sexta-feira, janeiro 11, 2019

Algumas considerações sobre “Lolita”, de Vladimir Nabokov


"Pois não há bem-aventurança na terra que se compare a acariciar uma ninfeta". 
Humbert Humbert

Lolita, de Vladimir Nabokov, não é uma obra literária comum. Certamente, tal definição não clarifica as ressonâncias da obra. O livro é controverso, de narrativa com passagens nauseantes. Por outro lado, o narrador possui uma erudição envolvente. Ele deseja nos capturar pela elegância, pelas blandícias de uma linguagem encharcada de poesia. 


                O livro Lolita, escrito em 1955, é um evento na vida de Nabokov. O escritor russo, radicado nos EUA, escreveu o livro em inglês. Sua família havia fugido da revolução bolchevique, com a qual destoava. Nabokov não encontrou uma editora que publicasse sua controversa produção literária. Seria literatura ou pornografia?

                Por fim, uma editora francesa acostumada a publicar livros pornográficos, topou o empreendimento. Ou seja, Lolita surgiu para os leitores como uma obra com caráter pornográfico. Certamente, se esse era o objetivo, os leitores ficaram decepcionados. As referências à obscenidade, ao libidinoso, estão encobertos por uma camada grossa de tinta poética. Sabe-se que o narrador faz menção ao que estamos pensando, mas há um caráter implícito potencializado pela imaginação de quem ler. 

                Com o tempo, descobriram-se as qualidades da obra. Havia ali virtudes de uma obra universal. A literatura é literatura é capaz de produzir efeitos únicos. Ela fornece, por meio de verossimilhanças e inverossimilhanças, uma visão mais nítida dos fenômenos que constituem a vida humana. O que a ciência não é capaz de dizer por possuir limitações, a literatura não encontra limites; grita alto a plenos pulmões. 

                A pedofilia é um tema tabu na sociedade moderna. Segundo a Organização Mundial de Saúde, a pedofilia é uma doença; um transtorno psicológico. O pedófilo, por tanto, é aquele sujeito que possui atração sexual por crianças e adolescentes pré-púberes. Não existe o tipo penal “pedofilia”. Não há uma lei específica que aborde o tema. Ninguém pode ser punido por ter uma doença. Todavia, quando o pedófilo materializa a sua patologia, configura-se a tipicidade penal. Nem todo pedófilo é, pois, um criminoso. É uma questão séria. Não há cura para a pedofilia. O tratamento é clínico. 
Vladimir Nabokov (1899-1977)

                O personagem do livro de Nabokov tem consciência desse fato. Ele premedita situações. É um estrategista minucioso de como deve proceder para ter a jovem que ele denomina Lolita. A única voz que escutamos em todo romance é a sua. Sabemos o quanto ele é habilidoso com as palavras. É um erudito; um catedrático, que explora com destreza a linguagem. O leitor é conduzido, impelido, como um animal indo ao matadouro, sem dá conta do fato. Por fim, torna-se simpático à sua lírica enfeitiçante. 

                Humbert Humbert é um tipo sarcástico, capaz de produzir um humor muito fino. Ao prestarmos atenção ao seu palavrório refinado, fica claro o gênio narrativo de Nabokov. Ele possui um controle absoluto da história. Coisa assim, eu somente havia encontrado em Machado de Assis. Aliás, há uma correlação de caráter entre Bentinho e Humbert Humbert. Bentinho é um ciumento, capaz de vislumbrar fantasias; um parcial sujeito que busca convencer o leitor da culpa de Capitu. Humbert Humbert também procura deixar evidente a sua obsessão, que chega às raias do desespero. Diferentemente de Bentinho, ele tem consciência de sua condição. Mas a pergunta que surge é: As coisas se fizeram como ele conta, de fato? Lolita – parece – deixa-se dominar pelo minotauro sedento e irracional que é Humbert Humbert. Não ouvimos a sua voz, senão pela voz do narrador. 

                É importante entender, longe de qualquer moralismo, que é uma obra extraordinária. Um dos grandes livros da história da literatura. Pela temática espinhenta, é comum formularmos uma imagem defeituosa de Humbert Humbert e, por tabela, do próprio autor da obra. Nabokov é um gênio. Estava inspiradíssimo a escrever o livro. Era um estudioso que escrevia textos difíceis, fazia traduções do russo, dava aulas em mais de um lugar. Ganhava a vida com isso. Lolita deu-lhe fortuna. Tornou-o conhecido. E alvo de indisposições. 

                Lolita é uma “crueldade literária”. É belo. O estilo é elegante, ensolarado. Sentimos o frescor da linguagem. A voz sedutora de H. H. A sua capacidade de inebriar o leitor é um caso incomum. Por outro lado, o narrador sabe da zona perigosa em que se encontra. Faz de tudo para criar sensibilizações naquele que ler, que atua como juiz para escrutinar a sua insaciável obsessão. 

1. O jornal espanhol El Pais, o ano passado, trouxe uma reportagem que fazia referência ao caso de Sally Horner, sequestrada e maltratada por um pedófilo e que teria inspirado Nabokov. 

2. Em 1962, Stanley Kubrick produziu o filme Lolita, com roteiro do próprio Nabokov.

domingo, janeiro 06, 2019

Os dez livros de que mais gostei em 2018

Decidi (de uma forma meio que ousada) tornar pública uma lista com as leituras mais significativas que realizei em 2018. Foi um ano em que gostaria de ter lido mais. Todavia, trabalhando mais de onze horas por dia, sem mencionar os deslocamentos de carro, que em alguns dias chegava à casa do cem quilômetros, li a metade daquilo que gostaria. Mesmo diante de cenário tão adverso, realizei leituras importantes. Abaixo surgem aquelas que foram responsáveis por um impacto ao meu modo de ser e estar no mundo. Cada leitura é responsável por nos arrancar do lugar-comum. Ajuda-nos a entender os fenômenos que nos cercam - sejam eles humanos, naturais ou sociais. Coloca-nos diante do pensamento complexo. Calibra o nosso olhar. Treina o nosso raciocínio a trabalhar de forma afiada. Alguns dos livros são releituras. É o caso, por exemplo, de São Bernardo e Banguê.  Para alguns desses livros, eu escrevi breves e inexpressivos comentários. Coloquei os links. Em alguns casos, ainda pretendo rabiscar alguns. É o caso do livro de Andreiev e do livro de Nabokov. Seguem os livros:


1. A guerra do fim do mundo, Mario Vargas-Llosa




















2. Enclausurado, Ian McEwan



















3. Banguê, José Lins do Rego




















4. A invenção do Nordeste, Durval Muniz de Albuquerque




















5. Lolita, Vladimir Nabokov


















6. São Bernardo, Graciliano Ramos








































8. O ódio como política, Esther Solano




















9. Os sete enforcados, Leonid Andreiev




















10. O dono do morro - um homem e batalha pelo Rio, Misha Glenny




















quinta-feira, janeiro 03, 2019

O homem medíocre

Trecho do artigo escrito por Eliane Brum para o El Pais:

(...)

