domingo, junho 08, 2008

O sentido

Busco o vernáculo perfeito.
O dado semiológico desconcertante.
A palavra correta.
O sentido que acordará o mundo.
Viso a semântica dos astros.
O significado que promoverá sublimação.
A poesia de verso e frases irretocáveis.
Pontuar-se-á os verbos, os adjetivos
E todas as classes gramaticais.
Suas homonímias e topônimos.
A viagem se condensa com a
Abertura dos cadeados secretos.
Palavras não lapidadas,
De semblantes rústicos.
Não se dará importância aos
Vícios escondidos.
Aos imperfeitos que não
Conjugam o passado.
Ao erro de sintaxe que não
Se liga ao real em sua compreensão mais lata.
Desemcubidos ficam os erros e digressões.
Oscilo em torno das palavras como
Uma luz bruxuleante, enervante.
As poesia é mostro de rutilância cândida.
Visão fantasmagórica.
Para os que não entendem não diz nada,
Para os que compreendem os sentidos poéticos,
Apenas a relatividade das palavras
Com os seus sentidos ocultos.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

quarta-feira, junho 04, 2008

O sentido do Império dos Sentidos

Assisti ontem ao filme, O Império dos Sentidos. Trata-se de um clássico do cinema oriental, em específico o cinema japonês. O diretor Nagisa Oshima ousa na montagem do mote – um filme regado a sexo como produto da paixão sem limites. Sada, uma mulher poderosa, com um desejo sem saturação. Tikisan, o indivíduo passivo, que apesar de mostrar paixão por Sada, em muitos aspectos é conduzido pelos labirintos da insaciabilidade da gueixa.

Busquei comentários ou depoimentos na internet sobre o filme, não obtive muito sucesso. Isso mostra apenas como o filme ainda é desconhecido. O fato é que nos acostumamos aos enredos americanos, quando muito o francês, o alemão ou italiano. Resultado de uma dominação cultural, dos hábitos e da condução dos costumes. O diferente nos choca, gera indisposições. Busquei me despir de qualquer olhar oblíquo e imergir na obra de Oshima. Ao final fiquei com impressões profundas de como o diretor soube captar os aspectos mais mórbidos da natureza humana. Com certeza, ele não queria apenas fazer uma crítica à sociedade japonesa com todo o decoro conservador que lhe é peculiar. Ele parece brincar, criar uma paródia com os costumes milenares japoneses.

O sexo está presente em noventa por cento das cenas. Sada, nome que me fez refletir desde o princípio, guiou-me a pensar em “sado”. Mas teria sido esse mesmo o sentido que o diretor quis atribuir? O termo que forma a palavra sadismo, distúrbio este conhecido no mundo da Psicologia como algolagnia ativa é uma pratica mais conhecida como associação do prazer sexual à dor física ou moral infligida a outros. Tal termo deriva do nome do Marquês de Sade, cognome atribuído ao escritor francês do século XVIII, Donatien-Alphonse-François. Donatien, que levou uma vida marcada pelo escândalo e foi autor de explícitas descrições literárias de crueldade sexual. Passou parte de sua vida na prisão e em manicômios, acusado de imoralidade. Nos seus romances e peças teatrais, zombando da moral cristã e da filosofia iluminista, narra detalhadamente os delitos pelos quais foi encarcerado. O filme Os contos proibidos do Marquês de Sade busca trabalhar aspectos biográficos da vida desse polemista marginal do século XVIII. O comportamento sadomasoquista fica explícito no filme.

O lançamento do filme em 1976 nos Estados Unidos foi um fracasso. Houve uma espécie de desinteresse, um banimento abrupto. O moralismo puritano marginalizou a estréia do New York Film Festival. A obra ficou desconhecida, mas tinha tudo para ser um clássico da história da arte cinematográfica, pois o que o autor não deseja retratar o sexo pelo sexo. O que captei foi que o sexo é uma porta poderosa para exprimir a insaciabilidade das paixões humanas.

Num certo sentido, a paixão de Sada e Tikisan começa com tons de brincadeira. Aos poucos cresce uma necessidade de um pelo outro. Uma cena intrigante no filme é quando Sada tem que se prostituir para arrumar dinheiro para o casal. Ou seja, enquanto Tikisan fica em casa descansando, Sada se prostitui para arranjar os meios de subsistência. Essa é uma cena que não consegui achar explicação, pois Tikisan é dono de uma propriedade e patrão de Sada. O filme é cheio de cortes, de hiatos, de espaços sem explicações. De cenas que aparentemente se colam, se juntam, com uma total falta de nexo. O diretor pareceu não se preocupar com os aspectos lógicos de uma linearidade explicativa, regular. Os fatos se dão com uma completa ausência de coerência.

O sexo é o meio que os liga um ao outro. A paixão de Sada é tão avassaladora que os pudores são completamente conjurados. Fazem sexo grupal. Tikisan faz sexo com outra mulher, mas pensa em Sada. A gueixa pede para que o mancebo tenha relações sexuais com uma mulher de 68 anos. Um ovo introduzido na vagina de Sada, sendo que ela é obrigada a colocá-lo para fora à semelhança de uma galinha. Os rigores do sexo se acentuam, ao ponto de que chega um momento em que parece que este já não satisfaz o casal. Buscam o enforcamento como medida que possibilitará um prazer muito maior. A morte também pode gerar prazer. O prazer dos silêncios e efeitos absolutos. Para os adeptos da prática sexual com esses requintes, não existe limites para se alcançar satisfação. Quanto maior for a dor, maior será o prazer, mesmo que se flerte com a morte ou com o destempero. O escritor Benjamim Scott, no seu livro as Catacumbas de Roma, apesar de analisar as sociedades não cristãs com um crivo etnocêntrico, algo que contribui contra qualquer historiador, diz que nos dias de Tibério, Roma mergulhou no caos. Segundo Scott, após Tibério ter se retirado de Roma para a ilha Cáprea, mergulhou em prazeres de toda sorte. O historiador diz que “no seu retiro solitário [Tibério] propôs recompensas aos que inventassem novos prazeres ou pudessem produzir volúpia”[1]. O filme de Oshima não tem por intenção esta propositura, mas mergulhar nas vielas psicológicas das possibilidades da paixão.

A cena final do filme é surpreendente. Sada num ato, creio eu, mais inconsciente do que consciente corta o sexo de Tikisan após tê-lo enforcado. Loucura? Os rigores da paixão a teria estouvado? Talvez, o filme tenha essa intenção a fim de que o telespectador tire as suas próprias conclusões. Filmes viscerais e marginais como O Império dos Sentidos, O Último Tango em Paris, Calígula ou Satiricom são obras de arte que buscam desvestir o telespectador ao avesso. São uma espécie de “tratamento de choque”. Servem para despir preconceitos e fazer mergulhar com maior profundidade analítica no interior do ser humano – que é o mesmo ou aqui ou no oriente. As informações finais do filme são de que a história teria acontecido no ano de 1936 no Japão.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: quarta-feira, 4 de junho de 2008, 10:50:13.


[1] SCOTT, Benjamim. As Catacumbas de Roma – 21ª. Edição. Rio de Janeiro. CPAD. 2002. pp. 38-39.

sexta-feira, maio 30, 2008

Carta escrita em 27/01/2004

Olá, minha doce querida!

Estou com as minha defesas assaltadas neste momento. Toda minha serenidade me aflige no centro de gravitação da alma. Uma impaciência descabida e “enxerida” me esbofeteia sem escrúpulos. Desejo vê-la. Essa distância é atroz e faz crescer dentro da gente algumas nuvens desconhecidas. Uma morrinha arrebenta a encharcar a nossa paciência. Preciso vê-la, porque você é o meu sol, a luz que exorcizará esse negrume denso que me envolve.
Lá fora sopra um vento morno. Choveu a manhã inteira. O regato que contemplo à distância transbordou e inundou a várzea. O estrídulo de grilos e o coaxar de sapos se faz ouvir. Nuvens de insetos brotam, fervilham das gretas das paredes velhas. O canavial recém nascido é sacudido por um vento tímido. Um peru imperializa o quintal com o seu glu-glu-glu. Os perus sempre me chamam a atenção pela postura arrogante. Sinto prazer em admirar as aves da minha avó. Um pontozinho insignificante – um trabalhador braçal – arenga com a enxada no meio dos seixos e raízes molhados. Possivelmente os pensamentos dele são alimentados pela esperança. Não sei quem é o homenzinho que gasta a sua energia no trabalho rude.
Olho pela janela acanhada do meu avô um sítio, ou melhor, dizendo, um povoado que um dia foi denominado Engenho Cacimba. Foi nesse lugar rústico que eu nasci. Foi daí que eu fui chamado à vida. Parece que até hoje ainda a estou procurando. É um trabalho meticuloso. Temos que nos vestir com sobriedade, esperança, resistência, fé, amor, disciplina. Ás vezes desespero. Noutras ocasiões sinto o desejo de pular do muro alto que se ergue à minha frente e acabar com os sortilégios de uma existência tacanha. O que é a vida? Pergunta que se bem pensada, silencia-nos. O silêncio é algo que nos desloca, incomoda. O Engenho Cacimba é uma choça povoada por matutos. Já foi um lugar próspero. Lembro-me quando os caminhões aportavam em busca de álcool e açúcar. Matérias que traziam prosperidade à gente do lugar e alimentava a sede e a gula do Brasil. Hoje não se tem mais engenhos por essas brenhas. As usinas açucareiras monopolizaram o negócio. Ainda se pode ver a torre, a chaminé que um dia cuspiu fumaça no céu do Nordeste. Hoje temos apenas cinzas do que já foi. Não nasci propriamente no engenho, mas numa localidade que geograficamente era chamada de Engenho Cacimba. Sou um cacimbense. Talvez seja por isso, que preservo essa personalidade circunspeta, de bicho acuado, malfadado. O meu mundo de dentro está como o mundo de fora: nublado.
Tem chovido com veemência por essas paragens. No dia em que cheguei em Vitória de Santo Antão fui recepcionado por uma chuva que me molhou os conceitos e a alma. Nesta madrugada a chuva caiu rija. Nestas condições os açudes sangram, os ribeiros envergam o seu curso para as várzeas; os lugares baixos são alagados. O sertanejo acostumado ao calor escaldante e esfolador das plantações deifica o céu. Os santos são sugestionados. Mitos e superstições são evocados. Histórias antigas de outros invernos são mencionados.
Para onde eu olho vejo o verde saindo de sua câmara. É belo o show da vida! Pareço que estou voando para longe por tudo o que vivo, sou, pretendo ser neste momento. Queria tê-la perto de mim. A Pastoral de Beethoven é doce, esvoaçante, amiga de lembranças, nave que impele ao mundo dos sonhos. Sinto como o jovem Werther do romance de Goethe. Será que um dia essa carta será lembrada por alguém? Se dá isso, Liana: quando alguém fica famoso fazem um diagnóstico na infância do indivíduo. Um papel antigo com uma escrita turva, ordinária, sem sentido certo, tem um valor inenarrável. O que você acha que aconteceria se eu tivesse em minhas mãos uma carta de Machado de Assis nunca antes vista, escrita para a sua mulher Carolina, no período do namoro deles? Já pensou na preciosidade? Começo a pensar que o tempo dá valor às coisas, sugere opiniões, acata fatos, subscreve sentenças. Mas eu não sei se um dia serei famoso. Daí não saber se a minha caligrafia afetada e o meu estilo deficiente causará impressão em alguém. A vida é uma incógnita. Vida medonha. Vida bela.
Esses dias na casa dos meus avôs têm sido maravilhosos. As lembranças da minha infância sempre causam impressões misteriosas. Os trovões que ouço na abertura das “Criaturas de Prometeu” de Beethoven falam disso. É sempre a sensação, uma retro-alimentação constante, perene, intermitente. É como seu eu andasse por reinos encantados, forrado por tufos de um material algodoado. É um reino sem fim. Todo lugar é prazeroso e por mais que ande nunca cessa o mistério e as impressões colhidas nesse mundo encantado.
Minha avó está na cozinha a preparar o almoço. Esse sempre foi o seu trabalho – para mim – extenuante. Desde os dezenove anos gastando-se na beira do fogo. Vai manhã, vem tarde e ela com sua paciência pachorrenta e inalterável. Sempre com o mesmo temperamento. Nunca a vi alterada por qualquer fato buliçoso. Desconfio que ela seja uma santa.
Meu avó é um tipo primitivo, modelo dos antigos senhores de engenho. Patriarca. Sempre com os beiços enrugados. Numa sisudez de assustar os anjos. A casa dos meus avós maternos é um asilo de traumas e medos enlatados em conserva. Os filhos têm um respeito – medo – encabulador do pai, meu avô. Ele os criou em regime de servidão. Surras sobejas, trabalho duro e rude foi a alimentação vitaminada que eles receberam com fartura. Hoje ele está com setenta e nove anos, mas ainda preserva os traços severos do patriarcalismo castrante e antigo. Um olhar dele ainda arrepia os cabelos da alma dos filhos.
Quando eu era pequeno passei muitos sustos com ele. Um rabo de olhos congelava-me as ações, paralisava-me o coração, emudecia a minha loquacidade, mofavam os movimentos ágeis e libertários de minha infância. Vejo isso sendo reproduzido nos meus primos.
Já caminhei bastante por essas terras que abrigou, gravou, tatuou os passos de minha infância. Os pés de côcos altearam-se; as jaqueiras envelheceram; as distâncias se tornaram pequenas; as casas reduziram o tamanho; muitos mistérios foram revelados; e alguns enigmas permaneceram mudos, trancafiados, silenciosos e inacessíveis. Um dia pretendo trazê-la aqui. Agora tenho mais fotos. Quando chegar aí conversaremos mais a respeito do que tratei aqui e de algumas impressões que foram cosidas no meu espírito e se aninharam nos galhos da minha alma. São fenômenos estranhos, alheios, impressões mastigadas e que vão para o túmulo coma a gente. São aquelas coisas captadas pelos radares da nossa sensibilidade e que se enrolam, engrolam, no torno, no cerne do nosso ser e trabalham à semelhança da natureza o que somos. É por isso que gosto de ler autobiografias. Todavia, os melhores livros que leio são as feições, os sorrisos, a seriedade, as contrariedades, a sovinice, a faceirice, os olhos, o andar – o ser humano. Isso acrescenta conhecimento do que sou: sou humano – sou duro, sou de ferro, sou orgulhoso, ignorante, nocivo a mim mesmo e aos outros, amante da vida, odiento aos conceitos contrários, preconceituoso, guardo mistério no desconhecido cavernoso de mim mesmo.
Tenho um volume de Graciliano Ramos à minha frente – Infância. Esse é um livro que tem acrescentado sensibilidade e apuro ao lado desconhecido de mim mesmo. Estou mudando. Talvez mudando para melhor. É o dia a dia que diz quem somos. É para o alto que se cresce.
Perdoe-me por expô-la a esses fiapos desenxabidos e desencontrados. Às vezes tenho surtos de falador. Perdoe-me pelas linhas chochas, apequenadas, toscas. A única coisa que se é que algo muito positivo vai acontecer este ano! Impressão mal cozinhada?
Viajarei dia 05 de fevereiro – quinta. Chegarei no sábado, 7 de fevereiro. Creio que antes disso ligarei para você. Um abraço e um cheiro.

Vitória de Santo Antão – PE, 27 de janeiro de 2004.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

sexta-feira, maio 23, 2008

Mundo líquido

Tudo renovas com o teu bafo;
Desenhas novas formas, paisagens;
Tales afirmou num passado distante
Que tu eras o um;
A unidade vital, a que tudo davas vida;
Fazias e desfazias.
Olhou para o mundo azul, verde,
Ardósia, cristalino, incolor e
te inseriu no seu sistema.
Fez nascer o pensamento especulativo.
Analiso o resultado do teu trabalho.
Os gramados estão verdes,
As paisagens estão multicolores.
A desolação foi completamente assolada.
Já não se têm os dias quentes,
As tardes de secura pegajosa.
Árvores se alegram;
As pastagens tornam à vida.
O seco, gretado, crepitado
É transformado num imenso mar verde.
A poeira encarnada foi vencida.
Tudo por causa de ti.
As poças se ajuntam.
A vida ali brota.
A fecundidade mora em tua ação.
Habito num mundo líquido.
Sou uma consciência imersa
Num oceano caudaloso de água.
Meu mundo é aquoso.
Meu corpo é um córrego.
Minhas emoções nascem em
Meio à água.
E eu me impressiono com o teu
Potencial de vida.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

Data: domingo, 2 de dezembro de 2007, 16:08:52.

quarta-feira, maio 14, 2008

Comentário sobre o filme O Perfume – a história de um assassino

O filme O Perfume – a história de um assassino, do diretor Peter Tykwer, lançado em 2006, baseado na obra homônima de Patrick Süskind, é com certeza instigante sobre vários aspectos. Jean Baptiste Grenouille pode ser considerado uma espécie de anti-herói no filme. O filme induz o telespectador a inocentá-lo, apesar das mortes das mulheres promovidas pela paixão ensandecida. O personagem principal encenado pelo ator Bem Whishaw nos remete à aventura medieval da alquimia em busca da pedra filosofal, do elemento mágico, que permitiria alcançar uma condição impossível para as realidades humanas. A procura de “aprisionamento do cheiro das coisas” é justamente a orientação que o guia. Como um alquimista dos odores, ele faz experiências que levará a resultados cada vez mais profundos e atordoantes.

As habilidades de Jean Baptiste o transformam num indivíduo especial, como assim é dito ao iniciar o filme. Grenouille nasce em meio à imundície, numa feira nauseabunda da França do século XVIII (1738); nasce filho de uma peixeira, que tinha a intenção de matá-lo. É filho da gente pobre. Verifica-se neste aspecto a preocupação em descortinar o território francês com um Realismo que provoca repulsa. São cenas indigestas para apresentar a situação histórica que envolvia Jean Baptiste. A maioria dos transeuntes mal-cheirosos contrastam com alguns privilegiados da nobreza. A obra retrata uma França anterior à Revolução (1789). Uma sociedade fétida, de injustiças, roubos e extorsões. O personagem desenvolve atividades rudes, fatigantes, capazes de fazer com que o corpo morra muito cedo. Todavia, não se dá assim com Jean Baptiste, que parece ter uma alma que alimenta o corpo. O seu aspecto físico franzino não é um fator de impedimento para gestar as suas intenções obstinadas.

O Realismo da obra tem por finalidade impressionar e instilar “um tipo de recepção”, construindo uma tese que levará a um desfecho surpreendente nas cenas finais do filme. Afinal, fica-se com a impressão de que Grenouille é uma espécie de indígete, um homem divinizado. O receptor da obra passa a ser também advogado do personagem à semelhança do que acontece na praça publica, numa das cenas finais do filme. Os algozes que o matariam o inocentam e sucumbem ao poder do seu feitiço terrível.

Desde muito pequeno, Jean Baptiste dá mostras de uma sensibilidade incomum. Aprendeu a executar as suas experiências pelo olfato. Essa capacidade o faz apreender o mundo. Aprendeu que a natureza é um receptáculo de odores. Que ela abriga o imponderável, o misterioso. A fragrância dos elementos e das coisas são o espírito e a imaterialidade dessas mesmas coisas. Guy de Maupassant no conto Carta de um Louco cita Montesquieu e diz que “um órgão a mais ou menos em nossa máquina teria feito de nós uma outra inteligência”[1]. O grande contista afirma neste mesmo texto que as impressões limitadas do homem é a causa principal de certa forma de ser e perceber o mundo. Diz ele: “Se tivéssemos, portanto, alguns órgãos a menos, ignoraríamos coisas admiráveis e singulares, mas, se tivéssemos alguns a mais, descobriríamos em torno de nós uma infinidade de outras coisas que nunca suspeitaremos por falta de meios de constatá-las”[2]. O Perfume é a exatificação dessa percepção. Jean Baptiste possui a sensorialidade olfativa desenvolvida ao extremo. Ele é capaz de captar todas as fragrâncias do mundo, do universo e aí reside o seu poder de encantamento. Todavia, é incapaz de ter a “sensibiliade” que imporá limites às suas intenções mais macabras. As leis humanas são incapazes de puni-lo, de pará-lo. Ele vive apenas para a sua paixão, para o seu sonho de poder. Como no Fausto de Goethe, ele quer levar a cabo a possibilidade de um experiência ilimitada. Grenouille encarna as palavras de Fausto: “Natureza infinita, como poderei agarrá-la? / Onde estão as suas tetas, fonte de toda a vida [...] / por quem meu coração vazio anseia”[3]. A sinestesia que envolve o personagem é uma ponte que liga a alma do mundo material à singular capacidade de ordenar e enxergar os elementos interiores da subjetividade.

Um aspecto onírico perpassa a obra fílmica, pois o personagem vive quando quer viver e “morre” (desaparece) quando assim o quer. Este aspecto é imensamente simbólico, pois carrega em si um credo estético que sugestiona o vago, o misterioso, o ilógico, num tipo de expressão indireta, numa evocação encantatória da realidade[4]. A existência de Grenouille é uma fantasia do inconsciente. A estesia resultante da obra é de silêncio, de encantamento, de absurdo, uma quimera que mexe com os aspectos mais profundos da irracionalidade. Um senso de estupefação e uma pergunta surgem: “O que era aquela criatura?”

Esta obsessão por lidar com o intangível, com o mágico, com o inusitado remete à Escola Simbolista. O filme mais sugere e evoca o simbólico, do que atribui nomes a realidades e objetos, como designou o poeta maldito Mallarmé quando se posicionou acerca dessa Escola Simbolista[5]. Rimbaud outro poeta simbolista francês diz que a mensagem simbolista deve rebentar “de excessos abomináveis e imencionáveis”[6]. O Perfume exala esse artifício. Os elementos da fuga se tornam numa impressionante urdidura para fazer chocar ao telespectador. Ao final do filme, tem-se a idéia de que se saiu de um sonho, porque afinal o sonho não pertence às realidades desse mundo. A conseqüência da experiência é a sublimação, pois como diz o simbolista brasileiro Cruz e Sousa: “Toda a alma numa cárcere anda presa,/ Soluçando nas trevas, entre as grades/ Do calabouço olhando imensidades,/ Mares, estrelas, tardes, natureza”[7].

A experiência estética do filme é de algo diáfano. A música poderosa que soa suavemente ao final da obra infunde uma impressão de leveza. A fragrância do filme nos atinge, por conta da pessoa poderosa e misteriosa de Jean Baptiste Grenouille, que é mais que um homem – é uma alma celeste, divina, que se elevou para as imensidades, despregando-se das fealdades do mundo dos homens.

FONTES CONSULTADAS

BERMAN, Marshall, Tudo o que é sólido desmancha no ar, Companhia das Letras: São Paulo, 2007.

COUTINHO, Afrânio, Introdução à Literatura no Brasil, Editora Bertrand Brasil S.A. – 15ª. Edição: Rio de Janeiro, 1990.

MAUPASSANT, Guy, Contos Fantásticos – O Horla e outras histórias, L&PM Editores, Porto Alegre, 2005.

MILLER, Henry, Rimbaud por ele mesmo, Martin Claret, in Rimbaud – um estudo, A hora dos assassinos, São Paulo [s.d].

NICOLA, José de, Literatura Brasileira – das origens aos nossos dias, Editora Scipione, São Paulo, 1998.

[1] MAUPASSANT, Guy, Contos Fantásticos – O Horla e outras histórias, L&PM Editores, Porto Alegre, 2005, p. 53.
[2] Idem, 57.
[3] BERMAN, Marshall, Tudo o que é sólido desmancha no ar, Companhia das Letras: São Paulo, 2007, p.55.
[4] COUTINHO, Afrânio, Introdução à Literatura no Brasil, Editora Bertrand Brasil S.A. – 15ª. Edição: Rio de Janeiro, 1990, p. 213.
[5] Idem, p. 213.
[6] MILLER, Henry, Rimbaud por ele mesmo, Martin Claret, in Rimbaud – um estudo, A hora dos assassinos, São Paulo [s.d], p. 18.
[7] NICOLA, José de, Literatura Brasileira – das origens aos nossos dias, Editora Scipione, São Paulo, 1998, p. 218.

domingo, maio 11, 2008

Pensamento livre sobre o homem

A presença da espécie humana no planeta terra é deveras recente. O homem foi forjado, com relação à origem do Universo, nos últimos segundos do estágio formativo. Denomino estágio formativo àqueles momentos cruciais que deram condições para que surgisse o homo sapiens.
A se julgar por essa exigüidade, o potencial pensante do homem determinou a dominação do planeta. É irônico e interessante que uma das últimas espécies a entrar em cena no palco da criação viesse a dominar todas as demais realidades naturais. O que é inquietante com relação a isso é que um destino nefasto, luctífero, se aproxima com bastante velocidade da realidade humana. Pode ser avaliada como certa a destruição do homem. Essa afirmação é forte e, portanto, para muitos, constitui-se como inaceitável. A vaidade e o orgulho humanos não admite algo com essas implicações.
A Bíblia hebraica possui algumas metáforas que chamam a atenção. Quando caminho por entre os homens, sinto-me como um daqueles profetas. Seria arrogância pensar assim? Prossigamos. O que me distingue com certeza daqueles profetas tão apaixonados é que não tenho voz para gritar. Melhor seria andar com uma lanterna como o fez Diógenes buscando um homem sensato em plena luz do dia. Os profetas eram homens comuns chamados para anunciar a vontade divina. As intervenções dos profetas eram sempre ornadas de complexidade, pois eles vaticinavam a vontade divina, mas quase sempre presenciavam o povo caminhando na direção contrária às suas anunciações. O destino do povo era agônico.
Se houvesse uma mudança no comportamento, a triste realidade impositiva teria uma outra “história”; se a conduta fosse renitente, não haveria outra saída senão o desterro. Jeremias, por exemplo, padeceu desses sofrimentos. Anunciou a escravidão inextricável: se o povo não repensasse os passos da caminhada na direção da desobediência o resultado seria a escravidão. As palavras do profeta foram descartadas. Não houve qualquer adesão. Jeremias sentia o que via e lamentava profundamente o destino infausto do povo.
Analisando essa metáfora bíblica é inegável que aqui não seja visto um paradigma bastante contundente: a extinção do homem é certa se um fenômeno reflexivo não se apoderar das mentalidades e fizer surgir um novo “modelo de mundo”. Utilizo o termo “extinção” em sentido lato. O modelo de organização social construído pelo homem consagra a desigualdade. Filosoficamente existe um conceito de liberdade, mas empiricamente esta não possui qualquer concretude em termos reais. Que modelo deve ser construído? Como a equidade deve ser tornar uma possibilidade e não apenas uma utopia? A resposta a estas perguntas constitui-se um grande desafio.
Analiso o destino da humanidade que fulmina a natureza, incinera florestas, ocupa todos os espaços do planeta de forma predatória; que construiu um modelo perverso e imoral, numa sociedade que privilegia alguns e consagra os demais a um estado crônico de miséria. Ando como Jeremias.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

domingo, maio 04, 2008

Comentário ao livro "O que é religião" de Rubem Alves

Rubem A. Alves, O que é religião?(São Paulo: Edições Loyola, 2002).

Rubem Alves nasceu em Boa Esperança, MG, em 1933. É psicanalista, bacharel em teologia pelo Seminário Presbiteriano de Campinas, mestre em teologia pelo Union Theological Seminary em New York, doutor em Filosofia pelo Princeton Theological Seminary, Princeton.
O autor nesta obra busca dá uma definição, apontar caminhos – sejam eles filosóficos, antropológicos, sociológicos – para o que é religião. A religião que fascina o homem, que são os sonhos de amor do homem com o homem, como assim menciona o autor citando Feuerbach.

O autor inicia a sua obra explicando o fenômeno religioso na contemporaneidade. Afirma que a religião não perdeu seu poder em nossos dias. Embora se viva num tempo muito especial da história, apesar do advento de técnicas revolucionárias da ciência, do aprimoramento industrial, do desenvolvimento de métodos econômicos, verifica-se que o fascínio da religião tem permanecido como em todas as eras e gerações humanos. Ele se instala como um fenômeno subjacente, vinculado ao ser humano, posto que o homem é em si um ser religioso.

A consciência do religioso é como uma teia que se expande e amarra os elos relacionais do existir humano. Negar o sentimento do religioso seria negar o próprio sentido que toma norteios e se torna uma cartilha que inscreve as respostas que dão segurança à vida do homem. Rubem Alves diz que não se liquida a religião com abstinência dos atos sacramentais e a ausência dos lugares sagrados, da mesma forma que o desejo sexual não se elimina com os votos de castidade. Ou seja, mesmo negando ou omitindo a visibilização do religioso nos altares de fora – templos, catedrais, imagens... símbolos – a presença do religioso nos altares da alma é que dá condução à construção para o que existe como objeto externo. Deste modo, “é quando a dor bate à porta e se esgotam os recursos da técnica”, segundo Rubem Alves, “que nas pessoas acordam os videntes, os exorcistas, os mágicos, os curadores, os benzedores, os sacerdotes, os profetas e poetas, aquele que reza e suplica, sem saber direito a quem...”.

É justamente nas horas de indômitas certezas, de existência vacilante, de crise vocacional, de resoluções vencidas que o sentimento religioso se instala como fator mais arraigadamente sisudo na alma humana. Lidar com o religioso, segundo Rubem Alves, não seria lidar simploriamente com idéias primitivas, de uma civilização atrasada ou de uma sociedade com propensões animistas. O religioso extrapola o fetiche. A existência do fetiche é apenas uma objetização do sentimento abstrato que pervaga no interior do ser humano. Os homens erguem catedrais porque dentro de si possuem gritos, sussurros, incompreensões, expectativas e todas elas em um momento ou outro são abraçadas pelo mistério. Daí, a necessidade de se construir um símbolo para a materialização ou visibilização do ser sagrado que primeiramente nasceu no centro da alma como projeção das respostas que são feitas do lado de fora do ser humano.

Enquanto os animais conservam apenas um instinto de preservação e instinto, os homens pelo contrário, a partir da imaginação, construíram ou têm o poder de manipular o mundo para darem a forma que bem entenderem. Tudo isso é feito por uma teia simbólica cujo princípio é entender e decodificar a realidade. Os homens construíram estradas, plantaram jardins, fizeram bandeiras e deram um significado a cada uma delas; os homens laboraram na construção de intricados mecanismos e deram nomes a essas invenções. Assim, o homem tem o poder de manipular a realidade por meio da construção de símbolos que determinam o sentido do mundo. Essa transformação ou leitura própria do mundo é que se pode chamar de cultura. Ou seja, cultura seria o nome que se dá às coisas e o modo de como se interpreta a realidade. Cultura é o modo de vida de um povo, o ambiente que um grupo de seres humanos, ocupando um território comum. A cultura se cria na forma de idéias, instituições, linguagem, instrumentos, serviços e sentimentos.

Para Rubem Alves, “a religião nasce com o poder que os homens têm de dar nomes às coisas, fazendo uma discriminação entre coisas de importância secundária e coisas nas quais seu destino, sua vida e sua morte se dependuram”. Assim, entende-se que a religião seria propriamente um fenômeno da cultura de cada povo. Afinal, quantos são os povos, tantas são as religiões. Não há uma explicação para o fenômeno da religião, porque pode se detectar que cada cultura tem os seus próprios rituais – desde as mais primitivas e simples às mais complexas.

Diz Rubem Alves que a partir desta leitura da realidade, o homem dá vários significados à morte; a vida passa a ser encarada com os seus diversos matizes de acordo com a construção simbólica ou com o sentido de crença de cada indivíduo – o ateu diz não acreditar na existência de Deus e busca viver como se Deus não fosse uma realidade para ele. Já o crente em Deus, guia as ações da sua vida a partir desse sentido de crença. É essa construção simbólica que direcionou milhares de monges para mosteiros na Idade Média. O símbolo condiciona a vida. Ou seja, “com os símbolos sagrados o homem exorciza o medo e constrói diques contra o caos”.

A religião surge como um encantamento. Ela abriga em si o mistério. A religião por ser uma construção simbólica, lida com poderes ideais. Não existe objetividade na religião, segundo Rubem Alves. Com o advento dos poderes científicos, a religião foi sacudida, trepidada, balançada. A ciência lida com a presença. A religião com a ausência. Na ciência, para que algo seja real e verdadeiro é preciso que seja percebido e visto. O que não é visto não é real, posto que o pensamento tem que se materializar como presença e visto como verdade. Os raciocínios devem ser experimentados.

O materialismo da ciência engoliu o abstracionismo da religião nos últimos séculos. A religião pouco a pouco foi sendo periferizada. Todavia, o “exílio do sagrado” não significou um completo abandono da religião. No ser humano ou fora da capacidade da ciência existem alguns fatores que estão cobertos com o lençol do mistério. Existem realidades que não são objetos estudáveis da ciência – a alma, a morte., etc. Estas realidades não são verificáveis ou quantificáveis e exercem um fascínio misterioso sobre o ser humano.

Rubem Alves também se vale do sociólogo francês Émile Durkheim para afirmar que a religião funciona como uma reguladora social. A ausência da religião instauraria um processo de completa anomia na sociedade. Para Durkheim, todas as religiões seriam verdadeiras. É por causa da capacidade de imaginar do homem que a religião veste o real com o sagrado. Não existem comunidades que eximam em suas estruturas o sentimento pelo religioso. A religião pode se transformar, para Durkheim, mas nunca desaparecerá como fenômeno humano. Para ele a religião se dá como fenômeno dinâmico. Deuses nascem e deuses morrem, deuses aparecem como projeção das necessidades que os homens têm para formar seres ou coisas ideais. Os deuses são necessários, pois se transformam em guias para a humanidade.

Já para Karl Marx a religião não surge como consciência autônoma fora do homem. Não existe uma estrutura chamada religião fora do homem – “não é a consciência que determina a vida; é a vida que determina a consciência”. A religião em Marx é desnecessária porque ela, simplesmente, não existe. Ela não merece qualquer tipo de consideração. A religião surge apenas como um produto da alienação (“a religião é o ópio do povo”). A religião seria uma necessidade do homem oprimido para da cor a uma existência sem cheiro e sem brilho. Ela seria consciência não-consciente no individuo, “porque é o homem que faz a religião; e não a religião que faz o homem”.

De acordo com a concepção marxista, exterminando as agruras da existência humana, a necessidade do religioso teria fim. Os sentimentos e as inclinações que se dão na vida variam de uma classe para outra. Dependendo da classe onde o individuo humano estar há uma influência no seu modo de se vestir, na sua forma de pensar, no seu gosto musical, na sua qualidade alimentícia, nas supertições e crenças, na forma como se encara a vida e a morte. Em suma, nestes aspectos Marx observava que a consciência estabelecida pela ordem de classe determinava a vida. A consciência varia de classe para classe. Assim a religião também toma forma de classe para classe.

Religião é uma forma de alienar o ser humano. Explica-se na obra de Rubem Alves o verdadeiro sentido que Marx usa do termo “alienação”. O termo alienação não é posto como é bem compreendido pelo vulgo. Não se trata de um sentimento que torna o individuo “idiotado”. Em Marx, alienar é “transferir para outrem o domínio de; tornar alheio; alhear; desviar, afastar”. A religião surge como alheamento na consciência do individuo. Ou seja, o individuo alienado é aquele que teve o seu desejo violado pelo desejo de outrem. A religião processa o seu poder neste ponto, embora ela mesma não possua nenhum poder intrínseco, posto que ela “ilumina com ilusões que consolam os fracos e legitimações que consolidam os fortes”. Ainda para Marx, a religião é um analgésico ineficaz dado pelos fortes para adormecer a vontade dos fracos. Marx dizia que em nome de uma entidade superior, argumentos são silenciados. Quem contesta o que é superior e arbitrário? “A religião é nada mais que o sol ilusório que gira em torno do homem, na medida em que ele não gira em torno de si mesmo” (Marx).
Já em Feuerbach a religião aparece como um sonho da mente humana. A religião surge como projeção do sonho, que se deriva da voz do desejo. O desejo existe no interior do ser que é, mas que tem de se adequar ao que se coloca como realidade. A realidade é a negação do desejo. O desejo fala da própria essência do homem. Deste modo “as verdades” mentirosas devem ser abolidas para que o desejo no ser humano torne-se verdadeiramente consumado. E nisto é que Feuerbach afirma que “a religião é o solene desvelar dos tesouros ocultos do homem, a revelação dos seus pensamentos mais íntimos, a confissão pública dos seus segredos”.
A afirmação de Feuerbach remete a religião ao próprio homem, porque para ele falar de Deus é falar do próprio homem. Ter consciência de Deus é ter consciência de si mesmo. Deus no homem surge como uma imagem refletida na parede do ser, porque Deus varia no homem, de ser para ser. Existem várias consciências de Deus no homem, quantos são os homens, tantos são o número de projeções de Deus. Deus se relativiza no ser. Deus, assim, é criado pelo desejo humano. Decodificando as características ou a personalidade de Deus para uma determinada pessoa, descobre-se os desejos desta pessoa. Deus é subjetividade. O ser determina a imagem em sua objetividade e transforma-se em objeto perante a imagem, e, a imagem, por sua vez, toma forma de sujeito.
A realidade última da religião não estaria inclinada para fatores eminentemente metafísicos. A religião encerra-se aqui na contingência do mundo humano. Não existem fenômenos do lado de lá, puramente espirituais. Lidar com o sagrado, seria em outros termos, lidar com a antropologia. Religião é antropologia. O homem é próprio ser divinizado. A necessidade de uma divindade para o homem fala dos próprios anseios humanos. A religião é um sonho que o individuo religioso não compreende. Para Feuerbach, a partir do momento que se interpreta o sonho, a necessidade de Deus e da religião deixa de existir.
Outra perspectiva abordada por Rubem Alves diz respeito à visão da religião como uma força propulsara dos oprimidos. Deus, na concepção dessa visão, surgiria como a razão ou a base de toda utopia. Segundo o autor, os profetas contestam a ordem presente, vociferam contra o status quo, segurador da ordem social, regulador das esperanças dos mais fracos. A base contestatória dos profetas está no presente, mas o anúncio da esperança (utopia) do Reino de Deus está no futuro. Para o autor a religião, seria um objeto que teria duas faces relacionais: (1) “Para iluminar”, “libertar”, “para dar coragem”, “para fazer voar”; ou (2) “para cegar”, “paralisar”, “atemorizar”, “escravizar”. A religião funcionária de modo paradoxal. Ou sendo para os fracos e não sendo para os poderosos; ou sendo para os poderosos e não sendo para os fracos.
Com o advento da “ciência histórica”, tornou-se possível compreender de modo crítico as interpretações suscitadas pelos poderosos. A linguagem mono-focal dos poderosos foi interpretada com uma premissa inteiramente nova. A base era: “o que Antônio fala acerca de Pedro contém mais informações acerca de Antônio do que de Pedro”. Entendeu-se, assim, que “aquilo que os opressores denunciavam nos oprimidos não é a verdade dos oprimidos, mas o que os opressores temem”. As versões oficiais são sempre o fruto da pertubabilidade dos poderosos. Os movimentos messiânicos tidos por marginais são assim denominados pelos poderosos por causa do poder. Para revestir de não santo os movimentos que “fogem da ordem”, é preciso evocar o dogma do absoluto. Assim, a maneira como se interpreta a vida está diretamente “condicionada pela textura social da vida”. Não se contesta o absoluto (Deus). Lidar com o absoluto é absolutamente lidar com a eternidade.
O discurso religioso é, antes de tudo, o discurso da força – dominadores sobre os oprimidos. Os sonhos dos dominados não se enraízam no chão do presente, mas se projetam para uma possibilidade futura. Os pensamentos religiosos são utópicos. Para Rubem Alves, os textos escatológicos (Apocalipse) são utopia. Ou seja, dimensiona-se para o futuro aquilo que não é no presente, todavia existe no ser como esperança concretizável.
É por causa da consciência oprimida do indivíduo que se faz fermentar o contentamento dos sonhos religiosos. É por isso, que os pobres e oprimidos se sentem mais à vontade junto aos “curandeiros”, dos “mágicos”, dos “milagreiros”, que são pretensos prognosticadores, vendedores de esperança. Eles sempre apontam para o futuro com palavras que entusiasmam e geram esperança.
No último capítulo do livro, Rubem Alves faz a “Aposta”. Para ele, esta aposta é um arriscar-se. É, simplesmente, “dar uma chance para a religião”. Ele mesmo diz: “Teremos de ouvir a voz da religião, ainda que ela esteja mais próxima da poesia que da ciência”. Para ele, o objetivismo frio da ciência não possui todas as respostas. A ciência “empalhou”, “imobilizou” o vôo do sagrado. A ciência é fria e míope em seus conceitos. Ela “nos coloca num mundo glacial e mecânico, matematicamente preciso e tecnicamente manipulável, mas vazio de significações humanas e indiferente ao nosso amor”.
O autor diz que bem gostaria que os deuses existissem. Só assim a vida ganharia certezas e exorcizaria as dúvidas e os estalos da alma. A vida teria sentido se assim fosse. Mas por não o ser, o sentido da vida é “experimentado emocionalmente”. É apenas sentimento. Esse sentimento é experimentado como intensificação da vontade de viver a ponto de dar coragem para morrer, se necessário for, por aquelas coisas que dão à vida o seu sentido. O sentido da vida se debruça, para Rubem Alves, diante do mistério. É como afirmou Pascal certa vez: “O silêncio desses espaços infinitos me apavora”. Ao passo que a vida é mistério, a morte mostra-se como um abismo cuja a sociedade é tragada para a sua escuridade. A morte é a inimiga dos homens. Ela se mostra insensível com qualquer que seja o individuo. Todos serão abraçados pelos seus braços frios e pela suas mãos pegajosas.
Para Rubem Alves, religião tem o poder de transformar a morte em irmã. Assim, “livres para morrer, os homens estão livres para viver”. Mas, o que acontece é que na concepção de Rubem Alves, Deus é apenas uma esperança. Não é algo que é concretamente, mas pode ser. Deus é objeto da “magia da imaginação”. O direcionamento mais correto que quiser experimentar Deus , de acordo com o autor, seria se aventurar. Seria, mesmo na inexatidão da certeza, crer. Seria o salto no escuro de Kierkegaard. Seria a possibilidade de total entrega ao incompreensível, ao inimaginável, só possível pela fé. Ele não tem certeza acerca da existência de Deus. “Não sei”. Mas ele gostaria que a esperança que o tomava se concretizasse em certeza e o objeto (Deus) se transformasse em verdade.
Esta posição pode ser considerada como um meio vacilante de se questionar a validade da fé. A posição em que Rubem Alves se coloca pode ser colocada como neutra. Ele quer crer, mas não tem certeza naquilo que crer. Cheira a irracionalismo – embora a fé não esteja dentro das categorias racionalizáveis. Embora eu concorde com a assertiva de Kierkegaard em “Temor e tremor”, "O paradoxo da fé não pode reduzir-se a nenhum raciocínio, porque a fé começa precisamente onde acaba a razão". Ou no dizer de Pascal: “A distância infinita que há entre a certeza do que se aventura, e a incerteza do que se ganhará, iguala o bem finito, que certamente se expõe, ao infinito, que é incerto”.
O fato é que a posição de Rubem Alves embora belamente poética e estética, não é bíblica. Deus não pode ser provado objetivamente, mas se eu creio não devo ter sentimentos ambíguos em relação a Ele. Seria como se pulasse do avião sem se verificar se o pára-quedas está funcionando. Fica-se a mercê do não ou do funcionamento do pára-quedas. O individuo que assim se expusesse estaria, na verdade, se aventurando, posto que ele não sabe se o pára-quedas vai ou não funcionar.
Em Kant e em Hegel, a existência de Deus passou a ser um problema para epistemologia. Em Kierkegaard, passou-se a verificar que todo sistema construído e absolutizado é merecidamente identificável com o ser. O ser é vasto, amplo e a subjetividade é quem diz o que deve se ser para o ser. Kierkegaard se aventurava pela fé para acreditar que Deus existe.
Paulo disse no seu discurso para os filósofos em Atenas que Deus “de um só fez toda raça humana para habitar sobre toda a face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação; para buscarem a Deus se, porventura, tateando, o possam achar, bem que não está longe de cada um de nós”(At 17.26,27). Segundo a Palavra inspirada, homem foi criado com propensões para buscar a Deus, mesmo que tateando. As religiões são os “tateamentos”, as apalpadelas no escuro dados pelo homem em busca de algo que o coração deseja. O coração humano grita inconscientemente por Deus (não O deseja no sentido de querer relacionar-se com Deus, mas porque dentro do ser a ausência grita pela presença) sem o homem o saber, e, por isso, existe uma exteriorização, uma construção visibilizável do elemento religioso. Constrói-se fora para se ver, o que o coração deseja dentro.
É interessante notar que os povos primitivos compreenderam isso de uma maneira involuntária. Ao se observar as comunidades primitivas, verifica-se que o pendor para o infinito sempre existiu. Os antropólogos têm detectado que nunca existiu uma sociedade organizada que não houvesse a icononização de Deus. Por mais bizarros e personificados pelo natural, o senso de Deus, o criador do infinito, sempre existiu. O homem é isso: síntese de finito com infinito. Entende-se daí, os conflitos e os mistérios gerados e criados que ocorrem sucessivamente na existência atribulada do homem.
Os gritos, os símbolos, os mistérios, as dúvidas, as utopias e as certezas existem, porque dentro da alma humana existe a eternidade. Existe o caos que busca equilíbrio diante do infinito. “Finito que diante do infinito se aniquila, torna-se um puro nada”, no dizer de Pascal. A obra de Rubem Alves é importante no sentido de nos informar a temática do religioso de acordo com várias escolas do pensamento humano. Isso apenas serve para comprovar a tese do feitiço humano perante religioso.
Outras obras utilizadas:

AGOSTINHO, Santo, As Confissões – Os pensadores, Nova Cultural, 2000.

PASCAL, Blaise, Os imortais do pensamento humano vol.6, Ed. Universidade de São Paulo, Goiânia, 1.981.

KIERKEGAARD, Sören, Os pensadores, Diário de um sedutor; Temor e tremor; o desespero humano, traduções de Carlos Grifo, Maria José marinho, Adolfo Casais Monteiro – São Paulo, Abril Cultural, 1979.


Por Carlos Antônio M. Albuquerque

domingo, abril 27, 2008

Impressões – Abertura Solene 1812

Escuto, ouço, aprecio a beleza
Tempestuosa de a “Abertura Solene 1812”
De Tchaikovski.
A grandiosidade dessa peça impressiona,
Põe um riso no canto dos lábios.
Ao cabo dela sentimo-nos grandes,
Magnificentes, imponentes, humanos.
São variações sobre um tema bélico
Retratado pelo duelo franco-russo.
As tropas napoleônicas marcham,
Transpõem o inverno rigoroso rumo ao leste.
Do outro lado, a recepção fria e disciplinada
Da força russa está pronta para o gládio.
O início da peça é magnificente, parece
Apontar para o palco, para os atores,
Para a batalha.
Logo em seguida um tema mais intenso, forte.
Os metais soam, os violoncelos retumbam
E sugerem o confronto em campo aberto.
A Marselhesa aparece suavemente e deixa
Transparecer que há um rápido triunfo francês.
Alguns temas do folclore eslavo são evocados,
Para representar o exército do czar.
De repente, o ímpeto, o impulso, a força,
O vigor que eclode em estampidos, como
Se uma nuvem do céu desabasse em fúria.
A Abertura Solene 1812 é um prodígio-épico-musical.
O estrépito final fazem os sinos repicarem, os canhões
Retumbarem – beleza e a paz gráceis surgirem.
E ao final: a exultação.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

segunda-feira, abril 14, 2008

Mãos dadas

Tirar os pés do chão num instante.
Breve! Que seja!
A suavidade triste da melodia mostra-me o passado.
Eu, criança feliz a brincar.
Corria com uma bola capenga embaixo
Do braço.
Enfronhado pela lembrança.
Vozes brandas, brancas, quase angélicas
Anunciam o que foi, mas que está aqui comigo.
Uma batuta invisível é agitada e produz música.
As pernas tortas e finas a se movimentarem no campo
Da várzea.
Os pés duros, agrestes, imprime suas formas
No chão da memória.
A gritaria inclemente.
Habilidade era mero capricho.
Locomove-me.
Os olhos furtivos não vêem outra
Coisa senão o campo,
Distante, em minha memória.
Os meus pés pisam em grama.
A rua tornou-se um grande quintal.
De repente vejo-me de mãos dadas
Comigo mesmo.
As mãos do hoje seguram as mãos do ontem.
E juntas seguem pela estrada.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

domingo, abril 06, 2008

A alegria da música - Por Rubem Alves


Há muito tempo eu vinha tentando colocar este texto neste espaço. Trata-se de um texto delicioso do Rubem Alves sobre a maravilha transcendental da música erudita. Ao lado resolvir colocar como complemento visual sinfônico a imagem de um ipê amarelo, uma das árvores mais belas da flora brasileira. Nada melhor do que este espírito intertextual para falar do belo.

Eu gosto muito de música clássica. Comecei a ouvir música clássica antes de nascer, quando eu ainda estava na barriga da minha mãe. Ela era pianista e tocava... Sem nada ouvir eu ouvia. E assim a música clássica se misturou com minha carne e meu sangue. Agora, quando ouço as músicas que minha mãe tocava, eu retorno ao mundo inefável que existe antes das palavras, onde moram a perfeição e a beleza.

Em outros tempos, falava-se muito mal da alienação. A palavra “alienado” era usada como xingamento. Alienação era uma doença pessoal e política a ser denunciada e combatida. A palavra alienação vem do latim alienum que quer dizer “que pertence a um outro”. Daí a expressão alienar um imóvel. Pois a música produz alienação: ela me faz sair do meu mundo medíocre e entrar num outro, de beleza e formas perfeitas. Nesse outro mundo eu me liberto da pequenez e picuinhas do meu cotidiano e experimento, ainda que momentaneamente, uma felicidade divina. A música me faz retornar à harmonia do ventre materno. Esse ventre é, por vezes, do tamanho de um ovo, como na Reverie, de Schumann; por vezes é maior que o universo, como no concerto n. 3 de Rachmaninoff. Porque a música é parte de mim, pra me conhecer e me amar é preciso conhecer e amar as músicas que amo. Agora mesmo estou a ouvir uma fita cassete que me deu o Ademar Ferreira do Santos, amigo de Portugal. Viajávamos de carro a caminho de Coimbra. O Ademar pôs música a tocar. Ele sempre faz isso. Fauré, numa transcrição para piano. A beleza pôs fim à nossa conversa. Nada do que disséssemos era melhor que a música. A música produz silêncio. Toda palavra é profanação. Faz-se silêncio porque a beleza é uma epifania do divino. Ouvir música é oração. Assim, eu e o Ademar, descrentes de outros deuses, adoramos juntos no altar da beleza. Terminada a viagem, o Ademar retirou a fita e m’a deu. “É sua”, ele disse de forma definitiva. Protestei. Senti-me mal, como se fosse um ladrão. Mas não adiantou. Há gestos de amizade que não podem ser rejeitados. Assim, trouxe comigo um pedaço do Ademar que é também um pedaço de mim.

A música clássica dá alegria. Há músicas que dão prazer. Mas a alegria é muito mais que prazer. O prazer é coisa humana, deliciosa. Mas é criatura do primeiro olho, onde moram as coisas do tempo, efêmeras, que aparecem e logo desaparecem. A alegria, ao contrário, é criatura do segundo olho, das coisas eternas que permanecem. Superior ao prazer, a alegria tem o poder divino de transfigurar a tristeza. Haverá maior explosão de alegria do que a parte final da Nona Sinfonia? E, no entanto, a vida de Beethoven chegava ao fim, marcada pela tristeza suprema de não poder ouvir o que mais amava, a música. Estava totalmente surdo. Mas é precisamente dessa tristeza que nasce a beleza. No último movimento, Beethoven faz o coro cantar a Ode à Alegria, de Schiller. Sempre que a ouço imagino Beethoven de pé sobre um alto rochedo à beira-mar. O céu está negro. O mar ruge furioso. Respingos e espumas molham a sua roupa. Mas ele parece ignorar a fúria da natureza. Sorri, abre os braços e rege... o mar. A tempestade não cessa, continua. Mas a fúria se põe a cantar a alegria! Abre-se uma fresta nas nuvens negras através da qual se pode ver o céu azul...

A Nona Sinfonia me faz triste-alegre. Essa é a magia da beleza: ela é um triunfo sobre a tristeza. Feiticeira, a beleza é o poder mágico que transforma a tristeza-triste em tristeza-alegre... É só por isso que eu a quero ouvir vezes sem conta. Porque a vida é triste. E nisso está a honestidade da música clássica: ela não mente. Se soubéssemos disso, se sentíssemos a tristeza da vida, seríamos mais mansos, mais sábios, mais bonitos.

Meu outro amigo português, professor José Pacheco, pastor da Escola da Ponte... (Ele se recusa a ser chamado de diretor. Por isso o chamo de “pastor”, aquele que ama e cuida das ovelhas, as crianças. Não seria bonito se os professores se vissem como pastores de crianças?)... conversando comigo sobre a música de Ravel, me dizia que, por vezes, ele fica tão “possuído” que ouve um mesmo CD vezes repetidas, sem parar, não deseja ouvir outro. Comigo acontece o mesmo. A beleza produz uma “compulsão à repetição”. Kierkegaard dizia que um amante seria capaz de falar sobre sua amada dias a fio sem se cansar, repetindo as mesmas coisas. Falamos para transformar a ausência em presença. Ao escrever essas linhas, estou tornando presente aquela viagem com o Ademar, a caminho de Coimbra, ouvindo Fauré. E estou de novo com o José Pacheco, conversando sobre Ravel e bebendo vinho.

Há músicas que contêm memórias de momentos vividos. Trazem-nos de volta um passado. Lembramo-nos de lugares, objetos, rostos, gestos, sentimentos... Aquele hino Deus vos guarde pelo seu poder provocará sempre, Jether, a memória do barco seguindo o navio. Lembrar-se do passado é triste-alegre... Alegre porque houve beleza de que nos lembramos. Triste porque a beleza é apenas lembrança... Não mais existe. Mas há músicas que nos fazem retornar a um passado que nunca aconteceu. É uma saudade indefinível, sentimento puro, sem conteúdo. Não nos lembramos de nada. Apenas sentimos. Sentimos a presença de uma ausência... Fernando Pessoa se refere a uma saudade vazia? Saudade é sempre “saudade de”. Mas essa saudade é saudade pura, sem ser saudade de coisa alguma. Será possível ter saudades de algo que não foi vivido?. Octávio Paz descreve uma dessas experiências no seu maravilhoso livro O arco e a lira. Ele diz: “Todos os dias atravessamos a mesma rua ou o mesmo jardim; todos os dias nossos olhos batem no mesmo muro avermelhado, feito de tijolos e tempo urbano.” (Coisas do primeiro olho!) “De repente, num dia qualquer, a rua dá para um outro mundo, o jardim acaba de nascer, o muro fatigado se cobre de signos.” (O segundo olho!) “Nunca os tínhamos visto e agora ficamos espantados por eles serem assim: tanto e tão esmagadoramente reais. Sua própria realidade compacta nos faz duvidar: são assim as coisas ou são de outro modo? Não, isso que estamos vendo pela primeira vez, já havíamos visto antes. Em algum lugar, no qual nunca estivemos, já estavam o muro, a rua, o jardim. E à surpresa segue-se a nostalgia. Parece que nos recordamos e quereríamos voltar para esse lugar onde as coisas são sempre assim, banhadas por uma luz antiqüíssima e ao mesmo tempo acabada de nascer. Um sopro nos golpeia a fronte. Adivinhamos que somos de outro mundo. É a ‘vida anterior’ que retorna...” Mas esse lugar encantado, onde se encontra? Nunca o vimos e, a despeito disso sabemos que é o nosso destino: queremos voltar. Você nunca sentiu isso, uma saudade indefinível de um lugar encantado em que você nunca esteve?

Na sua Ode Marítma, Fernando Pessoa escreve sobre a mesma experiência. De longe ele contempla o cais e seus navios. “E quando o navio larga do cais/ E se repara de repente que se abriu um espaço/ Entre o cais e o navio,/ Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente./ Ah, todo o cais é uma saudade de pedra.” “Ah, quem sabe, quem sabe,/ Se não parti outrora, antes de mim,/ Dum cais, se não deixei, navio ao sol/ Oblíquo de madrugada,/ Uma outra espécie de porto...” Partir outrora, antes dele mesmo?

Há músicas que nos levam para o tempo “antes de nós mesmos” e para lugares onde nunca estivemos. Talvez o que Ângelus Silésius disse para os olhos possa ser dito também para os ouvidos. “Temos dois ouvidos. Com um ouvimos as coisas do tempo, efêmeras, que desaparecem. Com o outro ouvimos as coisas da alma, eternas, que permanecem.”

A Valsinha do Chico faz isso comigo. O que a Valsinha canta nunca aconteceu. Está fora do tempo. Está fora do espaço. E, no entanto, está no espaço e no tempo da minha alma. A Valsinha é um “pedaço arrancado de mim”. Por isso rio e choro ao ouvi-la. Também a Primeira Balada de Chopin, aquela que o pianista triste e esquálido tocou para o oficial alemão no filme O Pianista. A Chacona, de Bach. A sonata Appassionata, de Beethoven, que Lenin dizia ser capaz de ouvir indefinidamente. Oblivion, de Piazzolla, que tanto comovia o Guido, meu amigo querido, que agora mora naquele “lugar onde as coisas são sempre banhadas por uma luz antiqüíssima e ao mesmo tempo acabada de nascer”.

A música tem virtudes médicas. Cura. Nesse tempo em que todo mundo sofre de stress aconselha-se música do estilo new age para acalmar. Comigo música new age não funciona. Tira-me o stress transformando-me em gelatina. Dissolvo-me em águas indefinidas. Quando estou aos pedaços deito-me no tapete da sala e o que quero ouvir é Bach. A música de Bach me estrutura, devolve-me o esqueleto, põe meus pedaços no lugar. O Bach dos corais, não o dos florais... Há música para os mais variados tipos de doença: Mozart. Beethoven. Schumann. Chopin. Brahms, Ravel. Os médicos deveriam receitar aos seus pacientes, junto com os remédios bioquímicos, a música...

Bom seria se a música clássica se ouvisse nos consultórios médicos, nas escolas, nas fábricas, nos escritórios, nas rádios. Há cidades que têm essa felicidade: rádios FM que tocam música clássica o dia inteiro. Infelizmente não é o caso de Campinas. Mas poderia ser... A música clássica desperta, nas pessoas, aquilo que elas têm de melhor e de mais bonito. Música clássica contribui para a cidadania.

Fico triste pensando naqueles que nunca conhecerão esse prazer. Simplesmente porque a possibilidade não lhes foi oferecida. Eu tive a sorte de ter a minha mãe.

Veja e ouça, na TV Senado, o programa Quem Tem Medo de Música Clássica, apresentando por Artur da Távola – um maravilhoso mestre que ama as crianças. Aos sábados, às 10 e 18 horas. Aos domingos, às 10, 18 e 24 horas.

“Música é vida interior. E quem tem vida interior jamais está sozinho.”

Campinas - Segunda-Feira, 23 de Junho de 2003 - http://www.cpopular.com.br - Ano V

sábado, março 29, 2008

Sentidos de uma deformação

O presente texto é um inspiração sentida a partir de O sentimento do mundo de Carlos Drummond de Andrade. Li, senti, escrevi!

Tenho apenas duas mãos
E as dores caladas do mundo.
Um corpo magérrimo
Crivado pela insolvência
Do mundo.
No meu interior, a alma
Transige na confluência
Labiríntica do amor que já não é.

Quando me erguer de minha prostração
O céu não mais estará azul.
Haverá um missal de cantos
Fúnebres seguindo em grande préstito.
Ao me erguer estarei morto,
O meu desejo e o meu sonho, também.

Os meus companheiros não me disseram
Que havia uma grande guerra,
Que era necessário trazer mantimentos,
Matéria, um alforje de precauções.
Em minha alma transita a dispersão,
Anterior às fronteiras.

Perdoeis as minhas prevaricações.
Quando a turba passar eu ficarei
A recordar os corpos, os sorrisos,
E as mãos grossas no trabalho inculto.
Tudo isso crescerá com o amanhecer.
O amanhecer será mais noite
Que todas as noites do sentimento do mundo.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

sábado, março 22, 2008

A mudança que escorre

Somos vítimas de oscilações.
De variações químicas.
Em nosso interior um vulcão de
Magmas substanciais.
À testa de cada dia surge um comportamento
E uma impressão diferente.
Ontem chorava, desesperava-me.
Hoje, a sensação fresca de uma liberdade
Preenchida por ideais sem raízes.
O pensamento de que o caminho
É amplo, distante;
Que minhas pernas não suportarão
A caminhada, mas ao mesmo tempo
Serão céleres, titânicas.
A dor passa.
A saudade passa.
O choro passa.
Nada é tão eterno que não se dilua.
Há um solvente invisível que desconstrói
Situações e imprime realidades novas.
Deixa está!
O mundo é feito por variações.
Aquele mago da percepção
Pré-socrática disse que o rio não
Permite dois banhos iguais.
As suas águas rolam com peso,
Silêncio, mutabilidade.
A natureza muda.
As estações mudam.
Primavera, verão, inverno, outono...
A sucessão silenciosa.
A química silenciosa do tempo muda
As eras, os séculos.
Os homens mudam os seus pensamentos.
A paixão passa. Vai embora
Repentinamente assim como veio.
A agonia é trocada pela esperança
E vice-versa.
Angustio-me pela inconstância da realidade.
Talvez em outro momento eu mude o meu pensamento.
Não há fixidez para idéias plásticas.
Apenas devir.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

segunda-feira, março 17, 2008

Ecos Interiores II

Uma tensão se apoderou de mim.
Andei de um lado para o outro.
Zonzo.
Olhei os passantes.
Cada um com o seu dilema.
Vozes caladas, faladas.
Mirei na direção do horizonte.
Céu e terra se encontravam.
O tumulto ali, os gestuais.
A massiva e instigante conspiração.
Olhei para o chão.
As catedrais dentro de mim
Repicavam ao som de sinos tristes.
A música era intestina.
Pedaços de conchavos.
A memória a se diluir.
Fixava-se num ponto fatídico.
Ali estava o significado de meus prantos,
De meu silêncio singular.
Os dias trouxeram com ele significados
Difíceis, ininteligíveis.
A minha energia a se gastar numa inércia
Sem previsibilidade.
O cansaço de Baudelaire, de Schopenhauer,
Verlaine, Rimbaud, Jim Morrison
E de todos os poetas malditos.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque