terça-feira, janeiro 28, 2020

"Rocketman", algumas impressões


Estava curioso para assistir ao filme Rocketman, que retrata a vida de Elton John, um artista cuja importância é inquestionável para a música pop, e que construiu uma carreira de sucesso em mais de cinquenta anos. O músico, que possui o nome verdadeiro de Reginald Dwight, é interpretado por Taron Egerton no longa-metragem, sob a direção de Dexter Fletcher. O ator consegue um bom resultado em sua interpretação. 

                O filme foge do padrão tradicional das cinebiografias. Não há uma narrativa linear, buscando retratar de maneira fiel os acontecimentos da vida do “homem foguete”. Há a inserção de elementos fantasiosos. Egerton canta as músicas. Dança. Faz acrobacias. Nesse sentido, o timbre de voz busca se aproximar do timbre de Elton John. O ator aprendeu as músicas; os ademanes; o modo espalhafatoso de ser; o sorriso; os dramas; e as sutilezas da personalidade repleta de energia do cantor inglês.

                Elton John, como se pode perceber por meio da obra, foi um garoto que viveu a ausência dos pais na sua formação. Pode-se afirmar que houve uma espécie de abandono emocional por parte do pai. A mãe mostrava-se fútil e assumiu um relacionamento com outro homem. Dwight cresceu tímido. Introvertido. Cioso da presença dos pais. O seu porto-seguro foi a avó. Ela soube arregimentar as melhores palavras. Incentivou o jovem. Apoiou-o na escolha que fez a fim de que estudasse música numa das principais academias inglesas. 

                Observa-se que Elton John possuía um vulcão em si. Seus figurinos exagerados, aberrantes, bregas, são uma demonstração das paisagens interiores de que dispunha. É como se ele guardasse dentro de si um clown, que vinha à tona, potencializado pelo vício em cocaína e álcool e pela força irruptiva da música. O jovem e talentoso pianista se torna um “foguete”, como fica bem exposto em suas apresentações. 

                Foi um artista talentoso. Ao lado do seu companheiro de composição, Bernie Tapin, produziu uma discografia grandiosa e multifacetada. Vendeu milhões de discos. E soube aproveitar os revezes da indústria musical. Houve anos em que produziu dois discos, mantendo-se incrivelmente nas primeiras posições com as músicas mais tocadas. Discos como “Goodbye Yellow Brick Road” (1973) ou “Honky Chateau” (1972) não podem faltar em nenhuma lista dos melhores discos de rock de todos os tempos.

                O filme, entre outros aspectos, é bom. Não tem medo de ser musical, com cenas de dança coreografada, coisa que reputo perigosa, pois pode cair na chatice convencional de se tornar piegas. É dramático na dose certa. É narrado pelo próprio Elton John interpretado por Egerton, que numa roda de viciados, conta os episódios por que passou ao longo de sua ditosa e desditosa existência, até a superação do vício de drogas. 

sexta-feira, janeiro 24, 2020

Star Wars - Episódio V - O império Contra-Ataca, algumas impressões


Sou aficionado pela saga de Star Wars, criada pelo genial George Lucas, um visionário, gênio da fantasia cinematográfica. Os seis filmes originais, possuidores de sua influência, foram para mim, durante muito tempo, obras que sempre visitava em alguns períodos de anos passados.

Lucas – ao meu modo de ver – conseguiu com imensa mestria articular uma série de elementos filosóficos, psicológicos, religiosos, históricos e os envolveu em um drama cósmico. Há forças opositoras que colidem numa disputa pelos rumos da história, algo tão batido, tão comum em uma produção em que há mocinhos e bandidos.

A forma como Lucas também organizou as obras é envolvente. Primeiro, surgiram os episódios 4, 5 e 6; logo em seguida, vieram os episódios 1, 2 e 3. Em 2012, os cinéfilos e, principalmente, amantes das produções lucanas foram surpreendidos com a notícia da venda da Lucasfilm para a Disney por incríveis 4,05 bilhões de dólares. Com a compra pela Disney, proliferaram as novas produções. O negócio com a Disney foi bastante interessante para Lucas. Todavia, os estúdios Disney recuperaram de maneira fácil o investimento realizado em pouco tempo como era de se esperar. A marca é valiosa. 

Esta semana assisti ao icônico Episódio V – O Império Contra-Ataca. A escolha foi aleatória. Queria imergir naquela atmosfera futurista mais uma vez. Nos efeitos especiais criados no início da década de 80 – para época, recursos impensados embasbacantes.

       Como nos outros filmes criados da série, há um longo preâmbulo antes que a história se desenrole. Deambulações exageradas para um espectador impaciente. As cenas iniciais do Planeta Gelado me deixa indiferente. Todavia, aos poucos, as coisas se encaixam e o enredo se desenrola.

         É no Episódio V que aparece a figura mongética do mestre Yoda. Sua sabedoria é orientalizante; suas palavras, módicas. Sempre encobertas por camadas de mistério: “A Força é mais forte, mas o lado obscuro da Força é sempre mais sedutor”. Os Jedi são uma espécie de samurai. São “guerreiros” discretos, prudentes, contidos, cônscios da responsabilidade moral pela qual devem zelar. É a intriga milenar entre o caminho da virtude e o caminho das susceptibilidades enfeitiçantes dos desejos humanos. Ceder a esses desejos é trilhar o caminho escuro, que conduz às violações mais banais das regras do bem viver.

        Quem sabe ao longo do ano, voltarei a visitar outro filme da série.

quinta-feira, janeiro 23, 2020

Black Sabbath - "The Eternal Idol" (1987)




“The Eternal Idol” é o 13° álbum de estúdio do Black Sabbath. Representa um momento da banda inglesa. Neste período, da formação original, havia somente o capitão Tonny Iommy, que capitaneava o barco. O disco foi gravado no rescaldo de uma série de saídas e entradas de músicos. Pode-se afirmar que “The Eternal Idol” abre uma terceira via no ciclo formativo do Sabbath. O primeiro, certamente, é com Ozzy; o segundo com Dio; e o terceiro com Tonny Martin, que participaria de outros cinco discos. 

Martin é o segundo vocalista, após o Ozzy, que durou mais tempo na banda. O disco representa a desagregação por que passava a banda. Iommy viciado em cocaína e cheio de dívidas, buscava por todos os meios uma tábua de salvação. Do ponto de vista técnico o disco é bom. Mas, se não possuísse o selo Sabbath e a presença de Iommy, seria apenas o disco de uma banda querendo o seu lugar ao sol. Há boas canções – “The Shining”, “Nightmare”, “The Eternal Idol” -, entretanto, fica a apenas nisso. Martin é um bom vocalista, mas, fica apenas nisso. Notam-se os solos com a marca Iommy, mas, fica apenas nisso.

quarta-feira, janeiro 01, 2020

"Ética e moral - a busca dos fundamentos", de Leonardo Boff

"Tudo no mundo é dialético...", p. 94

Este foi o último livro que li no ano de 2019, portanto, o último da década. A leitura iniciou na metade do ano. Foi concluída apenas no último dia do ano. Resultado do muito trabalho e das poucas horas de que dispus para ler e contemplar as ideias, desvelando as intenções dos pensamentos. O que me levou ao livro foi uma intrigante vontade de entender o conceito filosófico de ética e moral tão comuns em debates; palavras repletas de menções, mas desconhecidas por boa parte daqueles que as proferem. 

O título do livro sugere isso - Ética e moral: a busca dos fundamentos, mas, Leonardo Boff não se ocupa em abordar filosoficamente esses dois conceitos. As referências são bem superficiais. Ele até busca fazê-lo. Há uma singela explicação etimológica para as duas palavras. Segundo Boff, as duas palavras gregas - ethos e daimon - são importantes para compreender o conceito de ética e moral. A primeira significa "morada humana"; já a segunda significa "anjo bom, gênio protetor". O conceito de "morada" extrapola o sentido do físico. É algo existencial. É o reconhecimento do bem-estar e possui uma relação globalizante consigo e com o cosmos. Já o "anjo protetor" tem a ver com a boa consciência, "com o sentimento do conveniente e do justo". Sendo assim, essa boa consciência nos permitirá morar bem na casa em que habitamos - seja o sujeito individual, a cidade, o país, o Planeta, o Universo em que habitamos. Tudo que se faça permitirá, munido desse "boa consciência", será ético e bom. Fora disso, tudo será antiético e mau. 

Ética é, então, o ramo da filosofia preocupado em orientar os homens a estabelecer os princípios e valores que tornam a vida possível em sociedade.  Já a moral é parte da vida concreta. Uma pessoa é moral quando age de acordo com os princípios e valores consagrados. Portanto, ela pode ser moral sem ser ética.

É a partir desse pensamento que Boff faz a sua reflexão, estabelecendo a relação do sujeito consigo e com o outro para a existência de uma ética que conduza o homem a uma mudança. Segundo ele, o modelo construído pela sociedade capitalista não tem permitido a formação dessa boa consciência, conduzindo o homem do nosso tempo a uma ignorância, que se não for observada, será fatal a manuntenção de todos os seres no Planeta. Para reverter isso, é preciso que haja (1) um ethos que procura; (2) um ethos que ama, pois "quando o outro irrompe à minha frente, nasce a ética"; (3) um ethos que cuida, porquanto o cuidado é anterior, "é o a priori ontológico", aquilo que deve existir antes para que a vida e as coisas se tornem possíveis; (4) o ethos que se responsabiliza, porque "responsabilidade surge quando nos damos conta das consequências de nossos atos sobre os outros e a natureza"; (5) o ethos que se solidariza, "pois somos todos interdependentes uns dos outros"; (6) o ethos que se compadece, porquanto necessitamos incorporar a compaixão; (7) o ethos que integra, pois procura ser sensível às demandas do mundo, às suas necessidades. 

Como em outras leituras que fiz de Leonardo Boff, há um forte apelo para o despertar de uma nova consciência, que fuja do tecnicismo da modernidade, com suas respostas prontas, com as suas demandas desumanizantes. Boff está preocupado com a agenda ética de Francisco de Assis, de Jesus Cristo, de Gandhi, de Dalai Lama; com ética dos povos originais e suas tradições ancestrais. A espiritualidade é um elemento importante para a existência do daimon. Sem ela, não se pode desenvolver a boa consciência, a sensibilidade para as boas práticas. 

É preciso desconstruir a cultura da satanização do outro, pois ela só produz tragédias - guerras, preconceitos, xenofobias, misoginias, racismos. "O caminho da paz é a própria paz". Essas preocupações devem ser o debate atual, caso queiramos que nossa espécie tenha sobrevida neste planeta. A cultura da violência contra tudo e contra todos, por meio da agressão ao meio ambiente; a imposição da ideologia do capitalismo, o neoliberalismo, devem ser detidos. E isso só é possível colocando um outro fundamento, numa prática (moral) condizente com valores verdadeiros e princípios humanísticos (ética). 


Filmes e documentários vistos em 2020

Mestre Andrei Tarkovsky, o maior criador de sonhos da história do cinema. Ele será a referência para 2020. Revisitar alguns dos seus filmes será um objetivo.

O objetivo para 2020 é assistir a 50 filmes. Cada filme deve ser resenhado - nem que seja com uma singela linha.

1. Star Wars - episódio V: o Império contra-ataca - dir. Irvin Kershner. Ficção. 124 min. EUA. 1980. Nota: 9,5 - 22/01;

2. Rocketman - dir. Dexter Fletcher. Musical. 121 min. Inglaterra/EUA. 2019. Nota: 8,7 - 24/01;

3. Era uma vez em... Hollywood. dir. Quentin Tarantino. 165 min. EUA/China. 2019. Nota: 9,3 - 25/01;

4. Parasita. dir. Bong Joon-ho. 132 min. Coreia do Sul. 2019. Nota: 9,7 - 25/01;

5. Hitler - a ascensão do mal. dir. Christian Duguay. 178 min. Canadá, Espanha, EUA. 2003. Nota 8,8 - 29/01.

6. História de um casamento. dir. Noah Baumbach. 136 min. EUA. 2019. Nota. 9,1 - 08/02;

7. Um corpo que cai. Alfred Hitchcock. 128 min. EUA. 1958. Nota. 9,6 - 10/02.

8. O exterminador do futuro: Gênesis. dir. Alan Taylor. 126 min. EUA. 2015. Nota. 8,0 - 23/02.

9. Jojo Rabbit. dir. Taika Waititi. 108 min. EUA, Nova Zelândia, República Tcheca. 2019. Nota. 9,4 - 24/02; -

10. Bacurau. dir. Kleber Mendonça Filho, Juliano Dornelles. 132 min. Brasil, França. 2019. Nota. 9,4 - 24/02;

11. Os excêntricos Tenenbaums. dir. Wes Andersen. Comédia, Drama. 109 min. EUA. 2001. Nota: 9,2 - 25/02;

12. O espelho. dir. Andrei Tarkovsky. Drama. 101 min. Rússia. 1975. Nota: 9,2. 29/02.

13. Legítimo rei. dir. David Mackenzie. Drama, Ação. 122 min. Inglaterra. 2018. Nota: 8,9. 06/03.

14. As duas faces de um crime. dir. Gregory Hoblit. Drama, Suspense. EUA. 1996. Nota. 9,5. 08/03

15. Rastros de ódio. dir. John Ford. Drama, Western. EUA. 1956. Nota: 9,5. 13/03;

16. Bastardos Inglórios. dir. Quentin Tarantino. Drama, Guerra. EUA, Alemanha. 2009. Nota: 9,5. 15/03

17. Rashomon. dir. Akira Kurozawa. Drama, Suspense. Japão. 1950. Nota: 9,9. 19/03.

18. Star Wars: A ascensão de Skywalker. dir. J. J. Abrams. Ação. EUA. 2019. Nota. 7,5. 21/03;

19. O ovo da serpente. dir. Ingmar Bergman. Drama. Alemanha, EUA. 1977. Nota: 9,3;

20. Dois papas. dir. Fernando Meireles. Comédia, Drama. Itália, Argentina. 2019. Nota: 9,5.

21.  O deus da carnificina. dir. Roman Polanski. Comédia, Drama. 79 min. EUA. 2011. Nota: 9,5;

22. Mississipi em Chamas. dir. Alan Parker. Drama, História. 128 min. EUA. 1988. Nota: 9,7;

23. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa. dir. Woody Allen. Comédia, Romance. 93 min. 1977. Nota: 9,7;

24. A paixão de Joana D'Arc. dir. Carl Theodor Dreyer. Drama, Biografia. 110 min. França. 1928. Nota: 9,5; 03/04

25.  Ventos da Liberdade. dir. Ken Loach. Drama, Guerra. 127 min. Inglaterra. 2006. Nota: 9,0 - 04/04

26. A Aventura. dir. Michelangelo Antonioni. Drama, Suspense. 145 min. Itália. 1960. 9,3 - 11/04;

27. Infiltrado na Klan. dir. Spike Lee. Drama, Comédia. 128 min. EUA. 2018. 9,5 - 12/04;

28. Sem Amor. dir. Andrey Zvyagintsev. Drama. 128 min. Rússia. 2017. 9,6 - 14/04;

29. Um sonho de liberdade. dir. Frank Darabont. Drama. 142 min. EUA. 1994. 9,7 - 19/04;

30. O eclipse. dir. Michelangelo Antonioni. Drama. 118 min. Itália. 1962. 9,7 - 25/04;

31. Cavalo de Turim. dir. Béla Tarr. Drama. 146 min. Hungria. 2011. 9,5 - 25/04;

32. Amor à tarde. dir. Eric Rohmer. Drama. 97 min. França. 1972. 9,5 - 02/05;

33. Attenbergh. dir. Athina Rachel Tsangari. Drama. 93 min. Grécia. 2010. - 9,0 - 02/05;

34. O Shaolin do Sertão. dir. Helder Gomes. Comédia. 100 min. Brasil. 2016. - 9,0 - 07/05;

35.  O céu de Suely. dir. Karin Ainouz. Drama. 90 min. Brasil. 2006. - 9,3 - 12/05;

36. Casablanca. dir. Michael Curtiz. Drama, Guerra. 102 min. Brasil. 1942 - 9,6 - 13/05;

37. Como nossos pais. dir. Laís Bodanzky. Drama. 102 min. Brasil. 2017 - 9,3 - 15/05;

38. O paciente. dir. Sérgio Rezende. Drama. 162 min. Brasil. 2018. - 9,2 - 16/05;

39. Ordet. dir. Carl Theodor Dreyer. Drama. 126 min. Dinamarca. 1955 - 10. - 17/05;

40. Luz de inverno. dir. Ingmar Bergman. Drama. 81 min. Suécia. 1963 - 9,5 -  22/05;

41. A Queda - as últimas horas de Hitler. dir. Oliver Hirschbiegel. Drama, Biografia. Alemanha. 156 min. 2004. 9,7 - 23/05;

42. Os suspeitos. dir. Bryan Singer. Policial. 106 min. EUA. 1995. 9,3 - 31/05;

43. Eles não usam black-tie. dir. Leon Hirszman. Drama. 120 min. Brasil. 1981. 9,4 - 05/06;

44. L'Apollonide - Os amores da casa de tolerância. dir. Bertrand Bonello. Drama. 125 min. França. 2011. 9,1 - 07/06;

45.  A estrada da vida. dir. Federico Fellini. Drama. 104 min. Itália. 1954 - 9,7 - 12/06;

46. Selma. dir. Ava DuVernay. Drama, Biografia. 128 min. EUA. 2014. - 9,2 - 14/06;

47. Love. dir. Gaspar Noé. Drama.  135 min. França, Bélgica. 2015 - 8,7 - 16/06;

48. O escândalo. dir. Jay Roach. 108 min. EUA. 2019. - 9,4 - 16/06;

49. Superman - Red Son. dir. - Animação. 20/06

50. O destino de uma nação. dir. Joe Wright. 125 min. Inglaterra. 2017. - 9,1. 21/06

51. Lavoura Arcaica. dir. Luiz Fernando Carvalho. 163 min. Brasil. 2001. - 9,2 - 26/06

52. Três homens em conflito. dir. Sérgio Leone. Western. 161 min. EUA, Itália. 1966 - 9,7 - 26/06;

53. Glória feita de sangue. dir. Stanley Kubrick. Drama, Guerra. 87 min. EUA. 1957. - 9,2 - 27/06/2020;

54. Um método perigoso. dir. David Cronemberg. Drama, Biografia. 93 min. Canadá. 2011. 9,1 - 28/06/2020;

55. O filme da minha vida. dir. Selton Mello. Drama. 113 min. Brasil. 2017. - 8,5; 03/07;

56. Por um punhado de dólares. dir. Sérgio Leone. Western. Itália. 99 min. 1964. 06/07;

57. Los Angeles - cidade proibida. dir. Curtis Hanson. Drama, Policial. EUA. 138 min. 1997. 9,1 - 08/07;

58. Apocalipse Now. dir. Francis Ford Copolla. Drama, Guerra. EUA. 153 min. 1979. 9,7 - 12/07;

59. O beijo da mulher aranha. Hector Babenco. Drama. Brasil, EUA. 120 min. 1985. 9,1 - 17/07;

60. Lawrence da Arabia. David Lean. Aventura, Drama. Inglaterra. 216 min. 1962. 9,9. 18/07; 

61. Rain Man. dir. Barry Levinson. Drama. EUA. 133 min. 1988. 9,5. 19/07; 

62. A vida de Brian. dir. Terry Jones. Comédia. Inglaterra. 94 min. 1979. 9,5. 21/07;

63. Cidade Baixa. dir. Sérgio Machado. Drama. Brasil. 98 min. 2005. 9,2. 23/07;

64. Marry Shelley. dir. Haifaa Al-Mansour. Drama, Biografia. Inglaterra, EUA. 120 min. 2017. 9,3. 
26/07.

65. Rio Babilônia. dir. Neville de Almeida. Drama. Brasil. 115 min. 1982. 5,0; 27/07;

66. O caminho das nuvens. dir. Vicente Amorim. Drama.  Brasil. 85 min. 2003. 9,1; 01/08;

67. Lady Bird. dir. Greta Gerwig. Comédia. EUA. 94 min. 2017. 9,3; 02/08; 

68. O lagosta. dir. Yorgos Lanthimos. Comédia, Drama. Grécia, EUA. 118 min. 2015. 9,5;  09/08.

69. Os sete samurais. dir. Akira Kurosawa. Drama, Ação. Japão. 207 min. 1954. 10,0. 10/08;

70. O Decamerão. dir. Pier Paolo Pasolini. Comédia, Drama. Itália. 112 min. 1971. 9,1. 12/08;

71. O homem que virou suco. dir. João Batista de Andrade. Drama. Brasil. 97 min. 1981. 8,9. 15/08;

72. Colette. dir. Wash Westmoreland. Drama, Biografia. Inglaterra, França. 111 min. 2018. 9,2. 25/08;

73. Gauguin - Viagem ao Taiti. dir. Edouard Deluc. Drama, Biografia. França. 102 min. 2017. 9,3. 29/08;

74. Os oito odiados. dir. Quentin Tarantino. Drama, Western. EUA. 167 min. 2015. 9,4. 03/09;

75. Nostalgia. dir. Andrei Tarkovski. Drama. Rússia, Itália. 125 min. 1983. 9,0. 05/09;

76. Os bons companheiros. dir. Martin Scorsese. Drama. EUA. 145 min. 1990. 9,5. 07/09; 

77. Django Livre. dir. Quentin Tarentino. Ação, Western. EUA. 165 min. 2012. 9,4. 07/09;

78. Um tiro na noite. dir. Brian De Palma. Suspense. EUA. 108 min. 1981. 9,4. 12/09;

79. Iracema - Uma Transa Amazônica. dir. Jorge Bodanzky, Orlando Senna. Drama. Brasil. 91 min. 1975. 9,3. 18/09;
 
80.  Todos já sabem. dir. Ashgar Farhadi. Drama. Espanha. 130 min. 2018. 8,9. 15/09;
 
81. Central do Brasil.  dir. Walter Salles. Drama. Brasil. 103 min. 1998. 9,3. 29/09;
 
82. Pulp Fiction - tempo de violência. dir. Quentin Tarantino. Drama, Policial.  EUA. 154 min. 1994. 9,6. 03/10.
 
83.  Alcatraz - Fuga impossível. dir. Dom Siegel. Drama, Biografia. EUA. 112 min. 1979. 9,5. 12/10;

84. O banqueiro. dir. George Nolfi. Drama. EUA. 120 min. 2020. 9,4. 13/10.

85. O que traz boas novas. dir. Philippe Falardeau. Drama. Canadá. 94 min. 2011. 9,1. 16/10;
 
86. Vá e Veja. dir. Elem Klímov. Drama, Guerra.  URSS. 142 min. 1985. 9,8. 18/10;

87. Círculo Vermelho. dir. Jean-Pierre Melville. Policial. França. 140 min. 1970. 9,3. 24/10;

88. Faces. dir. John Cassavetes. Drama. EUA. 130 min. 1968. 9,4. 25/10;

89. Os contos de Canterbury. dir. Pier Paolo Paolini. Comédia. História. Itália. 109 min. 1972. 9,0. 27/10.

90. Manhattan. dir. Woody Allen. Comédia, Drama. EUA. 96 min. 1979. 9,5. 27/10.
 
91. A grande ilusão.  dir. Jean Renoir. Drama. França. 114 min. 1937. 9,2. 10/11
 
92. O som ao redor. dir. Kleber Mendonça. Drama. Brasil. 131 min. 2012. 9,6. 14/11
 
93. Sindicato de ladrões. dir. Elia Kazan. Drama. EUA. 108 min. 1954. 9,4. 15/11
 
94. Dor e glória. dir. Pedro Almodóvar. Drama. Espanha. 108 min. 2019. 9,0. 20/11
 
95.  Silêncio. dir. Martin Scorsese. Drama. EUA. 159 min. 2016. 9,5. 22/11
 
96.  Os 7 de Chicago. Aaron Sorkin. Drama. EUA. 129 min. 2020. 9,5. 28/11.
 
97. O quarto de Jack. Lenny Abrahamson. Drama. Canadá, EUA. 118 min. 2015. 9,5. 30/11 
 
98. Quero ser John Malkovich. dir. Spike Jonze. Comédia, Drama. 112 min. 1999. 9,2. 08/12
 
99. Ben-Hur. dir. William Wyler. Ação, Aventura. EUA. 212 min. 1959. 9,8. 11/12.
 
100. Nina. dir. Cynthia Mort. Drama, Biografia. Inglaterra. 90 min. 2016. 9,4. 13/12.
 
101.  Metropolis. dir. Fritz Lang. Drama, Ficção. Alemanha. 153 min. 1927. 9,0. 15/12
 
102.  O crepúsculo dos deuses. dir. Billy Wilder. Drama. EUA. 110 min. 1950. 9,7. 18/12.

103. Era uma vez no oeste. dir. Sergio Leone. Drama, Western. EUA. 165 min. 1968. 9,3. 20/12.

104. Era uma vez no Tóquio. dir. Yasujiro Ozu. Drama. Japão. 136 min. 1953. 9,1. 24/12.

105. O sacríficio. dir. Andrei Tarkovsky. Drama. Suécia, França. 149 min. 1986. 9,3. 27/12.

106. Touro Indomável. dir. Martin Scorsese. Drama. EUA. 129 min. 1980. 9,5. 31/12.




 
 
 
Documentários:

01. Pearl Jam - Twenty.  Cameron Crowe. 109 min. EUA. 2011. Nota: 9,0;

02. Onde a moeda cai em pé - a história do São Paulo Futebol Clube. dir. Pedro Jorge, Alexandre Boechat e André Plihal. 88 min. Brasil. 2018. Nota: 9,0 - 08/04. 

03. Cora Coralina - Todas as vidas. dir. Renato Barbieri. 86 min. Brasil. 2017. 9,2 - 25/04;

04. A arquitetura da destruição. dri. Peter Cohen. 119 min. Suécia. 1989. 9,5; - 22/05;

05. O triunfo da vontade. dir. Leni Riefenstahl. 114 min. Alemanha. 1935. 9,5 - 09/06; 

06. O holocausto brasileiro. dir. Daniela Arbex, Armando Mendz. 90 min. Brasil. 2016. 9,3 - 28/08;
 
07. Chico - artista brasileiro. dir. Miguel Faria Jr. 102 min. Brasil. 2015. 9,4. 23/11

quarta-feira, dezembro 18, 2019

A grandeza de Paulo Freire e a tolice de um imbecil

"Se não amo o mundo, se não amo a vida, se não amo os homens, não me é possível o diálogo". Paulo Freire

Um dos assuntos mais badalados da semana foi a cena caricata de um presidente despreparado, semialfabetizado, tecendo comentários sobre uma figura da educação. No caso em questão, trata-se nada mais nada menos do que Paulo Freire, uma das personalidades brasileiras mais conhecidas no mundo. Bolsonaro, sempre bolsonárico (uma condição ontológica), chamou o autor de A pedagogia do oprimido de "energúmeno". 

Verificando a acepção da palavra citada pelo presidente (talvez, ele nem conheça os matizes da palavra), verificam-se os seguintes significados: "uma pessoa possessa ou possuída por um demônio; alguém que possui um comportamento descontrolado; um desatinado". Ou em uma última acepção: "sujeito sem conhecimento, um imbecil". E, nesse sentido último, nota-se o quanto a palavra utilizada possui uma falta de nexo com a pessoa a quem ela foi dirigida. 

Certa vez, escutei uma história de um professor da Universidade de Brasília bastante emocionante e singela por tudo o que ela evoca e representa. Dizia ele que certa vez fez uma viagem para a China. Não para a China das grandes metrópoles populosas; de trânsito que beira ao cinematográfico por causa da quantidade de veículos. Não a China das cidades luminosas; não a China dos adjetivos pentagruélicos. Ele foi a um vilarejo do interior, lugar em que o antigo ainda continua com suas tradições; com seus riachos; com suas montanhas; a China da vida simples. Ele visitou uma escola rural. As pessoas do lugar ficaram curiosa para saber de onde procedia aquele ocidental. Insinuou timidamente que era do Brasil. 

E, para a sua surpresa, escutou algo que mexeu com o seu instinto de brasilidade. Ele escutou o nome de alguém que não era um jogador de futebol nem uma atriz de novela. Ele escutou a delicada, mas confortadora frase: "Terra de Paulo Freire". Aquilo colocou a certeza dentro dele de que Paulo Freire não era apenas uma figura pública do Brasil. O pernambucano era um cidadão do mundo. Um divulgador de belezas, dono de uma pedagogia construída com a palavra, a palavra que era tão importante para ele. É importante aprender a "dizê-la"; a desvelá-la. Trazê-la de dentro de si para "pronunciar o mundo, modificá-lo"; transformá-lo pelo entendimento da própria condição de si e do outro. 

A história contada pelo professor é especial, porquanto ilustra a grandeza do filósofo e educador brasileiro. Atualmente, há em movimento, no Brasil, uma marcha em defesa da ignorância, do irracionalismo;  uma corrente anti-iluminista; um macartismo à brasileira, encampado por figuras histriônicas e patéticas. Bolsonaro é uma dessas figuras mais proeminentes. No futuro, haverá risadas - talvez, constrangimento ou vergonha. O atual chefe do Executivo Federal será conhecido - ele sim - como o mais "imbecil" e "energúmeno" dos presidentes que governaram o país. Do contrário, Paulo Freire continuará a ser estudado e respeitado pelo mundo a fora - e reverenciado por pessoas que reconhecem o quanto a sua pedagogia é libertadora. 

sábado, dezembro 14, 2019

Ó Captain! My Captain!" Walt Whitman


A profissão docente não é fácil. É repleta de dissabores. Olhando-a apenas no plano físico, da materialidade, há apenas cansaço. Suor. Falas gritadas em muitos momentos. Indignação. Surtos de poder. Mas, existe uma potência invisível que constrói sentidos; que cativa corações e alimenta olhares silenciosos. Onde menos se percebe, há uma árvore frondosa a frutificar; a produzir beleza; a encher os olhos daqueles que observam.

Deve ser, por isso, que Cristo disse que o semeador saiu a semear. Sim. A função do professor é semear os grãos pequenos, mas insistentes do saber. Eles caem nos solos mais distintos, produzindo matas densas de caráter; de gratidão; de aprendizado; da seiva de que a vida se alimenta.

Escrevo essas palavras chochas, pois recebi uma mensagem esta manhã de uma aluna para quem dei aula em 2013 - a Luíza, criatura meiga e observadora. Fiquei imensamente feliz por saber que ela está bem e começará uma outra jornada! Tornou-se mais latente em mim a noção de que nós professores somos semeadores.


As palavras dela: "Oi, professor! Tudo bem?
Não sei se lembra de mim, tive um ano de aula com você no santa rosa, em 2013 e sou irmã mais nova da Maíra Kirovsky

Ontem tive minha colação de grau e finalmente terminei o ensino médio.

Ao pensar em meus professores e em como tenho enorme carinho por todos, lembrei de você

Embora nosso tempo tenha sido curto, nunca o esqueci e sempre lembro dele com saudades

Posso dizer que você é um dos melhores professores que já tive em todo o meu período escolar

Ir para a escola nunca foi uma tarefa fácil para mim e o ano em que fui sua aluna foi especialmente difícil

Aulas como a sua me ajudavam a conseguir levantar da cama e ir pra escola

Aulas como a sua me inspiraram a ser melhor

E me inspiram até hoje

Quero que saiba da importância que tem em minha vida (e na de muitas outras pessoas, com certeza)

E quero agradecer por tudo

Obrigado por ter me inspirado a ler, obrigado pelas aulas, obrigado por ter me ajudado a formar o ser humano que sou hoje!

Sempre lembrarei de você com ternura e admiração"

Um grande abraço, Luíza!

segunda-feira, outubro 28, 2019

Algumas percepções sobre "Harry Potter e a pedra filosofal"

Recordo-me quando o fenômeno Harry Potter surgiu. Isso gerou um impressionante movimento de admiração ao personagem criado pela habilidosa J. K. Rowling. Era o ano de 1999 - se não me falha a memória. Nesse período eu frequentava uma igreja protestante. Criou-se, por sua vez, um movimento esdrúxulo de resistência. Segundo os cristãos evangélicos, a obra promovia a feitiçaria. Havia intenções, segundo eles, ocultas no texto da senhora Rowling. 

Harry Potter não era nada inocente. Seu objetivo era promover o ocultismo e desencaminhar os jovens e, principalmente, as crianças para o mundo diabólico da bruxaria. Não lembro se fiz coro com essa tese cinzenta e triste, típica dos cristãos fundamentalistas, que vivem a enxergar feiuras nos mais variados eventos. Todavia, acabei me afastando de uma das maiores criações mitológicas do nosso tempo.

Há uma "magicidade" no pensamento cristão. Nesse sentido, os cristãos não destoam em nada do quadro fantasioso da saga criada pela escritora britânica. 

Farei aqui uma pequena digressão, todavia, em seguida, pretendo explicá-la. Os religiosos criaram uma proposição belicosa contra a obra, pois, segundo eles, ela está cheia de bruxaria e de uma defesa dos poderes ocultos. Ou seja, busca-se criticar o elementos mágicos do livro. Contudo, o que não deixa de ser curioso é que o livro sagrado dos cristãos, também, está cheio de eventos mágicos e extraordinários. A Bíblia está povoada por eventos curiosos que desafiam as leis naturais, todavia, para os cristãos, eles são aceitos como as intervenções naturais do divino na história. Esses eventos não perdem em nada para os acontecimentos espetaculosos da saga Harry Potter. Por exemplo, a Bíblia fala de uma serpente falante em um jardim. Essa mesma serpente foi capaz de ludibriar o primevo casal de humanos, de acordo com o relato mitológico dos judeus. Há ainda a narrativa de uma jumenta que fala. Há a descrição de um dilúvio. De acordo com essa história, todos os animais que existem hoje estiveram dentro de uma arca de madeira. Moisés foi capaz de arrancar água de uma rocha. Os judeus conseguiram atravessar o Mar Vermelho com os pés enxutos. O sol ficou imóvel segundo a narrativa de Josué. Um vale de ossos secos foi transformado, de tal modo que os esqueletos inermes da cena aterradora, voltaram à vida, ganhando nervos, carnes e tecidos. Jonas foi engolido por um grande peixe. No livro de Jó, narra-se uma espécie de meta-história, deixando evidente a disputa em um mundo paralelo pelas atenções dos humanos. É como se a vida material dos seres humanos fosse um mero joguete das decisões que acontecem em um espaço recôndito das esferas espirituais. 

No Novo Testamento, Jesus multiplica pães, caminha por sobre as águas; há uma espécie de eclipse, quando ele morre na cruz. Percebe-se que o evento mágico é algo constante, presente, nos relatos bíblicos. O livro de Apocalipse, por exemplo, descreve de forma apoteótica o drama existente entre as forças do bem e do mal. Ou seja, o livro é uma das criações literárias que mais usam a linguagem mágica e misteriosa na história da humanidade. O livro faz descortinar uma atmosfera cataclísmica do fim da história. Possui, assim, um forte apelo escatológico, como é típico das histórias fantásticas, em que o confronto entre o bem e o mal, sendo que o bem triunfa. Os capítulos finais de Apocalipse trazem uma descrição de como vai ser esse novo mundo pós-escatológico, a chamada Nova Jerusalém. 

Ora, faço essa pequena divagação para tentar justificar o fato de ter ficado tanto tempo distante dos livros do bruxinho famoso. Acabei assumindo uma perspectiva preconceituosa contra os textos de J. K. Rowling, cuja tecitura, hoje, para mim, são de uma genialidade incrível. Impressiona a qualidade da escrita da inglesa de 54 anos. Quando começou a escrever a saga, lá pela metade dos anos noventa, Rowling saíra da casa dos vinte anos e entrara na casa dos trinta. Ela era uma jovem desempregada com uma filha pequena para criar. O texto foi recusado por uma dezena de editores. Havia desconfiança sobre a estrutura da história. Não se sabia se a saga de Harry Potter, Hermione Granger e Ronald Weasley adquiriria algum interesse no grande público. Todavia, ao ser lançado, o livro teve um sucesso imediato. A inglesa trabalhou durante aproximados oito anos, escrevendo sete obras até o ano de 2007 - A pedra filosofal, A câmara secreta, O prisoneiro de Azkhaban, O cálice de fogo, A ordem da fênix, O enigma do Príncipe e As relíquias da morte

Terminei a leitura de Harry Potter e a pedra filosofal. Fiquei com uma forte impressão positiva. O texto possui uma linguagem simples, direta, menos prolixa que a de J. R. R. Tolkien. A linguagem rowlingiana está mais próxima dos escritos singelos de C.S. Lewis, outro inglês que certamente a influenciou. Vale mencionar que Tolkien criou as histórias da Terra Média, tendo em O senhor dos anéis a principal referência. Já Lewis criou Nárnia e as sete de narrativas sobre esse mundo mágico e carregado de eventos simbólicos. 

No texto de Rowling também há importantes questões a serem trabalhadas como, por exemplo, a honra, a responsabilidade ética; a condição do herói perante o desconhecido; a crítica aos totalitarismos e os separatismos, já que a luta do vilão - Lord Voldemort - é para eliminar todos aqueles que não são bruxos de sangue puro; a amizade como um dom. A capacidade de não se deixar vencer pelo mal. O triunfo da verdade. 

O fato é que fiquei "enfeitiçado" pela linguagem simples de uma literatura que aviva a fantasia e nos convida ao prazer. Em outro momento, quero escrever um pouco mais sobre a personagem Harry Potter, para quem há uma quantidade de enorme de questões a serem tratadas. Vamos à Câmara Secreta

segunda-feira, outubro 21, 2019

O neoliberalismo é uma bomba prestes a explodir - o caso chileno

Vista de Santiago. Ao fundo, a Cordilheira dos Andes 
Estive no Chile em julho de 2015. Tenho boas lembranças de lá. Passei cinco dias na capital do país, Santiago. Além de Santiago, tive a oportunidade de ir à moderna - e com aspecto de balneário - Viña del Mar. Foi de lá que guardei as primeiras imagens do Oceano Pacífico. Pude sentir as suas frias águas. Depois, desloquei-me com a minha esposa à vizinha Valparaiso, que se espalha, derrama-se, por uma colina e passa a impressão de que está tentando fugir das águas do grande Oceano. Valparaiso é uma cidade evocativa. Suas ruas abrigam belas páginas da história do país. Nela podemos encontrar uma das residências do maior ícone literário do país, o poeta Pablo Neruda. Há um um dos principais portos da América Latina. No passado, já foi um dos mais importantes do mundo. 

O Chile passou a impressão de que possuía um modelo que funcionava. Para o observador comum, trata-se de um país bonito e aparentemente organizado. A modernidade chegou à cidade de Santiago. Há prédios enormes e espelhados. Os engarrafamentos são atordoantes ao final do dia. As ruas ficam repletas de estudantes e pessoas de todas as idades que caminham em meio aos carros. Os ônibus longos passam liberando nuvens de um fumaça escura. O metrô possui inúmeras linhas segmentadas por cores e atravessa toda a cidade. Tive a oportunidade de ir a vários locais utilizando esse meio de transporte. Os chilenos são simpáticos e dão mostras de que trabalham bastante. Há uma quantidade grande de bancos espalhados pela capital. As construções públicas misturam a estética latino-americana ao rigor da modernidade de qualquer grande cidade do mundo. 

Certa vez, escutei o ex-jornalista da Rede Globo Alexandre Garcia incensar, com babosos elogios, a economia chilena e os avanços sociais do país (sic.). Já tive a oportunidade de conversar com algumas pessoas que defenderam o modelo do Chile para que fosse adotado pelo Brasil. O que paira no senso-comum é a noção de que o Chile é uma ilha, uma espécie de oásis  na desigual e caótica América Latina. O país estaria bem à frente dos outros países do continente. As pessoas por lá seriam mais felizes e haveria uma forte promoção de bem-estar no país que consolidou a racionalidade econômica de mercado em toda a sociedade. 

O atual governo brasileiro, do alto de sua inabilidade administrativa e de sua sanha privatista, possui um entusiasta do modelo chileno. O banqueiro especulador e, depois, ministro da fazenda Paulo Guedes, um dos "cérebros" pavimentadores da lógica econômica do bolsonarismo, foi um dos articuladores do modelo chileno. No final dos anos 70 e início dos anos 80, durante a Ditadura de Pinochet, Guedes e outros economistas neoliberais da chamada Escola de Chicago fizeram do país um laboratório para as investidas privatistas, que desarticularam toda a política social do estado chileno, entregando-a aos especuladores do mercado. Ou seja, o mesmo que o bolsonarismo pretende aplicar no Brasil, se não houver uma reação popular por parte dos trabalhadores. No entanto, acontece que a bomba social não estoura de imediato. Passam-se anos até que os dejetos dessa política deletéria sejam produzidos. 

O que acontece é que começaram a chegar notícias de insatisfações por parte dos chilenos. Desde sexta-feira passada, que o país enfrenta ondas pesadas de protestos. O país não é um oásis como se pensava; é um grande deserto para boa parte das pessoas. Não há a satisfação de uma social democracia no país, mas padrões neoliberais aplicados em todos os setores da vida. 50% da população vive com menos que um salário mínimo. Os serviços públicos são quase inexistentes.  As universidades são públicas, mas quem quiser frequentá-las, precisa pagar mensalidade. Ser público não significa ser gratuito, como acontece no Brasil. Não há um SUS como no Brasil, pois a saúde também é paga. O fato de ser paga não garante que é de qualidade como, infelizmente, reza o senso comum no Brasil. Os planos de saúde são caríssimos no país. Ficar doente ou precisar de uma intervenção mais cara, significa ficar por muito tempo endividado. Há como que uma proibição de se ficar doente. Os direitos trabalhistas foram "destruídos". Não existe uma proteção aos trabalhadores. 

Os patrões se veem cada vez mais empoderados, porquanto a legislação não favorece a parte mais fraca da relação. Os sindicados são "inofensivos". A legislação permite a existência de milhares de sindicatos. Por exemplo, é possível que para uma categoria existam de 30 a 50 sindicatos. Os patrões negociam com aqueles que estejam rendidos aos interesses dos próprios patrões. Não há poder de barganha. As aposentadorias não fazem parte de um fundo público, como no Brasil que possui uma autarquia pública (INSS) para gerenciar essas aposentadorias e pensões. Na verdade, o que existe no Chile é uma entidade do mercado que gerencia os valores descontados dos trabalhadores e se utiliza disso para aplicar no mercado por meio de especulações. Geralmente, quem está a serviço da administração desses fundos, é donos das entidades do setor financeiro - bancos etc. Então o que se dá é que o dinheiro dos trabalhadores é utilizado pelo mercado para gerar mais dinheiro para o rentismo. Quando se aposentam, os trabalhadores se veem numa condição de penúria. O número de suicídios entre os idosos é recorde na América Latina. 

Pintado esse quadro, é possível intuir o porquê dos manifestos existentes no Chile. O que acontece é que isso próprio de experiências neoliberais, que ao invés de produzir bem-estar e riqueza social para o povo, produz riquezas para um grupo de apaniguados gananciosos; que aplicam receitas empobrecedoras e geradoras de miséria para boa parte de uma sociedade. A lógica do capital sob o signo do neoliberalismo é produzir ganhos incalculáveis para uma porcentagem pequena do setor financeiro. O neoliberalismo produz a depauperação do trabalhador, deixando-o desprotegido e, se possível, na informalidade. Sua especialidade é a ampliação das desigualdades sociais e, com isso, os conflitos tornam-se inevitáveis. É como vemos no Chile, no Equador e, logo mais, no Brasil. 

Alguns dados fora tirados daqui

terça-feira, agosto 13, 2019

40 anos

"Parece que foi ontem; parece que chovia". 

Acordar com quarenta anos e ter uma leve sensação de que nada mudou. Os dias com a sua poeira macia de acontecimentos, continuam a trazer a rotina. Olho-me no espelho e noto uma escrita vívida, às vezes, torta em cada extensão do pergaminho da minha face.  As coisas parecem estar todas conservadas em seus lugares. Nada é novo - apesar da aparente feição de novidade. 

Há quarenta anos, conta a minha mãe e a história, que eu nasci. Aportei no mundo. Nasci em um casebre. Uma joça feita de barro. Mal dimensionada. Improvisada como são as coisas feitas pela escassez e pela necessidade. Não havia enxovais. Minha mãe era uma jovem de 19 anos. Inexperiente. Humilde. Amedrontada pela novidade que a colocava numa posição vulnerável. Havia falta de empatia por parte de alguns familiares. Incompreensão. Fui agasalhado nas modestas fronhas de que dispunha. Nasci às 11h15min. de uma quinta-feira.

Quarenta anos se passaram a passos largos. Caminho para adiante, mas, vez ou outra, volto o meu olhar para trás. Percebo paisagens variadas. Elas chegam como "flashes"; ou como a explosão leve de fogos de artifício numa noite escura. Vejo a silhueta de eventos. Alguns, consigo identificar. Pareço olhar pela janela, atento a uma liturgia solene e imprevisível. O que virá pela frente?

Cheguei a um ponto delicado, repleto de significados. O tempo corre.  Tento segurá-lo. Ele está sempre um passo à minha frente. Resigno-me. Aprendo que o tempo esculpe o próximo minuto em silêncio; sem alardes; sem tagarelice. Quando dou por mim, a vida está pronta para atestar a sua obra. Aceitamos a marcha incontinenti das horas. Já não há tempo para perder tempo. Os próximo lances devem ser estudados. Quarenta anos se passaram tão rapidamente que parece que não deu tempo de trocar de roupa. 

Ainda tenho coisas para realizar. Como dizia Raul Seixas: "Eu que não me sento, no meu apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar". Na corda tênue de cada manhã, equilibro-me para não cair. Dou gargalhadas dos meus desatinos. Impaciento-me com a ignorância alheia. Às vezes, sou sério. Há certas variações que são inevitáveis. Acontecem como leis capitais. Mas esta é a minha maneira de ser. 

sexta-feira, julho 26, 2019

Um lista com os filmes que me marcaram

Já havia pensado em algumas ocasiões sobre a possibilidade de construir uma lista com filmes que são essenciais para mim. Classifico esta lista como aquela que se fixou em minha existência. Misturou-se com aquilo que eu sou. O cinema é, como diria Orson Welles, "um fluxo contínuo de sonhos". É um faz de conta que nos arrebata. 

Desde 2012, que sigo o portal Melhores Filmes (MF). Acredito que seja a página que melhor organiza a categoria cinema. Outros sites como, por exemplo, o Adoro Cinema são insuportáveis. A lista que eles construíram (MF) com os melhores filmes de todos os tempos é, simplesmente, imbatível. Analisando as várias listas que os membros do site fizeram - há aquelas que são boas e, outras, deixa para lá! - resolvi fazer uma também. Elegi 30 filmes que são fundamentais para mim. Importa ressaltar que toda lista possui uma estrutura de referências com muitas idiossincrasias. Portanto, prescinde dizer que é algo eminentemente pessoal. Alguns desses filmes podem aparecer em ordem, outros, nem tanto. Segue a lista

1° - O sétimo selo - Ingmar Bergman (1957);
2° - Solaris - Andrei Tarkovsky (1972);
3° - Os imperdoáveis - Clint Eastwood (1992);
4° - Sociedade dos poetas mortos - Peter Weir (19890;
5° - Doze homens e uma sentença - Sidney Lumet (1957);
6° - 2001 - uma odisseia no espaço - Stanley Kubrick (1968);
7° - Festim Diabólico - Alfred Hitchcock (1948);
8° - Ladrões de Bicicleta - Vittorio de Sica (1948);
9° - A vida de Brian - Terry Jones (1979);
10° - Um sonho de liberdade - Frank Darabont (1994);
11° - Dogville - Lars von Trier (2003);
12° - Stalker - Andrei Tarkovsky (1979);
13° - A festa de Babette - Gabriel Axel (1987);
14° - A grande beleza (2013);
15° - Balzac e a costureirinha chinesa - Dai Sijie (2002);
16° - Marty - Delbert Mann (1955);
17° - Tempo de Violência - Quentin Tarentino (1994);
18° - O caminho para casa - Zhang Yimou (1999);
19° - O mágico de Oz - Victor Fleming (1939);
20° - Quo Vadis - Mervyn Leroy (1951);
21° - Andrei Rublev - Andrei Tarkovsky (1966);
22° - O pianista - Roman Polanski (2002);
23° - Noivo Neurótico, Noiva Nervosa - Woody Allen (1977);
24° - O poderoso chefão - Francis Ford Coppola (1972);
25° - As bruxas de Salem - Nicholas Hytner (1996);
26° - Gênio Indomável - Gus van Sant (1997);
27° - 8 e meio - Federico Fellini (1963);
28° - Barry Lyndon - Stanley Kubrick (1975);
29° - Ensaio de Orquestra - Federico Fellini (1978);
30° - Tempos Modernos - Charles Chaplin (1936);

Importa dizer que a lista está em construção. 




domingo, junho 23, 2019

Reflexões esparsas sobre a leitura de "Deus - uma história humana", de Reza Aslan II

Fiquei quase dois meses lendo o livro "Deus - uma história humana", de Reza Aslan. A demora se deu (1) pelo fato de que li nas brechas de tempo que encontrei em meus dias povoados por muito trabalho; (2) pelo fato de que o livro de Aslan é de uma densidade estonteante. Bebi cada frase como um naufrago que bebe água doce pela primeira vez. Posso afirmar que é um dos livros mais importantes sobre a ideia de deus que já li. À medida que realizava a leitura, fiz alguns comentários sobre as partes que mais me chamaram a atenção, utilizando também algumas compreensões que já possuía sobre o tema. Abaixo, a segunda reflexão. 

A teoria da mente é uma importante ferramenta para explicar a origem da religião. "Minha percepção dos estados internos de outros seres humanos baseia-se no meu próprio estado interno". É o eu-consciente que consegue diferenciar o eu do tu. Esse fenômeno se dá com relação às coisas inanimadas e animadas. Qualquer coisa que medianamente possua qualquer relação com os meus atributos, receberá da minha parte uma afirmação: "Esse ser se parece comigo!" 

Para os primeiros humanos da nossa espécie, quando os recursos eram necessariamente conquistados por meio de estratégias que deveriam resultar em boas caças, havia uma maior suscetibilidade para impressões extraordinárias. Por exemplo, caso um indivíduo, no momento da caça, encontrasse esculpido em uma árvore um rosto, uma feição minimamente parecida com o ser humano, aquilo poderia deflagrar uma relação de admiração. E, caso fosse bem sucedido na caça, é possível que começasse a levar oferendas para aquele suposto ente. As religiões, no geral, são fenômenos neurológicos. São o resultado da nossa capacidade de moldar os nossos desejos e transferi-los a um ser que se parece comigo, todavia, com poderes absolutos, soberanos. No fundo, a religião é um fenômeno em que o ser humano projeta num ser onipotente aquilo que não encontra em si.

As religiões, assim, tornam-se hegemônicas a partir do momento que são adotadas por um número extraordinário de pessoas, ela se torna inquestionável e, portanto, criará uma percepção totalizante. É, por isso, que há tantas pessoas que acreditam no cristianismo, no islamismo, no judaísmo, no hinduísmo etc.

A teoria da mente explica, por exemplo, certas falas: "Deus falou comigo".  A religião lida com fatos que subvertem a ordem lógica do universo. O milagre é uma categoria que não encontra plausibilidade em um universo regido por leis lógicas. Por exemplo, um objeto nunca vai cair para cima. A percepção é sempre individual. Por que deus falaria com uns em detrimento dos outros? Aquilo que adoramos é o que nos controla. Todas as forças, a consciência psíquica, a organização do mundo e as ações mais triviais passam a ter uma relação com o extraordinário. Entenda-se "extraordinário" como uma linguagem capaz de ressignificar o eu em relação àquilo que existe fora do sujeito. Não se escuta deus. Escuta-se o desejo, que é força, energia canalizada da emoção, da confiança, da certeza inquebratável. No mundo do religioso, a emoção precisa se transformar em racionalidade. 

(Continua...)