"Os direitos de gênero, classe e raça estão conectados. O reconhecimento destes direitos e a ampliação do acesso dos negros a espaços até então reservados aos brancos teve grande impacto no resultado eleitoral e também no antipetismo. O ódio dos bolsonaristas se expressa não na ação, mas na reação: a de quem se defende do que acredita ser um ataque. Também por isso sentem ser legítimo lançar as piores e mais violentas palavras contra o outro. Acreditavam – e ainda acreditam – estar apenas se defendendo, o que na sua visão de mundo justificaria qualquer violência. Também por isso o outro é inimigo – e não opositor.

Mas qual é o ataque que acreditam estar sofrendo? A suspensão de privilégios que consideravam direitos, acirrada pelo desamparo que uma crise econômica e a ameaça de desemprego provocam. Era gente – principalmente homens, heterossexuais e brancos – que nos últimos anos via o chão desaparecer debaixo dos seus pés. Excluídos das elites intelectuais, pressionados a ser “politicamente corretos” porque outros saberiam mais do que eles, ridicularizados na sua macheza fora de época, assombrados por mulheres até mesmo dentro de casa, reagem. Como se sentem fracos, reagem com força desproporcional.

Esses brasileiros não querem um homem melhor do que eles na presidência. O que querem é um homem igual a eles no governo. Numa época em que até as metáforas se literalizaram, Bolsonaro lhes devolve – literalmente – aquilo que sentem que lhes foi tirado. Ao assumir o poder, Bolsonaro mostra que a ordem do mundo volta ao “normal”. Com Bolsonaro, eles voltam também ao Governo de suas próprias vidas, sem serem questionados nem precisarem ser questionados sobre temas tão espinhosos como, por exemplo, a sexualidade e seu lugar na família e na sociedade.

São principalmente homens, mas também são mulheres que sentem que a opressão é um preço baixo a pagar para voltar a um território que, mesmo asfixiante, é conhecido e supostamente mais seguro num mundo movediço. São brasileiros que pertencem a diferentes religiões, mas a votação mais expressiva recebida por Bolsonaro foi entre os evangélicos. As igrejas evangélicas neopentecostais têm multiplicado o número de fiéis e aumentado sua representação no Congresso nos últimos anos, encarnando uma das mais importantes mudanças culturais – e políticas – do Brasil.

Como disse Bolsonaro em seu discurso às massas, logo após ser ungido com a faixa presidencial: “Não podemos deixar que ideologias nefastas venham a dividir os brasileiros. Ideologias que destroem nossos valores e tradições, destroem nossas famílias, alicerce da nossa sociedade. Podemos, eu, você e as nossas famílias, todos juntos, reestabelecer padrões éticos e morais que transformarão nosso Brasil”.

omo se sentiam burros diante da intelectualidade acadêmica que sempre lhes torceu o nariz pontudo, os bolsonaristas adotaram seus próprios intelectuais. E também foram adotados por eles, como fez Olavo de Carvalho, que graças a isso se tornou um autor best-seller e passou a exercer seu autoproclamado “anarquismo” de forma bastante interessante.

Bolsonaro torna-se então aquele que “não tem medo de dizer o que pensa” ou “aquele que diz a verdade”. Bolsonaro se torna herói porque enfrenta o “politicamente correto” e liberta os sentimentos reprimidos de seus iguais. Eles, que começam a se sentir uns merdas diante de mulheres cada vez mais assertivas e de negros que não aceitam mais um lugar subalterno podem então voltar a mentir sobre privilégios serem direitos – e afirmar que esta é “a verdade”. Bolsonaro prega “transformação”, mas só se elegeu porque sua proposta de “mudança” trabalha com a ilusão do retorno. Essa “nova direita” compreende muito bem os anseios de uma parcela dos homens desesperados desse tempo.

Na tentativa de volta ao passado que já não pode ser, mesmo com Bolsonaro no poder, os privilégios perdidos foram tachados de “ideologia”. Aqueles que ideologizam tudo, até mesmo a orientação sexual e a religião alheias, culpam a ideologia por tudo. Se não gostam dos fatos, como o aquecimento global, convertem-nos em “ideologia marxista”. Transformam “politicamente correto” num palavrão. Qualquer limite torna-se uma afronta à liberdade, em especial a liberdade de ser violento. Chamam todos aqueles que apontam a necessidade de limites de “comunistas” ou “esquerdistas”, como se ambas as palavras significassem uma espécie de pecado capital.

Como sentiam-se oprimidos por conceitos que não compreendiam, os bolsonaristas descobriram que poderiam dar às palavras o significado que lhes conviesse porque o grupo os respaldaria. E, graças às redes sociais, o grupo os respalda. O significado das palavras é dado pelo número de “curtir” nas redes sociais. Esvaziadas de conteúdo, história e consenso, esvaziadas até mesmo das contradições e das disputas, as palavras se tornaram gritos, força bruta.

É assim que um homem medíocre como Bolsonaro vira “mito”. Ameaçados de perder a diferença que lhes garante privilégios que já não podem ter, Bolsonaro e seus seguidores corrompem a realidade e afirmam sua mediocridade como valor. Macho. Branco. Sujeito Homem".

sexta-feira, dezembro 28, 2018

"Maria Bonita - sexo, violência e mulheres no cangaço", de Adriana Negreiros

Maria Gomes de Oliveira ou, simplesmente, Maria Bonita
Terminei a leitura de Maria Bonita - sexo, violência e mulheres no cangaço, de Adriana Negreiros. Desde o primeiro instante em que me deparei com o livro, surgiu a vontade de lê-lo. A capa, visualmente chamativa, é o primeiro detalhe que chama a atenção. A Editora Objetiva caprichou no acabamento.  O visual remete à estética nordestina. 

Adriana Negreiros é jornalista. Já frequentou a redação dos principais jornais e revistas do país. É casada com o renomado historiador Lira Neto, que escreveu, entre outros, Padre Cícero e a badalada biografia de Vargas. Maria Bonita - sexo, violência e mulheres no cangaço é o seu livro de estreia. Seu texto é bastante atraente. Possui uma fluência agradável, talvez aprendida no jornalismo. Para escrever Maria Bonita, Adriana precisou viajar pelo sertão nordestino, principalmente, pelo interior de Sergipe, Bahia, Alagoas, Ceará e Pernambuco, espaços geográficos por onde Lampião, Maria Bonita e os seus cabras realizaram suas estratégicas andanças. Ouviu depoimentos. Conversou com estudiosos regionais que se debruçam para estudar o cangaço, principalmente, o casal mais famosos da história do movimento - Lampião e Maria Bonita.

