quinta-feira, janeiro 24, 2019

Matrix e o mundo real

"O que é "real"? Como você define o "real"? Se está falando do que consegue sentir, do que pode cheirar, provar, ver, então "real" são simplesmente sinais elétricos interpretados pelo cérebro".
 Morpheus, personagem do filme Matrix

O que é a realidade? Tudo o que vemos é real? Como sei que existo e que aquilo que vejo e penso encontra ressonâncias com a materialidade? A nossa percepção do mundo não é fruto de um sonho? Essas perguntas perturbam e inquietam o ser humano há milênios. Os gregos foram os primeiros a tentarem responder essas perguntas.  

Em 1999, as irmãs Wachowski deram ao mundo uma obra-prima, o filme Matrix. Eles lançariam ainda outros dois, constituindo uma trilogia. A obra se fixa no rol daquelas distopias imortais como o são “2001: uma odisseia no espaço” (1969) e “Blade Runner – o caçador de androides” (1983). Matrix é uma distopia repleta de referências à filosofia, à mitologia, à teologia e a toda uma parafernália derivada da cibercultura. Particularmente, já devo ter assistido ao filme umas oito vezes. Cada vez que vejo a obra, atento para um detalhe ignorado. 

“O que é Matrix?” Essa pergunta encontra eco no questionamento fundamental: “o que é realidade?” Entendemos que a realidade abarca tudo aquilo que vemos, experimentamos, sentimos. Somos mediados pelos sentidos, que criam em nós, uma estrutura sólida da realidade. É a partir dessa referência que sedimentamos a nossa relação com o mundo que nos cerca. Mas, e se descobríssemos que aquilo que vemos, sentimos e experimentamos não é real?  

É justamente o personagem Thomas Anderson que começa a fazer esse questionamento. Anderson é um hacker. Trabalha numa empresa que desenvolve softwares. À noite, Anderson, que se assume como Neo no mundo cibernético, acessa os códigos da Matrix. E, assim, começa a desconfiar do mundo em que vive. Não consegue dormir. É perturbado por inquietações variadas. Neo, por fim, entra em contato com a personagem Morpheus, uma lenda do mundo virtual. Na mitologia grega, Morfeu é o deus dos sonhos. A entidade, cujo nome em grego “morpheu” significa a forma”, que possui a capacidade de se transformar em qualquer coisa e aparecer nos sonhos das pessoas. Morfeu é entidade sorrateira. Possui asas que não emitem som enquanto ruflam e deslizam suavemente. 

Em Matrix, Anderson  é despertado por Morpheus. É Morpheus quem o tira do mundo do sono, da ilusão, da virtualidade. Anderson vivia em mundo de fantasia, antes de se tornar Neo (o novo), “o escolhido”. Vivia dentro da Matrix. Seguindo esse entendimento, Matrix é uma realidade ilusória, uma realidade programada pelas máquinas. 

Segundo Morpheus, os homens iniciaram uma guerra contra as máquinas e perderam. Foram, por isso, evacuados do mundo. Passaram a viver em Zion (Sião), uma espécie de referência à Terra Santa, ao monte Sinai, onde supostamente, segundo o Velho Testamento, Javé apareceu para Moisés. Desde a guerra, o céu tornou-se escuro. Nuvens grossas e pesadas impedem que a luz do sol incida sobre a superfície. Sem luz solar, as máquinas não conseguem extrair energia necessária para alimentarem os sistemas existentes. Elas precisam de uma fonte alternativa de energia térmica. Passaram, pois, a cultivar seres humanos em série para que estes produzissem, por meio do calor corporal, bioeletricidade. Milhões de corpos são mantidos em sono perpétuo, sem que tenham exata consciência de sua real condição. 

Em uma das cenas do filme, Morpheus mostra para Neo duas pílulas - uma azul e outra vermelha. A azul permitiria a Neo continuar vivendo na escuridão, na ilusão; conduzia a sua vida normalmente na Matrix. Casaria. Teria filhos caso desejasse. Tocaria a sua vida. Desenvolveria suas atividades, sem qualquer preocupação. Já a pílula vermelho daria a ele a percepção do mundo real. Ele seria tirado do mundo das aparências. Despertaria para o mundo que o cerca. Perceberia a grande ilusão que o ladeava. Neo escolheu a pílula vermelha.

A grande questão é que há referências claras à “Alegoria da Caverna”, de Platão.  No livro 7, de A República, Platão narra a história de alguns prisioneiros que foram amarrados desde o nascimento no fundo de uma caverna. A condição dos prisioneiros é de tão grande passividade, que tudo que chega a eles, vem por intermédio de sombras e sonoridades confusas. Atrás deles, fica a saída da caverna em um plano inclinado. Há ainda uma fogueira acesa que projeta as sombras. Do lado de fora, as pessoas passam. A vida acontece em toda a sua plenitude. O sol brilha. As pessoas transitam desimpedidas. Dentro da caverna, a realidade é deformada. Chegam sombras tortas. O fogo bruxuleia por causa do vento. E, ao passo que isso ocorre, a projeção ganha contornos estranhos. A luz do sol não chega. Se essas pessoas estão ali desde que adquiriram consciência, é natural que elas entendam que toda a realidade que existe se limite ao que elas veem e escutam. 

Provocativamente, Platão diz que, após muito esforço, um dos prisioneiros consegue se libertar. Seu primeiro ato é se acostumar com a nova posição. Seus músculos e articulações estão atrofiados. Mal consegue se equilibrar. Caminha trôpego até o plano inclinado da caverna. Olha para trás, visualiza a fogueira, os companheiros manietados, as sombras fantasmagóricas que dançam nas paredes nuas da caverna. Faz um esforço. Galga a rampa. Um facho impetuoso de luz inunda-lhe os olhos. Quase fica cego. A luminosidade parece possuir espetos. Verruma-lhe os olhos. Em uma das cenas do filme, após sair da Matrix, Neo diz para Morpheus: “Os meus olhos doem”, ao que Morpheus retruca: “É por que você nunca os usou”.

Após enxergar o mundo e sua diversidade; perceber os parques; a força e a grandeza magnânima do mar; escutar os sons múltiplos da natureza, o homem decide voltar para contar tudo aos seus antigos companheiros. É sua obrigação, entende. Fora da caverna está o mundo real com sua diversidade e complexidade. Precisa voltar e explanar as sempiternas novidades. 

Ele assim o faz. Narra cada pormenor. Descreve o mundo e suas cores. As vozes. A dança frenética da realidade, banhada pela luminosidade do sol. Mas, grande foi o seu susto. Os antigos companheiros se recusam a aceitar tão aberrante e destoante notícia. Aquilo era um embuste. Uma mentira. Não existia nada daquilo. Tratava-se de uma invenção. A realidade, conforme eles entendiam de forma absoluta, resumia-se cabalmente àquilo que eles viam refletido no fundo da caverna. Em um dos diálogos do filme, Morpheus leva Neo a um grande centro metropolitano e diz: 

“A Matrix é um sistema, Neo. Esse sistema é nosso inimigo. Mas, quando estamos dentro dele, o que vemos? Homens de negócio, professores, advogados, marceneiros. As mesmas pessoas que queremos salvar. Mas até conseguimos, essas pessoas fazem parte desse sistema e isso faz delas nossas inimigas. Você precisa entender que a maior parte dessas pessoas não estão prontas para acordar. E muitos estão tão inertes, tão dependentes do sistema, que vão lutar para protegê-lo”. 
Os códigos que estruturam a realidade e fazem Matrix

Nota-se com isso, a estreita intertextualidade do filme com a alegoria escrita por Platão. Vale ressaltar que a alegoria pretende, por meio de simbolismos, retratar uma metáfora que acaba ganhando materialidade. Ou seja, cada elemento da alegoria estabelece conexão com o mundo material. Matrix aponta para esse intricado debate: até que ponto sabemos que aquilo que vemos, percebemos e ouvimos é verdadeiro? Outra questão é a defesa de determinadas premissas. As convicções surgem da experiência. Acostumamo-nos com a realidade que nos é apresentada. Entendemos que toda ela é inquestionável. O menor questionamento, a mais insignificante relativização, já é vista como motivo para provocação. E se nós, à semelhança dos prisioneiros, estivermos acorrentados, contaminados pela sonoridade falha; e se apreendermos um tipo de mundo, sem que este seja necessariamente a realidade que achamos que é?

O ser humano precisa de estabilidade. É, por isso, que se faz a defesa intransigente de certas convicções. Para aquele que possui, nada é tão verdadeiro, nada faz tanto sentido. Mas, e se essas convicções forem apenas sombras? O papel do filósofo ou daquele que foge da tirania do olhar único é sempre transgressor. O papel daquele reflete, que pensa, que desconfia, que procura sair da caverna dos preconceitos e da aparência é sempre de transgressão. Lênin costumava dizer que “a verdade é revolucionária”. 

Existem outros elementos no filme suficientes para produzir teses. O fato é que fico impressionado todas às vezes que assisto ao filme. Por exemplo, no campo da religião há referências a dogmas cristãos. Neo é “o messias”, o salvador, aquele que traria redenção à raça humana condenada. Ele é o libertador. Arrancaria os homens de um mundo em que eles nada são a fim de se tornarem aquilo que devem ser. Paulo, o apóstolo, diz na sua segunda carta aos coríntios diz que “se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas velhas passaram e tudo se fez novo”. Percebe-se aqui o quanto o filme procura estabelecer a mudança perpetrada pela relação com o messias. 

Outra referência curiosa é o dogma da Trindade. A personagem “Trinity” possui relação. A primeira vez que ela se encontra com Neo, ele diz: “Achei que você fosse um homem”. Ela responde: “Todos acham isso”. Quando da morte de Neo, ela o ressuscita. Pai, Filho e Espírito Santo são um. Se o filho ressuscita, o Pai e o Espírito ressuscitam, ou seja, a própria trindade ressuscita. 

Em suma: o filme é uma obra bastante incomum. Os irmãos Wachowski conseguiram trabalhar conceitos extremamente complexos e inovaram bastante no campo visual. O filme é um grande acontecimento. É um prato feito para aqueles que admiram filmes polifônicos, ou seja, que conseguem perturbar por aquilo que insinuam, seja de maneira direta ou indireta.

terça-feira, janeiro 22, 2019

Bolsonaro e as ideias pequenas

"Ele me dá medo".
"O Brasil é um grande país. Merece alguém melhor." 

Robert Shiller, professor na Universidade de Yale e Prêmio Nobel de Economia, falando sobre Bolsonaro

O Brasil é um país imenso. Grandioso por natureza. Escolhido por Deus. Com vocação mítica para o futuro, com fortes propensões para o sebastianismo. Ele é assim evocado nos arroubos mais pueris em momentos de Copa do Mundo; cantado na letra do hino, que poucos entendem dada a complexidade das amarras sintáticas e as palavras eruditas que não fazem parte do repertório do povo. É também o país das incongruências. Dos sortilégios. Há uma grande energia potencializada no povo. Todavia, essa força não é administrada para os grandes projetos, para a construção de uma identidade civilizatória.

Ouvindo as repercussões do discurso de Jair Bolsonaro no Fórum Econômico de Davos, na Suiça, fiquei pensando algumas coisas. Pela primeira vez, um líder de um país latino-americano teria a honra de discursar na abertura dos trabalhos.  Era uma chance de ouro para voltar maior de lá, de exorcizar de vez a crise que derrete o seu inconsistente governo. O discurso seria importante para indicar a tônica das negociações. Em outras palavras, criaria um clima, um ambiente para cumplicidades e entrosamentos. Em Davos, o líderes do capitalismo financeiro global estariam presentes - com a exceção de Trump, que tem criado um clima diverso dentro do bloco do grande capital. Os economistas laureados; os investidores opulentos; os banqueiros habilidosos em fazerem dinheiro; os economistas com o faro apurado para detectar cenários, todos eles estariam com os olhos atentos para o capitão. 

Criou-se grande expectativa em torno desse discurso. Todavia, a grande questão é o responsável pelo discurso. Alguém que durante a campanha eleitoral fugiu dos debates. Que cancela entrevistas; que foge de jornalistas; que busca driblar a imprensa; que seleciona as perguntas para que estas sejam cômodas e estejam em seu nível. Em outras palavras, alguém que possui uma formação mediana e uma verbalização monocórdia. Se ele tivesse oportunidade, certamente teria declinado do convite. Teria arranjado um atestado médico. Não o fez, pois teria uma repercussão negativa. Enganou durante a campanha, não poderia enganar agora o mundo. Ele sabia que a tarefa era maior do que ele. O posto que ocupa possui um altura em metros, enquanto ele possui a estatura medida em milímetros. 

Segundo o jornal espanhol El Pais, seu discurso (de fala mesmo) não durou mais do que oito minutos. Inicialmente a ideia era que falasse de 30 a 45 minutos. Os anúncios para apresentação da autoridade, conforme a praxe do evento, duraram quinze minutos. O presidente, por sua vez, fez um discurso pífio de minutos contados. 

Outro aspecto que chama a atenção é o conteúdo do discurso. É importante atentar também para o que não foi dito. Em todo discurso, há elementos explícitos, mas há também elementos implícitos, que podem ser depreendidos por meio das pistas, os pedaços de fatos, de acontecimentos  deixados na enunciação. O exercício de encontrar os elementos implícitos é uma habilidade que se adquire praticando ilações. 

Durante a campanha - e mesmo em Davos - Bolsonaro e sua trupe antiglobalista repetiu de maneira sobranceira, numa espécie de nacionalismo piegas e alienado, que "o Brasil está acima de tudo e deus acima de todos". O que se viu no discurso de Bozo foi justamente a subserviência, o entreguismo das "repúblicas de bananas". Bolsonaro pintou um quadro de que o Brasil é um país colapsado, devastado. Há violência por todos os lados. É como se o simples fato de andar na rua fosse um perigo; que vivemos em uma selva. O presidente afirmou que o país está sendo arrumado para que as famílias ricas do planeta possam visitá-lo.

Não há novidades no discurso do Bozo. Há muitos truísmos; mais do mesmo; há pequenez de alguém que ganhou a eleição com fakes news e acha que ainda está em campanha. Há uma fala grávida de puerilidade, como se ele fosse um colegial despreparado e estivesse apresentando um trabalho para a classe. A fala é pausada. Há intervalos, demonstrando insegurança. Ataques infantis à esquerda. Uma teimosia tola em afirmar que o país vai fazer negócios "sem viés ideológico". O simples fato de afirmar isso de maneira incontida já firma um compromisso ideológico. Não existem ideias neutras. Discursos neutros. Se não existe "viés ideológico" em seu governo, ele deveria parar de falar "bolivarianismo", deveria parar de falar que "a esquerda não vai voltar mais ao poder".

O primarismo de Bolsonaro deixa a entender que somos um país de desvalidos. Que estamos clamando para que os investidores se apresentem por aqui para comprarem nossos produtos naturais. Temos florestas; temos rios; "temos bananas"; temos florestas imensas e até um Pantanal. Sim! Todos sabem disso. Segundo ele, "O Brasil é um paraíso". Por trás disso, há a mítica ideia de que o Brasil é um reino encantado. Uma terra de fábulas. Um Éden tropical. Somos a selvagem, mas dócil nação acolhedora. Não temos nada a oferecer a não ser os nossos recursos, nossos corpos e a exploração da força de trabalho barata do nosso povo. Na sua pobre concepção, o Brasil não possui riquezas, tecnologia de ponta, empresas estatais grandiosas, capazes de promoverem desenvolvimento e bem estar-social.

Em resumo, é como se Bolsonaro dissesse: "Venham! Venham para a grande feira! Vamos entregar tudo para vocês. Está tudo pronto! Venderemos tudo! Privatizaremos! Faremos reformas para facilitar o fluxo de capitais e apropriação das riquezas construídas pelo estado nacional. Guedes será o timoneiro! E eu, por não possuir competência, ficarei de cá falando de ideologia de gênero, marxismo cultural e viés ideológico. Somos galinhas e o nosso quintal é grande demais. Peguem tudo".

segunda-feira, janeiro 14, 2019

“Os sete enforcados”, de Leonid Andreiev

"Era estranho pensar que tanto cuidado humanitário e tanto esforço estavam sendo empregados para enforcar pessoas; que o ato mais insano da terra estava sendo cometido com tanta simplicidade e eficiência". (p. 150)

“Os sete enforcados” foi o último livro que li em 2018. Nunca havia lido nada desse autor. Cheguei a Andreiev por causa de uma lista feita por Graciliano Ramos. No livro  O velho Graça, de Dênis Moraes, encontrei uma relação com os livros fundamentais na visão do autor. Como sempre me interessei pela literatura do autor de Vidas Secas – e o tenho na mais alta estima -, ler Andreiev, bem como as outras obras da relação, passou a ser um dever, tornou-se uma obrigação. Fui à cata do livro. Encontrei-o na Estante Virtual. 

Sua literatura surge dessa estrutura nefasta, tristemente nebulosa, melancolicamente amarga.

    Não é um livro volumoso. A literatura do russo não é grandes proporções. Escreveu pouco em sua curta vida. Nasceu em 1871 e morreu em 1979. Aos 22 anos, tentou o suicídio. Carregou, por conta do episódio, um efeito colateral da tentativa mal engendrada, uma moléstia que reduziu a sua vida. 

    Como muitos intelectuais de sua época, não tomou partido da Revolução Russa, como Gorki, por exemplo. O regime que substituiu o czarismo, parecia absurdo. À distância, observava a banalidade com que a vida passou a ser tratada. Antes da Revolução, havia organizado reuniões secretas. Flertou com o movimento revolucionário.  Acabou rechaçando a possibilidade de uma participação efetiva. 

Sua literatura surge dessa estrutura nefasta, tristemente nebulosa, melancolicamente amarga. O texto de Andreiev possui um movimento lento, medido. Cada palavra é enunciada com parcimônia, como se estivesse construindo uma arquitetura silenciosa. Consegui cintilações do estilo de Andreiev nos textos de Graciliano Ramos. O minimalismo do conto “O relógio do hospital”, do escritor alagoano, certamente possui muito da economia de palavras objetivando, unicamente, dizer o essencial. Aquilo que emudece o leitor. Há um drama mudo, intrínseco em cada palavra. Uma marcha da narrativa, que se avoluma pelo controle extremo do texto. As palavras possuem um valor fundamental. É preciso escolhê-las de maneira correta, certeira; não desperdiçá-las com lances imprecisos; que criam labirintos desnecessários, tornando o texto enfadonho, pouco objetivo. 

Outro escritor próximo do estilo de Andreiev, pela secura realista, é Varlam Chalámov. O autor de Os contos de Kolimá foi preso e acusado de conspiração durante o período stalinista. As pungentes descrições das agruras sofridas tornam evidente o quanto a vida humana pode se tornar secundária quando os totalitarismos fazem prescindir os direitos humanos, quando o diferente passa a ser como um número, uma “coisa” a ser eliminada. A visão fria de Chalámov, o realismo duro, sombrio, aproxima-o do autor de Os sete enforcados. As experiências descritas demonstram a engenharia da morte. As vidas humanas são tratadas como mulambos, rebotalhos; os sujeitos são tratados como escória, refugo, matéria sem préstimo.
Leonid Andreiev (1871-1919)

Andreiev, como alguém falou, é um “matemático do horror”. Sua mente era povoada por cores nefastas; tinturas de um mundo frio, onde a vida é um detalhe secundário. Andreiev é um psicólogo da agonia. Em certa passagem do livro em que o narrador afirma: 

“E torturava-se, não porque a Morte era visível, mas porque a Morte era visível, mas porque tanto a Vida quanto a Morte eram visíveis ao mesmo tempo” (p. 110). 

Essa dupla visão do autor, torna evidente um quadro do momento histórico em que ele vivia. A história de “Os sete enforcados” é bastante simples. Cinco jovens – três homens (Sergey Golovin, Werner e Vasily Kashirin) e duas mulheres (Tânia Kovalchuk e Musya) – são presos por atentarem contra a vida do ministro. O serviço de contra-inteligência do ministro acaba rastreando as intenções dos cinco jovens. Há dois outros sujeitos que são presos e enforcados com os jovens – Ivan Yanson e Mikhail Golubetz ou Tsiganok. Os dois eram criminosos comuns. Yanson havia assassinado o patrão; Tsiganok tinha uma vida toda ligada às práticas delitivas. 

O livro possui doze capítulos breves. Toda obra pode ser lida de um único lance, o que permite uma experiência de tirar o fôlego. Não há nada de extraordinário no mote da história. Outro escritor com a mesma tema não conseguiria tão grandes efeitos. O extraordinário do livro é a investigação psicológica que o narrador faz dos sujeitos solitários antes do enforcamento. Inundados pela solidão das celas, as personagens analisam suas vidas. Enxergam-se pequenos. Nutrem receios.  São visitados pela insegurança. Jubilam. Alguns não admitem a intransigência imposta. Misturam-se emoções contraditórias. O que se deve pensar quando se está diante da morte? Quais fatos são os mais importantes? O que é a vida e quem tem o direito de liquidá-la? 

Andreiev escreve para denunciar a violência da pena de morte. Em “Os sete enforcados” percebemos o quanto a vida pode ser “coisificada”, relativizada, transformada em objeto; o quanto pode ser imolada pela tirania. Desconsidera-se a potência de cada pessoa – a sua história, sua ontologia, sua idiossincrasia; o que torna cada sujeito naquilo que ele é. Sendo cada sujeito um evento único na história do universo, a morte provocada pela força se torna uma aniquiladora do diverso e do pessoal.

sexta-feira, janeiro 11, 2019

Algumas considerações sobre “Lolita”, de Vladimir Nabokov


"Pois não há bem-aventurança na terra que se compare a acariciar uma ninfeta". 
Humbert Humbert

Lolita, de Vladimir Nabokov, não é uma obra literária comum. Certamente, tal definição não clarifica as ressonâncias da obra. O livro é controverso, de narrativa com passagens nauseantes. Por outro lado, o narrador possui uma erudição envolvente. Ele deseja nos capturar pela elegância, pelas blandícias de uma linguagem encharcada de poesia. 


                O livro Lolita, escrito em 1955, é um evento na vida de Nabokov. O escritor russo, radicado nos EUA, escreveu o livro em inglês. Sua família havia fugido da revolução bolchevique, com a qual destoava. Nabokov não encontrou uma editora que publicasse sua controversa produção literária. Seria literatura ou pornografia?

                Por fim, uma editora francesa acostumada a publicar livros pornográficos, topou o empreendimento. Ou seja, Lolita surgiu para os leitores como uma obra com caráter pornográfico. Certamente, se esse era o objetivo, os leitores ficaram decepcionados. As referências à obscenidade, ao libidinoso, estão encobertos por uma camada grossa de tinta poética. Sabe-se que o narrador faz menção ao que estamos pensando, mas há um caráter implícito potencializado pela imaginação de quem ler. 

                Com o tempo, descobriram-se as qualidades da obra. Havia ali virtudes de uma obra universal. A literatura é literatura é capaz de produzir efeitos únicos. Ela fornece, por meio de verossimilhanças e inverossimilhanças, uma visão mais nítida dos fenômenos que constituem a vida humana. O que a ciência não é capaz de dizer por possuir limitações, a literatura não encontra limites; grita alto a plenos pulmões. 

                A pedofilia é um tema tabu na sociedade moderna. Segundo a Organização Mundial de Saúde, a pedofilia é uma doença; um transtorno psicológico. O pedófilo, por tanto, é aquele sujeito que possui atração sexual por crianças e adolescentes pré-púberes. Não existe o tipo penal “pedofilia”. Não há uma lei específica que aborde o tema. Ninguém pode ser punido por ter uma doença. Todavia, quando o pedófilo materializa a sua patologia, configura-se a tipicidade penal. Nem todo pedófilo é, pois, um criminoso. É uma questão séria. Não há cura para a pedofilia. O tratamento é clínico. 
Vladimir Nabokov (1899-1977)

                O personagem do livro de Nabokov tem consciência desse fato. Ele premedita situações. É um estrategista minucioso de como deve proceder para ter a jovem que ele denomina Lolita. A única voz que escutamos em todo romance é a sua. Sabemos o quanto ele é habilidoso com as palavras. É um erudito; um catedrático, que explora com destreza a linguagem. O leitor é conduzido, impelido, como um animal indo ao matadouro, sem dá conta do fato. Por fim, torna-se simpático à sua lírica enfeitiçante. 

                Humbert Humbert é um tipo sarcástico, capaz de produzir um humor muito fino. Ao prestarmos atenção ao seu palavrório refinado, fica claro o gênio narrativo de Nabokov. Ele possui um controle absoluto da história. Coisa assim, eu somente havia encontrado em Machado de Assis. Aliás, há uma correlação de caráter entre Bentinho e Humbert Humbert. Bentinho é um ciumento, capaz de vislumbrar fantasias; um parcial sujeito que busca convencer o leitor da culpa de Capitu. Humbert Humbert também procura deixar evidente a sua obsessão, que chega às raias do desespero. Diferentemente de Bentinho, ele tem consciência de sua condição. Mas a pergunta que surge é: As coisas se fizeram como ele conta, de fato? Lolita – parece – deixa-se dominar pelo minotauro sedento e irracional que é Humbert Humbert. Não ouvimos a sua voz, senão pela voz do narrador. 

                É importante entender, longe de qualquer moralismo, que é uma obra extraordinária. Um dos grandes livros da história da literatura. Pela temática espinhenta, é comum formularmos uma imagem defeituosa de Humbert Humbert e, por tabela, do próprio autor da obra. Nabokov é um gênio. Estava inspiradíssimo a escrever o livro. Era um estudioso que escrevia textos difíceis, fazia traduções do russo, dava aulas em mais de um lugar. Ganhava a vida com isso. Lolita deu-lhe fortuna. Tornou-o conhecido. E alvo de indisposições. 

                Lolita é uma “crueldade literária”. É belo. O estilo é elegante, ensolarado. Sentimos o frescor da linguagem. A voz sedutora de H. H. A sua capacidade de inebriar o leitor é um caso incomum. Por outro lado, o narrador sabe da zona perigosa em que se encontra. Faz de tudo para criar sensibilizações naquele que ler, que atua como juiz para escrutinar a sua insaciável obsessão. 

1. O jornal espanhol El Pais, o ano passado, trouxe uma reportagem que fazia referência ao caso de Sally Horner, sequestrada e maltratada por um pedófilo e que teria inspirado Nabokov. 

2. Em 1962, Stanley Kubrick produziu o filme Lolita, com roteiro do próprio Nabokov.

domingo, janeiro 06, 2019

Os dez livros de que mais gostei em 2018

Decidi (de uma forma meio que ousada) tornar pública uma lista com as leituras mais significativas que realizei em 2018. Foi um ano em que gostaria de ter lido mais. Todavia, trabalhando mais de onze horas por dia, sem mencionar os deslocamentos de carro, que em alguns dias chegava à casa do cem quilômetros, li a metade daquilo que gostaria. Mesmo diante de cenário tão adverso, realizei leituras importantes. Abaixo surgem aquelas que foram responsáveis por um impacto ao meu modo de ser e estar no mundo. Cada leitura é responsável por nos arrancar do lugar-comum. Ajuda-nos a entender os fenômenos que nos cercam - sejam eles humanos, naturais ou sociais. Coloca-nos diante do pensamento complexo. Calibra o nosso olhar. Treina o nosso raciocínio a trabalhar de forma afiada. Alguns dos livros são releituras. É o caso, por exemplo, de São Bernardo e Banguê.  Para alguns desses livros, eu escrevi breves e inexpressivos comentários. Coloquei os links. Em alguns casos, ainda pretendo rabiscar alguns. É o caso do livro de Andreiev e do livro de Nabokov. Seguem os livros:


1. A guerra do fim do mundo, Mario Vargas-Llosa




















2. Enclausurado, Ian McEwan



















3. Banguê, José Lins do Rego




















4. A invenção do Nordeste, Durval Muniz de Albuquerque




















5. Lolita, Vladimir Nabokov


















6. São Bernardo, Graciliano Ramos








































8. O ódio como política, Esther Solano




















9. Os sete enforcados, Leonid Andreiev




















10. O dono do morro - um homem e batalha pelo Rio, Misha Glenny




















quinta-feira, janeiro 03, 2019

O homem medíocre

Trecho do artigo escrito por Eliane Brum para o El Pais:

(...)

"Os direitos de gênero, classe e raça estão conectados. O reconhecimento destes direitos e a ampliação do acesso dos negros a espaços até então reservados aos brancos teve grande impacto no resultado eleitoral e também no antipetismo. O ódio dos bolsonaristas se expressa não na ação, mas na reação: a de quem se defende do que acredita ser um ataque. Também por isso sentem ser legítimo lançar as piores e mais violentas palavras contra o outro. Acreditavam – e ainda acreditam – estar apenas se defendendo, o que na sua visão de mundo justificaria qualquer violência. Também por isso o outro é inimigo – e não opositor.

Mas qual é o ataque que acreditam estar sofrendo? A suspensão de privilégios que consideravam direitos, acirrada pelo desamparo que uma crise econômica e a ameaça de desemprego provocam. Era gente – principalmente homens, heterossexuais e brancos – que nos últimos anos via o chão desaparecer debaixo dos seus pés. Excluídos das elites intelectuais, pressionados a ser “politicamente corretos” porque outros saberiam mais do que eles, ridicularizados na sua macheza fora de época, assombrados por mulheres até mesmo dentro de casa, reagem. Como se sentem fracos, reagem com força desproporcional.

Esses brasileiros não querem um homem melhor do que eles na presidência. O que querem é um homem igual a eles no governo. Numa época em que até as metáforas se literalizaram, Bolsonaro lhes devolve – literalmente – aquilo que sentem que lhes foi tirado. Ao assumir o poder, Bolsonaro mostra que a ordem do mundo volta ao “normal”. Com Bolsonaro, eles voltam também ao Governo de suas próprias vidas, sem serem questionados nem precisarem ser questionados sobre temas tão espinhosos como, por exemplo, a sexualidade e seu lugar na família e na sociedade.

São principalmente homens, mas também são mulheres que sentem que a opressão é um preço baixo a pagar para voltar a um território que, mesmo asfixiante, é conhecido e supostamente mais seguro num mundo movediço. São brasileiros que pertencem a diferentes religiões, mas a votação mais expressiva recebida por Bolsonaro foi entre os evangélicos. As igrejas evangélicas neopentecostais têm multiplicado o número de fiéis e aumentado sua representação no Congresso nos últimos anos, encarnando uma das mais importantes mudanças culturais – e políticas – do Brasil.

Como disse Bolsonaro em seu discurso às massas, logo após ser ungido com a faixa presidencial: “Não podemos deixar que ideologias nefastas venham a dividir os brasileiros. Ideologias que destroem nossos valores e tradições, destroem nossas famílias, alicerce da nossa sociedade. Podemos, eu, você e as nossas famílias, todos juntos, reestabelecer padrões éticos e morais que transformarão nosso Brasil”.

omo se sentiam burros diante da intelectualidade acadêmica que sempre lhes torceu o nariz pontudo, os bolsonaristas adotaram seus próprios intelectuais. E também foram adotados por eles, como fez Olavo de Carvalho, que graças a isso se tornou um autor best-seller e passou a exercer seu autoproclamado “anarquismo” de forma bastante interessante.

Bolsonaro torna-se então aquele que “não tem medo de dizer o que pensa” ou “aquele que diz a verdade”. Bolsonaro se torna herói porque enfrenta o “politicamente correto” e liberta os sentimentos reprimidos de seus iguais. Eles, que começam a se sentir uns merdas diante de mulheres cada vez mais assertivas e de negros que não aceitam mais um lugar subalterno podem então voltar a mentir sobre privilégios serem direitos – e afirmar que esta é “a verdade”. Bolsonaro prega “transformação”, mas só se elegeu porque sua proposta de “mudança” trabalha com a ilusão do retorno. Essa “nova direita” compreende muito bem os anseios de uma parcela dos homens desesperados desse tempo.

Na tentativa de volta ao passado que já não pode ser, mesmo com Bolsonaro no poder, os privilégios perdidos foram tachados de “ideologia”. Aqueles que ideologizam tudo, até mesmo a orientação sexual e a religião alheias, culpam a ideologia por tudo. Se não gostam dos fatos, como o aquecimento global, convertem-nos em “ideologia marxista”. Transformam “politicamente correto” num palavrão. Qualquer limite torna-se uma afronta à liberdade, em especial a liberdade de ser violento. Chamam todos aqueles que apontam a necessidade de limites de “comunistas” ou “esquerdistas”, como se ambas as palavras significassem uma espécie de pecado capital.

Como sentiam-se oprimidos por conceitos que não compreendiam, os bolsonaristas descobriram que poderiam dar às palavras o significado que lhes conviesse porque o grupo os respaldaria. E, graças às redes sociais, o grupo os respalda. O significado das palavras é dado pelo número de “curtir” nas redes sociais. Esvaziadas de conteúdo, história e consenso, esvaziadas até mesmo das contradições e das disputas, as palavras se tornaram gritos, força bruta.

É assim que um homem medíocre como Bolsonaro vira “mito”. Ameaçados de perder a diferença que lhes garante privilégios que já não podem ter, Bolsonaro e seus seguidores corrompem a realidade e afirmam sua mediocridade como valor. Macho. Branco. Sujeito Homem".