segunda-feira, abril 14, 2008

Mãos dadas

Tirar os pés do chão num instante.
Breve! Que seja!
A suavidade triste da melodia mostra-me o passado.
Eu, criança feliz a brincar.
Corria com uma bola capenga embaixo
Do braço.
Enfronhado pela lembrança.
Vozes brandas, brancas, quase angélicas
Anunciam o que foi, mas que está aqui comigo.
Uma batuta invisível é agitada e produz música.
As pernas tortas e finas a se movimentarem no campo
Da várzea.
Os pés duros, agrestes, imprime suas formas
No chão da memória.
A gritaria inclemente.
Habilidade era mero capricho.
Locomove-me.
Os olhos furtivos não vêem outra
Coisa senão o campo,
Distante, em minha memória.
Os meus pés pisam em grama.
A rua tornou-se um grande quintal.
De repente vejo-me de mãos dadas
Comigo mesmo.
As mãos do hoje seguram as mãos do ontem.
E juntas seguem pela estrada.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

domingo, abril 06, 2008

A alegria da música - Por Rubem Alves


Há muito tempo eu vinha tentando colocar este texto neste espaço. Trata-se de um texto delicioso do Rubem Alves sobre a maravilha transcendental da música erudita. Ao lado resolvir colocar como complemento visual sinfônico a imagem de um ipê amarelo, uma das árvores mais belas da flora brasileira. Nada melhor do que este espírito intertextual para falar do belo.

Eu gosto muito de música clássica. Comecei a ouvir música clássica antes de nascer, quando eu ainda estava na barriga da minha mãe. Ela era pianista e tocava... Sem nada ouvir eu ouvia. E assim a música clássica se misturou com minha carne e meu sangue. Agora, quando ouço as músicas que minha mãe tocava, eu retorno ao mundo inefável que existe antes das palavras, onde moram a perfeição e a beleza.

Em outros tempos, falava-se muito mal da alienação. A palavra “alienado” era usada como xingamento. Alienação era uma doença pessoal e política a ser denunciada e combatida. A palavra alienação vem do latim alienum que quer dizer “que pertence a um outro”. Daí a expressão alienar um imóvel. Pois a música produz alienação: ela me faz sair do meu mundo medíocre e entrar num outro, de beleza e formas perfeitas. Nesse outro mundo eu me liberto da pequenez e picuinhas do meu cotidiano e experimento, ainda que momentaneamente, uma felicidade divina. A música me faz retornar à harmonia do ventre materno. Esse ventre é, por vezes, do tamanho de um ovo, como na Reverie, de Schumann; por vezes é maior que o universo, como no concerto n. 3 de Rachmaninoff. Porque a música é parte de mim, pra me conhecer e me amar é preciso conhecer e amar as músicas que amo. Agora mesmo estou a ouvir uma fita cassete que me deu o Ademar Ferreira do Santos, amigo de Portugal. Viajávamos de carro a caminho de Coimbra. O Ademar pôs música a tocar. Ele sempre faz isso. Fauré, numa transcrição para piano. A beleza pôs fim à nossa conversa. Nada do que disséssemos era melhor que a música. A música produz silêncio. Toda palavra é profanação. Faz-se silêncio porque a beleza é uma epifania do divino. Ouvir música é oração. Assim, eu e o Ademar, descrentes de outros deuses, adoramos juntos no altar da beleza. Terminada a viagem, o Ademar retirou a fita e m’a deu. “É sua”, ele disse de forma definitiva. Protestei. Senti-me mal, como se fosse um ladrão. Mas não adiantou. Há gestos de amizade que não podem ser rejeitados. Assim, trouxe comigo um pedaço do Ademar que é também um pedaço de mim.

A música clássica dá alegria. Há músicas que dão prazer. Mas a alegria é muito mais que prazer. O prazer é coisa humana, deliciosa. Mas é criatura do primeiro olho, onde moram as coisas do tempo, efêmeras, que aparecem e logo desaparecem. A alegria, ao contrário, é criatura do segundo olho, das coisas eternas que permanecem. Superior ao prazer, a alegria tem o poder divino de transfigurar a tristeza. Haverá maior explosão de alegria do que a parte final da Nona Sinfonia? E, no entanto, a vida de Beethoven chegava ao fim, marcada pela tristeza suprema de não poder ouvir o que mais amava, a música. Estava totalmente surdo. Mas é precisamente dessa tristeza que nasce a beleza. No último movimento, Beethoven faz o coro cantar a Ode à Alegria, de Schiller. Sempre que a ouço imagino Beethoven de pé sobre um alto rochedo à beira-mar. O céu está negro. O mar ruge furioso. Respingos e espumas molham a sua roupa. Mas ele parece ignorar a fúria da natureza. Sorri, abre os braços e rege... o mar. A tempestade não cessa, continua. Mas a fúria se põe a cantar a alegria! Abre-se uma fresta nas nuvens negras através da qual se pode ver o céu azul...

A Nona Sinfonia me faz triste-alegre. Essa é a magia da beleza: ela é um triunfo sobre a tristeza. Feiticeira, a beleza é o poder mágico que transforma a tristeza-triste em tristeza-alegre... É só por isso que eu a quero ouvir vezes sem conta. Porque a vida é triste. E nisso está a honestidade da música clássica: ela não mente. Se soubéssemos disso, se sentíssemos a tristeza da vida, seríamos mais mansos, mais sábios, mais bonitos.

Meu outro amigo português, professor José Pacheco, pastor da Escola da Ponte... (Ele se recusa a ser chamado de diretor. Por isso o chamo de “pastor”, aquele que ama e cuida das ovelhas, as crianças. Não seria bonito se os professores se vissem como pastores de crianças?)... conversando comigo sobre a música de Ravel, me dizia que, por vezes, ele fica tão “possuído” que ouve um mesmo CD vezes repetidas, sem parar, não deseja ouvir outro. Comigo acontece o mesmo. A beleza produz uma “compulsão à repetição”. Kierkegaard dizia que um amante seria capaz de falar sobre sua amada dias a fio sem se cansar, repetindo as mesmas coisas. Falamos para transformar a ausência em presença. Ao escrever essas linhas, estou tornando presente aquela viagem com o Ademar, a caminho de Coimbra, ouvindo Fauré. E estou de novo com o José Pacheco, conversando sobre Ravel e bebendo vinho.

Há músicas que contêm memórias de momentos vividos. Trazem-nos de volta um passado. Lembramo-nos de lugares, objetos, rostos, gestos, sentimentos... Aquele hino Deus vos guarde pelo seu poder provocará sempre, Jether, a memória do barco seguindo o navio. Lembrar-se do passado é triste-alegre... Alegre porque houve beleza de que nos lembramos. Triste porque a beleza é apenas lembrança... Não mais existe. Mas há músicas que nos fazem retornar a um passado que nunca aconteceu. É uma saudade indefinível, sentimento puro, sem conteúdo. Não nos lembramos de nada. Apenas sentimos. Sentimos a presença de uma ausência... Fernando Pessoa se refere a uma saudade vazia? Saudade é sempre “saudade de”. Mas essa saudade é saudade pura, sem ser saudade de coisa alguma. Será possível ter saudades de algo que não foi vivido?. Octávio Paz descreve uma dessas experiências no seu maravilhoso livro O arco e a lira. Ele diz: “Todos os dias atravessamos a mesma rua ou o mesmo jardim; todos os dias nossos olhos batem no mesmo muro avermelhado, feito de tijolos e tempo urbano.” (Coisas do primeiro olho!) “De repente, num dia qualquer, a rua dá para um outro mundo, o jardim acaba de nascer, o muro fatigado se cobre de signos.” (O segundo olho!) “Nunca os tínhamos visto e agora ficamos espantados por eles serem assim: tanto e tão esmagadoramente reais. Sua própria realidade compacta nos faz duvidar: são assim as coisas ou são de outro modo? Não, isso que estamos vendo pela primeira vez, já havíamos visto antes. Em algum lugar, no qual nunca estivemos, já estavam o muro, a rua, o jardim. E à surpresa segue-se a nostalgia. Parece que nos recordamos e quereríamos voltar para esse lugar onde as coisas são sempre assim, banhadas por uma luz antiqüíssima e ao mesmo tempo acabada de nascer. Um sopro nos golpeia a fronte. Adivinhamos que somos de outro mundo. É a ‘vida anterior’ que retorna...” Mas esse lugar encantado, onde se encontra? Nunca o vimos e, a despeito disso sabemos que é o nosso destino: queremos voltar. Você nunca sentiu isso, uma saudade indefinível de um lugar encantado em que você nunca esteve?

Na sua Ode Marítma, Fernando Pessoa escreve sobre a mesma experiência. De longe ele contempla o cais e seus navios. “E quando o navio larga do cais/ E se repara de repente que se abriu um espaço/ Entre o cais e o navio,/ Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente./ Ah, todo o cais é uma saudade de pedra.” “Ah, quem sabe, quem sabe,/ Se não parti outrora, antes de mim,/ Dum cais, se não deixei, navio ao sol/ Oblíquo de madrugada,/ Uma outra espécie de porto...” Partir outrora, antes dele mesmo?

Há músicas que nos levam para o tempo “antes de nós mesmos” e para lugares onde nunca estivemos. Talvez o que Ângelus Silésius disse para os olhos possa ser dito também para os ouvidos. “Temos dois ouvidos. Com um ouvimos as coisas do tempo, efêmeras, que desaparecem. Com o outro ouvimos as coisas da alma, eternas, que permanecem.”

A Valsinha do Chico faz isso comigo. O que a Valsinha canta nunca aconteceu. Está fora do tempo. Está fora do espaço. E, no entanto, está no espaço e no tempo da minha alma. A Valsinha é um “pedaço arrancado de mim”. Por isso rio e choro ao ouvi-la. Também a Primeira Balada de Chopin, aquela que o pianista triste e esquálido tocou para o oficial alemão no filme O Pianista. A Chacona, de Bach. A sonata Appassionata, de Beethoven, que Lenin dizia ser capaz de ouvir indefinidamente. Oblivion, de Piazzolla, que tanto comovia o Guido, meu amigo querido, que agora mora naquele “lugar onde as coisas são sempre banhadas por uma luz antiqüíssima e ao mesmo tempo acabada de nascer”.

A música tem virtudes médicas. Cura. Nesse tempo em que todo mundo sofre de stress aconselha-se música do estilo new age para acalmar. Comigo música new age não funciona. Tira-me o stress transformando-me em gelatina. Dissolvo-me em águas indefinidas. Quando estou aos pedaços deito-me no tapete da sala e o que quero ouvir é Bach. A música de Bach me estrutura, devolve-me o esqueleto, põe meus pedaços no lugar. O Bach dos corais, não o dos florais... Há música para os mais variados tipos de doença: Mozart. Beethoven. Schumann. Chopin. Brahms, Ravel. Os médicos deveriam receitar aos seus pacientes, junto com os remédios bioquímicos, a música...

Bom seria se a música clássica se ouvisse nos consultórios médicos, nas escolas, nas fábricas, nos escritórios, nas rádios. Há cidades que têm essa felicidade: rádios FM que tocam música clássica o dia inteiro. Infelizmente não é o caso de Campinas. Mas poderia ser... A música clássica desperta, nas pessoas, aquilo que elas têm de melhor e de mais bonito. Música clássica contribui para a cidadania.

Fico triste pensando naqueles que nunca conhecerão esse prazer. Simplesmente porque a possibilidade não lhes foi oferecida. Eu tive a sorte de ter a minha mãe.

Veja e ouça, na TV Senado, o programa Quem Tem Medo de Música Clássica, apresentando por Artur da Távola – um maravilhoso mestre que ama as crianças. Aos sábados, às 10 e 18 horas. Aos domingos, às 10, 18 e 24 horas.

“Música é vida interior. E quem tem vida interior jamais está sozinho.”

Campinas - Segunda-Feira, 23 de Junho de 2003 - http://www.cpopular.com.br - Ano V

sábado, março 29, 2008

Sentidos de uma deformação

O presente texto é um inspiração sentida a partir de O sentimento do mundo de Carlos Drummond de Andrade. Li, senti, escrevi!

Tenho apenas duas mãos
E as dores caladas do mundo.
Um corpo magérrimo
Crivado pela insolvência
Do mundo.
No meu interior, a alma
Transige na confluência
Labiríntica do amor que já não é.

Quando me erguer de minha prostração
O céu não mais estará azul.
Haverá um missal de cantos
Fúnebres seguindo em grande préstito.
Ao me erguer estarei morto,
O meu desejo e o meu sonho, também.

Os meus companheiros não me disseram
Que havia uma grande guerra,
Que era necessário trazer mantimentos,
Matéria, um alforje de precauções.
Em minha alma transita a dispersão,
Anterior às fronteiras.

Perdoeis as minhas prevaricações.
Quando a turba passar eu ficarei
A recordar os corpos, os sorrisos,
E as mãos grossas no trabalho inculto.
Tudo isso crescerá com o amanhecer.
O amanhecer será mais noite
Que todas as noites do sentimento do mundo.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

sábado, março 22, 2008

A mudança que escorre

Somos vítimas de oscilações.
De variações químicas.
Em nosso interior um vulcão de
Magmas substanciais.
À testa de cada dia surge um comportamento
E uma impressão diferente.
Ontem chorava, desesperava-me.
Hoje, a sensação fresca de uma liberdade
Preenchida por ideais sem raízes.
O pensamento de que o caminho
É amplo, distante;
Que minhas pernas não suportarão
A caminhada, mas ao mesmo tempo
Serão céleres, titânicas.
A dor passa.
A saudade passa.
O choro passa.
Nada é tão eterno que não se dilua.
Há um solvente invisível que desconstrói
Situações e imprime realidades novas.
Deixa está!
O mundo é feito por variações.
Aquele mago da percepção
Pré-socrática disse que o rio não
Permite dois banhos iguais.
As suas águas rolam com peso,
Silêncio, mutabilidade.
A natureza muda.
As estações mudam.
Primavera, verão, inverno, outono...
A sucessão silenciosa.
A química silenciosa do tempo muda
As eras, os séculos.
Os homens mudam os seus pensamentos.
A paixão passa. Vai embora
Repentinamente assim como veio.
A agonia é trocada pela esperança
E vice-versa.
Angustio-me pela inconstância da realidade.
Talvez em outro momento eu mude o meu pensamento.
Não há fixidez para idéias plásticas.
Apenas devir.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

segunda-feira, março 17, 2008

Ecos Interiores II

Uma tensão se apoderou de mim.
Andei de um lado para o outro.
Zonzo.
Olhei os passantes.
Cada um com o seu dilema.
Vozes caladas, faladas.
Mirei na direção do horizonte.
Céu e terra se encontravam.
O tumulto ali, os gestuais.
A massiva e instigante conspiração.
Olhei para o chão.
As catedrais dentro de mim
Repicavam ao som de sinos tristes.
A música era intestina.
Pedaços de conchavos.
A memória a se diluir.
Fixava-se num ponto fatídico.
Ali estava o significado de meus prantos,
De meu silêncio singular.
Os dias trouxeram com ele significados
Difíceis, ininteligíveis.
A minha energia a se gastar numa inércia
Sem previsibilidade.
O cansaço de Baudelaire, de Schopenhauer,
Verlaine, Rimbaud, Jim Morrison
E de todos os poetas malditos.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

domingo, março 09, 2008

Ecos interiores I

Uma voz estranha segreda sentenças e impropérios.
Irritado pelas inconveniências do momento.
Estou estranho.
Tudo agora se tornou difuso.
Esperança e desespero se encontram nesse
Princípio de noite.
Preocupado.
Fatos densos se anunciam.
A minha finura moral não suportará a sua investida.
Cansei dos números.
Todos eles me agridem.
São grandes demais para mim.
Riem de mim.
São inamistosos e poderosos.
Nem mesmo a voz do meu bem-querer
Tem significância para mim esta noite.
Já não tenho certezas.
Meu saber é vulgar, mesquinho e pedante.
Não sei de nada e isso me aturde.
Não tenho convicções sobre nada.
Apenas a minha situação desgraçada.
Em minha mente se anunciam faces, fisionomias
Volúveis, que se desgarram como muita facilidade.
Pareço ter uma televisão que apresenta inúmeros programas.
Nenhum deles parece me agradar, por isso passam.
Um ódio da humanidade.
Desse instinto cruel instilado pelo capitalismo em se
Querer ser grande.
Morremos e nunca chegamos a um conhecimento maior
Do que aquele anunciado pelos outros.
Dizem: “Vocês devem ser assim!”
Pronto. Fazemos disso a nossa meta.
Pedaços de lembranças.
Fragmentos distantes.
A ameaça que me consome.
Desejo esquecer de tudo isso.
Mas uma força negativa me abraça.
A sensação de desvalor que parece ser maior
Que o desejo de ser grande.
As palavras nem mesmo apresentam coerência –
O resultado de uma confusão interior que parece
Me dominar.
Uma desconfiança de que não triunfarei.
Isso sim é absoluto.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

quinta-feira, março 06, 2008

Coisas XV

As folhas velhas sucumbem ao tempo.
Os rios frágeis não resistem ao calor.
Uma dor estranha a estrangular o mundo.
Os passos tímidos a vacilarem.
Na estrada, as marcas se prolongam.
Os galhos tortos da história a se vestirem
De rugas gravosas.
O mar caudaloso que se arremessa contra
Os penedos.
Lá, a insignificante existência se prolonga
No cimo das colinas.
O silêncio, o sol, o frio a se substituírem,
Se revezarem no instante abrupto das estações.
Todas se dão silenciosamente.
Aparecem com a timidez de uma donzela.
Soltam-se, fazem-se presente com paciência.
São coisas magníficas.
O instante sucumbe...
A vida sucumbe.
Os momentos se alternam em sucedâneos.
A vida toma formas novas.
O que é parece não ser,
Mas é e não é.
São processos.
Coisas estranhas que movimentam.
Marcham velozmente.
Deixam as eras para trás.
Seguem para frente
Num movimento de mistério incógnito.
No fundo as coisas são o que são.
São, foram, serão.
Coisas.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Ir e Vir

Carrego em meu espaço interior
Os silêncios dispersos das galáxias universais.
Em mim Há o silêncio das catedrais
Distantes, perdidas sob o signo do tempo.
Frestas luminosas por onde escapa
Uma centelha de luminosidade.
Espanto e contemplação.
Medo e alegria a se jungirem.
Nas cavidades e reentrâncias da alma.
Nos espaços mais escondidos
E inacessíveis.
No horizonte que não pode ser atingido,
Senão pela imaginação.
Ausento-me de mim e volto.
Amo e odeio as minhas intenções.
Monstro rutilante, paradoxal.
Derramo luz como o sol,
Mas em mim há buracos negros
E bombas invisíveis que estouram
Sob o potencial de mil megatóns.
Objeto complexo.
De significância insignificante.
Ente cultural.
Eduquei-me com os homens
E aprendi a amar com as estrelas.
Os meus segredos se mostram na minha face.
Sob as pregas do rosto estão escritos livros.
Romances, crônicas e poesias.
Hoje estou para a quietude de mil eras.
Uma música é cantada no istmo
Mais afastado da alma.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Comentário à peça o Judas em sábado de Aleluia de Martins Pena

A peça teatral O Judas em Sábado de Aleluia foi escrita por Martins Pena. Este nasceu em 1.815 no Rio de Janeiro e morreu em Lisboa no ano de 1.848. Martins Pena pode ser considerado como um dos maiores escritores do gênero teatral brasileiro. Com um realismo ingênuo, o autor de O Judas em Sábado de Aleluia, pode ser considerado como o criador no Brasil da comédia de costume, com forte tom popular. Ele é o primeiro autor popular da história do país, pois os seus trabalhos buscam retratar o homem real, com suas ações reais. Dotado de singular veia cômica, soube aproveitar o momento em que se intensificava a criação do teatro romântico brasileiro, que possibilitava tratar das situações e personagens do cotidiano, e mostrou a realidade de um país atrasado e, predominantemente, rural, fazendo a platéia rir de si mesma. Seus textos envolvem, sobretudo, flagrantes da vida brasileira, do campo à cidade. Assim, apresenta com temas principais, os problemas familiares, casamentos, heranças, dotes, dívidas, corrupção, injustiças, festas populares etc. Sua galeria de tipos compreende: funcionários públicos, padres, meirinhos, juízes, malandros, matutos, moças namoradeiras ou sonsas, guardas nacionais, mexeriqueiros, viúvas etc.
A peça O Judas em Sábado de Aleluia trata basicamente de um tema comum esboçado pelos autores românticos: das moças que buscam um noivo para si , bem como um reforço retratista da pequena burguesia: funcionários públicos, militares, etc. A história se desenrola na casa de Pimenta, cabo da guarda-nacional e pai de Maricota e Chiquinha. Estas duas moças, principalmente, Maricota sonham com o casamento. Sonho e desejo comum das jovens solteiras do século XIX. Para isso, resolveu namorar a tantos quanto pudesse. Isso permitiria a ela maiores oportunidades. Conforme ela mesma disse à irmã: "Ora dize-me, quem compra muitos bilhetes de loteria não tem mais probabilidade de tirar a sorte grande do que aquele que só compra um? Não pode do mesmo modo, nessa loteria do casamento, quem tem muitas amantes ter mais probabilidade de tirar um para marido?" Já a sua irmã Chiquinha possuía uma atitude mais sôfrega. Não era dada a requestos tão intensos.
A história avoluma-se ou alcança um ponto inflexivo quando aparece a figura de Faustino à porta da casa para ter com Maricota. Faustino lamentoso, questiona o amor de Maricota por ele e afirma a infelicidade que habita a sua alma inquieta. Maricota diz que o ama. De repente chega o capitão da Guarda Nacional, que é um dos pretensos namorados de Maricota. Faustino assume o disfarce de Judas, que alguns meninos preparam para o Sábado de Aleluia. Portanto, este escuta a fala de Maricota com o capitão. Em seguida, chega ainda o pai de Maricota. Esta corre. Pimenta, o pai das duas donzelas, fica a tratar de negócios com o capitão. Conversam basicamente sobre a situação de indisciplina que anda a Guarda Nacional. Faustino disfarçado de Judas de aleluia escuta a conversa. O capitão retira-se.
Volta à sala a figura de Chiquinha para continuar a coser o seu vestido para a festa de sábado de aleluia. Em dado momento, esta suspira alto e confessa a sua paixão por Faustino. O rapaz deitado, disfarçado no chão, aproxima-se dela e é solidário ao amor da moça. Chiquinha sente-se envergonhada, mas se mostra crédula com a recepção do amor de Faustino. O pai retorna à sala, Chiquinha corre e Faustino se esconde. Pimenta dessa vez traz consigo a figura de Antônio. Os dois especulam sobre um negócio escuso que estão praticando no porto. E temem. Faustino absorve todas estas informações. Os dois homens temem ser descobertos pela polícia. Isso propiciaria um destino infausto. Faustino, deitado, ensaia uma voz que parece ser da polícia. Os dois encolhem-se de medo. Quando à porta bate o capitão. Pimenta e Antônio se atarantam. Finalmente, os três ficam juntos e entendem que algo misterioso se passava no interior daquela casa.
Os meninos que preparavam o Judas entram na sala para malharem-no. Faustino corre. Os presentes à sala se assustam com o espantalho que toma vida. Todos correm. Uns se escondem embaixo da mesa; outro sobe num móvel; outros ainda rolam no chão. Chiquinha não se altera por saber a identidade do espantalho Judas. De repente Faustino volta ao interior da casa ameaçado por algumas crianças que encontra na rua. Temendo a própria vida volta para ter com os que jaziam espantados. Martins Pena deixa transparecer a sua verve cômica nessa cena.
Começa a partir daí a vingança de Faustino. Este se põe no meio daqueles que dantes estavam espantados. O capitão, Antônio, Pimenta e Maricota ameaçam Faustino. Tal ameaça expressa claramente uma ignorância por parte dos personagens, que não têm conhecimento dos segredos adquiridos por Faustino. Este se apropria da fala e se vinga de cada um dos personagens. As suas intenções são manifestadas: Maricota se casa com Antônio (um velho). Suas intenções não graçam, não tomam vida. Ao cabo, Faustino beija o rosto de Pimenta, realizando o ato de Judas, o discípulo de Jesus, que o traiu com um beijo na face. Aqui o personagem ironiza e pede a mão de Chiquinha em casamento.
Na peça fica patente a crítica de Martins Pena à sociedade hipócrita que semeia visões distorcidas daquilo que é em sua interioridade podre. Os costumes visuais ocultam as sujidades reais. Percebe-se a crítica à moral burguesa com os seus desejos e certezas. Fica clara ainda a figura da esperteza de Faustino.
Por Carlos Antônio M. Albuquerque

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Cinco considerações de Nietzsche sobre a modernidade

A crítica do filosofo residia no fato de que o homem moderno é incapaz de construir um saber e uma cultura como resultado de seu próprio crescimento. Há no mundo ocidental a triste realidade da imitação inconsciente. Copia-se tudo. Trata-se de um plágio limitador. Não há por assim dizer originalidade com relação a esse tocante. A supersaturação de contingentes culturais não enriquece, todavia faz surgir o contrário.
1. Acumulação de saberes estranhos – o homem moderno é um colecionador, um acumulador de conhecimentos sem que estes conhecimentos se tornem um fator de fecundação no próprio homem;
2. Imparcialidade, objetividade ou neutralidade científica – estuda-se fatos que não possuem uma relação direta com o indivíduo. O resultado disto é o bloqueio dos impulsos imediatos. Tais bloqueios inibem a capacidade do indivíduo de construir a sua própria experiência histórica –.
3. Desenraizamento do futuro ou interferência dos instintos vitais de um povo – constrói-se uma rede tênue de convicções sobre o que pode ter sido a experiência de um povo – sem que isso de fato possua concretude histórica. A vida é sacrifica, pois deve buscar se conciliar com um velho saber histórico, que pertenceu a um outro povo.
4. Envelhecimento precoce das novas gerações – as forças jovens são levadas a compreenderem que são as últimas dentro de um processo histórico. Deixam para trás o potencial de levarem a frente a possibilidade de construir o futuro por intermédio de um processo novo.
5. Supersaturação, auto-ironia e cinismo – desejo de romper com a supersaturação histórica, sem contudo permitir a pulverização dos saberes culturais alienígenas. Não é possível que o saber seja destruído de fora. O saber deve lançar o seu próprio aguilhão sobre si mesmo. A História deve resolver o problema da própria história.


Por Carlos Antônio M. Albuquerque

domingo, fevereiro 17, 2008

Vontade de poder

"Não escapará a um olho e a uma sensibilidade mais fina o que talvez constitui o encanto destes escritos, – que aqui um sofredor e um carente fala como se ele não fosse um sofredor e um carente. Aqui é para ser mantido o equilíbrio, a serenidade, até mesmo a gratidão ante a vida, aqui domina uma vontade austera, orgulhosa, constantemente desperta, constantemente sensível, que se impôs a tarefa de defender a vida contra a dor e de quebrar todas as conclusões que costumam crescer da dor, desilusão, tédio, isolamento e outros solos pantanosos feito esponjas venenosas. Talvez isto sirva de sinal aos nossos pessimistas para que se testem a si mesmos? – pois foi naquela época que eu me convenci da proposição: "um sofredor ainda não tem direito ao pessimismo!””

Friedrich Nietzsche

O desejo da superação conduz à vida.
Não deixar se intimidar ante o desafio.
A grandeza é construída por mãos calosas.
Os passos austeros devem se insinuar na estrada.
O não conformismo ante a expectativa medíocre.
Não se queixar, não murmurar, não esmurrar o vento.
Não fechar os olhos mesmo em face do cansaço.
Extirpar os sortilégios;
Os consolos pífios.
Os sabores anômalos de uma consciência agredida.
Não permitir que as meias verdades sejam bússolas
Orientadoras, pois elas fragilizam a sensibilidade.
Caminho em meio aos homens de uma vontade só.
“Poder-se-ia acrescentar a esta lista homens que são
Só braços, homens que são só cérebros, homens
Que são só músculos”, homens que são só homens.
Homens aleijados, limitados pela visão míope que
Foram acostumados a alimentar.
A vida não deve ser negada em momento algum.
Uma fraqueza não é uma desculpa contra a vida.
Criaturas que se acostumaram a andar apenas de
Um lado – homens caranguejos.
Que exageram com assombros deletérios.
Famigeradamente alimentam rancores e ressentimentos
Contra a grandeza.
O ressentimento é uma cola que atrai apenas a incapacidade
Do auto-encontro.
Lance-se fora toda o heroícismo auto-proclamado.
Fruto de um desejo inseguro, infantil.
É preciso manter o equilíbrio e a decência;
A gratidão por tudo o que cheira à vida.
Permitir que uma onda de ousadia rebente austeramente
Nas areias do nosso mundo.
Que dilapide, dilacere os rochedos.
Que dinamite as impurezas, os entes poluidoras de
Nossa virtude.
Sem que isso seja fruto de uma moral de rebanho.
É preciso ter um sanidade orgulhosa,
“Constantemente sensível, constantemente desperta”.
E acordar a cada manhã tendo a consciência
Que o caminho que trilhamos se estabelece à
Proporção dos passos que damos.
Pois mesmo o padecente deve está grávido de esperança.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque


domingo, fevereiro 10, 2008

Coisas XIV

A foto desbotada.
O álbum descolorido.
A memória fugidia que se dilui
Na curva distante da memória.
Os dias passam.
O silêncio do seu caminhar.
Um dia, dois dias...
Um ano, dois anos... cinco... anos...
Nem damos por essa passagem que
Vitima nossa saúde.
Põe rugas na face de nossa História.
A vida, o que é a vida?
Essa música já me fez chorar um dia.
Ela ressoa dentro de mim.
Os seus acordes suaves
Já não arranca lágrimas dos meus olhos.
A mudança que se perpetra a cada dia.
O absoluto relativo dos dias.
A pequenez frágil de nossos valores.
Desisto de pensar.
Desisto de imaginar coisas grandiosas.
Amanhã talvez essas nem mais sejam.
As sucessões do tempo trará novos humores.
Seremos visitados por uma situação nova.
As horas escorrerão, voarão.
Cansado do mistério dessa caminhada.
Sento-me ante a novidade que me abraça.
Novos dias surgirão com novidades enormes.
Penso nessas sucessões de coisas.
E sigo enervado e curvado.
A tinta invisível do tempo escreve
Em mim as suas linhas.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Sobre o trabalho e o trabalhador

Um desgosto melancólico se apoderou de meu interior. O dia inoculou em mim o veneno do desengano. Ouvi sentenças agravosas. O capitalista é um ente sem escrúpulos. Seja ele cristão, mulçumano ou budista, quando o que está em questão é o lucro, o potencial da mais-valia transforma-lhe o semblante. O valor de um proletário está na sua força de trabalho. A única coisa que possui é esta capacidade para a ação. Seja ela braçal ou intelectual. O capitalista não se preocupa com a dignidade, com a sua saúde ou com a vida do trabalhador, mas o quanto o infeliz lhe pode produzir de riquezas.
O trabalhador não tem importância. Ele é uma mercadoria substituível. O mercado potencializa a especulação, daí a incerteza do trabalhador pelo dia de amanhã. Amanhã será outro dia que trará outros eventos, e com ele, novos humores. Pelas sucessivas crises que o capitalismo atravessa, o mercado pode se resfriar e isso pode transformar conseqüentemente a situação do assalariado. Assim existe um sentido paradoxal. O trabalho exercido pelo trabalhador é importante. Por sua vez, o trabalhador, não.
Para o capitalista “o trabalho morto, isto é, o trabalho já realizado e cristalizado no produto, nas máquinas etc., [é mais importante] do que o trabalho vivo, a pessoa do trabalhador”. Este absoluto é trágico, pois transforma os homens em produtos, objetos, coisas.
Vinha no trem, hora do rush. O réptil de lata se arrastava em cima de trilhos, apinhado desses indigentes, alienados. O semblante cansado, as fisionomias rotas. Entabulados numa furna. Eram animais confinados num espaço limitado. Jazigo de povoamento disputado palmo a palmo. Apinhavam-se à semelhança de bichos num curral. Trata-se de um rebanho marcado, crivado, tatuado pelos sinais do tempo. Criaturas emergentes a alimentar o americam way of life.
Enxerguei no rosto de cada um deles um orgulho individualista. Moços de gravatas. Trabalham nos agentes financeiros (bancos) deste país ou num escritório. Recebem um emolumento ordinário. Os bancos lucram anualmente cifras bilionárias. Pagam um salário magro ao infeliz que se sente um superstar. Moças vestidas com esmero. Ocupam cargos que há 50 anos o mundo machista ocidental não permitia. E eu como eles, alienado. O eco da infâmia a reverberar na minha interioridade. Ouvira e sentira indignidades. A sensação de estupidez na face. Talvez em meio ao surto de consciência eu me assemelhe ao Operário em Construção de Vinicius de Morais. Ao homem que um dia descobriu quem era. A visão que teve de si mesmo foi a de uma engrenagem que alimenta o sistema. Uma peça, um joguete, mero objeto inqualificado, mas que com a sua força alimentava o mundo.
Refleti que a melhor forma de desmobilizar os homens, de frear os ajuntamentos ou inibir qualquer iniciativa coletiva é promover o individualismo em detrimento da ação solidária. Deve ser por isso que a luta por movimentos sociais está tão fragilizada. Talvez seja por isso que os homens já não gritem. Não saiam às ruas lutando por melhorias. Deve ser por isso que as greves viraram seções esquecidas em livros didáticos. O indivíduo (aqui chamo “indíviduo” e não proletário apenas para reforçar a tese do individualismo) por trás da repartição não tirará a sua gravata de seda comprada com cartão de crédito numa loja de repartição para sair à rua, empunhando uma bandeira por uma causa. Afinal, o sistema diz que os que assim procedem são desocupados. O senso comum vulgariza as causas políticas e apregoa: “política é lixo. É sujeira”. Mas recordo aqui de Bertolt Brecht que no auge de sua serenidade proferiu: “Sabe mal o infeliz( o analfabeto político) que o preço do pão, do óleo, do café advém justamente de causas políticas”. Se o sujeito político não está interessado em política, o político está interessado no ser alheio à política. Porque o político sabe que a indiferença do cidadão para com a política alimenta a possibilidade de ação desenfreada, sem regras.
Althusser tinha razão quando afirmou de forma contundente que os aparelhos ideológicos se disseminam a fim de amarrar os indivíduos a uma teia forte onde o modo de produção se reproduz de forma eficaz. A ideologia se materializa por meio de múltiplos canais, que reforçam a tese do grupo dominante. O sistema se espraia por todos os lados. A mídia imprime os conceitos, o direito instila os conceitos, a igreja apregoa os conceitos, o Estado coordena a assessora os conceitos por está a serviço de uma minoria. A tese do marxista francês serve para avaliar com total e plena visibilidade as estruturas de dominação. Para Althusser ‘a ideologia é a relação imaginária que os homens mantém com as suas condições reais de existência, conservando os indivíduos prisioneiros de uma ilusão vital. Contribui também decisivamente para a reprodução da sua força de trabalho e das relações de produção que lhes são próprias’.
O trabalhador nunca foi tão crivado de exigências. O seu depauperamento se configura dia a dia. A sua situação se agrava. Penso que possa retroceder até aos dias da Primeira Revolução Industrial, quando se trabalhava de 14 a 18 horas por dia sem direitos trabalhistas. Um estado de embrutecimento e selvageria se apodera das mentalidades. Um desejo no meu peito de gritar para o mundo inteiro. Marx verbalizou no Manifesto do Partido Comunista de 1848: “Trabalhadores do mundo, uni-vos”. E eu: “Homens de todo mundo, acordai do sono letárgico que vos envolve. Temei por vossas almas. A barbárie se aproxima de vós com um desejo voraz”.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque