mulheres”, de 1988.
Ernaux, dessa forma, eleva o
debate. Coloca-nos diante de assunto que é sensível, relevante e que deve ser
do interesse de toda sociedade que seja solidária à luta das mulheres por mais
liberdade para decidir o que fazer com o próprio corpo. Sendo assim, sua
literatura está cheia do corpo, das escolhas, das contradições, da educação, da
trajetória social, da relação com o outro, pois ela utiliza sua própria
percepção para dizer-se ao mundo. Sua literatura permite que nos analisemos por
meio de um outro, que é o outro da própria escritora. Essa característica torna
Ernaux uma escritora singular, apesar do gênero memória ser povoado por uma
quantidade enorme de escritores.
O posicionamento feminista é
mais do que evidente na obra. Fica explícita a luta pessoal e a
autodeterminação para levar à frente o desejo de realizar o aborto. Ela, uma
jovem de 23 anos de idade, decidida a não continuar a gestação, buscou meios
para pôr fim àquela condição momentânea; mas que poderia trazer transtornos
para o resto de sua vida. Enfrentou o preconceito, a indiferença e a postura
violenta de médicos, de colegas; o medo, a insegurança e, quiçá, o senso de
culpa; e esteve, o tempo todo, sozinha com a incógnita – o que vai acontecer
comigo e com o meu corpo?
“O Acontecimento” é um livro necessário. Foi escrito mais de trinta anos após o evento de 1963. Ela mesma diz na parte final da obra:
“Terminei de pôr em palavra isso que se revela para mim como uma experiência humana total, da vida e da morte, do tempo e da moral e do interdito, da lei, uma experiência vivida de um extremo a outro pelo corpo”.
“Eliminei a única culpa que senti a respeito desse acontecimento - que ele tenha acontecido comigo e que eu não tenha feito nada dele. Como um dom recebido e desperdiçado. Pois, para além de todas as razões sociais e psicológicas que pude encontrar naquilo que vivi, existe uma da qual estou mais certa do que tudo: as coisas aconteceram comigo para que as conte. E o verdadeiro objetivo da minha vida talvez seja apenas este: que meu corpo, minhas sensações e meus pensamentos se tornem escrita, isto é, algo inteligível e geral, minha existência completamente dissolvida na cabeça e na vida dos outros”.
segunda-feira, maio 15, 2023
Uma resposta a partir de uma questão suscitada no WhatsApp
São boas as perguntas. Eu entendo a sua preocupação. Mas, não seria importante analisar o conteúdo daquilo que está sendo julgado?
Você acha que as
decisões do Alexandre são meros caprichos jurídicos?
Não acredito que
o Randolfe esteja sendo privilegiado pelas decisões do STF. Falar em ditadura
do STF é bastante forte. É a retórica usada pelos bolsonaristas. Estamos a
falar da instância máxima de decisões jurídicas do país. Com exceção do Kássio
Nunes e do André Mendonça, penso que os demais ministros estejam à altura da
Corte. Eu acredito que a culpa do STF foi ter se omitido em anos anteriores,
quando permitiu que absurdos continuassem a ser praticados. Um exemplo foi a
conivência com a existência da lava-jato e o acovardamento diante das notas
golpistas de alguns milicos de pijama.
Mais uma vez: o
PL é necessário. Condená-lo na integralidade é um erro. O PL não é do Governo
atual. Ele está sendo debatido desde 2020; o PL não concede poderes de censura
ao Governo. Ele “moraliza” o uso e a forma como as plataformas disseminam
informações.
Outra questão
importante: um amplo espectro da vida social é regulado por normas. Por
exemplo, existem regras de como você deve negociar; regras para construir a sua
casa; até que ponto o seu muro deve avançar na calçada; regras de como se deve
comercializar alimentos. A forma como você conduzir o seu veículo. Ora, por que
não deve haver regras para organizar o uso de um espaço tão imponderável como
as redes sociais?
Semana passada,
a Revista Piauí fez uma reportagem bastante interessante sobre o número de
brasileiros conectados à internet. Os números são avassaladores. Atualmente,
84% dos brasileiros têm acesso à internet (181,9 milhões). Em 2013, eram 102
milhões. O crescimento em uma década foi
de 78%. A quantidade de brasileiros com internet, mas sem saneamento básico
equivale à população do Equador. Ou seja, o total chega a 18 milhões de
pessoas. Segundo a reportagem, esse valor é duas vezes a população da Áustria.
Dentre os
brasileiros conectados, mais de 9 milhões recebem salário inferior a 550 reais
e 1,27 milhões não têm acesso à água potável. Os brasileiros gastam tanto tempo
na internet quanto ingleses e japoneses somados. Em 2022, um brasileiro médio
passou 9 horas e 32 minutos na internet por dia. O brasileiro passa o dobro de
horas que um americano no Instagram. Em média, o brasileiro gasta, por mês, 15
horas e 54 minutos. É uma das médias mais altas do mundo. Só perde para os
filipinos. São 954 minutos. Lendo uma página por minuto, seria possível ler um
livro de 954 páginas em um mês. Seguindo essa matemática, seria possível ler o
"Ulisses", de James Joyce ou "O homem sem qualidades", do
Robert Musil. No Yutube são 22 horas. No Facebook, 12 horas; no Twiter, 12
horas e 48 minutos.
O caso do
WhatApp impressiona. Por mês, os brasileiros ficam 28 horas e 36 minutos. Daria
para ler "Guerra e Paz", do Tolstoi (risos). Os franceses ficam em
média 5 horas e 30; os australianos, 5 horas e 36; os estadunidenses, 7 horas e
24; os canadenses, 7 horas e 36.
Esses dados
comprovam a necessidade de que haja uma legislação para impedir abusos. As
crianças, adolescentes e jovens são os alvos preferenciais dessas plataformas.
Além disso, existem outras com um potencial de demolição muito maior. No
Brasil, não resolvemos os dramáticos gargalos da educação básica, mas quase que
conseguimos que a integralidade da população tenha acesso à internet. São as
contradições que nos assolam.
terça-feira, maio 02, 2023
As origens da religião e do deus judaico-cristão
O fenômeno religioso me interessa em muitos aspectos. O homem é em essência religioso. A religião representa um esforço do homem para organizar e entender o mundo. Ela nos remete a um período da história do gênero “homo” em que era necessário entender a natureza e os seus movimentos. Sem conhecimento científico, sem ferramentas para realizar uma sistematização do conhecimento de forma racional, os homens precisaram criar histórias míticas para que a realidade fosse ordenada. Viver em um meio adverso, sem ter uma âncora explicativa para os movimentos da natureza levaria o ser humano a não suportar a própria existência. E daí que surge a religião como um fenômeno humano, como uma dimensão essencial da vida.
Houve um período em que não havia nem deuses nem religião. Havia apenas a natureza com as suas leis. A consciência de si e do mundo permitiu ao homem a elaboração de sofisticados símbolos. O símbolo (significante) cria uma mediação entre o mundo e o próprio homem, pois carrega um significado (conteúdo virtual do significante). As religiões precisam de símbolos, assim como as demais manifestações humanas. Ao criar símbolos, o homem passou a criar cultura. As religiões são manifestações da cultura e das condições materiais de certa época e lugar.
A religião judaico-cristã como qualquer religião está repleta de disputas e influências. Analisá-la hoje como um fenômeno monolítico é desprezar algumas importantes situações que foram responsáveis pela sua formação. É como, se diante de um trem, observássemos apenas um dos vagões, desprezando as demais composições. Um vagão apenas não é o trem. A religião dos antigos judeus era politeísta. Como era comum aos antigos povos do Oriente Médio, Israel possuía inúmeras divindades. Isso pode ser notado nos vários relatos bíblicos do Antigo Testamento. Javé era apenas uma das divindades. Fazia parte do panteão dos cananeus. O panteão cananeu era constituído por setenta deuses e deusas. Javé era mais uma das divindades, cujo patrono era o amoroso deus EL. Sua consorte era Aserá. EL significa “senhor”. No Pentateuco, aparecem inúmeras referências a EL – “El Shaday” (El ou “senhor da montanha”); El Elyon (el ou “deus altíssimo”); EL Olam (El ou “senhor altíssimo”); ou a designação majestática Elohim, que significa “Elvadíssimo”, “Altíssimo”.
O fato é que há um momento na história em que os isra-el-itas decidiram abolir o politeísmo e cultuar Javé como a sua divindade suprema. Os outros cultos foram proibidos. Um dos cultos mais praticados no Israel antigo era o culto a Baal, um jovem e viril guerreiro. A abolição de outros cultos não foi tranquila. Vários séculos foram necessários. É possível que o culto a Javé só tenha sido consolidado no período dos Macabeus, pois havia uma forte questão nacional envolvida.
No vídeo que pode ser encontrado no link a seguir, o professor Emerson Borges explica como se deu “a origem do deus bíblico”. Um excelente vídeo.
1. Indicação de leitura: https://g1.globo.com/Noticias/0,,MUL652419-9982,00-DEUS+BIBLICO+PODE+SER+FUSAO+DE+VARIOS+DEUSES+PAGAOS+DIZEM+ESPECIALISTAS.html
segunda-feira, abril 24, 2023
A história, a mitologia judaico-cristã e as mulheres
terça-feira, abril 18, 2023
"Latim em pó", de Caetano W. Galindo
Terminei o
excelente “Latim em pó”, muito bem escrito pelo professor, tradutor, pesquisador,
doutor em linguística Caetano W. Galindo. Recordei minhas aulas de linguística
e sociolinguística do período em que fiz o curso de letras. Existem muitos
livros sobre esse tema escritos por aí. O próprio autor reconhece. Mas, o que o
torna especial? Vale mencionar que é um livro cuja maior importância é divulgar
o que há de atual em matéria de pesquisa em torno da formação da língua
portuguesa falada no Brasil. Outra importante contribuição diz respeito à
divulgação de um material com essa relevante temática. Existem mitos
diversificados em torno da nossa língua: o primeiro deles é que é uma língua
difícil; que é uma língua originada em Portugal. Simplificar dessa forma não
explica o fenômeno. Não. Aqui, como expressa Caetano Veloso – lembrado no
título do livro – temos uma versão muito diferente daquele idioma surgido na
Europa; aqui, nós temos um “latim em pó”.
A língua portuguesa é a sexta língua
mais falada do mundo. O Brasil em especial contribui significativamente para
engrossar esse percentual. Existem quase 300 milhões de falantes da língua originada
em Portugal. No Brasil, são mais de 220 milhões. Como qualquer língua, o
português falado no Brasil possui algumas características. Olavo Bilac, que
cunhou a tão famosa expressão “flor do Lácio” para indicar o local de
surgimento da língua oficial do Império Romano, deve ser considerado. O
português, assim como as demais línguas românicas, foi originado do latim.
Todavia, somente esse dado não explica as atuais características do português.
Houve um momento em que a língua portuguesa
não existia. Os primeiros indícios do seu nascimento se deram nos séculos XI e
XII. A presença árabe na península Ibérica foi determinante para que a língua
também ganhasse características bem próprias.
Quando os portugueses vieram
diretamente para cá, em 1500, o português não foi introduzido de maneira
automática como se pensa. O contato com as populações que estavam aqui, seguida
pelo comércio de escravos permitiu que surgisse a chamada “língua-geral”.
Galindo afirma algo importante sobre o processo de evolução de uma língua: “...
o nome dado a uma língua é de certa forma o nome de uma fase histórica de
determinado idioma em determinado local”. Nossa língua, por causa de inúmeras absorções,
tornou-se muito diferente da variante falada em Portugal.
O primeiro grande fenômeno
linguístico brasileiro foi a chamada “língua-geral”. Em um país em que o tupi
era o tronco linguístico predominante, o encontro de diversas línguas promoveu o
surgimento de uma língua que, inicialmente, teve uma grande profusão na
Colônia. Os jesuítas sistematizaram a língua-geral. Foi amplamente usada para a
comunicação com os indígenas.
A língua-geral, nos séculos XVII e
XVIII, possuía mais falantes do que a língua portuguesa. Esta era usada pela
burocracia da colônia. Mas, as populações analfabetas e marginalizadas não
usavam o idioma da Metrópole. Da língua-geral, surgiu o nheengatu, usado no
Nordeste e Norte do país. O nheengatu ainda é falado por populações do extremo
da Amazônia. A língua-geral, hoje, é uma língua morta. Perdeu o seu uso, mas
deixou marcas na língua portuguesa. Muitos topônimos usados amplamente em
nossos dias – Paraná, Amapá, Aricanduva etc – foram assimiladas a partir da
língua geral.
Além da influência indígena, há
ainda a presença dos dialetos africanos. Um país estruturado na escravidão de
homens e mulheres africanos, certamente recepcionaria inúmeras palavras, expressões,
maneirismos linguísticos originados dessas populações. Galindo fala do dominado
que conseguiu inserir aspectos de sua cultura sobre o dominador. Sendo assim,
no caso brasileiro, não há que se falar em português, mas em “pretoguês”. A
versão do português falado por aqui não é mais – apenas – “a flor do Lácio”; o
português brasileiro é um “broto africano”, que rebentou fecundamente por aqui.
A nossa língua fala da nossa história. Das nossas marcas; dos nossos dilemas;
da nossa maneira de ser. Língua é história; é identidade.
quarta-feira, abril 12, 2023
De um comentário político a um colega
Não existem governos perfeitos e invulneráveis - ainda mais quando se
trata do Brasil. Quando se fala de um governo, penso que a análise deve ser da
"forma" e do "conteúdo".
É importante lembrar o que foi o ano de 2013 e o estrago que a Lava Jato
provocou na política nos últimos anos. Observe como passamos a lidar com a
política. Note que desde o golpe contra a Dilma, os governos foram ruins na
forma e no conteúdo. Com relação ao governo Lula 3, há algumas aberrações na
forma, mas há coisas necessárias no conteúdo. Quiçá você não concorde com o meu
argumento, entretanto não existia outro nome e outro projeto que pudesse
desfazer o esfacelamento pelo qual o Brasil passou nos últimos quatros anos.
O radicalismo é
uma doença infantil. É importante não medir o atual governo por causa da práxis de alguns radicais. O governo
possui boas intenções. Há um quadro com importantes e respeitáveis nomes. Se há
erros, é da competência do próprio governo resolver essas pendências. Há um
Congresso adverso e imoral. O compromisso do Centrão não é com o Brasil.
No Brasil,
existe uma mídia canina, ciosa dos interesses do mercado. No fundo, essa
midialona gostaria que o Bolsonaro tivesse vencido o pleito eleitoral do ano
passado, pois a lógica segundo eles é: eu não importo com a "forma" -
se ele é um não democrata; se ele é limitado, misógino, anti-indigenista, preconceituoso -; o importante é saber se o conteúdo nos privilegia - se continuaremos
lucrando; para esses arrivistas, pouco importa se haverá desmantelamento do
estado, das leis trabalhistas; se o povo vai ficar mais pobre; se vai comer ou
não comer. Em um país como o Brasil, escravocrata e violento por natureza, um
governo que carrega o emblema "de popular" não será bem aceito.
Há uma
entrevista do Lira Neto no Foro de Teresina que reflete a grandeza e as
contradições de Lula. A entrevista procura fazer aproximações entre Lula e Getúlio;
e como cada um lidou com as crises políticas que enfrentaram. Não existem nomes
mais densos, sagazes e com uma visão política tão ampla na política brasileira
quanto os dois. Lula é um estrategista. Confesso que ele começou bem esses
quase três meses de governo. Não teria como ser diferente com um Congresso como
o que temos e com uma conjuntura tão adversa como a que se mostra.
Penso que a
tarefa histórica do Lula 3 é resgatar a política do possível. Lula só venceu a
eleição por causa da astúcia política que possui. Esquece-se de que a frente
montada por Lula é resultado de uma conciliação política. O objetivo era
derrubar a caquistocracia erguida por Bolsonaro e sua trupe. É preciso ter um
pouco de paciência. Lidamos, nos últimos quatro anos, como diria Joseph Conrad
em “O coração das trevas” com “o horror”.
Impressiona
como, no presente, utilizam o udenismo para fazer crítica. É aquela velha
fantasmagoria de um moralismo montado contra a corrupção. Às vezes, esses
mesmos atores se munem de um discurso que, no fundo, carrega a anomalia
queixosa e hipócrita montada por Carlos Lacerda. Note que a beligerância
estruturada contra o governo repete os mesmos elementos do passado. Trata-se de
uma recorrência trazendo à tona um moralismo requentado, colocando em disputada
‘Estado versus mercado’; ‘capitalismo versus comunismo’; ‘valores cristãos
versus imoralidade de esquerda’. Há sempre um maniqueísmo em jogo; uma prática
baseada no cancelamento. E, no fundo, essa gente é saudosa da Ditadura, da
escravidão, da violência institucional; do desmatamento das políticas públicas; da posse do
latifúndio; do mandonismo; da não-democracia.
E, com isso,
condena-se um projeto de governo que é amplamente desenvolvimentista e
nacionalista. Lula é um dos presidentes mais capitalistas que já governaram o
Brasil. Lira Neto diz que Getúlio
costumava questionar: “Por que esses caras não me dão paz? Será que esses
tubarões do capital não percebem que eu quero salvar o capital pra eles?”.
Penso que o Lula faça os mesmos questionamentos.
Lula não é um
disruptivo. É um conciliador. Penso que temos mais a ganhar com ele do que sem
ele.
segunda-feira, março 20, 2023
"Caminhos Cruzados", de Erico Veríssimo
A década de 30 do século XX foi
uma das mais ricas para a literatura brasileira. Viveu-se o que se convencionou
chamar de Segunda Geração Modernista (1930-1945). A literatura produzida por
aqui desenvolveu o seu engajamento. Liberdade para criar e reconhecer as
contradições brasileiras ganharam forma. Tanto a poesia quanto a prosa assumiram
uma posição de denúncia. Há nomes importantes na poesia – Carlos Drummond de
Andrade, Cecília Meireles, Jorge de Lima, Murilo Mendes. Na prosa, também se
observa a força, a pujança das narrativas, uma preocupação com a crítica à
condição do homem numa sociedade repleta de duros antagonismos.
No Nordeste, há nomes que
impressionam pelo aspecto prolífico da produção. As questões regionais passaram a ganhar visibilidade. A seca, as desigualdades, o jogo político que fazia com o poder
pertencesse a certas famílias – as velhas oligarquias, fruto da formação social
e econômica do país -, são expostos por Graciliano Ramos, José Lins do Rego,
Jorge Amado, Amando Fontes, entre outros.
Pode-se observar ainda um
movimento que tende a revelar os dramas do homem urbano. Os escritores
apontavam as lutas do homem da cidade. Suas dissonâncias. Seu mal-estar
psicológico. A urbe capitalista é o espaço em que o ser humano encontra-se
exposto às ambivalências; à solidão; ao aparente; à angustia. Os gestos não definem um
ensaio de definição.
Erico Veríssimo foi certamente
um mestre nesse sentido. “Caminhos cruzados” foi o seu segundo romance, escrito
no ano de 1935. Veríssimo à sua maneira, com uma prosa ágil, despojada, dedica
atenção aos homens e mulheres da Porto Alegre da primeira metade do século XX. Erico
descreve com inconformismo a realidade das vidas humanas embrutecidas ou
vulnerabilizadas pela luta no palco social. Ninguém está livre da crise. Seu texto
é imensamente humano.
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| Erico Veríssimo. |
A paisagem urbana esconde os
dilemas. O romance possui vários nichos narrativos, que funcionam como uma
novela. Cada capítulo dedica-se a uma personagem. Vamos conhecendo um a um;
solidarizamo-nos com um; tomamos aversão a outros. O autor parece apresentar um
prédio para alguém que passa pela rua. Ele aponta o seu dedo e vai descrevendo
as histórias que povoam cada apartamento. Em alguns deles, notam-se a
exuberância, o luxo, a vaidade. Em outros, a singeleza, a humildade, o despojamento.
Como diz Antonio Cândido, é como se o escritor dividisse as personagens em dois
grupos: o grupo “A”, formado pelos ricos; e o grupo “B”, formado eminentemente
pelos pobres.
Veríssimo denuncia as
desigualdades sociais e a indiferença. Em um período sensível da história
nacional, que estava na iminência do golpe de Estado de Vargas, não faltou quem
visse intenções revolucionárias na pena do escritor.
O gaúcho, também autor de
“Incidente em Antares”, utiliza a técnica do contraponto, segundo ele,
apropriada da obra do inglês Aldous Huxley. É curioso perceber como essas
personagens diversas e contrastantes se aproximam e se cruzam pela urdidura da
vida social. É nesse ponto, que Veríssimo realiza o movimento primoroso do
acerto, pois, ao estabelecer essas conexões, ele captura a imagem de uma
sociedade inteira.
O romance gerou escândalos e
protestos. Os conservadores ciosos dos valores da família, enxergaram
imoralidades. Moacyr Scliar afirma que, quando adolescente, a leitura do livro
era terminantemente proibida. Despertou também furor político, pois a obra foi
acusada de disseminar o comunismo. Sim. Essa palavra tão incompreendida; tão onipresente no imaginário da classe média brasileira; essa palavra cujo conceito é desconhecido por muitos.
Ao lermos o romance, não notamos nada disso.
Observa-se que Erico é habilidoso em realizar uma crítica firme contra um país
que invizibiliza parte de sua população. Se Erico suscitou debates, é pelo fato
de sua obra está entretecida pelos limites impostos pelo mundo material. As
personagens do livro são motivadas pelo sonho, pela esperança, mas têm suas
intenções estilhaçadas pelo mundo real. Nada mais atual que isso. E nesse
sentido, este romance do autor gaúcho ainda continua dizendo muito.
terça-feira, março 14, 2023
O ganhador do Oscar 2023
quarta-feira, março 01, 2023
30 anos de um regresso
Minha família migrou para a Capital Federal em 1989. Eu recém completara nove anos de idade. Foi um evento grandioso, capaz de sugerir mudanças e descobertas. Eu era um sujeito matuto – e de certa forma ainda sou. Essa palavra deriva do latim “matto” (‘floresta’, ‘arbusto’), acrescida do sufixo “–uto”, cujo significado exprime ‘aquilo que se liga a algo’. Verifica-se assim que matuto é aquele que veio da zona rural, do mato; ou aquilo que faz referência ao mato. No Brasil, essa palavra ganhou acepções para indicar, de forma depreciativa, aquele que é rústico, acanhado, tímido.
No Nordeste, a palavra possui grande resplandecência. Ser chamado de matuto indica objetivamente aquele que possui dificuldades para, como diz o antropólogo Roberto DaMatta, realizar a “navegação social”.
Ser criança na periferia do Distrito federal no início dos anos 90 foi algo curioso. Fiquei quatro anos sem voltar ao meu Pernambuco. Esperei três anos para realizar o épico caminho da volta. Dessa vez, eu, meu irmão e minha mãe íamos na condição de visitantes. Para um sujeito recém-entrado na adolescência como eu, aquilo possuía uma inebriante fragrância. Fomentava imagens, ficções; assinalava enredos.
Recordo precisamente o dia que saímos. Possivelmente, tenha sido numa sexta-feira à noite. Era o costume. Dessa forma, chegava-se ao Recife no domingo pela manhã. Não consigo esquecer os efeitos daquela saga. A primeira noite forneceu-nos uma acomodação ignominiosa. O ônibus ziguezagueava em meio à estrada calamitosa. A BR-020 era um queijo suíço. Os solavancos recorriam com abreviada recorrência. A suspensão mole do ônibus fazia-me crer que estava em uma gangorra. Em dados momentos, o motorista direcionava o veículo para uma estrada clandestina que se formara paralela à rodovia. Era o resultado da peleja dos outros motoristas tentando fugir da estrada com aspectos lunares.
Tudo me parecia grandioso: o mundo, as paisagens, as paradas que aconteciam em intervalos irregulares – 15 minutos, 20 minutos, 30 minutos. O motorista da vez verbalizava: “Esta é cidade tal. Pararemos aqui por 15 minutos”. Era o tempo que os assustados, atarantados passageiros teriam para ir ao banheiro; ou espicharem o corpo cansado pela refrega contínua da viagem. Ficava de olhos arregalados. O ônibus não possuía ar condicionado. Viajávamos com as janelas abertas. Recebíamos o bafo quente, mesclado pelas partículas do tempo.
Minha mãe com duas criaturas que não foram iniciadas no traquejo social – eu e meu irmão - fazia advertências. Espavorido, eu arregalava os olhos. Memorizava, como se estivesse verbalizando um credo forçado, os números de registro do ônibus. Movia-me com metódico cálculo. O medo de ficar para trás era um fantasma que revoluteava como uma sacola agitada pelo vento ao meu redor. Ficávamos com os olhos grudados no ônibus da Itapemirim. Íamos assim até o nosso destino final. Toda parada envidava uma operação com estratégias estudadas com esforço.
Transposta a tumultuada primeira noite, os passageiros gestavam uma curiosa solidariedade. Conversavam. Pareciam velhos amigos. Entravam em minudências. Segredavam os destinos para onde iam. Compartilhavam – em certos momentos – os tímidos repastos. Minha mãe se munira com biscoitos, maçãs e farofa para realizar a heroica travessia e saciar a fome de sua prole.
Aquela viagem me ensinou a entender o movimento de volta, o regresso. Ao voltar, nota-se o efeito do tempo. O regresso permite a gestação de expectativas. Passa-se a compreender certas coisas. Olha-se com desvelo o corriqueiro. É a saudade que nos empurra para trás. E como diz Guimarães Rosa: “Toda saudade é uma espécie de velhice”. Mais tarde, eu compreendi que por estar voltando, eu era um Ulisses com a expectativa de reencontrar a minha Ítaca.