A proposta do livro é apresentar a figura icônica de Maria Gomes de Oliveira, mais conhecida por Maria Bonita. Na verdade, como é explicado pela autora, o nome Maria Bonita só passou a vigorar após a sua morte. Em vida, Maria foi conhecida como Maria de Déa. Déa era a sua mãe. Embora traga Maria Bonita no título, a obra põe em evidência aspectos do cangaço, alguns já conhecidos. O nome Maria bonita é nome de grife, de restaurantes, de ruas etc. Nem sempre foi assim.

Em um momento da história em que as mulheres eram obrigadas a suportarem a violência e os caprichos do seus companheiros, Maria Gomes deixou o seu marido, ainda bastante jovem, e foi se juntar com Virgulino, cognominado Lampião, que já gozava de certa fama no sertão. À época, isso gerou falatórios e especulações. Maria seria uma das mais de cinquenta mulheres que andariam com os cangaceiros pela agreste caatinga. Mesmo em um ambiente rústico, uma vida regrada e nua de confortos, Maria conseguiu estabelecer uma bela parceria com o famoso "capitão". Era imensamente vaidosa. Em fotografias de época, sempre se mostra com objetos vistosos e joias belas e caras para o momento e o local onde viveu.

Embora, o livro se proponha a falar de Maria Bonita, faz enormes incursões por outros temas. Apresenta outras personagens. Como era a vida humilde dos sertanejos. Há um destacado espaço para apontar como as mulheres eram tratadas. Algumas eram estupradas sumariamente. Tanto as mulheres mais velhas quanto as mais novas, dependendo da situação, passavam por violências sexuais extremas. Em um período em que as leis eram volúveis e profundamente difusas, a ética que imperava era o arbítrio da força. Desse modo, tanto as volantes, grupos oficiais formados por soldados e por aqueles que se alistavam voluntariamente para caçar os cangaceiros, quanto os grupos de cangaceiros, praticavam atrocidades contra as mulheres. 

Aqueles que fossem coiteiros, como eram denominados aqueles que escondiam ou ajudavam os cangaceiros, tinham uma frágil sorte. Se fossem descobertos pelas volantes, sofreriam as agruras da violência. Mas, se delatassem os cangaceiros, também seriam vitimados pelas atrocidades e inclemências dos cangaceiros. 

Adriana também busca mostrar o lado descontraído da vida dos cangaceiros: as danças que promoviam, a preparação dos alimentos do grupo, demonstrando assim um lado leve e humano do grupo de Lampião. 

Mas é o aspecto violência que fica em evidência. As mortes aconteciam com requintes de profunda impiedade. Cortar a cabeça era a mera consequência de outros fatos antes praticados. Cortes de orelhas, de línguas; castrações com facas; bailes nus, como eram chamadas as festas em que os cangaceiros obrigavam os participantes a se despirem e dançarem a noite toda. Um exemplo típico de violência aconteceu quando da morte de Maria Bonita. Segundo Adriana Negreiros, Maria ainda estava viva. Fazia pedidos aos soldados da volante. Fazia referências à filha que tinha para criar. Os soldados sem qualquer gesto de comiseração, deceparam-lhe a cabeça com um golpe de facão. O corpo ficou inerme, derreado para deleite dos urubus que visitariam mais tarde a Grota de Anjico, lugar onde os cangaceiros foram surpreendidos e mortos. Como se não bastasse tamanha truculência, enfiaram um pedaço de pau na vagina de Maria. 
Adriana Negreiros

Após a morte, as cabeças foram expostas na prefeitura de Piranhas, município de Alagoas. As cabeças tumefatas, com sorrisos sombrios e deformados, alimentaram a curiosidade de moradores e visitantes. Era uma exposição macabra, fruto do estado brasileiro. As cabeças de Lampião e Maria foram enviadas para Salvador a fim de serem estudadas no Instituto Nina Rodrigues, o famoso estudioso dos caracteres raciais e físicos como determinantes do comportamento criminoso. A suposta área do conhecimento praticado no Instituto era chamada de frenologia, que buscava o caráter e as funções intelectuais humanas, baseando-se na conformação do crânio. 

A obra é imensamente agradável. Não traz informações novas. O cangaço tem sido estudado por vários historiadores. Todavia, o livro de Adriana possui uma perspectiva nova, que é colocar em evidência a situação da mulher em um movimento dominado pelo patriarcado. Uma das boas leituras do ano!

Um trecho do livro pode ser encontrado aqui

quarta-feira, dezembro 19, 2018

Algumas anotações sobre "Usina", de José Lins do Rego

Usina foi o quinto livro escrito por José Lins do Rego. Anterior a este, o escritor paraibano escrevera - Menino de Engenho, Doidinho, Bangue e o Moleque Ricardo. Após a escrita dos cinco livros, uma espécie de "pentateuco do autor", José Lins os denominou de "ciclo da cana de açúcar". Há nesses livros fortes elementos memorialísticos, assinalações do que é a prosa do grande escritor. Os cinco livros possuem características próprias, mas podem ser sistematizados.

Os três primeiros possuem um eixo comum, ou seja, procuram contar a história de Carlos de Melo: (1) sua chegada ao Engenho Santa Rosa; a descoberta do mundo imenso que constituía a propriedade; o desabrochar da infância em um espaço edênico; o desabrochar precoce da sexualidade; o banho no rio Paraíba. Tudo ali transparece de forma nostálgica. As memórias são edulcoradas por um lamento implícito da felicidade que se perdeu. (2) a ida para o orfanato em Itabaiana; as dificuldades advindas da vida coletiva; a austeridade do professor. Em Doidinho, escutamos ecos de O Ateneu, de Raul Pompeia. (3) Nota-se um Carlos de Melo adulto e inábil para a administração do Engenho Santa Rosa. Sua falta de tino para conduzir a propriedade, faz com que o patrimônio seja quase solapado. 

No quarto volume - "O moleque Ricardo" - nota-se a saída do mundo agrário para a atmosfera suburbana. Há um forte engajamento por parte de José Lins. O moleque Ricardo possui um aspecto panfletário importante, pois a denúncia social se situa nas condições do operariado em Recife. Nesta cidade, assiste-se à luta cotidiana de homens e mulheres comuns pela sobrevivência. As condições adversas. A moradia ultrajante. O emprego escasso. A problematização a respeito da criminalidade. A força opressora do Estado, que consolida a sua existência para proteger a propriedade dos meios de produção dos ricos. Ricardo é exilado para Fernando de Noronha, simplesmente, por ter participado de uma manifestação. 

Em Usina, encontra-se uma conjuntura diferente. O livro é dividido em duas partes: (1) A primeira parte coloca no plano central a história de Ricardo em Fernando de Noronha. Na ilha, percebe-se a sua saudade de casa. O envolvimento homoafetivo. A solidão em um mundo assolado por fortes ventos e pela lembrança. (2) Na segunda parte (e mais extensa), o narrador onisciente foca a atenção sobre a Usina Bom Jesus, que um dia fora o Engenho Santa Rosa. Ricardo volta para os seus. Emprega-se em uma venda esconde-se atrás de um balcão, até ser assassinado. Ele retira-se da narrativa como coadjuvante. 

Na segunda parte, o Dr. Juca, filho de José Paulino, tio de Carlos de Melo, é quem toma a dianteira. Nota-se, a partir de três personagens, pelos menos três elementos definidores das mudanças econômicas e sociais que se dão com a derrocada dos banguês, o surgimento das usinas e a falência das oligarquias do açúcar.

(1) Dr. Juca - como afirmado, Juca é filho de José Paulino. Por meio de uma associação com os parentes, tornou-se chefe do clã e condutor dos negócios da Bom Jesus. Os familiares confiam a ele a presidência da Usina. Os negócios galopam em atmosfera de lucros e otimismo. Há comentários elogiosos às suas habilidades administrativas.  Juca não mede os gastos. Financia a vida das amantes. É um dissipador nos bordéis famosos e requintados do Recife. Em uma época em que os automóveis eram um luxo, o impulsivo usineiro compra um carro por uma soma vultosa. A saca de açúcar é vendido por 60 contos, uma preço que gera uma confiança exagerada nos empreendimentos futuros. Juca decide modernizar a usina. Entra em associação com os "americanos". Busca um financiamento que, somente poderia ser realizado, caso houvesse garantias exatas. Os parentes devem colocar suas propriedades no investimento. Uma vez que a Bom Jesus não corresponda, as propriedades seriam confiscadas. Juca é a imprevidência. Não atua por cálculos exatos, medidos. Para existir em um meio competitivo é necessário atentar para os movimentos da história e realizar planejamentos corretos, acertados.

(2) Dr. Luís - é o dono da São Félix. Ele é o antípoda do Dr. Juca. Luís é a frugalidade. É a prudência. O passo medido. O cálculo. É a intuição que sabe o momento certo de agir. Sua usina é grande. É um leão à espreita da presa. A Bom Jesus não conseguiu resistir diante dos seus assédios. Luís é um homem de família. Não é um dissipador. Os seus filhos brincam à sombra das árvores. Sua esposa está ao seu lado. Luís representa a virtude do capital. É um sujeito de fé (constrói igrejas), mas sabe ser duro com o povo quando necessário. Luís não gasta tempo com elementos que não sejam propiciadores de vantagens. Ele fica à distância assistindo aos estertores da Bom Jesus. Contempla-lhe a agonia. A luta diária. A resistência mole, improfícua. Luís representa a face monopolista do capital. A morte dos engenhos e o surgimento das usinas, fez surgir uma lógica: os mais fortes devoram os mais fracos. A São Félix era o empreendimento cheio de energia e Dr. Luís era o seu timoneiro. A Bom Jesus não resistiu e sucumbiu.

(3) Dona Domdom - é a esposa de Juca. Domdom é altruísta, generosa. É abnegada. Sua preocupação é fazer o bem. Há virtudes imensas em seu coração. Ela está sempre disposta a ajudar aqueles que precisem de auxílio. Sua grande preocupação é o bem-estar das filhas. Ela representa o lado humano e social do mundo capitalista. Vem à sua memória em muitas passagens da obra, a vida humilde que tivera antes de morar em um palacete na capital paraibana, antes de experimentar os requintes de uma vida aristocrática propiciada pelos lucros da usina. É ela quem busca ajudar os moradores humildes da Bom Jesus. Fornece remédio. Intervém junto ao marido em favor das pessoas humildes. À medida que a ganância ganha proporções e o império da cana vai tomando todos os locais do antigo engenho, os moradores ficam sem ter onde plantar; sem ter as águas do rio para pescar.  Domdom observa esse fato com reprovação. 

Em Usina, Zé Lins monta um painel da derrocada de uma estrutura produtiva e as mudanças advindas dessa metamorfose. A estrutura semi-feudal mudou com a chegada das usinas. Juca, por exemplo, buscava substituir 30 funcionários por apenas um que apertasse um botão. Ou seja, há uma reflexão do escritor sobre a mecanização do campo. Os trabalhadores não qualificados, que outrora vendiam a sua força braçal de trabalho, passam a não ter mais ocupação. Com o fim da República Velha, e o esmagamento da economia agrária que havia no país, é necessário pensar em industrializar o país. Há um fluxo de trabalhadores emigrando do campo para a cidade. É o que se dá, por exemplo, com Ricardo. Sem morada, sem trabalho, sem perspectivas de melhores dias, levas de nordestinos saem do campo e buscam os centros urbanos.

Como já apontado em uma reflexão já feita aqui, o transbordamento do rio Paraíba, expulsando o senhor de engenho (Dr. Juca) e sua esposa (Dona Domdom), funciona como um mito de fundação ou de renascimento. É conhecida a história bíblica do dilúvio. Segundo a Bíblia, esse se deu para que "um momento novo" se fizesse sobre a terra. A maldade humana havia alcançado níveis alarmantes. O dilúvio era a possibilidade de renovação da terra com todos os seus animais. Os dilúvios funcionam como um rito de passagem. Em "O Guarani", José de Alencar também se utiliza desse artifício para demonstrar a fundação do Brasil. José Lins do Rego, pelo contrário, deseja mostrar como se dá a passagem para um novo tempo na vida dos engenhos. O espaço paradisíaco dos engenhos foi substituído pela dureza, pela insensibilidade da máquina. Toda a generosidade existente; o humanismo foi substituído pela inquebrantável ganância dos novos proprietários que mudaram o modelo de produção, de um incipiente agrarismo por meio dos banguês, para o produtivo movimento da mecanização por meio das usinas. O senhor de engenho era dono da propriedade e de tudo que nela havia. Com as usinas, instalou-se a indiferença, a frieza e "coisificação" do homem, da paisagem e da terra.


quinta-feira, dezembro 13, 2018

Canal Meteoro e o vídeo sobre o Olavo

Vídeo bastante esclarecedor sobre "as pirações" do Olavo. Melhor fala: 'Olavo é um monte de esterco, gravitado por moscas tontas que buscam se alimentar do chorume que sai da massa fecal'.


quinta-feira, dezembro 06, 2018

Olavo não tem razão...

Abaixo, link para um vídeo bastante esclarecedor do jornalista Breno Altman.

O objetivo do vídeo é formar um perfil crítico de Olavo Carvalho. O paulista Olavo de Carvalho, fartamente conhecido como ideólogo da direita brasileira, é um sujeito controverso. Com relação a isso é importante dizer que os pensamentos de um sujeito qualquer estão próximos daquilo que ele pratica. A práxis é uma extensão das ideias. Sendo assim, é preciso conhecer de onde surgiu essa caricata personagem das ideias brasileiras. 

É justamente pelo fato de o capitalismo passar por uma das suas costumeiras crises - não somente aqui, mas em outras regiões do mundo - que Olavo passou a ter visibilidade. A crise política é oriunda da crise do capital que, por sua vez, leva às demais crises. A crise política é uma crise para a adequação dos interesses do capital. A vitória de Bolsonaro significa dizer que uma perspectiva de sociedade ganhou.

Olavo sempre foi visto como uma figura bizarra pelos locais por onde passou. É um homem de fixidez, de obsessões, de exageros; de uma linguagem carregada, que busca diminuir o oponente, até que ele seja transformado em ridicularia. Procura aglutinar temas variados com teorias conspiracionistas, fundadas no autoritarismo, no conservadorismo estreito, com fortes doses de certo entendimento radical da moral judaico-cristã. Ou seja, diz-se cristão, mas não de um cristianismo iluminado, generoso, caridoso. Ele abraça uma concepção raivosa, inquisidora, radical sobre a vida e sobre os costumes. 

Sua fixação em "malhar" a esquerda, que para ele é o grande demônio do mundo, deve ser considerado. Em seus devaneios conspiracionistas, as instituições brasileiras - sejam públicas ou privadas - estão contaminadas pelo comunismo. E ele possui uma face perversa, invisível, silenciosa, que se infiltra na vida social, deturpando aquilo que foi herdado dos antigos - leia-se do conservadorismo ocidental, firmado nos ensinamentos morais da Igreja. Essa ameaça se chama marxismo cultural. Analisando o Youtube, observa-se a quantidade de páginas que buscam explicar essa suposta categoria criado por Olavo de Carvalho - e ridicularizada na Academia. As ciências sociais não reconhecem o marxismo cultural. Para ele, o marxismo cultural é uma estratégia idealizada por Gramsci e pelos teóricos de Frankfurt, que busca destruir os valores consolidados - a família, o namoro, a forma como as mulheres se vestem; os valores do cristianismo (entenda-se certo cristianismo); para pregar pedofilia; uma explosão da ideia de homossexualismo ou qualquer tema que envolva minorias e busquem relativizar aquilo que está consolidado - como os valores não mudassem de uma época para outra. Ou seja, como se percebe há uma fixação por temas morais. 

Essas ideias formam a coluna dorsal do bolsonarismo e que encontrou expressão em um movimento irracionalista. Olavo se tornou uma sumidade pelo fato de vivermos em um momento quer requer certa compreensão. Olavo de Carvalho jamais teria plateia em um país como a Inglaterra, como a Suécia ou Canadá, mas teve por aqui. Pelo fato de a classe média brasileira que possui mais dinheiro ser muito ignorante. Por possuir uma cultura humana geral bastante baixa; por não apreciar a arte em suas variadas manifestações. Por não ter adquirido uma admiração pela capacidade humana de criar coisas bonitas, que forte valor simbólico. É disso nisso que reside a grandeza das manifestações culturais. Fixamo-nos em temas banais. Não adquirimos a capacidade crítica para refutar teses absurdas; aquilo que possui comprovado valor científico, que é digno da exatificação da lógica e do bom senso.

Isso explica o sucesso de uma figura de Olavo de Carvalho. Qualquer sujeito com uma inteligência mediana, que consegue discernir ideias - por mais que não concorde com elas - é capaz de perceber a natureza deletéria das ideias de Olavo de Carvalho. Seus fãs, geralmente, tratam-no com máxima devoção, como se ele fosse uma deidade. Costumam proferir: "Olavo tinha razão!". Pois, "razão" é justamente o que o Olavo não tem. Ele tem "achismos"; teses criadas por métodos dialéticos maliciosos, com a finalidade de enxovalhar quem quer que seja, principalmente os "diabos" vermelhos da esquerda, que criaram uma organização infernal chamada Foro de São Paulo. Pode-se afirmar que ele se utiliza de estratégias sofistas para debater ideias; que cria as falácias do homem de palha para gerar confusão.

A erística utilizada por ele também cria entendimentos estranhos, pois possui pouca nobreza civilizatória. Enfim, entendo que Olavo de Carvalho é um "mal" que tem feito milhares de seres influenciáveis; que buscam que discursos maliciosos se encaixem em seus preconceitos e ódios velados, serem cooptados por suas ideias revanchistas, conspiratórias, de nefelibatas.

Vejamos o vídeo do Breno Altman:

AQUI

terça-feira, novembro 27, 2018

A razão anti-intelectual

"Os conservadores estão de fato promovendo a organização da ignorância como se fosse uma emancipação democrática. É preciso reconhecer com humildade que estamos sendo derrotados neste jogo e mudar de postura para escapar da armadilha anti-intelectualista do populismo.


Nós, os progressistas, cultivamos o gosto pela sofisticação política e estética e, a cada rodada de conversação com nossos pares, nos diferenciamos mais, ficando mais requintados e com um repertório mais amplo. A cada rodada, tornamo-nos também mais estranhos e mais apartados das pessoas comuns.


Esse afastamento, que se acelerou com a polarização, permitiu aos conservadores nos apresentar como uma elite malévola que quer inculcar nas pessoas comuns valores alienígenas de defesa da diversidade e dos direitos humanos.

Precisamos abandonar essa disposição de falar apenas com quem se parece conosco e nos engajar com as pessoas comuns. Conversar, não converter. O verdadeiro desafio não é educar, mas se deixar educar.

Isso, por si só, pode dar a medida das prioridades e da gradação de que tanto carecemos se queremos transformar a sociedade, num sentido político e não apenas nos tornar mais puros, num sentido moral".

É assim que o professor Pablo Ortellado termina o artigo que tem por título "A armadilha do anti-intelectualismo", publicado na Folha de São Paulo. Organizar a ignorância, a mística e a paranoia como movimentos democráticos, faz parte de uma campanha mundial. Aqui no Brasil ela se consolidou com a eleição de Jair  Bolsonaro. O presidente eleito por si só não possui qualquer relação com o conhecimento, com a razão ou com a estética. Seu esporte mesmo é a bravata. A linguagem saturada por clichês que fazem apologia da violência e da insensatez bem ao gosto do homem comum. Ele ver comunistas como o eu lírico da música do Tihuana ver gnomos.

E nesse sentido é importante apontar uma ojeriza à racionalidade ou a qualquer coisa que nos aponte isso. Para perceber como isso se espraia num horizonte sombrio é só atentar para a forma como alguns ministros que vão compor o novo governo (sic.) foram escolhidos. Segundo os principais jornais do país, dois deles foram indicados por Olavo de Carvalho, uma espécie de Rasputin tropical. Enquanto o Rasputin original fazia predições mediúnicas e arrebatadoras para a família Romanov, Olavo se transformou no guru da família Bolsonaro. Sua verbalização sempre aponta para conspirações e está encharcada de arroubos infundados.  O atual movimento de consolidação hegemônica da extrema-deireita revela um surto anti-liberal e anti-iluminista. Há um ódio explícito a tudo que se diga racional, que será logo apontado como marxista, como comunista ou como gayzista. 

Os valores herdados pelo iluminismo - os direitos humanos, respeito às individualidades e às diferenças, a democracia, a separação dos poderes do Estado - são tidos como ameaçadores, pois há uma exaltação ao obscurantismo, uma ideia fixa que nos lança no fosso do irracionalismo. 

Vejamos aonde isso vai nos levar. 

terça-feira, novembro 20, 2018

O moleque Ricardo de José Lins do Rego - algumas impressões

Li há alguns dias o quarto livro do Ciclo da cana de açúcar - O moleque Ricardo. Meu objetivo é fazer a releitura dos cinco livros. Iniciei esta semana Usina, o quinto e último da série - e o maior deles. O moleque Ricardo é uma espécie de digressão dentro do Ciclo. José Lins foca a sua lupa sobre a vida do "moleque da bagaceira", Ricardo. Nos três primeiros livros, Carlos de Melo é o centro da trama. Em Menino de Engenho, vislumbra-se a vida bucólica e repleta de descobertas do neto de José Paulino, o maioral do Engenho Santa Rosa. Em Doidinho, a experiência do engenho muda para a escola em Itabaiana. O engenho aparece como relâmpagos no espaço da memória do jovem Carlos. Em Bangüe, Carlos de Melo volta da Faculdade de Direito do Recife para tomar conta do Santa Rosa, após a morte do avô. Sua fraqueza e inabilidade, colocam-no em posição delicada na administração da propriedade rural. Se levarmos em conta somente os três primeiros livros, Bangüe é o retrato mais poderoso desenhado pela pena do escritor paraibano. 

Em O moleque Ricardo, a narrativa não tem mais curso na vida rural. Dos livros do ciclo é o que mais se engaja numa perspectiva política. A história acontece em Recife. Migra da Paraíba para Pernambuco. Talvez, as impressões tenham sido colhidas por José Lins no período em que estudou Direito na capital pernambucana. José Lins deixa entender que a história de O moleque Ricardo é anterior ao que se dá em Bangüe. Nos acontecimentos políticos que sacodem a narrativa, nota-se a presença de Carlos de Melo. Ricardo e Carlos de Melo se encontram. Miram-se e mantêm uma posição equidistante. Ricardo, o morador de subúrbio; e Carlos de Melo, o herdeiro do senhor de engenho, mas que se dispõe no envolvimento da luta política como um intelectual que tomava causa.

A vida de José Lins enquanto estudante de Direito foi marcada pela estroinice. Todavia, suas viagens pela cidade, fê-lo observar a vida marginal que se brutalizava e resistia às margens do rio Capibaribe; ou nos inúmeros mangues que existem na cidade. Ali a vida dos "homens caranguejos", como chamaria mais tarde Chico Sciense, desenvolver-se-ia com toda luta e resistência em meio à lama e o caos.

O livro é marcado por essas dores, por esses cheiros; pela desejo veemente de contornar a miséria. Ricardo passa a morar em um subúrbio. Trabalha na padaria de um português - Seu Alexandre. Alcança certa tranquilidade com o seu trabalho. Consegue fazer economias. Administrar com destreza o pouco que ganhava na padaria. Aos poucos ele começa a perceber um fluxo, um movimento de contestação. Ricardo saído do Engenho Santa Rosa à procura de melhores condições de vida, percebe que a cidade é o espaço da liberdade. Todavia, é uma liberdade repleta de limites. Na grande propriedade rural "tudo" é do senhor de engenho - animais, terras, homens, árvores etc. Na cidade, há a crença de que há uma liberdade, mas há uma asfixia social baseada no lucro e na propriedade privada dos meios de produção, que transforma tudo em mercadoria. Ricardo era o negro, filho de Mãe Avelina. Descendente de escravos, representa a segmentação da sociedade brasileira. 

O livro escrito em 1935, denunciava a formação social brasileira. Após da decadência da grande propriedade rural e do fim da escravidão, para onde fora o negro? Qual é o seu destino? O que se esperava dele? As palavras as palavras finais do livro denunciam justamente "a apartação social" vivida pelo negro numa sociedade de classes. Ricardo estava sendo levado com os seus companheiros para Fernando de Noronha. Havia participado de uma manifestação e o Estado usava da força para abafar qualquer insurgência social. “[...] Que fizeram eles? Ninguém sabe não! Mataram? Roubaram? Queriam de comer, queriam vestir, queriam viver. E as mulheres? E os meninos? Também chorariam de fome". 

É  o livro de maior ressonância social de José Lins do Rego. Atende bem ao momento histórico em que se vivia - efervescência no cangaço, consolidação de uma burguesia nacional; decadência do agrarismo, principalmente com o café na região Sudeste e a cana de açúcar na região Nordeste; o movimento integralista brasileiro; a tentativa frustrada de um levante comunista. O governo Vargas que recrudesceria em violência, levando ao golpe de estado em 1937. No meio desses eventos, está o negro e sua luta. 

É curioso notar que José Lins cria dois mundos: o mundo da cidade com sua latejante desigualdade e o mundo bom e idílico do engenho. O engenho, a vida rural, como uma espécie de Éden que se perdeu. Alinha-se com o pensamento daquele que foi o preceptor de José Lins do Rego, o pernambucano Gilberto Freyre, que voltara dos Estados Unidos na década anterior e apadrinhara o escritor paraibano. Freyre procurou formar uma sociologia brasileira. Revelar a identidade nacional. Todavia, ao fazer isso, entendeu que o presente deformara o passado. Há uma "saudade implícita" pelo sobrado da Casa Grande na literatura de José Lins do Rêgo, talvez uma aspecto colhido da obra de Freyre. Vale lembrar que Casa Grande & Senzala havia sido escrito em 1933. O moleque Ricardo é de 1935.

A escrita de José Lins do Rego continua, como nos livros anteriores, correndo fácil. Nesse sentido, é um escritor plácido e agradável como as águas do rio Paraíba, tão presente em O menino de engenho. Não há empolações. Rebuscamentos. Exageros. José Lins transmite suas impressões como se estivesse numa conversa com os amigos. Bebemos cada palavra. Sentimos o sabor da linguagem. Percebemos as nuances simples da fala das personagens. E seguimos, atentando para casa paisagem.

terça-feira, novembro 13, 2018

A Reforma, o evangelicalismo brasileiro e as eleições

Os protestantes constituem uma massa complexa. É um grande tecido com cores variadas. No dia 31 de outubro passado, os países com tradição protestante, comemoraram 501 anos da Reforma. O dia da Reforma é comemorado neste dia pelo fato de o monge agostiniano Martinho Lutero ter pregado as suas 95 teses na Catedral de Wintenberg, na Alemanha. Começava a partir dali um outro movimento dentro da cristandade.

A Reforma foi um movimento antagônico à Igreja Católica e Apostólica Romana. Durante mais de mil anos, a Igreja Católica exerceu a primazia sobre a cristandade europeia. Havia acontecido o Cisma do Oriente, em 1054. Naquele episódio a Igreja Católica passou pela sua primeira grande divisão, dando origem à Igreja Ortodoxa ou Igreja do Oriente. 

O fato ocorrido em 1517, seguia a tendência modernizadora que ocorria na Europa. Havia um questionamento ao poder quase que absoluto da Igreja Romana. A vida desregrada de suas principais figuras gerava críticas. O aspecto soberbo do clero. A grandiloquência da vida e os casos de corrupção geravam escândalos. O Protestantismo era manifestação religiosa certa para o espírito da época. Experimentavam-se os primeiros ventos de um novo modo de produção - o capitalismo. Havia uma nova razão científica, o racionalismo. Aos poucos, a estrutura pesada da Igreja Romana foi sendo vista como um entrave às mudanças. 

A fé Reformada se assentava em cinco pontos, conhecido também como os Cinco Solas - sola fide (somente a fé); sola scriptura (somente a escritura); solus Christus (somente Cristo); sola gratia (somente a graça); e soli Deo gloria (glória somente a Deus). Cada "sola" abrigava um ensinamento teológico profundo, que destoava dos ensinamentos do catolicismo. Por exemplo, no primeiro apresentado da lista ("sola fide"), trazia a doutrina da salvação pela fé, extraída de Romanos 1.17. Foi a leitura desse versículo, que deu a Lutero a certeza de que não era necessário nenhum sacrifício a mais para se alcançar a salvação. Ter fé na obra de Cristo era suficiente para ter uma vida cristã saudável. A justificação foi realizada, pois o amor de Deus e a obra (unicamente de Deus), por intermédio da morte de Cristo, é o suficiente para a vida plena. Não há necessidades de intercessão de santos, da obra espiritual da Igreja ou qualquer outro sacrifício. 

No "sola scriptura", havia uma importância profunda pelo fato de a Bíblia, no catolicismo, ser lida apenas pelos padres e pelas autoridades da Igreja. A partir da Reforma, os cristãos passaram a examinar as Escrituras (o Velho e o Novo Testamentos). Durante o período hegemônico do catolicismo, a Bíblia ficava escondida nos mosteiros. A interpretação era filtrada. A Reforma colocou a Bíblia nas mãos do povo. A invenção de Gutenberg também auxiliou esse fato, pois os livros passaram a ser produzidos em escala.  O primeiro livro por Gutenberg foi justamente as Escrituras. Para os protestantes, ela era a única palavra inspirada por Deus. Ela mesma era a sua intérprete. Ela dava testemunho de si, não havendo necessidade de entremeios. 

Para aqueles sujeitos que foram responsáveis pela Reforma, havia uma preocupação profunda com a defesa do Evangelho. Levava-se em conta aquela fala de Paulo: "Ai de mim se não pregar o Evangelho". (1 Co 9.16). 

Curiosamente, após quinhentos anos, as igrejas que surgiram da Reforma perderam a relevância. Na Europa, o protestantismo não passa pelos seus melhores dias. Nos países em desenvolvimento, entre eles o Brasil, a fé de origem protestante enfrenta um fenômeno complexo: 

(1) Possui quantidade, mas não possui a qualidade desejada pelos reformadores - os últimos censos realizados no Brasil, mostram claramente o crescimento vertiginoso do número dos ditos protestantes. Todavia, a fé protestante experimentada por aqui vive uma espécie de esquizofrenia.  O movimento protestante teve a sua origem na Europa. Foi para os Estados Unidos e acabou ganhando o mundo. Ou seja, a fé protestante vivida por aqui está numa terceira fase (sem mencionar a divisões já surgidas dentro do protestantismo brasileiro). Junto com o protestantismo estadunidense veio a teologia de mercado, também conhecida como teologia da prosperidade. A teologia da prosperidade é a racionalidade do neoliberalismo aplicada ao fenômeno religioso. Ou seja, a fé evangélica, conforme entendida pelos reformadores, pautada nos ensinamentos de Cristo, perdeu a centralidade. O que vale mesmo é a preocupação com aquilo que a fé pode proporcionar. A fé não possui qualquer relevância social. É muito conhecida história a seguinte história: certo dia, alguém que se convertera chegou para Lutero e perguntou:

- Lutero, eu era sapateiro antes de me converter. Agora que sou convertido, como eu devo viver?" O monge agostiniano respondeu:
- Vai para o trabalho e faz o melhor sapato que conseguir.

Esta história serve para ilustrar o quanto a teologia da prosperidade é esvaziada de relevância social transformadora. O centralismo do ganho sobrepõe-se sobre a práxis cristã ensinada por Cristo.

(2) Estrutura-se na conformação do dogma, e não na dinâmica viva dos ensinamentos de Cristo - há inúmeras passagens nos evangelhos em que notamos a dinâmica viva do ensinamento de Cristo e a conformação com o dogma, com a tradição que, com o tempo, transforma-se em um evento sagrado. Jesus em vários momentos chamou a atenção dos religiosos do seu tempo. Para ele, os religiosos haviam perdido a referência fundamental da fé, que é a vida humana. Um exemplo se deu quando Cristo falou para os fariseus "que o homem não foi feito por causa do sábado; mas, o sábado, sim, foi feito por causa do homem". As necessidades, as dores, os dilemas humanos estão acima do dogma. Os fariseus tinham o sábado como um dogma cujo mandamento não poderia ser violado. Caso, alguém caísse em um buraco em dia de sábado, deveria ficar lá até o outro dia para que o mandamento não fosse suplantado. Jesus inverte essa compreensão. A vida estava em primeiro lugar em relação ao mandamento. Nota-se a igreja protestante atuando bem próxima da compreensão dos fariseus. Para ela, o moralismo da interpretação do dogma está acima das necessidades de cada de ser humano.

(3)  Conforma-se em conservar estruturas, ao invés de desafiar aquilo que é velho - existe uma razão no evangelicalismo, que o impele a não desafiar as estruturas de injustiça do mundo. Há um conformismo com as estruturas de opressão. Do ponto de vista político, a fé protestante coloca-se do lado do opressor e não do oprimido. Fazer trabalho social para muitas igrejas é distribuir sopa em hospital ou debaixo da ponte. Essas são ações imediatas e necessárias. Todavia, não se questiona o que leva as pessoas a estarem debaixo da ponte ou morando em calçadas úmidas. A fé protestante furta-se da defesa dos direitos humanos. Para ela, como foi afirmado por alguém, o importante é defender "os humanos direitos". Ela acaba por escolher um lado. Cristo afirmou certa vez que não veio para os sãos, mas, sim, para aqueles estavam doentes. Sua mensagem era transgressora, pois relativizava o poder religioso estabelecido à época.

(4) O fundamentalismo impede que os evangélicos sejam relevantes para a sociedade - o fundamentalismo religioso dos protestantes impede qualquer possibilidade de relativização. Ela se veste de uma compreensão absoluta, inegociável, eterna, imutável para além da história. Nas temáticas mais variadas, o que importa é a compreensão dogmática sobre o assunto. O fundamentalismo trabalha com a ideia de culpa e medo. Não seguir os ditames impostos pela linguagem religiosa, faz com que o crente se enxergue como um ser digno de condenação. Trata-se de um mundo em que a linguagem exerce uma coerção psicológica para que tudo seja medido. Tudo aquilo que esteja fora do padrão cultural estabelecido como aceitável é um assunto tabu, proibido, tido como pecaminoso. De onde surgiram tais mandamentos? Como se estrutura, qual a origem dessa linguagem dogmática? Muitas das compreensões sobre os padrões morais - o papel da mulher, como deve ser a relação, o namoro; a figura da homoafetividade; o modelo ético - são extraídos da cultura judaica. Dogmatizam-se os preceitos culturais, dando-lhes feições divinas, absolutas. O fundamentalismo, desse modo, acaba por alimentar a intolerância, pois não consegue dialogar com quaisquer outras manifestações religiosas. Há uma exigência, uma luta pela consolidação hegemônica visão protestante. A linguagem fundamentalista é totalizadora, pois não permite relativizações. Ela, simplesmente, impõe sem que haja tempo para dúvidas.

Sobre este ponto, as eleições presidenciais deste ano provaram isso de forma inquestionável. A figura do candidato vencedor, Jair Bolsonaro, era controversa. Ele é o típico indivíduo fundamentalista. Sua intolerância ou brutalização em torno de certas temáticas, explicitavam o quanto ele não estava/está disposto ao diálogo. Sua defesa da violência contra aqueles tidos como vagabundos ou, simplesmente, direcionados às mulheres, deixava qualquer pessoa com um senso de justiça, completamente estarrecido. Pois, boa parte dos cristãos evangélicos, escolherem essa figura caricata e insensível. Em nome de quem ou do quê? Dos bons costumes, da família tradicional e de um ódio ao diferente.

quinta-feira, novembro 01, 2018

Um comentário...

Curiosamente, as reportagens que são feitas nunca colocam a fala de alguém que se opõe à suposta quebra da previdência. Observem. Só há falas afirmando que a previdência está em colapso. É como se o trabalhador fosse o responsável pelo rombo nas contas públicas. Não há a explicação, por exemplo, sobre onde está localizada e o que é a previdência e como ela é sustentada. A previdência é apenas umas das pernas da Seguridade Social, que compreende a assistência social, a saúde e a previdência social. Quando os constituintes de 88 criaram a Seguridade Social, pensaram sobre ela iria se manter. Então, entraram os seguintes personagens: o trabalhador contribui com parcela do salário (INSS); os empregadores pagam o CSLL (imposto sobre o lucro) e o imposto sobre a folha; e toda a sociedade com a COFINS (imposto embutido sobre tudo o que se adquire). Então o que acontece? O governo maquia as contas. Em primeiro, lugar há uma separação. 

A previdência é colocada de lado, transparecendo o seu peso para o equilíbrio das contas públicas. Por que eles não falam que as contas da saúde estão quebradas ou da assistência - pelo menos por enquanto? Pelo simples fato de que os valores da previdência não podem ser canalizados para outros setores. São gastos vinculados, condicionados. Eles não podem desviar para pagar, por exemplo, os juros da dívida pública. Paulo Guedes disse que o Brasil reconstrói uma Europa todos os anos com os juros da dívida. Ele é um grande hipócrita, pois, ele, como banqueiro, lucra justamente disso. Assim, o governo quando vai fazer a conta, utiliza apenas a arrecadação do INSS. Ou seja, o que é arrecadado da contribuição dos trabalhadores. Desse jeito, a conta não fecha mesmo. E outra, o governo adora fazer desonerações para as grandes empresas. Em grande sentido, atualmente, somente os trabalhadores mantêm a previdência. 

A desculpa para a reforma nos moldes que eles querem fazer é rasgar o preceito constitucional da solidariedade. Atualmente, ela é mantida a assim. Quem trabalha, paga para aqueles que já estão aposentados. Mas, chegará o dia em que nos aposentaremos e aí as gerações mais novas contribuirão para que as aposentadorias sejam mantidas. A Manu, o Bernardo, o Miguel serão os responsáveis pelas nossas aposentadorias, se tudo se mantiver como está. O que o novo governo que fazer é acabar com este princípio. Primeiro, quer tirar das empresas o imposto sobre a folha e desobrigá-las a qualquer tipo de contribuição. O governo vai chegar para cada um e falar: "Queridão, você quer se aposentar?. Então faz uma capitalização". O trabalhador vai retrucar: "Mas eu ganho pouco. Como eu vou pagar?" O governo vai responder: "Paga o que você pode". Ou seja, a capitalização vai ser injetada em um banco e o banco vai transformar em papel e aplicar no mercado financeiro para gerar lucro". No fundo, há uma grande mentira por parte do governo para tirar dos empresários qualquer compromisso e, dele mesmo, qualquer despesa com o trabalhador. O fundo público vai ser revertido para pagar os papéis dos juros da dívida.